Monoteísmo Primitivo: Um Debate sobre Sua Origem

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Norman L. Geisler

 

A Bíblia ensina que o monoteísmo[1] foi a concepção mais remota de Deus. O primeiro versículo do livro de Gênesis é monoteísta: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Todos o patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó, apresentaram uma fé monoteísta (Gn 12-50). Isto revela um Deus que criou o mundo e que, portanto, é diferente do mundo. Esses são os conceitos essenciais do teísmo ou monoteísmo.

 

Igualmente, bem antes de Moisés, José acreditou declaradamente em um monoteísmo moral. Sua recusa em cometer adultério é justificada pelo seu conhecimento de que seria um pecado contra Deus. Enquanto estava resistindo à tentação da esposa de Potifar, ele declarou: “Como, pois, posso cometer este tão grande mal, e pecar contra Deus?” (Gn 39.9).

 

Jó, outro livro bíblico contextualizado em um período remoto da antiguidade, revela claramente uma visão monoteísta de Deus. Existem grandes evidências de que o livro de Jó desenvolveu-se em tempos patriarcais pré-mosaicos. O livro vislumbra um Deus todo-poderoso (Jó 5.17; 6.14; 8.3), um Deus pessoal (Jó 1.7-8) que criou o mundo (Jó 38.4) e é soberano sobre sua criação (Jó 42.1-2).

 

Encontramos na epístola de Paulo aos Romanos, no seu primeiro capítulo, a afirmação de que o monoteísmo precedeu o animismo[2] e o politeísmo.[3] O texto declara: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lhes manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; porquanto tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém” (Rm 1.19-25).

 

A tese de James Frazer sobre o monoteísmo recente

 

A tese de um monoteísmo recente foi divulgada por W. Schmidt na sua obra High Gods in North América.[4] Mas é a obra de James Frazer, The Golden Bough,[5] que tem alcançado proeminência sobre o assunto. Sua tese não se baseia em uma confiável procura histórica e cronológica para as origens do monoteísmo, antes, advoga que as religiões evoluíram do animismo para o politeísmo, e deste para o henoteísmo[6] e, finalmente, chegando ao monoteísmo. Apesar de seu uso seletivo e anedótico de fontes antiquadas, as ideias do livro ainda são acreditadas amplamente. A resistência à tese de Frazer de que a concepção monoteísta de Deus evoluiu recentemente não tem fundamento por muitas razões:

 

Argumentos para a crença do monoteísmo primitivo

 

Há muitos argumentos a favor do monoteísmo primitivo. E muitos desses argumentos vêm dos registros e tradições que temos das civilizações antigas, que incluem os livros de Gênesis e Jó e o estudo das tribos pré-alfabetizadas.

 

A historicidade de Gênesis

 

Não há nenhuma dúvida de que Gênesis apresenta uma concepção monoteísta de Deus. De igual modo, é claro, esse livro é o instrumento mais confiável que dispomos de um registro histórico da raça humana, desde os primeiros seres humanos. Consequentemente, os argumentos que atestem a historicidade dos primeiros capítulos de Gênesis favorecerão o monoteísmo primitivo.

 

O notável arqueólogo William F. Albright demonstrou que o registro patriarcal de Gênesis (Gn 12-50) é histórico. Ele declara: “Graças à pesquisa moderna, reconhecemos agora sua significativa historicidade [da Bíblia]. As narrativas dos patriarcas, Moisés e o êxodo, a conquista de Canaã, os juízes, a monarquia, o exílio e a restauração de Israel, tudo tem sido confirmado e evidenciado em uma extensão que eu julgava impossível há quarenta anos.”[7] E acrescenta: “Não há um único historiador bíblico que não tenha se impressionado pela acumulação rápida de dados que apoiam a historicidade significativa da tradição patriarcal.”[8]

 

Entretanto, o livro de Gênesis é uma unidade literária e genealógica, tendo constituído listas de descendentes familiares (Gn 5, 10) acompanhadas da relevante frase literária “esta é a história de” ou “estas são as origens dos” (Gn 2.4). A frase é usada largamente em outros trechos do livro de Gênesis (2.4; 5.1; 6.9; 10.1; 11.10, 27; 25.12, 19; 36.1, 9; 37.2).

