Francis Asbury – Por Deus e Pela Santidade

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Servindo a Deus até a MorteGSTS69420 II-10

 

FRANCIS ASBURY (1745-1816) foi um pregador itinerante tão entusiasmado por Cristo que um biógrafo escreveu: “Ele cobiçou todo o nosso continente com uma paixão tal que parecia ansioso por perder a própria vida na realização da obra”. [1]

 

Da Nova Inglaterra às Carolinas e do Atlântico ao Kentucky, Francis cruzou o país a cavalo em busca de almas. Ele cruzou as montanhas Allegheny cerca de sessenta vezes, muitas delas passando por lugares em que a estrada quase não existia. Ora montava em seu cavalo, ora conduzia o animal exausto. Apesar do físico debilitado, das frequentes doenças e de eventualmente estar com os pés inchados e doloridos devido ao reumatismo, ele sempre seguia adiante. Sua comida na maioria das vezes tinha de ser caçada e então assada em uma fogueira. Ele atravessava rios e, não raro, ficava ensopado de chuva. Carregava seus poucos pertences nas mochilas que levava consigo, e, quando não conseguia achar abrigo, descansava a cabeça em uma pedra ou no alforje. Era importunado por carrapatos e mosquitos. Sem se intimidar, encarava os perigos oferecidos pelas feras selvagens. Também enfrentou e escapou de emboscadas preparadas pelos índios.

Já no fim da vida, muitas vezes tinha de ser erguido até a sela. Mesmo quando os amigos tinham de amarrá-lo para que permanecesse sobre a sela, insistia em viajar para pregar em todos os lugares em que houvesse oportunidade. Houve ocasiões em que teve de ser amparado por duas pessoas para poder entregar a mensagem, e algumas vezes pregou sentado. Ele é considerado, com justiça, o pai do metodismo americano.

A mãe de Francis era uma mulher piedosa que gostava muito de ler a Bíblia e os sermões de John Wesley, fundador do metodismo (e quarenta anos mais velho que Asbury), e de George Whitefield (colega de Wesley). Francis começou a ler já com a idade de cinco ou seis anos e logo passou a ler a Bíblia por conta própria. Adorava ler e reler a história de Moisés e outras histórias bíblicas.

O professor da escola do povoado era um tirano e batia diariamente em Francis com seu cinto de couro, a ponto de ele repetidamente implorar para não ir à escola. “Não posso suportar ser espancado todos os dias”, reclamava. Mas não havia outro lugar onde obter instrução. Certo dia, Francis tirou a camisa e mostrou à mãe 24 manchas roxas que lhe cruzavam as costas. Chorando, sua mãe disse: “Lembre-se de que, enquanto estás na escola, estou de joelhos, orando por ti”. Com a idade de treze anos, ele abandonou a escola.

 

SALVO E CHEIO DO ESPÍRITO SANTO

 

Enquanto isso, Francis começava a buscar ao Senhor nas reuniões de oração em sua casa. Ele também manteve o hábito da leitura, sendo os diários de Wesley e Whitefield seus favoritos. Converteu-se com a idade de quinze anos. Aos dezesseis, contou que, enquanto orava com um amigo em um velho celeiro, “experimentou um maravilhoso sinal da graça de Deus, que algumas pessoas chamariam de santificação e [ … ] era de fato muito feliz”.[2] A partir de então, Francis jamais recuou. Aos dezessete anos, assumiu a posição de líder espiritual de uma “classe” metodista. Aos dezoito, foi nomeado o “pregador local” dos metodistas. Começou a viajar pelos municípios circunvizinhos, pregando de três a cinco vezes por semana.

Seguindo as recomendações de John Wesley, Francis levantava-se todos os dias às quatro da manhã para orar. Ele então partia em seu cavalo recém-adquirido, Thunder,[3] para visitar os pobres e doentes. Ele não conseguia afastar-se das casas dos necessitados. As tristezas que carregavam eram também dele, e o seu dinheiro também pertencia a eles.

A maior alegria de Francis era ver as pessoas entregarem a vida a Jesus. Ele adorava ver as congregações lotadas, cantando os magníficos hinos de salvação de Charles Wesley e lsaac Watts, com as mãos levantadas e os olhos cheios de lágrimas.

