Diferenças Básicas Entre o Arminianismo de Arminius e o Arminianismo Caricato

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O arminianismo nasceu intrincado em problemas de não aceitação dogmática. Em seu inicio, ocasionado pelo preconceito do dogma reinante, teve grandes problemas com a não aceitação, continuando envolto neles até os dias atuais. O preconceito advém da falta de uma análise sincera por parte de defensores de outra confissão, gerando uma deturpação na idéias do arminianismo. As idéias que são colocadas como fundamentais ou correlacionadas com seu ideário, em muitos casos não são correspondentes com sua fundamentação teológica, são produtos de inapropriadas associações de idéias.
Idéias como: “Deus não conhece o futuro – por que o livre arbítrio impossibilita um conhecimento prévio”, ou, “o homem para ser salvo independe da graça de Deus”, ou que “o homem no arminianismo, tem méritos diante de Deus”, são idéias tidas como arminianas, mas, realmente, não tem relação com o ideário arminiano.
Refutando qualquer possibilidade de crédito a uma provável ação moralmente positiva por parte do homem independente da graça de Deus, Jacobus Arminius asseverou:

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“Na sua primitiva condição como ele saiu das mãos de seu criador, o homem era dotado de tal parcela de conhecimento, santidade e poder, permitindo-lhe a entender, estimar, considerar, e ter força para realizar o verdadeiro bem, de acordo com o mandamento entregue a ele. No entanto, nenhum destes atos poderia ele fazer, exceto com a assistência da Divina Graça. Mas no seu estado depravado e pecador, o homem não é capaz, e de por si próprio, nem pensar, ter vontade, ou a fazer o que é realmente bom, mas é necessário que ele seja regenerado e renovado no seu intelecto, afecções, ou seja, em todos os seus domínios, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que ele possa ser qualificado justamente para compreender, estimar, considerar, escolher, e fazer tudo o que é verdadeiramente bom. Quando ele é feito um participante desta regeneração ou renovação, considero que, uma vez que ele é livre do pecado, ele é capaz de pensar, e desejar fazer o que é bom, mas ainda não sem o auxílio da Divina Graça.”(1)

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Defendendo a consonância do livre arbítrio do homem, da graça e do conhecimento prévio de Deus, James Arminius afirma:

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“(…) Este decreto tem a sua base no conhecimento de Deus, pela qual ele eternamente conhecia aqueles indivíduos que iriam através da sua graça preventiva crer, e que, através da sua graça, subseqüentemente iriam perseverar, de acordo com a anteriormente descrita administração desses meios, que são adequados e apropriados para a conversão e a fé; e, através deste conhecimento, ele também sabia os que não iriam acreditar e perseverar.”(2)
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Quanto ao mérito do homem que escolhe, Arminius, em uma carta endereçada a Gellius SNECANUS, por ocasião de sua análise ao capítulo nove da epístola aos Romanos, sintetizando o conteúdo da epistola, escreveu:

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“Que o Evangelho, e não a lei é o poder de Deus para salvação, e não para aquele que trabalha, mas, para aquele que crê, uma vez que, no Evangelho a justiça de Deus se manifesta na obtenção de salvação pela fé em Cristo.”(3)

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Mais uma vez, na carta endereçada a SNECANUS, Arminius reforça a crença na soberania de Deus sobre a sua eleição. Admitindo a eleição independente de obras, o teólogo holandês desfaz a idéia do mérito do homem como principio fundamental de sua salvação.
Vejamos sua asserção:

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“Mas o efeito, de acordo com a eleição se mantém, e não por obras, mas por Deus que chama. – Por isso, nesse propósito, aqueles que são da lei não são abrangidos, mas apenas os que são da fé em Jesus Cristo. O principal é, por si só, elucidativo da sua fraseologia, se bem compreendida, o que significa que a firmeza do propósito, que está de acordo com a eleição, depende, não das obras, mas dEle que chama. Por isso, para eles que são das obras da lei, este efeito não pode ser firme e certo, mas somente para aqueles que são da fé.” (4)

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Tentamos explicitar os contrates ideológicos entre o arminianismo de Armínio e o arminianismo caricato, exposto pelos dogmáticos presos principalmente a pressupostos calvinistas, usando os argumentos do próprio idealizador da teologia arminiana, aquele que por tal feito empresta o seu nome a esse sistema teológico. Cabe agora ao leitor crítico, explorar um pouco mais suas proposições para julgar com mais propriedade o conteúdo deste sistema teológico tão criticado, mas, tão pouco conhecido.

