Atos 2:23 – PC Antunes

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A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos.

 Este poderia ser um verso totalmente irrelevante para as controvérsias entre calvinistas e arminianos, pois ele não resolve a problemática da soberania divina e responsabilidade humana; ele apenas expõe os dois lados dessa grande verdade, de que a soberania divina é compatível com a responsabilidade humana, sem preocupação alguma de harmonizá-los. Mas como os calvinistas têm extraído algumas conclusões deste verso a fim de fundamentar melhor sua posição, é imperativo que os arminianos avaliem, não apenas o verso, como também as premissas nas quais os calvinistas se apóiam para concluir que o verso se ajusta apenas com o seu sistema, e dêem uma resposta clara e consistente.

 A primeira conclusão é que eventos contingentes não podem ser pré-conhecidos por Deus. A razão apresentada é unicamente que, por não podermos prever eventos contingentes, Deus também não deve poder. Mas Deus tem infinitamente mais recursos que os humanos para antecipar eventos contingentes, e essa conclusão leva em consideração apenas o nosso lado (nosso raciocínio lógico e experiência pessoal), e não o de Deus. O verso em questão, então, não serve para estabelecer a idéia de que Deus primeiro precisa decretar algo antes que possa “pré conhecê-lo”. Os arminianos entendem que um evento contingente (que pode ou não acontecer) pode ser pré-conhecido por Deus, e é certo que acontecerá, se os meios necessários para a sua realização forem satisfeitos.

 Alguém pode sugerir que nem todos os calvinistas tiram esta conclusão, o que eu devo admitir. Berkhof, por exemplo, reconhece que “é perfeitamente evidente que a Escritura ensina a presciência divina de eventos contingentes,” e que “é-nos levantado um problema aqui, que não podemos resolver plenamente.” [1] Portanto, o problema não é exclusivo dos arminianos, mas dos cristãos em geral, que acreditam na presciência divina de todos os eventos e na liberdade humana. Logicamente, Berkhof não tem o mesmo entendimento dos arminianos e descarta a possibilidade de que algo possa ser pré-conhecido por Deus sem que primeiro seja determinado por Ele. Ele diz:

 Ações que de maneira nenhuma são determinadas por Deus, direta ou indiretamente, mas que são totalmente dependentes da vontade arbitrária do homem, dificilmente podem ser objeto do pré-conhecimento divino. [2]

                    Berkhof foi cauteloso: ele não diz que tais ações não podem ser objeto do pré conhecimento divino, mas que dificilmente podem. Mas o que ele quer dizer por ‘vontade arbitrária do homem’? Em outro lugar, ele esclarece:

 Ao que parece, é impossível conhecer antecipadamente eventos que dependem por completo da decisão causal de uma vontade alheia a princípios que podem em qualquer ocasião, independentemente do estado de espírito, das condições existentes, e dos motivos que se apresentam à mente, seguir diferentes direções. Eventos dessa natureza só podem ser conhecidos previamente como puras possibilidades. [3]

     Essa é uma caracterização um tanto distorcida da posição arminiana. É óbvio que as nossas decisões dependem de nosso estado de espírito, das condições existentes, e dos motivos que se apresentam à mente, enfim, as condições causais devem existir e elas são necessárias para que tomemos qualquer decisão. O arminiano não acredita que a nossa vontade se move independentemente de condições causais; ele apenas nega que essas condições causais são suficientes para determinar nossas decisões.

               A segunda conclusão extraída pelos calvinistas de At 2.23 é que o decreto de Deus vem antes de Sua presciência, em razão do verso apresentar, primeiro, o ‘conselho, ’ e só então a ‘presciência de Deus. ’ Pink nos diz:

 A presciência divina alicerça-se nos próprios decretos de Deus, conforme se vê claramente em Atos 2.23: “Sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos.” Notem a ordem de apresentação: primeiramente, o “determinado desígnio” de Deus (o seu decreto); em segundo lugar, a sua “presciência.”[4]

                 O raciocínio de Pink é que, pela razão de que o autor bíblico escreveu a palavra ‘conselho’ antes da palavra ‘presciência, ’ segue-se que o decreto de Deus antecede sua presciência. Que nessa ordem foi escrito é evidente. O que não é tão evidente é a validade dessa argumentação.