Aos 22 anos de idade, Francis foi “plenamente admitido” por John Wesley, na Conferência Metodista, e já começou recebendo compromissos ministeriais regulares. Escreveu: “Não trocarei minha sela por um assento na Câmara dos Lordes”. A primeira conferência à qual compareceu foi em Bristol, onde John Wesley pregou.

 

PARA A AMÉRICA

 

Quando Wesley, durante um sermão, convocou voluntários para pregar o Evangelho na América, Francis deu um salto e levantou-se, chorando copiosamente.[4] Isso significava dizer adeus aos pais e à namorada, para nunca mais tornar a vê-los. Embora estivesse sempre só, optou por passar o resto da vida solteiro. John Wesley confiava em Francis e nomeou-o para a função, mas não lhe deu nada para a viagem. Outros amigos deram-lhe algumas roupas e dez libras. Com isso, ele embarcou em um navio que levaria 54 dias para chegar à Filadélfia.

Francis chegou à Filadélfia em 27 de outubro de 1771 e compareceu a um culto naquela mesma noite. Na noite seguinte, pregou seu primeiro sermão no Novo Mundo. No dia posterior, conheceu uma mulher que carregara seu filho por 22 quilômetros para assistir ao culto e agora partia novamente para casa. Francis ficou profundamente comovido. Ele disse: “Talvez o Senhor a tenha enviado a fim de pregar para nós! Temos de trabalhar com mais afinco. O Novo Mundo precisa desesperadamente do Evangelho”.

 

PLANEJANDO E IMPLANTANDO IGREJAS

 

Francis ficou dez dias na Filadélfia e descobriu que, embora os metodistas nos Estados Unidos tivessem organizado várias igrejas, não estabeleceram rotas definidas. Como a viagem até Nova York levava dois dias, Francis planejou pregar pelo caminho. Uma vez em Nova York, ele imediatamente começou a pregar nas casas e nas igrejas. Mas seu coração logo se inquietou. Ansiava ir além dos limites das cidades e encontrar lugares em que pudesse fundar congregações de novos convertidos. Todos os dias ele planejava ou pregava. Estava decidido a iniciar, nos Estados Unidos, o sistema de circuito[5] que John Wesley havia inaugurado na Grã-Bretanha, onde já existiam quarenta circuitos.

A mensagem que Francis pregava aos fiéis de Nova York era: “Portanto, não durmamos como os demais, mas estejamos atentos e sejamos sóbrios”. Ele estava perturbado com o fato de os dois líderes metodistas nos Estados Unidos ficarem satisfeitos em permanecer nas cidades. Sentia que o chamado de Deus era para “espalhar a santidade das Escrituras em cada cidade ou vilarejo da América do Norte”. Para dar início ao cumprimento dessa visão continental, Francis começou a fazer viagens rápidas pela região vizinha e a realizar cultos em todo lugar em que isso lhe fosse possível. Sonhava e orava pelo estabelecimento de circuitos por toda a América e ansiava por dez pregadores para auxiliá-lo. Logo começou a ir além das cidades, a abrir novas trilhas, a dormir em abrigos temporários e a atravessar rios a nado, sempre planejando alcançar o povoado mais à frente.

Os anos seguintes foram preenchidos por um ministério incessante. Em 1772, antes que tivesse passado um ano da chegada de Francis aos Estados Unidos, John Wesley nomeou-o seu assistente, tornando-o líder de toda a obra metodista no país: Francis tinha apenas 27 anos. Um ano depois, John Wesley enviou Thomas Rankin, pondo-o como superior de Francis. Francis aceitou a mudança com a mais pura boa vontade e continuou a empenhar seu coração e sua alma na realização da obra.

Foi um período difícil para o ministério. Em 1776, os Estados Unidos declararam a independência da Inglaterra, e a guerra estourou. Rankin voltou à Inglaterra, assim como muitos outros líderes metodistas. John Wesley enviou uma carta aos Estados Unidos, insistindo na lealdade à coroa britânica. Isso preocupou muitos americanos, que começaram a ter a sensação de que os metodistas eram desleais.