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Lailson Castanha
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(1) ARMINIUS, Jacobus. The Works of James Arminius Vl.1
(2) Ibdem
(3) ARMINIUS, Jacobus. The Works Of James Arminius Vl. 3
(4)Ibdem.

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Fonte: Ideário Arminiano

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Como Evitar Desequilíbrios Religiosos

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A. W. Tozer


 

“E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro,” 1Jo 3.3

Os nossos esforços para sermos corretos nos podem conduzir ao erro.

A operação do Espírito, no coração humano, não é inconsciente nem automática. A vontade e a inteligência humana devem ceder e cooperar com as benignas intenções de Deus. Penso que é neste ponto que muitos de nós se perdem. Ou tentamos nos tornar santos, e, então, falhamos miseravelmente; ou, então, procuramos atingir um estado de passividade espiritual, esperando que Deus aperfeiçoe nossa natureza, em santidade, como alguém que se assentasse esperando que um ovo de pintarroxo chocasse sozinho. Trabalhamos febrilmente, para conseguir o impossível, ou não trabalhamos de forma alguma. O Novo Testamento nada conhece da operação do Espírito em nós, à parte de nossa própria resposta moral favorável. Vigilância, oração, autodisciplina e aquiescência inteligente aos propósitos de Deus são indispensáveis para qualquer progresso real na santidade. Existem certas áreas de nossas vidas em que os nossos esforços para sermos corretos nos podem conduzir ao erro, a um erro tão grande que leva à própria deformação espiritual. Por exemplo:

1. QUANDO, EM NOSSA DETERMINAÇÃO DE NOS TORNARMOS OUSADOS, NOS TORNAMOS ATREVIDOS. Coragem e mansidão são qualidades compatíveis; ambas eram encontradas em perfeitas proporções em Cristo, e ambas brilharam esplendidamente na confrontação com os seus adversários. Pedro, diante do sinédrio, e Paulo, diante do rei Ágripa, demonstraram ambas essas qualidades, ainda que noutra ocasião, quando a ousadia de Paulo temporariamente perdeu o seu amor e se tornou carnal, ele houvesse dito ao sumo sarcedote: “Deus há de ferir-te, parede branqueada.” No entanto, deve-se dar um crédito ao apóstolo, quando, ao perceber o que havia feito, desculpou-se imediatamente (At 23.1-5).

2) QUANDO, EM NOSSO DESEJO DE SERMOS FRANCOS, TORNAMO-NOS RUDES. Candura sem aspereza sempre se encontrou no homem Cristo Jesus. O crente que se vangloria de sempre chamar de ferro o que é de ferro, acabará chamando tudo pelo nome de ferro. Até o fogoso Pedro aprendeu que o amor não deixa escapar da boca tudo quanto sabe (1 Pe 4.8).

3) QUANDO, EM NOSSOS ESFORÇOS PARA SERMOS VIGILANTES, FICAMOS A SUSPEITAR DE TODOS. Posto que haja muitos adversários, somos tentados a ver inimigos onde nenhum deles existe. Por causa do conflito com o erro, tendemos a desenvolver um espírito de hostilidade para com todos quantos discordam de nós em qualquer coisa. Satanás pouco se importa se seguimos uma doutrina falsa ou se meramente nos tornamos amargos. Pois em ambos os casos ele sai vencedor.

4) QUANDO TENTAMOS SER SÉRIOS E NOS TORNAMOS SOMBRIOS. Os santos sempre foram pessoas sérias, mas a melancolia é um defeito de caráter e jamais deveria ser mesclada com a piedade. A melancolia religiosa pode indicar a presença de incredulidade ou pecado, e, se deixarmos que tal melancolia prossiga por muito tempo, pode conduzir a graves perturbações mentais. A alegria é a grande terapia da mente. “Alegrai-vos sempre no Senhor” (Fp 4.4).

5) QUANDO TENCIONAMOS SER CONSCIENCIOSOS E NOS TORNAMOS ESCRUPULOSOS EM DEMASIA. Se o diabo não puder destruir a consciência, seus esforços se concentrarão na tentativa de enfermá-la. Conheço crentes que vivem em um estado de angústia permanente, temendo que venham a desagradar a Deus. Seu mundo de atos permitidos se torna mais e mais estreito, até que finalmente temem atirar-se nas atividades comuns da vida. E ainda acreditam que essa auto-tortura é uma prova de piedade.

