E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou, Rm 8.30.

 Não entrarei numa análise detalhada do versículo em questão; antes, tentarei provar que uma leitura descuidada, e conseqüentes inserções arbitrárias no texto sagrado, podem levar alguns a acreditar naquilo que o versículo não está dizendo.

 Sproul acredita que descobriu a chave para interpretar Rm 8.30: inserindo no texto a palavra todos ou alguns. Diz ele:

 Paulo diz em Romanos que todos a quem Deus chama, Ele justifica. Ora, concordamos que a Bíblia não diz explicitamente que todos a quem Deus chama Ele justifica. Estamos acrescentando a palavra “todos”. Talvez sejamos tão culpados de ler alguma coisa no texto que não está lá, quanto àqueles que advogam a visão presciente.

 Quando acrescentamos a palavra todos ali, estamos respondendo a uma implicação do texto. Estamos fazendo uma inferência. É uma inferência legítima de se fazer? Eu penso que é.

 Se Paulo não quer dizer que todos os que são chamados são justificados, a única alternativa seria que alguns que são chamados são justificados. Se acrescentarmos a palavra alguns aqui, em vez da palavra “todos”, então devemos acrescentá-la ao longo de toda a Cadeia Dourada. Então ficaria assim:

 Alguns dos que Ele de antemão conheceu, Ele também predestinou. Alguns dos que Ele predestinou, Ele também chamou. Alguns dos que Ele chamou, também justificou. Alguns dos que Ele justificou, também glorificou.

 A leitura deste texto nos deixa com uma monstruosidade teológica, um pesadelo. Significaria que somente alguns dos predestinados chegam a ouvir o Evangelho, e que somente alguns dos justificados são finalmente salvos. Estas noções estão completamente em conflito com o que o restante da Bíblia ensina sobre o assunto.

 A visão presciente sofre ainda de um problema maior, pelo acréscimo da palavra alguns. Se a predestinação de Deus é baseada em sua presciência de como as pessoas responderão ao chamado exterior do Evangelho, como é que somente alguns dos predestinados são chamados? Exigiria que Deus predestinasse alguns que não são chamados. Se alguns dos predestinados são predestinados sem serem chamados, então Deus não estaria baseando sua predestinação num conhecimento prévio da resposta deles ao seu chamado. Eles não poderiam ter nenhuma resposta a um chamado que eles nunca receberam! Deus não pode ter presciência de não-resposta de uma pessoa a um não-chamado.

 Ufa! Se seguirmos tudo isso, então veremos a conclusão gritando para nós. Paulo não pode estar pensando na palavra alguns. Em vez disso, a Cadeia Dourada necessariamente tem implícita a palavra “todos”. [1]

 Não há dúvida que, usando este método de Sproul, a visão presciente da predestinação torna-se altamente suspeita senão completamente impossível. Mas a pergunta precisa ser repetida: É uma inferência legítima de se fazer? Eu penso que não. E isto simplesmente porque Paulo não está querendo dizer que alguns ou todos que são predestinados são chamados, justificados, glorificados, mas apenas revelando como “aqueles que amam a Deus” (Rm 8.28) são levados, passo a passo, à glorificação. Qualquer um que for finalmente glorificado terá sido predestinado, chamado, justificado, mas Paulo não diz absolutamente nada sobre a possibilidade de alguns terem sido justificados, mas não glorificados. Em apoio a esta interpretação, F. Leroy Forlines acredita que temos um paralelo nas Escrituras[2]:

 Porque a terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, por último o grão cheio na espiga, Mc 4.28.

 Aqui, da mesma forma, é impróprio acrescentar a palavra todos no texto. Jesus não está querendo dizer que todas as ervas viram espigas, nem que todas as espigas se enchem de grãos. Algumas ervas e algumas espigas morrem antes de se desenvolverem. Ao invés, Ele está dizendo que qualquer espiga que se enche de grão terá sido primeiro uma erva e depois uma espiga. Jesus está meramente indicando as etapas pelas quais passa uma espiga cheia de grãos. Da mesma forma que faz Paulo em Rm 8.30. O método que Sproul usa é completamente inadequado.


[1] R. C. Sproul, Eleitos de Deus, pp. 97, 98.

[2] F. Leroy Forlines, The Quest for Truth, p. 379.

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