João 5.21

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William W. Klein

 

Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer. Jo 5.21

 

Na defesa de seu relacionamento especial com Deus, Jesus afirma que, como o Pai, o Filho dá vida àquele quequer dá-la. É a vontade de Jesus que determina quem são os recebedores da vida. Esta é uma afirmação da eleição específica: a vontade de Jesus determina exatamente aqueles que ele irá salvar? Calvino está correto quando diz deste versículo, “Ele quer dizer que Ele especialmente favorece somente certos homens, os eleitos, com esta graça”?[1]

 

Talvez devêssemos estabelecer primeiramente que “vida” aqui deve fazer referência à vida eterna ou salvação. O uso do substantivo zoe (vida) no quarto evangelho deixa isso claro (p. ex., Jo 3.15-16, 36; 4.14, 36; 5.24, 29, 39-40; 6.40, 54, 68; 10.28; 11.25). Aqui João usa um composto, zoopoieo, “dar vida”. Não deve haver dúvida que o Pai e o Filho dão a vida eterna. [2] Podemos determinar deste contexto algum esclarecimento da vontade de Jesus – a quem ele deseja dar a salvação? É sua escolha soberana que está em vista aqui?

 

O contexto deixa abundantemente claro qual é o critério para obter a vida ou a salvação. Deve-se “honrar o Filho” (5.23), exatamente o que os judeus não estavam fazendo (5.16-18). Deve-se aceitar o testemunho de João a respeito de Jesus “para que vos salveis” (5.32-34). O testemunho de João a respeito de Jesus é indicado, resumidamente, nas palavras “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (1.29), ou em sua afirmação “Eu vi, e tenho testificado que este é o Filho de Deus” (1.34). “Quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna,” disse Jesus (5.24). Deve-se crer em Jesus (5.38) e vir a ele a fim de obter vida (5.40). Fé em Jesus (5.46) é a explicação.

 

O modo de obter vida é fé em Jesus. Jesus deixa isto claro nesta passagem (e em outras). A afirmação em 5.21, então, não pode significar que Jesus tem alguma vontade secreta, e dá vida somente a algum grupo seleto que ele escolheu. Jesus quer dar vida àqueles que creem nele. Neste confronto com os judeus, Jesus afirma que a vida está disponível somente nos termos do Pai e nos dele. E esse modo é através do Filho. Jesus quer dar vida somente aos crentes nele. [3] O Filho não seleciona arbitrariamente alguns a quem dar vida. O quarto evangelho dá testemunho consistente de que ele dá vida àqueles que creem (3.16, 18, 36; 4.42, 53; 6.40, 47, e outros). [4]

 

Fonte: The New Chosen People, pp. 137, 138

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] Calvino, The Gospel According to St. John, 1-10, 127.

[2] O verbo zoopoieo ocorre somente em outra passagem em Jo, 6.63, onde o Espírito dá vida. Salvação é claramente a questão aqui. Fora de João, ele ocorre em Rm 4.17; 8.11; 1co 15.22, 36, 45; 2Co 3.6; Gl 3.21; e 1Pe 3.18, com vários sentidos.

[3] É interessante que vários manuscritos siríacos antigos na verdade deixam esta interpretação explícita. Eles versam, “… o Filho dá vida àqueles que creem nele” (syrs e syrc). Claramente, esta leitura não é original, mas ela aponta para o correto entendimento do versículo.

[4] Bultmann concorda que não há sentido eletivo em thelei aqui. Antes, ele mostra que Jesus age intencionalmente; “pretende-se salientar a congruência de seu propósito e suas ações” (Bultmann, The Gospel of John. A Commentary, 256). Schnackenburg diz, “A adição de hous thelei, “àqueles que quer”… não implica arbitrariedade mas autoridade, visto que o Filho somente executa a vontade do Pai, que deseja dar a vida eterna a todos que creem no Filho” (The Gospel According to St. John, 2:106; ênfase adicionada).

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O Reino de Deus à Luz das Parábolas de Jesus Um Estudo de Mateus 13.24-50

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Antonio Lazarini Neto

Introdução

Estudar o conceito do Reino de Deus no Novo Testamento constitui-se um grande desafio para os teólogos há gerações. Existe uma tensão evidente nos textos neotestamentários entre o presente e o futuro quando se refere ao reino de Deus.

Em alguns casos, o leitor tem a convicção de que o reino se estabelece no “presente”, enquanto em outros o estabelecimento do reino num tempo “futuro” e indeterminado parece ser mais razoável.

