Antonio Lazarini Neto

Introdução

Estudar o conceito do Reino de Deus no Novo Testamento constitui-se um grande desafio para os teólogos há gerações. Existe uma tensão evidente nos textos neotestamentários entre o presente e o futuro quando se refere ao reino de Deus.

Em alguns casos, o leitor tem a convicção de que o reino se estabelece no “presente”, enquanto em outros o estabelecimento do reino num tempo “futuro” e indeterminado parece ser mais razoável.

Quem quer aventurar-se a compreender a ideia do Reino de Deus precisará primeiramente aprender a lidar com a noção de tempo do reino. É o que estou chamando aqui de “agora” e “ainda não”, ou seja, agora Deus pode ser o rei sobre aqueles que são obedientes à sua voz, mas ainda não o é sobre todo o mundo. C. H. Dodd diz que Deus é rei de seu povo Israel, e sua autoridade real é efetiva na medida em que Israel é obediente à vontade divina revelada na Torah. [1] Jesus, em Lucas 11.20 e Mateus 12.28, diz que “se expulso demônios pelo Espírito de Deus, é chegado a vós o reino de Deus”. O poder e autoridade sobre os demônios, no ministério de Jesus, era o sinal de que o reino de Deus, de certa forma especial, estava presente. [2] Joachim Jeremias lembra que à pergunta por que os seus discípulos não jejuam, Jesus responde: “Porventura podem os convidados das bodas jejuar enquanto está com eles o noivo?” (Mc 2.19; Mt 9.15 e Lc 5.34). As bodas são, na linguagem figurada do Oriente, imagem do tempo da salvação. [3] Neste sentido, o reino de Deus é um fato presente. Mas, num outro sentido, o reino ainda não chegou, é algo que ainda está por revelar-se. Todos os valores do reino ainda não estão implantados. Assim, o reino também é eschaton, é futuro e final. [4]Miranda propõe que o reino deve ser considerado como a consumação ou a realização do plano ou propósito de Deus. Em vez de o reino vir no fim, deve-se dizer que o reino é o fim, ou que ele põe fim àquilo que não condiz com a vontade de Deus, como se fosse à manifestação final de Deus na qual ele transforma e renova sua obra de forma definitiva, levando-a a perfeição. [5] Neste sentido, o reino de Deus é uma esperança para o futuro, é profético e apocalíptico.

Além desse aspecto cronológico, de tempo, o reino também está exposto no Novo Testamento comunicando a ideia de bem e mal, ou seja, o reino é anunciado para o bem (salvação) quanto para o mal (opressão). [6] O reino tem um caráter redentor como também condenatório. Traz salvação aos que se submeterem ao Rei, todavia traz juízo aos demais. Assim, o reino é de paz, mas também de horror, trará alívio para uns sem deixar de ser uma realidade trágica para outros. Jesus repetidamente levantou a voz para advertir, para abrir os olhos a um povo obcecado. [7]

Torna-se também fundamental, ao estudar o reino de Deus, observar o aspecto da antiguidade do tema. É preciso dar atenção ao fato de que o reino de Deus é a ideia básica do Antigo Testamento; com isso, Jesus não estava pregando algo novo, mas anunciando uma esperança que já tinha longa história em Israel. Se é verdade que não podemos entender o reino de Deus abstraindo-o de suas encarnações históricas concretas, também é verdade que não podemos compreender as esperanças do século I centralizadas em torno dele, sem compreendermos, ao mesmo tempo, sua história particular em Israel.[8] O reino de Deus era objeto das profecias do Antigo Testamento e alimentava a esperança do povo de Iahweh. Assim, o reino não era novidade, mas uma realidade esperada pelas pessoas dos tempos de Jesus.

O Reino de Deus nos Evangelhos

O projeto histórico do Reino de Deus provou ser capaz de sobreviver até mesmo ao colapso da Guerra judaico-romana, inspirando a religião cristã e movendo a esperança daqueles primeiros seguidores de Cristo que viviam na Palestina do século I. O Reino de Deus, conforme revelado nos Evangelhos, concorda a erudição moderna, constituía o centro da mensagem de Jesus. O relato de Marcos demonstra que Jesus iniciou seu ministério falando do Reino: “Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos 1.14-15). Na ótica de Mateus, o resumo do ministério de Jesus está em 4.23: “Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo”.

