_________________________________ Paulo Cesar Antunes

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“E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados” Ef 2.1

 

Este verso tem sido tanto abusado pelos calvinistas quanto minimizado pelos arminianos. Alegam os últimos que o verso apenas expõe uma forte analogia, e os primeiros, que o homem está morto espiritualmente da mesma forma que os mortos estão fisicamente. Muitos calvinistas não permitem que os arminianos digam que o homem está verdadeiramente morto. O máximo que os arminianos poderiam dizer, segundo eles, é que o homem estaria ‘meio-morto, ’ ou ‘doente, ’ precisando de ajuda para se recuperar. Nada disso é verdadeiro se verificarmos o que disse Arminius sobre a condição do homem após a Queda. Ele não poupou palavras para expressar a incapacidade humana para se aproximar de Deus.

 

Não há dúvida de que estamos ‘mortos em ofensas e pecados,’ incapazes de agradar a Deus em nosso estado natural, ou de merecer algum favor divino. Se não formos regenerados pelo Espírito, permaneceremos nessa condição, sem qualquer esperança de salvação. A questão diante de nós não é se o homem está morto ou meio-morto, pois é certo que ele está morto, mas até onde podemos forçar a analogia.

 

A maioria dos calvinistas faz um paralelo perfeito entre morte física e morte espiritual. Dizem eles que, assim como pessoas fisicamente mortas não podem fazer nada para voltarem à vida, pessoas espiritualmente mortas não podem fazer nada para nascerem de novo. Pessoas mortas não podem crer, não podem querer voltar a viver, não podem esticar suas mãos para receber qualquer dádiva de Deus, não podem gritar por socorro. O exemplo de Lázaro é quase sempre citado. Lázaro jazia morto e se Cristo não tivesse gritado ‘Lázaro, sai para fora,’ e lhe dado vida, ele permaneceria morto. Tudo isso é verdadeiro, se estivermos falando de pessoas fisicamente mortas. A verdade é que, se forçarmos demais a analogia, como fazem os calvinistas, então certamente não poderíamos crer, querer voltar a viver, gritar por socorro, mas também não poderíamos nem mesmo saber que estamos mortos, que precisamos ser regenerados. Mas qualquer calvinista deve concordar que pessoas espiritualmente mortas podem freqüentar cultos, ler a Bíblia, orar regularmente. Portanto, o estado de Lázaro no túmulo é um tanto diferente do estado do homem natural, ainda que ambos não possam empregar meios para vivificarem a si próprios.

 

Estou querendo, então, dizer que o homem natural pode fazer alguma coisa de si próprio para alcançar favor divino? De forma alguma. O homem natural está completamente morto, incapaz de agradar a Deus com suas próprias ações, alienado, e insensível para ‘as coisas do Espírito de Deus’ (1Co 2.14). Sem que Deus lhe dê vida espiritual, ele continuará morto.

 

Além da morte física, o calvinista também compara a morte espiritual com a condição de uma criatura e um bebê ainda não nascidos. Assim como uma criatura e um bebê não escolhem nascer, nem contribuem para o seu nascimento, também não escolhemos ser regenerados, nem contribuímos para o nosso novo nascimento. Novamente, tudo isso é verdadeiro, se estivermos falando de criaturas e bebês ainda não nascidos. Mas este tipo de comparação é condenado até mesmo pelo calvinista Arthur Pink. [1] Uma criatura ainda não nascida não tem qualquer consciência de sua existência, nem mesmo é um ser moral. Um bebê ainda não nascido nem mesmo desenvolveu sua personalidade. O corpo de alguém fisicamente morto não mais guarda averdadeira pessoa que um dia esteve nele. Chega a ser irônico que os calvinistas, que tanto enfatizam a distinção entre incapacidade moral e física, e condenam aqueles que não fazem o mesmo, usam a ilustração de alguém que está incapacitado fisicamente para apoiar a idéia da incapacidade moral do homem!

 

Levada ao seu extremo lógico, essa comparação rígida entre morte física e espiritual eliminaria qualquer estímulo para os incrédulos buscarem a Deus. Poderiam eles pensar, com toda razão, que a única alternativa é aguardar pacientemente ser regenerados. Talvez percebendo esta implicação, Shedd faz algumas recomendações aos ainda não regenerados, dentre as quais, orar para que o Espírito Santo os regenere. [2] O único problema é que estas recomendações destroem o próprio argumento que tanto se quer preservar, de que morto não pode fazer nada. Diante disso, Roy L. Aldrich, abusando desse mesmo argumento, contra os próprios calvinistas, ironizou, dizendo que eles lidam “com um cadáver espiritual bem vivo afinal de contas.”[3]

 

Acredito que morte espiritual significa que o homem está separado de Deus, impróprio para qualquer comunhão com Ele. Como diz Isaias, “as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” (Is 59.2). Separação também parece ser o sentido em Lucas, na parábola do filho pródigo: “Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado” (Lc 15.24). Da mesma forma, Paulo diz que devemos nos considerar como “mortos para o pecado” (Rm 6.11). Todos estes exemplos mostram que morte significa separação. Isso não implica que podemos eliminar essa separação por nossas próprias vontades. O homem natural não tem nenhuma vontade por Cristo. Ele não pode de si mesmo crer salvificamente em Cristo para sua salvação. Qualquer mitigação dessa verdade pode comprometer seriamente a crença evangélica da salvação pela graça. Mas disso não se conclui que a regeneração deve preceder a fé? Não, absolutamente. Usar o argumento de que ‘morto não pode fazer nada’ é cair no mesmo erro observado acima. É certo que o homem natural não pode crer salvificamente com suas próprias forças, mas disso não podemos concluir que, sob a graça divina, ele também não pode. Mas aqui eu apenas gostaria de mostrar que é impróprio abusar da expressão ‘mortos em ofensas e pecados’, da mesma forma que é perigoso minimizá-la. A precedência lógica entre fé e regeneração será tratada adiante.


[1] Arthur W. Pink, Gleanings from the Scriptures, p. 276; Salvation, pp. 26-27.

[2] W.G.T. Shedd, Dogmatic Theology, Vol. II, pp. 472, 512, 513.

[3] Roy L. Aldrich, “The Gift of God.”

Fonte: Arminianismo.com

 

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