 Supondo ser válida, esta linha de raciocínio poderia nos levar a concluir absurdamente que:

 1 – O nosso chamado é anterior à nossa eleição.

 Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis (2Pe 1.10).

 2 – A nossa salvação é anterior ao nosso chamado.

 Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos (2Tm 1.9).

 3 – Que recebemos o convite geral do Evangelho antes de sermos escolhidos.

 Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos (Mt 22.14).

              Há certamente versos onde a ordem em que as palavras foram escritas servem para estabelecermos certos entendimentos. Tomemos como exemplo Rm 8.30 (E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou). Há razões suficientes para concluir, por exemplo, que a predestinação precede a justificação, não porque uma palavra foi escrita antes da outra, mas porque o autor inspirado fixou uma relação de dependência entre elas, na qual cada etapa pela qual o crente passa, até culminar em sua glorificação, depende de seu antecedente. Mas essa relação de dependência não existe, explícita ou implicitamente, em At 2.23, sendo, por essa razão, precipitado tirar qualquer conclusão em função da ordem em que as palavras foram escritas.


[1] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 70

[2] Ibid., p. 71.

[3] Ibid., p. 108.

[4] Arthur Pink, Deus é Soberano, p. 59.

 

Atos 13:48 – PC Antunes

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Paulo Cesar Antunes

E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna (At 13.48).

 Esta passagem é muito usada pelos calvinistas para tentar provar a doutrina da eleição incondicional. Praticamente todos os calvinistas a usam. Berkhof a cita em sua Teologia Sistemática, uma vez em favor da eleição incondicional, outra da vocação eficaz.[1]  Pink nos conta que “todas as artimanhas da engenhosidade humana têm sido empregadas para obscurecer o significado deste versículo e para explicar de outro modo o sentido óbvio de suas palavras; mas todas as tentativas têm sido em vão; de fato, nada pode conciliar esta e outras passagens semelhantes com a mente do homem natural.”[2] John Gill sustenta que “a fé não é a causa, ou a condição do decreto da vida eterna, mas um meio fixado nele, e é fruto e efeito dele, e o que certamente segue dele.”[3] Boettner parece concordar com Gill quando diz que “basear a eleição na fé prevista é dizer que somos ordenados à vida eterna porque cremos, ao passo que as Escrituras declaram o contrário.”[4] O próprio Calvino, comentando At 13.48, diz: “Esta passagem ensina que a fé depende da eleição de Deus.”[5]Citar outros calvinistas não acrescentaria em nada ao que já foi dito. J. O. Buswell é um dos poucos calvinistas que não compartilha dessa opinião.[6]

 A disputa entre calvinistas e arminianos gira em torno da palavra “ordenados” (gr. tetagmenoi, pretérito perfeito passivo de tasso), um termo que significa ‘ordenar,’ ‘colocar em uma certa posição ou ordem,’ ‘dispor.’ O comentarista Adam Clarke diz que a palavra “não inclui nenhum idéia de preordenação ou predestinação de qualquer espécie.”[7] É a mesma opinião de Wesley, quando diz: “É observável, a palavra original não é nenhuma vez usada na Escritura para expressar predestinação eterna de qualquer sorte.” [8] Essas observações de Clarke e Wesley quanto ao significado da palavra são importantes, mas elas não servem para colocar um ponto final na questão. É digno de nota que a Versão Siríaca traz, em At 13.48, a expressão “foram destinados” e a Vulgata, “tantos quantos foram preordenados à vida eterna (quotquot erant praeordinati ad vitam aeternam).”

 A palavra tasso é usada 8 vezes na Bíblia, com os sentidos de:

 – comandar ou designar:

 Partiram, pois, os onze discípulos para a Galileia, para o monte onde Jesus lhes designara (Mt 28.16).