Quem quer aventurar-se a compreender a ideia do Reino de Deus precisará primeiramente aprender a lidar com a noção de tempo do reino. É o que estou chamando aqui de “agora” e “ainda não”, ou seja, agora Deus pode ser o rei sobre aqueles que são obedientes à sua voz, mas ainda não o é sobre todo o mundo. C. H. Dodd diz que Deus é rei de seu povo Israel, e sua autoridade real é efetiva na medida em que Israel é obediente à vontade divina revelada na Torah. [1] Jesus, em Lucas 11.20 e Mateus 12.28, diz que “se expulso demônios pelo Espírito de Deus, é chegado a vós o reino de Deus”. O poder e autoridade sobre os demônios, no ministério de Jesus, era o sinal de que o reino de Deus, de certa forma especial, estava presente. [2] Joachim Jeremias lembra que à pergunta por que os seus discípulos não jejuam, Jesus responde: “Porventura podem os convidados das bodas jejuar enquanto está com eles o noivo?” (Mc 2.19; Mt 9.15 e Lc 5.34). As bodas são, na linguagem figurada do Oriente, imagem do tempo da salvação. [3] Neste sentido, o reino de Deus é um fato presente. Mas, num outro sentido, o reino ainda não chegou, é algo que ainda está por revelar-se. Todos os valores do reino ainda não estão implantados. Assim, o reino também é eschaton, é futuro e final. [4]Miranda propõe que o reino deve ser considerado como a consumação ou a realização do plano ou propósito de Deus. Em vez de o reino vir no fim, deve-se dizer que o reino é o fim, ou que ele põe fim àquilo que não condiz com a vontade de Deus, como se fosse à manifestação final de Deus na qual ele transforma e renova sua obra de forma definitiva, levando-a a perfeição. [5] Neste sentido, o reino de Deus é uma esperança para o futuro, é profético e apocalíptico.

Além desse aspecto cronológico, de tempo, o reino também está exposto no Novo Testamento comunicando a ideia de bem e mal, ou seja, o reino é anunciado para o bem (salvação) quanto para o mal (opressão). [6] O reino tem um caráter redentor como também condenatório. Traz salvação aos que se submeterem ao Rei, todavia traz juízo aos demais. Assim, o reino é de paz, mas também de horror, trará alívio para uns sem deixar de ser uma realidade trágica para outros. Jesus repetidamente levantou a voz para advertir, para abrir os olhos a um povo obcecado. [7]

Torna-se também fundamental, ao estudar o reino de Deus, observar o aspecto da antiguidade do tema. É preciso dar atenção ao fato de que o reino de Deus é a ideia básica do Antigo Testamento; com isso, Jesus não estava pregando algo novo, mas anunciando uma esperança que já tinha longa história em Israel. Se é verdade que não podemos entender o reino de Deus abstraindo-o de suas encarnações históricas concretas, também é verdade que não podemos compreender as esperanças do século I centralizadas em torno dele, sem compreendermos, ao mesmo tempo, sua história particular em Israel.[8] O reino de Deus era objeto das profecias do Antigo Testamento e alimentava a esperança do povo de Iahweh. Assim, o reino não era novidade, mas uma realidade esperada pelas pessoas dos tempos de Jesus.

O Reino de Deus nos Evangelhos

O projeto histórico do Reino de Deus provou ser capaz de sobreviver até mesmo ao colapso da Guerra judaico-romana, inspirando a religião cristã e movendo a esperança daqueles primeiros seguidores de Cristo que viviam na Palestina do século I. O Reino de Deus, conforme revelado nos Evangelhos, concorda a erudição moderna, constituía o centro da mensagem de Jesus. O relato de Marcos demonstra que Jesus iniciou seu ministério falando do Reino: “Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos 1.14-15). Na ótica de Mateus, o resumo do ministério de Jesus está em 4.23: “Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo”.

Nos Evangelhos, a expressão “Reino de Deus” (basileia tou theou) aparece 51 vezes, sendo 4 em Mateus, 14 em Marcos, 31 em Lucas e 2 em João. Além dos Evangelhos a expressão também aparece em Atos e em algumas cartas de Paulo (Romanos, 1 Coríntios, Gálatas, Colossenses e 2 Tessalonicenses) totalizando 65 ocorrências no Novo Testamento. A expressão “Reino dos Céus” (basileia tôn ouranôn) aparece somente em Mateus em 32 ocorrências.[9]

A palavra basileia (Hebraico – malkuth) significa basicamente governo, domínio, poder real. O conceito espacial – ou seja, geográfico – é secundário. No Antigo Testamento e no judaísmo rabínico, o Reino de Deus possui uma dinâmica tal que não é possível restringi-lo ao eschaton, mas denota uma realidade também presente. Conforme G. E. Ladd Deus já é o Rei, mas ele também precisa tornar-se Rei. [10] Isso significa que, embora indiscutivelmente Deus seja Rei, ele ainda há de manifestar sua soberania real no mundo dos homens.

Já a expressão “Reino dos Céus” tem provocado algumas especulações. Em alguns círculos evangélicos têm-se adotado a postura que leva a uma diferenciação entre o Reino de Deus e o Reino dos Céus, sendo este último uma referência ao Reino teocrático terreno conforme prometido a Israel no Antigo Testamento. Visto que Israel rejeitou o domínio de Deus não aceitando seu Messias, Jesus introduziu uma nova mensagem, oferecendo descanso e serviço para todos os que cressem, começando assim uma nova família de fé que participará do Reino de Deus futuro.

