Jack Cottrell  

 

UMA QUESTÃO RECENTE: “Eu me deparei com um site de uma igreja que diz (ligeiramente abreviado): ‘Nós compartilhamos os valores da Reforma, os cinco “SOMENTES”[1]:

 SOMENTE CRISTO: Nós acreditamos que Jesus Cristo foi, é e sempre será totalmente Deus (Hb 13.8) e que ele se tornou completamente humano, tomando a natureza de um homem (Fp 2) e que ele veio para nos mostrar como é que Deus Pai é; quando você vê Jesus, vê Deus Pai (Jo 14.9).

 SOMENTE A GRAÇA: Nosso relacionamento com Deus começa com a Sua graça, continua pela Sua graça e termina com a Sua graça. (Fp 1.6)

 SOMENTE A FÉ: Somos libertos (salvos) por meio da fé em Jesus Cristo, e essa fé é um dom de Deus que é motivado pela Sua graça! (Ef 2.8, 9)

 SOMENTE A ESCRITURA: A Bíblia é a infalível e inerrante Palavra de Deus e é nossa primeira e última autoridade em todas as questões de fé e vida (2Tm 3.16). Nosso objetivo é ensinar o que a Bíblia ensina sobre cada tópico.

 GLÓRIA SOMENTE A DEUS: Para o cristão, a vida não é dividida em sacra e secular. Toda a vida é para ser vivida sob o Senhorio de Cristo (1Co 10.31).

 PERGUNTA: O que você acha disso, especialmente o terceiro ponto? Será que Efésios 2 diz que a fé é um dom de Deus?

 MINHA RESPOSTA: Este é um resumo comum e bastante preciso do ensino da Reforma. O ponto “Somente Cristo”, no entanto, é um tanto deturpado, visto que os principais reformadores certamente não teriam limitado o propósito de Cristo, dizendo simplesmente que “ele veio para nos mostrar como é que Deus Pai é”. Eles teriam dito, e com razão, que o propósito de Cristo era morrer e ressuscitar para nos salvar dos nossos pecados. Colocar a ênfase na atividade reveladora de Cristo, ao invés de colocá-la na sua obra redentora é o que eu chamo de “falácia cristológica”.[2]Isso leva a todos os tipos de problemas graves.[3]

 O questionador, no entanto, pergunta especificamente sobre o ponto “Somente a Fé.” Este ponto, “Somente a Fé” (uma visão da salvação que nega que o batismo é um evento de salvação), é muito típico das correntes de pensamento reformadas: a luterana e a calvinista. Tenho criticado este conceito em geral, em um esboço chamado “The Tyranny of the Paradigm – A Tirania do Paradigma”.[4] Procurar por um ensaio baseado nesse esboço, nas séries “Reflexões”, nas edições de 2010 da revista Christian Standard – Padrão Cristão.

 A visão “Somente a Fé” é sustentada tanto por calvinistas como por muitos não-calvinistas. O elemento específico da declaração – “Somente a Fé” – acima que é calvinista é a afirmação de que a fé é um dom de Deus, supostamente baseada em Ef 2.8-9. Os calvinistas (e todos os agostinianos) acreditam que todas as pessoas são totalmente depravadas, com uma total incapacidade para responder em fé ao Evangelho. Assim, Deus deve escolher (via eleição incondicional) quem Ele irá salvar (via graça irresistível). No momento da graça irresistível, o Espírito Santo primeiro regenera o pecador, depois lhe outorga o dom da fé. Ef 2.8 é usado como principal texto-prova para este último argumento.

 O ponto principal é que as regras da gramática grega eliminam qualquer possibilidade para essa interpretação de Ef 2.8. Veja esta citação do meu livro: “Alguns erroneamente concluem que Ef 2.8 diz que a fé é um dom: ‘Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus.’ Isto é desmentido, no entanto, pelas regras da gramática grega. A palavra grega para “fé” (pistis) é feminina no gênero; o pronome que se refere ao dom (‘isto’, touto) é neutro. Se o pronome estivesse se referindo à fé, ele também seria feminino na forma. (Não há palavra correspondente no grego para o pronome ‘impessoal’[5]). Esse versículo na verdade mostra que a fé NÃO é um dom, visto que a graça e a fé são cuidadosamente distinguidas. Somos salvos PELA graça, como a parte de Deus; porém, ATRAVÉS da fé, como a nossa parte, que é distinta da graça concedida. A fé NÃO é um dom da graça e resultado da regeneração; ela é uma resposta à graça e um pré-requisito para a regeneração”.[6]

 

Fonte: Arminianismo.com

 

Tradução: Cloves Rocha dos Santos

 


[1] Nota do tradutor: Ou Sós. Os cinco “Sós” ou “Somentes” em latim são as “cinco solas” e representam os princípios fundamentais da Reforma protestante do século dezesseis: 1) Sola fide (somente a fé); 2) Sola scriptura (somente a Escritura); 3) Solus Christus (somente Cristo); 4) Sola gratia (somente a graça); 5) Soli Deo gloria (glória somente a Deus). (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cinco_solas)

[2] Nota do tradutor: De acordo com Jack Cottrell, a “falácia cristológica”, resumidamente, é a suposição de que o propósito da encarnação de Jesus era apenas REVELADOR (“ele veio para nos mostrar como é que Deus, o Pai, é”) e não REDENTOR. Para Cottrell, a BÍBLIA, a Palavra de Deus, é que cumpre o propósito de REVELAÇÂO de Deus, e não Jesus. A encarnação de Jesus é uma das formas de revelação de Deus, porém o propósito da encarnação não era REVELAÇÃO de Deus, mas a REDENÇÂO do ser humano caído. Como REDENTOR Cristo é único; como REVELADOR Ele não é. Para uma maior compreensão ver a sua nota The Christological Fallacy – A Falácia Cristológica, na sua página pessoal do Facebook, cujo endereço é: http://www.facebook.com/note.php?note_id=188905515616.

[3] Veja o meu livro: Jack Cottrell, The Faith Once for All – A Fé de Uma Vez Por Todas (College Press, 2002), 24-25.     

[4] Disponível em:  http://www.ccuniversity.edu/seminary/files/2008/06/tyranny-of-paradigm.pdf.

[5] O pronome it (em inglês).

[6] Jack Cottrell, The Faith Once for All – A Fé de Uma Vez Por Todas (College Press, 2002), 200.

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