A Segurança da Salvação.

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____________________________________________________________Myer Pearlman

Temos estudado as preparações para a salvação e considerado a natureza desta. Nesta seção consideramos: É a Salvação final dos cristãos incondicional, ou poderá perder-se por causa do pecado?
A experiência prova a possibilidade duma queda temporária da graça, conhecida por “desviar-se”. O termo não se encontra no Novo Testamento, senão no Antigo Testamento. Uma palavra hebraica significa “voltar atrás” ou “virar-se”; outra palavra significa “volver-se” ou ser “rebelde”. Israel é comparado a um bezerro teimoso que volta para trás e se recusa a ser conduzido, e torna-se insubmisso ao jugo. Israel afastou-se de Jeová e obstinadamente se recusou a tomar sobre si o jugo de seus mandamentos.
O Novo Testamento nos admoesta contra tal atitude, porém usa outros termos. O desviado é a pessoa que outrora tinha o zelo de Deus, mas agora se tomou fria (Mat. 24:12); outrora obedecia à Palavra, mas o mundanismo e o pecado impediram seu crescimento e frutificação (Mat. 13:22); outrora pôs a mão ao arado, mas olhou para trás (Luc. 9:62); como a esposa de Ló, que havia sido resgatada da cidade da destruição, mas seu coração voltou para ali (Luc. 17:32); outrora estava em contacto vital com Cristo, mas agora está fora de contacto, e está seco, estéril e inútil espiritualmente (João 15:6); outrora obedecia à voz da consciência, mas agora jogou para longe de si essa bússola que o guiava, e, como resultado, sua embarcação de fé destroçou-se nas rochas do pecado e do mundanismo (1 Tim. 1:19); outrora alegrava-se em chamar-se cristão, mas agora se envergonha de confessar a seu Senhor (2 Tim. 1:8 ;2:12); outrora estava liberto da contaminação do mundo, mas agora voltou como a “porca lavada ao espoja-douro de lama” (2 Ped. 2:22; vide Luc. 11:21-26).
É possível decair da graça; mas a questão é saber se a pessoa que era salva e teve esse lapso, pode finalmente perder-se. Aqueles que seguem o sistema de doutrina calvinista respondem negativamente; aqueles que seguem o sistema arminiano (chamado assim em razão de Armínio, teólogo holandês, que trouxe a questão a debate) respondem afirmativamente.

1. Calvinismo.
A doutrina de João Calvino não foi criada por ele; foi ensinada por santo Agostinho, o grande teólogo do quarto século. Nem tampouco foi criada por Agostinho, que afirmava estar interpretando a doutrina de Paulo sobre a livre graça.
A doutrina de Calvino é como segue: A salvação é inteiramente de Deus; o homem absolutamente nada tem a ver com sua salvação. Se ele, o homem, se arrepender, crer e for a Cristo, é inteiramente por causa do poder atrativo do Espírito de Deus. Isso se deve ao fato de que a vontade do homem se corrompeu tanto desde a queda, que, sem a ajuda de Deus, não pode nem se arrepender, nem crer, nem escolher corretamente. Esse foi o ponto de partida de Calvino — a completa servidão da vontade do homem ao mal. A salvação, por conseguinte, não pode ser outra coisa senão a execução dum decreto divino que fixa sua extensão e suas condições.
Naturalmente surge esta pergunta: Se a salvação é inteiramente obra de Deus, e o homem não tem nada a ver com ela, e está desamparado, amenos que o Espírito de Deus opere nele, então, por que Deus não salva a todos os homens, posto que todos estão perdidos e desamparados? A resposta de Calvino era: Deus predestinou alguns para serem salvos e outros para serem perdidos. “A predestinação é o eterno decreto de Deus, pelo qual ele decidiu o que será de cada um e de todos os indivíduos. Pois nem todos são criados na mesma condição; mas a vida eterna está preordenada para alguns, e a condenação eterna para outros.” Ao agir dessa maneira Deus não é injusto, pois ele não é obrigado a salvar a ninguém; a responsabilidade do homem permanece, pois a queda de Adão foi sua própria falta, e o homem sempre é responsável por seus pecados.
Posto que Deus predestinou certos indivíduos para a salvação, Cristo morreu unicamente pelos “eleitos”; a expiação fracassaria se alguns pelos quais Cristo morreu se perdessem.
Dessa doutrina da predestinação segue-se o ensino de “uma vez salvo sempre salvo”; porque se Deus predestinou um homem para a salvação, e unicamente pode ser salvo e guardado pela graça de Deus, que é irresistível, então, nunca pode perder-se.
Os defensores da doutrina da “segurança eterna” apresentam as seguintes referências para sustentar sua posição: João 10:28,29: Rom. 11:29; Fil. 1:6; 1 Ped. 1:5; Rom. 8:35; João 17:6.

2. Arminianismo.
O ensino arminiano é como segue: A vontade de Deus é que todos os homens sejam salvos, porque Cristo morreu por todos. (1 Tim. 2:4-6; Heb. 2:9; 2 Cor. 5:14; Tito 2:11,12.) Com essa finalidade ele oferece sua graça a todos. Embora a salvação seja obra de Deus, absolutamente livre e independente de nossas boas obras ou méritos, o homem tem certas condições a cumprir. Ele pode escolher aceitar a graça de Deus, ou pode resistir-lhe e rejeitá-la. Seu direito de livre arbítrio sempre permanece.

As Escrituras certamente ensinam uma predestinação, mas não que Deus predestina alguns para a vida eterna e outros para o sofrimento eterno. Ele predestina ” a todos os que querem” a serem salvos — e esse plano é bastante amplo para incluir a todos que realmente desejam ser salvos. Essa verdade tem sido explicada da seguinte maneira: na parte de fora da porta da salvação lemos as palavras: “quem quiser pode vir”; quando entramos por essa porta e somos salvos, lemos as palavras no outro lado da porta: “eleitos segundo a presciência de Deus”. Deus, em razão de seu conhecimento, previu que essas pessoas aceitariam o evangelho e permaneceriam salvos, e predestinou para essas pessoas uma herança celestial. Ele previu o destino delas, mas não o fixou.
A doutrina da predestinação é mencionada, não com propósito especulativo, e, sim, com propósito prático. Quando Deus chamou Jeremias ao ministério, ele sabia que o profeta teria uma tarefa muito difícil e poderia ser tentado a deixá-la. Para encorajá-lo, o Senhor assegurou ao profeta que o havia conhecido e o havia chamado antes de nascer (Jer. 1:5). Com efeito, o Senhor disse: “Já sei o que está adiante de ti, mas também sei que posso te dar graça suficiente para enfrentares todas as provas futuras e conduzir-te à vitória.” Quando o Novo Testamento descreve os cristãos como objetos da presciência de Deus, seu propósito é dar-nos certeza do fato de que Deus previu todas as dificuldades que surgirão à nossa frente, e que ele pode nos guardar e nos guardará de cair.