Enquanto os filósofos religiosos buscam corrigir essa assimetria (que é comum a toda raça humana), pregando o “meio-termo áureo,” o cristianismo oferece um remédio muito mais eficaz. O cristianismo, estando de pleno acordo com todos os fatos da existência, leva em consideração este desequilíbrio moral da vida humana, e o medicamento que oferece não é uma nova filosofia, e sim uma nova vida. O ideal aspirado pelo crente não consiste em andar pelo caminho perfeito, mas em ser conformado à imagem de Cristo.

Fonte: Arminianismo.com

Opinião Calvinista da Queda da Ponte Distorce o Caráter de Deus

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Roger E. Olson

 


The Baylor Lariat, 28 de agosto de 2007

Onde Deus estava algumas semanas atrás quando a ponte interestadual desmoronou em Minneapolis?

Eu cruzei essa ponte muitas vezes em meus quinze anos nas Cidades Gêmeas de Minnesota. Assistir ao desastre mostrado na televisão trouxe de volta algumas recordações. Pude visualizar onde os dois lados da ponte davam – o centro de Minneapolis em uma direção e a Universidade de Minnesota na outra.

Que catástrofe esquisita. Uma ponte moderna, aparentemente bem projetada, em uma área metropolitana importante, desmoronou num piscar de olhos sem qualquer sinal de perigo.

Algo semelhante podia acontecer a qualquer um de nós a qualquer hora. Coisas semelhantes acontecem conosco ou com pessoas exatamente como nós – inesperadamente, expectadores inocentes passando pela vida são desagradavelmente surpreendidos por alguma tragédia estranha.

Então, onde Deus está quando surge uma calamidade aparentemente sem propósito? Alguns religiosos dizem, “Foi a vontade de Deus.” Aqui, vamos nos concentrar apenas nos cristãos.

Um famoso autor e orador cristão pastoreia uma igreja a uma distância de uns dois quilômetros da ponte caída. Para ele e seus seguidores, Deus preordenou, planejou e indiretamente (se não diretamente) causou o evento.

Uma banda de música cristã popular canta “há uma razão” para tudo. Eles querem dizer que Deus torna todas as coisas certas e tem um propósito bom para tudo que acontece. O pastor e a banda são cristãos deterministas. Ambos por acaso crêem numa forma de teologia protestante chamada Calvinismo.

Esta teologia está arrastando milhares de jovens cristãos facilmente influenciáveis. Ela fornece uma resposta aparentemente simples para o problema do mal. Até mesmo o que chamamos mal é planejado e tornado certo por Deus porque ele é necessário para um bem maior.

Mas, espere. E quanto ao caráter de Deus? Então Deus é o autor do mal? A maioria dos calvinistas não quer dizer que sim. Mas a lógica parece exigir esta conclusão. Se Deus planeja algo e o torna certo, como Ele não é responsável por ele? É aqui onde as coisas ficam obscuras.

Alguns calvinistas dirão que Ele não é culpado porque Ele tem uma boa intenção pelo evento – tirar o bem dele, mas a Bíblia expressamente proíbe fazer o mal para que venha o bem.

Muitos cristãos conservadores se assustam com a idéia de que Deus está limitado. Mas o que acontece se Deus se limita para que muito do que acontece no mundo seja devido à finitude e degradação humana? O que acontece se Deus está no comando, mas não no controle? O que acontece se Deus deseja que as coisas possam ser de outra forma e algum dia tornará perfeitas todas as coisas?

Esse parece mais o Deus da Bíblia do que a divindade que tudo determina do Calvinismo.

Neste mundo, por causa de nossa ignorância e corrupção, coisas realmente ruins muitas vezes acontecem e pessoas fazem coisas realmente más e perversas. Não porque Deus secretamente as planeja e as estimula, mas porque Deus disse às pessoas caídas, pecadoras, “Ok, não seja feita a minha vontade, mas a sua – por enquanto.”

E Deus diz, “Orem, porque às vezes eu posso intervir para impedir o sofrimento inocente quando as pessoas orarem; essa é uma de minhas auto-limitações. Eu não quero fazer tudo isto sozinho; eu quero seu envolvimento e participação para fazer deste um mundo melhor.”

É uma descrição diferente de Deus daquela com que a maioria dos cristãos conservadores cresceu, mas é a única (até onde posso dizer) que livra Deus da responsabilidade pelo pecado, pelo mal, pelo desastre e pela calamidade.