 Então disse eu: Senhor que farei? E o Senhor me disse: Levanta-te, e vai a Damasco, onde se te dirá tudo o que te é ordenado fazer (At 22.10).

 Havendo-lhe eles marcado um dia, muitos foram ter com ele à sua morada, aos quais desde a manhã até a noite explicava com bom testemunho o reino de Deus e procurava persuadí-los acerca de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas (At 28.23).

 – instituir, constituir ou apontar:

 Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus (Rm 13.1).

 – determinar, tomar conselho, resolver:

 Tendo Paulo e Barnabé contenda e não pequena discussão com eles, os irmãos resolveram que Paulo e Barnabé e mais alguns dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, por causa desta questão (At 15.2).

 – sujeitar-se à autoridade de alguém:

 Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz (Lc 7.8).

 – dedicar-se a:

 Agora vos rogo, irmãos – pois sabeis que a família de Estéfanas é as primícias da Acaia, e que se tem dedicado ao ministério dos santos (1Co 16.15).

 Como pode ser visto, nenhum desses significados carrega a idéia de preordenação ou de algum decreto divino feito na eternidade. A palavra tasso é de origem militar, usada no sentido de ‘dispor soldados em ordem de acordo com a vontade de um oficial.’

 A interpretação calvinista não é absolutamente necessária nesta passagem por algumas razões: 

 1)    a palavra “ordenados” também pode significar “dispostos.” Assim, o verso ficaria “todos quantos estavam dispostos à vida eterna creram.” Por quem dispostos, o verso não diz. Dean Alford concorda com esta tradução. E acrescenta: “Encontrar neste texto uma afirmação de preordenação à vida é forçar tanto a palavra quanto o contexto a um significado que eles não contêm.”[9]

 2)    “A livre auto-determinação da vontade humana é tão pouco negada quanto afirmada nesta passagem; umdecretum absolutum não está de forma nenhuma envolvido em tetagmenoi.”[10] O contexto não parece apontar para uma fé como conseqüência da eleição divina, mas de uma livre-escolha pessoal, obviamente guiada por Deus. Aqueles que estavam ordenados à vida eterna, antes de crerem, estavam desejosos de ouvir a Palavra de Deus, como alguns versos antecedentes mostram:

 Quando iam saindo, rogavam que estas palavras lhes fossem repetidas no sábado seguinte… No sábado seguinte reuniu-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus (At 13.42, 44).

 Portanto, mesmo se interpretar tetagmenoi como um arranjo prévio por Deus, At 13.48 não traria qualquer problema, visto que as pessoas ordenadas responderam positivamente à graça de Deus antes de obterem fé salvífica. Deus, em Sua onisciência, sabendo de antemão a disposição dos seus corações, a receptividade de cada um à Palavra, e que, se sobre esses exercesse Sua graça, eles iriam crer, poderia tê-los ordenados para a vida eterna e lhes concedido fé.

 3)    Alguns comentaristas defendem uma outra ordem para o verso. Também seria correto, segundo Leander S. Keyser: “E creram, todos quantos estavam dispostos, determinados, ou firmes para a vida eterna.”[11] Isso é confirmado  por W. E. Vine em seu Expository Dictionary of New Testament Words, onde se pode ler do significado de “ordenados”: “É dito daqueles que, tendo crido no Evangelho, ‘foram ordenados à vida eterna,’ At 13.48.”[12]

 Seja qual for a ordem das frases, “não há nenhuma evidência de que Lucas tinha em mente um absolutum decretum de salvação pessoal.”[13]

 4)    Antes da vinda de Cristo certamente havia algumas pessoas já salvas, que haviam crido na mensagem redentora dada por Deus no Velho Testamento, e que mantinham uma relação pessoal com Deus. Antes da conversão de Cornélio, por exemplo, a Bíblia o mostra como um “homem justo e temente a Deus” (At 10.22). A ele apenas ainda não havia sido apresentado o Evangelho de Cristo. Essa situação foi única na história da igreja e obviamente não existe mais. Portanto, Lucas poderia estar falando, em At 13.48, daqueles que, já no caminho da salvação, apenas creram na mensagem de Cristo. Não que todos que ouviram o discurso de Paulo naquele momento já eram salvos, mas a referência poderia ser a esses. Essa interpretação é defendida por F. Leroy Forlines.[14] Esta posição é apoiada pelo fato de que os crentes do v. 48 muito provavelmente faziam parte dos “judeus e prosélitos devotos [ou religiosos]”, a quem Paulo e Barnabé exortaram para “perseverarem na graça de Deus” (13.43) um sábado antes.