 

Além disso, a importante narrativa sobre a torre de Babel, capítulo 11, é referida por Jesus e pelos escritores do Novo Testamento como histórica. Também são citados por Cristo e pelos escritores do Novo Testamento: Adão e Eva (Mt 19.4, 5), a tentação que sofreram (1Tm 2.14), sua posterior queda (Rm 5.12), o sacrifício de Caim e Abel (Hb 11.4), o assassinato de Abel por Caim (1Jo 3.12), o nascimento de Sete (Lc 3.38), a trasladação de Enoque (Hb 11.5), a menção do matrimônio antes dos tempos do dilúvio (Lc 17.27), a inundação e destruição do homem (Mt 24.39), a preservação de Noé e sua família (2Pe 2.5), a genealogia de Sem (Lc 3.35,36) e o nascimento de Abraão (Lc 3.34). Assim, a pessoa que questionar a historicidade de Gênesis, consequentemente terá de questionar também a autoridade das palavras de Cristo e de muitos outros escritores bíblicos que recorreram ao livro de Gênesis.

 

Em particular, existem fortes evidências para a historicidade dos registros bíblicos sobre Adão e Eva. Esses registros revelam que os pais da raça humana foram monoteístas desde o princípio (veja Gn 1.1, 27; 2.16, 17; 4.26; 5.1, 2).

 

1) Gênesis 1-2 os apresenta como pessoas literais e narra os eventos importantes de suas vidas (entenda-se: de suas histórias, registros).

 

2) Eles geraram crianças reais, e não fictícias (Gn 4.1, 25; 5.1).

 

3) A mesma frase, “estas são as gerações de”, empregada para registrar histórias posteriores (Gn 6.9; 9.12; 10.1, 32; 11.10, 27; 17.7, 9), é usada também no relato da criação (Gn 2.4) e na formação de Adão e Eva e seus descendentes (Gn 5.1).

 

4) As cronologias posteriores do Velho Testamento posicionam Adão no topo da lista genealógica (1Cr 1.1).

 

5) O Novo Testamento cita Adão como o primeiro antepassado literal de Jesus (Lc 3.38).

 

6) Jesus recorreu à historicidade de Adão e Eva, o primeiro casal “macho e fêmea,” constituindo, como base para a união física, o primeiro matrimônio (Mt 19.4).

 

7) O livro de Romanos declara que a morte literal foi trazida ao mundo por um “Adão” literal (Rm 5.14).

 

8) A comparação de Adão (“o primeiro Adão”) com Cristo (“o último Adão”), em 1Co 15.45, atrela a historicidade de Adão com a de Jesus, e autentica explicitamente a compreensão histórica de Adão como uma pessoa literal.

 

9) A declaração do apóstolo Paulo, de que “primeiro foi formado Adão, depois Eva” (1Tm 2.13, 14), revela que ele fala de uma pessoa real.

 

10) Logicamente, houve entre eles o primeiro relacionamento conjugal, “macho e fêmea,” do contrário a raça humana não teria continuidade. A Bíblia chama este casal de “Adão e Eva,” e não há quaisquer razões para duvidar da existência real deles. E aqueles que argumentam a favor de sua historicidade consequentemente apoiam a posição bíblica de um monoteísmo primitivo.