Não creio ser essa diferenciação plausível. O “Reino dos Céus” é uma expressão semítica, na qual a expressão “céus” (ouranos) está sendo usada para substituir o nome divino – Deus. Em Lucas 15.18, no relato do chamado “filho pródigo”, temos um exemplo disso. Ali quando diz “Pai pequei contra o céu e diante de ti” está claro que “céu” substitui Deus. É contra Deus que o filho está dizendo ao pai que pecou. Para Ladd desde que a tradição dos Evangelhos mostra que Jesus não criticou de modo consistente a palavra “Deus”, isto é, o uso do nome divino – Deus é possível que o “Reino dos Céus” seja uma expressão nativa judaico-cristã, a qual preservou a tradição do evangelho encontrada em Mateus, em lugar de refletir o uso real feito por Jesus. É possível que Ele tenha usado ambas as frases e os evangelhos que foram originalmente escritos para um público gentio, omitiram a expressão semítica, pois essa não faria sentido aos seus ouvidos. Mateus evita usar a palavra Deus, tal como muitos judeus do seu tempo, e a substitui pelo eufemismo “céus”. Assim, as duas expressões em significado são idênticas e tratam de um mesmo reino. [11]

Por toda a extensão dos Evangelhos Sinópticos a missão de Jesus é frequentemente interpretada como o cumprimento das promessas do Antigo Testamento. Este fundo histórico precisa ser levado em conta ao considerar as expressões referentes ao Reino de Deus como uma realidade presente.

Mas o que exatamente se fez presente, no que tange ao Reino de Deus, quando Jesus estava na terra? O texto chave para essa resposta é Mateus 12.28, 29: “Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós. Ou como pode alguém entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens sem primeiro amarrá-lo? E, então, lhe saqueará a casa”. O poder real de Deus atacando o domínio de Satanás e libertando os homens do poder do mal foi o que se fez presente, não o eschaton. Conforme o verso 29, Jesus declara que invadiu o reino de Satanás e “aprisionou” o homem valente, sendo esse aprisionamento uma metáfora que designa a vitória sobre Satanás de tal forma que o seu poder é freado.

Nos relatos dos Evangelhos, Satanás continua ativo subjugando a palavra do Reino na vida dos indivíduos que não a aceitam realmente (Mt 13.19), falando através de Pedro (Mc 8.33), entrando em Judas (Lc 22.3), e desejou tomar posse da vida de Pedro também (Lc 22.31). Satanás não está desprovido de poder, mas o seu poder está enfraquecido. [12] Tudo o que Jesus realizou, seja em palavras, feitos, morte e ressurreição, constituem uma derrota inicial do poder satânico que transforma a vitória e o triunfo final do Reino de Deus algo líquido e certo.

No Antigo Testamento os inimigos do Reino de Deus eram nações hostis e ímpias, mas nos Evangelhos são poderes espirituais malignos. A vitória do Reino de Deus se dá numa dimensão espiritual e não terrena espacial ou geográfica. [13] De algum modo, que escapa a compreensão humana, Jesus lutou com os poderes do mal, conquistando uma vitória sobre eles para que ao fim dos tempos tais poderes possam ser quebrados de uma forma definitiva.

Nos ensinos de Jesus, o Reino de Deus tem uma dupla manifestação: uma na missão de Jesus, libertando os homens do poder de Satanás e outra, ao fim dos tempos, destruindo Satanás.

As Parábolas Alusivas ao Reino em Mateus 13

Em Mateus 13, entre os versos 24 e 50, estão reunidas 6 parábolas alusivas ao Reino. Estas estão assim divididas: uma coleção de 3 introduzidas por “outra parábola” (cf. v. 24; 31; 33) e outra coleção de 3, a partir do verso 44, introduzida por “O reino dos céus é semelhante” (Cf. v. 44; 45; 47).

A primeira coleção de 3 trata-se das parábolas do joio, do grão de mostarda e do fermento. A segunda coleção, por sua vez, compreende as parábolas do tesouro escondido, da pérola e da rede. Todas as seis parábolas explicitamente são comparações do Reino de Deus (cf. a expressão “O Reino dos céus é semelhante a” presente em todas).

As parábolas que compõem a primeira coleção em Mateus 13 parecem trazer a presença viva e ativa do Reino. O Reino está crescendo, como o grão de mostarda que se torna em grande e frondosa árvore, como o fermento que, misturado à farinha, leveda em crescimento, e até mesmo como o trigo que também cresce, embora tenha sofrido com a semeadura do joio ao seu lado. O Reino de Deus é semelhante a todo processo de crescimento. Como afirma Dodd, “é a energia divina imanente ao mundo pela qual se alcança gradualmente o desígnio de Deus”. [14] O crescimento do reino parece ser um processo misterioso independente da vontade e da ação do homem.

