Romanos 9 – John Wesley

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John Wesley

No presente capítulo, Paulo, depois de declarar fortemente seu amor e estima pelos seus patrícios, propõe-se a responder à grande objeção que faziam; a saber, que a rejeição dos judeus e a recepção dos gentios contrariavam a palavra de Deus. Que aqui não tinha o menor pensamento da eleição ou reprovação pessoais é manifesto, (1) porque isto estava totalmente fora da sua intenção, que era mostrar serem a rejeição dos judeus e a recepção dos gentios coerentes com sua palavra; (2) porque tal doutrina não tenderia a convencer os judeus; antes, tenderia obviamente, a endurecê-los; (3) porque quando, ao final do capítulo ele resume seu argumento, ele não diz palavra alguma sobre isto ou sugere semelhante coisa.

1. Em Cristo – Isto parece sugerir um apelo a Cristo. No Espírito Santo – Pela sua graça.

2. Tenho grande tristeza – Um alto grau de tristeza e de alegria espirituais pode existir um ao lado do outro (Rm 8.39). Por declarar sua tristeza pelos judeus incrédulos, os quais se excluíam de todas as bênçãos que acaba de enumerar, ele mostra que o que agora ia falar não provinha de qualquer preconceito contra eles.

3. Eu mesmo desejaria – Meras palavras humanas são incapazes de descrever as emoções de almas plenas de Deus. É como se tivesse falado: eu poderia desejar sofrer em seu lugar; sim, ser o separado de Cristo em seu lugar. Não se pode dizer em que grau ele desejou isto, a menos que alguém tivesse perguntado ao próprio Paulo e que ele tivesse dado a resposta. Mas por certo ele não estava, de forma alguma, pensando em si, mas só nos outros e na glória de Deus. Tal coisa não podia acontecer; mesmo assim, o desejo era piedoso e sólido; embora sob uma condição tácita, isto se fosse certo e possível.

4. Pertence-lhe a adoção, etc. – Ele enumera seis prerrogativas, das quais o primeiro par concerne ao Pai, o segundo a Cristo, o terceiro ao Espírito Santo. A adoção, e também a glória – Isto é, Israel e o filho primogênito de Deus e o Deus da glória e seu Deus (Dt 4.7, Sl 106.20). Estes são relativos, um ao outro, a uma vez, Deus é o Pai de Israel, e Israel o povo de Deus. Paulo não fala aqui da arca da aliança ou de qualquer coisa material. O próprio Deus é “a glória do seu povo Israel” [Cf. Lc 2.32]. As alianças, a legislação – A aliança foi dada muito antes da lei. É chamada de alianças, no plural, porque foi repetida tão frequentemente e de tantas maneiras, e porque havia nela duas disposições (Gl 4.24), uma prometendo e a outra exibindo a promessa. O culto e as promessas – A verdadeira maneira de adorar a Deus e todas as promessas feitas aos antepassados.

5. Às prerrogativas já mencionadas, Paulo agora acrescenta mais duas. Deles são os pais – Os patriarcas e homens santos da antiguidade, sim, e o próprio Messias. O qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre – As palavras originais sugerem o ser auto-existente, independente, o qual era, é e será. Sobre todos – O supremo, como sendo Deus, e consequentemente bendito para todo o sempre. Palavra alguma pode expressar mais claramente sua divina, suprema majestade e sua graciosa soberania sobre judeus e gentios.

6. E não como se – Os judeus imaginaram que a Palavra de Deus deveria falhar, se toda a sua nação não fosse salva. Paulo refuta este pensamento e prova que a própria palavra havia previsto sua apostasia. A palavra de Deus – As promessas de Deus a Israel. Tenha falhado – Isto não poderia ser. Mesmo agora, diz o apóstolo, alguns desfrutam das promessas; e, posteriormente “todo o Israel será salvo” [Rm 11.26]. Isto é a essência dos capítulos 9, 10 e 11. Porque – Aqui ele entra nas provas da sua declaração. Nem todos são Israel, os que são de Israel – Os judeus sustentavam o contrário; a saber, que todos os que nasceram como israelitas, e só eles, eram povo de Deus. A primeira parte dessa tese é refutada aqui; a última, nos vv. 24 e 25. A conclusão é que Deus aceita todos os crentes, e só eles, e que este de forma alguma contraria a sua palavra. Pelo contrário, ele tem declarado na sua palavra, tanto por tipos como por testemunhos expressos, que crentes são aceitos como “filhos da promessa”, enquanto incrédulos são rejeitados, embora sendo “filhos da carne” [Rm 9.8]. Não todos são Israel – Isto é, nem todos estão no favor de Deus que são descendentes genealógicos de lsrael.[1]

7. Nem por serem sementes de Abraão resultará que todos são filhos de Deus[2] – Isto não foi o caso nem com toda a família de Abraão, e muito menos o seria na casa dos seus descendentes remotos. Mas, disse Deus então: Em Isaque será chamada a tua descendência – A saber, Isaque, não Ismael, será chamado tua semente; a semente para a qual se faz a promessa.

8. Isto é, Estes filhos não, etc. É como se tivesse dito: aqui temos um claro tipo das coisas do porvir; mostrando para nós que em todas as gerações futuras, não são os filhos da carne, os descendentes genealógicos de Abraão, mas os filhos da promessa, aqueles aos quais a promessa é feita, ou seja, os crentes são os filhos de Deus.

9. Porque esta é a palavra da promessa – Pelo poder pelo qual Isaque foi concebido, e não pelo poder da natureza. [A palavra] não é: Todo aquele que nasce de ti será abençoado, mas [ele diz]: Por esse tempo – Que agora determino. Virei, e Sara terá um filho, o qual herdará a bênção.

10. E que a bênção de Deus não pertence a todos os descendentes de Abraão fica evidente, não só por este exemplo, como também quando pelo caso de Esaú e Jacó, sendo que Jacó já fora escolhido para herdar a bênção, antes que qualquer dos dois tivesse praticado o bem ou o mal.[3] O apóstolo menciona isto para mostrar que nem os antepassados [dos judeus] foram aceitos por causa de qualquer mérito próprio. Que o propósito de Deus quanto à eleição permanecesse firme – Sendo esse propósito o de eleger ou escolher a semente prometida. Não por obras – Não por causa de qualquer mérito antecedente da parte daquele a quem Deus escolheu. Mas por aquele que chamou – De acordo com a própria vontade daquele que chamou para tal privilégio aquele que ele próprio quis chamar.

12. O mais velho – Esaú. Será servo do mais moço – Não na sua própria pessoa, pois isto nunca aconteceu, mas na sua posteridade. Assim, os edomitas frequentemente foram sujeitos aos israelitas.

13. Como está escrito – Com a palavra falada há tanto tempo em Gênesis, a de Malaquias concorda. Amei a Jacó– Com um amor peculiar; isto é, aos israelitas, à posteridade. Porém, comparativamente, me aborreci de Esaú – Isto é, dos edomitas, a posteridade de Esaú. Mas prestem atenção para: (1) Isto não diz respeito à pessoa de Jacó ou Esaú; (2) nem diz respeito ao estado eterno, deles próprios ou da sua descendência. Até aqui o apóstolo vem provando sua tese; a saber, que a exclusão de uma grande parte da descendência de Abraão, e mesmo de Isaque das promessas especiais de Deus, longe de ser impossível, já tinha realmente acontecido, conforme as Escrituras. Ele agora passa a refutar uma objeção.

14. Há injustiça da parte de Deus? Deus será injusto pelo fato de dar a bênção a Jacó em vez de Esaú? Ou por aceitar crentes e estes tão-somente? De modo nenhum. Isto é bem coerente com a sua justiça, porque ele tem o direito de fixar as condições sob as quais ele mostrará misericórdia, consoante a sua declaração a Moisés, intercedendo por todo o povo depois de ter praticado a idolatria com o bezerro de ouro. Terei misericôrdia de quem me aprouver ter misericórdia – Conforme os termos que eu próprio estabeleci. E compadecer-me-ei de quem me aprouuer ter compaixão– A saber, aos que se submetem às minhas condições, que aceitam a compaixão da maneira que eu determinei.

16. A bênção, portanto, não depende de quem quer, ou de quem corre – Ela não resulta nem da vontade e nem das obras humanas, mas da graça e do poder de Deus. A vontade do ser humano aqui se opõe à graça de Deus, e o seu correr à operação divina. Também esta declaração geral não se aplica apenas a Isaque, a Jacó e aos israelitas no tempo de Moisés, mas também a todos os seus descendentes, até ao fim do mundo.