 

A evidência do livro de Jó

 

Semelhante a Gênesis, Jó é possivelmente um dos livros mais antigos do Velho Testamento. Ao menos há um consenso entre os estudiosos de que sua história originou-se em tempos patriarcais, sendo, portanto, pré-mosaica. De igual modo, o livro de Jó também confirma o monoteísmo e a pessoalidade de Deus. Revela um Deus pessoal (1.6, 21), moral (1.1; 8.3, 4), soberano (42.1, 2), Todo-Poderoso (5.17; 6.14; 8.3; 13.3 etc) e Criador (4.17; 9.8, 9; 26.7; 38.6, 7). O posicionamento da história de Jó como primitiva possui vários fundamentos.

 

1) Sua organização familiar em clãs, adotada no período pré-mosaico e abolida posteriormente entre os hebreus.

 

2) A ausência total de qualquer referência à lei de Moisés.

 

3) O emprego patriarcal peculiar para o nome de Deus: Todo-Poderoso (5.17; 6.4; 8.3 cf. Gn 17.1; 28.3 etc).

 

4) A comparativa raridade com que é empregado o nome SENHOR (Yahweh) (cf. Êx 6.3).

 

5) O oferecimento de sacrifícios pelo chefe da família em oposição ao sacerdócio levítico.

 

6) A menção da cunhagem primitiva de moedas, implícita na expressão “peças de dinheiro” (42.11 cf. Gn 33.19).

 

7) O uso da expressão “os filhos de Deus” (1.6; 2.1; 38.7), encontrada apenas em Gn 6.2-4.

 

8) A longevidade de Jó, que viveu 140 anos depois que sua família foi restabelecida (42.16), ajusta-se ao período patriarcal.

 

Jó fala de um Deus que criou o mundo (Jó 38.4), que é soberano sobre todas as coisas (42.2), inclusive sobre Satanás (1.1,6,21 etc). Todas essas coisas são características de uma concepção monoteísta de Deus. Assim, os tempos primitivos de Jó revelam que o monoteísmo não teve um desenvolvimento recente.

 

As religiões primitivas são monoteístas

 

Ao contrário da convicção popular, as religiões primitivas da África revelam por unanimidade um explícito monoteísmo. Uma das maiores autoridades em religiões africanas, John S. Mbiti, que em sua carreira já pesquisou mais de 300 religiões tradicionais, declarou: “Em todas estas sociedades, sem uma única exceção, as pessoas têm uma noção de Deus como o Ser Supremo.”[9] Isto é uma verdade compartilhada por outras religiões primitivas, muitas das quais creem em um Deus Altíssimo ou em um Deus celestial, assinando mais uma vez o monoteísmo primitivo.

 

A influência de evolução

 

A ideia de que o monoteísmo evoluiu recentemente ganhou popularidade após a teoria da evolução biológica de Charles Darwin, em sua obra A origem das espécies, de 1859. Em outra de suas obras, Darwin escreveu: “Não há nenhuma evidência de que o homem tenha originalmente adotado a crença na existência de um Deus onipotente.” Pelo contrário, Darwin acreditava que “as faculdades mentais humanas […] conduziram o homem à crença em entidades espirituais e, desta, para o fetichismo,[10] o politeísmo e, por fim, o monoteísmo….”[11]

 

A tese evolutiva de Frazer sobre a religião está baseada em várias suposições sem provas.

 

Primeiro: seu apoio na evolução biológica mostra, na realidade, sua ausência de fundamentos sérios. A teoria da evolução já foi satisfatoriamente contestada por autoridades cientificas.[12]

 

Segundo: ainda que considerássemos a evolução biológica como uma verdade científica, não há nenhuma razão para acreditar que tal evolução tenha sido considerada no âmbito religioso. É um engano de categoria metodológica classificar que o que é verdade em uma disciplina seja também verdade em outra.

