Atos 2:23 – PC Antunes

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A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos.

 Este poderia ser um verso totalmente irrelevante para as controvérsias entre calvinistas e arminianos, pois ele não resolve a problemática da soberania divina e responsabilidade humana; ele apenas expõe os dois lados dessa grande verdade, de que a soberania divina é compatível com a responsabilidade humana, sem preocupação alguma de harmonizá-los. Mas como os calvinistas têm extraído algumas conclusões deste verso a fim de fundamentar melhor sua posição, é imperativo que os arminianos avaliem, não apenas o verso, como também as premissas nas quais os calvinistas se apóiam para concluir que o verso se ajusta apenas com o seu sistema, e dêem uma resposta clara e consistente.

 A primeira conclusão é que eventos contingentes não podem ser pré-conhecidos por Deus. A razão apresentada é unicamente que, por não podermos prever eventos contingentes, Deus também não deve poder. Mas Deus tem infinitamente mais recursos que os humanos para antecipar eventos contingentes, e essa conclusão leva em consideração apenas o nosso lado (nosso raciocínio lógico e experiência pessoal), e não o de Deus. O verso em questão, então, não serve para estabelecer a idéia de que Deus primeiro precisa decretar algo antes que possa “pré conhecê-lo”. Os arminianos entendem que um evento contingente (que pode ou não acontecer) pode ser pré-conhecido por Deus, e é certo que acontecerá, se os meios necessários para a sua realização forem satisfeitos.

 Alguém pode sugerir que nem todos os calvinistas tiram esta conclusão, o que eu devo admitir. Berkhof, por exemplo, reconhece que “é perfeitamente evidente que a Escritura ensina a presciência divina de eventos contingentes,” e que “é-nos levantado um problema aqui, que não podemos resolver plenamente.” [1] Portanto, o problema não é exclusivo dos arminianos, mas dos cristãos em geral, que acreditam na presciência divina de todos os eventos e na liberdade humana. Logicamente, Berkhof não tem o mesmo entendimento dos arminianos e descarta a possibilidade de que algo possa ser pré-conhecido por Deus sem que primeiro seja determinado por Ele. Ele diz:

 Ações que de maneira nenhuma são determinadas por Deus, direta ou indiretamente, mas que são totalmente dependentes da vontade arbitrária do homem, dificilmente podem ser objeto do pré-conhecimento divino. [2]

                    Berkhof foi cauteloso: ele não diz que tais ações não podem ser objeto do pré conhecimento divino, mas que dificilmente podem. Mas o que ele quer dizer por ‘vontade arbitrária do homem’? Em outro lugar, ele esclarece:

 Ao que parece, é impossível conhecer antecipadamente eventos que dependem por completo da decisão causal de uma vontade alheia a princípios que podem em qualquer ocasião, independentemente do estado de espírito, das condições existentes, e dos motivos que se apresentam à mente, seguir diferentes direções. Eventos dessa natureza só podem ser conhecidos previamente como puras possibilidades. [3]

     Essa é uma caracterização um tanto distorcida da posição arminiana. É óbvio que as nossas decisões dependem de nosso estado de espírito, das condições existentes, e dos motivos que se apresentam à mente, enfim, as condições causais devem existir e elas são necessárias para que tomemos qualquer decisão. O arminiano não acredita que a nossa vontade se move independentemente de condições causais; ele apenas nega que essas condições causais são suficientes para determinar nossas decisões.

               A segunda conclusão extraída pelos calvinistas de At 2.23 é que o decreto de Deus vem antes de Sua presciência, em razão do verso apresentar, primeiro, o ‘conselho, ’ e só então a ‘presciência de Deus. ’ Pink nos diz:

 A presciência divina alicerça-se nos próprios decretos de Deus, conforme se vê claramente em Atos 2.23: “Sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos.” Notem a ordem de apresentação: primeiramente, o “determinado desígnio” de Deus (o seu decreto); em segundo lugar, a sua “presciência.”[4]

                 O raciocínio de Pink é que, pela razão de que o autor bíblico escreveu a palavra ‘conselho’ antes da palavra ‘presciência, ’ segue-se que o decreto de Deus antecede sua presciência. Que nessa ordem foi escrito é evidente. O que não é tão evidente é a validade dessa argumentação.

 Supondo ser válida, esta linha de raciocínio poderia nos levar a concluir absurdamente que:

 1 – O nosso chamado é anterior à nossa eleição.

 Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis (2Pe 1.10).

 2 – A nossa salvação é anterior ao nosso chamado.

 Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos (2Tm 1.9).

 3 – Que recebemos o convite geral do Evangelho antes de sermos escolhidos.

 Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos (Mt 22.14).

              Há certamente versos onde a ordem em que as palavras foram escritas servem para estabelecermos certos entendimentos. Tomemos como exemplo Rm 8.30 (E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou). Há razões suficientes para concluir, por exemplo, que a predestinação precede a justificação, não porque uma palavra foi escrita antes da outra, mas porque o autor inspirado fixou uma relação de dependência entre elas, na qual cada etapa pela qual o crente passa, até culminar em sua glorificação, depende de seu antecedente. Mas essa relação de dependência não existe, explícita ou implicitamente, em At 2.23, sendo, por essa razão, precipitado tirar qualquer conclusão em função da ordem em que as palavras foram escritas.


[1] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 70

[2] Ibid., p. 71.

[3] Ibid., p. 108.

[4] Arthur Pink, Deus é Soberano, p. 59.

 

Atos 13:48 – PC Antunes

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Paulo Cesar Antunes

E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna (At 13.48).

 Esta passagem é muito usada pelos calvinistas para tentar provar a doutrina da eleição incondicional. Praticamente todos os calvinistas a usam. Berkhof a cita em sua Teologia Sistemática, uma vez em favor da eleição incondicional, outra da vocação eficaz.[1]  Pink nos conta que “todas as artimanhas da engenhosidade humana têm sido empregadas para obscurecer o significado deste versículo e para explicar de outro modo o sentido óbvio de suas palavras; mas todas as tentativas têm sido em vão; de fato, nada pode conciliar esta e outras passagens semelhantes com a mente do homem natural.”[2] John Gill sustenta que “a fé não é a causa, ou a condição do decreto da vida eterna, mas um meio fixado nele, e é fruto e efeito dele, e o que certamente segue dele.”[3] Boettner parece concordar com Gill quando diz que “basear a eleição na fé prevista é dizer que somos ordenados à vida eterna porque cremos, ao passo que as Escrituras declaram o contrário.”[4] O próprio Calvino, comentando At 13.48, diz: “Esta passagem ensina que a fé depende da eleição de Deus.”[5]Citar outros calvinistas não acrescentaria em nada ao que já foi dito. J. O. Buswell é um dos poucos calvinistas que não compartilha dessa opinião.[6]

 A disputa entre calvinistas e arminianos gira em torno da palavra “ordenados” (gr. tetagmenoi, pretérito perfeito passivo de tasso), um termo que significa ‘ordenar,’ ‘colocar em uma certa posição ou ordem,’ ‘dispor.’ O comentarista Adam Clarke diz que a palavra “não inclui nenhum idéia de preordenação ou predestinação de qualquer espécie.”[7] É a mesma opinião de Wesley, quando diz: “É observável, a palavra original não é nenhuma vez usada na Escritura para expressar predestinação eterna de qualquer sorte.” [8] Essas observações de Clarke e Wesley quanto ao significado da palavra são importantes, mas elas não servem para colocar um ponto final na questão. É digno de nota que a Versão Siríaca traz, em At 13.48, a expressão “foram destinados” e a Vulgata, “tantos quantos foram preordenados à vida eterna (quotquot erant praeordinati ad vitam aeternam).”

 A palavra tasso é usada 8 vezes na Bíblia, com os sentidos de:

 – comandar ou designar:

 Partiram, pois, os onze discípulos para a Galileia, para o monte onde Jesus lhes designara (Mt 28.16).

 Então disse eu: Senhor que farei? E o Senhor me disse: Levanta-te, e vai a Damasco, onde se te dirá tudo o que te é ordenado fazer (At 22.10).

 Havendo-lhe eles marcado um dia, muitos foram ter com ele à sua morada, aos quais desde a manhã até a noite explicava com bom testemunho o reino de Deus e procurava persuadí-los acerca de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas (At 28.23).

 – instituir, constituir ou apontar:

 Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus (Rm 13.1).

 – determinar, tomar conselho, resolver:

 Tendo Paulo e Barnabé contenda e não pequena discussão com eles, os irmãos resolveram que Paulo e Barnabé e mais alguns dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, por causa desta questão (At 15.2).

 – sujeitar-se à autoridade de alguém:

 Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz (Lc 7.8).

 – dedicar-se a:

 Agora vos rogo, irmãos – pois sabeis que a família de Estéfanas é as primícias da Acaia, e que se tem dedicado ao ministério dos santos (1Co 16.15).

 Como pode ser visto, nenhum desses significados carrega a idéia de preordenação ou de algum decreto divino feito na eternidade. A palavra tasso é de origem militar, usada no sentido de ‘dispor soldados em ordem de acordo com a vontade de um oficial.’

 A interpretação calvinista não é absolutamente necessária nesta passagem por algumas razões: 

 1)    a palavra “ordenados” também pode significar “dispostos.” Assim, o verso ficaria “todos quantos estavam dispostos à vida eterna creram.” Por quem dispostos, o verso não diz. Dean Alford concorda com esta tradução. E acrescenta: “Encontrar neste texto uma afirmação de preordenação à vida é forçar tanto a palavra quanto o contexto a um significado que eles não contêm.”[9]

 2)    “A livre auto-determinação da vontade humana é tão pouco negada quanto afirmada nesta passagem; umdecretum absolutum não está de forma nenhuma envolvido em tetagmenoi.”[10] O contexto não parece apontar para uma fé como conseqüência da eleição divina, mas de uma livre-escolha pessoal, obviamente guiada por Deus. Aqueles que estavam ordenados à vida eterna, antes de crerem, estavam desejosos de ouvir a Palavra de Deus, como alguns versos antecedentes mostram:

 Quando iam saindo, rogavam que estas palavras lhes fossem repetidas no sábado seguinte… No sábado seguinte reuniu-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus (At 13.42, 44).

 Portanto, mesmo se interpretar tetagmenoi como um arranjo prévio por Deus, At 13.48 não traria qualquer problema, visto que as pessoas ordenadas responderam positivamente à graça de Deus antes de obterem fé salvífica. Deus, em Sua onisciência, sabendo de antemão a disposição dos seus corações, a receptividade de cada um à Palavra, e que, se sobre esses exercesse Sua graça, eles iriam crer, poderia tê-los ordenados para a vida eterna e lhes concedido fé.