3. Uma comparação.
A salvação é condicional ou incondicional? Uma vez salva, a pessoa é salva eternamente? A resposta dependerá da maneira em que podemos responder às seguintes perguntas-chave: De quem depende a salvação? É irresistível a graça?

1) De quem depende, em última análise, a salvação: de Deus ou do homem? Certamente deve depender de Deus, porque, quem poderia ser salvo se a salvação dependesse da força da própria pessoa? Podemos estar seguros disto: Deus nos conduzirá à vitória, não importa quão débeis ou desatinados sejamos, uma vez que sinceramente desejamos fazer a sua vontade. Sua graça está sempre presente para nos admoestar, reprimir, animar e sustentar.
Contudo, não haverá um sentido em que a salvação dependa do homem? As Escrituras ensinam constantemente que o homem tem o poder de escolher livremente entre a vida e a morte, e Deus nunca violará esse poder.
2) Pode-se resistir à graça de Deus? Um dos princípios fundamentais do Calvinismo é que a graça de Deus e irresistível. Quando Deus decreta a salvação de uma pessoa, seu Espírito atrai, e essa atração não pode ser resistida. Portanto, um verdadeiro filho de Deus certamente perseverará até ao fim e será salvo; ainda que caia em pecado, Deus o castigará e pelejará com ele. Ilustrando a teoria calvinista diríamos: é como se alguém estivesse a bordo dum navio, e levasse um tombo; contudo está a bordo ainda; não caiu ao mar.
Mas o Novo Testamento ensina, sim, que é possível resistir à graça divina e resistir para a perdição eterna (João 6:40; Heb. 6:46; 10:26-30; 2 Ped. 2:21; Heb. 2:3; 2 Ped. 1:10), e que a perseverança é condicional dependendo de manter-se em contacto com Deus.
Note-se especialmente Heb. 6:4-6 e 10:26-29. Essas palavras foram dirigidas a cristãos; as epístolas de Paulo não foram dirigidas aos não-regenerados. Aqueles aos quais foram dirigidas são descritos como havendo sido uma vez iluminados, havendo provado o dom celestial, participantes do Espírito Santo, havendo provado a boa Palavra de Deus e as virtudes do século futuro. Essas palavras certamente descrevem pessoas regeneradas.
Aqueles aos quais foram dirigidas essas palavras eram critãos hebreus, que, desanimados e perseguidos (10:32-39), estavam tentados a voltar ao Judaísmo. Antes de serem novamente recebidos na sinagoga, requeria-se deles que, publicamente, fizessem as seguintes declarações (10:29): que Jesus não era o Filho de Deus; que seu sangue havia sido derramado justamente como o dum malfeitor comum; e que seus milagres foram operados pelo poder do maligno. Tudo isso está implícito em Heb. 10:29. (Que tal repúdio da fé podia haver sido exigido, é ilustrado pelo caso dum cristão hebreu na Alemanha, que desejava voltar à sinagoga, mas foi recusado porque desejava conservar algumas verdades do Novo Testamento.) Antes de sua conversão havia pertencido à nação que crucificou a Cristo; voltar à sinagoga seria de novo crucificar o Filho de Deus e expô-lo ao vitupério; seria o terrível pecado da apostasia (Heb. 6:6); seria como o pecado imperdoável para o qual não há remissão, porque a pessoa que está endurecida a ponto de cometê-lo não pode ser “renovada para arrependimento”; seria digna dum castigo mais terrível do que a morte (10:28); e significaria incorrer na vingança do Deus vivo (10:30, 31).
Não se declara que alguém houvesse ido até esse ponto; de fato , o autor está persuadido de “coisas melhores” (6:9). Contudo, se o terrível pecado da apostasia da parte de pessoas salvas não fosse ao menos remotamente possível, todas essas admoestações careceriam de qualquer fundamento.
Leia-se 1 Cor. 10:1-12. Os coríntios se haviam jactado de sua liberdade cristã e da possessão dos dons espirituais. Entretanto, muitos estavam vivendo num nível muito pobre de espiritualidade. Evidentemente eles estavam confiando em sua “posição” e privilégios no Evangelho. Mas Paulo os adverte de que os privilégios podem perder-se pelo pecado, e cita os exemplos dos israelitas. Estes foram libertados duma maneira sobrenatural da terra do Egito, por intermédio de Moisés, e, como resultado, o aceitaram como seu chefe durante a jornada para a Terra da Promissão. A passagem pelo Mar Vermelho foi um sinal de sua dedicação à direção de Moisés. Cobrindo-os estava a nuvem, o símbolo sobrenatural da presença de Deus que os guiava. Depois de salvá-los do Egito, Deus os sustentou, dando-lhes, de maneira sobrenatural, o que comer e beber. Tudo isso significava que os israelitas estavam em graça, isto é: no favor e na comunhão com Deus.
Mas “uma vez em graça sempre em graça” não foi verdade no caso dos israelitas, pois a rota de sua jornada ficou assinalada com as sepulturas dos que foram destruídos em conseqüência de suas murmurações, rebelião e idolatria. O pecado interrompeu sua comunhão com Deus, e, como resultado, caíram da graça. Paulo declara que esses eventos foram registrados na Bíblia para advertir os cristãos quanto à possibilidade de perder os mais sublimes privilégios por meio do pecado deliberado.

4. Equilíbrio escriturístico.
As respectivas posições fundamentais, tanto do Calvinismo como do Arminianismo, são ensinadas nas Escrituras. O Calvinismo exalta a graça de Deus como a única fonte de salvação — e assim o faz a Bíblia; o Arminianismo acentua a livre vontade e responsabilidade do homem — e assim o faz a Bíblia. A solução prática consiste em evitar os extremos antibíblicos de um e de outro ponto de vista, e em evitar colocar uma idéia em aberto antagonismo com a outra. Quando duas doutrinas bíblicas são colocadas em posição antagônica, uma contra a outra, o resultado é uma reação que conduz ao erro. Por exemplo: a ênfase demasiada à soberania e à graça de Deus na salvação pode conduzir a uma vida descuidada, porque se a pessoa é ensinada a crer que conduta e atitude nada têm a ver com sua salvação, pode tornar-se negligente. Por outro lado, ênfase demasiada sobre a livre vontade e responsabilidade do homem, como reação contra o Calvinismo, pode trazer as pessoas sob o jugo do legalismo e despojá-las de toda a confiança de sua salvação. Os dois extremos que devem ser evitados são: a ilegalidade e o legalismo.