 

O darwinismo social é outro caso em questão. Poucos darwinistas concordariam com Hitler em sua obra Mein Kampf, que diz que deveríamos destruir as raças inferiores, já que a evolução tem feito isto durante séculos! Ele escreveu: “Se a natureza não deseja que os indivíduos mais fracos devam se unir (misturar) com o mais forte, ela deseja menos ainda que uma raça superior venha se misturar com uma inferior; até mesmo porque, em tal caso, todos os seus esforços, ao longo de centenas de milhares de anos, para estabelecer uma fase evolutiva mais alta, pode ser resultado em futilidade.”[13]

 

Assim, se muitos darwinistas concordam que a evolução não deve ser aplicada ao desenvolvimento social humano, então não há nenhuma razão para aplicá-la à religião. Dessa forma, nem a suposta prova científica de Darwin serve como base para a evolução do monoteísmo recente.

 

A melhor explicação

 

As origens do politeísmo podem ser explicadas como uma degeneração do monoteísmo original, como vimos na declaração anterior de Rm 1.19. Quer dizer, o paganismo originou-se do monoteísmo primitivo, e não o contrário. Isso é evidenciado no fato de que a maioria das religiões pré-alfabetizadas possuía uma visão monoteísta de Deus. William F. Albright reconhece, igualmente, que os respectivos deuses dessas religiões “eram considerados todo-poderosos e cridos como criadores do mundo; eram, geralmente, deidades cósmicas e seus adeptos frequentemente acreditavam que tais deuses residiam no céu.”[14]

 

Essa concepção é claramente contra as concepções politeístas e animistas de deidade.

 

Não há nenhuma razão concreta para negar o monoteísmo primitivo apresentado pela Bíblia. Pelo contrário, há toda evidência para acreditar que o monoteísmo foi a primeira concepção religiosa que algumas religiões deturparam. De fato, essa é a posição que melhor se ajusta à forte evidência de que o monoteísmo revelado na Bíblia foi distorcido pelas tendências humanas.[15]

 

Em resumo, a concepção correta de Deus, o monoteísmo primitivo, foi resgatada, e não evoluída durante séculos. Deus fez o homem conforme a sua imagem, mas os homens corromperam esta verdade (Rm 1.23).

 

Fonte: http://www.icp.com.br/54materia2.asp

Tradução: Elvis Brassaroto Aleixo


[1] Monoteísmo: crença na existência de um único Deus.

[2] Animismo: ideia de que todas as coisas no universo são investidas de uma força de vida, alma ou mente. Um animismo filosófico, por exemplo, considera que uma pedra ou uma árvore não é meramente um aglomerado de átomos e moléculas, mas, pelo contrário, possui uma “conscientização” das forças ou dos outros corpos que estão ao redor.

[3] Politeísmo: crença na existência de vários deuses.

[4] High Gods in North of America. W. Schmidt. Oxford: Claredon Press, 1933.

[5] The Golden Bough. James G. Frazer. London: Mcmillan, 1890.

[6] Henoteísmo ou Enoteísmo: deriva seu nome dos termos gregos henos, um, e theos, deus. A idéia é que só existe um único Deus. Mas, no uso comum que se faz da palavra, a idéia transmitida é que existe uma divindade suprema, que tem contato com um certo mundo ou um certo grupo de seres, ao mesmo tempo em que podem existir outros deuses com outros campos de atividade. Pelo menos em algumas culturas, como na dos hebreus, o henoteísmo pode ser um passo intermediário entre o politeísmo e o monoteísmo.

[7] From Stone Age to Christianity. Willian F. Albright. Garden City, NY: Doubleday, 1957, p. 1329.

[8] The Biblical Period. Willian F. Albright. New York: Harper, 1955.

[9] African Religions and Philosophy. John S. Mbiti. New York: Praeger Publishers, 1969.

[10] Fetichismo: crença mantida particularmente nas religiões da África ocidental de que os espíritos são capazes de possuir objetos. Existe também a crença de que certos objetos ou “talismãs” podem afastar os espíritos maus.

[11] The Descent of Man and selection in relation to Sex. Charles Darwin. New York: Appleton and Company, 1896, p. 302,303.

[12] Evolution: a Theory in Crisis. Bethesda, MD: Adler and Adler, 1985.