Nos Evangelhos, a expressão “Reino de Deus” (basileia tou theou) aparece 51 vezes, sendo 4 em Mateus, 14 em Marcos, 31 em Lucas e 2 em João. Além dos Evangelhos a expressão também aparece em Atos e em algumas cartas de Paulo (Romanos, 1 Coríntios, Gálatas, Colossenses e 2 Tessalonicenses) totalizando 65 ocorrências no Novo Testamento. A expressão “Reino dos Céus” (basileia tôn ouranôn) aparece somente em Mateus em 32 ocorrências.[9]

A palavra basileia (Hebraico – malkuth) significa basicamente governo, domínio, poder real. O conceito espacial – ou seja, geográfico – é secundário. No Antigo Testamento e no judaísmo rabínico, o Reino de Deus possui uma dinâmica tal que não é possível restringi-lo ao eschaton, mas denota uma realidade também presente. Conforme G. E. Ladd Deus já é o Rei, mas ele também precisa tornar-se Rei. [10] Isso significa que, embora indiscutivelmente Deus seja Rei, ele ainda há de manifestar sua soberania real no mundo dos homens.

Já a expressão “Reino dos Céus” tem provocado algumas especulações. Em alguns círculos evangélicos têm-se adotado a postura que leva a uma diferenciação entre o Reino de Deus e o Reino dos Céus, sendo este último uma referência ao Reino teocrático terreno conforme prometido a Israel no Antigo Testamento. Visto que Israel rejeitou o domínio de Deus não aceitando seu Messias, Jesus introduziu uma nova mensagem, oferecendo descanso e serviço para todos os que cressem, começando assim uma nova família de fé que participará do Reino de Deus futuro.

Não creio ser essa diferenciação plausível. O “Reino dos Céus” é uma expressão semítica, na qual a expressão “céus” (ouranos) está sendo usada para substituir o nome divino – Deus. Em Lucas 15.18, no relato do chamado “filho pródigo”, temos um exemplo disso. Ali quando diz “Pai pequei contra o céu e diante de ti” está claro que “céu” substitui Deus. É contra Deus que o filho está dizendo ao pai que pecou. Para Ladd desde que a tradição dos Evangelhos mostra que Jesus não criticou de modo consistente a palavra “Deus”, isto é, o uso do nome divino – Deus é possível que o “Reino dos Céus” seja uma expressão nativa judaico-cristã, a qual preservou a tradição do evangelho encontrada em Mateus, em lugar de refletir o uso real feito por Jesus. É possível que Ele tenha usado ambas as frases e os evangelhos que foram originalmente escritos para um público gentio, omitiram a expressão semítica, pois essa não faria sentido aos seus ouvidos. Mateus evita usar a palavra Deus, tal como muitos judeus do seu tempo, e a substitui pelo eufemismo “céus”. Assim, as duas expressões em significado são idênticas e tratam de um mesmo reino. [11]

Por toda a extensão dos Evangelhos Sinópticos a missão de Jesus é frequentemente interpretada como o cumprimento das promessas do Antigo Testamento. Este fundo histórico precisa ser levado em conta ao considerar as expressões referentes ao Reino de Deus como uma realidade presente.

Mas o que exatamente se fez presente, no que tange ao Reino de Deus, quando Jesus estava na terra? O texto chave para essa resposta é Mateus 12.28, 29: “Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós. Ou como pode alguém entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens sem primeiro amarrá-lo? E, então, lhe saqueará a casa”. O poder real de Deus atacando o domínio de Satanás e libertando os homens do poder do mal foi o que se fez presente, não o eschaton. Conforme o verso 29, Jesus declara que invadiu o reino de Satanás e “aprisionou” o homem valente, sendo esse aprisionamento uma metáfora que designa a vitória sobre Satanás de tal forma que o seu poder é freado.