O Deus do Calvinismo me assusta; Eu não sei direito como distingui-lo do diabo. Se você sofreu influência do Calvinismo, pense em suas conseqüências para o caráter de Deus. Deus é grande, mas também é bom. Em vista de todo o mal e sofrimento inocente no mundo, ele deve ter limitado a si mesmo.

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Tradução: Paulo Cesar Antunes

Dr. Roger Olson é professor de teologia no George W. Truett Theological Seminary

Fonte: Arminianismo.com

 

O calvinismo Leva ao Universalismo

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– Roger E. Olson

 


Está bem, talvez o Calvinismo não leva ao Universalismo inexoravelmente – como se todo calvinista devesse tornar-se um universalista. Entretanto, muitos teólogos universalistas proeminentes são/eram reformados e criam que seus conceitos calvinistas da soberania de Deus os compeliam finalmente a abraçar o Universalismo.

Dois notáveis exemplos vêm à mente: Friedrich Schleiermacher e Karl Barth. Sim, eu sei que alguns reformados rejeitarão um ou ambos – como não verdadeiramente reformado. Entretanto, alguém não consegue ler The Christian Faith de Schleiermacher e não perceber seus vigorosos princípios calvinistas. Para Schleiermacher Deus é a realidade toda-determinante e é por isso que ele rejeita a oração petitória – porque ela implica que Deus já não sabe o que é melhor. Para Schleiermacher, qualquer coisa que esteja acontecendo, incluindo o pecado e o mal, foi preordenado e tornado certo por Deus.

Schleiermacher abraçou o Universalismo porque ele não conseguia reconciliar o Deus de Jesus Cristo todo-determinante com o inferno. Se Deus é amor e todo-determinante, devemos concluir que há um propósito amoroso para tudo que acontece. Se Deus é o autor do pecado e do mal, então a punição eterna de pecadores no inferno é injusta. Schleiermacher o calvinista percebia a questão claramente e tirou a única conclusão lógica de sua elevada visão do amor e soberania de Deus.

Apesar de todas as suas diferenças de Schleiermacher, Karl Barth seguiu o mesmo caminho básico do Calvinismo ao Universalismo. Eu sei que alguns estudiosos de Barth não creem que ele foi universalista e que ele não adotou esse rótulo. Mas eu creio que o Universalismo está implícito em sua doutrina da eleição na qual se diz que Jesus é o único homem reprovado. Barth notoriamente declarou que nosso “não” a Deus não pode resistir ao “sim” de Deus a nós em Jesus Cristo. Para Barth, Deus é “Aquele que ama em liberdade”. Deus é também todo-determinante em sua soberania. Barth chamava sua soteriologia de “supralapsarianismo purificado” – purificado do inferno, mas todavia supralapsário! Barth percebia corretamente que a lógica interna do Calvinismo deve levar ao Universalismo SE ele levar a sério o amor como natureza de Deus.

A única maneira de um calvinista evitar o Universalismo é transformar Deus em um monstro moral que para sua própria glória condena ao inferno pessoas que ele poderia salvar. Uma vez que você entende, entretanto, que o inferno é totalmente desnecessário porque a cruz foi uma revelação suficiente da justiça de Deus, o inferno torna-se não apenas supérfluo, mas completamente injusto.

Digo algumas vezes que SE eu pudesse ser universalista, eu poderia ser calvinista. Bem, eu ainda teria o problema da responsabilidade humana. Mas meu ponto é que eu não me importo com o livre-arbítrio exceto na medida em que ele é necessário para explicar por que um Deus de amor permite que algumas pessoas pereçam eternamente. Se eu pudesse crer que Deus salva a todos incondicionalmente, que é o que eu penso que Barth cria, eu poderia ser calvinista. Uma razão de não poder ser calvinista é porque ser calvinista exigiria de mim que eu lançasse fora todos os textos bíblicos sobre o inferno porque eu não teria interesse em até mesmo ser cristão se o Deus do Cristianismo fosse um monstro moral.

Fonte: http://www.rogereolson.com/2010/12/10/calvinism-leads-to-universalism/

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Fonte: Arminianismo.com

 

O Deus Esvaziado

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Baseado na Parábola dos Filhos Perdidos

Lc 15.11-32

____________________________________________________________________Ed René Kivitz

Você pode fazer teologia de cima para baixo e de baixo para cima. Caso escolha fazer de cima para baixo, terá a companhia de todos os filósofos, especialmente os gregos, que se fixaram numa idéia de perfeição de Deus, e deram toda ênfase aos atributos incomunicáveis de Deus: onipotência, onisciência e onipresença, por exemplo, (Jó 42.2; Sl 139; Is 43.13; Lc 18.27). Todos os que olham para Deus através desse paradigma imaginam Deus num alto e sublime trono (Is 6.1), habitando em luz inacessível (1Tm 6.16) e, invocado mediante a oração da fé, vem ao mundo fazer coisas boas (milagres) para seus filhos. Não há nada de errado nesta descrição de Deus.