Embora Francis admirasse Wesley, deplorou sua carta. As pressões dos que consideravam os metodistas desleais aumentaram, e Francis teve de se esconder por algum tempo. Uma carta que Francis escreveu aos amigos na Inglaterra, na qual expressava sua lealdade aos Estados Unidos, foi interceptada, e quando os líderes do governo descobriram que Francis não era desleal, ele mais uma vez ficou livre para dar continuidade ao seu ministério.

 

SUPERINTENDENTE NOS ESTADOS UNIDOS

 

No ano de 1784, John Wesley nomeou Francis Asbury e Thomas Coke superintendentes da obra nos Estados Unidos. Francis ainda tinha um grande sonho: ver o continente americano evangelizado para Cristo. Coke, no entanto, organizava viagens missionárias para diversas partes do mundo. Cruzou o Atlântico dezoito vezes, morando ora na Inglaterra, ora na Irlanda. Dessa forma, o fardo e a responsabilidade pelos Estados Unidos ficava quase todo sobre os ombros de Francis.

 

ABOLICIONISMO

 

Francis conheceu um ex-escravo chamado Harry Hosier, que fora maravilhosamente salvo, mas era incapaz de ler ou escrever. Deus havia chamado esse guerreiro de oração para pregar. Francis convidou Hosier para acompanhá-lo em algumas viagens, e logo Hosier tornou-se um orador ainda mais popular que Asbury. Isso não causava problema algum para Francis. Tudo o que ele desejava era ver cada vez mais almas serem salvas.

Francis afligia-se com a escravidão. Após almoçar com George Washington, instou-o a assinar a abolição da escravatura. Washington disse-lhe que concordava com seu ponto de vista, mas sentia que não era o momento para a assinatura de um documento daquela natureza.

 

O CUIDADO DE ASBURY COM OS

PREGADORES ITINERANTES

 

O ministério e a vida de um pregador itinerante eram tão árduos antes de 1800 que metade dos pregadores de Francis morriam antes dos 33 anos. De 1800 a 1844, metade deles viveu até os 33. Dos 672 pregadores dos quais temos notícia, dois terços conseguiram prosseguir com seu ministério por doze anos.[6] Eles serviam com o coração e com a alma. Francis exortava seus pregadores: “Devemos alcançar cada canto dos Estados Unidos – principalmente as novas fronteiras. Não devemos temer homens, demônios, animais selvagens nem doenças. Nosso lema deve sempre ser: Avante!”.[7]

Francis carregava um fardo especial pelos seus pregadores. À medida que ele ia multiplicando as rotas e nomeando pregadores, adicionava o nome de cada um a sua lista de oração diária, a qual somava centenas de nomes. Ele os encorajava a viver de forma simples e a permanecer solteiros, para que pudessem se dedicar ao ministério sem nenhum obstáculo. Deviam pregar sempre ao meio-dia, e os temas deveriam ser sempre o dom da graça, a salvação instantânea e a santificação, pelo enchimento do Espírito Santo e por uma vida de santidade. Ele os aconselhava a manter um cronograma rígido:

 

1. levantar-se às quatro horas da manhã, todos os dias;

2. orar todas as manhãs das quatro às cinco e novamente à tarde, das cinco às seis;

3. ler todas as manhãs, das seis até o meio-dia, com uma hora para o café da manhã, alimentando a mente e a alma com a Bíblia e com bons livros.[8]

 

QUANTO MAIS, MELHOR

 

Francis estava sempre preocupado com o tempo. Se conseguisse achar dois lugares para pregar durante o dia, ficava feliz. Se achasse três ou mais, melhor. Mesmo que fosse inverno, ele prosseguia. “Devo cavalgar ou morrer”, ele escreveu. À medida do possível, durante o tempo em que estava cavalgando, orava ou lia a Bíblia, um comentário bíblico ou outro livro de tema espiritual. Parava em cada casa ou povoado, pregando sempre que encontrava pessoas dispostas a ouvir. Visitava cadeias para evangelizar criminosos condenados e acompanhava-os ao local da execução.

Seguindo o conselho que John Wesley dava aos pregadores, Francis manteve um diário desde o início de seu ministério. Nele, podemos ler citações como estas:

 

• “O Senhor me capacitou a pregar com energia.”[9]

• “Senti a ajuda divina.”[10]

• “Há uma considerável obra de Deus.”[11]

• “Tivemos uma reunião poderosa.”[12]

• “Graças a Deus, minha pregação foi poderosa.”[13]

• “Oh, como desejo dedicar toda a minha vida e meus talentos a ele, que derramou seu sangue por mim.”