Quando Carlos Finney ministrava em uma comunidade onde a graça de Deus havia recebido excessiva ênfase, ele acentuava muito a responsabilidade do homem. Quando dirigia trabalhos em localidades onde a responsabilidade humana e as obras haviam sido fortemente defendidas, ele acentuava a graça de Deus. Quando deixamos os mistérios da predestinação e nos damos à obra prática de salvar as almas, não temos dificuldades com o assunto. João Wesley era arminiano e George Whitefield calvinista. Entretanto, ambos conduziram milhares de almas a Cristo.
Pregadores piedosos calvinistas, do tipo de Carlos Spurgeon e Carlos Finney, têm pregado a perseverança dos santos de tal modo a evitar a negligência. Eles tiveram muito cuidado de ensinar que o verdadeiro filho de Deus certamente perseveraria até ao fim, mas acentuaram que se não perseverassem, poriam em dúvida o fato do seu novo nascimento. Se a pessoa não procurasse andar na santidade, dizia Calvino, bem faria em duvidar de sua eleição.
É inevitável defrontarmo-nos com mistérios quando nos propomos tratar as poderosas verdades da presciência de Deus e a livre vontade do homem; mas se guardamos as exortações práticas das Escrituras, e nos dedicamos a cumprir os deveres específicos que se nos ordenam, não erraremos. “As coisas encobertas são para o Senhor Deus, porém as reveladas são para nós” (Deut. 29:29).
Para concluir, podemos sugerir que não é prudente insistir falando indevidamente dos perigos da vida cristã. Maior ênfase deve ser dada aos meios de segurança — o poder de Cristo como Salvador; a fidelidade do Espírito Santo que habita em nós, a certeza das divinas promessas, e a eficácia infalível da oração. O Novo Testamento ensina uma verdadeira “segurança eterna”, assegurando-nos que, a despeito da debilidade, das imperfeições, obstáculos ou dificuldades exteriores, o cristão pode estar seguro e ser vencedor em Cristo. Ele pode dizer com o apóstolo Paulo: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; fomos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rom. 8:35-39).

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PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da bíblia; Tradução Lawrence Olson. São Paulo: Editora Vida, 2006.
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“Duplex Amor Dei”na teologia de Jacobus Arminius.

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Dr. William den Boer, professor de História da Igreja e História dos Dogmas, na Universidade Apeldoornem sua fecunda pesquisa direcionada a teologia arminiana, ressalta um conceito arminianio anuviado por outros temas que permeiam o debate em torno da teologia de Jacobus Arminius, principalmente a questão do livre arbítrio. O conceito é o mesmo termo que deu o título para um de seus livros, a saber: Duplex Amor Dei, ou, amor duplo de Deus
Apesar de reformadoDr Willian den Boer, procura desmistificar algumas ideias equivocadas sobre Arminius e sua teologia. De Boer destaca que a teologia arminiana é pouco estudada e consequentemente mal compreendida.
Em sua citada obra, ele defende, que e a preocupação central da teologia arminiana é destacar a justiça de Deus, apesar de ressaltar, que este tema não se desassocia de outros, estão todos interligados; o destaque ao livre arbítrio humano na teologia arminiana, surge como consequência à centralidade da justiça de Deus. Além de destacar a justiça de Deus, Armínius destaca que a escolha do pecado é do homem em sua completa liberdade para escolher, e, portanto, o mesmo é inteiramente responsável pelo pecado e suas consequências. Deus criou o homem com livre arbítrio, que se manteve após a queda. Percebe-se a justiça de Deus em sua permissão ao exercício da liberdade de escolha do homem. Este homem, em seu livre arbítrio, é inteiramente responsável por todo o pecado, e assim sendo, Deus não pode nunca ser o seu autor. O livre-arbítrio é essencial ao ser humano. Deus criou o homem com a capacidade de exercer escolhas e o trata de forma justa (entendendo por justiça como dar a alguém o lhe é devido). Sem liberdade real do homem, Deus seria o autor de tudo, inclusive o pecado e o mal.
Após a queda de Adão, Deus chama toda a raça humana para a participação numa Nova Aliança. Ele oferece a salvação para todas as pessoas, tendo sua justiça, fundamentada no sacrifício substitutivo de Cristo. “Segundo Arminius, Deus em sua graça preveniente, disponibiliza todos os meios necessários para que o homem, em sua liberdade, receba a salvação, sendo que o homem a recebe somente através da fé em Cristo, por intermédio da sua graça”. Willian den Boer ressalta que na teologia de Jacobus Arminius, “Deus toma a iniciativa para a Nova Aliança. Ele vê no sacrifício vicário de Cristo a satisfação de Sua justiça, é Cristo que dá os meios da graça. O homem possui a livre vontade, e continuamente depende da graça Deus”. Arminius enfatiza que o homem é sempre responsável pela sua descrença, e a sua recusa em aceitar a oferta da graça de Deus, nesta ênfase desfaz-se da tese calvinista da predestinação absoluta. Predestinação incondicional em última análise, significa que as pessoas não têm nenhuma responsabilidade e que Deus seria a causa da incredulidade e do pecado. Crença e descrença seria uma necessidade, atribuída por Deus “.
Sobre os problemas que as pessoas vêm nas possibilidades escolhas do homem caído, De Boer afirma: “Mas Armínio salientou que a escolha do homem, realmente, nunca pode ser uma boa opção sem a graça de Deus.”, isso indica que o homem não tem mérito em sua boa escolha, ela sempre está atrelada a ação da graça de Deus. Normalmente os calvinistas sempre usam o termo “arminiano” em suas críticas aos evangélicos. Eles dão demasiada ênfase sobre “a escolha pessoal a Jesus, sem a ação da graça de Deus. “Isso não é o que Arminius tinha em mente”, explica a diferença Den Boer“Deus está sempre ativamente a encorajar as pessoas a escolher; sem a graça de Deus, seu o incentivo não estaria lá. Mas não há compulsão irressitivel de Deus, Deus, desta forma faz justiça à liberdade essencial do ser humano. Mas o homem não é um indivíduo autônomo que opta por Deus, o homem sem a graça não escolhe próprio bem”. Antes da queda, o homem percebia o bem com clareza, por que Deus, o Sumo Bem, não havia se afastado do homem, após a queda, o homem afetado, só escolhe o bem, com o auxílio da graça. Depois da queda, apesar de continuar com o seu livre arbítrio, ela jamais pode fazer uma escolha virtuosa pois só visualiza e conhecer o que é mal. Por isso, que só faz bom uso do seu livre arbítrio a partir da graça, que mostra a opção virtuosa ao homem.
O teólogo Holandês, também ressalta acertadamente que Arminius não era pelagiano como afirmam os calvinistas, destacando que Arminius considerava que a nossa salvação depende da graça de Deus.