As duas primeiras parábolas da segunda coleção parecem enaltecer o valor do Reino e a alegria de quem o encontra e valoriza. [15] Em ambas se descreve a conduta de um homem que encontra um tesouro de valor inestimável e o adquire imediatamente a custa de tudo que possuía. Assim se entende que o achado vale mais que o seu preço, visto que quem o achou vende tudo o que possui para possuir somente o que se descobriu. O sacrifício com que se adquire está envolvido na parábola – se vende tudo o que tem – mostrando o grande valor da coisa achada. Aparentemente, não parecem ser bons negociantes os que vendem tudo para comprar uma coisa só. Será que não foi insensatez do homem ‘empobrecer-se’ para comprar o campo? Não cometeu um erro imperdoável aquele que vendeu tudo o que tem para comprar apenas uma pérola? Como diz Dodd, à primeira vista sim. São situações do dia-a-dia que levaria por certo os ouvintes a pensar. Todavia, o importante é estar seguro do valor do que se compra mais do que se verificar do quanto está se dispondo. Os ouvintes olhariam então para o Reino de Deus como objeto de profunda esperança. Grandes sacrifícios só valem a pena se o fim é valioso. E é exatamente a essa compreensão que essas parábolas apelam. Essas parábolas, em certo sentido, vêm reforçar o chamado que Jesus já havia feito para abandonarem aquilo que julgavam ter valor e buscarem o que é eternamente valioso.

A última, porém, a parábola da rede, [16] parece estar sabiamente colocada para encerrar essas seis parábolas da forma como começou. A primeira das seis fala do joio e do trigo (o bem e o mal), que não deveria ser arrancado o joio, pois conforme o verso 41, na consumação do século o Filho do Homem mandará seus anjos e estes farão a separação entre o que é bom e o que é ruim. Explícita semelhança está no verso 49, explicando a parábola da rede: “Assim será na consumação do século: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos,…”.

Estas duas parábolas (do joio e da rede) lançam a visão do leitor para o fim dos tempos, pois ambas tratam do juízo, que introduz o Reino de Deus em sua plenitude. O reino é comparado com a separação: num caso, separação entre o trigo e o joio; no outro entre peixes bons, isto é, comestíveis, e ruins, ou seja, não comestíveis. Estavam antes misturados o bom e o mau. A separação prematura destes é rejeitada na parábola do joio. O que se espera dos ouvintes e posteriores leitores é a paciência, ninguém deve se antecipar e fazer aquilo que só os anjos de Deus podem fazer. À pergunta por que é preciso esta paciência, J. Jeremias responde: primeiro, porque os homens não estão absolutamente em condição de fazer esta separação (Mt 13.29). Assim como o joio e o trigo no começo são tão parecidos, a ponto de se ter um pelo outro, assim o povo de Deus do Messias oculto jaz escondido entre os que parecem crer. Os homens não conseguem olhar dentro dos corações. Se quisessem fazer a separação cairiam em crassos erros de julgamento e arrancariam junto com a erva má o bom trigo. Antes – é a segunda razão – Deus determinou a hora da separação. A medida marcada por ele deve ficar cheia (Mt 13.48) e a seara precisa ficar madura. Então virá o fim e com ele a separação do joio e do trigo, a seleção dos peixes bons dentre os maus. Só então surgirá a comunidade santa de Deus, livre de todos os maus, dos crentes só de aparência e dos que só confessam com os lábios.

Conclusão

Em tais narrativas do Novo Testamento Jesus irrompe o Reino de Deus através de seu ministério. As parábolas têm um tom de graça, mas não tinham (e não têm) o propósito de entreter o público, mas de levá-lo a um desafio, a uma escolha, a uma ação específica que, em última análise, é uma decisão com relação ao Reino de Deus. Os que respondem positivamente aos desafios do Reino de Deus têm de fazer opções com relação ao Reino, com relação a Deus e com relação ao próximo. Por outro lado, muitas parábolas têm um tom de crise, porque apontam para um fim escatológico. Essa é a crise do Reino. Algo tremendamente catastrófico pode acontecer quando se procrastina ou quando se faz a opção errada. Todas as parábolas tendem a forçar o ouvinte a tomar uma posição. Elas estão cheias da certeza de que os tempos salvíficos estão a irromper-se. Dessa forma, os Evangelhos nos conduzem a concluir que Jesus se preocupou em preparar seus ouvintes para o inesperado.

Assim, a vinda do Reino põe à prova os homens e estabelece distinções entre eles. Do modo como na parábola da rede há de selecionar aqueles que irão para a venda no mercado – e isso era tão familiar para os discípulos cuja sobrevivência dependia da pesca; ou como na colheita se separa joio do trigo, assim entre as multidões atraídas por Jesus se introduziu uma distinção entre aqueles cuja reação ante a situação concreta expressa pela parábola fora positiva gerando obediência ao Rei e aquele que ficou passivo, temeroso e indiferente ante a proclamação do Reino. Nas palavras de Dodd, aceitar o Reino significava na realidade “arriscar a vida por ele”.

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Fonte: Site Arminianismo.com

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DODD, C. H. “Las Parábolas Del Reino” Ediciones Cristiandad. Madrid, 1974. 196p.

ENTREVERNES, Grupo de. “Signos y Parabolas” Ediciones Cristiandad. Madrid,

1979. 254p.

JEREMIAS, Joachim. “As Parábolas de Jesus” Paulus. São Paulo, 1986. 238p.

LADD, George Eldon. “Teologia do Novo Testamento” JUERP. Rio de Janeiro, 1986. 584p.

