Justo L. González

 

Desde de os primeiros tempos na história da Igreja, viu-se a necessidade de sistematizar a fé cristã ou pelo menos seus pontos essenciais. Já em meados do século II, havia o que se chamava “regra de fé”, que era uma breve lista desses pontos essenciais, com ênfase especial naqueles que alguns negavam.

 

Até o fim desse mesmo século e princípio do terceiro, o grande sistematizador da fé cristã foi Orígenes, cuja obraAcerca dos Primeiros Princípios cobre todos os pontos essenciais da fé cristã, desde as doutrinas de Deus e da criação até a escatologia. A partir de então, têm-se escrito centenas de obras de “teologia sistemática”, cujo propósito é, precisamente, apresentar a doutrina cristã como um todo ordenado e coerente.

 

Essa função da teologia é importante, ainda que não deixe de ter seus perigos. Como sistematização da doutrina cristã, pode servir de ponto de referência sobre cuja base julga qualquer doutrina ou ideia que alguém sugira. Era assim que a igreja antiga usava a “regra de fé”. Assim, por exemplo, se alguém sugerisse que alguma coisa não era criação de Deus, mas do Diabo, era fácil responder-lhe de imediato que a regra de fé afirmava que Deus é “criador do céu e da terra” ou “criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis”. Ou mesmo, se alguém negava a vida eterna, a encarnação de Jesus Cristo etc.

 

A teologia pode ter a mesma função para nós hoje. Se, em meio a um estudo bíblico, alguém sugerir uma interpretação de um texto que contradiz a mensagem de todo o restante da Bíblia, e de antemão nos preparamos teologicamente, esse conhecimento teológico nos ajudará a reconhecer o erro do que se propõe e a ver se não é possível interpretar o texto de outra maneira.

 

Esse modo de entender e de empregar a teologia tem também seus perigos. O mais importante disto está em que de tal modo queiramos sistematizar e classificá-lo, que damos a nosso sistema uma autoridade que não deve ter.

 

Esse foi o grande perigo da teologia no século XIX, contra o qual um teólogo luterano dinamarquês, SOREN KIERKEGAARD, insistiu que o ser humano existente, pelo fato de existir, quer dizer, de estar no tempo e no espaço, não pode jamais sistematizar toda a realidade. Disse ele: “Queres dizer que não há tal sistema? De modo algum. Toda a realidade é um sistema, para Deus; mas nunca para nós”.

 

Vemos um exemplo disso no modo em que o teólogo calvinista JERÔNIMO ZANCHI, no fim do século XVI, tentou provar a doutrina da predestinação. Segundo ZANCHI, visto que Deus é onipotente e onisciente – quer dizer, pode tudo e sabe tudo – Deus sabe e determina tudo o que há de acontecer, e não existe tal coisa como liberdade humana. O que ZANCHI fez com tal argumento é pretender que Deus tem que se ajustar a nossa compreensão da onisciência e da onipotência. Mas o certo é que, se Deus é de verdade onipotente, Ele não tem o porquê de se ajustar aos argumentos de ZANCHI nem de qualquer outro teólogo. Se Deus é verdadeiramente onisciente, saberá como permitir que exista a liberdade humana, ainda quando o “sistema” de ZANCHI não dê lugar a ela.

 

Outro perigo da sistematização excessiva da teologia é que a mensagem e a obra de Deus parecem reduzir-se aos três ou quatro pontos do sistema. Isso acontece, por exemplo, quando reduzimos a mensagem da Bíblia a um “plano de salvação” em três, quatro, ou doze pontos; e parece que basta conhecer esses pontos, de tal modo que a Bíblia fica sobrando.

Fonte:  Arminianismo.com

Fonte: Introdução à Teologia Cristã, pp .17-19

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