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Em seu livro “Duplex Amor Dei. Características contextuais da teologia de Jacobus Arminius (1559-1609)”Den Boer indica que Arminius acreditava que a doutrina da predestinação de CalvinoBeza e seus seguidores, assim como Gomarus, faz significar que Deus é o autor do pecado. É perceptível que a consequência final da doutrina da predestinação defendida no calvinismo é que Deus é o autor do pecado. Mas ao invés de pensar sobre isso, é dito que isto é entendido devido à estreiteza de nossas mentes. Arminius não aceitou essa justificativa. Sobre isto, citando apenas um exemplo, ele comentou que poderia ser declarado que Deus criou os homens à perdição, coisa que acreditava ser uma ideia contrária à justiça de Deus. Para evitar esse sentimento contraditório, Arminius destaca a justiça de Deus. A justiça de Deus se refletiu no seu amor duplo (duplex amor Dei “). O amor primário de Deus pela ação da sua justiça, demostrando ódio ao pecado e o secundário, em sua relação graciosa com a criatura humana. No conceito de duplo amorArminius segundo De Boer, se afasta da Teologia Reformada, na questão da relação entre o conhecimento de Deus e sua vontade. Na questão se o conhecimento de Deus existe antes da vontade de Deus, ou vice-versa, os Teólogos reformados ensinam que a vontade de Deus “é” antes de seu conhecimento. Em primeiro lugar, Deus quer o que os pecadores fazem, então ele sabe quem ele quer bem-aventurados. A Criação de Deus e a predestinação são dominadas por sua vontade livre e soberana. Claro que falamos aqui de uma forma humana, sabendo que o conhecimento de Deus está posicionado na eternidade e entendendo a complexidade desse assunto. Teologicamente falando, esse juízo é feito como organização ao pensamento.
Atrás da análise do amor de Deus está a questão da relação entre a essência de Deus e seus atributos. Deus e Seus atributos de perfeição são idênticos, mas em nossa compreensão, os vemos como propriedades diferentes. A distinção entre os atributos de Deus é uma distinção virtual – não real em si .
Os atributos de Deus não são os sentimentos de Deus. Justiça, bondade, amor e graça, são atributos de sua plenitude. O amor de Deus (Amor “) é a determinação de seu amor eterno, decretando que homem seja eleito para a salvação, pela graça de Cristo através da fé.
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Deve-se considerar a manifestação do amor de Deus de duas formas, ou seja, um duplo amor de Deus: o primeiro deles é o amor à justiça [ou justiça], pelo qual Deus mostra o seu ódio ao pecado. O segundo é um amor pela criatura, é um amor pelo homem, segundo a expressão do apóstolo aos Hebreus: “Porque o que vem a Deus deve cer que Ele existe e que é galardoador dos que o buscam “(Hb 11:6).
Den Boer assim define o duplo amorArminius identifica o duplo amor de Deus como fundamento da religião em geral, e da religião cristã, em particular. A primeira e mais importante é o amor pela justiça, o segundo e subordinado amor, é para a humanidade. O último é subordinado, porque há uma coisa que o limita: o amor de Deus pela justiça. Em outras palavras, Deus pode amar uma única pessoa, quando sua justiça foi satisfeita com relação a essa pessoa.”

Fonte: Ideário Arminiano

 

Uma Análise do Calvinismo

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____________________________________________________________________________  Philip Schaff

(History of the Christian Church, Volume 7, Capítulo XIV, § 114)

 

Não podemos deixar este importante assunto sem examinar o sistema calvinista da predestinação à luz da experiência cristã, da razão e do ensino da Bíblia.

 

O Calvinismo, como vimos, começa de um duplo decreto de predestinação absoluta, que precede a criação, e é o plano divino da história humana. Este plano inclui os estágios sucessivos da criação do homem, uma queda e condenação universal da raça, uma redenção e salvação parcial, e uma reprovação e perdição parcial: tudo para a glória de Deus e para a demonstração de seus atributos de misericórdia e justiça. A história é somente a execução do propósito original. Não pode haver nenhuma falha. O início e o fim, o plano imutável de Deus e o resultado da história do mundo, devem estar em harmonia.

 

Devemos lembrar logo no início que temos que lidar aqui com nada menos do que a solução do problema do mundo, e devemos abordá-la com reverência e um senso humilde de limitação de nossas capacidades mentais. Estamos situados, por assim dizer, ante uma montanha cujo topo está perdido nas nuvens. Muitos que ousaram subir ao cume perderam sua visão nos ofuscantes montes de neve. Dante, o mais profundo pensador entre os poetas, considera o mistério da predestinação distante demais dos mortais que não podem ver “a primeira causa em sua totalidade,” e profunda demais até para a compreensão dos santos no Paraíso, que desfrutam a visão beatífica, todavia “não conhecem todos os eleitos,” e estão satisfeitos por “desejar o que quer que Deus queira.”[1] O próprio Calvino confessa que, “a predestinação de Deus é um emaranhamento, do qual a mente do homem de forma alguma consegue desprender-se.”[2]

 

A única saída do emaranhamento é o fio de Ariadne do amor de Deus em Cristo, e este é um ainda maior, mas mais santo mistério, que podemos adorar antes que compreender.

 

OS FATOS DA EXPERIÊNCIA.

 

Encontramos em todo lugar neste mundo os traços de um Deus revelado e de um Deus oculto; revelado o suficiente para fortalecer nossa fé, oculto o suficiente para testar nossa fé.

 

Estamos cercados de mistérios. No reino da natureza vemos os contrastes de luz e trevas, dia e noite, calor e frio, verão e inferno, vida e morte, vales florescentes e desertos infecundos, pássaros canoros e serpentes venenosas, animais benéficos e bestas vorazes, a luta pela existência e a sobrevivência dos mais aptos. Passando para a vida humana, descobrimos que um homem nasce para a prosperidade, outro para a miséria; um rei, outro mendigo; um forte e saudável, o outro um paralítico desamparado; um gênio, o outro um ignorante; um inclinado à virtude, outro ao vício; um filho de um santo, o outro de um criminoso; um na escuridão do paganismo, outro na luz do Cristianismo. Tanto os melhores quanto os piores homens estão expostos a acidentes fatais, e nações inteiras com sua prole inocente são assoladas e dizimadas pela guerra, pestilência e fome.