[13] Mein Kampft. Adolph Hitler. London: Grust and Blackett Ltds, Publishers, 1939, p. 239-242.

[14] From Stone Age to Christianity. Willian F. Albright. Garden City, NY: Doubleday, 1957, p. 170.

[15] The Kalam Cosmological Argument. Willian Lane Craig. London: The McMillan Press, 1979.

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O Que é a Graça Preveniente?

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Uma doutrina arminiana crucial é a graça preveniente, na qual os calvinistas também acreditam, mas os arminianos a interpretam diferentemente. A graça preveniente é simplesmente aquela graça de Deus que convence, chama, ilumina e capacita, e que precede a conversão e torna o arrependimento e a fé possíveis. Os calvinistas a interpretam como irresistível e eficaz; a pessoa em quem ela opera irá crer e arrepender-se para salvação. Os arminianos a interpretam como resistível; as pessoas são sempre capazes de resistir à graça de Deus, como a Escritura chama a atenção (At 7.51). Mas sem a graça preveniente, elas inevitavelmente e inexoravelmente resistirão à vontade de Deus por causa de sua escravidão ao pecado.

 

Quando falamos de “graça preveniente” estamos pensando na que “precede”, que prepara a alma para a sua entrada no estado inicial da salvação. É a graça preparatória do Espírito Santo exercida para o homem enfraquecido pelo pecado. Pelo que se refere aos impotentes, é tida como força capacitadora. É aquela manifestação da influência divina que precede a vida de regeneração completa.

 

Em um sentido, então, os arminianos, como os calvinistas, creem que a regeneração precede a conversão; o arrependimento e a fé são somente possíveis porque a velha natureza está sendo dominada pelo Espírito de Deus. A pessoa que recebe a total intensidade da graça preveniente (isto é, através da proclamação da Palavra e a chamada interna correspondente de Deus) não mais está morta em delitos e pecados. Entretanto, tal pessoa não está ainda completamente regenerada. A ponte entre a regeneração parcial pela graça preveniente e a completa regeneração pelo Espírito Santo é a conversão, que inclui arrependimento e fé. Estes se tornam possíveis por dádiva de Deus, mas são livres respostas da parte do indivíduo. “O Espírito opera com o concurso humano e por meio dele. Nesta cooperação, contudo, dá-se sempre à graça divina preeminência especial.”

 

A ênfase sobre a antecedência e preeminência da graça forma o denominador comum entre o Arminianismo e o Calvinismo. É o que torna o sinergismo arminiano “evangélico.” Os arminianos levam extremamente a sério a ênfase neotestamentária na salvação como um dom da graça que não pode ser merecido (Ef 2.8). Entretanto, as teologias arminianas e calvinistas – como todos os sinergismos e monergismos – divergem sobre o papel que os humanos desempenham na salvação. Como Wiley observa, a graça preveniente não interfere na liberdade da vontade. Ela não dobra a vontade ou torna certa a resposta da vontade. Ela somente capacita a vontade a fazer a escolha livre para cooperar ou resistir à graça. Essa cooperação não contribui para a salvação, como se Deus fizesse uma parte e os humanos fizessem outra parte. Antes, a cooperação com a graça na teologia arminiana é simplesmente não resistência à graça. É meramente decidir permitir a graça fazer sua obra renunciando a todas as tentativas de auto justificação e autopurificação e admitindo que somente Cristo possa salvar. Todavia, Deus não toma esta decisão pelo indivíduo; é uma decisão que os indivíduos, sob a pressão da graça preveniente, devem tomar por si mesmos.

