Vasos nas Mãos do Oleiro

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Paulo Cesar Antunes

Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? (Rm 9.21). Deste verso, a teologia reformada (ou calvinista) tem tirado as seguintes conclusões: 1. O homem, em seu estado caído, é “tão sem vida e sem poder como um pedaço de barro inerte.” 2. “Não há diferença intrínseca entre os eleitos de Deus e os não-eleitos: são do mesmo barro.” 3. “O destino final de toda pessoa é decidido pela vontade de Deus.” 4. Deus “molda os seus vasos para os seus próprios propósitos e segundo o seu próprio beneplácito.”[1] Não há dúvida de que este verso enfatiza a soberania de Deus. Deus tem todo o direito de fazer vasos conforme Lhe apraz. Meu problema com a teologia reformada não é com a soberania de Deus, mas com o exercício dela na questão da salvação do homem. Rm 9.21 realmente está dizendo que Deus incondicionalmente escolhe, dentre a humanidade caída, alguns para salvação e, por exclusão, outros para perdição eterna? Meu propósito neste artigo é mostrar que não. É uma tarefa um tanto difícil analisar apenas um verso em Rm 9 sem incluir os demais. Todo o capítulo traz pontos importantes que não podem deixar de ser abordados. Apesar de assumir essa arriscada tarefa, quero deixar claro que analisei todo o contexto do verso antes de me dispor a escrever este artigo. Não há por que negar que ao lermos o verso em questão temos a impressão de um Deus que não leva em consideração nada senão apenas Sua própria vontade, e que o destino dos seres humanos dependem única e exclusivamente da forma que são moldados por Deus, se para honra ou desonra. Só que não podemos fazer teologia de primeiras impressões: há todo um contexto a ser analisado. Deve-se notar que era comum entre os judeus a alegoria dos vasos e do oleiro, que Paulo faz uso em Rm 9.21. No livro de Isaías, por exemplo, temos em 29.19 (“Vós tudo perverteis, como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse do seu artífice: Não me fez; e o vaso formado dissesse do seu oleiro: Nada sabe”), em 45.9 (“Ai daquele que contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos?”), e em 64.8 (“Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos”). Em Jeremias também há a seguinte ilustração: A palavra do SENHOR, que veio a Jeremias, dizendo: Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas, como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer. Então veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o SENHOR. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel (Jr 18.1-6). Claramente estes versos ensinam que Deus é soberano sobre todos e que somos como barros em Suas mãos. Mas concluir que Rm 9.21 ensina eleição incondicional e que Deus unilateralmente decidiu onde passaremos a eternidade distancia um tanto do que parece ser a intenção do apóstolo. Jeremias observa como o oleiro trabalha os vasos. Como um vaso quebra em suas mãos, o oleiro molda outro, conforme bem lhe parece aos olhos. Então Deus pergunta: “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?” E conclui: “Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.” Certamente podemos concluir que o oleiro é Deus, Israel é o barro, e que Deus tem total controle sobre a nação de Israel, assim como o oleiro sobre o barro. Só não podemos concluir, como fazem os calvinistas, que Deus não leva em consideração nada do que fazemos ao decidir fazer de nós o que parece bem aos Seus olhos. Na verdade, os versos seguintes desaprovam essa conclusão: No momento em que falar contra uma nação, e contra um reino para arrancar, e para derrubar, e para destruir, se a tal nação, porém, contra a qual falar se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. No momento em que falar de uma nação e de um reino, para edificar e para plantar, se fizer o mal diante dos meus olhos, não dando ouvidos à minha voz, então me arrependerei do bem que tinha falado que lhe faria (Jr 18.7-10). Não há nada de incondicional nestes versos. Os vasos são moldados ou quebrados, dependendo da resposta do homem a Deus. Quem parece crer num destino implacável, na verdade, são os judeus impenitentes, quando dizem que “não há esperança, porque andaremos segundo as nossas imaginações; e cada um fará segundo o propósito do seu mau coração” (Jr 18.12). Deus está justamente dizendo a Israel que o modo como Ele irá tratar a nação depende, em parte, da própria nação, se ela se arrepender ou não. Se arrepender, será vaso para honra. Se não se arrepender, será vaso para desonra. Nada no contexto, também, parece apoiar a idéia de que, por “honra” e “desonra,” Paulo estaria falando do destino de cada ser humano, de sua salvação ou perdição eterna. Dentro do contexto de Rm 9, que fala da soberania de Deus na condução do plano de salvação da humanidade, Paulo está sugerindo que Deus pode fazer o que bem entender com os judeus que, por causa da incredulidade, foram cortados (Rm 11.20), e admitir os gentios, que alcançaram a justiça pela fé (Rm 9.30). Deus tem todo o direito de colocar os gentios crentes numa posição de honra e os judeus incrédulos numa posição de desonra. Mas isso não é decisivo na salvação de cada um, pois os judeus que não permanecerem na sua incredulidade podem ser readmitidos (Rm 11.23), e os gentios que abandonarem a fé podem ser cortados (Rm 11.22). E finalmente, Paulo, instruindo Timóteo, diz que “se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra” (2Tm 2.21).
 