 3)    Alguns comentaristas defendem uma outra ordem para o verso. Também seria correto, segundo Leander S. Keyser: “E creram, todos quantos estavam dispostos, determinados, ou firmes para a vida eterna.”[11] Isso é confirmado  por W. E. Vine em seu Expository Dictionary of New Testament Words, onde se pode ler do significado de “ordenados”: “É dito daqueles que, tendo crido no Evangelho, ‘foram ordenados à vida eterna,’ At 13.48.”[12]

 Seja qual for a ordem das frases, “não há nenhuma evidência de que Lucas tinha em mente um absolutum decretum de salvação pessoal.”[13]

 4)    Antes da vinda de Cristo certamente havia algumas pessoas já salvas, que haviam crido na mensagem redentora dada por Deus no Velho Testamento, e que mantinham uma relação pessoal com Deus. Antes da conversão de Cornélio, por exemplo, a Bíblia o mostra como um “homem justo e temente a Deus” (At 10.22). A ele apenas ainda não havia sido apresentado o Evangelho de Cristo. Essa situação foi única na história da igreja e obviamente não existe mais. Portanto, Lucas poderia estar falando, em At 13.48, daqueles que, já no caminho da salvação, apenas creram na mensagem de Cristo. Não que todos que ouviram o discurso de Paulo naquele momento já eram salvos, mas a referência poderia ser a esses. Essa interpretação é defendida por F. Leroy Forlines.[14] Esta posição é apoiada pelo fato de que os crentes do v. 48 muito provavelmente faziam parte dos “judeus e prosélitos devotos [ou religiosos]”, a quem Paulo e Barnabé exortaram para “perseverarem na graça de Deus” (13.43) um sábado antes.

 5)    Crisóstomo (347-407), considerado um dos quatro grandes Doutores da Igreja Oriental, indica que a palavra ‘ordenados’ assume o sentido de ‘reservados para Deus.’ Da obra Saint Chrysostom: Homilies on the Acts of the Apostles and the Epistle to the Romans, de Philip Schaff, a seguinte nota de George B. Stevens pode ser vista: “A expressão ‘creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna’ tem sido tanto minimizada quanto exagerada. Crisóstomo aponta o caminho para sua correta interpretação ao dizer ‘reservados para Deus’ e adiciona em seguida ‘não com referência à necessidade.’ O escritor não está de forma alguma buscando definir uma doutrina do plano divino em seu efeito sobre a auto-determinação humana, mas apontando uma seqüência histórica. Aqueles que se tornaram crentes verdadeiramente estavam dentro do plano de Deus. A passagem não diz nada da relação do ordenamento de Deus com a escolha do crente. É um exemplo do tipo de pensamento paulino que baseia a salvação no eterno propósito de Deus. Quem quer que seja salvo, de fato, foi salvo pelo propósito de Deus. Se realmente eles são salvos sob a condição da fé e não através da coação de um decretum absolutum, então é certo que sua salvação, como prevista no propósito de Deus, não exclui sua auto-determinação e aceitação pessoal.”[15]

 6)    “Na verdade, alguns entendem que o verbo está na voz média, e não na passiva, e traduzem o texto assim: ‘e tantos quantos destinaram-se a si mesmos [mediante sua reação positiva aos apelos do Espírito] para a vida eterna, creram’.” (David J. Williams, Novo Comentário Bíblico do Livro de Atos)

 7)    Lucas não diz preordenados mas ordenados.

 Alford, citando Wordsworth, nos revela que a construção da idéia de uma preordenação à vida eterna pelos calvinistas em At 13.48 vem da imprópria tradução da Vulgata, uma versão “com inúmeras falhas, imprecisões, inconsistências, e colocações arbitrárias nos detalhes.”[16] Ele diz: “O Dr. Wordsworth bem observa que seria interessante perguntar, Que influência estas traduções na Versão Vulgata (‘preordenados’) teve nas mentes de alguns, como Santo Agostinho e seus seguidores na igreja ocidental, ao tratar as grandes questões do livre-arbítrio, eleição, reprovação, e perseverança final? O que mais foi resultado dessa influência nas mentes de alguns escritores das Igrejas Reformadas, que rejeitaram a autoridade de Roma, que quase canonizou essa versão; e todavia nestes dois importantes textos (At 2.47; 13.48) foram influenciados por ela, se distanciando do sentido do original? A tendência dos pais orientais, que liam o grego original, foi em uma direção diferente daquela da escola ocidental; e o Calvinismo não pode receber nenhum apoio destes dois textos, tanto quando colocados diante das palavras originais da inspiração como quando esclarecidos pela Igreja primitiva.”[17]

 Conforme nos informa Gleason L. Archer, Jr: “Em 382, Jerônimo foi comissionado pelo Papa Damaso para revisar a Itala em confronto com a Septuaginta Grega (embora que Jerônimo já conhecesse o hebraico, Damaso não tinha pretendido originalmente nada tão radical como seria uma nova tradução latina do hebraico original).”[18] A Itala foi uma versão latina, traduzida a partir da Septuaginta. A Vulgata foi uma tentativa de trazer a Itala mais próxima da Septuaginta. Como pode ser notado, a Vulgata não foi uma tradução direta do original. É interessante notar que a Vulgata surgiu na época em que Agostinho vivia.  Mais interessante ainda é que esta versão carregava forte influência dos ensinos de Agostinho, principalmente no que se referia à predestinação e à negação do livre-arbítrio. Fluente em latim, Calvino também usou muito a Vulgata. Isto porque a Vulgata foi praticamente, por mil anos, a única Bíblia conhecida e lida na Europa Ocidental.

 Após sugerir estas outras interpretações, os calvinistas muito provavelmente podem estar dizendo, como Spurgeon: “Tentativas têm sido feitas para comprovar que essas palavras não ensinam a predestinação. Tais tentativas, porém, violentam o claro sentido da linguagem, de tal maneira que nem merecem que se gaste tempo em lhes dar resposta.”[19] Mas a interpretação dos calvinistas cria um sério problema para eles, como demonstrarei a seguir.

 Boettner diz de At 13.48 que “todos quantos estavam ordenados para a vida eterna (e somente eles) creram.”[20] O acréscimo “e somente eles” parte de uma conclusão inevitável. Se tomada a interpretação calvinista, então “todos quantos,” ou seja, todos os que estavam ordenados para a vida eterna, daqueles que estavam presentes dentre “quase toda a cidade” (At 13.44), creram. Isso significa dizer que os demais, que não creram naquele exato momento, não estavam ordenados à vida eterna, ou seja, eram reprovados e estavam predestinados à perdição eterna. Só que dificilmente algum calvinista acredita nisso. Se continuam defendendo a sua interpretação é porque, muito provavelmente, ainda não se deram conta dessa implicação.

 At 13.48, portanto, não é de fácil interpretação. Mas de forma alguma esta passagem evidencia a fé como conseqüência da eleição incondicional, como o Calvinismo propõe. A interpretação dos calvinistas é possível, mas muito improvável, dadas as suas implicações indesejáveis.

 


[1] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, pg. 116, 471.

[2] Arthur W. Pink, Deus é Soberano, p. 53.

[3] John Gill, Comentários sobre At 13.48, John Gill’s Exposition of the Entire Bible.

[4] Loraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination.

[5] John Calvin, Comentários sobre At 13.48, Calvin’s Commentaries.

[6] J. O. Buswell, A Systematic Theology of the Christian Religion, v. 2, p. 152-3.

[7] Adam Clarke, Comentários sobre At 13.48, Adam Clarke’s Commentary on the Bible.

[8] John Wesley, Comentários sobre At 13.48, John Wesley’s Explanatory Notes.

[9] Dean Alford, New Testament for English Readers, Vol. I, Parte II, p. 745).

[10] Lange, Commentary on the Holy Scriptures: Acts, p. 258.

[11] Leander S. Keyser, Election and Conversion, pp. 129-130.

[12] W. E. Vine, Expository Dictionary of New Testament Words, Vol. I, p. 68.

[13] A. T. Robertson, Word Pictures in the New Testament, The Acts, p. 200).

[14] F. Leroy Forlines, The Quest For Truth, p. 388-390.

[15] George B. Stevens, citado em Philip Schaff, Saint Chrysostom: Homilies on the Acts of the Apostles and the Epistle to the Romans.

[16] Philip Schaff, History of the Christian Church.

[17] Dean Alford, The New Testament in the Original Greek, with Introduction and Notes, por Chr. Wordsworth, “The Acts,” p. 108).

[18] Gleason L. Archer, Jr, Merece Confiança o Antigo Testamento?, p. 50.

[19] Charles Spurgeon, citado em Arthur W. Pink, Deus é Soberano.

[20] Loraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination.

Romanos 8:30 – P. C. Antunes

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E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou, Rm 8.30.

 Não entrarei numa análise detalhada do versículo em questão; antes, tentarei provar que uma leitura descuidada, e conseqüentes inserções arbitrárias no texto sagrado, podem levar alguns a acreditar naquilo que o versículo não está dizendo.

 Sproul acredita que descobriu a chave para interpretar Rm 8.30: inserindo no texto a palavra todos ou alguns. Diz ele:

 Paulo diz em Romanos que todos a quem Deus chama, Ele justifica. Ora, concordamos que a Bíblia não diz explicitamente que todos a quem Deus chama Ele justifica. Estamos acrescentando a palavra “todos”. Talvez sejamos tão culpados de ler alguma coisa no texto que não está lá, quanto àqueles que advogam a visão presciente.

 Quando acrescentamos a palavra todos ali, estamos respondendo a uma implicação do texto. Estamos fazendo uma inferência. É uma inferência legítima de se fazer? Eu penso que é.

 Se Paulo não quer dizer que todos os que são chamados são justificados, a única alternativa seria que alguns que são chamados são justificados. Se acrescentarmos a palavra alguns aqui, em vez da palavra “todos”, então devemos acrescentá-la ao longo de toda a Cadeia Dourada. Então ficaria assim:

 Alguns dos que Ele de antemão conheceu, Ele também predestinou. Alguns dos que Ele predestinou, Ele também chamou. Alguns dos que Ele chamou, também justificou. Alguns dos que Ele justificou, também glorificou.

 A leitura deste texto nos deixa com uma monstruosidade teológica, um pesadelo. Significaria que somente alguns dos predestinados chegam a ouvir o Evangelho, e que somente alguns dos justificados são finalmente salvos. Estas noções estão completamente em conflito com o que o restante da Bíblia ensina sobre o assunto.

 A visão presciente sofre ainda de um problema maior, pelo acréscimo da palavra alguns. Se a predestinação de Deus é baseada em sua presciência de como as pessoas responderão ao chamado exterior do Evangelho, como é que somente alguns dos predestinados são chamados? Exigiria que Deus predestinasse alguns que não são chamados. Se alguns dos predestinados são predestinados sem serem chamados, então Deus não estaria baseando sua predestinação num conhecimento prévio da resposta deles ao seu chamado. Eles não poderiam ter nenhuma resposta a um chamado que eles nunca receberam! Deus não pode ter presciência de não-resposta de uma pessoa a um não-chamado.

 Ufa! Se seguirmos tudo isso, então veremos a conclusão gritando para nós. Paulo não pode estar pensando na palavra alguns. Em vez disso, a Cadeia Dourada necessariamente tem implícita a palavra “todos”. [1]

 Não há dúvida que, usando este método de Sproul, a visão presciente da predestinação torna-se altamente suspeita senão completamente impossível. Mas a pergunta precisa ser repetida: É uma inferência legítima de se fazer? Eu penso que não. E isto simplesmente porque Paulo não está querendo dizer que alguns ou todos que são predestinados são chamados, justificados, glorificados, mas apenas revelando como “aqueles que amam a Deus” (Rm 8.28) são levados, passo a passo, à glorificação. Qualquer um que for finalmente glorificado terá sido predestinado, chamado, justificado, mas Paulo não diz absolutamente nada sobre a possibilidade de alguns terem sido justificados, mas não glorificados. Em apoio a esta interpretação, F. Leroy Forlines acredita que temos um paralelo nas Escrituras[2]:

 Porque a terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, por último o grão cheio na espiga, Mc 4.28.