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Fonte:  Arminianismo

Fonte: Roger E. Olson, Arminian Theology: Myths and Realities, pp. 35-36

O Que Foi a Remonstrância

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Jacó Armínio e a controvérsia dos remonstrantes

 

A Holanda na qual Jacó Armínio nasceu e foi criado estava lutando contra a tradição católica romana e contra o domínio da Espanha católica. Um pequeno grupo de rebeldes uniu várias províncias contra o domínio espanhol e estabeleceu uma aliança instável conhecida como Províncias Unidas (dos Países Baixos). A Holanda era a maior e a mais influente das províncias. Ao mesmo tempo em que os holandeses se libertaram da Espanha, estabeleceram sua igreja nacional protestante. A igreja reformada de Amsterdã foi fundada em 1566 e seus principais ministros e leigos mantiveram os três princípios protestantes fundamentais, sem se aliarem a nenhum ramo específico do protestantismo. O protestantismo holandês primitivo era um tipo sui generis que não seguia rigidamente o luteranismo ou o calvinismo.

 

Armínio foi criado como protestante na cidadezinha de Oudewater, entre Utrecht e Roterdã, mas sua formação cristã na juventude não foi pesadamente calvinista. Aos quinze anos de idade, foi enviado a Marburgo, na Alemanha, para obter sua educação. Enquanto estava lá, sua cidade natal foi invadida por soldados católicos leais à Espanha e muitos habitantes foram massacrados. A família inteira de Armínio foi exterminada em um único dia. O jovem estudante ficou sob os cuidados de um respeitado ministro holandês de Amsterdã e acabou se tornando um dos primeiros alunos a se matricular na recém-estabelecida universidade protestante de Leiden. A igreja reformada de Amsterdã considerava Armínio um dos jovens candidatos mais promissores ao ministério e por isso custeou seu estudo superior em Leiden e, depois, na Suíça. Lá, estudou por algum tempo na “Meca” da teologia reformada, a Academia de Genebra, dirigida por Beza.

 

Em 1588, Armínio iniciou o ministério na igreja reformada de Amsterdã, aos 29 anos de idade. Todos os relatos contam que seu pastorado foi ilustre. Conforme observa certo biógrafo: “Armínio se tornou o primeiro pastor holandês da igreja reformada holandesa da maior cidade da Holanda, exatamente quando ela estava emergindo de seu passado medieval e irrompendo na Idade de Ouro”. Era notadamente benquisto e respeitado, tanto como pastor quanto como pregador, e rapidamente se tornou um dos homens mais influentes de toda a Holanda. Casou-se com a filha de um dos principais cidadãos de Amsterdã e entrou para o grupo dos privilegiados e poderosos. Nem por isso demonstrou qualquer indício de arrogância ou ambição. Nem sequer seus críticos ousaram acusá-lo de abusar de seu cargo pastoral ou de qualquer outra falha pessoal ou espiritual. Acabaram acusando-o de heresia somente porque, como pastor de uma das igrejas mais influentes da Holanda, começou a criticar abertamente o supralapsarismo que entrou em ascensão conforme cada vez mais ministros holandeses retornaram de seus estudos em Genebra sob a direção de Beza. Armínio era da “escola amiga” do protestantismo holandês de mentalidade independente, que se recusava a declarar como ortodoxo qualquer ramo específico da teologia protestante. Alguns, no entanto, insistiam cada vez mais que o supralapsarismo era a única teologia protestante ortodoxa e que qualquer outra opinião significava, de alguma forma, uma acomodação à teologia católica romana e, portanto, era uma aliada em potencial da Espanha, inimiga política dos Países Baixos.

 