Mas você também pode fazer teologia de baixo para cima. Nesse caso, você deverá deixar de lado aquilo que Deus é em termos de sua perfeita natureza eterna, e focar sua atenção na maneira como Deus escolheu se revelar e se relacionar com as pessoas na história. Seus olhos devem deixar de lado a visão ideal e abstrata da filosofia, e se voltar para Jesus Cristo, suas ações e palavras, que revelam o Pai (Jo 10.30; 14.9).

A Bíblia ensina que Jesus é Deus esvaziado, Deus em forma humana, em forma de servo (Fp 2.5-8). Jesus é Deus conosco, isto é, Deus se revela e se relaciona conosco em Jesus (Jo 1.14, 18; Hb 1.1-3). Em Jesus, Deus está esvaziado, pois sua onipotência foi limitada pela fé dos que a ele se achegavam (Mt 13.53-58), sua onisciência foi limitada pelo Pai (Mt 24.36), e sua onipresença foi limitada pela própria encarnação.

A expressão Deus esvaziado não diz respeito à natureza de Deus. Deus é o mesmo, tanto no alto e sublime trono como encarnado na pessoa de Jesus. Mas a maneira como Deus se relaciona no céu é diferente da maneira como se relaciona na terra. No céu Ele faz tudo quanto lhe agrada e reina soberano. Na terra Ele age em e com as pessoas que atendem seu convite para a comunhão em seu Filho: “venha o teu reino, seja feita a tua vontade assim na terra como no céu” (Sl 115.3, 16; Mt 6.10; 1Co 1.9). Isso fica mais claro quando compreendemos os critérios segundo os quais Deus escolheu se relacionar com seus filhos, conforme Jesus ensina na “parábola dos filhos perdidos” (Lc 15.11-32).

Em primeiro lugar, o Deus esvaziado se relaciona com base no critério da liberdade. O filho mais novo pede a sua parte da herança e vai embora da casa do pai. Naquela época e cultura, o pedido equivaleria a dizer mais ou menos o seguinte: “Pai, tudo o que quero é que o senhor morra. Tudo o que me interessa é seu talão de cheques”. O impressionante é que o pai não faz oposição a esse desejo do filho. O critério é a liberdade: “Você quer ir, meu filho, eu lamento, mas não vou amarrar você ao meu lado, não vou obrigar você a conviver comigo contra a sua vontade. Siga seu caminho”.

O Deus esvaziado não mantém relacionamentos à força, mediante manifestação do seu poder e imposição de sua autoridade soberana. O Deus esvaziado dá um passo atrás, para que você possa exercer sua liberdade de existir com Ele ou contra Ele.

Em segundo lugar, o Deus esvaziado se relaciona com base no critério da interpelação. O filho mais velho se recusa a participar da festa que o pai promove para se alegrar com o retorno do filho mais novo, que estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. O pai vai ao encontro do filho mais velho e o interpela, o confronta e o coloca diante da necessidade de uma decisão. Mas não decide por ele, nem o obriga a se submeter à sua vontade.

O pai não exige obediência dizendo “Enquanto você estiver na minha casa fará as coisas do meu jeito”. O pai confronta o filho e espera tocar sua consciência, para que, semelhantemente ao filho mais novo, ele também “caia em si”, e experimente uma transformação de dentro para fora, de modo que sua submissão à vontade do pai seja um ato voluntário e consciente de ser a melhor escolha.

Deus não é um solucionador de problemas. É um solucionador de pessoas. Deus não prometeu fazer nossa vida melhor. Prometeu nos fazer homens e mulheres melhores: semelhantes ao seu Filho (Rm 8.28-30; 2Co 3.18; Gl 4.19; Ef 4.11-13).

Quem espera uma vida melhor como resultado da intervenção do Deus onipotente, onipresente e onisciente, acaba se frustrando e sucumbindo em culpa e incredulidade. Quem espera ser uma pessoa melhor e andar em comunhão com Deus, numa relação de amor e liberdade, respondendo suas interpelações e desfrutando sua presença e doce companhia é capaz de enfrentar a vida, qualquer que seja ela.