LOMBARDI, Riccardo. “Igreja e Reino de Deus” Loyola. São Paulo, 1978. 170p.

MIRANDA, Osmundo A. “Introdução ao Estudo das Parábolas” ASTE. São Paulo,

1984. 243p.

PIXLEY, George V. “O Reino de Deus” – Paulinas. São Paulo, 1986. 120p.

Atos 13: 48

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At 13.48[1]

John William McGarvey

A próxima afirmação de nosso historiador tem sido objeto de não pouca controvérsia. (48) “E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna.” A controvérsia gira em torno do significado da palavra traduzida “estavam ordenados” (ησαν τεταγμενοι). Escritores calvinistas são unânimes em relacioná-la à eleição eterna e à preordenação ensinada em seus credos. Se esta fosse a correta interpretação, ela implicaria algumas dificuldades que eles parecem não ter percebido. Se “todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” creram nesse dia, então todos os demais eram reprovados, e por estarem condenados à punição eterna, outra pregação de Paulo a eles seria inútil. Agora, é difícil explicar que tão completa separação em duas classes aconteceu por toda uma ampla comunidade em um único dia, e ainda mais difícil explicar que isto foi revelado a Lucas a fim de que ele pudesse registrá-la. Nossa surpresa é ainda maior quando lembramos que, segundo essa teoria, nem mesmo os próprios eleitos podem ter certeza de sua eleição. Certamente não devemos adotar uma conclusão tão anômala, a menos que sejamos obrigados a fazê-lo pela força óbvia das palavras empregadas. O Dr. Hackett, após traduzir a passagem, “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna”, diz: “Esta é a única tradução que a filologia da passagem permite.” Grimm, em seu léxico, expressa a ideia calvinista mais plenamente dando como significado, “tantos quantos foram apontados (por Deus) para a vida eterna, ou a quem Deus tinha decretado a vida eterna.”

A palavra assim traduzida é da raiz τάσσω, sendo o seu sentido primário colocar em ordem, ou, como Grimm expressa, colocar em certa ordem. Em combinação com δια ela é assim traduzida em 1Co 11.34: “Quanto às demais coisas, ordená-las-ei quando for.” Em somente um outra de suas oito ocorrências no Novo Testamento ela é traduzida ordenado, e nesta ela pode também ter sido traduzida pelo seu significado primário: “As potestades que há foram ordenadas [colocadas em ordem] por Deus” (Rm 13.1). É usualmente traduzida designar, como designar um lugar (Mt 28.16), designar algo a ser feito (At 22.10), designar um dia (28.23). Mas ao se fazer designações, a ordem é produzida da confusão ou falta de ordem precedente, e o significado primário da palavra não é perdido de vista neste seu uso. O mesmo é verdadeiro quando ela é aplicada a um ato mental. Quando a mente está confusa sobre um assunto, não sabendo o que pensar, e finalmente chega a uma conclusão ou propósito definido, os pensamentos são levados da confusão para a ordem, e este termo adequadamente expressa a mudança. Um exemplo notável é encontrado em 15.2, onde é dito dos irmãos em Antioquia que eles ouviram “não pequena discussão e contenda” entre Paulo e Barnabé de um lado e certos homens da Judéia de outro, com referência a uma questão vital. Enquanto esta divergência estava acontecendo, as pessoas comuns entre os irmãos e irmãs devem ter ficado na maior confusão, mas eles finalmente chegaram a uma conclusão quanto ao que devia ser feito, e esta mudança é expressa pela palavra em questão, “resolveu-se (τάσσω) que Paulo e Barnabé, e alguns dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão.” Assim verte a Versão Autorizada, e ela corretamente descreve a mudança mental que aconteceu. O Dr. Hackett afirma que o termo “não era utilizado para designar um ato da mente,”, mas a tradução a qual esta ideia o forçou é uma evidência conclusiva ao contrário. Ele verte a frase em questão, “eles designaram que eles subissem” etc., e nisto ele é seguido pelos autores da Versão Revisada. Isto não é um bom inglês. É um uso antigramatical de a palavra designar. Quando uma missão é determinada, nós designamos os indivíduos que serão enviados, mas não designamos que eles devam ir. Evidentemente a questão era a seguinte: os irmãos estavam inicialmente incertos quanto ao que fazer, e eles finalmente decidiram fazer o que fizeram. Nossa palavra inglesa disposto tem um uso similar. Ela significa arranjar em certa ordem, e se aplica primariamente a objetos externos, mas quando a mente de alguém está de acordo com certa norma, dizemos que ele está disposto a segui-la.