17. Além disso – Deus tem o direito incontestável de rejeitar aqueles que se recusam a aceitar as bênçãos sob as condições dele. Ele exercitou tal direito no caso de Faraó; após muitos atos de teimosia e rebelião, Deus disse, como se encontra registrado na Escritura: Para isto mesmo te levantei – A saber, a não ser que tu te arrependas, isto certamente será a consequência do fato de ter eu te levantado, fazendo de ti um grande e glorioso monarca, para mostrar em ti o meu poder (como realmente aconteceu, por submergir a ele e ao seu exército no mar) e que meu nome seja anunciado por toda a terra – Como o é no dia de hoje. Isto pode ter ainda um outro sentido. Parece que Deus estava disposto a mostrar seu poder sobre o rio, os insetos, outros animais (bem como as causas de sua saúde, doenças, vida e morte), sobre os meteoros, o ar, o sol (os egípcios adoravam todas estas coisas e outras nações aprenderam destes as suas idolatrias), e, ao mesmo tempo, sobre seus deuses, por aquele terrível golpe, matando todos os seus sacerdotes e suas vítimas prediletas, os primogênitos dos seres humanos e das bestas-feras. Tudo isto se fez com o propósito não apenas de libertar seu povo Israel (para que uma só ação de onipotência teria sido suficiente), mas também de convencer os egípcios de que os objetos da sua adoração não passavam de criaturas de Jeová, inteiramente sob seu controle, e a atraí-los e às nações vizinhas, as quais ouviriam de todas essas maravilhas, da sua idolatria e para a adoração do único [verdadeiro] Deus. Para a execução deste desígnio (visando à demonstração do poder divino sobre os vários objetos do seu culto, através de uma variedade de atos maravilhosos, que, ao mesmo tempo se constituíram em justas punições pela sua cruel pressão dos israelitas), Deus se agradou em elevar ao trono de uma monarquia absoluta, um homem, não um homem que ele havia tornado iníquo de propósito, mas um que ele descobriu assim, o mais orgulhoso, o mais ousado e obstinado de todos os príncipes egípcios; e que, sendo incorrigível, bem mereceu ser colocado naquela situação na qual o juízo divino caiu pesadíssimo.

18. Logo – Isto é, ele de fato mostra a misericórdia sob suas próprias condições; a saber, aos que creem. [Ele] endurece – Isto é, ele os abandona à dureza de seu coração. A quem lhe apraz – A saber, os que não creem.

19. De que se queixa ele ainda? O vocábulo ainda é fortemente expressivo da murmuração mal-humorada e rabugenta daquele que faz a objeção. Pois quem jamais resistiu à sua vontade? – A palavra “sua” também expressa sua insolência e aversão a Deus, de quem ele nem se digna mencionar o nome.

20. Mas quem és tu, ó homem. Homem pequeno, impotente e ignorante. Para discutires com Deus? Ter que acusar Deus de injustiça, por ele próprio estabelecer os termos sob as quais ele mostrará a misericórdia? Porventura pode o artefato perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? – Por que me fizeste capaz de honra e imortalidade só pela fé?

21. Ou não tem o oleiro direito sobre a massa? – E quanto mais não tem Deus direito sobre suas criaturas, para designar um vaso, a saber, o crente, para honra e um outro, a saber, o incrédulo, para desonra? Se examinar o direito que Deus tem sobre nós de um modo mais geral, no que tange às suas criaturas inteligentes, Deus pode ser considerado de dois ângulos diferentes: como criador, proprietário e Senhor de tudo, ou como seu governador e juiz. Deus, na qualidade de Senhor soberano e Proprietário de tudo, dispensa seus dons ou favores com perfeita sabedoria, porém, não de acordo com quaisquer regras ou métodos que nos são familiares. A época em que nós existiremos, o país em que viveremos, nossos pais, a constituição do nosso corpo ou o feito mental: estas e inumeráveis outras circunstâncias são, sem dúvida, ordenadas com perfeita sabedoria; mas por regras que nos são invisíveis.

Os métodos de Deus em tratar conosco como Governador e Juiz, porém, são claramente revelados e perfeitamente conhecidos; a saber, que ele, no fim, retribuirá a cada um conforme as suas obras [Mt 16.27]. “Quem crer será salvo: quem não crer será condenado” [Mc 16.16].

Portanto, embora “ele tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” [v.18], isto é, ele permite que se endureçam como consequência da sua maldade obstinada; mesmo assim, sua vontade não é a de um ser arbitrário, caprichoso e tirânico. Ele só deseja aquilo que é infinitamente sábio e bom; por isso, sua vontade é uma regra justíssima de julgamento. Mostrará misericórdia, como já nos assegurou, só aos verdadeiros crentes e nem endurecerá a ninguém, exceto os que obstinadamente recusam sua misericórdia.

22. Se Deus, querendo – Isto se refere aos vv. 18-19. A saber, embora seja agora sua vontade, por causa da sua obstinada descrença. Mostrar a sua ira – A qual necessariamente pressupõe o pecado. E dar a conhecer o seu poder – Isto é repetido no v. 17. Suportou – Como fez com Faraó. Com muita longanimidade – A qual os deveria ter levado ao arrependimento. Os vasos da ira – Os que haviam movido sua ira por continuar a rejeitar a sua misericórdia. Preparados para a destruição – Por causa de sua própria impenitência voluntariosa. Haverá injustiça nisso?

23. Para que desse a conhecer – E se, por mostrar tal longanimidade mesmo aos “vasos da ira”, ele mostrou mais abundantemente a grandeza da sua gloriosa bondade, sabedoria e poder, aos vasos de misericórdia; aos que ele próprio, pela sua graça preparou para a glória. Existe nisso alguma injustiça?

24. Os quais somos nós – Aqui o apóstolo chega à outra proposição, a da graça livre para todos, quer judeu, quer gentio. Dentre os judeus – De que ele trata no v. 20. Dentre os gentios – Tratado no mesmo verso.

25. Amada – Como esposa. A que antes não era amada – Consequentemente, não eleita incondicionalmente.

26. Ali mesmo serão chamados filhos de Deus – Assim, eles não precisam deixar seu próprio país e vir à Judeia.

27. Mas Isaías testifica que (assim como muitos gentios serão aceitos) muitos judeus serão rejeitados e que de todos os milhares de Israel, só o remanescente é que será salvo. Isto foi falado originalmente dos poucos que foram poupados da destruição pelo exército de Senaqueribe.

28. Porque o Senhor cumprirá a sua palavra[4] – Agindo com rigorosa justiça, ele deixará apenas um pequeno remanescente. Haverá uma destruição tão generalizada que apenas poucos escaparão.

29. Como lsaias já disse – A saber, em Isaías 1.9 [e 7.1], que se refere aos que foram sitiados em Jerusalém por Rezim e Peca. Se o Senhor não nos tivesse deixado descendência – O que significa (1) a carência presente e (2) a abundância futura. Ter-nos-íamos tornado como Sodoma – Portanto, o revoltar-se contra Deus pela maioria da nação judaica e a consequente morte nos seus pecados não são coisas sem precedente.

30. Que diremos pois? O que devemos concluir de tudo isso, a não ser que os gentios, que não buscavam a justiça – Os quais antigamente não tinham conhecimento da justiça e nem se preocupavam com ela. Vieram a alcançá-la– ou seja, a justificação. Todavia a justiça que decorre da fé – Eis a primeira conclusão que devemos tirar das observações anteriores.

31. A segunda é que Israel (os judeus), procurando uma lei da justiça, a lei que, devidamente empregada, teria levado esse povo à fé e, daí, à justiça. Não chegou a atingir essa lei – A saber, não alcançaram aquela justiça ou justificação que é o único grande fim da lei.

32. Por quê? – Será porque Deus decretou eternamente que não a atingissem? Não encontramos aqui coisa semelhante; mas, coerente com o seu argumento, o apóstolo nos dá uma boa explicação: Porque não a procuraram pela fé – A única maneira de atingi-la. E, sim, como que pelas obras – Com efeito, se não declaradamente, das obrasPorque tropeçaram na pedra de tropeço – Isto é, Cristo crucificado [Cf. 1Pe 1.8].

33. Como está escrito – Prenunciado pelo vosso próprio profeta [Isaías]. Eis que ponho em Sião – Exibo na minha Igreja aquilo que embora realmente sendo o único seguro fundamento da felicidade, mesmo assim será uma pedra de tropeço e rocha de escândalo – Isto é, a ocasião de ruína para muitos, por causa da sua incredulidade obstinada.

Fonte: Romanos – Notas Explicativas, pp. 68-76

Fonte:  http://www.arminianismo.com/


[1] O comentário de Wesley exige a sua própria versão.

[2] Wesley não inclui as palavras “de Deus” na sua tradução. No comentário ele as acrescenta, grifadas, como se fosse parte do texto bíblico, provavelmente para deixar evidente a sua interpretação da passagem.

[3] “O bem ou o mal” é citado do v. 11.

[4] O sentido do texto na KJV e também no de Wesley é um tanto difícil de interpretar. Por ser bem mais claro, aqui seguimos Almeida.

A Absoluta Importância do Motivo.

1 Comentário

A. W. Tozer

A prova pela qual toda conduta será finalmente julgada é o motivo.

Como a água não pode subir mais alto do que o nível da sua fonte, assim a qualidade moral de um ato nunca pode ser mais elevada do que o motivo que o inspira. Por esta razão, nenhum ato procedente de um motivo mau pode ser bom, ainda que algum bem pareça resultar dele. Toda ação praticada por ira ou despeito, por exemplo, ver-se-á, afinal, que foi praticada em favor do inimigo e contra o reino de Deus.

