John Wesley

No presente capítulo, Paulo, depois de declarar fortemente seu amor e estima pelos seus patrícios, propõe-se a responder à grande objeção que faziam; a saber, que a rejeição dos judeus e a recepção dos gentios contrariavam a palavra de Deus. Que aqui não tinha o menor pensamento da eleição ou reprovação pessoais é manifesto, (1) porque isto estava totalmente fora da sua intenção, que era mostrar serem a rejeição dos judeus e a recepção dos gentios coerentes com sua palavra; (2) porque tal doutrina não tenderia a convencer os judeus; antes, tenderia obviamente, a endurecê-los; (3) porque quando, ao final do capítulo ele resume seu argumento, ele não diz palavra alguma sobre isto ou sugere semelhante coisa.

1. Em Cristo – Isto parece sugerir um apelo a Cristo. No Espírito Santo – Pela sua graça.

2. Tenho grande tristeza – Um alto grau de tristeza e de alegria espirituais pode existir um ao lado do outro (Rm 8.39). Por declarar sua tristeza pelos judeus incrédulos, os quais se excluíam de todas as bênçãos que acaba de enumerar, ele mostra que o que agora ia falar não provinha de qualquer preconceito contra eles.

3. Eu mesmo desejaria – Meras palavras humanas são incapazes de descrever as emoções de almas plenas de Deus. É como se tivesse falado: eu poderia desejar sofrer em seu lugar; sim, ser o separado de Cristo em seu lugar. Não se pode dizer em que grau ele desejou isto, a menos que alguém tivesse perguntado ao próprio Paulo e que ele tivesse dado a resposta. Mas por certo ele não estava, de forma alguma, pensando em si, mas só nos outros e na glória de Deus. Tal coisa não podia acontecer; mesmo assim, o desejo era piedoso e sólido; embora sob uma condição tácita, isto se fosse certo e possível.

4. Pertence-lhe a adoção, etc. – Ele enumera seis prerrogativas, das quais o primeiro par concerne ao Pai, o segundo a Cristo, o terceiro ao Espírito Santo. A adoção, e também a glória – Isto é, Israel e o filho primogênito de Deus e o Deus da glória e seu Deus (Dt 4.7, Sl 106.20). Estes são relativos, um ao outro, a uma vez, Deus é o Pai de Israel, e Israel o povo de Deus. Paulo não fala aqui da arca da aliança ou de qualquer coisa material. O próprio Deus é “a glória do seu povo Israel” [Cf. Lc 2.32]. As alianças, a legislação – A aliança foi dada muito antes da lei. É chamada de alianças, no plural, porque foi repetida tão frequentemente e de tantas maneiras, e porque havia nela duas disposições (Gl 4.24), uma prometendo e a outra exibindo a promessa. O culto e as promessas – A verdadeira maneira de adorar a Deus e todas as promessas feitas aos antepassados.

5. Às prerrogativas já mencionadas, Paulo agora acrescenta mais duas. Deles são os pais – Os patriarcas e homens santos da antiguidade, sim, e o próprio Messias. O qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre – As palavras originais sugerem o ser auto-existente, independente, o qual era, é e será. Sobre todos – O supremo, como sendo Deus, e consequentemente bendito para todo o sempre. Palavra alguma pode expressar mais claramente sua divina, suprema majestade e sua graciosa soberania sobre judeus e gentios.

6. E não como se – Os judeus imaginaram que a Palavra de Deus deveria falhar, se toda a sua nação não fosse salva. Paulo refuta este pensamento e prova que a própria palavra havia previsto sua apostasia. A palavra de Deus – As promessas de Deus a Israel. Tenha falhado – Isto não poderia ser. Mesmo agora, diz o apóstolo, alguns desfrutam das promessas; e, posteriormente “todo o Israel será salvo” [Rm 11.26]. Isto é a essência dos capítulos 9, 10 e 11. Porque – Aqui ele entra nas provas da sua declaração. Nem todos são Israel, os que são de Israel – Os judeus sustentavam o contrário; a saber, que todos os que nasceram como israelitas, e só eles, eram povo de Deus. A primeira parte dessa tese é refutada aqui; a última, nos vv. 24 e 25. A conclusão é que Deus aceita todos os crentes, e só eles, e que este de forma alguma contraria a sua palavra. Pelo contrário, ele tem declarado na sua palavra, tanto por tipos como por testemunhos expressos, que crentes são aceitos como “filhos da promessa”, enquanto incrédulos são rejeitados, embora sendo “filhos da carne” [Rm 9.8]. Não todos são Israel – Isto é, nem todos estão no favor de Deus que são descendentes genealógicos de lsrael.[1]

7. Nem por serem sementes de Abraão resultará que todos são filhos de Deus[2] – Isto não foi o caso nem com toda a família de Abraão, e muito menos o seria na casa dos seus descendentes remotos. Mas, disse Deus então: Em Isaque será chamada a tua descendência – A saber, Isaque, não Ismael, será chamado tua semente; a semente para a qual se faz a promessa.