• “Não há nada que eu almeje além da glória de Deus; e nada que tema, além de seu desgosto […] Ainda que tenha de mendigar de porta em porta […] serei fiel a Deus, ao povo e a minha alma.”[14]

 

SANTIDADE AO SENHOR

 

Francis acreditava que a igreja devia ser formada por crentes renascidos e separados do mundo, que cressem na concreta ação purificadora do Espírito Santo após o novo nascimento, que se evidenciaria por uma vida de santidade. Eis outras citações extraídas de seu diário:

 

• “É pela santidade que meu espírito lamenta.”

• “’Que o Senhor abençoe seus santos! A santidade é a base de minha alma. Minha mais ardente oração é que não haja em mim nada oposto à santidade.”

• “Como anseio santificar-me cada vez mais – viver mais com Deus e para Deus!”

• “Este foi um dia de muito amor e poder de Deus em minha alma. Fiquei só e orei um pouco a cada hora, e Cristo estava perto e muito amoroso.”

Francis tinha três grandes estratégias para a evangelização e para uma igreja santificada. A primeira consistia na ampla utilização de pastores itinerantes. A segunda, no uso de conferências trimestrais e anuais. Ele compareda e presidia tantas quantas fossem possíveis. Uma conferência trimestral comum começava no sábado e prosseguia até o anoitecer do domingo. As pessoas dormiam no chão, nos bancos, ao ar livre, sob as carroças ou na casa de vizinhos. A manhã de domingo iniciava com uma grande e festiva reunião. Era um acontecimento restrito aos fiéis. Pão e água eram passados aos participantes, que comiam e bebiam. Eles testemunhavam, oravam, citavam passagens bíblicas, cantavam hinos e louvaram a Deus. O culto matinal começava às onze em ponto. Iniciava com batismos, seguidos de um longo sermão e da ceia do Senhor. O culto de domingo à noite era, por natureza, evangelístico. Não era incomum centenas de pessoas irem à frente para orar.

A terceira estratégia de Francis para a evangelização eram os acampamentos. O primeiro acampamento interdenominacional ocorreu em Cane Ridge, no Kentucky, no ano de 1801. Milhares de pessoas de quase todas as denominações vieram tanto de longe quanto das proximidades, e o encontro prosseguia dia e noite. O número de participantes variava de 12 a 25 mil pessoas. Centenas de pessoas prostraram-se diante do poder de Deus. Em alguns momentos, dois, três, quatro e até sete pregadores falavam ao mesmo tempo em diferentes partes da multidão. “O fogo celestial espalha-se em quase todas as direções.”[15] Um movimento de reavivamento acendeu-se entre as igrejas, e em muitos lugares os metodistas e os presbiterianos uniram esforços para a realização de acampamentos. Já em 1811, devido ao incentivo de Francis, os metodistas haviam realizado quatrocentos acampamentos por conta própria, e nos dez anos seguintes chegaram perto de mil acampamentos. Entre os que frequentavam os acampamentos e cantavam os hinos evangélicos estava Nancy Hanks, mãe de Abraham Lincoln.[16]

A essa altura, Francis Asbury já era a pessoa mais conhecida nos Estados Unidos, chegando a pregar na Assembléia Legislativa, em Washington.[17] Seu trabalho espalhava-se rápido e ia longe, mas sua saúde estava cada vez mais debilitada. Apesar disso, seguiu em frente até os últimos dias de sua vida. Quando já não conseguia cavalgar, era levado de charrete até o local do compromisso. Era carregado até a igreja ou casa, onde se sentava para pregar. Ele continuou ganhando almas, ordenando pregadores e indo de acampamentos para conferências.