 5)    Crisóstomo (347-407), considerado um dos quatro grandes Doutores da Igreja Oriental, indica que a palavra ‘ordenados’ assume o sentido de ‘reservados para Deus.’ Da obra Saint Chrysostom: Homilies on the Acts of the Apostles and the Epistle to the Romans, de Philip Schaff, a seguinte nota de George B. Stevens pode ser vista: “A expressão ‘creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna’ tem sido tanto minimizada quanto exagerada. Crisóstomo aponta o caminho para sua correta interpretação ao dizer ‘reservados para Deus’ e adiciona em seguida ‘não com referência à necessidade.’ O escritor não está de forma alguma buscando definir uma doutrina do plano divino em seu efeito sobre a auto-determinação humana, mas apontando uma seqüência histórica. Aqueles que se tornaram crentes verdadeiramente estavam dentro do plano de Deus. A passagem não diz nada da relação do ordenamento de Deus com a escolha do crente. É um exemplo do tipo de pensamento paulino que baseia a salvação no eterno propósito de Deus. Quem quer que seja salvo, de fato, foi salvo pelo propósito de Deus. Se realmente eles são salvos sob a condição da fé e não através da coação de um decretum absolutum, então é certo que sua salvação, como prevista no propósito de Deus, não exclui sua auto-determinação e aceitação pessoal.”[15]

 6)    “Na verdade, alguns entendem que o verbo está na voz média, e não na passiva, e traduzem o texto assim: ‘e tantos quantos destinaram-se a si mesmos [mediante sua reação positiva aos apelos do Espírito] para a vida eterna, creram’.” (David J. Williams, Novo Comentário Bíblico do Livro de Atos)

 7)    Lucas não diz preordenados mas ordenados.

 Alford, citando Wordsworth, nos revela que a construção da idéia de uma preordenação à vida eterna pelos calvinistas em At 13.48 vem da imprópria tradução da Vulgata, uma versão “com inúmeras falhas, imprecisões, inconsistências, e colocações arbitrárias nos detalhes.”[16] Ele diz: “O Dr. Wordsworth bem observa que seria interessante perguntar, Que influência estas traduções na Versão Vulgata (‘preordenados’) teve nas mentes de alguns, como Santo Agostinho e seus seguidores na igreja ocidental, ao tratar as grandes questões do livre-arbítrio, eleição, reprovação, e perseverança final? O que mais foi resultado dessa influência nas mentes de alguns escritores das Igrejas Reformadas, que rejeitaram a autoridade de Roma, que quase canonizou essa versão; e todavia nestes dois importantes textos (At 2.47; 13.48) foram influenciados por ela, se distanciando do sentido do original? A tendência dos pais orientais, que liam o grego original, foi em uma direção diferente daquela da escola ocidental; e o Calvinismo não pode receber nenhum apoio destes dois textos, tanto quando colocados diante das palavras originais da inspiração como quando esclarecidos pela Igreja primitiva.”[17]

 Conforme nos informa Gleason L. Archer, Jr: “Em 382, Jerônimo foi comissionado pelo Papa Damaso para revisar a Itala em confronto com a Septuaginta Grega (embora que Jerônimo já conhecesse o hebraico, Damaso não tinha pretendido originalmente nada tão radical como seria uma nova tradução latina do hebraico original).”[18] A Itala foi uma versão latina, traduzida a partir da Septuaginta. A Vulgata foi uma tentativa de trazer a Itala mais próxima da Septuaginta. Como pode ser notado, a Vulgata não foi uma tradução direta do original. É interessante notar que a Vulgata surgiu na época em que Agostinho vivia.  Mais interessante ainda é que esta versão carregava forte influência dos ensinos de Agostinho, principalmente no que se referia à predestinação e à negação do livre-arbítrio. Fluente em latim, Calvino também usou muito a Vulgata. Isto porque a Vulgata foi praticamente, por mil anos, a única Bíblia conhecida e lida na Europa Ocidental.