Na década de 1590, o conflito entre Armínio e os calvinistas rígidos da Holanda se tornou cada vez pior. Alguns estudiosos sugerem que Armínio mudou de opinião nesse período. Acreditam que tinha sido um “hipercalvinista” ou mesmo um supralapsário. Essa suposição parece ter se fundamentado simplesmente no fato de ele ter sido aluno de Beza. O principal intérprete moderno de Armínio contradiz a ideia da alegada mudança de opinião de Armínio: “Todas as evidências levam a uma só conclusão: Armínio não concordava com a doutrina de Beza sobre a predestinação, quando assumiu o seu ministério em Amsterdã; na realidade, é provável que nunca tenha concordado com ela”. Na série de sermões sobre a Epístola de Paulo aos romanos, o jovem pregador começou a negar abertamente não somente o supralapsarismo, mas também a eleição incondicional e a graça irresistível. Interpretou Romanos 9, por exemplo, como uma referência não a indivíduos, mas a classes – crentes e incrédulos – conforme predestinadas por Deus. Afirmou que o livre-arbítrio dos indivíduos os incluía nas classes de “eleitos” e de “réprobos” e explicou a predestinação como a presciência divina acerca da livre escolha dos indivíduos. Para apoiar essa ideia, Armínio apelou a Romanos 8.29. Conforme observa o biógrafo e intérprete de Armínio, Carl Bangs, o teólogo holandês demonstrou, em seus sermões da década de 1590, o desejo de encontrar o equilíbrio entre a graça soberana e o livre-arbítrio humano: “o objetivo era uma teologia da graça, que não deixasse o homem ‘entre a cruz e o punhal’”.

 

Os rígidos oponentes calvinistas de Armínio em Amsterdã e outros lugares não tardaram em farejar o pavoroso erro de sinergismo em sua pregação e ensino e, publicamente, acusaram-no de heresia para os oficiais da igreja e da cidade, que examinaram a questão e inocentaram Armínio das acusações. Armínio apelou à tradição protestante holandesa da independência dos sistemas teológicos específicos e à tolerância de diversidade nos pormenores da doutrina. Os oficiais concordaram. Os oponentes supralapsários de Armínio ressentiram-se e decidiram que o arruinariam de qualquer maneira. Sofreram uma derrota fragorosa quando Armínio foi nomeado para ocupar a prestigiosa cátedra de teologia na Universidade de Leiden em 1603. O outro catedrático de teologia daquele período era Francisco Gomaro, que talvez tenha sido o calvinista supralapsário mais franco e rígido de toda a Europa. Gomaro, além de considerar todas as outras opiniões, inclusive o infralapsarismo, falhas ou até heréticas, “tinha, segundo quase todos os relatos a seu respeito, um temperamento extremamente irascível”.

 

Quase que imediatamente, Gomaro iniciou uma campanha de acusações contra Armínio. Algumas delas eram verídicas. Por exemplo, Armínio não escondia a rejeição não somente do supralapsarismo, mas também da doutrina clássica calvinista da predestinação como um todo. Gomaro distorceu esse fato e, publicamente e por trás das costas de Armínio, insinuou que ele era um simpatizante secreto dos jesuítas – uma ordem de sacerdotes católicos romanos especialmente temida que era chamada “tropa de choque da Contra Reforma”. Essa alegação de Gomaro, assim como outras, era claramente falsa. Por exemplo, Gomaro acusou Armínio de socinianismo, que era uma negação da Trindade e de quase todas as demais doutrinas cristãs clássicas. Não importa o que Armínio escrevesse ou dissesse em sua defesa, via-se constantemente atacado por boatos e sob suspeita. “Quando a controvérsia ultrapassou os limites das salas acadêmicas e chegou aos púlpitos e às ruas, suas defesas perderam o efeito. Era mais fácil chegar à conclusão de que ‘onde há fumaça, há fogo’”. A controvérsia cresceu a ponto de provocar uma guerra civil entre as províncias dos Países Baixos. Algumas apoiavam Armínio, outras apoiavam Gomaro. O conflito eclodiu em 1604, quando Gomaro, pela primeira vez, acusou Armínio abertamente de heresia e durou até a morte de Armínio por causa de tuberculose em 1609. Quando morreu, sua teologia estava sob a inquisição pública de líderes religiosos e políticos. Em seu enterro, um de seus amigos mais íntimos fez o discurso fúnebre diante do corpo de Armínio: “Viveu na Holanda um homem que só não era conhecido por quem não o estimava suficientemente e só não o estimava quem não o conhecia suficientemente”.