 

MORTE E GLÓRIA

 

Um ano antes de Francis morrer, ele escreveu: “Os meus olhos estão falhando […] Este é o meu quinquagésimo quinto ano de ministério, e quadragésimo quinto ano na obra nos Estados Unidos […] Mas quer com saúde, quer na vida, quer na morte, boa é a vontade do Senhor: nele confiarei. Sim, e irei louvá-lo. Ele é a força de meu coração e minha porção por toda a eternidade. Glória! Glória! Glória!”.[18] Mesmo em seus últimos dias, ele ainda viajava de charrete e pregava. Em 31 de março de 1816, quando sua voz começava a diminuir, ergueu a mão, enquanto o rosto radiava uma exaltação celestial. “Sua face era como a face de um anjo.”[19] A família com quem estava reuniu-se, junto com outros amigos, para um culto. Um de seus cooperadores perguntou: “Você acredita que Jesus é precioso?”. Francis estava muito fraco para responder, mas ergueu ambas as mãos. Momentos depois, sua cabeça repousava no colo de seu colega. Ele morreu com 71 anos de idade.

Quando Asbury chegou aos Estados Unidos, existiam 1.160 metodistas. Quando ele morreu, havia 214.235. Ele ordenou mais de três mil pastores e pregou mais de dezessete mil sermões. Mais de catorze mil “classes” de metodistas se formaram. O movimento metodista tomou-se a denominação de mais rápido crescimento nos Estados Unidos, havendo um metodista para cada quarenta pessoas.[20]

Asbury foi temporariamente sepultado onde morreu. Seus restos foram mais tarde transportados para Baltimore. Vinte e cinco mil pessoas, fora toda a população de Baltimore, de cerca de cinquenta mil pessoas, marcharam no cortejo fúnebre por amor a Asbury. Em 1951, a Comissão Nacional de Publicações Históricas do Governo dos Estados Unidos da América escolheu 66 grandes americanos, cujos escritos deveriam ser preservados. Entre eles, estavam George Washington, John Adams, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln e Francis Asbury.

Em 1924, o presidente Calvin Coolidge inaugurou uma magnífica estátua de bronze de Asbury montado em um cavalo visivelmente cansado. Ela repousa sobre um pedestal de granito de 55 toneladas, em um cruzamento de Washington, DC.

Arnold J. Toynbee, um dos maiores historiadores do século XX, escreveu: “O mundo moderno de língua inglesa foi salvo nos séculos XVIII e XIX pelos metodistas”.[21] Isso é verdade. Dentre os maiores e mais santos, destaca-se Francis Asbury.

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Wesley L. Duewel Wesley L. Duewel

 

Fonte: Heróis da Vida Cristã, pp. 11-22

 

[1] Charles LUDWIG, Francis Asbury: God’s circuit rider, Milford: Mott Media, 1984.

[2] Ibid., p. 36.

[3] Trovão. (N. do T)

[4] Ibid., p. 54.

[5] No metodismo, “circuito” é um agrupamento de igrejas ou congregações numa mesma região. (N. do E.)

[6] Ibid., p. 158.

[7] Ibid., p. 158.

[8] Ibid., p. 160-1.

[9] Ibid., p. 86.

[10] Ibid.

[11] Ibid., p. 87.

[12] Ibid., p. 94.

[13] Ibid., p. 96.

[14] Ibid., p. 78.

[15] Ibid., p. 173.

[16] Ibid., p. 175.

[17] Ibid., p. 182.

[18] Ibid., p. 183.

[19] Maldwyn EDWARDS, Francis Asbury, Manchester: Penwork [Leeds], 1972, p. 9.

[20] Charles LUDWIG, Francis Asbury: God’s circuit rider, Milford: Mott Media, 1984, p. 185.

[21] Ibid., p. 189.

Defendendo o Cristianismo numa Cultura Secular

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Professor Ravi Zacharias Ravi - arminius hoje

Ataques contra os valores do Cristianismo são cada vez mais comuns na sociedade ocidental, e poucos são tão familiarizados com esses ataques do que Frederick Antony Ravi Kumar Zacharias, 66 anos, presidente da Ravi Zacharias International Ministries. Por 40 anos, Zacharias tem viajado o mundo debatendo com ateus e defendendo o cristianismo no campo secular, e proclamando a verdade através de seus programas de rádio diários e semanais nos Estados Unidos.

 

Ravi Zacharias é autor do livro “Sua Igreja está preparada?” (CPAD), em parceria com o teólogo norte-americano Norman Geisler, e que ganhou em 2008 o Prémio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra Estrangeira de Apologética Cristã lançada no país em 2007. Ele é também um dos autores das notas da “Bíblia de Estudo Defesa da Fé” (CPAD).