 

Infelizmente, a atividade religiosa possui tal natureza, que muito desse tipo de atividade pode ser realizado por motivos maus, como a raiva, a inveja, a ambição, a vaidade e a avareza. Toda atividade desse tipo é essencialmente má e como tal será avaliada no Julgamento.

Nesta questão de motivos, como em muitas outras, os fariseus dão-nos exemplos claros. Eles continuam sendo o mais triste fracasso religioso do mundo, não por causa de erro doutrinário, nem porque eram pessoas de vida abertamente dissoluta. Todo o problema deles estava na qualidade dos seus motivos religiosos. Oravam, mas para serem ouvidos pelos homens, e, deste modo, o seu motivo arruinava as suas orações e as tornava inúteis e, realmente, más. Contribuíam para o serviço do templo, porém, às vezes, o faziam para escapar do seu dever para com os seus pais, e isto era um mal, um pecado. Os fariseus condenavam o pecado e se levantavam contra ele, quando o viam nos outros, mas o faziam motivados por sua justiça própria e por sua dureza de coração. Isso caracterizava quase tudo o que faziam. Suas atividades eram cercadas por aparência de santidade; e essas mesmas atividades, se fossem realizadas por motivos puros, seriam boas e louváveis. Toda a fraqueza dos fariseus estava na qualidade dos seus motivos.

Isto não é uma coisa insignificante – é o que podemos concluir do fato de que aqueles religiosos formais e ortodoxos continuaram em sua cegueira, até que finalmente crucificaram o Senhor da glória, sem qualquer noção da gravidade do seu crime.

Atos religiosos praticados por motivos vis são duplamente maus – maus em si mesmos e maus porque são praticados em nome de Deus. Isto equivale a pecar em nome dAquele Ser que é impecável, a mentir em nome dAquele que não pode mentir e a odiar em nome dAquele cuja natureza é amor.

Os crentes, especialmente os muito ativos, freqüentemente devem separar tempo para sondar a sua alma, a fim de certificarem-se dos seus motivos. Muito solo é cantado para exibição; muitos sermões são pregados para mostrar talento; muitas igrejas são fundadas como um insulto contra outra igreja. Mesmo a atividade missionária pode tornar-se competitiva, e a conquista de almas pode degenerar, tornando-se uma espécie de marketing eclesiástico, para satisfazer a carne. Não esqueçam: os fariseus eram grandes missionários, e rodeavam o mar e a terra para fazer um converso.

Um bom modo de evitar a armadilha da atividade religiosa vazia é comparecer diante de Deus, sempre que possível, com a nossa Bíblia aberta em 1 Coríntios 13. Esta passagem, embora seja considerada uma das mais belas da Bíblia, é também uma das mais severas dentre as que se acham nas Escrituras Sagradas. O apóstolo toma o serviço religioso mais elevado e o consigna à futilidade, se não for motivado pelo amor. Sem amor, profetas, mestres, oradores, filantropos e mártires são despedidos sem recompensas.

Resumindo, podemos dizer que, aos olhos de Deus, somos julgados não tanto pelo que fazemos e sim por nossos motivos para fazê-lo. Não “o quê” mas “por quê” será a pergunta importante que ouviremos, quando nós, crentes, comparecermos no tribunal, a fim de prestarmos contas dos atos praticados enquanto estávamos no corpo.

 Fonte:  Arminianismo.com

Fonte: Revista Fé para Hoje (Publicado originalmente, em português, em A Raiz dos Justos, pela Editora Mundo Cristão)

No olho do furacão.

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Luis de Souza Cardoso

Desde o século XIX e nas primeiras décadas do século XX o protestantismo em expansão no Brasil era alvo de resistência da Igreja Católica, visando a proteger sua hegemonia no campo religioso. Em muitos casos isso chegava às raias do conflito. A partir de fragmentos biográficos e narrativos de Sante Uberto Barbieri, sobre seu encontro com o metodismo e a fé cristã, procuraremos mostrar esse contexto de disputas no campo religioso, vividas no período em Passo Fundo (RS).

Em termos metodológicos e historiográficos, na linha micro-histórica, buscamos uma explicação para o contexto apoiando-nos na observação da vivência dos sujeitos, nas narrativas, discursos e relacionamentos travados pelos protagonistas da história. Ao escrever biografias e pensá-las metodologicamente sobre o gênero, Jacques Le Goff declarou:

A biografia se aproxima da história total que idealizávamos na Escola dos Annales. Quando faço uma biografia, penso que devo, por meio do personagem, chegar a uma explicação da sociedade daquele tempo (COLOMBO, 2001, p. E3).

1. Cidadão do mundo

“Quantos homens em um homem! Como seria injusto, para essa criatura móvel, estereotipar uma imagem definitiva! Rembrandt fez trinta auto-retratos, creio todos parecidos, todos diferentes” (MICHELET, 1989, p.219). É tarefa difícil apreender o sujeito histórico e pretender defini-lo. Somos inconclusos e estamos em permanente reconstrução, razão porque não pretendemos encerrar o sujeito num retrato definitivo, o que seria estereotipá-lo. Vamos apenas registrar alguns aspectos, consciente dos limites dessa apresentação.

Nasceu em Dueville, Vicenza, região do Vêneto (02/08/1902) e recebeu o nome do pai, Sante Barbieri. Somente mais tarde acrescentou Uberto ao nome, em homenagem ao irmão que falecera ainda criança. Chegou ao Brasil (1911) na esteira do mais extraordinário fluxo de população entre o final do século XIX e início do século XX, a imigração italiana.

O pai, militante anarquista, percorreu diversos países antes de fixar-se no Brasil. Até os vinte anos Barbieri teve pouco contato com religião e sua educação doméstica prescindia da mesma; contudo, era humanista e valorizava idéias de liberdade, igualdade e justiça, conforme conta (BARBIERI, How I met …, s/d, p.4):

Eu era um jovem agnóstico, um livre pensador, imbuído com idéias revolucionárias. Embora nunca tivesse pensado em participar de um movimento violento para mudar as estruturas sociais, que achava injusta, estava convencido de que sem violência poderia ser impossível mudá-las. Tinha herdado estas idéias de meus pais italianos, que na mocidade moraram na Suíça como imigrantes e lá conheceram alguns revolucionários da Rússia, inclusive Lênin. Eles não impuseram a mim as suas idéias, mas eu simpatizei com elas. Também não me apresentaram para qualquer religião; isso era algo que eu deveria decidir, quando chegasse o tempo certo.

Só depois do contato com os metodistas (1922) é que passou a experimentar a fé religiosa. Foi recebido à comunhão da Igreja em 01/04/1923. Ao final de 1926 concluiu o curso teológico na Escola Bíblica do Porto Alegre College e foi credenciado pastor pela Conferência Anual Sul-brasileira. Em janeiro de 1930, já nos EUA, na Southern Methodist University, onde estava para completar e aprimorar estudos, foi ordenado presbítero pelo Bispo John M. Moore.

Marcou indelével o metodismo brasileiro e latino-americano, sobretudo por seu trabalho docente, teológico, literário e episcopal. Foi Reitor da Faculdade de Teologia do Sul (1934-1938) e da recém criada Faculdade de Teologia da Igreja Metodista do Brasil (fev/1938). Nesta última, permaneceu poucos meses na função (até 05/10/1938) da qual se desligou por discordar de “atitude tomada pelo Conselho Superior (…) no tocante a escolha e eleição de professores de sua Congregação” (Barbieri, 1938), sem estar presente à reunião ou ao menos ser ouvido. Esse período pode ser conhecido com mais detalhes no trabalho intitulado “Sante Uberto Barbieri: recorte biográfico de um imigrante italiano no Brasil meridional e sua inserção no metodismo” (CARDOSO, 2001).

Transferiu-se em 1939 para a Conferencia del Rio de la Plata e logo passou a ensinar teologia no Union Theological Seminary de Buenos Aires. Posteriormente, assumiu por vários anos a Reitoria da Facultad Evangélica de Teologia (atual ISEDET).

Em 1949 foi eleito Bispo da Conferencia Central del America Latina, para a Argentina, Uruguai e Bolívia, reeleito em 52, 56, 60 e 64. Também respondeu pelo Peru e comunidades metodistas hispânicas na Flórida. De 70 a 73 foi o Secretário Executivo do CIEMAL, órgão que ajudou a criar.

É igualmente notória sua liderança ecumênica. Presidiu a Primeira Conferência Latino-americana de Igrejas Evangélicas – CELA (1949). Em Evanston (1954) foi eleito um dos seis Presidentes do CMI, até 1961, quando em Nova Delhi passou a integrar os Comitês Central e Executivo do CMI. Teve importante atuação nos antecedentes da organização do CLAI.

A seguir apresentaremos o contexto conflituoso no qual ocorreu seu encontro com a fé cristã e o metodismo, marcando o início de sua caminhada religiosa.