Nos relatos dos Evangelhos, Satanás continua ativo subjugando a palavra do Reino na vida dos indivíduos que não a aceitam realmente (Mt 13.19), falando através de Pedro (Mc 8.33), entrando em Judas (Lc 22.3), e desejou tomar posse da vida de Pedro também (Lc 22.31). Satanás não está desprovido de poder, mas o seu poder está enfraquecido. [12] Tudo o que Jesus realizou, seja em palavras, feitos, morte e ressurreição, constituem uma derrota inicial do poder satânico que transforma a vitória e o triunfo final do Reino de Deus algo líquido e certo.

No Antigo Testamento os inimigos do Reino de Deus eram nações hostis e ímpias, mas nos Evangelhos são poderes espirituais malignos. A vitória do Reino de Deus se dá numa dimensão espiritual e não terrena espacial ou geográfica. [13] De algum modo, que escapa a compreensão humana, Jesus lutou com os poderes do mal, conquistando uma vitória sobre eles para que ao fim dos tempos tais poderes possam ser quebrados de uma forma definitiva.

Nos ensinos de Jesus, o Reino de Deus tem uma dupla manifestação: uma na missão de Jesus, libertando os homens do poder de Satanás e outra, ao fim dos tempos, destruindo Satanás.

As Parábolas Alusivas ao Reino em Mateus 13

Em Mateus 13, entre os versos 24 e 50, estão reunidas 6 parábolas alusivas ao Reino. Estas estão assim divididas: uma coleção de 3 introduzidas por “outra parábola” (cf. v. 24; 31; 33) e outra coleção de 3, a partir do verso 44, introduzida por “O reino dos céus é semelhante” (Cf. v. 44; 45; 47).

A primeira coleção de 3 trata-se das parábolas do joio, do grão de mostarda e do fermento. A segunda coleção, por sua vez, compreende as parábolas do tesouro escondido, da pérola e da rede. Todas as seis parábolas explicitamente são comparações do Reino de Deus (cf. a expressão “O Reino dos céus é semelhante a” presente em todas).

As parábolas que compõem a primeira coleção em Mateus 13 parecem trazer a presença viva e ativa do Reino. O Reino está crescendo, como o grão de mostarda que se torna em grande e frondosa árvore, como o fermento que, misturado à farinha, leveda em crescimento, e até mesmo como o trigo que também cresce, embora tenha sofrido com a semeadura do joio ao seu lado. O Reino de Deus é semelhante a todo processo de crescimento. Como afirma Dodd, “é a energia divina imanente ao mundo pela qual se alcança gradualmente o desígnio de Deus”. [14] O crescimento do reino parece ser um processo misterioso independente da vontade e da ação do homem.

As duas primeiras parábolas da segunda coleção parecem enaltecer o valor do Reino e a alegria de quem o encontra e valoriza. [15] Em ambas se descreve a conduta de um homem que encontra um tesouro de valor inestimável e o adquire imediatamente a custa de tudo que possuía. Assim se entende que o achado vale mais que o seu preço, visto que quem o achou vende tudo o que possui para possuir somente o que se descobriu. O sacrifício com que se adquire está envolvido na parábola – se vende tudo o que tem – mostrando o grande valor da coisa achada. Aparentemente, não parecem ser bons negociantes os que vendem tudo para comprar uma coisa só. Será que não foi insensatez do homem ‘empobrecer-se’ para comprar o campo? Não cometeu um erro imperdoável aquele que vendeu tudo o que tem para comprar apenas uma pérola? Como diz Dodd, à primeira vista sim. São situações do dia-a-dia que levaria por certo os ouvintes a pensar. Todavia, o importante é estar seguro do valor do que se compra mais do que se verificar do quanto está se dispondo. Os ouvintes olhariam então para o Reino de Deus como objeto de profunda esperança. Grandes sacrifícios só valem a pena se o fim é valioso. E é exatamente a essa compreensão que essas parábolas apelam. Essas parábolas, em certo sentido, vêm reforçar o chamado que Jesus já havia feito para abandonarem aquilo que julgavam ter valor e buscarem o que é eternamente valioso.

A última, porém, a parábola da rede, [16] parece estar sabiamente colocada para encerrar essas seis parábolas da forma como começou. A primeira das seis fala do joio e do trigo (o bem e o mal), que não deveria ser arrancado o joio, pois conforme o verso 41, na consumação do século o Filho do Homem mandará seus anjos e estes farão a separação entre o que é bom e o que é ruim. Explícita semelhança está no verso 49, explicando a parábola da rede: “Assim será na consumação do século: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos,…”.