 

Depois da morte de Armínio, quarenta e seis ministros e leigos holandeses respeitados redigiram um documento chamado “Remonstrância” que resumia a rejeição, por Armínio e por eles mesmos, do calvinismo rígido em cinco pontos. Graças ao título do documento, os arminianos passaram a ser chamados de remonstrantes. Entre eles, estavam os estadistas e líderes políticos holandeses que tinham ajudado a libertar os Países Baixos da Espanha. Seus inimigos acusavam-nos de apoiar secretamente os jesuítas e a teologia católica romana, e de simpatizar com a Espanha, só porque concordavam com a oposição de Armínio a respeito das doutrinas da predestinação! Não existe nenhuma evidência de que qualquer um deles realmente tivesse alguma culpa em relação às acusações políticas feitas contra eles. Mesmo assim, ocorreram tumultos em várias cidades holandesas, nos quais foram pregados sermões contra os remonstrantes e distribuídos panfletos que os difamavam como hereges e traidores. Finalmente, o grande poder político dos Países Baixos, o príncipe Maurício de Nassau, entrou na luta em favor dos calvinistas. Em 1618, ordenou a detenção e o encarceramento dos principais arminianos, para aguardar o resultado do sínodo nacional de teólogos e pregadores. O Sínodo de Dort entrou em sessão em novembro de 1618 e foi encerrado em janeiro de 1619, contando com a presença de mais de cem delegados, inclusive alguns da Inglaterra, da Escócia, da França e da Suíça. “João Bogerman, um pregador calvinista com opiniões extremadas, que havia defendido em um documento a pena de morte por heresia, foi escolhido como presidente”.

 

Como esperado, a despeito das eloquentes defesas do Arminianismo feitas pelos principais remonstrantes, na conclusão do sínodo, todos os líderes remonstrantes foram condenados como hereges. Pelo menos duzentos foram depostos do ministério da igreja e do estado e cerca de oitenta foram exilados ou presos. Um deles, o presbítero, estadista e filósofo Hugo Grotius (1583-1645), foi confinado em uma masmorra da qual posteriormente escapou. Outro estadista foi publicamente decapitado. Um historiador moderno da controvérsia concluiu que “o modo de [o príncipe] Maurício tratar os estadistas arminianos só pode ser considerado um dos grandes crimes da História”.

 

O Sínodo de Dort promulgou um conjunto de doutrinas padronizadas para a igreja reformada holandesa, que se tornou a base do acrônimo TULIP. Cada cânon, conforme eram chamadas as doutrinas, baseava-se em um dos cinco pontos da “Remonstrância”. As coisas que os arminianos negavam, Dort canonizou como doutrina oficial, obrigatória para todos os crentes protestantes reformados. Não arbitrou, no entanto, sobre o supralapsarismo e o infralapsarismo e, desde então, as duas teorias continuaram dentro do consenso calvinista expresso pelo Sínodo de Dort. Após a morte do príncipe Maurício em 1625, o arminianismo gradualmente voltou a fazer parte da vida holandesa. Já em 1634, muitos exilados voltaram e organizaram a Fraternidade Remonstrante, que cresceu e formou a Igreja Reformada Remonstrante, que ainda existe. Não foi nos Países Baixos, no entanto, que a teologia arminiana causou maior impacto. Isso aconteceu na Inglaterra e na América do Norte pela influência de destacados ministros anglicanos, batistas gerais, metodistas e ministros de outras seitas e denominações que surgiram nos séculos XVII e XVIII. João Wesley (1703-1791) tornou-se o arminiano mais influente de todos os tempos. Seu movimento metodista adotou o arminianismo como teologia oficial e, através dele, tornou-se parte da tendência prevalecente na vida protestante da Grã-Bretanha e da América do Norte.

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Fonte:  Arminianismo

Fonte: Roger E. Olson, História da Teologia Cristã, 471-475