A entrevista a seguir foi feita originalmente pelo jornalista Richard L. Schoonover, da revista de reflexão teológica “Enrichment Journal”, da Assembleia de Deus norte-americana. Nela, Zacharias discute alguns dos problemas enfrentados na cultura de hoje e como as igrejas, pastores e crentes em geral podem responder a esses ataques. Abaixo, você verá a íntegra desta entrevista publicada originalmente no jornal Mensageiro da Paz de maio de 2012 (edição 1.524).

 

O que está destruindo o fundamento moral e espiritual da sociedade de hoje?

Eu acredito que uma convergência de muitos fatores. Grande parte da educação na década de 1960 já era desarticulada de quaisquer absolutos morais e valores éticos, como podemos ver, por exemplo, no livro “Excellence Without Soul” (“Excelência Sem Alma”), de Harry R. Lewis. Temos visto isso acontecer nos últimos 40 anos, inclusive com muitas vozes alertando-nos para isso. Porém, mais do que uma nova filosofia tomou lugar; um novo estado de espírito também.

Primeiro, a secularização, de forma geral, estabeleceu que as ideias religiosas, instituições e interpretações perderam seu significado social. As pessoas gostaram dessa ideia de sociedade secular e governo secular. Mas, em termos de valores morais e ética, elas não atentaram para o fato de que as premissas internas da secularização tornariam a sociedade aberta a praticamente qualquer ponto de vista sobre qualquer assunto. A partir dos anos de 1960, o estado de espírito promovido pela secularização levou a sociedade à perda da vergonha.

Em seguida, a pluralização, que soa como uma ideia prática e digna, e de muitas maneiras o é. No pluralismo, você tem um número de visões de mundo concorrentes que estão disponíveis e nenhuma visão de mundo é dominante. Mas, contrabandeado para a pluralização veio a absolutização do relativismo. A única coisa da qual podíamos ter certeza era que todas as escolhas morais eram relativas e não havia nenhum ponto de referência para o certo e o errado. Isso resultou na morte da razão.

 

O último fator é o que chamo de privatização da religião, que é uma acomodação da mentalidade religiosa. Se a secularização e a pluralização estavam prevalecendo, o que a sociedade deveria fazer com o grande número de pessoas que têm uma mentalidade religiosa?

Ser religiosamente inteligente estava bem, enquanto as pessoas mantivessem as suas crenças espirituais em privado em vez de trazê-las para a arena pública. A ironia disso foi o fato de a secularização – que tem seus pressupostos como absolutos e nega qualquer coisa de natureza metafísica – ter sido autorizada a entrar no local público, mas para quem acredita em uma essência espiritual, em uma realidade última, na realidade de absolutos transcendentes que precisam ser observados, foi dito para manter essas crenças em privado. Finalmente, abriu-se o caminho para a perda de significado.

Esses três modos – secularização, pluralização e privatização – trouxeram a perda de vergonha, a perda da razão e a perda de sentido. E como foi que essa nova autoridade pontificou na tensão social? Quando a filosofia entrava em cena, os moralistas contra a moralidade entravam, e o politicamente correto veio em seguida. Isso deu à sociedade alguns parâmetros que lhe permitiram expulsar o moralizador da esfera secular. Como resultado, tudo se tornou pragmática. Filósofos e naturalistas pisaram fundo. Neste novo século, perdemos todas as definições do que significa ser humano. A sexualidade, a vida pessoal e a casa são tudo. Estamos em alto mar, lutando contra uma tempestade de visões de mundo conflitantes sem uma bússola.

 

Alguma mudança está ocorrendo na sociedade de hoje em relação ao cristianismo e à Igreja. Explique.

A mudança que está ocorrendo é muito calculada. As religiões orientais são protegidas na sociedade de hoje, as críticas às religiões orientais são vistas como culturalmente insensíveis e preconceituosas. Mas, a fé cristã, que é a marca da cultura ocidental (e que as pessoas esquecem que veio do Oriente), é agora o alvo. A sociedade é livre para atacar qualquer aspecto do cristianismo.