8. Isto é, Estes filhos não, etc. É como se tivesse dito: aqui temos um claro tipo das coisas do porvir; mostrando para nós que em todas as gerações futuras, não são os filhos da carne, os descendentes genealógicos de Abraão, mas os filhos da promessa, aqueles aos quais a promessa é feita, ou seja, os crentes são os filhos de Deus.

9. Porque esta é a palavra da promessa – Pelo poder pelo qual Isaque foi concebido, e não pelo poder da natureza. [A palavra] não é: Todo aquele que nasce de ti será abençoado, mas [ele diz]: Por esse tempo – Que agora determino. Virei, e Sara terá um filho, o qual herdará a bênção.

10. E que a bênção de Deus não pertence a todos os descendentes de Abraão fica evidente, não só por este exemplo, como também quando pelo caso de Esaú e Jacó, sendo que Jacó já fora escolhido para herdar a bênção, antes que qualquer dos dois tivesse praticado o bem ou o mal.[3] O apóstolo menciona isto para mostrar que nem os antepassados [dos judeus] foram aceitos por causa de qualquer mérito próprio. Que o propósito de Deus quanto à eleição permanecesse firme – Sendo esse propósito o de eleger ou escolher a semente prometida. Não por obras – Não por causa de qualquer mérito antecedente da parte daquele a quem Deus escolheu. Mas por aquele que chamou – De acordo com a própria vontade daquele que chamou para tal privilégio aquele que ele próprio quis chamar.

12. O mais velho – Esaú. Será servo do mais moço – Não na sua própria pessoa, pois isto nunca aconteceu, mas na sua posteridade. Assim, os edomitas frequentemente foram sujeitos aos israelitas.

13. Como está escrito – Com a palavra falada há tanto tempo em Gênesis, a de Malaquias concorda. Amei a Jacó– Com um amor peculiar; isto é, aos israelitas, à posteridade. Porém, comparativamente, me aborreci de Esaú – Isto é, dos edomitas, a posteridade de Esaú. Mas prestem atenção para: (1) Isto não diz respeito à pessoa de Jacó ou Esaú; (2) nem diz respeito ao estado eterno, deles próprios ou da sua descendência. Até aqui o apóstolo vem provando sua tese; a saber, que a exclusão de uma grande parte da descendência de Abraão, e mesmo de Isaque das promessas especiais de Deus, longe de ser impossível, já tinha realmente acontecido, conforme as Escrituras. Ele agora passa a refutar uma objeção.

14. Há injustiça da parte de Deus? Deus será injusto pelo fato de dar a bênção a Jacó em vez de Esaú? Ou por aceitar crentes e estes tão-somente? De modo nenhum. Isto é bem coerente com a sua justiça, porque ele tem o direito de fixar as condições sob as quais ele mostrará misericórdia, consoante a sua declaração a Moisés, intercedendo por todo o povo depois de ter praticado a idolatria com o bezerro de ouro. Terei misericôrdia de quem me aprouver ter misericórdia – Conforme os termos que eu próprio estabeleci. E compadecer-me-ei de quem me aprouuer ter compaixão– A saber, aos que se submetem às minhas condições, que aceitam a compaixão da maneira que eu determinei.

16. A bênção, portanto, não depende de quem quer, ou de quem corre – Ela não resulta nem da vontade e nem das obras humanas, mas da graça e do poder de Deus. A vontade do ser humano aqui se opõe à graça de Deus, e o seu correr à operação divina. Também esta declaração geral não se aplica apenas a Isaque, a Jacó e aos israelitas no tempo de Moisés, mas também a todos os seus descendentes, até ao fim do mundo.