 Aqui, da mesma forma, é impróprio acrescentar a palavra todos no texto. Jesus não está querendo dizer que todas as ervas viram espigas, nem que todas as espigas se enchem de grãos. Algumas ervas e algumas espigas morrem antes de se desenvolverem. Ao invés, Ele está dizendo que qualquer espiga que se enche de grão terá sido primeiro uma erva e depois uma espiga. Jesus está meramente indicando as etapas pelas quais passa uma espiga cheia de grãos. Da mesma forma que faz Paulo em Rm 8.30. O método que Sproul usa é completamente inadequado.


[1] R. C. Sproul, Eleitos de Deus, pp. 97, 98.

[2] F. Leroy Forlines, The Quest for Truth, p. 379.

A Teologia de John Wesley

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Explorando A Teologia de John Wesley*
A Humanidade e o Pecado
“[O ser humano] não é meramente matéria, um punhado de terra, uma porção de barro, sem qualquer sentido ou entendimento, mas um espírito tal como o seu Criador, um ser dotado não só de sentimento e conhecimento, mas também de um livre arbítrio que se manifesta em vários afetos. E a coroar todo o resto,está o fato de que ele foi dotado de liberdade, da capacidade de dirigir os seus afetos e ações, a capacidade de determinar por si próprio se escolherá o bem ou o mal.
(Sermão, “A Queda do Homem,” Works, 2:400-401)
A Humanidade
Na base do conceito que Wesley tinha da humanidade — também conhecido como a doutrina da antropologia teológica — está a ideia de que os seres humanos são relacionais. Foram criados para se relacionarem. Foram criados pelo amor e para amar.
De acordo com Mildred Bangs Wynkoop, a própria definição da imagem de Deus—imago Dei — é esta capacidade de amar.
Outras tradições têm definido a imagem de forma diferente. Uma interpretação da imagem no período da Igreja Primitiva — interpretação considerada herética —propunha que a imagem era na realidade uma aparência física de Deus. Parece haver muitas imagens antropomorfizadas nas Escrituras. Mas por final a ortodoxia determinou que essas devem ser interpretadas metaforicamente.
Vários intérpretes Ocidentais da imagem defenderam que ela está presente na nossa capacidade de refletir. Esta é a posição de muitos teólogos clássicos, incluindo o grande teólogo Católico Tomás de Aquino (d. 1275). Uma outra interpretação é de que o ser humano leva a semelhança de Deus no seu relacionamento com o resto da criação. Assim como Deus se encontra numa posição hierárquica em relação à humanidade, assim também a humanidade se situa numa posição hierárquica em relação à terra. Ainda uma outra interpretação da imagem é a da liberdade humana. Deus nos criou livres e com a capacidade de escolha.
Wesley estava ciente dessas várias interpretações, mas, segundo Wynkoop e outros, ele abraça fortemente a ideia da imagem como amor. H. Ray Dunning comentou sobre os relacionamentos definitivos designados para a humanidade: nós fomos criados para amar a Deus, amar ao próximo, e cultivar um amor adequado por nós mesmos e pelo mundo.
Há ocasiões nos escritos de Wesley em que ele distingue a imagem natural da imagem moral na humanidade, as quais são paralelas aos atributos naturais e moral de Deus. “Isto é, a Imagem natural de Deus na humanidade refere-se àquelas características ou faculdades próprias dos seres humanos, enquanto que a Imagem moral de Deus se refere ao ‘caráter’ de santidade e amor designados por Deus para a humanidade.” Esta posição é parecida com a distinção que a teologia Oriental faz entre a imagem e semelhança de Deus.
Um elemento central na compreensão do conceito de Wesley da humanidade e salvação é o fato de que depois da Queda, a imagem permanece. Fica distorcida, mas não obliterada. E, portanto para Wesley, a salvação — no sentido lato que inclui também a santificação — é o processo de restauração e renovação da imagem de Deus em nós. Esta noção de que a imagem permanece mesmo depois da Queda levou alguns intérpretes de Wesley a falar duma doutrina de deprivação total, em vez de depravação total.
Com a queda, ficamos deprivados do nosso relacionamento original com Deus, e assim sendo os nossos outros relacionamentos também ficam distorcidos, mas a capacidade de amar e a esperança de renovação permanecem. Além disso, a graça preveniente é oferecida para compensar pelos efeitos da Queda. A forte doutrina Calvinista da depravação total, por outro lado, é menos otimista. Com a Queda, ficamos totalmente depravados, sem Deus no mundo, e corruptos sem possibilidade de reparo nesta vida. Estas noções bem diferentes da Queda e da imago Dei produziram doutrinas de salvação também diferentes em Wesley e Calvino.
O princípio supremo da teologia de Wesley é o fato de que Deus é amor. Ele reitera a todo o custo o amor de Deus. Pelo contrário, pode-se dizer que, se pressionado, o Calvinista teria que defender a soberania de Deus como a principal característica dEle. Este postulado básico, do amor ou do poder, viria a definir toda a visão teológica de Wesley e de Calvino, apontando a cada um deles numa direção diferente.
Wesley fala de certos estados humanos, o natural, o legal e o evangélico. O estado natural é simplesmente um estado hipotético subsequente à Queda. Trata-se do estado em que Deus criou Adão e Eva. Só Jesus, o Cristo, nasceu num estado natural livre do pecado original. O estado legal, para Wesley, refere-se à nossa condição perante Deus anterior à experiência do novo nascimento. Vivemos sob a lei, e se deixarmos que a lei cumpra a sua função, ela nos conduzirá ao ponto de reconhecermos a nossa necessidade de salvação. A graça preveniente ajuda-nos a despertar para essa necessidade. O estado evangélico, então, é subsequente ao novo nascimento em Cristo; não estamos sob a lei mas sob a graça. Este novo nascimento dá início ao processo de renovação da imagem de Deus em nós.
O Pecado
O que foi que aconteceu quando Adão e Eva pecaram? E como é que o pecado original nos afeta a nós?
Comecemos a nossa investigação com uma discussão da essência do pecado original.
Enquanto que a maior parte dos intérpretes de Wesley tem seguido a interpretação tradicional — Agostinha — do pecado original como sendo o orgulho, uma nova interpretação foi oferecida pela Dra. Leclerc, publicada na obra Singleness of Heart: Gender, Sin, and Holiness in Historical Perspective. Segundo esta análise, embora o termo orgulho fosse usado frequentemente por Wesley, nunca foi tratado como paradigma dominante do pecado original.
O mais direto sermão de Wesley sobre este assunto — “O Pecado Original” (1854)—revela esta falta de predominância do termo orgulho. Aqui, é a idolatria que é nitidamente tida como a principal definição do pecado original, seguida de “orgulho,” “egoísmo,” e “amor do mundo.” Diz Wesley, “todo o orgulho é idolatria”; assim como o “amor do mundo.” Por outras palavras, existem duas formas de pecado original: desordenado amor-próprio — orgulho — e desordenado amor pelo próximo, referida aqui como o “amor do mundo”; explica Wesley: “O que é que nos é mais natural do que buscar felicidade na criatura, em vez do Criador?”
Wesley escreveu também um sermão intitulado “A Idolatria Espiritual,” já no final da sua vida. Vale à pena citar uma passagem:
Sem dúvida é desejo de Deus que nos amemos uns aos outros. É Seu desejo que amemos os nossos parentes e irmãos em Cristo com um amor peculiar; e especialmente aqueles a quem Ele conferiu significado particular nas nossas almas. A esses devemos amar “fervorosamente;”, mas sempre com “um coração puro.” Mas não é isso “impossível ao homem,” de manter a força de afeto, sem, contudo manchar em nenhuma maneira a alma, mantendo-a com pureza total? Não estou sugerindo apenas pureza em relação à cobiça. Sei que isso é possível. Sei que uma pessoa pode nutrir inefável afeto por uma outra sem qualquer desejo desta natureza. Mas será que isso é isento de idolatria? Será que isso não constitui amar a criatura mais do que o Criador? Não é colocar o homem ou a mulher no lugar de Deus? Entregar-lhes o seu coração? Que isso seja ponderado seriamente, mesmo por aqueles a quem Deus ajuntou; por maridos e mulheres, pais e filhos. Sem dúvida que estes devem amar-se ternamente uns aos outros: têm o dever de fazê-lo. Mas não têm nem a obrigação nem a permissão de se amar uns aos outros de maneira idólatra. E, entretanto, quão frequentemente isso acontece! Quão frequentemente não é o marido, a esposa, o filho colocado no lugar de Deus? Quantos não são os que, embora sendo considerados bons Cristãos, colocam o seu afeto num ou no outro, não deixando nenhum lugar para Deus! Procuram a sua felicidade na criatura e não no Criador. Podiam até dizer-se um ao outro, “para mim tu és o meu senhor e o alvo dos meus desejos.” Isto é, “nada mais desejo do que tu! É por ti que eu almejo! Todo o meu desejo é para ti, para a lembrança do teu nome.” Pois bem, se isso não é idolatria, então eu não o que poderia ser.
Wesley cria firmemente que o que Adão e Eva fizeram no jardim tinha efeitos duradouros para o resto da humanidade. Mesmo assim, é interessante notar que ele não se deteu com a questão da forma como esses efeitos foram transmitidos, mas com o fato de que foram transmitidos. O que lhe interessa é a questão da culpa associada com o pecado original.
A teologia Ocidental afirma que o estado de pecado original, a corrupção da humanidade no seio da qual nós nascemos faz-nos culpáveis perante Deus, mesmo que nós nada tenhamos feito individual e voluntariamente para isso merecer. A culpa é herdada, assim como a corrupção. Wesley, por outro lado, defende que o pecado original não traz culpa, mas sim uma predisposição para o pecado. O que nos torna culpados são os pecados que nós cometemos da nossa própria vontade. Wesley é muito cuidadoso em distinguir “pecado nato” de pecados reais. Daí a definição clássica de pecado citada frequentemente pelos Wesleyanos: “O pecado é a transgressão voluntária de uma conhecida lei de Deus.”
Alguns mantêm que no que concerne ao pecado Wesley assumiu uma via media entre Agostinho e Pelágio. Assim, ele foi categorizado como sendo “semi-Pelágico.”
Agostinho e Pelágio foram contemporâneos no século três e na primeira parte do século quatro. Pelágio defendeu que o ser humano não só não herdou culpa de Adão, como também não herdou qualquer corrupção. Assim sendo, cada pessoa encara a mesma escolha que encararam Adão e Eva no jardim. No seu ver, nós nascemos com liberdade natural.
Agostinho, por outro lado, defendeu uma forte doutrina de pecado original, depravação total, e culpa herdada.
O debate viu o seu desfecho com a determinação por parte do Cristianismo ortodoxo de que Pelágio era herético.
Wesley rejeitou Pelágio — embora tivesse mostrado alguma simpatia por ele. Mas nem por isso ele se alinhou com a doutrina de Agostinho. A via media surge na forma da doutrina Wesleyana da graça preveniente. A graça que Deus estende a todo o ser humano que vem ao mundo confere a esse indivíduo liberdade graciosa.
