Mildred Bangs Wynkoop

 

Tiago Armínio nasceu em Oudewater, Holanda, em 1560. As necessidades econômicas obrigaram sua mãe viúva a deixar o filho debaixo da tutela de outros. Foi adotado por um sacerdote católico convertido, que o enviou à escola em Utrecht. Com a morte de seu benfeitor, o brilhante jovem foi levado à universidade lute­rana local por um professor de Marburg. Em pouco tempo, os espanhóis tomaram Oudewater e assassi­naram a maior parte de seus habitantes por negar-se a retornar ao catolicismo. Entre os mortos estavam a mãe e os irmãos de Armínio. Seu coração se encheu de amargura por tanta impiedade política, o que prova­velmente explica sua resistência à intolerância religi­osa que mais tarde teria que experimentar.

 

O triste e destituído jovem encontrou refúgio no lar de Pedro Bertius, pastor da Igreja Reformada em Roterdã. Ele o enviou à nova universidade de Leiden, onde se distinguiu como estudante. Finalmente, os patrocinadores da grande igreja em Amsterdã “o ado­taram,” assegurando-lhe a melhor educação possível a troco de sua promessa de retornar a eles como pas­tor, se assim o desejasse. Imediatamente Armínio foi enviado à Universidade de Genebra para sua prepara­ção ministerial; ali estudou teologia com Beza e ou­tros. Alguns se perguntam se Armínio chegou a acei­tar completamente a ideologia de Beza; porém, pelo menos, se familiarizou com sua “elevada posição calvinista.”[1]

 

Ao concluir sua educação em Genebra, Armínio foi nomeado pastor da Igreja de Amsterdã. Era um pre­gador brilhante, dotado exegeta bíblico, cristão humilde e consagrado. Suas mensagens expositivas lhe de­ram especial celebridade e sua oratória o fez popular, atraindo muitos ouvintes.

 

Em 1589, um leigo instruído, Koornheert, da Holan­da, levantou uma tormenta nos círculos teológicos por suas dissertações e escritos em refutação da teoria supralapsariana dos decretos divinos. É significativo que o tremendo descontentamento gerado com a posição de Calvino e Beza, tenha levado um leigo a fazer tal coisa. Koornheert argumentava que, se como Beza ar­gumentava,  Deus causaria o pecado; então, em realidade, Ele é seu autor. A Bíblia não ensina tal monstruosidade. Koornheert atraía um número cada vez maior de ouvintes e como polemizasse de forma tão brilhante, chegou-se a temer que seu pensamento solapasse a estrutura total do calvinismo, e mesmo a estabilidade política dos Países Baixos. Parecia que nenhum ministro era capaz de refutá-lo e, por isso, Armínio foi incumbido desta tarefa.

 

Para poder fazê-la, começou uma séria revisão da doutrina da predestinação, na mesma Bíblia, particu­larmente na Epístola aos Romanos. Concentrou-se no capítulo 9, baluarte calvinista de seu dogma. Porém, quanto mais se aprofundava Armínio, mais lhe con­vencia sua investigação de que o ensinamento de Pau­lo estava em oposição à classe de predestinação que Beza ensinava. Os judeus criam que eles haviam sido divinamente predestinados para serem salvos e que nada poderia mudar este ato. Eles sustentavam que Deus seria injusto se rejeitasse a qualquer judeu. A Epístola aos Romanos foi escrita precisamente para mostrar a distinção entre a histórica soberania abso­luta e as condições da salvação pessoal. Esta última sempre é pela fé, não por decretos. Nisto se apoia a justiça de Deus.[2] Armínio nunca abandonou sua cren­ça na predestinação divina; porém, viu a posição bíbli­ca sob uma luz diferente do ensinamento de Beza.

 

A mente erudita de Armínio se encontrava agora diante do desafio de investigar o assunto até às últi­mas conseqüências. Leu os escritos dos Pais da Igre­ja. Em uma obra mestra de investigação, compilou evi­dências demonstrando que nenhum “Pai” fidedigno havia ensinado jamais os critérios de Beza, nem a du­pla predestinação particular de Calvino jamais havia sido oficialmente aceita pela igreja. Para sua surpre­sa, descobriu que o mesmo Agostinho, não só antes da controvérsia com Pelágio, como principalmente depois, havia ensinado a completa responsabilidade moral.[3] Jamais se realizou a refutação da “heresia” de Koornheert.

