Entrevista com Thomas C. Oden.

A busca dos metodistas por santidade ramificou, em 200 anos, em surpreendentes direções. Uma entrevista com Tom Oden.

A história dos irmãos Wesley não acabou com as suas mortes. A sua influência continuou, não apenas nas denominações metodistas (as mais proeminentes a Igreja Metodista Unida, os Metodistas livres, a Igreja Metodista Episcopal Africana, os Nazarenos e os Wesleyanos), as quais totalizam cerca de 25 milhões de membros ao redor do mundo, mas também em incontáveis vidas tocadas pelos hospitais, escolas, orfanatos, ministérios carcerários e outras expressões tangíveis da santidade metodista.

 

Para traçar o legado dos Wesley no metodismo atual, a Christian History entrevistou Tom Oden, um metodista de nascença e professor de Teologia na Drew University, fundada por metodistas, em Madison, New Jersey.

Em que medida John e Charles Wesley foram produtos de seu tempo?

Os dois eram profundamente enraizados no Anglicanismo (herança de seu pai) e na rigorosa piedade dos Puritanos (herança de sua mãe). Ambos quiseram experimentar a salvação em sua plenitude, mas o mundo em que viveram não encorajava essa busca interior e exterior da santidade. A Igreja Anglicana, no princípio do século XVIII, estava em estado de auto realização e demonstrava pouca energia na busca de se viver o Evangelho.

A Universidade de Oxford, enquanto eles estiveram lá, estava passando por uma espécie de re-despertar de atenção a fontes cristãs antigas – escritos patrísticos, os pais da Igreja Oriental, os monges do deserto – que se centravam na busca de uma vida santa. Mais do que ver isso como um exercício acadêmico, os Wesley assumiram como desafio pessoal.

Além disso, John Wesley leu William Law, Jeremy Taylor e outros autores que buscavam a “perfeição crista”.

No Clube Santo, ele fundou o que poderíamos chamar de um grupo de apoio para aqueles que queriam buscar o viver em santidade – não apenas piedade privada, mas atos públicos de caridade e serviço. John Wesley nunca viu a si mesmo como um inovador. Ele estava apenas levando a sério aquilo que a Igreja dizia acreditar. Ele estava apenas atualizando a tradição.

Como o movimento mudou  após a morte de seus fundadores?

O movimento metodista rapidamente tornou-se identificado com o reavivamento da tradição de santidade e o movimento de reuniões em acampamentos, as quais focavam na pregação do Evangelho e na busca da santidade pela graça. Esperava-se que o Espírito Santo entrasse no coração de uma pessoa, transformando sua vida tanto na dimensão pública quanto na particular.

Ao mesmo tempo, os metodistas estavam exercendo ministérios junto aos órfãos e prisioneiros, fazendo empréstimos e, em 1840, estabelecendo as bases para missões mundiais. Naquele ano, a Igreja Metodista Episcopal, então com 580.098 membros, era a maior denominação na América. A ênfase na santidade interior e exterior continuou ate o final do século XIX.

Na virada para o século XX, o Metodismo, como muitas outras denominações, começou a adaptar-se a uma visão progressista e liberal de mudança social. O idealismo filosófico e o movimento de evangelização passaram por um efeito de secularização. Muitos bispos metodistas foram educados na Boston University, tendo sido influenciados pelo “personalismo de Boston”, o qual levou a uma visão mais humanista entre os líderes denominacionais, mesmo que as bases permanecessem pietistas.

O que causou as divisões do movimento nos Estados Unidos?

Durante a Revolução Americana, os pastores metodistas foram identificados com a Revolução. Muitos clérigos anglicanos partiram para o Canadá ou para a Inglaterra. Assim, os metodistas nos Estados Unidos romperam claramente com a Igreja Anglicana.

Wesley viu isso acontecer e relutantemente deu sua benção. A Igreja Anglicana se dissolveu na América do Norte, deixando, em seu lugar a Igreja Metodista Episcopal. As sociedades metodistas na Irlanda e na Inglaterra não romperam tão rápido, mas após a morte de John Wesley, elas viriam também a se separar.

Em 1816, formou-se a Igreja Metodista Episcopal Africana (African Methodist Episcopal Church) com o apoio de Francis Asbury, que consagrou a Richard Allen como o primeiro bispo da nova igreja.

Em 1843, a Igreja Metodista Wesleyana se dividiu para protestar contra a tolerância da escravidão pela Igreja Metodista Episcopal.

Um ano depois, em grande parte devido à mesma questão, a Igreja Episcopal dividiu-se na Igreja Metodista e na Igreja Metodista do Sul. A Southern Methodist University refletiu essa divisão em seu nome. A contrapartida do norte foram escolas como Syracuse, North western, Drew e Boston University.

A Igreja Metodista Livre formou-se em 1860 sob discussões quanto a bancos livres (não alugados), liberdade para os escravos e liberdade para a adoração.

Em 1939, as Igrejas do norte e do sul foram reunidas como Igreja Metodista e, em 1968, esse grupo uniu-se aos Irmãos Evangélicos Unidos para formar a Igreja Metodista Unida.

De que forma a Igreja Metodista de hoje é uma continuação do movimento dos Wesley?