2. Aproximação com os liberais

[1]

Por suas habilidades literárias e interesse no debate de idéias, aos 18 anos, aproximou-se de “pessoas intelectualmente inquietas” (Barbieri, 1976, p. 5), a “intelligentsia da cidade” (BARBIERI, 1949, p. 6). Dentre esses o diretor do jornal A Época, que lhe ofereceu a oportunidade de publicar. “Escrevia geralmente para todos os números, ad honorem, somente pelo prazer de expressar o que minha jovem mente criava, dando vazão ao que aprendera de meus pais, isto é, o respeito ao ser humano e o amor à liberdade” (BARBIERI, 1976, p. 5).

Foi nesse contexto que no início dos anos vinte, um acontecimento por ele protagonizado o aproximou dos metodistas e resultou em novos rumos para sua vida. Alguns aspectos desse período são importantes para reconhecer o contexto político-religioso.

3. Católicos, maçons, liberais e protestantes: um campo de conflitos

Há décadas o país testemunhava a oposição entre liberais e conservadores. No século XIX, durante o Segundo Reinado, ambos constituíram-se em partidos antagônicos. Quando a monarquia começou a entrar em decadência os liberais ganharam força.

Um exemplo disso é a questão religiosa (1872–1875), originada na oposição Igreja Católica (versus) Maçonaria, quando o Imperador assumiu posição descontentando a hierarquia Católica e, de certo modo, granjeando a simpatia dos liberais, que se fortaleciam. Essa tensão entre catolicismo conservador e os liberais foi um aspecto característico do período, que se estendeu pela Primeira República e cujas repercussões influenciaram o desenvolvimento e consolidação do protestantismo.

No que se refere às relações católico-protestantes, sabe-se que eram bastante ásperas, permeadas de rivalidades e conflitos. Conforme assinala Reily (1984, p. 224), mesmo depois após a República (1889) o clima se manteve inalterado:

boa parte da motivação do trabalho protestante continuava a ser o anticatolicismo. Por outro lado, crendo que extra ecclesiam, nulla salus, e classificando os protestantes de hereges, o catolicismo não podia deixar de se opor ao protestantismo. Geralmente, a oposição não tomou a forma de perseguição aberta (embora tenham ocorrido casos de perseguição, em geral em virtude de provocação pelos protestantes), mas assumiu formas mais sutis.

Apesar dos liberais, positivistas, maçons e protestantes nem sempre compartilharem de mesmas idéias em tudo, havia entre os grupos uma afinidade constituindo uma espécie de “aliança” contra os conservadores. Um exemplo foi a resistência à união entre o Estado e Igreja Católica. Reily (1984, p. 158) destaca que, embora tenha sido um movimento positivista, a República foi saudada com entusiasmo pelos protestantes, apesar das diferenças entre positivismo e protestantismo. Acima de tudo, interessava que o Decreto no 119-A de 07/01/1890 concedera a liberdade de culto.

Esse clima de disputas, resistências e associativismo fez eco nos mais longínquos rincões do país. Em Passo Fundo foi evidente, sobretudo porque no limiar do século XX o metodismo estava chegando naquela região, iniciando uma disputa do campo religioso e educacional, até então inexistente.

4. Implantação do metodismo no planalto gaúcho

Em 1899 John Price fez uma primeira prospecção em Fundo dos Valos, Três Capões e Cruz Alta. Posteriormente a Conferência Anual da Missão Brasileira (1901) nomeou James Terrel para Cruz Alta e a partir daí, no mesmo ano, chegou a Passo Fundo.

Apesar dos contatos em Passo Fundo terem resultado em boa receptividade, somente em 1911 foi nomeado o primeiro pastor, Antônio Patrício Fraga, gaúcho de Santo Antônio da Patrulha, que passou a residir na cidade em 1912.

É importante notar que não havendo templo metodista, o primeiro culto na cidade foi celebrado nas dependências da Loja Maçônica Concórdia do Sul (14/04/1912). Na ocasião foram recebidos 24 membros fundadores da Igreja. O primeiro arrolado foi Justiniano Araújo, paulista de tradição presbiteriana e membro da maçonaria, registra Cecília Kneipp (1994, p. 12-13).

Fruto das afinidades entre metodistas e maçons, comum naquele período, em 1909 o intendente municipal (prefeito) Gervásio Lucas Annes [3] doou terreno público para a Igreja, visando à construção do futuro templo metodista.

Mais tarde o mesmo se repetiu para instalação do Instituto Gymnasial (1920) [4]. Por petição formulada pelo advogado Ney de Lima Costa, diretor do Jornal A Época, após aprovação do Conselho Municipal, cujo presidente era Nicolau de Araújo Vergueiro, o intendente, Coronel Pedro Lopes de Oliveira, sancionou a doação do terreno público, constituído da “antiga praça Boa Vista, situada na parte ocidental da cidade, [no] Boqueirão” (Prospecto, 1920), para construção do colégio metodista. Todos os citados eram membros da Loja Maçônica Concórdia do Sul, o que corrobora a tese da boa relação e aproximação dos metodistas com os liberais da cidade (Medeiros, 1999, p. 92).

Completando esse cenário convém destacar que a fundação do Instituto Gymnasial acirrou as disputas entre católicos e metodistas. Os católicos, pioneiros na religião e educação, fundaram em Passo Fundo, em 1904, o Colégio Marista São Pedro, que funcionou até 1910, quando fechou por supressão das subvenções públicas pelo intendente municipal, Gervásio Lucas Annes. Em 1923 as Irmãs de Nossa Senhora fundaram o Colégio Notre Dame e só 1929 os Maristas reabririam seu educandário com o nome Colégio Nossa Senhora da Conceição, ambos existentes até os dias atuais. Conforme Medeiros (1993, p. 93):

Estava formada uma das áreas onde católicos e metodistas confrontar-se-iam em Passo Fundo, a saber, a esfera educacional. Cada uma destas escolas, e principalmente o Instituto Gymnasial e o Colégio Conceição, proclamavam a si próprios como o melhor educandário. Mas a questão mais importante era o fato de que ambos disputavam o direito de educar a fina flor da sociedade passofundense; a futura elite dirigente do município.

5. No confronto com católicos o encontro com liberais e metodistas

Como referimos, por volta de 1920 Barbieri passou a publicar no Jornal A Época. Em pouco tempo suas crônicas já eram suficientemente conhecidas, a ponto de, ao final do primeiro semestre de 21, receber um convite para trabalhar em outro jornal. Disso recorda: “um publicano moderno, tesoureiro do fisco federal, (…) me propunha ir à outra cidade para empregar-me como repórter de um diário, ao qual me recomendaria” (BARBIERI, 1976, p. 6). Contudo, Barbieri não sabia que em breve uma inesperada situação mudaria completamente os seus planos e o rumo da vida.

Depois disso, enquanto voltava para casa, excitado com a possibilidade de um emprego, ao acaso encontrou na rua um folheto jogado. Ao ver que algo estava escrito, não resistiu a curiosidade, ávido leitor que era, apanhou e guardou para lê-lo mais tarde com atenção (BARBIERI, 1976, p. 6).

Curiosidade, acaso ou providência divina? Não é possível definir essa trama com absolutos. Para Paul Veyne uma mistura muito humana e de certo modo pouco científica, de causas materiais, fins e acasos (1995, p. 28), estruturas invisíveis em que os indivíduos se movem na construção da história sem ao menos, talvez, saber que fazem (LEVI, 1998:133–161).

Da reação ao ler o folheto Barbieri registra: “qual foi a minha surpresa ao encontrar-me frente a um libelo de um sacerdote católico romano contra um grupo religioso dissidente, denominado metodista, o qual eu desconhecia. Quem eram? Em que acreditavam?” (BARBIERI, 1976, p. 6). Irritou-se com o que chamou de “insulto à dignidade humana” e “oposição à liberdade de consciência” (BARBIERI, 1976, p. 6).

Ele não conhecia os metodistas, sequer tinha interesse por religião, e apesar de italiano e de reconhecer a influência recebida da avó, na tenra infância, não se sentia um Católico Romano. Na verdade, como admite, sua referência de religião era muito mais negativa do que qualquer outra, devido às leituras de Schopenhauer, Nietzsche e outros autores da mesma escola (BARBIERI, 1976, p. 5). Portanto, não se tratava de defender o metodismo como religião. Na sua opinião a questão era grave pelo fato do inalienável direito à liberdade de consciência estar sob ameaça, como registra: “não conhecia os metodistas, mas senti que eles tinham o direito de viver e cultuar o seu Deus a seu modo, dentro dos direitos que lhes eram outorgados pela Constituição Brasileira, que dá a todo cidadão a liberdade de seguir a religião que lhe aprouver” (CHAVES, 1973, p. 8).

Educado que fora nas lutas libertárias, quer pelo exemplo do pai anarquista, quer pelas abundantes leituras da infância e juventude, do melhor da literatura mundial, sua consciência não podia se conformar com aquela situação; assim, decidiu retrucar e a partir daí entrou no “olho do furacão”.

5.1. O confronto

Fez o que sabia fazer, escreveu. Intitulou o texto “As Aves Negras”, possivelmente referindo-se às batinas sacerdotais, à época rigorosamente trajadas pelos padres. Qualificou sua crônica de “defesa-ataque (…) virulento, porém de origem generoso” (BARBIERI, 1976, p. 6), e defendeu a tese de que “por sua história, [os católicos] não tinham direito de atacar a ninguém. Tinham contra eles os fatos da inquisição espanhola e não podiam apresentar-se como os únicos intérpretes do cristianismo” (BARBIERI, 1976, p. 6).