Mal precisamos observar, após estas observações, que o significado específico deste verbo em uma determinada passagem deve ser decidido pelo contexto. Na passagem diante de nós o contexto não apresenta nenhuma alusão a algo feito por Deus para uma parte da audiência, e não feito para a outra, ou a algum propósito firmado a respeito de uma e não de outra, mas fala de dois estados de mente contrastados entre o povo, e dois consequentes cursos de conduta. Dos judeus presentes é dito, em primeiro lugar, que eles estavam cheios de inveja; em segundo lugar, que eles estavam contradizendo o que Paulo falava, e blasfemavam; em terceiro lugar, que eles julgaram a si mesmos indignos da vida eterna. Em contraste com estes, os gentios, em primeiro lugar, estavam alegres; em segundo lugar, eles glorificavam a palavra de Deus; em terceiro lugar, eles estavam τεταγμενοι para a vida eterna. Agora, qual dos significados específicos da palavra grega iremos aqui inserir? Ela se encontra contrastada com o ato mental dos judeus ao julgarem-se indignos da vida eterna, e a lei da antítese exige que a entendamos de algum ato mental de natureza oposta. A versão estavam determinados, ou estavam dispostos para a vida eterna, é a única admitida pelo caso. O verbo está na voz passiva e no tempo passado, e, portanto, descreve um estado mental produzido antes do momento do qual o escritor está falando. Em outras palavras, a afirmação que “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” implica que eles foram levados a esta determinação antes que creram. Em algum momento anterior em sua história, estes gentios, que nasceram e foram educados no paganismo, ficaram sabendo da vida eterna como ela era ensinada pelos judeus. Sob o ensino dos judeus ou sob o ensino de Paulo desde sua chegada em Antioquia, ou sob ambos, eles foram levados de um estado de confusão mental sobre este assunto transcendentalmente importante a uma determinação para obter a vida eterna se possível. [2]

Observe que o estar determinado para a vida eterna, e o crer, encontram-se aqui como causa e efeito, ou pelo menos como antecedente e consequente. Isto não é anormal ou incomum. Um homem que aprendeu que a vida eterna deve ser obtida, e decidiu-se obtê-la se ela estiver dentro de sua capacidade, é o mesmo homem a prontamente aceitar o verdadeiro modo de obtê-la quando esse modo é claramente mostrado a ele, enquanto o homem que está demasiado absorto em questões terrenas de modo a estar indiferente à vida eterna é o mesmo homem a deixar o testemunho a respeito do modo de obtê-la entrar por um ouvido e sair pelo outro. Notamos o mesmo em todas as nossas congregações nos dias atuais. Dois homens sentam lado a lado sob o som do mesmo sermão evangélico; um está desperto para a importância da vida futura, enquanto o outro está absorto na vida presente. O último irá fazer-se de surdo para a pregação, incorrendo na reprovação de Paulo de julgar-se indigno da vida eterna, enquanto o primeiro crerá na boa mensagem, e se lançará ao trono de misericórdia. É precisamente esta diferença em relação à vida eterna que Lucas aqui indica, e ele a indica porque ela explica o fato que uma classe na audiência de Paulo creu, e a outra não. Ela deixa a responsabilidade para a crença e incredulidade, com suas eternas consequências, sobre o homem, e não sobre Deus.

Fonte: New Commentary on Acts of Apostles, Vol. 2, pp. 29-33

Tradução: Cloves Rocha dos Santos


[1] Nota do tradutor: J. W. McGarvey, em sua Introdução a este comentário, nota que escreveu a obra com o leitor em mente. Ele a projetou para ser lida mais como uma narrativa do que simplesmente como um livro de referência e encoraja os leitores a usá-la assim. Escrito no final do século 19, O Comentário sobre os Atos dos Apóstolos é um olhar versículo por versículo em Atos, que McGarvey acreditava que muitos teólogos não o havia compreendido antes. Ele cita um verbete de enciclopédia que ele acredita que melhor representa o livro: “O objetivo de Lucas, ao escrever Atos, era suprir, através de exemplos selecionados e adequados, uma ilustração do poder e da obra daquela religião que Jesus tinha morrido para estabelecer.” McGarvey foi professor boa parte de sua vida, assim seu comentário é preciso e fácil de entender. O livro de Atos, de fato, é um testemunho poderoso para a vida de Jesus e os crentes serão iluminados através das notas de McGarvey, únicas e intuitivas, sobre o texto.

[2] “Melhor, ‘tantos quantos estavam dispostos para. ’” (Plumptre). “Todos que, pela graça de Deus, desejavam agruparem-se nas fileiras daqueles que desejavam a vida eterna aceitaram a fé.” (Farrar, Life of Paul, 211). “Preferivelmente, estavam colocados em ordem para, isto é, dispostos para a vida eterna.” (Jacobson em Speakers Com.). “Tantos quantos estavam dispostos para a vida eterna. O significado da palavra disposto deve ser determinado pelo contexto. Os judeus se julgaram indignos da vida eterna; os gentios, tantos quantos estavam dispostos para a vida eterna, creram.” (Alford).


Ervas Daninhas no Jardim.

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Entrevista com Thomas C. Oden.

A busca dos metodistas por santidade ramificou, em 200 anos, em surpreendentes direções. Uma entrevista com Tom Oden.

A história dos irmãos Wesley não acabou com as suas mortes. A sua influência continuou, não apenas nas denominações metodistas (as mais proeminentes a Igreja Metodista Unida, os Metodistas livres, a Igreja Metodista Episcopal Africana, os Nazarenos e os Wesleyanos), as quais totalizam cerca de 25 milhões de membros ao redor do mundo, mas também em incontáveis vidas tocadas pelos hospitais, escolas, orfanatos, ministérios carcerários e outras expressões tangíveis da santidade metodista.