Enquanto que a tendência para o pecado é de fato herdada, a graça é oferecida para que o ato de pecado permaneça como uma escolha pela qual somos responsáveis. A rejeição de Wesley da culpa herdada preserva a justiça de Deus. Ao mesmo tempo, evita que Wesley seja forçado a defender a predestinação.
A doutrina do pecado em Agostinho era tão forte que só um ato pré-determinado e irresistível por parte de Deus nos poderia salvar. Wesley evitou esta conclusão lógica ao afirmar a universalidade da graça preveniente.
O Pecado Original
Sobre o pecado original, Wesley escreve: “Se, portanto, retirarmos esta base, que [a humanidade] é por natureza louca e pecaminosa… o sistema Cristão desmorona de imediato.”
(“A Doutrina do Pecado Original” Works, 9:194)
O Caminho da Salvação, parte 1
Introdução
O Caminho da Salvação
“E, em primeiro lugar, perguntemos, o que é a salvação? A salvação de que se fala aqui não é aquilo que frequentemente se deduz desse termo: a ideia de ir ao céu, de felicidade eterna. Não se trata da partida da alma para o paraíso . . . Não se trata de uma bênção que jaz do outro lado da morte . . . As próprias palavras do texto não deixam margem para dúvida, “Vós sois salvos.” Não se trata de algo que distante. É algo presente, uma bênção de que tendes possessão agora, pela livre misericórdia de Deus. Sim, pode-se afirmar por estas palavras, e com igual justeza, “Vós fostes salvos.” De maneira que a salvação de que se fala aqui pode se estender à inteira obra de Deus, desde o despontar da graça na alma até à sua consumação na glória.”
(Sermão, “O Caminho Bíblico da Salvação”)
A doutrina de Wesley acerca do pecado influenciou a sua doutrina de salvação. De novo, de acordo com a teologia Oriental, ele conceitualizou o pecado como sendo uma “doença” que precisava do toque curador de Deus como Médico. A sua noção de salvação pode então ser designada de “terapêutica.” A teologia Ocidental Reformada concentra-se na necessidade de perdão de culpa que se encontra na justificação, e em Deus como Juíz e Justificador. Na sua noção de sola fide, Wesley deve muito a esta tradição, expressa particularmente pelos Moravianos. Wesley, porém, foi muito mais além, considerando toda a obra de Deus como sendo inclusiva da justificação e santificação. Nesta lição consideraremos a obra de Cristo e a obra do Espírito Santo na obra inicial da salvação, aquilo que Wesley preferiu designar de “Novo Nascimento.”
Teorias da Redenção
A obra de Cristo na cruz já foi interpretada de várias maneiras. Essas são conhecidas como teorias da redenção.
A Teoria do Resgate
Esta teoria vê a humanidade como sendo cativa de Satanás. A morte de Cristo é o resgate, o pagamento feito com o fim de libertar-nos da prisão de Satanás. A ressurreição de Cristo, entretanto, é a maneira como Deus toma de volta o resgate de Satanás.
A Teoria da Satisfação
Esta teoria assenta-se na ideia de que o pecado constitui uma afronta à honra de Deus. Esta honra tem que ser vindicada, e assim Deus envia Jesus para morrer na Cruz como forma de expiar o pecado e restaurar o sentido de satisfação Divina de que o pecado já foi pago.
A Teoria da Satisfação Penal
Esta teoria é muito semelhante à da satisfação, mas aqui não é a honra de Deus que necessita vindicação, mas sim a justiça de Deus. É a ideia de que o pecado tem que ser punido. Assim, Cristo toma sobre si a punição, mantendo Deus como um Deus justo.
A Teoria do Christus Victor
Esta teoria surgiu no período da Igreja Primitiva. Ela afirma simplesmente que Cristo saiu vitorioso sobre o pecado ao tomar como inocente o pecado sobre si, sendo levantado dos mortos pelo poder de Deus. Este mesmo poder pode derrotar o pecado em nós.
A Teoria da Recapitulação
Também esta teoria surgiu cedo na Igreja Primitiva. Ela centra-se em Jesus Cristo como o Segundo Adão. Esta teoria concentra-se em mais do que a Cruz; ela abrange toda a vida de Cristo, vivida obedientemente para Deus. Aquilo que pela desobediência Adão fez errado, Jesus faz certo através da obediência. A cruz é a maior expressão dessa obediência. Jesus de certa forma redime a vida humana ao conceder-nos um modelo para viver a vida em plena dedicação à vontade de Deus.
A Teoria Governamental
Esta teoria é normalmente associada com o Arminianismo, desenvolvida formalmente por um aluno de Tiago Armínio, Hugo Grotius. A morte de Cristo permitiu a Deus oferecer perdão a todos quantos se arrependerem, ao mesmo tempo que mantém controlo governamental. Uma importante distinção tem que ser feita com referência à teoria da satisfação, no sentido de que Cristo não pagou o preço pelo nosso pecado mas em vez disso sofreu por nós. Tal distinção é crucial para os Arminianos porque esta expiação é ilimitada. Assim, se Cristo tivesse pagado o preço por todos então ninguém estaria em necessidade de redenção porque Cristo já teria recebido a punição. Em vez disso, a teoria governamental insiste que o sofrimento de Cristo foi um substituto pelo preço para que o homem pudesse receber perdão, mas ao mesmo tempo compreender a seriedade do seu pecado a fim de não voltar a ele.
A Teoria da Influência Moral
Esta teoria foi criada por Abelardo (1079-1142) e procura corrigir alguns dos problemas da teoria da satisfação penal. Do ponto de vista da teoria da influência moral, a Redenção encontra-se na Encarnação e não na Crucificação ou na Ressurreição.
Cristo veio deixar o exemplo perfeito do amor e a sua morte só constitui mais uma demonstração de entre várias desse amor. A salvação é alcançada num ato de reconhecimento desse supremo exemplo de amor como estilo de vida. Wesley estava interessado na realidade objetiva da Redenção, mas também igualmente interessado na sua influência subjetiva sobre nós. Para defender esse argumento ele recorreu a diferentes teorias em diferentes ocasiões. Teorias da redenção primàriamente falam daquilo que Cristo fez por nós. Mas a doutrina da soteriologia vai mais além perguntando, “Como é que a expiação de Cristo se aplica a nós?” Randy Maddox sugere que em vez de encaixar Wesley no modelo tradicional de ordo salutis, é mais correto falar de Wesley como possuindo uma via salutis.
Isto significa que em vez de conceitualizar a vida Cristã como uma série de passos, uma “ordem de salvação,” seria melhor conceitualizá-la como um “caminho de salvação,” como um processo envolvendo de momento a momento a atividade de Deus assim como a nossa resposta. No nosso caso presente, consideraremos certos passos salvíficos. Mas isso só para efeitos de esclarecimento. No caminho de Wesley, os passos seguem-se fluidamente juntos.
Graça Preveniente
A salvação começa com o dom gratuito de graça preveniente que Deus concede, desde o momento em que nascemos. Graça preveniente é a presença e obra do Espírito Santo. É a graça preveniente que nos aproxima ou atrai de Deus, despertando nas nossas almas a necessidade de Deus. Esta graça, tal como toda a graça, pode ser resistida. Mas se permitida a fazer a sua obra, a graça preveniente e a presença do Espírito Santo conduzirão a pessoa ao ponto de “despertamento.”
É nesse ponto que somos convencidos da nossa própria pecaminosidade e incapacidade longe de Deus. Esta consciencialização de necessidade pode vir na esteira de eventos, sermões, do testemunho de outros, ou mesmo de algo mais interno consoante a operação do Espírito. Se nós nos permitirmos ser despertados, o passo seguinte é o passo do arrependimento.
Antes de passarmos ao arrependimento, há três outras funções da graça preveniente que precisam ser consideradas aqui:
Primeiro, o Espírito Santo está tão ativo no mundo que é possível afirmar que “toda a verdade vem de Deus.” Não é preciso ser Cristão para ser um brilhante cirurgião. Na verdade, todos provavelmente escolheríamos ser operados por um excelente cirurgião ateu, do que por um medíocre cirurgião Cristão.
Segundo, a graça preveniente, que é dada a todo o ser humano, proverá graça salvadora em situações onde a plena aceitação de Jesus Cristo não é possível.
Situações dessas incluiriam crianças que morrem antes da idade da responsabilidade, doentes mentais, e aqueles que nunca tiveram a oportunidade ouvir o evangelho, como por exemplo, uma mulher Hindu do século sexto antes de Cristo. Os que nunca ouviram o evangelho serão julgados de acordo com a “luz”—a graça preveniente—que tiverem recebido—Romanos 1 e 2. Wesley passou uma boa porção de tempo contemplando este aspecto da obra do Espírito.
Terceiro, de acordo com os Wesleyanos, a graça preveniente faz-nos responsáveis pelo nosso pecado perante Deus. Se nascemos numa condição de pecado original que faz de nós tão depravados que não podemos deixar de escolher o mal, e isso continuamente, como pode um Deus justo julgar-nos por algo que não podemos evitar? A graça preveniente restaura-nos para um livre arbítrio em graça de modo
Que a justiça de Deus permanece justificada.
Arrependimento
No esquema de Wesley, o despertamento está intimamente ligado ao arrependimento. De certa forma, é difícil distinguir onde termina um e começa o outro. Pode ser visto como um “remorso piedoso”—o sentido de que por causa do nosso pecado nós não estamos em relacionamento correto com Deus, embora queiramos estar. O segundo sentido de arrependimento é o real abandono do pecado e reparo dos nossos caminhos.
Um ponto chave para Wesley é que este segundo aspecto do arrependimento só é possível mediante a fé. De outro modo, estaríamos impropriamente ligando a salvação aos nossos próprios esforços pessoais de alcançar a retidão. É só a graça, através da fé, que nos capacita a arrepender neste segundo sentido.
A dívida que Wesley tinha para com os Moravianos e a tradição Luterana no tocante à natureza da fé não pode ser subestimada. Contudo, Wesley não se limitou a aceitar simplesmente essa noção sem modificação. O seu pensamento evoluiu com o tempo. O seu encontro inicial com os Moravianos alterou a sua noção de salvação. Numa palavra, enquanto que antes de 1737 Wesley acreditava que a santificação precedia a justificação, depois de 1738 Wesley inverteu a ordem.
Somos justificados pela fé somente, sola fide. Não nos tornamos justos a fim de nos fazermos dignos da justificação Divina. A justificação é um dom gratuito de Deus, tal como o é a própria fé. Mas à luz do principal interesse de Wesley no aspecto “terapêutico” e “santificador” da salvação—e não na ênfase Ocidental sobre o perdão de culpa—e à luz do conceito que Wesley tinha do relacionamento dinâmico e cooperativo que temos com Deus na nossa própria salvação — em vez da ênfase Reformista sobre a irresistibilidade da graça — a própria definição que Wesley dá da fé amplia-se.
Na “religião experiencial” de Wesley, fé no sentido de mera aceitação de uma gama de afirmações nunca constituiria fé de verdade. Do mesmo modo, a fé estende-se para além da justificação e torna-se a essência da crença em Cristo para todo o momento ao longo da jornada da salvação. A fé é o relacionamento cooperativo que temos com Deus. Isso é conhecido comosinergismo — e não monergismo — e é fundamental para toda teologia Wesleyana.
