Rm 9.6-13

 

Joseph Agar Beet

 

Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho.

 E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque, nosso pai; porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú.

 6. A palavra de Deus: Suas promessas a Abraão, por exemplo, Gn 12.2, 3; 13.16; 22.17, 18. Cp. Rm 4.13-17. A tristeza de Paulo e a lamentável presente situação dos judeus incrédulos não implicam em algo semelhante a um fracasso da palavra de Deus a Abraão. Assim ele desafia a objeção ao Evangelho, a saber, que se é verdadeiro que Deus quebrou as grandes promessas sobre as quais dependem as esperanças de Israel. O Evangelho promete bênção infinita a todos os que creem em Cristo, e ameaça com destruição aqueles que o rejeitam. Mas com a semente de Abraão Deus fez uma aliança eterna e prometeu ser seu Deus para sempre, Gn 17.7. Poderia ser objetado que, ao limitar a salvação aos que creem, o Evangelho implica num fracasso parcial das antigas promessas. Paulo não hesita em admitir que essas promessas sobre as quais os judeus apoiam suas alegações são a palavra de Deus. Mas ele agora declara, e nos vv. 7-13 irá provar que a lamentável situação dos judeus não implica em fracasso das promessas, que, visto que eles persistem em sua presente incredulidade, eles estão fora do número daqueles a quem as promessas foram dadas.

 Porque nem todos, etc.: Começo desta prova. Os que são de Israel: Descendentes de Jacó. Assim 1.3: “da descendência de Davi”. São israelitas: Participantes com seu pai Israel das promessas de bênçãos à descendência de Abraão.

 7-9. Uma transição inesperada dos filhos de Israel aos de Abraão, uma afirmação sobre o último similar àquela feita no v. 6 sobre o primeiro. Descobriremos, nos vv. 7-9, que a afirmação sobre Abraão prova isso sobre Israel.

 7. Descendência de Abraão: Descendentes naturais, correspondendo aos que são de Israel no v. 6. Filhos: Herdeiros dos direitos de Abraão. Cp. 8.17. Corresponde ao são israelitas. Cp. Jo 8.39. Mas, em Isaque etc.: Citação de Gn 21.12, provando a afirmação precedente, mesma citação em Hb 11.18. Quando Deus ordenou que Abraão despedisse Ismael, ele prometeu que de Isaque surgiria uma posteridade que seria chamada pelo nome de Abraão e herdaria as promessas feitas à sua descendência. O texto citado evidentemente limita as promessas a Isaque e seus filhos. Cp. Gn 17.19-21. Portanto, isto prova que nem toda a descendência natural são filhos e herdeiros de Abraão.

 8. Exposição da citação precedente, e do princípio nela envolvido. Não são os filhos da carne: Descendentes nascidos de acordo com as leis naturais do corpo humano. Filhos de Deus: Recordando 8.16. Visto que Paulo está deduzindo um princípio geral aplicável aos judeus de sua própria época, ele o expressa na forma do Novo Testamento. Aqui ele afirma que a descendência natural de Abraão não coloca ninguém numa nova relação com Deus. Isto explica a exclusão de Ismael. Filhos da promessa: Nascidos, como Isaque, em cumprimento a uma promessa de Deus e, portanto, por um poder sobrenatural. Contados: Como em 2.3 e 4.3-6.

 9. Prova que Isaque é um filho da promessa. Portanto, isto apoia de seu caso, o princípio geral afirmado no v. 8. Paulo cita de Gn 18.10 uma promessa definida de que Sara terá um filho.