Estas duas parábolas (do joio e da rede) lançam a visão do leitor para o fim dos tempos, pois ambas tratam do juízo, que introduz o Reino de Deus em sua plenitude. O reino é comparado com a separação: num caso, separação entre o trigo e o joio; no outro entre peixes bons, isto é, comestíveis, e ruins, ou seja, não comestíveis. Estavam antes misturados o bom e o mau. A separação prematura destes é rejeitada na parábola do joio. O que se espera dos ouvintes e posteriores leitores é a paciência, ninguém deve se antecipar e fazer aquilo que só os anjos de Deus podem fazer. À pergunta por que é preciso esta paciência, J. Jeremias responde: primeiro, porque os homens não estão absolutamente em condição de fazer esta separação (Mt 13.29). Assim como o joio e o trigo no começo são tão parecidos, a ponto de se ter um pelo outro, assim o povo de Deus do Messias oculto jaz escondido entre os que parecem crer. Os homens não conseguem olhar dentro dos corações. Se quisessem fazer a separação cairiam em crassos erros de julgamento e arrancariam junto com a erva má o bom trigo. Antes – é a segunda razão – Deus determinou a hora da separação. A medida marcada por ele deve ficar cheia (Mt 13.48) e a seara precisa ficar madura. Então virá o fim e com ele a separação do joio e do trigo, a seleção dos peixes bons dentre os maus. Só então surgirá a comunidade santa de Deus, livre de todos os maus, dos crentes só de aparência e dos que só confessam com os lábios.

Conclusão

Em tais narrativas do Novo Testamento Jesus irrompe o Reino de Deus através de seu ministério. As parábolas têm um tom de graça, mas não tinham (e não têm) o propósito de entreter o público, mas de levá-lo a um desafio, a uma escolha, a uma ação específica que, em última análise, é uma decisão com relação ao Reino de Deus. Os que respondem positivamente aos desafios do Reino de Deus têm de fazer opções com relação ao Reino, com relação a Deus e com relação ao próximo. Por outro lado, muitas parábolas têm um tom de crise, porque apontam para um fim escatológico. Essa é a crise do Reino. Algo tremendamente catastrófico pode acontecer quando se procrastina ou quando se faz a opção errada. Todas as parábolas tendem a forçar o ouvinte a tomar uma posição. Elas estão cheias da certeza de que os tempos salvíficos estão a irromper-se. Dessa forma, os Evangelhos nos conduzem a concluir que Jesus se preocupou em preparar seus ouvintes para o inesperado.

Assim, a vinda do Reino põe à prova os homens e estabelece distinções entre eles. Do modo como na parábola da rede há de selecionar aqueles que irão para a venda no mercado – e isso era tão familiar para os discípulos cuja sobrevivência dependia da pesca; ou como na colheita se separa joio do trigo, assim entre as multidões atraídas por Jesus se introduziu uma distinção entre aqueles cuja reação ante a situação concreta expressa pela parábola fora positiva gerando obediência ao Rei e aquele que ficou passivo, temeroso e indiferente ante a proclamação do Reino. Nas palavras de Dodd, aceitar o Reino significava na realidade “arriscar a vida por ele”.

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Fonte: Site Arminianismo.com

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DODD, C. H. “Las Parábolas Del Reino” Ediciones Cristiandad. Madrid, 1974. 196p.

ENTREVERNES, Grupo de. “Signos y Parabolas” Ediciones Cristiandad. Madrid,

1979. 254p.

JEREMIAS, Joachim. “As Parábolas de Jesus” Paulus. São Paulo, 1986. 238p.

LADD, George Eldon. “Teologia do Novo Testamento” JUERP. Rio de Janeiro, 1986. 584p.

LOMBARDI, Riccardo. “Igreja e Reino de Deus” Loyola. São Paulo, 1978. 170p.

MIRANDA, Osmundo A. “Introdução ao Estudo das Parábolas” ASTE. São Paulo,

1984. 243p.

PIXLEY, George V. “O Reino de Deus” – Paulinas. São Paulo, 1986. 120p.

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