O Testemunho do Espírito
Um elemento chave na noção que Wesley tem da experiência Cristã é a sua doutrina do testemunho do Espírito, também conhecida como a doutrina da segurança. À semelhança do que se deu com as suas outras doutrinas, também a doutrina da segurança evoluiu com o tempo. Na sua fase jovem — pré-Aldersgate — Wesley ligou a segurança à fé. Mas nessa altura, fé para Wesley constituía uma aceitação racional das postulações básicas da tradição Cristã, particularmente a Anglicana. As suas próprias lutas espirituais e falta de segurança pessoal, a despeito da sua ortodoxia, cedo o levaram a questionar a validade deste tipo de certeza racional.
O seu contacto com os Moravianos muito influenciou a compreensão que Wesley tinha da doutrina da segurança, ao ponto de ele chegar a defender que todos os Cristãos podiam perceber a obra do Espírito Santo nas suas vidas. Este entendimento de Wesley baseva-se em Romanos 8.15-16, que diz, “Pois não recebestes o espírito de escravidão para outra vez estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai! O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito de que somos filhos de Deus.” À semelhança dos Moravianos, Wesley acreditava que nós devemos almejar esta experiência de tal maneira que se não a temos, então é justo questionar a nossa fé em Cristo.
A insistência dos Moravianos em defender que com a experiência da segurança os Cristãos passam a ter gozo, paz e certeza, e isso continuamente, eventualmente veio a perturbar a Wesley. O Wesley sênior chegou a crer que enquanto que nós devemos esperar a segurança de que fala Romanos, é possível possuir fé salvadora sem ela. É igualmente possível perder a nossa segurança sem, contudo perder a salvação.
Concomitantes da Salvação
Cada um dos elementos seguintes é um designador de um aspecto diferente do “momento” da salvação.
Justificação
Ser justificado por Deus significa que os nossos pecados estão perdoados. A culpa pelos nossos pecados é removida. Deus não mais nos condena pelas nossas transgressões contra Ele. Wesley reiterou a justificação. Mas ele acreditou que a salvação mais plena vai para além da justificação para lidar com o problema subjacente do mal. O seu modelo “terapêutico” leva-o mais longe.
Regeneração
O termo favorito de Wesley para salvação era “Novo Nascimento.” Este conceito implica que somos regenerados, “nascidos de novo,” e feitos novas criaturas em Cristo. Wesley jamais desejou que a sua doutrina de santificação minimizasse o poder e significado do novo nascimento.
Adoção
Como vimos acima na seção sobre a segurança, Wesley firmemente declara a importância de ser filho de Deus e co-herdeiro com Cristo. Este aspecto da salvação também implica que somos nascidos numa família, numa comunidade de irmãos e irmãs em Cristo. Isso nos impede de imaginar a salvação como um evento e uma vida puramente privados.
Redenção
Redenção implica libertação do pecado. O Êxodo funciona como metáfora da redenção. A redenção também implica receber um novo propósito, nomeadamente amar a Deus com todo o nosso ser, e ao próximo como a nós mesmos. Nossas vidas são remidas do pecado e para o amor.
Reconciliação
Somos reconciliados com Deus. Este é um tema que encontramos nos escritos de Wesley, e também nos hinos de Charles. Neste sentido, a alienação e separação de Deus implícita no pecado é derrotada quando entramos num novo relacionamento com Deus.
Santificação Inicial
Este termo nunca foi utilizado por Wesley, mas reflete a sua convicção de que o momento de salvação dá início ao processo pelo qual somos feitos justos.
O Caminho da Salvação, parte 2
Wesley distingue dois aspectos da salvação: “Isso chama-se santificação, que é em verdade, até certo ponto, o fruto imediato da justificação embora sendo um dom distinto de Deus, um dom de natureza totalmente diferente. Enquanto que a justificação refere-se ao que Deus faz por nós através do seu Filho, a santificação é o que ele opera em nós por intermédio do seu Espírito.”
(Sermão, “Justificação pela Fé,”)
A Perfeição Cristã
Se calhar não existe outra doutrina de Wesley tão celebrada, tão influente, e tão debatida quanto a sua doutrina da perfeição Cristã.
As Fontes de Wesley
Wesley acreditava na perfeição Cristã por ser bíblica, mas também, em larga medida, por crer que ela estava assente na tradição Cristã. Wesley estava intimamente familiarizado com os escritores da Igreja Primitiva e seus pronunciamentos sobre a santidade. Entre eles estavam Inácio de Antioquia, o Pastor de Hermas, Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, Gregório de Nicéia, Macário, João Crisóstemo, Efraím Siro, e outros.
Wesley aprendeu muito com esses escritores sobre o potencial da graça de Deus de possibilitar e capacitar uma vida santa. Wesley afirmou que quando lia Macário, o seu coração “cantava.” Duma maneira geral, esses escritores deixaram em Wesley um intenso otimismo sobre a possibilidade da transformação da pessoa através da cooperação entre a graça e a resposta humana.
Escritores da Idade Média bem como da tradição Católica e Pietista profundamente influenciaram o pensamento de Wesley. Ele desafiou os seus pregadores a ler amplamente sobre a tradição Cristã, e várias vezes até lhes ofereceu excertos para ajudá-los a conhecê-la melhor. Em 1725 Wesley identificou três autores que muito influenciaram o seu entendimento da santidade: Tomás à Kempis, Jeremias Taylor, e
William Law.
Deles Wesley derivou importantes elementos do seu conceito da natureza da perfeição, como por exemplo, a possibilidade real de praticar a pureza de intenções, a necessidade de imitar Cristo como modelo de vida santa, e o amor por Deus e pelo próximo como a “perfeição” definitiva e normativa. Esta citação vem da sua obra Uma Explicação Clara da Perfeição Cristã, e serve de Kempis, Taylor, e Law.
Num sentido, [a Perfeição Cristã] é a pureza de intenções, a entrega de toda a vida a Deus. É entregar a Deus todo o nosso coração; é ter um só desejo e um só desígnio a governar todos os nossos sentimentos. É consagrar não apenas uma parte, mas todo o nosso coração, corpo e substância a Deus. Num outro sentido, é ter toda a mente de
Cristo capacitando-nos a andar como Cristo andou. É a circuncisão do coração de toda a sujeira, toda a poluição tanto interna como externa. É a renovação do coração na inteira imagem de Deus, a plena semelhança dAquele que o criou. E ainda noutro sentido, é amar a Deus com todo o nosso coração, e ao próximo como a nós mesmos.
Definição — De que se trata?
Em 1741 Wesley escreveu o sermão “A Perfeição Cristã.” Ele procurou definir o que é a perfeição Cristã começando por examinar em primeiro lugar o que ela não é. Por mais maturidade que os Cristãos possam alcançar nesta vida, eles não atingem as perfeições absolutas de onisciência, infalibilidade, onipotência. O seu entendimento continua limitado, os seus julgamentos estão sujeitos a erro, e os seus atos são por vezes limitados por “enfermidades” da presente condição humana.
O que é que poderia ser considerado uma “enfermidade” hoje?
Cristão é isento de sofrer tentação continuamente na sua vida. Por outro lado, Wesley acreditava que mesmo os Cristãos recém-nascidos são perfeitos no sentido de que eles não precisam cometer atos externos de pecado. Posteriormente Wesley modificaria a sua opinião sobre o relacionamento entre a perfeição Cristã e o pecado, observando que os Cristãos nunca se tornam incapazes de pecar, mas que o pecado já não tem que dominar o coração do crente.
Em 1761, Wesley escreveu a obra “Sobre a Perfeição,” em que afirmou que a perfeição Cristã é
· ter a mente de Cristo
· a renovação da imagem de Deus em nós
· o amor perfeito
· santidade interior e exterior
A principal definição que Wesley dá da santidade é o amor. É o amor que “exclui” o pecado da vida do Cristão. Na opinião de Mildred Bangs Wynkoop, enganamo-nos em relação à santidade se vemos nela apenas a ausência do pecado. A santidade não é uma ausência, mas sim uma presença, a presença do amor.
O que é a santidade?
Como é que ocorre a inteira santificação?
Ocorrência — Como é que ela ocorre?
Quando Wesley usa o termo “santificação” ele está a referir-se à vida Cristã na sua totalidade e à restauração “terapêutica” ou espiritual que se dá ao longo da jornada espiritual. É também nesse sentido que ele usa o termo “salvação”. Mas “santificação” tem ainda outros significados.
Wesley faz referência ao que se chama de santificação inicial para deixar claro que a retidão oferecida por Cristo começa a ter efeito no novo crente. Aqui Deus inicia o processo de fazer-nos retos e santos. Aquilo que podemos designar de crescimento na graça é a “santificação progressiva” ou “gradual” que ocorre entre o novo nascimento e a “inteira santificação,” bem como entre a “inteira santificação” e a “santificação final”—também conhecida como glorificação. Wesley pôs grande ênfase sobre a necessidade da santificação progressiva.
Para Wesley, inteira santificação refere-se a uma experiência mais profunda da graça de Deus. Ele oferece explicação disso na sua obra Uma Explicação Clara da Perfeição Cristã. Nela ele explica que essa experiência não acontece tão cedo quanto a justificação, nem tão tarde quanto a morte. Ele sublinha que a obra gradual tem que preceder bem como seguir a experiência. Mais explica que ela é susceptível de perda. Ele também lida com a questão da “instantaneidade” através da sua clássica declaração de que o indivíduo pode estar a morrer por algum tempo, mas que inevitavelmente o momento da morte acaba por ocorrer.
O que mais divide os entendidos Wesleyanos é a questão da maneira como Wesley entende a manifestação da inteira santificação. Alguns acham que a ênfase do Movimento da Santidade sobre a “instantaneidade” vai muito além da intenção de Wesley e “rigidifica” a sua teologia que é muito mais fluida e dinâmica. Outros dizem que uma definitiva, segunda experiência de crise alinha-se perfeitamente com o paradigma do próprio Wesley e não deve ser vista como uma renovação vinda do século 19. Na interpretação da Dra. Leclerc, era o desejo de Wesley que tanto a experiência instantânea como o crescimento gradual fossem alvo de igual atenção.
Declarações Sumárias
1. Wesley mantém que o amor por Deus e pelo próximo é descritivo e normativo da vida Cristã. No seu entender, o amor não é algo apenas presente, mas sim algo que “reina” no coração do crente maduro.
2. Wesley chegou a identificar a inteira santificação com um certo nível de maturidade Cristã e foi cauteloso em reivindicá-la ainda muito cedo na peregrinação Cristã, mas também exortou os fiéis a procurar a experiência “agora.”
3. A santidade, ou o amor perfeito, é uma obra da graça tanto progressiva como instantânea.
4. A santidade, ou o amor perfeito, é sinérgica; é vivida num relacionamento dinâmico com Deus, o qual concede a graça que necessitamos para ser santos.