 

Como resultado deste estudo, Armínio começou a pregar uma série de sermões expositivos da Epístola aos Romanos. Não atacou os pontos de vista extrema­dos de seus colegas, senão que abriu o verdadeiro e rico significado desta epístola ao povo. Finalmente, seus críticos notaram sua falta de ênfase sobre o supralapsarianismo. Em lugar de questionarem abertamente, começaram uma campanha de ciladas. Diziam que Armínio havia voltado a ser católico, um semipelagiano, por seu primeiro contato com o sacerdote na primeira parte de sua vida. Por acaso a viagem que fizera mais tarde a Roma com um amigo, não revelava sua secreta inclinação ao catolicismo? A ênfase católica que em­pregava era séria, não tanto do ponto de vista teológi­co, mas porque o protestantismo estava lutando con­tra os abusos do sistema hierárquico católico e sua esmagadora dominação política.

 

Cada vez que Armínio tinha oportunidade de de­fender publicamente sua exposição das Escrituras, seu talento seguro e tranqüilo ganhava todos os argumen­tos. Ninguém pôde jamais lhe refutar sobre a base da interpretação bíblica. Por fim, como ninguém se atre­veria a opor-se a ele abertamente, seus inimigos to­maram suas palavras fora do contexto e procuraram de todas as maneiras possíveis deteriorar sua influência. Armínio era um homem pacífico e lastimou a tormentosa perturbação originada na Igreja, especial­mente pelo fato de que ele mesmo poderia ter sido seu causador. Solicitou ser ouvido por uma corte pública, porém lhe foi negado, enquanto viveu. Após a sua mor­te, o Sínodo de Dort foi a resposta à sua súplica. No entanto, a ocasião foi muito diferente da que ele havia pedido, quando a oportunidade para o debate livre foi completamente negada.

 

Armínio foi eventualmente empossado como pro­fessor de teologia da Universidade de Leiden, com ple­no conhecimento de sua posição teológica. Ali chocou-se diretamente com o “elevado calvinismo de Gomar.” Este último, professor de Novo Testamento, desafiou Armínio sobre o fundamento da autoridade bíblica. Armínio negou-se a submeter sua interpretação escriturística aos credos. No calor da controvérsia, pos­tulou-se que “as Escrituras deviam ser interpretadas segundo as Confissões e o Catecismo.” Embora essa fosse uma declaração extrema, era a posição que es­tava no fundo da controvérsia. Armínio respondeu so­bre essa base.[4]

 

Ninguém jamais acusou Armínio de manobrar as Escrituras, mas somente de fracassar em seu ofício para defender uma posição predeterminada. Armínio insistia em que a autoridade devia fundamentar-se na Palavra de Deus e não nas opiniões dos homens. Então, incumbe a eles averiguar o que disse o Livro divino. Os líderes da Igreja virtualmente queriam que Armínio deixasse de pregar a Bíblia como Autoridade final. Argumentavam que o Credo Calvinista devia ser considerado como a real autoridade conclusiva. Toda­via, permaneceu pendente qual dos credos devia ocu­par esse lugar.

 

A linha supralapsariana queria que cada pastor subscrevesse anualmente a Declaração de Fé para manter seu vínculo com a Igreja. Isto seria um meio para assegurar sua conformidade e a estabilidade à religião e ao governo. Armínio lhes recordou que eles não poderiam concordar quanto a qual dos credos de­via ser considerado como autoridade final. Ele queria que a Bíblia fosse o único fundamento para a ortodoxia e destacou sua opinião pressionando com duas per­guntas incisivas:

 

– Deve prevalecer a palavra do homem sobre a Palavra de Deus?

 

– Deve estar ligada a consciência do homem cris­tão pela Palavra de Deus ou pela Palavra do ho­mem?

 

O assunto não era primordialmente a predestina­ção como tal, mas “também a função do magistrado e a tolerância.” Existia perigo, um receio de que o minis­tro “se arrogasse o poder de Cristo e deste modo se desenvolveria um novo papado.”[5] As teorias da pre­destinação estiveram a ponto de arrasar os mais vitais assuntos que estavam em ebulição para debaixo de­las.

 

Não há espaço para se comentar a história por com­pleto, porém deve-se enfocar os princípios que foram implicados.

 

Armínio rejeitou o conceito supralapsariano dos decretos de Deus porque:

 

– Não era sustentado pelas Escrituras.