 


[1] Arthur Pink, Deus é Soberano, p. 52-53.

Fonte: Arminianismo.com

Calvinismo e Arminianismo: O que Eles Querem Preservar?

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__________________________________________________________________John Mark Hicks

Houve um significante interesse durante a década passada em um ressurgente Calvinismo (ou Teologia Reformada). Alguns chamam de um “Novo Calvinismo” (conforme o livro de Collin Hansen, Young, Restless, Reformed: A Journalist’s Journey with the New Calvinists). A popularidade de John Piper assim como a renovação do Calvinismo entre os Batistas do Sul (especificamente o Seminário Teológico Batista do Sul) é um indício de uma nova oscilação da tradição reformada. Leia uma análise e discussão deste novo fenômeno aqui.

A blogosfera está repleta de discussões contínuas entre arminianos e calvinistas. Minha lista de blogs contém dois desses sites – Evangelical Arminians e Desiring God de John Piper. A discussão aparentemente é interminável.

A minha própria educação foi no Seminário Teológico de Westminster de 1977-1979 (M.A.R) e 1981-1985 (Ph.D.). Conseqüentemente, tenho certa familiaridade com a tradição reformada, particularmente a Confissão de Fé de Westminster. Ao mesmo tempo cresci na tradição amplamente arminiana Stone-Campbell (em muitos casos de natureza mais pelagiana que arminiana) e tenho lecionado em escolas dentro dessa tradição por vinte e cinco anos. Tenho certa familiaridade com o Arminianismo também. De fato, uma vez contei aos meus professores de Westminster que meus estudos bíblicos, teológicos e históricos em Westminster tinham me ajudado a passar do Pelagianismo para o Arminianismo, mas eu não pude me decidir pelo Calvinismo.

Tenho uma muito profunda apreciação pela teologia reformada como um todo, embora eu não possa adotar o próprio sistema teológico caracterizado pela TULIP. Meus livros sobre teologia sacramental, por exemplo, evidenciam uma grande dívida às formulações reformadas. Mas eu também tenho uma profunda apreciação pelo Arminianismo clássico (do próprio Arminius) e sua expressão evangélica associada a Wesley.

É importante, penso, entender o que os calvinistas e arminianos pensam que é tão importante – o que é que eles querem preservar? Esta é uma pergunta crucial. Pode ser um ponto de partida significante para uma mútua apreciação ainda que não possam encontrar um acordo pleno.

No centro da teologia reformada está o desejo de dar a Deus toda a glória e excluir toda a jactância humana na obra de salvação. A fé é totalmente encontrada na graça eletiva e obra soberana de Deus. A base da eleição é a própria vontade de Deus. Os humanos não podem se gabar de sua salvação em relação a algo dentro de si mesmos; a salvação tem sua raiz no decreto divino da eleição. Os calvinistas buscam preservar a glória de Deus como a única causa da salvação.

No centro da teologia arminiana está o desejo de proclamar o amor de Deus a toda a humanidade – toda e qualquer pessoa humana. A filantropia de Deus é a raiz da salvação e este amor se estende a todos; Deus não deseja a perda de um único ser humano. Os arminianos buscam preservar a fidelidade de Deus ao seu constante amor por cada uma de suas criaturas.

Os dois se duelam na resposta à pergunta, “Por que alguns são condenados?” O calvinista responde: “porque eles não foram escolhidos” (ou mais especificamente, eles são condenados por causa de seu próprio pecado e Deus preferiu deixá-los aí). O arminiano responde: “porque eles não creram” (ou mais especificamente, a incredulidade é uma rejeição humana da oferta divina graciosa de salvação). Os calvinistas acusam os arminianos de tornar a fé uma causa meritória da salvação, o que torna uma base de jactância e deprecia a glória de Deus (em outras palavras, os humanos salvam a si mesmos com sua própria fé). Os arminianos acusam os calvinistas de subordinar o amor de Deus à glória de Deus visto que Deus deixa alguns em seus pecados para demonstrar sua justiça assim como visando sua própria glória (em outras palavras, ele ama sua própria glória mais do que ama seu mundo).

Os calvinistas perguntam como a fé como um ato humano não se torna uma obra humana de justiça se Deus não escolheu uma pessoa para a fé como resultado de sua própria graça. Os arminianos perguntam por que todos não crêem se a única causa da fé é a obra graciosa de Deus na eleição e Deus ama todas as pessoas. O calvinista quer preservar a glória de Deus e o arminiano quer preservar o amor de Deus.

Enfim – pelo menos num nível teórico ou no contexto do debate arminiano/calvinista – alguém deve escolher qual é a prioridade do coração de Deus: sua glória ou seu amor? Ou, temos mesmo que escolher? Este é um assunto para outro post.