 

Quem pode explicar todos estes e mil outras diferenças e problemas desconcertantes? Eles estão além do controle da vontade do homem, e devem ser achados na vontade inescrutável de Deus, cujos caminhos estão além da nossa compreensão.

 

Aqui, então, está a predestinação, e, aparentemente, uma dupla predestinação para o bem ou mal, para a alegria ou miséria.

 

Pecado e morte são fatos universais que ninguém em sã consciência pode negar. Eles constituem o problema dos problemas. E a única solução prática do problema é o fato da redenção. “Onde o pecado abundou, superabundou a graça; para que, assim como o pecado veio a reinar na morte, assim também viesse a reinar a graça pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 5.20, 21).

 

Se a redenção fosse tão universal em sua operação quanto o pecado, a solução seria mais satisfatória e mais gloriosa. Mas a redenção é somente em parte revelada neste mundo, e a grande questão permanece: O que será da imensa maioria dos seres humanos que vivem e morrem sem Deus e sem esperança neste mundo? Este terrível fato deve ser achado no eterno conselho de Deus ou na livre agência do homem? Aqui está o ponto onde o Agostinianismo e o Calvinismo discordam do Pelagianismo, do Semipelagianismo, do Sinergismo e do Arminianismo.

 

O sistema calvinista envolve uma verdade positiva: a eleição para a vida eterna pela graça livre, e a inferência negativa: a reprovação para a morte eterna pela justiça arbitrária. A primeira é a força, a última é a fraqueza do sistema. A primeira é praticamente aceita por todos os crentes verdadeiros; a última sempre foi, e sempre será, rechaçada pela grande maioria dos cristãos.

 

A doutrina de uma eleição graciosa é tão claramente ensinada no Novo Testamento quanto qualquer outra doutrina. Consulte passagens como Mt 25.34; Jo 6.37, 44, 65; 10.28; 15.16; 17.12; 18.9; At 13.48; Rm 8.28-39; Gl 1.4; Ef 1.4-11; 2.8-10; 1Ts 1.4; 2Ts 2.13-14; 2Tm 1.9; 1Pe 1.2. A doutrina é confirmada pela experiência. Os cristãos traçam todas as suas bênçãos temporais e espirituais, suas vidas, saúde, e força, sua regeneração e conversão, todo bom pensamento e obra à graça imerecida de Deus, e esperam ser salvos unicamente pelos méritos de Cristo, “pela graça, por meio da fé,” não pelas suas próprias obras. Quanto mais avançam na vida espiritual, mais gratos se sentem a Deus, e menos inclinados a reivindicar algum mérito. Os maiores santos são também os mais humildes. Sua teologia reflete o espírito e atitude de oração, que se apóia na convicção de que Deus é o livre doador de todo bem e dom perfeito, e que, sem Deus, não somos nada. Diante do trono da graça todos os cristãos podem ser chamados de agostinianos e calvinistas.

 

O grande mérito de Calvino é ter apresentado esta doutrina da salvação pela livre graça mais vigorosa e claramente do que qualquer teólogo desde os dias de Agostinho. Ela tem sido o tema eficaz dos grandes pregadores e escritores calvinistas na Europa e América até o dia de hoje. Howe, Owen, Baxter, Bunyan, South, Whitefield, Jonathan Edwards, Robert Hall, Chalmers, Spurgeon, foram calvinistas em seus credos, embora pertencendo a diferentes denominações, – Congregacional, Presbiteriana, Episcopal, Batista, – e não tiveram superiores em força e influência no púlpito. Spurgeon foi o pregador mais popular e eficaz do século dezenove, que se dirigia de semana a semana a cinco mil ouvintes em seu tabernáculo, e milhões de leitores através de seus sermões impressos em muitas línguas. Nem devemos nos esquecer de que alguns dos mais devotos católicos romanos foram agostinianos ou jansenistas.

 

Por outro lado, ninguém é salvo mecanicamente ou pela força, mas por meio da fé, gratuitamente, aceitando o dom de Deus. Isto implica a força contrária de rejeitar o dom. Aceitar não é nenhum mérito, rejeitar é ingratidão e culpa. Todos os pregadores calvinistas apelam à responsabilidade do homem. Eles oram como se tudo dependesse de Deus; e, no entanto pregam e agem como se tudo dependesse do homem. E a Igreja é instruída a enviar o evangelho a toda criatura. Oramos pela salvação de todos os homens, mas não pela perda de um único ser humano. Cristo intercedeu até mesmo por seus assassinos na cruz.

 

Aqui, então, está uma dificuldade prática. O decreto da reprovação não pode ser feito objeto de oração ou pregação, e este é um argumento contra ele. A experiência confirma a eleição, mas repudia a reprovação.

 

O ARGUMENTO LÓGICO.

 

O argumento lógico para a reprovação é que não pode haver nenhum positivo sem um negativo; nenhuma eleição de alguns sem uma reprovação de outros. Isto é verdadeiro por lógica dedutiva, mas não por lógica indutiva. Há graus e fases de eleição. Deve haver uma ordem cronológica na história da salvação. Todos são chamados mais cedo ou mais tarde; alguns na sexta, outros na nona, outros na décima primeira hora, de acordo com a providência de Deus. Aqueles que aceitam a chamada e perseveram na fé estão entre os eleitos (1Pe 1.1; 2.9). Aqueles que a rejeitam se tornam reprovados por sua própria incredulidade, e contra o desejo e vontade de Deus. Não há nenhum decreto antecedente de reprovação, mas somente um ato judicial de reprovação em consequência do pecado do homem.

 

A lógica é uma espada de duas pontas. Ela pode levar das premissas predestinacionistas à conclusão de que Deus é o autor do mal, o que o próprio Calvino rejeita e abomina como blasfêmia. Ela pode também levar ao fatalismo, panteísmo ou universalismo. Devemos parar em algum lugar em nosso processo de raciocínio, ou sacrificar uma parte da verdade. A lógica, deve ser lembrado, lida somente com categorias finitas, e não pode compreender verdade infinita. O Cristianismo não é um problema lógico ou matemático, e não pode ser reduzido às limitações de um sistema humano. Ele está acima de qualquer sistema particular e abrange as verdades de todos os sistemas. Está acima da lógica, todavia não é ilógico; como a revelação está acima da razão, todavia não contra a razão.