Fonte: Arminianismo.com

Graça, Fé, Livre-Arbítrio – Prefácio

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_________________________________________________________________ Robert E. Picirilli


 

Tenho em mente vários propósitos para esta obra. Os dois primeiros são os mais importantes.

Primeiro, eu desejo contribuir para o ressurgimento contemporâneo da discussão sobre as questões que têm dividido o Calvinismo e o Arminianismo desde a Reforma. Não me iludo a ponto de pensar que posso trazer uma aproximação entre os dois, mas eu sei que cada nova geração de crentes cristãos acha quase impossível evitar relembrar estas questões. Meu objetivo é apresentar os dois lados, para que o leitor saiba exatamente quais são essas questões: para clarificar o entendimento de ambas as posições e ajudar os leitores a inteligentemente decidir por eles.

Segundo, pretendo frisar uma forma específica de Arminianismo como a melhor resolução das tensões, e neste aspecto eu não sou imparcial. O problema com o “Arminianismo” é que ele significa coisas diferentes para diferentes pessoas. Meu objetivo é apresentar o que eu chamo de “Arminianismo da Reforma,” pelo qual eu quero dizer as opiniões do próprio Arminius e seus defensores originais. Isto é um Arminianismo que tem sido com freqüência perdido de vista por amigos e inimigos, e é altamente vigoroso e sustentável.

Alguns leitores podem estar surpresos por aprender que há um Arminianismo que defende:

ü a depravação total,

ü a soberania de Deus no controle de todas as coisas para o certo cumprimento de Sua vontade,

ü o conhecimento perfeito de Deus de, e a certeza de, todos os eventos futuros – incluindo as escolhas morais livres dos seres humanos,

ü a visão da satisfação penal da expiação,

ü salvação pela graça por meio da fé e não pelas obras, do início ao fim,

ü e uma apostasia que não pode ser remediada.

Eles podem também estar surpresos por aprender que isto foi essencialmente o Arminianismo do próprio Arminius. Como Alan P. F. Sell tem observado, “Em importantes aspectos, Arminius não era um arminiano.”[1]

Embora o Arminianismo original não continuou na Igreja Remonstrante Holandesa, tem havido proponentes do Arminianismo da Reforma em várias épocas e lugares. O Anabatista Balthasar Hubmaier defendia posições similares. Thomas Grantham, um importante teólogo entre os primeiros batistas gerais ingleses, demonstrou praticamente a mesma soteriologia de Arminius em seu Christianismus Primitivus, or the Ancient Christian Religion, publicado em Londres em 1678.[2] Wesley retomou muito da essência das opiniões de Arminius.

Chamar de “Arminianismo da Reforma” pode resultar em críticas.[3] Mas estou convencido de que a teologia de Arminius foi bem estudada em consideração consciente das crenças dos reformadores; e que Arminius teve êxito ao manter a insistência da Reforma na salvação sola gratia, sola fide, e solo Christo. Sell nos recorda que “O Arminianismo surgiu como uma opção genuína de dentro de, e não como um parasita sobre, a Igreja Reformada na Holanda.” Por isso, por “Arminianismo da Reforma” eu pretendo tanto distinguir o pensamento de Arminius e os originais Remonstrantes de algumas das formas que o Arminianismo tem tomado desde então, como identificá-lo com as principais ênfases da Reforma.

Cumprindo os dois principais propósitos mencionados acima, meu método tem sido perseguir uma teologia histórica, sistemática e bíblica. No primeiro capítulo eu revi o fundo histórico envolvendo a luta de Arminius e os originais Remonstrantes. Então cada uma das quatro seções, por sua vez, é dedicada a uma das quatro questões chaves: Predestinação, Expiação, Salvação pela Fé, e Perseverança. Em cada uma dessas quatro seções há três capítulos: o primeiro aborda a posição calvinista, a seguir a posição arminiana, e a última alguns estudos de teologia bíblicos em apoio à posição arminiana. O exato procedimento dentro de cada seção varia, dependendo da natureza do material. Para a maior parte, eu me concentrei nas expressões tradicionais. Conseqüentemente, o foco primário é nos teólogos calvinistas clássicos pelo lado calvinista, e no próprio Arminius pelo lado arminiano. O espaço não permite muita atenção às variações no tema.