Mas, não era simples publicar aquela crônica. Quando o diretor do jornal conheceu o conteúdo recusou-se a publicá-la e argumentou que “ninguém jamais se atreveu antes a escrever algo com esse teor!” (BARBIERI, 1976, p. 6).

Todavia, Barbieri estava decidido e contra-argumentou que na qualidade de colaborador do jornal, ad honorem, esperava uma consideração especial ao pedido. Então após a insistência o diretor, embora hesitante, concordou em publicar na sessão das matérias pagas, intitulada “Tribuna Livre”, mas, sem ônus (Barbieri, How I met…, s/d, p.4). Com o artifício pensou em livrar o jornal da confusão, que já antevia. Deste modo a crônica assinada com o pseudônimo Sante Uberto (CHAVES, 1973, p. 9) foi divulgada.

Na edição seguinte, na mesma sessão, apareceram duas manifestações refutando o texto com veemência; porém,Barbieri mantinha tudo o que havia escrito, inclusive o título. A querela arrastou-se por várias semanas e o pároco católico qualificou Barbieri de “monstro”, reivindicando que fosse banido da cidade. Isso só não se concretizou graças à influência e amparo dos liberais que o defenderam.

5.2. O encontro

Enquanto se desenrolava a polêmica, outras conseqüências desencadearam para Barbieri, tais como: 1) a oportunidade para proferir os primeiros discursos públicos; 2) o encontro com os metodistas; 3) o despertar do desejo de conhecer algo mais sobre o metodismo e particularmente a fé cristã.

Dentre os que o apoiaram estava o intendente municipal de quem Barbieri era consócio num clube social e literário. Foi ele quem presidiu a reunião de 14/07/1921, no auditório da Intendência, quando Barbieri fez o seu discurso, conforme rememora (BARBIERI, 1949, p. 6):

Foi um grande dia, quando eles inscreveram meu nome entre os que dariam conferências de vez em quando nas salas públicas. Minha primeira palestra, que durou duas horas e foi sobre a “Liberdade” (…) no dia 14 de julho de 1921, em honra da Revolução Francesa.

Na platéia estavam o pastor metodista, Daniel Lander Betts, e uma jovem professora do Instituto Gymnasial, Odette de Oliveira , que ao final o convidaram para conhecer a Igreja e, assim, iniciava um novo rumo na vida do jovem de idéias libertárias.

Por fim, é preciso reconhecer que Barbieri jamais se afastou dos ideais revolucionários, de liberdade, igualdade e justiça, herdados dos pais anarquistas, ao contrário, ele os reforçou no encontro com Cristo e ganharam novo impulso na sua experiência de fé, gradualmente construída ao longo de sua vida, como afirmou:

… não tive uma revolução emocional (…) minha conversão foi gradual. Tive que refletir cada passo e cada idéia nova. Somente quando minha mente e coração puderam harmonizar-se eu fui capaz de dedicar a Cristo minha vida e tudo o que é meu (LEE, 1952, p.63).

… mais do que qualquer doutrina, interpretação teológica ou ritualismo, foi a figura inconfundível de Cristo que me reteve na Igreja – sua simpatia humana, sua defesa do homem, sua sensibilidade e grandeza, seu sacrifício, sua constante inspiração e paciência, compreensão, sua autodoação em amor, sua confiança plena em Deus. (BARBIERI, Mi trayectoria…, s/d, p.1)

Considerações finais

A reconstituição historiográfica e biografia dos pioneiros do metodismo no Brasil pode contribuir para o reconhecimento, análise e explicação de cada época, seus contextos, conflitos, retrocessos ou avanços, rupturas ou continuidades. A inspiração na experiência de fé, vivida por esses protagonistas da nossa história não se esgota somente no seu caráter religioso, mas está intrinsecamente imbricada com o meio e seu contexto social, político, cultural etc. Por essa razão é possível contar a história de uma época e para ela buscar explicações, por meio das vivências dos seus sujeitos protagonistas. Assim, procuramos apresentar o encontro de Barbieri com o metodismo e a fé, sem ignorar ou relegar a um segundo plano as múltiplas interações e relações que possibilitaram e até provocaram tal encontro.

Em particular o período estudado – as primeiras décadas republicanas – evidencia essas relações, alianças e o associativismo de liberais, maçons e protestantes, compondo em pontos de interesse comum, por exemplo, o enfrentamento comum do bloco conservador hegemônico, tanto em termos religiosos como políticos, num intrincado campo de lutas e conflitos. Talvez hoje muitos prefiram ignorar tal passado ou diminuir-lhe a importância; contudo, não podemos apagá-lo, dele fazemos parte, é nossa história e legado que recebemos. Tais relações estiveram na base da construção da maior parte daquilo que ainda temos e somos como protestantismo histórico e metodismo no Brasil.

Referências bibliográficas

BASTIAN, Jean Pierre. Los disidentes: sociedades protestantes y revolución en México, 1872–1911. Cidade do México: Fondo de Cultura Económica / El Colégio de México, 1989.

BONINO, José Míguez. Rostros del protestantismo latinoamericano. Buenos Aires: Nueva Creación, 1995.

COLOMBO, S. Globalização deve “desocidentalizar” história, diz Le Goff. Folha de São Paulo – Ilustrada. São Paulo, 15/02/2001. p. E3.

KNEIPP, Cecília Borges. A Igreja Metodista de Passo Fundo. Passo Fundo: Gráfica Editora UPF, 1994.

LEE, Edith M., He wears orchids – other Latin American stories. New York: Friendship Press. 1952.

LEVI, Giovani. Usos da Biografia. In: FERREIRA, M.M., AMADO, J. (orgs.). Usos & Abusos da história oral. 2a ed. Rio de Janeiro: FGV Editora, 1998.

MICHELET, Jules. História da Revolução Francesa – da queda da Bastilha à festa da Federação. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

REILY, Duncan Alexander. História documental do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 1984.

VEYNE, Paul M. Como se escreve a história. 3a ed. Brasília: Editora UnB, 1995.

Fontes primárias

CHAVES, Derly Azevedo. Cidadão do Mundo. Porto Alegre: Igreja Metodista, 1973.

BARBIERI, Sante Uberto. Carta para Afonso Romano Filho. Passo Fundo, 05 de outubro de1938. 1. p. (datilografado).

BARBIERI, Sante Uberto. A short biography of Sante UbertoBarbieri. Buenos Aires, p.1, 14/05/1949. (datilografado).

BARBIERI, Sante Uberto. How I met Christ. Buenos Aires, p.1-13, s/data. (datilografado).

BARBIERI, Sante Uberto. Mi desconocido itinerário hacia Cristo. Buenos Aires, p.1-9, dezembro de 1976 (datilografado).

BARBIERI, Sante Uberto. Mi trayectoria pastoral. Buenos Aires, s/data. 24. p. (datilografado).

PROSPECTO. Instituto Gymnasial. Passo Fundo, 1920.

Dissertações

CARDOSO, Luis de Souza. Sante Uberto Barbieri: Recorte biográfico de um imigrante italiano no Brasil meridional e sua inserção no metodismo. São Bernardo do Campo, 2001. 206p. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião, UMESP.

MEDEIROS, Márcia Maria de. Cara ou coroa: Católicos e Metodistas no Planalto Médio gaúcho no início do século XX. Porto Alegre, 1999. 132. p. Dissertação (Mestrado em História) – Pós-graduação em História, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.


Notas

 

[1] Empregamos o termo na linha da hipótese associativa, desenvolvida por Bastian (1989) ao analisar a implantação do protestantismo no México. Termos como liberalismo, anticatolicismo liberal e liberalismo radical, são utilizados para assinalar a oposição entre protestantismo e catolicismo. De acordo com essa hipótese, protestantes liberais, lojas maçônicas, associações de trabalhadores, lojas intelectuais e sociedades para-políticas, se reuniram na defesa de um Estado com tolerância religiosa, contra a hegemonia do catolicismo romano conservador e autoritário. Bonino (1995) também emprega o termo liberal para setores do protestantismo Latino-americano.

 

[2] Medeiros (1999:89) registra que “Gervásio Lucas Annes, importante liderança política da cidade e membro do Partido Republicano, era maçom. Posteriormente, com a chegada e instalação definitiva do movimento metodista na cidade, uma boa parte de sua família se converteu ao metodismo”.

 

[3] Depois denominado Instituto Educacional (IE) de Passo Fundo.

 

[4] Odette, com que Barbieri posteriormente casou-se, era irmã de Ottília de Oliveira Chaves.

Fonte: Unimesp – site

Luis de Souza Cardoso é pastor metodista; Mestre em Ciências da Religião pela UMESP e Doutorando em Educação pela UNIMEP. E-mail: lcardoso@unimep.br.

Conceito de Armínio sobre os Decretos Divinos.