 

Não podemos imaginar Deus exceto como um ser onisciente e onipotente, que da eternidade previu e, de alguma forma, também preordenou todas as coisas que acontecem em seu universo. Ele previu o que preordenou, e preordenou o que previu; sua presciência e preordenação, sua inteligência e vontade são coeternas, e devem harmonizar-se. Não há nenhuma sucessão de tempo, nem antes nem depois no Deus eterno. A queda do primeiro homem, com seus efeitos sobre todas as futuras gerações, não pode ter sido um acidente que Deus, como um espectador passivo e neutro, simplesmente permitiu que acontecesse quando ele podia tão facilmente ter evitado. Ele deve de alguma forma ter preordenado a queda, como um meio para um fim maior, como uma condição negativa para o maior bem. Até agora a força do raciocínio, baseado na crença em um Deus pessoal, vai até o extremo do supralapsarianismo calvinista, e até mesmo além dele, à própria margem do universalismo. Se abandonarmos a ideia de um Deus autoconsciente, pessoal, a razão nos forçaria ao fatalismo ou panteísmo.

 

Mas há uma lógica da ética assim como da metafísica. Deus é santo assim como todo-poderoso e onisciente, e por essa razão não pode ser o autor do pecado. O homem é um ser tanto moral quanto intelectual, e as afirmações de sua constituição moral são iguais às suas afirmações de sua constituição intelectual. A consciência é um fator tão poderoso quanto à razão. O crente mais rígido na soberania divina, se cristão, não pode se livrar do senso de responsabilidade pessoal, apesar de incapaz de reconciliar as duas. A harmonia jaz em Deus e na constituição moral do homem. Elas são os dois lados complementares de uma verdade. Paulo as une em uma sentença: “Efetuai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13). O problema, entretanto, chega dentro do alcance da solução possível, se distinguirmos entre soberania como um poder inerente e o exercício da soberania. Deus pode limitar o exercício de sua soberania para dar lugar à livre ação de suas criaturas. É por seu decreto soberano que o homem é livre. Sem essa autolimitação ele não poderia exortar os homens ao arrependimento e à fé. Aqui, novamente, a lógica calvinista deve curvar-se ou partir-se. Estritamente executada, ela transformaria as exortações de Deus aos pecadores em uma solene zombaria e cruel ironia.

 

O ARGUMENTO DA ESCRITURA.

 

Calvino, embora um dos mais hábeis lógicos, se preocupou menos com a lógica do que com a Bíblia, e foi sua obediência à Palavra de Deus que o induziu a aceitar o decretam horribile contra seu desejo e vontade. Seu julgamento é da maior importância, pois ele não teve ninguém superior, e dificilmente alguém à altura, em conhecimento pleno e sistemático da Bíblia e em discernimento exegético.

 

E aqui devemos espontaneamente admitir que um número considerável de passagens, especialmente no Velho Testamento, favorecem um duplo decreto até o limite do extremo supralapsarianismo; sim, eles vão além do sistema calvinista, e parecem fazer do próprio Deus o autor do pecado e do mal. Veja Êx 4.21; 7.13 (repetidamente citado sobre o endurecimento do coração do Faraó por Deus); Is 6.9, 10; 44.18; Jr 6.21; Am 3.6 (“Sucederá qualquer mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?”); Pv 16.4; Mt 11.25; 13.14, 15; Jo 12.40; Rm 9.10-23; 11.7, 8; 1Co 14.3; 2Ts 2.11; 1Pe 2.8; Jd 4 (“que já desde há muito estavam destinados para este juízo”).[3]

 

A defesa da reprovação é o nono capítulo de Romanos. Não foi acidental que Calvino elaborou e publicou a segunda edição de suas Institutas simultaneamente com seu Comentário sobre Romanos, em Estrasburgo, em 1539.

 

Há especialmente três passagens em Rm 9, que em seu sentido literal favorecem o Calvinismo extremado, e são assim explicadas por alguns dos mais rigorosos comentaristas gramaticais dos tempos modernos (como Meyer e Weiss).

 

(a) 9.13: “Amei a Jacó, e aborreci a Esaú,” citado de Ml 1.2, 3. Esta passagem, se a tomarmos num sentido literal ou antropopático, não tem nenhuma referência com o destino eterno de Jacó e Esaú, mas com a posição representativa na história da teocracia. Isto remove a principal dificuldade. Esaú recebeu uma bênção temporal de seu pai (Gn 27.39, 40), e se comportou gentil e generosamente com seu irmão (33.4); ele provavelmente se arrependeu da estupidez de sua juventude de vender sua primogenitura,[4] e pode estar entre os salvos, assim como Adão e Eva – os primeiros entre os perdidos e os primeiros entre os salvos.

 

Além disso, o significado rígido de um ódio positivo parece impossível na natureza do caso, visto que contradiria tudo que conhecemos da Bíblia dos atributos de Deus. Um Deus de amor, que nos comanda a amar todos os homens, até os nossos inimigos, não pode odiar uma criança antes de seu nascimento, ou qualquer de suas criaturas feitas à sua própria imagem. “Pode uma mulher esquecer-se de seu filho de peito,” diz o Senhor, “de maneira que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse, eu, todavia, não me esquecerei de ti” (Is 49.15). Esta é a concepção do profeta das afáveis misericórdias de Deus. Quanto mais deve ser a concepção do Novo Testamento? A palavra ódio deve, por essa razão, ser entendida como uma expressão hebraística forte para amar menos ou recusar; como em Gn 29.31, onde o texto original diz, “Léia era odiada” por Jacó, isto é, amada menos do que Raquel (comp. v. 30). Quando nosso Salvador diz, Lc 14.26: “Se alguém vier a mim, e não odiar a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo,” ele não quer dizer que seus discípulos devem violar o quinto mandamento, e agir de forma contrária à sua orientação: “Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44), mas simplesmente que devemos preferir a ele acima de tudo, até da própria vida, e devemos sacrificar o que quer que venha em conflito com ele. Este significado é confirmado pela passagem paralela, Mt 10.37: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim”

 

(b) Rm 9.17. Paulo traça o endurecimento do coração do Faraó à intervenção de Deus, e até então faz Deus o responsável pelo pecado. Mas este era um ato judicial de punir o pecado com pecado; pois Faraó tinha primeiro endurecido seu próprio coração (Êx 8.15, 32; 9.34). Além disso, esta passagem não tem nenhuma referência com o destino futuro do Faraó mais do que a passagem sobre Esaú, mas ambas se referem aos seus lugares na história de Israel.