17. Além disso – Deus tem o direito incontestável de rejeitar aqueles que se recusam a aceitar as bênçãos sob as condições dele. Ele exercitou tal direito no caso de Faraó; após muitos atos de teimosia e rebelião, Deus disse, como se encontra registrado na Escritura: Para isto mesmo te levantei – A saber, a não ser que tu te arrependas, isto certamente será a consequência do fato de ter eu te levantado, fazendo de ti um grande e glorioso monarca, para mostrar em ti o meu poder (como realmente aconteceu, por submergir a ele e ao seu exército no mar) e que meu nome seja anunciado por toda a terra – Como o é no dia de hoje. Isto pode ter ainda um outro sentido. Parece que Deus estava disposto a mostrar seu poder sobre o rio, os insetos, outros animais (bem como as causas de sua saúde, doenças, vida e morte), sobre os meteoros, o ar, o sol (os egípcios adoravam todas estas coisas e outras nações aprenderam destes as suas idolatrias), e, ao mesmo tempo, sobre seus deuses, por aquele terrível golpe, matando todos os seus sacerdotes e suas vítimas prediletas, os primogênitos dos seres humanos e das bestas-feras. Tudo isto se fez com o propósito não apenas de libertar seu povo Israel (para que uma só ação de onipotência teria sido suficiente), mas também de convencer os egípcios de que os objetos da sua adoração não passavam de criaturas de Jeová, inteiramente sob seu controle, e a atraí-los e às nações vizinhas, as quais ouviriam de todas essas maravilhas, da sua idolatria e para a adoração do único [verdadeiro] Deus. Para a execução deste desígnio (visando à demonstração do poder divino sobre os vários objetos do seu culto, através de uma variedade de atos maravilhosos, que, ao mesmo tempo se constituíram em justas punições pela sua cruel pressão dos israelitas), Deus se agradou em elevar ao trono de uma monarquia absoluta, um homem, não um homem que ele havia tornado iníquo de propósito, mas um que ele descobriu assim, o mais orgulhoso, o mais ousado e obstinado de todos os príncipes egípcios; e que, sendo incorrigível, bem mereceu ser colocado naquela situação na qual o juízo divino caiu pesadíssimo.

18. Logo – Isto é, ele de fato mostra a misericórdia sob suas próprias condições; a saber, aos que creem. [Ele] endurece – Isto é, ele os abandona à dureza de seu coração. A quem lhe apraz – A saber, os que não creem.

19. De que se queixa ele ainda? O vocábulo ainda é fortemente expressivo da murmuração mal-humorada e rabugenta daquele que faz a objeção. Pois quem jamais resistiu à sua vontade? – A palavra “sua” também expressa sua insolência e aversão a Deus, de quem ele nem se digna mencionar o nome.

20. Mas quem és tu, ó homem. Homem pequeno, impotente e ignorante. Para discutires com Deus? Ter que acusar Deus de injustiça, por ele próprio estabelecer os termos sob as quais ele mostrará a misericórdia? Porventura pode o artefato perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? – Por que me fizeste capaz de honra e imortalidade só pela fé?

21. Ou não tem o oleiro direito sobre a massa? – E quanto mais não tem Deus direito sobre suas criaturas, para designar um vaso, a saber, o crente, para honra e um outro, a saber, o incrédulo, para desonra? Se examinar o direito que Deus tem sobre nós de um modo mais geral, no que tange às suas criaturas inteligentes, Deus pode ser considerado de dois ângulos diferentes: como criador, proprietário e Senhor de tudo, ou como seu governador e juiz. Deus, na qualidade de Senhor soberano e Proprietário de tudo, dispensa seus dons ou favores com perfeita sabedoria, porém, não de acordo com quaisquer regras ou métodos que nos são familiares. A época em que nós existiremos, o país em que viveremos, nossos pais, a constituição do nosso corpo ou o feito mental: estas e inumeráveis outras circunstâncias são, sem dúvida, ordenadas com perfeita sabedoria; mas por regras que nos são invisíveis.

Os métodos de Deus em tratar conosco como Governador e Juiz, porém, são claramente revelados e perfeitamente conhecidos; a saber, que ele, no fim, retribuirá a cada um conforme as suas obras [Mt 16.27]. “Quem crer será salvo: quem não crer será condenado” [Mc 16.16].

Portanto, embora “ele tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” [v.18], isto é, ele permite que se endureçam como consequência da sua maldade obstinada; mesmo assim, sua vontade não é a de um ser arbitrário, caprichoso e tirânico. Ele só deseja aquilo que é infinitamente sábio e bom; por isso, sua vontade é uma regra justíssima de julgamento. Mostrará misericórdia, como já nos assegurou, só aos verdadeiros crentes e nem endurecerá a ninguém, exceto os que obstinadamente recusam sua misericórdia.