Alguns podem perguntar, visto que estou realçando uma forma de Arminianismo, por que eu me dei ao trabalho de apresentar ambos os lados em cada seção. Por duas razões. Primeiro, eu uma vez escutei o Dr. Roger Nicole observar que devemos sempre nos certificar de que podemos apresentar a posição de um oponente de tal forma que ele concordará que a temos expressado corretamente. Penso que ele está certo, e fiz uma tentativa conscienciosa de cumprir isso. Não é bom contestar uma outra opinião se você a tem primeiro distorcido. Falácias do espantalho são facilmente derrubadas.

Segundo, eu quero que aqueles de cada lado entendam a outra posição de dentro dele. A experiência me ensinou que meus amigos arminianos geralmente não entendem o que o Calvinismo realmente é, e que os calvinistas geralmente mal compreendem o Arminianismo. Os argumentos resultantes são freqüentemente emocionais mais do que baseados num entendimento cuidadoso de cada lado. Eu gostaria de retificar este defeito.

Meu terceiro propósito para esta obra, embora não primário, não é por isso sem importância. Hoje em dia estamos testemunhando um neo-Arminianismo que assume algumas estranhas posições. Esses neste movimento – algumas vezes chamado “openness theism” – negam a onisciência de Deus, por exemplo, ou nos contam que Deus salva todos que se tornariam crentes se eles tivessem uma oportunidade. Como entendo, nem Cristianismo evangélico em geral, nem Arminianismo em particular, isto não é nada bom. Ao invés, as diferenças entre o Calvinismo e o Arminianismo se tornaram confusas e obscuras. Ao apresentar as questões nos termos tradicionais – com uma nova perspectiva, espero – quero levar o debate de volta às questões tradicionais.

Ofereço agora não tanta dedicação quanto especial apreciação por dois professores que me ajudaram a formar meu pensamento há um bom tempo atrás: primeiro a L. C. Johnson, que me ensinou Arminianismo da Reforma (embora ele não o chamasse assim) direto de Arminius; e segundo a Wayne Witte, que me ensinou o Calvinismo clássico direto de Berkhof e Shedd e outros do mesmo nível, e o fez com boa-vontade.

Também devo agradecimentos aos dois distintos amigos que leram o texto após minha solicitação e ofereceram sugestões úteis: Leroy Forlines, um colega que leu pelo lado arminiano, e Bob Reymond, um bem conhecido pensador Reformado que leu pelo lado calvinista. Não coloco em suas costas a responsabilidade, entretanto, pelas opiniões que apresento.

Encerro com as palavras de Arminius, escritas no final de seu próprio prefácio de “An Examination of the Treatise of William Perkins concerning the Order and Mode of Predestination”:

Que Deus nos conceda que possamos concordar plenamente, nessas coisas que são necessárias para Sua glória e para a salvação da igreja; e que, nas outras coisas, se não puder haver harmonia de opiniões, que haja ao menos harmonia de sentimentos, e que possamos “guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.”


 


[1] Alan P. F. Sell, The Great Debate (Grand Rapids: Baker, 1983), 97.

[2] Agradeço a Matthew Pinson por chamar a atenção para Grantham e citarei seu ensaio (ainda inédito) nesta obra.

[3] Não alego que Arminius pertença aos reformadores magistrais. Mas eu senti a necessidade de dar algum nome a esta espécie de soteriologia arminiana; “Arminianismo evangélico” é amplo demais, “Arminianismo Wesleyano” já está em uso com um outro significado, e “Arminianismo da Remonstrância” muito provavelmente significa a Igreja Remonstrante Holandesa, que é muito diferente dos originais Remonstrantes. Eu considerei e finalmente decidi contra o “proto-Arminianismo” como clínico demais.