 

Para traçar o legado dos Wesley no metodismo atual, a Christian History entrevistou Tom Oden, um metodista de nascença e professor de Teologia na Drew University, fundada por metodistas, em Madison, New Jersey.

Em que medida John e Charles Wesley foram produtos de seu tempo?

Os dois eram profundamente enraizados no Anglicanismo (herança de seu pai) e na rigorosa piedade dos Puritanos (herança de sua mãe). Ambos quiseram experimentar a salvação em sua plenitude, mas o mundo em que viveram não encorajava essa busca interior e exterior da santidade. A Igreja Anglicana, no princípio do século XVIII, estava em estado de auto realização e demonstrava pouca energia na busca de se viver o Evangelho.

A Universidade de Oxford, enquanto eles estiveram lá, estava passando por uma espécie de re-despertar de atenção a fontes cristãs antigas – escritos patrísticos, os pais da Igreja Oriental, os monges do deserto – que se centravam na busca de uma vida santa. Mais do que ver isso como um exercício acadêmico, os Wesley assumiram como desafio pessoal.

Além disso, John Wesley leu William Law, Jeremy Taylor e outros autores que buscavam a “perfeição crista”.

No Clube Santo, ele fundou o que poderíamos chamar de um grupo de apoio para aqueles que queriam buscar o viver em santidade – não apenas piedade privada, mas atos públicos de caridade e serviço. John Wesley nunca viu a si mesmo como um inovador. Ele estava apenas levando a sério aquilo que a Igreja dizia acreditar. Ele estava apenas atualizando a tradição.

Como o movimento mudou  após a morte de seus fundadores?

O movimento metodista rapidamente tornou-se identificado com o reavivamento da tradição de santidade e o movimento de reuniões em acampamentos, as quais focavam na pregação do Evangelho e na busca da santidade pela graça. Esperava-se que o Espírito Santo entrasse no coração de uma pessoa, transformando sua vida tanto na dimensão pública quanto na particular.

Ao mesmo tempo, os metodistas estavam exercendo ministérios junto aos órfãos e prisioneiros, fazendo empréstimos e, em 1840, estabelecendo as bases para missões mundiais. Naquele ano, a Igreja Metodista Episcopal, então com 580.098 membros, era a maior denominação na América. A ênfase na santidade interior e exterior continuou ate o final do século XIX.

Na virada para o século XX, o Metodismo, como muitas outras denominações, começou a adaptar-se a uma visão progressista e liberal de mudança social. O idealismo filosófico e o movimento de evangelização passaram por um efeito de secularização. Muitos bispos metodistas foram educados na Boston University, tendo sido influenciados pelo “personalismo de Boston”, o qual levou a uma visão mais humanista entre os líderes denominacionais, mesmo que as bases permanecessem pietistas.

O que causou as divisões do movimento nos Estados Unidos?

Durante a Revolução Americana, os pastores metodistas foram identificados com a Revolução. Muitos clérigos anglicanos partiram para o Canadá ou para a Inglaterra. Assim, os metodistas nos Estados Unidos romperam claramente com a Igreja Anglicana.

Wesley viu isso acontecer e relutantemente deu sua benção. A Igreja Anglicana se dissolveu na América do Norte, deixando, em seu lugar a Igreja Metodista Episcopal. As sociedades metodistas na Irlanda e na Inglaterra não romperam tão rápido, mas após a morte de John Wesley, elas viriam também a se separar.

Em 1816, formou-se a Igreja Metodista Episcopal Africana (African Methodist Episcopal Church) com o apoio de Francis Asbury, que consagrou a Richard Allen como o primeiro bispo da nova igreja.

Em 1843, a Igreja Metodista Wesleyana se dividiu para protestar contra a tolerância da escravidão pela Igreja Metodista Episcopal.

Um ano depois, em grande parte devido à mesma questão, a Igreja Episcopal dividiu-se na Igreja Metodista e na Igreja Metodista do Sul. A Southern Methodist University refletiu essa divisão em seu nome. A contrapartida do norte foram escolas como Syracuse, North western, Drew e Boston University.

A Igreja Metodista Livre formou-se em 1860 sob discussões quanto a bancos livres (não alugados), liberdade para os escravos e liberdade para a adoração.

Em 1939, as Igrejas do norte e do sul foram reunidas como Igreja Metodista e, em 1968, esse grupo uniu-se aos Irmãos Evangélicos Unidos para formar a Igreja Metodista Unida.

De que forma a Igreja Metodista de hoje é uma continuação do movimento dos Wesley?

Hoje há um modesto, mas significativo, re-enfoque na influência dos Wesley. Na Conferência Geral Metodista de 1988, os padrões doutrinários foram definidos mais precisamente. Os Sermões Padrões de Wesley, suas Notas Explanatórias sobre o Novo Testamento e os seus 25 Artigos de Religião foram reafirmados como fundamentos.