5. Wesley chegou a suspeitar de termos como a “destruição” do pecado, que implicavam a impossibilidade de regresso do pecado; mas Wesley permaneceu altamente otimista de que o amor derramado no nosso coração através da fé pode “excluir” o pecado. Ele aborreceu-se com a disputa sobre a possibilidade da perfeição Cristã ser impecável. A tônica dele estava no amor, não na impecabilidade como o alvo da maturidade Cristã.
6. Uma das maiores, senão a maior das contenções de Wesley era que a vida Cristã não tinha que continuar a ser uma vida de luta contínua. Para ele, negar este tipo de transformação vitoriosa era negar a suficiência da graça capacitadora de Deus — era fazer do poder do pecado maior do que o poder da graça.
Meios da Graça e Sacramentos
“Para mim, os ‘meios da graça’ são os sinais externos, palavras, ou ações, ordenadas por Deus, para servirem de canais através dos quais Ele pode estender às pessoas graça preveniente, justificadora e santificadora… Todos quantos desejam a graça de Deus devem esperar por ela através dos meios que ele tem provido.”
(De Works, Edição de Jackson, vol.5:187)
Meios da Graça Segundo Wesley
No centro do conceito que Wesley tinha da formação espiritual, de como cresce o Cristão, está o seu conceito de “meios da graça.” Ele escreve: “Para mim, os ‘meios da graça’ são os sinais externos, palavras, ou ações, ordenadas por Deus, para servirem de canais através dos quais Ele pode estender às pessoas graça preveniente, justificadora e santificadora.” Para além disso, “Todos quantos desejam a graça de Deus devem esperar por ela através dos meios que ele tem provido.”
Os meios da graça são os meios pelos quais nós nos abrimos para experimentar o amor e a graça de Deus nas nossas vidas. Muitas vezes nós nos envolvemos em atividades como ler a Bíblia ou orar, porque pensamos que em fazendo isso nós “provamos” a Deus a nossa vontade de obedecer, ou pior ainda, que por meio dessas obras nós ganhamos o favor de Deus.
Mas o conceito de Wesley leva-nos para além da mera obediência ou qualquer tipo de retidão baseada em obras, ao enfatizar que a maneira como nós agimos como Cristãos na verdade acaba por ser para o benefício do nosso próprio crescimento e transformação à semelhança de Cristo. Para ser perfeitamente claro, Wesley firmemente defendeu que “o uso dos meios jamais expiará um pecado sequer; isso só o sangue de Cristo pode fazer.” Mas como é que nós recebemos os benefícios da expiação de Cristo? Wesley é claro: recebendo os meios.
Wesley colocado certas atividades em três categorias.
Em primeiro lugar estão os meios gerais da graça.
Nesta lista ele inclui observar os mandamentos, negarnos a nós mesmos, tomar a nossa cruz, e cultivar a presença de Deus. Ao negarmo-nos a nós mesmos, Wesley acreditava, podemos aproximar-nos mais de Deus quando voluntariamente pomos de lado as distrações. Wesley também acreditava que quando “tomamos a nossa cruz,” nós podemos aproximar-nos de Deus e dos Seus propósitos, engajando-nos naquilo que vai contra as nossas inclinações naturais. Cultivar a presença de Deus é a prática de estar ciente de Deus ao longo do dia. Cada um desses meios gerais nos deixa abertos à graça de Deus.
Wesley usa o termo meios instituídos ou particulares da graça, para se referir àqueles meios em que o próprio Cristo admoesta os Seus discípulos a participar, tais como a oração, a leitura da Bíblia, a Ceia do Senhor, o jejum, e a “Conferência Cristã,” termo que Wesley usou para se referir à conversa Cristã.
Os meios prudentes da graça evoluíram com o tempo, tendo sido reconhecidos como ações “sábias” na vida de crescimento na graça. Estas incluem reuniões de classe (pequenos grupos), reuniões de oração, cultos de testemunho e de vigília, celebrações de amor (um tipo de culto de testemunho), visitação aos doentes, fazer todo o bem possível, e leitura de devocionais clássicos.
Batismo
Batismo Infantil
A Igreja do Nazareno sempre afirmou o batismo infantil, embora a maioria dos membros não o pratique. Os pais decidem se batizam ou não o seu menino. O batismo infantil provém das nossas raízes Metodistas, e da teologia de John Wesley. Quando batizamos crianças, estamos reconhecendo ao mesmo tempo várias características importantes de Deus.
. Em primeiro lugar, proclamamos juntos a nossa crença na realidade da graça preveniente de Deus. Enquanto que a dedicação centra-se na responsabilidade dos pais em relação aos filhos, o batismo é virado para a responsabilidade de Deus para com o menino, constituindo assim uma das poucas ocasiões em que a igreja junta celebra a doutrina da graça preveniente.
. A graça preveniente é aquela graça que faz da criança parte do Corpo de Cristo. É a graça que a mantém segura nos braços carinhosos de Deus contra qualquer eventualidade; e é a graça que mais tarde a trará ao ponto de uma decisão pessoal por Jesus Cristo, se ela assim responder. É graça concedida pelo Espírito Santo, que cremos irá trabalhar misteriosamente na sua vida.
. Ao apresentarem uma criança para o batismo, os pais estão a fazer um compromisso perante o povo de Deus de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para guiar e alimentar o seu filho espiritualmente. Mas mais importante ainda, reconhecemos que o próprio Deus se compromete com a criança profunda e duradouramente — para além do que podemos pedir ou imaginar.
Cremos que o batismo, como símbolo da nova aliança, é o sinal das promessas de Deus mesmo para a criança, tal como a circuncisão constituía sinal da aliança de Deus no Velho Testamento.
Cremos que a criança pertence a Deus. O batismo é um sacramento, e como denominação nós acreditamos na verdadeira santidade desse evento tal como reconhecemos a santidade da vida.
Batismo do Crente
A Igreja do Nazareno também afirma a validade do batismo adulto ou “do crente.” Este seria muito mais raro no contexto de Wesley, visto que quase todo o cidadão Britânico era batizado ainda criança na Igreja Anglicana.
Cabe assim a autoridades como Rob Staples desenvolver um conceito Wesleyano de batismo adulto. Staples enuncia cinco significados diferentes que o símbolo do batismo sugere.
1. Levar o marco de Cristo: o Crente deve levar o “marco” da pureza de Cristo.
2. Morrer com Cristo: o símbolo, especialmente quando o modo de imersão é usado, representa a Sepultura — debaixo da água — que significa morte para o pecado.
3. Viver a vida de Cristo: Emergir da água simboliza a nossa participação na ressurreição e também que o enterramento dos nossos pecados nos liberta para viver uma nova vida como nova criação em Cristo.
4. Receber o Espírito de Cristo: Tal como o Espírito esteve presente no batismo do próprio Cristo, afirmamos que o Espírito está presente no nosso batismo. Como diz Paulo em Romanos, todos quantos estão em Cristo receberam o Espírito de Cristo. Assim, o batismo, como símbolo da nossa vida em Cristo, é também simbólico da presença do Espírito.
5. Tornar-se parte do corpo de Cristo: desde as primeiras liturgias Cristãs, que o batismo era visto como ponto de transição do noviço à plena membrasia na Igreja.
Santa Ceia
Wesley tinha uma apreciação muito elevada da Ceia do Senhor. Será mais fácil considerar a sua posição se antes esboçarmos as interpretações clássicas da Santa Ceia.
Transubstanciação: Esta teoria é associada a maior parte das vezes com o Catolicismo Romano. É a crença de que o pão e vinho se transformam no verdadeiro corpo e sangue de Cristo. Quando o sacerdote faz a oração da consagração, dá-se uma mudança na essência dos elementos, embora continuem parecendo como pão e vinho.
Consubstanciação: Esta teoria associa-se mais frequentemente com Martinho Lutero. É semelhante à transubstanciação no sentido de que o sangue e corpo de Cristo estão literalmente presentes no pão e vinho. A diferença é que a essência dos elementos também continua a ser pão e vinho ao mesmo tempo que corpo e sangue.
Presença Espiritual: Esta teoria é mais comumente associada com João Calvino. Calvino não acreditou que havia uma mudança nos elementos, mas que Cristo verdadeiramente entra no pão e vinho num sentido espiritual.
Memorial: Esta teoria é associada geralmente com Ulrico Zuínglio, um Reformador contemporâneo de Calvino e Lutero. Esta teoria declara que a Ceia do Senhor deve ser tomada como um memorial da morte de Cristo, como memória do Seu sacrifício por nós. Não há aqui a noção de que Cristo participa nos elementos em si.
A maior parte dos entendidos concorda que a posição de Wesley é intermédia, entre o conceito de presença espiritual e a posição memorialista — com alguns intérpretes da posição de Wesley a colocá-lo bem próximo de Calvino.
A diferença entre Wesley e Calvino é que o que se experiência não é apenas a presença de Cristo, como manteve Calvino, mas a presença da inteira Trindade no pleno ato da Santa Ceia. A posição de Wesley centra-se na Santa Ceia como um meio da graça. Eis aqui as suas próprias palavras:
“A ceia do Senhor foi ordenada por Deus para servir como meio de comunicar graça preveniente, ou justificadora, ou santificadora, conforme a necessidade da pessoa. Aqueles para quem ela foi ordenada são todos quantos sabem e sentem que querem a graça de Deus, seja para livrá-los do pecado, para mostrar que os seus pecados já foram perdoados, para renovar as suas almas na imagem de Deus, ou para entrar na presença de Deus em comunhão com ele. Nenhuma preparação é necessária para além de um desejo de receber qualquer graça que Deus achar por bem conceder.
Nenhuma aptidão é exigida para além de um sentido da nossa total pecaminosidade e invalidez longe de Cristo. Assim, se desejares a graça que Deus deseja conceder-te, aproxima-te e recebe conforto e força.”
Rob Staples sublinha que a Santa Ceia é particularmente um meio de graça santificadora, lembrando-nos assim que no pensamento de Wesley existe uma ligação integral entre os meios da graça e o crescimento na nossa santificação. É impossível crescer na nossa caminhada espiritual sem assistir aos meios da graça de uma maneira geral. Mas para Wesley, a Santa Ceia era o meio mais importante, e negligenciá-la era inconcebível.
O Dever de Comunhão Constante
De novo, Rob Staples ajuda-nos a interpretar o significado da Santa Ceia quando examina o significado do símbolo.
A Santa Ceia é um símbolo de:
. Gratidão a Deus
. Comemoração de Cristo
. Auto-sacrifício ou consagração
. Comunhão e unidade dos fiéis
. Promessa da vinda do Reino
______
http://nazarenepastor.org/ClergyEducation/Portals/0/Wesley%20Theology/TJWFacGu_Po.pdf
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Robert L. Woodruff, Ph.D., Coordenador Educacional da Missão Mundial
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Michael W. Stipp, Desenvolvimento Clérigo
Prefácio de Série escrito por Al Truesdale
Composição sobre o Diário escrita por Rick Ryding
Os principais contribuintes para cada módulo estão indicados no Guia do Professor.
Tradução de João M. Monteiro
Gravura: John Wesley
__________________ Fonte: Ideário Arminiano