2 Comentários

 

Mildred Bangs Wynkoop

 

Tiago Armínio nasceu em Oudewater, Holanda, em 1560. As necessidades econômicas obrigaram sua mãe viúva a deixar o filho debaixo da tutela de outros. Foi adotado por um sacerdote católico convertido, que o enviou à escola em Utrecht. Com a morte de seu benfeitor, o brilhante jovem foi levado à universidade lute­rana local por um professor de Marburg. Em pouco tempo, os espanhóis tomaram Oudewater e assassi­naram a maior parte de seus habitantes por negar-se a retornar ao catolicismo. Entre os mortos estavam a mãe e os irmãos de Armínio. Seu coração se encheu de amargura por tanta impiedade política, o que prova­velmente explica sua resistência à intolerância religi­osa que mais tarde teria que experimentar.

 

O triste e destituído jovem encontrou refúgio no lar de Pedro Bertius, pastor da Igreja Reformada em Roterdã. Ele o enviou à nova universidade de Leiden, onde se distinguiu como estudante. Finalmente, os patrocinadores da grande igreja em Amsterdã “o ado­taram,” assegurando-lhe a melhor educação possível a troco de sua promessa de retornar a eles como pas­tor, se assim o desejasse. Imediatamente Armínio foi enviado à Universidade de Genebra para sua prepara­ção ministerial; ali estudou teologia com Beza e ou­tros. Alguns se perguntam se Armínio chegou a acei­tar completamente a ideologia de Beza; porém, pelo menos, se familiarizou com sua “elevada posição calvinista.”[1]

 

Ao concluir sua educação em Genebra, Armínio foi nomeado pastor da Igreja de Amsterdã. Era um pre­gador brilhante, dotado exegeta bíblico, cristão humilde e consagrado. Suas mensagens expositivas lhe de­ram especial celebridade e sua oratória o fez popular, atraindo muitos ouvintes.

 

Em 1589, um leigo instruído, Koornheert, da Holan­da, levantou uma tormenta nos círculos teológicos por suas dissertações e escritos em refutação da teoria supralapsariana dos decretos divinos. É significativo que o tremendo descontentamento gerado com a posição de Calvino e Beza, tenha levado um leigo a fazer tal coisa. Koornheert argumentava que, se como Beza ar­gumentava,  Deus causaria o pecado; então, em realidade, Ele é seu autor. A Bíblia não ensina tal monstruosidade. Koornheert atraía um número cada vez maior de ouvintes e como polemizasse de forma tão brilhante, chegou-se a temer que seu pensamento solapasse a estrutura total do calvinismo, e mesmo a estabilidade política dos Países Baixos. Parecia que nenhum ministro era capaz de refutá-lo e, por isso, Armínio foi incumbido desta tarefa.

 

Para poder fazê-la, começou uma séria revisão da doutrina da predestinação, na mesma Bíblia, particu­larmente na Epístola aos Romanos. Concentrou-se no capítulo 9, baluarte calvinista de seu dogma. Porém, quanto mais se aprofundava Armínio, mais lhe con­vencia sua investigação de que o ensinamento de Pau­lo estava em oposição à classe de predestinação que Beza ensinava. Os judeus criam que eles haviam sido divinamente predestinados para serem salvos e que nada poderia mudar este ato. Eles sustentavam que Deus seria injusto se rejeitasse a qualquer judeu. A Epístola aos Romanos foi escrita precisamente para mostrar a distinção entre a histórica soberania abso­luta e as condições da salvação pessoal. Esta última sempre é pela fé, não por decretos. Nisto se apoia a justiça de Deus.[2] Armínio nunca abandonou sua cren­ça na predestinação divina; porém, viu a posição bíbli­ca sob uma luz diferente do ensinamento de Beza.

 

A mente erudita de Armínio se encontrava agora diante do desafio de investigar o assunto até às últi­mas conseqüências. Leu os escritos dos Pais da Igre­ja. Em uma obra mestra de investigação, compilou evi­dências demonstrando que nenhum “Pai” fidedigno havia ensinado jamais os critérios de Beza, nem a du­pla predestinação particular de Calvino jamais havia sido oficialmente aceita pela igreja. Para sua surpre­sa, descobriu que o mesmo Agostinho, não só antes da controvérsia com Pelágio, como principalmente depois, havia ensinado a completa responsabilidade moral.[3] Jamais se realizou a refutação da “heresia” de Koornheert.

 

Como resultado deste estudo, Armínio começou a pregar uma série de sermões expositivos da Epístola aos Romanos. Não atacou os pontos de vista extrema­dos de seus colegas, senão que abriu o verdadeiro e rico significado desta epístola ao povo. Finalmente, seus críticos notaram sua falta de ênfase sobre o supralapsarianismo. Em lugar de questionarem abertamente, começaram uma campanha de ciladas. Diziam que Armínio havia voltado a ser católico, um semipelagiano, por seu primeiro contato com o sacerdote na primeira parte de sua vida. Por acaso a viagem que fizera mais tarde a Roma com um amigo, não revelava sua secreta inclinação ao catolicismo? A ênfase católica que em­pregava era séria, não tanto do ponto de vista teológi­co, mas porque o protestantismo estava lutando con­tra os abusos do sistema hierárquico católico e sua esmagadora dominação política.

 

Cada vez que Armínio tinha oportunidade de de­fender publicamente sua exposição das Escrituras, seu talento seguro e tranqüilo ganhava todos os argumen­tos. Ninguém pôde jamais lhe refutar sobre a base da interpretação bíblica. Por fim, como ninguém se atre­veria a opor-se a ele abertamente, seus inimigos to­maram suas palavras fora do contexto e procuraram de todas as maneiras possíveis deteriorar sua influência. Armínio era um homem pacífico e lastimou a tormentosa perturbação originada na Igreja, especial­mente pelo fato de que ele mesmo poderia ter sido seu causador. Solicitou ser ouvido por uma corte pública, porém lhe foi negado, enquanto viveu. Após a sua mor­te, o Sínodo de Dort foi a resposta à sua súplica. No entanto, a ocasião foi muito diferente da que ele havia pedido, quando a oportunidade para o debate livre foi completamente negada.

 

Armínio foi eventualmente empossado como pro­fessor de teologia da Universidade de Leiden, com ple­no conhecimento de sua posição teológica. Ali chocou-se diretamente com o “elevado calvinismo de Gomar.” Este último, professor de Novo Testamento, desafiou Armínio sobre o fundamento da autoridade bíblica. Armínio negou-se a submeter sua interpretação escriturística aos credos. No calor da controvérsia, pos­tulou-se que “as Escrituras deviam ser interpretadas segundo as Confissões e o Catecismo.” Embora essa fosse uma declaração extrema, era a posição que es­tava no fundo da controvérsia. Armínio respondeu so­bre essa base.[4]

 

Ninguém jamais acusou Armínio de manobrar as Escrituras, mas somente de fracassar em seu ofício para defender uma posição predeterminada. Armínio insistia em que a autoridade devia fundamentar-se na Palavra de Deus e não nas opiniões dos homens. Então, incumbe a eles averiguar o que disse o Livro divino. Os líderes da Igreja virtualmente queriam que Armínio deixasse de pregar a Bíblia como Autoridade final. Argumentavam que o Credo Calvinista devia ser considerado como a real autoridade conclusiva. Toda­via, permaneceu pendente qual dos credos devia ocu­par esse lugar.

 

A linha supralapsariana queria que cada pastor subscrevesse anualmente a Declaração de Fé para manter seu vínculo com a Igreja. Isto seria um meio para assegurar sua conformidade e a estabilidade à religião e ao governo. Armínio lhes recordou que eles não poderiam concordar quanto a qual dos credos de­via ser considerado como autoridade final. Ele queria que a Bíblia fosse o único fundamento para a ortodoxia e destacou sua opinião pressionando com duas per­guntas incisivas:

 

– Deve prevalecer a palavra do homem sobre a Palavra de Deus?

 

– Deve estar ligada a consciência do homem cris­tão pela Palavra de Deus ou pela Palavra do ho­mem?

 

O assunto não era primordialmente a predestina­ção como tal, mas “também a função do magistrado e a tolerância.” Existia perigo, um receio de que o minis­tro “se arrogasse o poder de Cristo e deste modo se desenvolveria um novo papado.”[5] As teorias da pre­destinação estiveram a ponto de arrasar os mais vitais assuntos que estavam em ebulição para debaixo de­las.

 

Não há espaço para se comentar a história por com­pleto, porém deve-se enfocar os princípios que foram implicados.

 

Armínio rejeitou o conceito supralapsariano dos decretos de Deus porque:

 

– Não era sustentado pelas Escrituras.

 

– Não havia sido apoiado por cristãos doutos e res­ponsáveis durante mil e quinhentos anos e nun­ca fora aceito pela totalidade da Igreja.

 

– Deus se tornava o autor do pecado.

 

– O decreto da eleição se aplicara ao homem ain­da não criado.

 

Se, como ensinavam Beza e Gomar, Deus impele os homens a pecar, então, Ele é o autor do pecado. Armínio insistiu em que a lógica supralapsariana não podia escapar a esta conclusão e não poupou palavras para denunciar este erro.