Claro que grupos diferentes enfatizam coisas diferentes. Os liberais enfatizam as preocupações sociais de Wesley: seu combate à escravidão e sua defesa dos pobres. Os conservadores enfocam nos temas da santificação, que tornaram viáveis as ações sociais.

O que John Wesley não reconheceria no Metodismo atual?

A grande burocracia da Igreja Metodista Unida. Eu digo isso porque John Wesley ficou claramente consternado quando Thomas Coke e Francis Asbury passaram a se referir a si mesmos como “bispos”. O Metodismo de Wesley estava focado no ensino, na responsabilidade, atos de serviço, cuidado pelos pobres, órfãos e prisioneiros e outros em necessidade.

No seu sermão, “A vinha do Senhor”, Wesley descreveu o vinhedo do Senhor como crescendo com ervas daninhas. No final de sua vida, ele já tinha perdido as esperanças e sentia que seu movimento se tornaria outra instituição.

Ele também não reconheceria o vasto e independente ramo executivo da Igreja Metodista Unida, que supostamente leva a efeito a vontade da Conferência Geral, mas que agora conduz seu próprio caminho. Por causa dos enormes fundos acumulados ao longo dos anos, as sedes não estão mais estritamente sob a responsabilidade da vontade das congregações.

Nos primórdios do Metodismo, Thomas Coke defendeu as missões globais. O que aconteceu com aquela visão?

Na Igreja Metodista Unida, a Junta Geral de Ministérios Globais tem U$ 500 milhões em investimentos. Se você falar com os membros da junta, eles vão mencionar suas preocupações com o evangelismo e com a pregação, ainda que o percentual de missionários focados nessa área seja pequeno. A verdadeira energia está nos projetos de ação social: cavando poços, construindo escolas, hospitais e afins.

Os fundos são grandes o suficiente para que a junta não precise ficar atenta às preferências das congregações ou mesmo dos bispos. Nos anos recentes, a junta tem sido criticada por sua agenda antiamericana, anticapitalista e pro-homossexualismo. Na América Central, ela foi claramente identificada com a Teologia da Libertação e visivelmente apoiou o movimento sandinista na Nicarágua.

Recentemente, uma organização missionária alternativa chamada Missionary Society foi estabelecida, e este grupo já esta enviando mais pastores ao estrangeiro do que a Junta Geral de Ministérios Globais.

Como o Metodismo mundial é diferente do Metodismo americano?

Na África e na Ásia, especialmente, o Metodismo é mais centrado, doutrinariamente, na salvação pela graça mediante a fé e na busca da santidade. Mesmo no Metodismo britânico, o foco doutrinário é mais forte – os hinos wesleyanos e a piedade são mais proeminentes. E o Metodismo vem sendo há muito associado com o Partido Trabalhista (Margareth Thatcher – uma metodista e membro do Partido Conservador, é uma notável exceção).

Na Índia, em 1870, um bispo metodista, William Taylor, desenvolveu uma igreja autossustentada e autodeterminada. Esse conceito de igreja, independente dos recursos estrangeiros, eventualmente chegou à China e desenvolveu-se, tornando-se o que é hoje conhecido como as “Three-Self Church”.

Qual é a relação entre o Metodismo, santidade e os Movimentos pentecostais e carismáticos?

Até 1880, o movimento de santificação era essencialmente baseado nos fortes ensinamentos de Wesley sobre santidade. A pregação da santidade também afetou os presbiterianos, os congregacionais e os Quakers. Com efeito, foi um movimento ecumênico de reavivamento.

O movimento se dividiu no final do século XIX, quando alguns argumentavam pela santificação completa como uma definitiva e distinta “segunda bênção”, subsequente à conversão. Isso produziu as igrejas do Nazareno e de santidade. Os pentecostais compartilharam dessa ênfase, mas adicionaram um foco no falar em línguas.

O movimento carismático influiu o Metodismo tanto quanto o Anglicanismo e o Catolicismo. A maioria dos carismáticos não pensaria em si mesma como seguidores de uma ênfase wesleyana, mas como seguidores do Espírito Santo.

Há um esforço consciente agora para recuperar o legado de John Wesley?

Dentro da Igreja Metodista Unida estão 12 movimentos de renovação, todos compromissados com uma recuperação da ênfase de Wesley. O movimento Good News tem sido porta-voz da busca pela reforma por 30 anos. Nos últimos seis anos, o Confessing Movement, movimento leigo de bases de meio milhão de pessoas, surgiu em busca de renovação da integridade doutrinária.

Qual foi a mais significativa contribuição dos Wesley?

A recuperação de ensinamentos antigos e ecumênicos, e o enfoque na responsabilidade de pequenos grupos, firmados no estudo das Escrituras, na oração e atentos à responsabilidade social. Essas prioridades não eram únicas ao seu movimento, mas elas eram mais intensas no Metodismo do que em muitos outros.

   Os Wesley eram considerados radicais, porque eles levavam tão a sério a fé e as responsabilidades éticas que se consideravam incumbidos do cuidado de todos os cristãos.

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