 Após sugerir estas outras interpretações, os calvinistas muito provavelmente podem estar dizendo, como Spurgeon: “Tentativas têm sido feitas para comprovar que essas palavras não ensinam a predestinação. Tais tentativas, porém, violentam o claro sentido da linguagem, de tal maneira que nem merecem que se gaste tempo em lhes dar resposta.”[19] Mas a interpretação dos calvinistas cria um sério problema para eles, como demonstrarei a seguir.

 Boettner diz de At 13.48 que “todos quantos estavam ordenados para a vida eterna (e somente eles) creram.”[20] O acréscimo “e somente eles” parte de uma conclusão inevitável. Se tomada a interpretação calvinista, então “todos quantos,” ou seja, todos os que estavam ordenados para a vida eterna, daqueles que estavam presentes dentre “quase toda a cidade” (At 13.44), creram. Isso significa dizer que os demais, que não creram naquele exato momento, não estavam ordenados à vida eterna, ou seja, eram reprovados e estavam predestinados à perdição eterna. Só que dificilmente algum calvinista acredita nisso. Se continuam defendendo a sua interpretação é porque, muito provavelmente, ainda não se deram conta dessa implicação.

 At 13.48, portanto, não é de fácil interpretação. Mas de forma alguma esta passagem evidencia a fé como conseqüência da eleição incondicional, como o Calvinismo propõe. A interpretação dos calvinistas é possível, mas muito improvável, dadas as suas implicações indesejáveis.

 


[1] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, pg. 116, 471.

[2] Arthur W. Pink, Deus é Soberano, p. 53.

[3] John Gill, Comentários sobre At 13.48, John Gill’s Exposition of the Entire Bible.

[4] Loraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination.

[5] John Calvin, Comentários sobre At 13.48, Calvin’s Commentaries.

[6] J. O. Buswell, A Systematic Theology of the Christian Religion, v. 2, p. 152-3.

[7] Adam Clarke, Comentários sobre At 13.48, Adam Clarke’s Commentary on the Bible.

[8] John Wesley, Comentários sobre At 13.48, John Wesley’s Explanatory Notes.

[9] Dean Alford, New Testament for English Readers, Vol. I, Parte II, p. 745).

[10] Lange, Commentary on the Holy Scriptures: Acts, p. 258.

[11] Leander S. Keyser, Election and Conversion, pp. 129-130.

[12] W. E. Vine, Expository Dictionary of New Testament Words, Vol. I, p. 68.

[13] A. T. Robertson, Word Pictures in the New Testament, The Acts, p. 200).

[14] F. Leroy Forlines, The Quest For Truth, p. 388-390.

[15] George B. Stevens, citado em Philip Schaff, Saint Chrysostom: Homilies on the Acts of the Apostles and the Epistle to the Romans.

[16] Philip Schaff, History of the Christian Church.

[17] Dean Alford, The New Testament in the Original Greek, with Introduction and Notes, por Chr. Wordsworth, “The Acts,” p. 108).

[18] Gleason L. Archer, Jr, Merece Confiança o Antigo Testamento?, p. 50.

[19] Charles Spurgeon, citado em Arthur W. Pink, Deus é Soberano.

[20] Loraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination.

Romanos 8:30 – P. C. Antunes

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E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou, Rm 8.30.

 Não entrarei numa análise detalhada do versículo em questão; antes, tentarei provar que uma leitura descuidada, e conseqüentes inserções arbitrárias no texto sagrado, podem levar alguns a acreditar naquilo que o versículo não está dizendo.