Nas últimas primárias para a corrida presidencial, era impressionante observar como os especialistas descreviam o pré-candidato republicano Mike Huckabee sempre como um pastor batista, um religioso, e como descreviam o pré-candidato Mitt Romney sempre como mórmon e que representaria a sua fé religiosa. E era fascinante que, ao mesmo tempo, a mídia, de uma forma calculada, não mencionava o nome do meio de Barack Obama – Hussein – porque isso poderia ser visto pela sociedade como religiosamente prejudicial para ele. Esse é um ataque claro à visão de mundo judaico-cristã, a única visão de mundo que poderia justificar a existência de uma nação como os Estados Unidos.

A visão de mundo judaico-cristã é o alvo da mídia ocidental. A mídia é o único grande destruidor da noção dos absolutos e da visão de mundo judaico-cristã. Quando estou no exterior, vejo esses ataques em artigos nos jornais ocidentais e no jornalismo da televisão. Acabei de voltar da Tailândia e de Cingapura. Cada shopping que atravessei nesses países estava tocando músicas natalinas. Uma das árvores de Natal mais altas do mundo estava no Central World Plaza, em Bangkok, Tailândia. Árvores de Natal e decorações de Natal encheram as ruas de Cingapura e canções estavam sendo tocadas lá. Nos Estados Unidos, os cristãos se perguntam se eles podem até mesmo fazer isso ainda sem que alguém questione se deveriam reconhecer o Natal no mercado. O que aconteceu? A visão de mundo judaico-cristã tornou-se o enteado pária das visões de mundo e está sendo atacada enquanto outras cosmovisões são respeitadas, reverenciadas e reconhecidas como parte da história e da cultura de outras nações.

 

Qual é a base deste ataque calculado?

Eu não tenho certeza se posso localizá-lo, mas acho que os sintomas da decadência cultural eram evidentes a partir da década de 1960 – mudanças nas crenças sobre a sexualidade e sobre o direito de uma criança viver no ventre de sua mãe. Os que estão na vanguarda do cristianismo popular, e que se opunham a essas mudanças, foram atacados porque a sociedade os vê como inibidores ao progresso e à liberdade de outras cosmovisões. A mídia não se dá conta de como seria inibir algumas religiões orientais se elas mantivessem o domínio na nossa sociedade. Por alguma razão, eles acham que fazer isso com os cristãos é jogo justo, e que podem atacar a cosmovisão cristã.

Outro motivo para este ataque são os conflitos que surgiram na paisagem moral. Aqueles que questionam essa degenerescência moral eram vistos como provenientes da visão de mundo judaico-cristão, e eles tiveram de ser silenciados. Samuel Harris e Daniel Dennett diziam que inibições e visões preconceituosas sobre a sexualidade chegaram até nós a partir da cosmovisão cristã. Portanto, a cosmovisão cristã é o inimigo a ser retirado.

 

Parece haver uma proliferação de livros e filmes, como “O Código Da Vinci” e organizações como o Seminário Jesus, que estão atacando os fatos bíblicos e históricos da vida de Cristo, como sua morte e ressurreição? Por quê?

Isso não é acidental, e também não acho que seja o fim. Alguns desses ataques morrerão de morte natural. Esses ataques têm uma vida útil limitada. Muitos já tentaram esses truques antes. Quando a filosofia e o naturalismo atacaram a fé cristã e as visões de mundo teístas em geral, eles começaram com um ataque contra os argumentos clássicos da existência de Deus. O argumento cosmológico – que argumenta a partir de causalidade – afirma que tudo o que vem a ser não poderia ter a causa em si mesmo, mas tinha que ter algo para causá-lo. Mas, não pode haver uma regressão infinita dessas causas. Finalmente, você deve parar em um ser sem causa. Uma vez que nada neste mundo físico parece ser sem causa, a única maneira de ter um ser sem causa é que ele seja espiritual. O argumento cosmológico foi na convergência de outras linhas para provar a existência de Deus. De repente, os naturalistas entraram na briga e disseram: “Por que tudo tem que ter uma causa? Se tudo tem que ter uma causa, e se há uma causa que não foi causada, portanto esse argumento é auto-destrutivo”. Trata-se de uma distorção completa do argumento. Ninguém disse que tudo precisa ter uma causa. O que é dito é que tudo que vem a ser para ser precisa de uma causa, e nada no mundo físico é sem causa. Tudo tem uma explicação para fora de si. É assim que o argumento segue. Mas, de alguma forma, David Hume e outros no século 18 desafiaram o argumento de causalidade até que as pessoas cansaram de ouvir isso.