22. Se Deus, querendo – Isto se refere aos vv. 18-19. A saber, embora seja agora sua vontade, por causa da sua obstinada descrença. Mostrar a sua ira – A qual necessariamente pressupõe o pecado. E dar a conhecer o seu poder – Isto é repetido no v. 17. Suportou – Como fez com Faraó. Com muita longanimidade – A qual os deveria ter levado ao arrependimento. Os vasos da ira – Os que haviam movido sua ira por continuar a rejeitar a sua misericórdia. Preparados para a destruição – Por causa de sua própria impenitência voluntariosa. Haverá injustiça nisso?

23. Para que desse a conhecer – E se, por mostrar tal longanimidade mesmo aos “vasos da ira”, ele mostrou mais abundantemente a grandeza da sua gloriosa bondade, sabedoria e poder, aos vasos de misericórdia; aos que ele próprio, pela sua graça preparou para a glória. Existe nisso alguma injustiça?

24. Os quais somos nós – Aqui o apóstolo chega à outra proposição, a da graça livre para todos, quer judeu, quer gentio. Dentre os judeus – De que ele trata no v. 20. Dentre os gentios – Tratado no mesmo verso.

25. Amada – Como esposa. A que antes não era amada – Consequentemente, não eleita incondicionalmente.

26. Ali mesmo serão chamados filhos de Deus – Assim, eles não precisam deixar seu próprio país e vir à Judeia.

27. Mas Isaías testifica que (assim como muitos gentios serão aceitos) muitos judeus serão rejeitados e que de todos os milhares de Israel, só o remanescente é que será salvo. Isto foi falado originalmente dos poucos que foram poupados da destruição pelo exército de Senaqueribe.

28. Porque o Senhor cumprirá a sua palavra[4] – Agindo com rigorosa justiça, ele deixará apenas um pequeno remanescente. Haverá uma destruição tão generalizada que apenas poucos escaparão.

29. Como lsaias já disse – A saber, em Isaías 1.9 [e 7.1], que se refere aos que foram sitiados em Jerusalém por Rezim e Peca. Se o Senhor não nos tivesse deixado descendência – O que significa (1) a carência presente e (2) a abundância futura. Ter-nos-íamos tornado como Sodoma – Portanto, o revoltar-se contra Deus pela maioria da nação judaica e a consequente morte nos seus pecados não são coisas sem precedente.

30. Que diremos pois? O que devemos concluir de tudo isso, a não ser que os gentios, que não buscavam a justiça – Os quais antigamente não tinham conhecimento da justiça e nem se preocupavam com ela. Vieram a alcançá-la– ou seja, a justificação. Todavia a justiça que decorre da fé – Eis a primeira conclusão que devemos tirar das observações anteriores.

31. A segunda é que Israel (os judeus), procurando uma lei da justiça, a lei que, devidamente empregada, teria levado esse povo à fé e, daí, à justiça. Não chegou a atingir essa lei – A saber, não alcançaram aquela justiça ou justificação que é o único grande fim da lei.

32. Por quê? – Será porque Deus decretou eternamente que não a atingissem? Não encontramos aqui coisa semelhante; mas, coerente com o seu argumento, o apóstolo nos dá uma boa explicação: Porque não a procuraram pela fé – A única maneira de atingi-la. E, sim, como que pelas obras – Com efeito, se não declaradamente, das obrasPorque tropeçaram na pedra de tropeço – Isto é, Cristo crucificado [Cf. 1Pe 1.8].

33. Como está escrito – Prenunciado pelo vosso próprio profeta [Isaías]. Eis que ponho em Sião – Exibo na minha Igreja aquilo que embora realmente sendo o único seguro fundamento da felicidade, mesmo assim será uma pedra de tropeço e rocha de escândalo – Isto é, a ocasião de ruína para muitos, por causa da sua incredulidade obstinada.

Fonte: Romanos – Notas Explicativas, pp. 68-76

Fonte:  http://www.arminianismo.com/


[1] O comentário de Wesley exige a sua própria versão.

[2] Wesley não inclui as palavras “de Deus” na sua tradução. No comentário ele as acrescenta, grifadas, como se fosse parte do texto bíblico, provavelmente para deixar evidente a sua interpretação da passagem.

[3] “O bem ou o mal” é citado do v. 11.

[4] O sentido do texto na KJV e também no de Wesley é um tanto difícil de interpretar. Por ser bem mais claro, aqui seguimos Almeida.

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