Fonte: Arminianismo.com

Vasos nas Mãos do Oleiro

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Paulo Cesar Antunes

Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? (Rm 9.21). Deste verso, a teologia reformada (ou calvinista) tem tirado as seguintes conclusões: 1. O homem, em seu estado caído, é “tão sem vida e sem poder como um pedaço de barro inerte.” 2. “Não há diferença intrínseca entre os eleitos de Deus e os não-eleitos: são do mesmo barro.” 3. “O destino final de toda pessoa é decidido pela vontade de Deus.” 4. Deus “molda os seus vasos para os seus próprios propósitos e segundo o seu próprio beneplácito.”[1] Não há dúvida de que este verso enfatiza a soberania de Deus. Deus tem todo o direito de fazer vasos conforme Lhe apraz. Meu problema com a teologia reformada não é com a soberania de Deus, mas com o exercício dela na questão da salvação do homem. Rm 9.21 realmente está dizendo que Deus incondicionalmente escolhe, dentre a humanidade caída, alguns para salvação e, por exclusão, outros para perdição eterna? Meu propósito neste artigo é mostrar que não. É uma tarefa um tanto difícil analisar apenas um verso em Rm 9 sem incluir os demais. Todo o capítulo traz pontos importantes que não podem deixar de ser abordados. Apesar de assumir essa arriscada tarefa, quero deixar claro que analisei todo o contexto do verso antes de me dispor a escrever este artigo. Não há por que negar que ao lermos o verso em questão temos a impressão de um Deus que não leva em consideração nada senão apenas Sua própria vontade, e que o destino dos seres humanos dependem única e exclusivamente da forma que são moldados por Deus, se para honra ou desonra. Só que não podemos fazer teologia de primeiras impressões: há todo um contexto a ser analisado. Deve-se notar que era comum entre os judeus a alegoria dos vasos e do oleiro, que Paulo faz uso em Rm 9.21. No livro de Isaías, por exemplo, temos em 29.19 (“Vós tudo perverteis, como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse do seu artífice: Não me fez; e o vaso formado dissesse do seu oleiro: Nada sabe”), em 45.9 (“Ai daquele que contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos?”), e em 64.8 (“Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos”). Em Jeremias também há a seguinte ilustração: A palavra do SENHOR, que veio a Jeremias, dizendo: Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas, como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer. Então veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o SENHOR. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel (Jr 18.1-6). Claramente estes versos ensinam que Deus é soberano sobre todos e que somos como barros em Suas mãos. Mas concluir que Rm 9.21 ensina eleição incondicional e que Deus unilateralmente decidiu onde passaremos a eternidade distancia um tanto do que parece ser a intenção do apóstolo. Jeremias observa como o oleiro trabalha os vasos. Como um vaso quebra em suas mãos, o oleiro molda outro, conforme bem lhe parece aos olhos. Então Deus pergunta: “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?” E conclui: “Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.” Certamente podemos concluir que o oleiro é Deus, Israel é o barro, e que Deus tem total controle sobre a nação de Israel, assim como o oleiro sobre o barro. Só não podemos concluir, como fazem os calvinistas, que Deus não leva em consideração nada do que fazemos ao decidir fazer de nós o que parece bem aos Seus olhos. Na verdade, os versos seguintes desaprovam essa conclusão: No momento em que falar contra uma nação, e contra um reino para arrancar, e para derrubar, e para destruir, se a tal nação, porém, contra a qual falar se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. No momento em que falar de uma nação e de um reino, para edificar e para plantar, se fizer o mal diante dos meus olhos, não dando ouvidos à minha voz, então me arrependerei do bem que tinha falado que lhe faria (Jr 18.7-10). Não há nada de incondicional nestes versos. Os vasos são moldados ou quebrados, dependendo da resposta do homem a Deus. Quem parece crer num destino implacável, na verdade, são os judeus impenitentes, quando dizem que “não há esperança, porque andaremos segundo as nossas imaginações; e cada um fará segundo o propósito do seu mau coração” (Jr 18.12). Deus está justamente dizendo a Israel que o modo como Ele irá tratar a nação depende, em parte, da própria nação, se ela se arrepender ou não. Se arrepender, será vaso para honra. Se não se arrepender, será vaso para desonra. Nada no contexto, também, parece apoiar a idéia de que, por “honra” e “desonra,” Paulo estaria falando do destino de cada ser humano, de sua salvação ou perdição eterna. Dentro do contexto de Rm 9, que fala da soberania de Deus na condução do plano de salvação da humanidade, Paulo está sugerindo que Deus pode fazer o que bem entender com os judeus que, por causa da incredulidade, foram cortados (Rm 11.20), e admitir os gentios, que alcançaram a justiça pela fé (Rm 9.30). Deus tem todo o direito de colocar os gentios crentes numa posição de honra e os judeus incrédulos numa posição de desonra. Mas isso não é decisivo na salvação de cada um, pois os judeus que não permanecerem na sua incredulidade podem ser readmitidos (Rm 11.23), e os gentios que abandonarem a fé podem ser cortados (Rm 11.22). E finalmente, Paulo, instruindo Timóteo, diz que “se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra” (2Tm 2.21).
 

 


[1] Arthur Pink, Deus é Soberano, p. 52-53.

Fonte: Arminianismo.com

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