Hoje há um modesto, mas significativo, re-enfoque na influência dos Wesley. Na Conferência Geral Metodista de 1988, os padrões doutrinários foram definidos mais precisamente. Os Sermões Padrões de Wesley, suas Notas Explanatórias sobre o Novo Testamento e os seus 25 Artigos de Religião foram reafirmados como fundamentos.

Claro que grupos diferentes enfatizam coisas diferentes. Os liberais enfatizam as preocupações sociais de Wesley: seu combate à escravidão e sua defesa dos pobres. Os conservadores enfocam nos temas da santificação, que tornaram viáveis as ações sociais.

O que John Wesley não reconheceria no Metodismo atual?

A grande burocracia da Igreja Metodista Unida. Eu digo isso porque John Wesley ficou claramente consternado quando Thomas Coke e Francis Asbury passaram a se referir a si mesmos como “bispos”. O Metodismo de Wesley estava focado no ensino, na responsabilidade, atos de serviço, cuidado pelos pobres, órfãos e prisioneiros e outros em necessidade.

No seu sermão, “A vinha do Senhor”, Wesley descreveu o vinhedo do Senhor como crescendo com ervas daninhas. No final de sua vida, ele já tinha perdido as esperanças e sentia que seu movimento se tornaria outra instituição.

Ele também não reconheceria o vasto e independente ramo executivo da Igreja Metodista Unida, que supostamente leva a efeito a vontade da Conferência Geral, mas que agora conduz seu próprio caminho. Por causa dos enormes fundos acumulados ao longo dos anos, as sedes não estão mais estritamente sob a responsabilidade da vontade das congregações.

Nos primórdios do Metodismo, Thomas Coke defendeu as missões globais. O que aconteceu com aquela visão?

Na Igreja Metodista Unida, a Junta Geral de Ministérios Globais tem U$ 500 milhões em investimentos. Se você falar com os membros da junta, eles vão mencionar suas preocupações com o evangelismo e com a pregação, ainda que o percentual de missionários focados nessa área seja pequeno. A verdadeira energia está nos projetos de ação social: cavando poços, construindo escolas, hospitais e afins.

Os fundos são grandes o suficiente para que a junta não precise ficar atenta às preferências das congregações ou mesmo dos bispos. Nos anos recentes, a junta tem sido criticada por sua agenda antiamericana, anticapitalista e pro-homossexualismo. Na América Central, ela foi claramente identificada com a Teologia da Libertação e visivelmente apoiou o movimento sandinista na Nicarágua.

Recentemente, uma organização missionária alternativa chamada Missionary Society foi estabelecida, e este grupo já esta enviando mais pastores ao estrangeiro do que a Junta Geral de Ministérios Globais.

Como o Metodismo mundial é diferente do Metodismo americano?

Na África e na Ásia, especialmente, o Metodismo é mais centrado, doutrinariamente, na salvação pela graça mediante a fé e na busca da santidade. Mesmo no Metodismo britânico, o foco doutrinário é mais forte – os hinos wesleyanos e a piedade são mais proeminentes. E o Metodismo vem sendo há muito associado com o Partido Trabalhista (Margareth Thatcher – uma metodista e membro do Partido Conservador, é uma notável exceção).

Na Índia, em 1870, um bispo metodista, William Taylor, desenvolveu uma igreja autossustentada e autodeterminada. Esse conceito de igreja, independente dos recursos estrangeiros, eventualmente chegou à China e desenvolveu-se, tornando-se o que é hoje conhecido como as “Three-Self Church”.

Qual é a relação entre o Metodismo, santidade e os Movimentos pentecostais e carismáticos?

Até 1880, o movimento de santificação era essencialmente baseado nos fortes ensinamentos de Wesley sobre santidade. A pregação da santidade também afetou os presbiterianos, os congregacionais e os Quakers. Com efeito, foi um movimento ecumênico de reavivamento.

O movimento se dividiu no final do século XIX, quando alguns argumentavam pela santificação completa como uma definitiva e distinta “segunda bênção”, subsequente à conversão. Isso produziu as igrejas do Nazareno e de santidade. Os pentecostais compartilharam dessa ênfase, mas adicionaram um foco no falar em línguas.

O movimento carismático influiu o Metodismo tanto quanto o Anglicanismo e o Catolicismo. A maioria dos carismáticos não pensaria em si mesma como seguidores de uma ênfase wesleyana, mas como seguidores do Espírito Santo.

Há um esforço consciente agora para recuperar o legado de John Wesley?

Dentro da Igreja Metodista Unida estão 12 movimentos de renovação, todos compromissados com uma recuperação da ênfase de Wesley. O movimento Good News tem sido porta-voz da busca pela reforma por 30 anos. Nos últimos seis anos, o Confessing Movement, movimento leigo de bases de meio milhão de pessoas, surgiu em busca de renovação da integridade doutrinária.

Qual foi a mais significativa contribuição dos Wesley?

A recuperação de ensinamentos antigos e ecumênicos, e o enfoque na responsabilidade de pequenos grupos, firmados no estudo das Escrituras, na oração e atentos à responsabilidade social. Essas prioridades não eram únicas ao seu movimento, mas elas eram mais intensas no Metodismo do que em muitos outros.

   Os Wesley eram considerados radicais, porque eles levavam tão a sério a fé e as responsabilidades éticas que se consideravam incumbidos do cuidado de todos os cristãos.

Fonte:

Anúncios