Justo Gonzalez – entrevista

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Entrevista com o Historiador dr. Justo Gonzalez

 

Justo Gonzalez ensinou teologia histórica em diversas instituições, entre elas o Seminário Evangélico em Porto Rico, a Escola de Teologia Candler na Universidade Emory, e o Seminário Teológico Columbia. Durante os últimos 30 anos, ele desenvolveu programas de formação teológica para hispanos.

 

Seus diversos livros sobre a história da igreja foram traduzidos para diversas línguas e são amplamente usados em todo o mundo. Entre eles, temos no Brasil a série Uma História Ilustrada do Cristianismo (10 volumes) e Cristianismo na América Latina: uma história, que será lançado no segundo semestre de 2009, também por Edições Vida Nova.

 

Teologia Brasileira: O que o motivou a estudar “história”, especificamente, “história do cristianismo”?

 

Justo Gonzalez: Quando eu era jovem, a matéria que eu mais odiava na escola era história. Eram muitos nomes, muitas datas, muita memória e pouca vida. Mas depois, quando eu fiquei um pouquinho mais velho e comecei a estudar Teologia, vi livros de bons teólogos e os melhores sempre falavam de seus antecessores, de gente que eu não conhecia. Havia um livro muito famoso, A teologia dogmática de Karl Barth, que era um livro muito grande. Quando comecei a ler esse livro, cada página tinha 10, 12 nomes de pessoas que eu não sabia quem eram. Pessoas do século segundo, do século quinze, do século quarto. Naquela época, eu também estudava Filosofia, e logo notei que era impossível estudar Filosofia sem estudar a História da Filosofia. Os cursos de Introdução à Filosofia sempre começam com a Filosofia Grega. Da mesma forma, não é possível estudar Teologia sem conhecer a História da Teologia. Foi isso que me levou a estudar a história do cristianismo. Hoje me interesso mais pela história porque percebo que a História fala da vida dos povos, da vida de homens e mulheres, de quando essas pessoas viviam, as obras que esculpiam. Isso tudo era tão importante para eles como nossa vida é para nós hoje. Por isso não tem nenhuma razão para a História ser algo chato, muito pelo contrário. Você lê um romance histórico, um romance sobre o rei Carlos V e fica muito impressionado porque ali está a história da vida dele.

 

Teologia Brasileira: Existe uma história do cristianismo separada da História?

 

Justo Gonzalez: Existe, mas não deveria existir. Lamentavelmente, a História do cristianismo é escrita com exclusão da História geral da humanidade. No entanto, acho que isso não é bom dos pontos de vista teológico, metodológico e também pedagógico. Não é bom teologicamente porque nosso Senhor é o Senhor da História, toda a História está em suas mãos. É evidente que na história há também pecado, mas Jesus é o Senhor da História e nós aguardamos o fim da História. Logo, não é possível falar da História da humanidade sem falar da História de um Deus que age dentro dessa história. Portanto, não deveria existir duas Histórias. Isso que fazemos nas escolas de separar a História secular não deveria existir. E ao mesmo tempo não é correto, pois a História da Igreja, a vida da igreja tem lugar sempre dentro do contexto da vida geral da humanidade. Você não pode falar da igreja no Brasil, sem falar do Brasil. Você não pode falar das mudanças que têm ocorrido na igreja brasileira nos últimos cinquenta anos, sem falar das mudanças que têm ocorrido na história do Brasil como país inteiro nos mesmos cinquenta anos.

 

Teologia Brasileira: Em termos de pensadores da história cristã, quais as influências mais marcantes em sua história pessoal?

 

Justo Gonzalez:  Ah! São muitas, muitas, muitas. Originalmente, quando eu era mais jovem, as influências mais marcantes foram principalmente Martinho Lutero e Agostinho. Depois, Irineu passou a ser mais importante para mim. Ele foi teólogo e bispo na França do final do século segundo. Outra influência foi Karl Barth. Karl Barth foi um teólogo suíço que protestou veementemente contra o nazismo e que criou uma nova maneira de se fazer Teologia no princípio do século XX, por sinal algo que gerou muita discussão. Além desses que citei, tem também meu pai, minha mãe, minha esposa; todos são teólogos que têm me influenciado muito.

 

Teologia Brasileira: Na sua opinião, o testemunho da igreja cristã tem apresentado uma postura coerente em relação à unidade da igreja?

 

Justo Gonzalez: Coerente sim, mas boa não. É coerente, mas ruim. O testemunho da igreja tem perdido muito por dois motivos, que são ambos negativos. O primeiro é uma divisão constante, segundo a qual cada igreja pensa que fica só no mundo de Deus, que só ela é igreja. Isto é verdade em igrejas grandes e também em igreja muito pequenas; o problema é o mesmo. Outro problema, outro extremo é quando a unidade da igreja se torna algo administrativo, muitas vezes ditatorial, não voluntário. Os dois são problemas, a unidade da igreja não é apenas unidade: um chefe, um papa, um bispo, um grande pastor. Essa postura fez muito mal para o testemunho cristão.

 

Teologia Brasileira: Para o sr., quais seriam hoje as formas veladas de intolerância religiosa?

 

Justo Gonzalez: Muitas não são tão veladas. Naturalmente há intolerância religiosa em todas as religiões e temos de ter cuidado quando falamos em tolerância religiosa entre os cristãos. Há também muita intolerância religiosa entre os muçulmanos, entre os hindus. Agora mesmo um grupo de cristãos tem saído de seus territórios porque os vizinhos estavam matando. O governo diz: “Nós podemos protegê-los, vocês devem regressar às suas casas mas devem ficar em dois para não ter problema”. Isso acontece na Índia agora no século XXI, e principalmente nos países muçulmanos. Agora não acontece com os cristãos. Há muitas e muitas formas de intolerância religiosa. Eu acho que, em nosso contexto particular na America Latina, possivelmente a forma mais velada é a intolerância de alguns chefes, de alguns pastores de igrejas muito grandes que querem que todo mundo pense exatamente o que eles pensam ponto por ponto, de A a Z. Fazem tudo isso para manter o povo, levando-o a fazer o que eles dizem. Isso é intolerância religiosa também. Intolerância religiosa não é um problema só da igreja romana, é um problema de todos os cristãos que acreditam ser possuidores da verdade. O cristão não possui a verdade, a verdade possui o cristão.

 

Teologia Brasileira: Como o sr. avalia o crescimento do cristianismo na América Latina?

 

Justo Gonzalez: Há coisas muito boas, e isso eu não preciso falar porque todo mundo já conhece. Mas há também alguns perigos e problemas: a espuma cresce muito, mas não tem muita sustância; e boa parte do crescimento do protestantismo na América Latina é como uma espuma. Não é a primeira vez que isso é um problema para a igreja. Isso também aconteceu no século quarto e teve consequências nefastas mais tarde. As pessoas não sabem no que creem. Por esse motivo, nós precisamos agora tomar o tempo necessário para trabalhar o discipulado, o ensino, as doutrinas, a teologia, a vida cristã – sobre a prática da vida cristã, sobre a experiência entre a vida cristã e a vida secular, e sobre a diferença entre o sucesso cristão e o sucesso como o mundo entende. Precisamos falar mais disso, de modo que as pessoas que venham para as nossas igrejas verdadeiramente tenham sustância nas suas crenças. Essa [a falta de sustância] é uma das razões por que as pessoas creem em alguém que vem a uma das nossas igrejas com uma doutrina nova ou um texto bíblico achando que isso explica tudo. Esse é um problema do crescimento espumoso.

 

Teologia Brasileira: É dito que a América Latina é um ‘celeiro de missões’. Como o sr. vê essa afirmação?

 

Justo Gonzalez: Possivelmente a coisa mais importante que tem acontecido na igreja cristã em todo o mundo, nos últimos cinquenta, setenta anos, é que os centros do cristianismo têm mudado. Isso não é a primeira vez. No Novo testamento, temos primeiro Jerusalém, depois Antioquia, depois no Mediterrâneo, depois na Europa Ocidental; depois no século XVI com os espanhóis e os portugueses, e no século XIX o centro veio a ser o Atlântico Norte. O eixo do cristianismo estava na linha que vai de Londres até Nova Iorque, e era de lá que saíam os missionários. O que tem acontecido nos últimos anos é que o centro tem mudado. Agora existem mais cristãos no Sul do que no Norte. Isso não se dá somente na América Latina, mas também na África e na Ásia. A Igreja Presbiteriana da Coréia é maior do que sua igreja mãe nos Estados Unidos. Hoje a ilha de Porto Rico envia mais missionários para Nova Iorque do que a igreja de Nova Iorque manda para o restante do mundo. A mudança é enorme. A América Latina, que até a segunda metade do século passado era receptora das missões, tem sido enviadora de missionários para as missões. Isso é muito interessante porque agora as pessoas que pregam o evangelho em Uganda podem ser ingleses, mas podem ser também brasileiros, argentinos, coreanos. As pessoas que pregam aqui no Brasil são os chineses, os coreanos… E as pessoas que pregam na Argentina são uruguaias. Isso é a troca. Troca que é muito maior do que nós vemos no mapa mundial da igreja cristã.

 

Teologia Brasileira: Em sua obra Cristianismo para América Latina, o sr. argumenta que há uma relação mutuamente formadora entre o cristianismo e o contexto latino-americano. Poderia nos falar um pouco sobre essa sua tese?

 

Justo Gonzalez: Primeiramente, eu não leio o que escrevo [risos]. Não há dúvida de que o cristianismo tem feito um grande impacto na América Latina. O catolicismo romano implantado pelos espanhóis e pelos portugueses está na base da formação religiosa e cultural do continente. Há também as influências indígenas, as influências africanas, mas o ingrediente principal é o que vem da Ibéria, o cristianismo ibérico. Mas o cristianismo que vem à América Latina também se transformou na América Latina, de muitas maneiras. Não somente o cristianismo espanhol e português exerceu influência sobre os indígenas; a religião dos indígenas também influenciou o cristianismo que se desenvolveu. Eu falava hoje sobre a virgem de Guadalupe. Ela é, originalmente, uma deusa asteca. Há também os africanos, que são elementos africanos latino-americanos e não africanos da África – como os escravos brasileiros que desenvolveram sua religião da África no Brasil. Isso não se dá somente na igreja católica, mas também na igreja protestante. Eu tenho amigos antropólogos e sociólogos que fazem comparações entre a maneira que a religião e o culto funcionam dentro das comunidades originalmente escravas e as maneiras que funcionam nas novas igrejas pentecostais. Mesmo que não vejamos, em todo o mundo branco, há uma influência africana que fica ainda lá. Agora, especialmente porque a América Latina é um centro de missões, esse cristianismo da América Latina também vai para o resto do mundo. A América Latina aceita o resto do mundo. Hoje, nos Estados Unidos, mais da metade dos católicos romanos são latinos; nas igrejas pentecostais são entre 20 a 30 por cento; nas igrejas mais antigas, as chamadas históricas, o crescimento se dá entre os latinos e os coreanos. O cristianismo da América Latina tem ido para todo o mundo.