 

– Não havia sido apoiado por cristãos doutos e res­ponsáveis durante mil e quinhentos anos e nun­ca fora aceito pela totalidade da Igreja.

 

– Deus se tornava o autor do pecado.

 

– O decreto da eleição se aplicara ao homem ain­da não criado.

 

Se, como ensinavam Beza e Gomar, Deus impele os homens a pecar, então, Ele é o autor do pecado. Armínio insistiu em que a lógica supralapsariana não podia escapar a esta conclusão e não poupou palavras para denunciar este erro.

 

De todas as blasfêmias que podem proferir-se contra Deus, a mais ofensiva é aquela que O declara autor do pecado; o peso dessa imputação é aumentado seria­mente se lhe agrega que, segundo essa perspectiva, Deus é o autor do pecado cometido pela criatura, para poder condená-la e lançá-la à perdição eterna que lhe havia destinado para ela de antemão, sem ter relação com o pecado. Porque, desse modo, “Ele seria a cau­sa da iniqüidade do homem para poder infligir o sofri­mento eterno”… Nada imputará tal blasfêmia a Deus, a quem todos concebem como bom… Não pode atri­buir-se a nenhum dos doutores da Igreja Reformada, que eles “abertamente declarem Deus como autor do pecado”… No entanto, “é provável que alguém possa, por ignorância, ensinar algo do qual fora possível, como claro resultado, deduzir que, por essa doutrina, Deus permaneça declarado autor do pecado.” Se tal for o caso, então… (os doutores) devem ser admoestados a abandonar e desprezar a doutrina da qual se tem tira­do tal inferência.[6]

 

Tal coisa faria de Deus, inevitavelmente, o único pecador verdadeiro no universo. Ninguém ensinou um ponto de vista tão extremo; Armínio, porém, chamou a atenção para o fato de que uma teologia determinada pela lógica e não pela Palavra de Deus, ao fim faria forçosa esta conclusão. Somente fundamentando a te­ologia sobre a Palavra de Deus poderiam ser evitados os equívocos do juízo humano, que por sua vez podem conduzir a conclusões capazes de destruir o coração da fé cristã.

 

Armínio faleceu em 1609, antes que os problemas teológicos chegassem a uma solução. Seus seguido­res, cada um à sua maneira, seguiram a batalha. Al­guns foram fiéis ao espírito evangélico de Armínio (Episcopus). Outros chegaram a implicar assuntos tais como a separação da igreja e do Estado e as raízes da democracia (Hugo Gratius, o “Pai da Lei Internacio­nal”). Limborch interpretou o conflito arminiano numa maneira teologicamente liberal e fez com que o arminianismo parecesse destruir a fé cristã.

 

Devemos agora resumir os ensinamentos de Armínio com referência a nossos problemas (em rela­ção à santidade). Seu princípio começa a demonstrar como as teorias da predestinação conduzem para a posterior doutrina wesleyana da santidade ou se afas­tam dela. Armínio colocou fundamentos para uma doutrina bíblica da santidade ainda que ele mesmo não a tivesse desenvolvido.

 

Os Princípios de Armínio Concernentes à Predestinação

 

– A doutrina da predestinação deve ser bíblica e não principalmente lógica ou filosófica. (Este ponto de vista chegaria a ser mais tarde, na história, o princípio de Wesley).

 

– A predestinação deve ser entendida cristologicamente. Cristo, não os decretos, é a Fonte e Causa da salvação.

 

– A salvação deve ser evangélica, isto é, pela fé pessoal em Cristo.

 

– Se, por um lado, nenhuma teoria da predesti­nação é bíblica se faz que seja logicamente ne­cessário dizer que Deus é o autor do pecado; porém, por outro, não pode ser logicamente pos­sível afirmar que o homem pode ser o autor de sua própria salvação.[7]

Fonte: Fundamentos da Teologia Arminio-Wesleyana, p. 51-57

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[1] Carl Bangs, “Arminius and the Reformation,” Church History, Vol XXX, nº 2, Junho, 1961, p. 7-8.

[2] Cf. The Works of James Arminius, trad. Wn Nichols (London: Thomas Baker, 1875), III, 527 ff.

[3] Cf., ibid, II, 354-74.

[4] Cf. Caspar Brandt, The Life of James Arminius. Trad. John Guthrie (London: Ward and Co., 1854), p. 217-18.

[5] Bangs, op. cit., p. 5-6.

[6] Arminius, op. cit., III, 645-55.

[7] Ibid, II, 392-93.

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