 Sproul acredita que descobriu a chave para interpretar Rm 8.30: inserindo no texto a palavra todos ou alguns. Diz ele:

 Paulo diz em Romanos que todos a quem Deus chama, Ele justifica. Ora, concordamos que a Bíblia não diz explicitamente que todos a quem Deus chama Ele justifica. Estamos acrescentando a palavra “todos”. Talvez sejamos tão culpados de ler alguma coisa no texto que não está lá, quanto àqueles que advogam a visão presciente.

 Quando acrescentamos a palavra todos ali, estamos respondendo a uma implicação do texto. Estamos fazendo uma inferência. É uma inferência legítima de se fazer? Eu penso que é.

 Se Paulo não quer dizer que todos os que são chamados são justificados, a única alternativa seria que alguns que são chamados são justificados. Se acrescentarmos a palavra alguns aqui, em vez da palavra “todos”, então devemos acrescentá-la ao longo de toda a Cadeia Dourada. Então ficaria assim:

 Alguns dos que Ele de antemão conheceu, Ele também predestinou. Alguns dos que Ele predestinou, Ele também chamou. Alguns dos que Ele chamou, também justificou. Alguns dos que Ele justificou, também glorificou.

 A leitura deste texto nos deixa com uma monstruosidade teológica, um pesadelo. Significaria que somente alguns dos predestinados chegam a ouvir o Evangelho, e que somente alguns dos justificados são finalmente salvos. Estas noções estão completamente em conflito com o que o restante da Bíblia ensina sobre o assunto.

 A visão presciente sofre ainda de um problema maior, pelo acréscimo da palavra alguns. Se a predestinação de Deus é baseada em sua presciência de como as pessoas responderão ao chamado exterior do Evangelho, como é que somente alguns dos predestinados são chamados? Exigiria que Deus predestinasse alguns que não são chamados. Se alguns dos predestinados são predestinados sem serem chamados, então Deus não estaria baseando sua predestinação num conhecimento prévio da resposta deles ao seu chamado. Eles não poderiam ter nenhuma resposta a um chamado que eles nunca receberam! Deus não pode ter presciência de não-resposta de uma pessoa a um não-chamado.

 Ufa! Se seguirmos tudo isso, então veremos a conclusão gritando para nós. Paulo não pode estar pensando na palavra alguns. Em vez disso, a Cadeia Dourada necessariamente tem implícita a palavra “todos”. [1]

 Não há dúvida que, usando este método de Sproul, a visão presciente da predestinação torna-se altamente suspeita senão completamente impossível. Mas a pergunta precisa ser repetida: É uma inferência legítima de se fazer? Eu penso que não. E isto simplesmente porque Paulo não está querendo dizer que alguns ou todos que são predestinados são chamados, justificados, glorificados, mas apenas revelando como “aqueles que amam a Deus” (Rm 8.28) são levados, passo a passo, à glorificação. Qualquer um que for finalmente glorificado terá sido predestinado, chamado, justificado, mas Paulo não diz absolutamente nada sobre a possibilidade de alguns terem sido justificados, mas não glorificados. Em apoio a esta interpretação, F. Leroy Forlines acredita que temos um paralelo nas Escrituras[2]:

 Porque a terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, por último o grão cheio na espiga, Mc 4.28.

 Aqui, da mesma forma, é impróprio acrescentar a palavra todos no texto. Jesus não está querendo dizer que todas as ervas viram espigas, nem que todas as espigas se enchem de grãos. Algumas ervas e algumas espigas morrem antes de se desenvolverem. Ao invés, Ele está dizendo que qualquer espiga que se enche de grão terá sido primeiro uma erva e depois uma espiga. Jesus está meramente indicando as etapas pelas quais passa uma espiga cheia de grãos. Da mesma forma que faz Paulo em Rm 8.30. O método que Sproul usa é completamente inadequado.


[1] R. C. Sproul, Eleitos de Deus, pp. 97, 98.

[2] F. Leroy Forlines, The Quest for Truth, p. 379.