 

De todas as blasfêmias que podem proferir-se contra Deus, a mais ofensiva é aquela que O declara autor do pecado; o peso dessa imputação é aumentado seria­mente se lhe agrega que, segundo essa perspectiva, Deus é o autor do pecado cometido pela criatura, para poder condená-la e lançá-la à perdição eterna que lhe havia destinado para ela de antemão, sem ter relação com o pecado. Porque, desse modo, “Ele seria a cau­sa da iniqüidade do homem para poder infligir o sofri­mento eterno”… Nada imputará tal blasfêmia a Deus, a quem todos concebem como bom… Não pode atri­buir-se a nenhum dos doutores da Igreja Reformada, que eles “abertamente declarem Deus como autor do pecado”… No entanto, “é provável que alguém possa, por ignorância, ensinar algo do qual fora possível, como claro resultado, deduzir que, por essa doutrina, Deus permaneça declarado autor do pecado.” Se tal for o caso, então… (os doutores) devem ser admoestados a abandonar e desprezar a doutrina da qual se tem tira­do tal inferência.[6]

 

Tal coisa faria de Deus, inevitavelmente, o único pecador verdadeiro no universo. Ninguém ensinou um ponto de vista tão extremo; Armínio, porém, chamou a atenção para o fato de que uma teologia determinada pela lógica e não pela Palavra de Deus, ao fim faria forçosa esta conclusão. Somente fundamentando a te­ologia sobre a Palavra de Deus poderiam ser evitados os equívocos do juízo humano, que por sua vez podem conduzir a conclusões capazes de destruir o coração da fé cristã.

 

Armínio faleceu em 1609, antes que os problemas teológicos chegassem a uma solução. Seus seguido­res, cada um à sua maneira, seguiram a batalha. Al­guns foram fiéis ao espírito evangélico de Armínio (Episcopus). Outros chegaram a implicar assuntos tais como a separação da igreja e do Estado e as raízes da democracia (Hugo Gratius, o “Pai da Lei Internacio­nal”). Limborch interpretou o conflito arminiano numa maneira teologicamente liberal e fez com que o arminianismo parecesse destruir a fé cristã.

 

Devemos agora resumir os ensinamentos de Armínio com referência a nossos problemas (em rela­ção à santidade). Seu princípio começa a demonstrar como as teorias da predestinação conduzem para a posterior doutrina wesleyana da santidade ou se afas­tam dela. Armínio colocou fundamentos para uma doutrina bíblica da santidade ainda que ele mesmo não a tivesse desenvolvido.

 

Os Princípios de Armínio Concernentes à Predestinação

 

– A doutrina da predestinação deve ser bíblica e não principalmente lógica ou filosófica. (Este ponto de vista chegaria a ser mais tarde, na história, o princípio de Wesley).

 

– A predestinação deve ser entendida cristologicamente. Cristo, não os decretos, é a Fonte e Causa da salvação.

 

– A salvação deve ser evangélica, isto é, pela fé pessoal em Cristo.

 

– Se, por um lado, nenhuma teoria da predesti­nação é bíblica se faz que seja logicamente ne­cessário dizer que Deus é o autor do pecado; porém, por outro, não pode ser logicamente pos­sível afirmar que o homem pode ser o autor de sua própria salvação.[7]

Fonte: Fundamentos da Teologia Arminio-Wesleyana, p. 51-57

Arminianismo.com


[1] Carl Bangs, “Arminius and the Reformation,” Church History, Vol XXX, nº 2, Junho, 1961, p. 7-8.

[2] Cf. The Works of James Arminius, trad. Wn Nichols (London: Thomas Baker, 1875), III, 527 ff.

[3] Cf., ibid, II, 354-74.

[4] Cf. Caspar Brandt, The Life of James Arminius. Trad. John Guthrie (London: Ward and Co., 1854), p. 217-18.

[5] Bangs, op. cit., p. 5-6.

[6] Arminius, op. cit., III, 645-55.

[7] Ibid, II, 392-93.

Inferno.

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Dwight Lyman Moody

“Disse, porém, Abraão: Filho lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos”. Lc 16.25

Outro dia, um homem veio ao meu encontro e disse: “Gosto das suas pregações. Você não prega sobre o inferno, e acho que você também não acredita no inferno.” Agora, eu não quero que alguém se levante no Julgamento e diga que eu não era um fiel pregador da Palavra de Deus. É minha missão pregar a palavra de Deus assim como Ele me entregou; eu não tenho o direito de escolher um texto aqui ou ali, e dizer, “Eu não acredito nisso.” Se eu jogar fora um trecho da Bíblia, devo jogar fora a Bíblia inteira, pois na mesma Bíblia eu leio de recompensas e punições, céu e inferno.

Ninguém jamais descreveu o inferno como o Filho de Deus. Ninguém poderia fazer isso, pois somente Ele sabia como tudo aconteceria. Ele não guardou para si essa doutrina da semeadura e da colheita, mas falou sobre ela claramente; a pregou, também, com puro amor, assim como uma mãe alertaria seu filho do final de uma vida de pecados.

O Espírito de Deus nos conta que levamos nossa memória conosco para o outro mundo. Existem muitas coisas que gostaríamos de esquecer. Eu ouvi dizer que o Sr. Cough disse que gostaria de dar a sua mão direita se ele pudesse esquecer como maltratou a sua mãe. Eu acredito que o verme que não morre é a nossa memória. Nós dizemos agora que esquecemos, e pensamos que esquecemos, mas está chegando a hora quando lembraremos e não conseguiremos esquecer. Nós falamos sobre as anotações que os anjos fazem da nossa vida. Deus nos faz recordar de todas as nossas lembranças.

Nós não precisaremos de ninguém para nos condenar no tribunal de Deus: nossa própria consciência surgirá como testemunha contra nós. Deus não nos condenará no seu tribunal; nós mesmos nos condenaremos. A memória é um oficial de Deus, e quando ele tocar nessas fontes secretas e disser, “Filho, filha, relembre” – então passo a passo virão a nossa frente, numa longa procissão, todos os pecados que cometemos em nossas vidas.

Já estive duas vezes nas garras da morte. Na primeira vez eu estava me afogando, prestes a afundar, quando fui resgatado. Em um piscar de olhos, todas as coisas que eu disse, fiz ou pensei passaram pela minha mente. Eu não entendo como todas as coisas na vida de um homem podem ser acumuladas em sua lembrança em um instante de tempo, mas tudo isso passou na minha mente de uma vez só. Outra vez me pegaram na ponte da Rua Clark, e pensei que estava morrendo. Então a memória parecia trazer tudo de volta novamente. É assim para que todas as coisas que pensamos que esquecemos voltem aos poucos. É só uma questão de tempo. Ouviremos as palavras, “Filho, relembre,” e é muito melhor lembrarmo-nos de nossos pecados agora, e ser salvo deles, do que adiar o arrependimento até que seja tarde demais para fazer algo de bom.

Os cientistas dizem que todos os nossos pensamentos voltam à mente mais cedo ou mais tarde. Ouvi de uma empregada cujo senhor costumava ler em hebraico no seu ouvido, e após algum tempo, quando estava com febre, ela conseguia falar hebraico nessa hora.

Você pensa que Caim esqueceu o rosto do seu irmão assassinado, que ele matou seiscentos anos atrás? Você pensa que Judas esqueceu o beijo com o qual traiu seu Mestre, ou do olhar que o Mestre lhe deu quando Ele disse, “Traís o Filho do homem com um beijo?” Você pensa que os antediluvianos esqueceram a Arca e a inundação que veio e acabou com todos eles?

Meus amigos, é uma boa coisa ser avisado a tempo. Satanás disse a Eva que ela certamente não iria morrer, e existem homens e mulheres agora que pensam que todas as almas serão salvas, apesar de todos os seus pecados.

Você acha que aqueles antediluvianos que pereceram no dia de Noé – homens tão maus e pecadores para o mundo – você acha que Deus levou aqueles homens direto para o céu, deixando Noé, o único homem justo, para passar pelo dilúvio? Você acha que quando o julgamento veio sobre Sodoma os ímpios foram levados até a presença de Deus e o único justo ficou para sofrer?

Não haverá um amoroso e terno Jesus para levar e oferecer salvação a vocês lá – nem amor de esposa ou de mãe orando por vocês lá. Muitos nesse mundo perdido dariam milhões, se tivessem dinheiro, se tivessem suas mães para orarem por eles para tirarem daquele lugar, mas será muito tarde. Eles rejeitaram a salvação até o tempo que Deus disse, “Corte-os fora; o dia da misericórdia acabou.”.

Você ri da Bíblia; mas quantos que estão nesse mundo perdido dariam incontáveis tesouros se eles tivessem a abençoada Bíblia lá! Você pode zombar dos pastores, mas saiba que não haverá pregação do Evangelho lá. Aqui eles são mensageiros de Deus para você – amigos queridos que cuidam da sua alma. Você pode ter amigos orando pela sua salvação hoje; mas lembre-se, você não terá nenhum nesse mundo perdido. Não haverá ninguém para vir botar a mão no seu ombro, chorar por você e convidar a vir a Cristo.

Existem pessoas que zombam desses encontros de avivamentos, mas lembre-se, não haverá avivamentos no inferno.