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Fonte: Arminianismo.com

 

Mais uma Nota Rápida para Elucidar o Arminianismo.

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Roger E. Olson

Tenho autorizado mensagens com as quais eu vigorosamente discordo, mas não tenho tempo para corrigir cada concepção equivocada ou deturpação do Arminianismo ou outros sistemas teológicos.

O Arminianismo clássico NÃO diz que Deus nunca interfere no livre-arbítrio. Ele diz que Deus NUNCA preordena ou torna o mal certo. Isto está relacionado com a questão do Arminianismo e a inerrância. Um arminiano PODERIA crer que Deus tenha ditado a Escritura e não fazer violência às suas crenças arminianas.

Contrário ao que alguns participantes aqui têm deduzido, o Arminianismo não tem paixão pelo livre-arbítrio libertário – como se isso fosse importantíssimo em e de si mesmo. Os arminianos clássicos vêm esforçando-se (a começar pelo próprio Arminius) para deixar claro que nossas únicas razões para crer no livre-arbítrio COMO ARMINIANOS (alguém poderia ao mesmo tempo ter razões filosóficas) são 1) evitar fazer de Deus o autor do pecado e do mal, e 2) deixar claro a responsabilidade humana pelo pecado e pelo mal.

O Arminianismo é completamente ortodoxo cristologicamente. O Arminianismo clássico afirma as duas naturezas de Jesus Cristo. Dizer o contrário é simplesmente revelar ignorância do Arminianismo clássico. E dizer que a ortodoxia nega o livre-arbítrio humano de Jesus (até para resistir a Deus) é ignorar toda a controvérsia monotelita/diotelita e seu resultado no Terceiro Concílio de Constantinopla em 678 (o sexto concílio ecumênico). Lá e em concílios posteriores, a igreja unificada condenou a crença em uma vontade e afirmou como ortodoxa a crença em duas vontades de Cristo. Os principais intérpretes do diotelismo como Máximo o Confessor e João de Damasco ensinaram que, embora fosse teoricamente possível que a vontade humana de Cristo resistisse à vontade de Deus, isso não poderia na verdade acontecer na prática por causa da deificação (theosis) da humanidade de Cristo.

Ninguém tem que afirmar os últimos concílios para ser um arminiano clássico. (Lutero e Calvino e outros líderes reformadores afirmavam somente os primeiros quatro concílios como ortodoxos.) Entretanto, argumentar que a ortodoxia nega que Cristo, em sua humanidade, poderia resistir à vontade de Deus é ir contra a ortodoxia clássica. É mais ortodoxo afirmar que ele poderia (teoricamente).

Por favor, sejam cuidadosos em acusar qualquer ponto de vista oposto mantido pelos evangélicos como heterodoxo. Acusar o Arminianismo clássico de ser cristologicamente heterodoxo é errar o alvo completamente a ponto de beirar à indelicadeza (porque isto poderia enganar os evangélicos que vivem mudando de opinião a pensar que o Arminianismo é na verdade contra a ortodoxia cristológica histórica quando ele não é).

Finalmente, sobre o livre-arbítrio libertário: os arminianos geralmente NÃO creem no que usualmente é denominado “livre-arbítrio libertário” (no sentido filosófico forte do termo). Cremos em livre-arbítrio situado – livre-arbítrio dentro de limites e contextos. Nenhum arminiano crê que uma pessoa com livre-arbítrio (restaurado pela graça preveniente) é capaz de fazer simplesmente qualquer coisa que ela queira fazer. Os calvinistas que argumentam que o livre-arbítrio incompatibilista é incoerente precisam decidir se creem que Deus tem esse tipo de livre-arbítrio ou não. Jonathan Edwards (novamente) foi mais consistente em negá-lo. O resultado, obviamente, é que a criação de Deus do mundo não é uma questão de graça, mas de necessidade E que Deus é em algum sentido dependente do mundo (dessa forma inadvertidamente negando a asseidade de Deus que muitos calvinistas alegam crer). Agora, nem Edwards nem os calvinistas contemporâneos admitem todas estas coisas, mas nos parece que eles logicamente precisam negar o livre-arbítrio incompatibilista de Deus. E se Deus o tem, a rigor isto não pode ser logicamente incoerente. Pode ser misterioso, mas essa é uma questão diferente.

Toda teologia afirma mistério em algum momento. A questão basicamente resulta em com quais mistérios alguém pode viver. Quanto a mim, eu posso viver com o mistério do livre-arbítrio muito mais facilmente do que com o mistério de como Deus pode ser bom e predestinar uma porção significante da humanidade ao inferno ainda que somente “passando por alto” deles (como explicado em um post anterior).

Fonte: http://www.rogereolson.com/2010/08/22/a-quick-sidebar-comment-on-civility/

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Fonte: Arminianismo.com