 A objeção desafiada no v. 6 supõe que os judeus reivindicam as bênçãos prometidas a Abraão pela razão de serem descendentes de Israel e que, se estas bênçãos lhes forem negadas, as promessas de Deus falharam. Paulo nos recorda que esta reivindicação não é admitida no caso dos filhos de Abraão, pois nenhum judeu afirma que ambos os filhos de Abraão foram incluídos na aliança de Deus com seu pai. Mais ainda, a reivindicação dos judeus incrédulos é precisamente a mesma que a de Ismael, ao passo que aqueles que creem em Cristo ocupam uma posição análoga a de Isaque. Pois eles, como ele, nasceram, não por geração natural, mas em cumprimento a uma promessa especial de Deus. Se o Evangelho for verdadeiro, ainda que alguns israelitas sejam excluídos das bênçãos prometidas à sua nação, Deus está somente agindo em relação aos filhos de Israel conforme ele agiu antigamente com os filhos de Abraão.

 10. Outra prova agora da família de Isaque. Não somente uma distinção foi feita entre os filhos de Sara e Agar, mas entre os filhos de Rebeca e Isaque, tendo ambos os mesmos pais. Dessa forma Paulo evita uma possível objeção que Ismael era filho de uma escrava.

 11- 12. Mais exposição deste segundo caso. Não tendo eles ainda nascido etc.: Excluindo qualquer possibilidade de mérito humano ter influenciado a escolha de Deus. Isto é enfatizado pelas palavras nem tendo feito bem ou mal. O propósito de Deus: O eterno propósito revelado na ação de Deus nas famílias de Abraão e Isaque. Eleição: Cognato de eleitos em 8.33: a seleção de um número menor de um número maior. Deus agiu de acordo com este princípio, isto é, segundo a eleição, quando, ao invés de receber em aliança tanto Isaque quanto Ismael, ele tomou Isaque somente. Ele agiu de acordo com este mesmo princípio quando tomou Jacó e deixou Esaú. Visto que o que quer que Deus faça no tempo, ele propôs na eternidade, Paulo fala da ação de Deus como resultando de um propósito segundo a eleição. E visto que, em ambas as famílias patriarcais, ele agiu de acordo com o mesmo princípio de seleção, Paulo diz que ele fez dessa forma no segundo caso para que o propósito segundo a eleição ficasse firme, isto é, a fim de agir na família de Isaque da mesma forma que ele já tinha agido na família de Abraão. A palavra “ficasse firme” chamam a atenção para um elemento permanente na ação divina. Não por causa das obras, mas por aquele que chama: Fonte deste propósito eletivo. Ele não foi motivado por quaisquer obras do homem, passada ou prevista, mas teve sua origem simplesmente em Deus, que chama para si mesmo quem ele quer. Cp. 2Tm 1.9; Tt 3.5. Foi-lhe dito a ela: Como registrado em Gn 25.23. Maior… menor: Talvez equivalente a mais velho e mais moço. Cp. 29.16; 10.21. Provavelmente destinado a ser um enigma para Rebeca, a ser explicado somente pelo cumprimento. Significa evidentemente que o menos provável tivesse a preeminência. Tão importante no pensamento de Paulo, como um elemento permanente na administração divina, era o princípio de seleção conforme contrastado com a bênção indiscriminada, que ele representa a manutenção deste princípio como um propósito das famosas palavras ditas a Rebeca antes que seus filhos tivessem nascidos. A história subsequente prova que estas palavras foram uma limitação da aliança a Jacó e seus filhos. Tivesse Deus concedido as bênçãos prometidas a ambos os filhos de Isaque, ele teria posto de lado o propósito eletivo adotado em sua conduta com a família de Abraão.