 

(c) Em 9.22 e 23, o apóstolo fala de “vasos da ira, preparados para a perdição,” e “vasos de misericórdia, que (Deus) preparou para a glória.” Mas a diferença dos verbos, e as diferenças entre a passiva (ou média) na primeira frase e a ativa na segunda é mais significante, e mostra que Deus não tem nenhuma interferência direta na destruição dos vasos da ira, que é devido à sua autodestruição; o particípio perfeito denota o resultado de um processo gradual e um estado de maturidade para a destruição, mas não um propósito divino. Calvino é um exegeta bom demais para negligenciar esta diferença, e verdadeiramente admite sua força, embora tentasse enfraquecê-la.

 

“Eles observam,” ele diz de seus oponentes, “que não é dito sem propósito, que os vasos da ira são preparados para a destruição, mas que Deus preparou os vasos de misericórdia; visto que por este modo de expressão, Paulo atribui a Deus o louvor da salvação, e lança a culpa da perdição naqueles que por suas escolhas a obtêm para si mesmos. Mas embora concorde com eles que Paulo suaviza a asperidade da primeira frase pela diferença de fraseologia; todavia não é consistente transferir a preparação para a destruição a qualquer outra coisa que não o secreto conselho de Deus, que também é afirmado bem antes no contexto, ‘que Deus levantou a Faraó, e quem ele quer ele endurece.’ De onde segue que a causa do endurecimento é o conselho secreto de Deus. Por essa razão, sustento, o que é observado por Agostinho, que quando Deus transforma lobos em ovelhas, ele os renova pela mais poderosa graça para conquistar sua obstinação; e por essa razão os obstinados não são convertidos, pois Deus exerce, não aquela graça mais poderosa, da qual não está destituído se escolhesse mostrá-la.”[5]

 

O ENSINO DE PAULO DA EXTENSÃO DA REDENÇÃO.

 

Qualquer que seja a opinião que possamos tirar destas difíceis passagens, devemos lembrar que o nono capítulo de Romanos é somente uma parte da filosofia da história de Paulo, revelada nos capítulos 9-11. Enquanto o nono capítulo estabelece a soberania divina, o décimo capítulo afirma a responsabilidade humana, e o décimo primeiro avança para a solução futura do misterioso problema, a saber, a conversão da plenitude dos gentios e a salvação de todo o Israel (11.25). E ele encerra toda a discussão com a gloriosa sentença: “Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos” (32). Esta é a chave para o entendimento, não apenas desta seção, mas de toda a epístola aos Romanos.[6]

 

E isto está em harmonia com todo o espírito e objetivo desta epístola. É mais fácil fazê-la provar um sistema de universalismo condicional do que um sistema de particularismo dualístico. O próprio tema, 1.16, declara que o evangelho é o poder de Deus para salvação, não de uma classe particular, mas de “todo aquele” que crê. Ao traçar um paralelo entre o primeiro e o segundo Adão (5.12-21), ele representa o efeito do último como igual em extensão, e maior em intensidade, do que o efeito do primeiro; enquanto no sistema calvinista deveria ser menos. Não temos direito de limitar “os muitos” e o “todos” em uma frase, e a tomarmos literalmente na outra. “Porque, se pela ofensa de um só [Adão], a morte veio a reinar por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Portanto, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação e vida. Porque, assim como pela desobediência de um só homem muitos [isto é, todos] foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um muitos [todos] serão constituídos justos” (5.17-19).[7] O mesmo paralelo, sem qualquer restrição, é mais brevemente expressado na passagem (1Co 15.22): “Como em Adão todos morrem, do mesmo modo em Cristo todos serão vivificados;” e de uma forma diferente em Rm 11.32 e Gl 3.22, já citadas.

 

Estas passagens contêm, resumidamente, a teodiceia de Paulo. Elas dissipam a obscuridade do nono capítulo de Romanos. Elas excluem todas as limitações do plano e intenção de Deus a uma classe particular; elas não ensinam, de fato, que todos os homens serão na verdade salvos – pois muitos rejeitam a oferta divina, e morrem na impenitência, – mas que Deus sinceramente deseja e verdadeiramente provê salvação para todos. Quem quer que seja salvo, é salvo pela graça; quem quer que seja perdido, é perdido por sua própria culpa da incredulidade.

 

A OFERTA DA SALVAÇÃO.

 

Ainda resta, é verdade, a grande dificuldade que a oferta de salvação é limitada neste mundo, até onde sabemos, a uma parte da raça humana, e que a grande maioria passa por este mundo sem qualquer conhecimento do Cristo histórico.

 

Mas Deus deu a todo homem a luz da razão e da consciência (Rm 1.19; 2.14, 15). O Logos Divino “alumia a todo homem” que vem ao mundo (Jo 1.9). Deus nunca deixou de “dar testemunho” de si mesmo (At 14.17). Ele lida com suas criaturas de acordo com a medida de sua capacidade e oportunidade, se têm um, cinco ou dez talentos (Mt 25.15 sqq.). Ele “não faz acepção de pessoas; mas que lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo” (At 10.35).

 

Não podemos, então, nutrir ao menos uma esperança generosa, se não uma crença firme, que um Deus de infinito amor e justiça irá receber em seu reino celestial todos aqueles que morrem inocentemente ignorantes da revelação cristã, mas em estado de boa vontade ou disposição para o evangelho, de modo que eles aceitariam agradecidamente se ele lhes fosse oferecido? Cornélio estava nessa condição antes de Pedro entrar em sua casa, e ele representa uma multidão que ninguém pode enumerar. Não podemos saber e medir as operações secretas do Espírito de Deus, que trabalha “quando, onde, e como quer.”

 

Certamente, aqui está um ponto onde o rigor da velha ortodoxia, se católica romana, ou luterana, ou calvinista, deve ser moderada. E o sistema calvinista admite uma expansão mais facilmente do que o tipo de ortodoxia eclesiástica e sacramental.

 

O AMOR GERAL DE DEUS POR TODOS OS HOMENS.

 

Esta doutrina de uma vontade e provisão divina de uma salvação universal, sob a única condição de fé, é ensinada em muitas passagens que não admitem nenhuma outra interpretação, e que devem, por essa razão, decidir toda esta questão. Pois é uma regra estabelecida em hermenêutica que passagens obscuras devem ser explicadas por passagens claras, e não vice versa. Tais passagens são as seguintes: –

 

“Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor Deus; convertei-vos, pois, e vivei” (Ez 18.32, 23; 33.11). “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” (Jo 12.32). “Porque Deus amou o mundo” (isto é, toda a humanidade) “de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). “Deus nosso Salvador deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2.4).[8] “Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens” (Tt 2.11). “O Senhor é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se” (2Pe 3.9).[9] “Jesus Cristo é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos (os pecados de) de todo o mundo” (1Jo 2.2). É impossível declarar a doutrina de uma expiação universal mais claramente em tão poucas palavras.[10]

 

A estas passagens devem ser acrescentadas as exortações divinas ao arrependimento, ao lamento de Cristo sobre os habitantes de Jerusalém que “não quiseram” vir a ele (Mt 23.37). Estas exortações são insinceras ou sem sentido, se Deus não quer que todos os homens sejam salvos, e se os homens não têm a capacidade de obedecer ou desobedecer a voz. O mesmo está implícito no comando de Cristo para pregar o evangelho a toda a criatura (Mc 16.15), e para fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.19).