 

Teologia Brasileira: Como o sr. vê a produção teológica na América Latina?

 

Justo Gonzalez: Bem há seus pontos claros e seus problemas. Primeiramente, é preciso pensar na troca que tem acontecido nos últimos cinquenta anos; e não se deve pensar que a situação presente é a situação de sempre. Eu vejo coisas muito positivas. Deixe-me contar uma história. Quando eu estava no seminário, o primeiro livro de História da Igreja que eu estudava era um livro grande de mil e quinhentas páginas, com letra muito pequena, em inglês, porque não existia em espanhol. Era um livro que mostrava que depois da Reforma o que interessava era a Europa do Norte, os alemães, os ingleses e, depois, os americanos. Eu disse ao meu professor de História que ele deveria fazer um livro de História com o nosso ponto de vista. E ele disse: “Meu filho, isso jamais acontecerá, porque o mercado latino-americano é muito pequeno, e isso não é possível”. Hoje esse livro que vocês publicam é o principal em todos os seminários dos Estados Unidos. É um livro que não era possível há cinquenta anos. Essa é uma mudança enorme. Se nós virmos o que existe e pensarmos ser um retrato do presente, podemos falar do que falta, mas, se olharmos o que vem acontecendo nos últimos trinta, quarenta anos, temos muitas razões para ter esperança. Para mim, o que é mais importante é que, teologicamente, a igreja latino-americana começa a ser ela mesma. E sua teologia tem o mesmo respeito da teologia que vem do estrangeiro. A teologia do estrangeiro é boa, mas não é nossa. Ela é boa no estrangeiro. Mas é preciso que o povo latino-americano reflita sobre a sua fé e produza uma teologia latino-americana. Isso já acontece, mas, se você vir os hinos musicados, por exemplo, muitos são traduzidos do alemão, e poucos são produções espanholas ou portuguesas. Acho que temos muito ainda para percorrer, mas já temos percorrido o caminho. Por isso, não devemos ser pessimistas, nem tampouco podemos ficar contentes, porque ainda há uma grande parte do nosso povo que vê algo, que vem diretamente dos Estados Unidos ou de um programa de televisão norte-americano, como algo vindo diretamente do céu.

 

Teologia Brasileira: De que forma o cristianismo contribuiu e pode vir a contribuir para a história da América Latina?

 

Justo Gonzalez: O cristianismo contribuiu de várias formas. Como falamos antes, o cristianismo é um dos elementos principais da cultura latino-americana. E não somente no aspecto religioso, mas também no idioma que os cristãos trouxeram. O cristianismo também contribuiu com a liberdade religiosa – especialmente o protestantismo – porque o movimento protestante foi um movimento em prol da liberdade. Muitos dos latino-americanos se não eram protestantes eram pelo menos simpatizantes dos protestantes. E depois, quando veio o liberalismo, muitos dos governantes liberais utilizaram a igreja para promover a educação e a liberdade de pensamento. Isso aconteceu em muitos lugares. Mas há o lado negativo: existe uma forma de cristianismo que é um dualismo platonista, que defende que só o espiritual é que é bom. Esse tipo de cristianismo tira as pessoas da realidade social e não permite que elas façam a contribuição que poderiam fazer. Eu acho que o cristianismo pode contribuir muito, o grande problema é que as igrejas pensam que sua contribuição é governar, é mandar, é ter poder. Hoje há deputados, prefeitos, alguns países têm presidentes evangélicos. Se a igreja pensa em mandar ela acaba fazendo aquilo que o catolicismo romano fez. Mas, se a igreja entende que ela tem implicações para a vida total do povo, ela apoia as iniciativas do país que sejam boas.

 

Entrevista concedida para o site Teologia Brasileira, durante o 1º Congresso Hagnos e Servo de Cristo 2009

Fonte:  Arminianismo

Como Poderei Ser Feliz no Céu Com Um Ente Querido no Inferno?

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Randal Rauser  

 

Esta pergunta, que seguramente é uma das mais dolorosas que um cristão pode enfrentar, surge de dois ensinos do Novo Testamento: algumas pessoas enfrentarão a punição eterna no inferno (veja Mt 25.46; 2Pe 1.17) e os salvos um dia passarão para um estado onde a tristeza e as lágrimas cessarão (veja Ap 7.17; 21.4).

 Mas como podem nossas lágrimas ser transformadas em júbilo enquanto incontáveis outros, incluindo talvez muitos de nossos próprios entes queridos, estarão enfrentando o horror excruciante da condenação eterna?

 Uma possibilidade, sugerida pelo teólogo Millard Erickson e pelo filósofo William Lane Craig, é que Deus pode proteger os habitantes do céu do conhecimento do destino dos condenados. Por exemplo, Deus pode apagar as memórias de um filho desobediente da mente de sua mãe, para que ela possa desfrutar de uma plena felicidade inconsciente de que ela até mesmo teve um filho que agora foi condenado. No mínimo, este cenário muito pouco se encaixa na promessa de Paulo de que na eternidade “veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido” (1Co 13.12). E quanto a um homem que foi salvo enquanto todos os seus amigos e família rejeitaram a Cristo? Deus de fato limpará toda a sua memória? Outra dificuldade com esta proposta é que passagens como Is 66.24 (“Eles… verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim”) parece assumir que os redimidos na verdade estarão conscientes dos perdidos.

 Uma segunda possibilidade audaciosamente sugere que esta consciência será causa de alegria e louvor antes que de dor. Por mais que pareça escandalosa, esta posição tem sido defendida por muitos teólogos, incluindo Tomás de Aquino, Jonathan Edwards e, mais recentemente, J. I. Packer. Como Edwards cooca, os redimidos “não ficarão tristes por causa dos condenados; isto não lhes será causa de inquietação e descontentamento; mas, pelo contrário, quando tiverem esta visão, ela lhes excitará louvores jubilosos.”

 Pode parecer repugnante, mas a ideia tem certo apoio bíblico impressionante. Os salmos imprecatórios (como Sl 139.21, 22) parecem antecipar com grande prazer o fim dos perversos. E alguém poderia razoavelmente inferir que os santos que rogam por vingança de seu sangue (veja Ap 6.10) obterão satisfação logo que este julgamento sobre “os habitantes da terra” estiver em andamento.

 Finalmente, em Rm 9.23 Paulo parece sugerir que Deus poderia usar os perdidos como lições objetivas para os salvos a fim de ilustrar tanto sua justiça (aos perdidos) quanto sua misericórdia (aos salvos). Tais precedentes bíblicos indefinidos fazem pouco para suavizar a imagem de uma multidão de redimidos deleitando-se na agonia dos perdidos. Como uma mãe poderia possivelmente deleitar-se na condenação de sua filha? Como Paulo, que expressou sua disposição para ser condenado para que os judeus perdidos pudessem ser salvos (veja Rm 9.3), poderia um dia tirar satisfação da condenação deles? Tal cena parece tanto antiintuitiva quanto bastante ofensiva.

Defensores desta segunda opinião podem argumentar que nossa perspectiva no futuro será radicalmente transformada, nos deixando tão completamente focado na santidade de Deus que deixaremos para trás as relações finitas (conforme sugerido pelo ensino de Jesus em Mt 22.29, 30 que não haverá casamento no céu). Após essa transformação radical, poderia algo que agora parece detestável (ficar alegre com o sofrimento dos perdidos) tornar-se prazeroso? Talvez. Entretanto, há um limite estreito entre ser incapaz de ver como algo poderia ser verdadeiro e ser capaz de ver que algo não poderia realmente ser verdadeiro. Muitos dos cristãos que você conhece aceitariam a ideia que uma perspectiva transformada poderia possivelmente levar ao seu deleite na condenação dos entes queridos perdidos?

 Restam poucas outras possibilidades, sendo as mais radicais a rejeição da doutrina do tormento eterno consciente do qual surge todo o problema. Alguém poderia fazer isto adotando o aniquilacionismo (a visão que os perdidos serão finalmente destruídos) ou, mais radicalmente, o universalismo (a visão que os perdidos serão finalmente salvos). O problema é que estas duas opções exigem que alguém se coloque fora das fronteiras da ortodoxia histórica.

 Precisamos parar aqui por razões de espaço, mas, obviamente, mais poderia ser dito tanto teologicamente quanto pastoralmente. Se alguém quiser se aprofundar, pode querer ler The Nature of Hell: A Report by the Evangelical Alliance Commission on Unity and Truth Among Evangelicals (escrito por um grupo da Aliança Evangélica no Reino Unido).Talvez também considere Gregory Beale, e outros, Hell Under Fire (Zondervan, 2004) ou William Crockett, ed., Four Views on Hell (Zondervan, 1997). Parece provável que a resolução final deste problema, como tantos outros na teologia cristã, permanecerá frustrantemente além de nossa compreensão. Mas essa admissão pode também fazer a pergunta se voltar para nós: Confiamos em Deus?

 

Fonte: http://www.christianity.ca/NETCOMMUNITY/Page.aspx?pid=5327

 Tradução: Paulo Cesar Antunes

Fonte: Arminianismo

A Liberdade de Deus.

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Emil Brunner 

Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho. E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque, nosso pai; porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú.

 

O que é peculiar e único em relação a Israel é o fato que uma história divina está encaixada em sua história natural como um povo. Há, dessa forma, sempre um duplo Israel: um Israel no sentido de natureza e história secular e um Israel no sentido de história divina. Quanto estes dois diferem torna-se especialmente claro ao apóstolo na história de Abraão e Jacó, os dois patriarcas.

 

Em ambos há uma interseção da história divina e da natural. Ambos são assim testemunhas da liberdade de Deus, que intervém na história secular quando quiser, separando para si mesmo um povo pela eleição, contrariando todas as relações consangüíneas naturais. Não apenas a descendência natural de acordo com o sangue, mas também as qualidades morais mostram que não têm qualquer valor aqui. A história divina tem sua base unicamente no decreto de Deus. Isto não significa que a descendência física, a unidade natural do povo e a história de Israel não são importantes; meramente se pretende mostrar que Deus pode fazer com Israel o que quiser, que Ele não está preso a Israel, e o judeu não pode obter nenhum direito de Israel. Mas alguém pode deduzir do exemplo de Jacó e Esaú um duplo decreto de Deus que desde a eternidade decretou um para a condenação e outro para a vida eterna. Não se está falando disso aqui, mas da liberdade de Deus de contrariar os laços naturais, de acordo com sua escolha, através de sua história da redenção. Que a história da redenção passa por Jacó e não Esaú é um ato livre de Deus; não há nenhuma palavra a respeito da bem-aventurança ou desgraça de Jacó e Esaú. Mas quando Paulo cita as palavras do profeta Malaquias que Deus odiou Esaú, então ele certamente não está se esquecendo que “Esaú” lá significa o povo de Edom, que por causa de sua “perversidade” foi surpreendido pelo justo julgamento de Deus. Que é também o caso no que segue.

 

Fonte: The Letter to the Romans, 84, 85

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Fonte: Arminianismo.com

 

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