 13. Que Paulo afirmou corretamente no v. 12 o propósito de Deus ao falar a Rebeca, ele agora prova citando Ml 1.2. As palavras “odiei a Esaú” são explicadas pelas seguintes, “eles edificarão, e eu destruirei; e lhes chamarão: Termo de impiedade, e povo contra quem o SENHOR está irado para sempre.” Cp. Sl 5.5, 6: “Odeias a todos os que praticam a maldade.” Paixões humanas são atribuídas a Deus a fim de ensinar que ele age conforme os homens fazem quando influenciados por tais paixões, e somente dessa forma os homens podem entender a Deus. Assim Gn 6.6 e 1Sm 15.11, onde Deus age como um homem que mudou de opinião faz. Similarmente Pv 13.24: “O que não faz uso da vara odeia seu filho,” isto é, ele é praticamente o inimigo de seu filho. Deus agiu como um amigo dos descendentes de Jacó e como um adversário dos descendentes de Esaú, e suas palavras em Ml 1.2 implicam que seu diferente tratamento das duas nações não era devido a algo que eles ou seus respectivos pais tinham feito, mas simplesmente ao seu favor imerecido a Israel. Isto também é confirmado pela história de Israel e Edom. Portanto, relembrando as palavras de Deus a Rebeca, Paulo pode justamente dizer que elas foram ditas a fim de declarar o grande princípio que as bênçãos prometidas foram dadas à parte do mérito humano.

 Note que em Gn 25.23, Ml 1.2 e frequentemente no Antigo Testamento, os pais e seus descendentes eram identificados. Os pais parecem viver nos filhos: e bênçãos ou maldições pronunciadas sobre os pais sobrevêm aos filhos. E os pecados de uma geração são punidos em outra: Êx 17.16; 1Sm 15.2. O tratamento de Deus dos filhos de Isaque, como dos de Abraão, apoia a afirmação de Paulo no v. 6 que nem todos os descendentes de Israel são herdeiros das promessas. Ao agir sobre o princípio da seleção, primeiro na família de Abraão e então na de Isaque, Deus fornece uma forte presunção que ele fará o mesmo na terceira família patriarcal, que ele não aceitará todos os descendentes de Israel, mas uma parte deles. O Evangelho proclama que ele faz assim, que ele dá a herança somente àqueles que creem em Cristo. Isto pareceu a alguns um fracasso das antigas promessas. Mas Paulo agora mostrou que os judeus incrédulos não têm melhor reivindicação do que têm os descendentes de Ismael, cuja reivindicação nenhum judeu admitiria.

 Novamente, Paulo usa a época remota da profecia sobre os filhos de Isaque, em conexão com o comentário de Deus em Ml 1.2 sobre seu tratamento deles, para enfrentar outra objeção ao Evangelho. Ele afirma, em Rm 3.27, que a justificação pela fé exclui toda jactância na base das obras, ao reduzir todos os homens, judeus ou gentios, morais ou imorais, ao nível de pecadores. Ele agora sugere uma similar desconsideração pelas obras, como base do favor de Deus, em seu tratamento da família de Isaque. Se hoje Deus recebe em sua família, sob os mesmos termos de arrependimento e fé, o fariseu e o publicano, e rejeita todos os incrédulos, morais ou imorais, ele somente está agindo conforme fez quando escolheu Jacó e rejeitou Esaú antes que eles tivessem feito bem ou mal.

 Este argumento, entretanto, sugere uma objeção ao Evangelho tão séria quanto aquela que ele remove, a saber, que se Deus recebe os homens sem referência a uma prévia moralidade, ele é todavia injusto, se não infiel. Esta objeção será afirmada e respondida nos vv. 14-18. Para provocá-la, Paulo cita as misteriosas palavras de Ml 1.2. Elas ensinam que até mesmo os filhos de Abraão podem ser objetos da mais feroz ira de Deus.

 O argumento acima é simplesmente uma resposta a uma objeção. Paulo mostra que esta objeção à origem divina do Evangelho testemunha com igual força contra aquilo que todos admitem ser uma revelação de Deus. Como argumento positivo, isto somente levanta uma presunção, baseado na similaridade da ação prévia de Deus, que ele fará o que o Evangelho anuncia. Mas como resposta à objeção que as ameaças do Evangelho são inconsistentes com as promessas de Deus, o argumento é irresistível.

 Sobre a doutrina da Eleição, veja mais adiante na nota no final deste capítulo.

 Fonte: A Commentary on St. Paul’s Epistle to the Romans, 259-263

 Tradução: Paulo Cesar Antunes

Revisão: Magno Aquino

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