 

É impossível restringir estas passagens a uma classe particular sem fazer violência à gramática e ao contexto.

 

A única forma de escape é a distinção entre uma vontade revelada de Deus, que declara sua disposição para salvar todos os homens, e uma vontade secreta de Deus, que pretende salvar somente alguns homens.[11] Agostinho e Lutero fizeram esta distinção. Calvino a usa para explicar 2Pe 3.9, e aquelas passagens do Velho Testamento que atribuem arrependimento e mudanças ao Deus imutável.

 

Mas esta distinção destrói o sistema que se pretende defender. Uma contradição entre intenção e expressão é fatal à veracidade, que é a fundação da moralidade humana, e deve ser um atributo essencial da Divindade. Um homem que diz o inverso do que pretende é chamado, em linguagem clara, de hipócrita e mentiroso. Não ajuda a questão quando Calvino diz, reiteradamente, que não há duas vontades em Deus, mas somente duas formas de falar, adaptadas à nossa fraqueza. Nem remove a dificuldade quando ele nos exorta a confiar na vontade revelada de Deus antes que meditar em sua vontade secreta.

 

A maior, a mais profunda, a mais confortante expressão na Bíblia é a expressão, “Deus é amor,” e o maior fato na história do mundo é a manifestação daquele amor na pessoa e obra de Cristo. Essa expressão e este fato são a soma e substância do evangelho, e a única sólida fundação da teologia cristã. A soberania de Deus é reconhecida por judeus e muçulmanos assim como pelos cristãos, mas o amor de Deus é revelado somente na religião cristã. É a essência íntima de Deus, e a chave para todos os seus caminhos e obras. É a verdade central que irradia luz sobre todas as outras verdades.

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] Paradiso, XX. 130-138: –

“O predestinazion, quanto rimota

È la radice tua da quegli aspetti

Che la prima cagion non veggion tota!

“E voi, mortali, tenetevi stretti

A giudicar; chè noi, che Dio vedemo,

Non conosciamo ancor tutti gli eletti:

“Ed ènne dolce così fatto scemo,

Perchè il ben nostro in questo ben s’affina,

Che quel che vuole Dio, e noi volemo.”

[2] Comentários sobre Rm 9.14: “Est prædestinatio Dei vere labyrinthus, unde hominis ingenium nullo modo se explicare queat.”

[3] A última passagem é freqüentemente citada em favor de um decreto da reprovação, mas o verbo progegrammevnoi está incorretamente traduzido como “ordenados” na E. V. Progravfw significa escrever antes, e se refere aos escritos anteriores, a saber, as Escrituras do Velho Testamento. Calvino corretamente traduz “praescripti in hoc judicium,” mas a refere, metaforicamente, ao livro do conselho divino “aeternum Dei consilium liber vocatur.”

[4] Isto está implícito em Hb 12.17, se aplicarmos metanoia ao arrependimento posterior de Esaú (Calvin, Bleek), ou a uma mudança de opinião em Isaque (Beza, Weiss).

[5] Inst.Veja Mitchell, Minutes of the Westminster Assembly, pp. 152 sqq.; Schaff, Creeds, I. 770 sq. III. cap. XXII. 1. Em seu Comentário sobre Rm 9.22, 23, ele ignora esta distinção e explica kathrtismevna, “abandonados e apontados para destruição, criados e formados para este fim” (devota et destinata exitio: sunt enim vasa iræ, id est in hoc facta et formata, ut documenta sint vindictæ et furoris Dei). Esta é a exposição supralapsariana extrema. Mas outros exegetas reformados completamente reconhecem a diferença de fraseologia. Foi pressionado pelos membros da Assembléia de Westminster que estavam de acordo com o universalismo hipotético da escola de Saumur de Cameron e Amyrauld. “Os não-eleitos,” disse o Dr. Arrowsmith, “são ditos ser preparados para a destruição que seus pecados trouxeram sobre eles, mas não por Deus.”

[6] “Das ganze Summarium und der herrliche Schlussstein des ganzen bisherigen BrieftheilsA frase “judeus e gentios” não ensina, de fato, a aceitação forçada da misericórdia por todos, mas, em qualquer caso, a universalidade do propósito e intenção divinos. Meyer vê nesta passagem um argumento exegético conclusivo contra um decretum reprobationis..” Weiss na 6a. ed. de Meyer sobre Romanos (p. 555). Godet: “C’est ici comme le point final appose à tout ce qui précede; ce dernier mot rend compte de tout le plan de Dieu, dont les phases principales viennent d’être esquissées.”

[7] Infelizmente a A. V. suprime a força do paralelo no quinto capítulo de Romanos ao negligenciar o artigo definido antes depolloiv. “Os muitos” do original é oposto ao “um,” e é equivalente ao “todos;” enquanto “muitos” seria oposto a “poucos.” A Revised Version de 1881 corrige estes erros.

[8] Calvino explica “todos os homens” como sendo homens de todas as classes e condições (“de hominum generibus, non singulis personis”). Veja seu Comentário sobre 1Tm 2.4, e seu sermão sobre a passagem. Mas o apóstolo enfatiza “todos os homens” com referência à oração por “todos os homens,” que ele comanda no versículo 1, e que não pode ser limitada.

[9] Calvino arbitrariamente explica esta passagem da “voluntas Dei quae nobis in evangelio patefit,” mas não “de arcano Dei consilio quo destinati sunt reprobi in suum exitium.”

[10] Calvino entende “totus mundus” nesta passagem como sendo “tota ecclesia!” Isto é tão impossível quanto a restrição do “mundo,” Jo 3.16, aos “eleitos.” Ele menciona, entretanto, também uma melhor explicação, que Cristo morreu “sufficienter pro toto mundo, sed pro electis tantum efficaciter.”

[11] Vários termos para a distinção: voluntas revelata e voluntas arcana; voluntas signi e voluntas beneplaciti; voluntas universalis e voluntas specialis; verbum externum et verbum internum. O texto-prova freqüentemente citado, Dt 29.29, ensina uma distinção, mas não uma contradição, entre as coisas secretas e as coisas reveladas de Deus.