Havia um homem em um manicômio que dizia repetidamente para si mesmo com uma voz pavorosa, “Se eu somente tivesse–” Ele foi encarregado de controlar uma ponte levadiça de trem, e recebeu ordens para mantê-la fechada até a passagem de um trem expresso extra; mas um amigo surgiu com um navio, e persuadiu-o a abrir a ponte só para ele, e enquanto ela estava aberta, o trem surgiu fazendo o maior barulho, e saltou para a destruição. Muitos foram mortos, e o pobre controlador de pontes se enlouqueceu por causa do resultado de sua negligência no dever. “Se eu somente tivesse.”

Um bom homem estava passando um dia em um salão e um jovem estava saindo, e pensando em zombar do homem, gritou, “Diácono, qual é a distância daqui para o inferno?” O diácono não deu resposta, mas após andar alguns metros, virou-se para olhar o escarnecedor, e viu que seu cavalo o tinha jogado ao chão e ele tinha quebrado seu pescoço. Eu digo a vocês, meus amigos, eu preferiria dar a mão direita a brincar com as coisas eternas.

Hoje à noite você pode ser salvo. Estamos tentando ganhar você para Cristo, e se sair deste prédio e for para o inferno, você se lembrará dos encontros que tivemos aqui. Você se lembrará da expressão desses pastores, da expressão dessas pessoas, e como parecia algumas vezes que estávamos na própria presença de Deus. Nesse mundo perdido você não ouvirá aquele belo hino, “Por onde Jesus de Nazaré passava”. Ele já terá passado. Não haverá Jesus passando por esse caminho. Não haverá músicas doces sobre Sião lá. Também não haverá crianças pequenas orando pelos seus pais impenitentes.

Hoje é um dia de graça e de misericórdia! Deus está chamando o mundo para voltar-se para Ele! Ele diz, “Não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis?”

Oh, se você rejeitar essa salvação, como irá escapar? Que esperança há? Que suas memórias estejam totalmente despertas hoje, e você se lembre de que Cristo está aqui! Ele está nesta assembleia, oferecendo salvação a todas as almas! Ele não quer que você pereça, mas que se volte para Ele e viva!

Quando eu estava na Exposição de Paris em 1867, notei uma pequena pintura a óleo, cerca de 50 centímetros quadrados, e vi uma cara que foi a mais horrorosa que já tinha visto. Dizia que esta pintura tinha setecentos anos de idade. No papel abaixo da pintura diziam essas palavras, “Semeando o joio”. A cara parecia mais de um demônio do que de um homem, e conforme ele semeava esses joios, surgiam cobras e outros répteis. Eles estavam subindo no seu corpo, e ao seu redor havia uma floresta com lobos e animais à espreita deles. Tenho visto essa tela muitas vezes desde então. Ah! O tempo da colheita está chegando. Se você semear na carne, vai colher corrupção. Se você semear ao vento, vai colher tempestades. Deus quer que você venha até Ele e receba a salvação como presente: você pode decidir o seu destino hoje se quiser. Céu e inferno estão diante deste auditório, e você é chamado a escolher. Qual será a sua escolha? Se for a Cristo, ele receberá você em seus braços; se negá-lo, ele também negará você.

Agora, meus amigos, será que Cristo desejará a sua salvação mais do que agora? Ele terá mais poder do que agora? Por que não decidir ser salvo enquanto a misericórdia é oferecida?

Lembro uns anos atrás, enquanto o Espírito de Deus estava trabalhando na minha igreja, terminei o culto uma noite pedindo a quem gostaria de ser cristão que ficasse de pé, e para a minha alegria, um homem que estava ansioso por um tempo se levantou. Fui até ele, peguei-o pela mão e a balancei, e disse, “Estou feliz por ver você de pé, você está determinado a vir ao Senhor agora, não está?”.

“Sim”, ele disse, “Eu acho. Quer dizer, só existe uma coisa no meu caminho.”.

“E o que é?”, disse eu.

“Bem”, o homem disse, “Falta-me coragem moral. Confesso a você que se esse homem [um amigo dele] estivesse aqui hoje à noite, eu não teria me levantado. Ele riria de mim se soubesse disso, e não acredito que eu tenha coragem de contar a ele.”.

“Mas”, eu disse, “Se for para vir, você tem que vir para o Senhor com coragem.”.

Enquanto conversava com ele, ele tremia da cabeça aos pés, e creio que o Espírito Santo estava tocando no seu coração. Ele voltou na próxima noite, e na próxima, e na próxima; o Espírito de Deus lutou com ele por semanas; parecia como se ele fosse até o limiar dos céus e estivesse quase pisando no mundo abençoado. Eu nunca consegui encontrar razões para a sua hesitação, exceto o temor das zombarias que os seus amigos poderiam fazer.

Na última vez o Espírito Santo parecia deixá-lo; a convicção tinha ido embora. Seis meses depois, recebi uma mensagem dele falando que estava doente e queria me ver. Fui até ele com grande pressa. Ele estava muito doente, e pensava que estava morrendo. Ele me perguntou se ainda havia esperança. Sim, disse a ele, Deus mandou Cristo para salvá-lo; e orei com ele.

Contra todas as expectativas, ele se recuperou. Um dia eu desci para vê-lo. Era um dia brilhante, bonito, e ele estava sentado na frente de sua casa.

“Você está vindo para Deus agora, não está? Logo você estará bem para voltar aos cultos novamente.”

“Senhor Moody”, ele disse, “Já tomei a decisão de ser cristão. Estou completamente decidido, mas eu não quero ser cristão agora. Eu vou a Michigan comprar uma fazenda e me estabelecer, e então eu me torno um cristão.”.

“Mas você não sabe se irá se recuperar.”

“Oh”, disse ele,” Eu estarei bom daqui a poucos dias. Eu tenho um novo sopro de vida.”

Conversei com ele e tentei de todas as maneiras convencê-lo a tomar uma posição. Por fim, ele disse: “Sr. Moody, eu não posso ser cristão em Chicago. Quando sair de Chicago, e for para Michigan, e ficar longe de meus amigos e conhecidos que riem de mim, estarei pronto para ir a Cristo.”.

“Se Deus não tem graça suficiente para salvá-lo em Chicago, ele não terá em Michigan,” eu respondi.

Ele ficou um pouco irritado com a resposta e disse, “Sr. Moody, eu correrei esse risco,” e então o deixei.

Eu bem me lembro do dia da semana, uma quinta-feira, ao meio dia, e só uma semana depois desse dia, quando fui chamado pela sua esposa para ir imediatamente para lá. Corri o mais rápido que pude. Sua pobre esposa me encontrou na porta, e eu perguntei qual era o problema.

“Meu marido,” disse ela, “teve uma recaída; eu acabei de receber um grupo de médicos aqui, e eles disseram que ele vai morrer.”.

“Ele quer me ver?”, perguntei.

“Não.”

“Então por que me chamou?”

“Não suporto ver meu marido morrer nesse terrível estado mental.”

“O que ele disse?”, quis saber.

“Ele disse que sua condenação está selada, e ele estará no inferno em pouco tempo.”

Entrei no quarto, e ele imediatamente fixou seus olhos em mim. Chamei-o pelo nome, mas ele não me respondeu. Fui até ao pé da cama, e olhei a sua cara e disse, “Você não quer falar comigo?”, e ele finalmente fixou aquele terrível olhar mortal sobre mim e disse,

“Sr. Moody, você não precisa falar comigo novamente. Já é tarde. Você pode falar com minha esposa e meus filhos, orar por eles, mas meu coração está tão duro como aquele fogão ali. Minha condenação está selada, e eu estarei no inferno em pouco tempo.”

Tentei falar do amor de Jesus e o perdão de Deus, mas ele disse, “Sr. Moody, não há mais esperança para mim.” E quando me ajoelhei, ele disse, “Você não precisa orar por mim. Minha esposa em breve será viúva e minhas crianças não terão um pai; eles precisam de suas orações, não eu.”.

Tentei orar, mas parecia que minhas orações não subiam, como se o céu sobre mim fosse de bronze. No dia seguinte, sua esposa me disse que ele aguentou até o pôr do sol, e do meio-dia até a hora de sua morte, tudo o que se ouvia era, “A ceifa é passada, o verão é findado, e eu não estou salvo.” Após aguentar uma hora, ele diria novamente aquelas terríveis palavras, e enquanto ele estava morrendo, sua esposa notou que havia um tremor em seus lábios, e que ele estava tentando dizer algo, e quando ela se curvou para ouvir melhor, ela o ouviu murmurar, “A ceifa é passada, o verão é findado, e eu não estou salvo.” Ele viveu uma vida sem Cristo e teve uma morte sem Cristo; nós o envolvemos em uma mortalha sem Cristo e o conduzimos a uma sepultura sem Cristo.

Há alguns aqui que estão quase sendo persuadidos a serem cristãos? Siga o meu conselho e não deixe que nada afaste você. Voe aos braços de Jesus nesta hora. Você pode ser salvo se quiser.

FonteDwight L. Moody: His Life, His Work, His Words, pp. 498-506

  Tradução: Théo Albuquerque de Paula