Temos ainda o argumento etiológico, que não argue simplesmente a partir de design, mas a um design. Toda vez que você vê na natureza inteligibilidade, complexidade específica ou um efeito inteligente, você assume que há uma inteligência e uma causa por trás dela. Os naturalistas propuseram um mundo aleatório e argumentam contra o design intencional, e eles não foram capazes de assumir o argumento moral. Não importa o quanto eles argumentaram contra ele, havia sempre aquela sensação de um impulso moral dentro da humanidade. As pessoas não podiam agir como se não houvesse uma lei moral. Mas, a razão sozinha não o levará o ateu a própria admissão. John Mackie, e especialmente Kai Nielsen, um ateu bem conhecido do Canadá, disseram: “Você realmente não pode argumentar racionalmente contra o argumento moral. Talvez de forma pragmática, mas racionalmente você não pode”. Assim, o argumento moral é um espinho para os ateus. Como eles poderiam acabar com ele? Ora, tentar fazer um Jesus que é como nós e imoral é uma tentativa de  tentar atacar esse argumento.

Naturalistas não derrubaram o argumento cosmológico, mas acham que fizeram. Eles também acham que danificaram o argumento etiológico, o que não é verdade. E não poderiam deixar escapar o argumento moral. Assim, “O Código DaVinci”, “O Evangelho de Judas” e “O Evangelho de Filipe” entraram em voga. Esses escritos gnósticos foram para tentar criar a ideia de que Jesus teve alguns problemas particulares morais. A tentativa é atacar o argumento moral. É engraçado que nunca foram para o Alcorão ou o Gita para procurar falhas morais das personalidades-chave representados lá. Eles teriam encontrado terreno suficiente para mostrar problemas morais nesses lugares. Em vez disso, eles atacaram o Cristo das Escrituras, que é tão puro, tão puro, e assim demonstrativo de tudo o que é puro e bom.

 

Por que a divinidade de Cristo sob ataque?

Se as pessoas podem negar a divindade de Cristo, então eles afastará as pessoas do Evangelho. Se eles podem atacar Cristo e torná-lo parecido com o que eles querem que ele pareça, então eles terão retirado a autoridade máxima.

 

Por que o pluralismo religioso não é filosoficamente possível?

O pluralismo religioso é um sistema de crença que soa bem, mas faz desserviço a todas as religiões. Todas as religiões são exclusivas. Mesmo o naturalismo, que se apresenta como irreligião, é exclusiva. Cada religião tem os seus pontos de partida e suas deduções, e esses pontos de partida excluem. Por exemplo, o hinduísmo tem duas inegociáveis crenças: o karma e a reencarnação. Nenhum hindu vai trocá-las ou deixá-las de lado. No budismo, existe a negação da noção essencial de si mesmo. Os budistas acreditam que o eu como o entendemos não existe, e deixar o nosso desejo resulta no fim de todo sofrimento. Se negarmos essas premissas, negamos o budismo. O naturalismo ensina que o sobrenatural ou o metafísico estão fora do reino das provas e são puramente uma opinião e não uma questão de fato. O islã acredita que Maomé é o último profeta e o Alcorão, a revelação perfeita. Se negarmos essas duas premissas, negamos o islã. Na fé cristã, nós acreditamos que Jesus é Deus encarnado, o Salvador e Redentor do mundo. Não podemos negar essas premissas e continuarmos a ser cristãos. A questão não é se essas premissas todas são mutuamente exclusivas, mas qual destas vamos negar como sendo não razoáveis ou inconsistentes. Qual dessas é que seremos capazes de sustentar por meio de argumentos e provas? Nós podemos ter o pluralismo na cozinha, nos estilos de roupa e em outras coisas. Mas, se o pluralismo significa relativismo ideacional e a destruição da lei da não-contradição, é absolutamente insuportável e impensável.

 

Parece que em alguns dessas diferentes visões falta o mesmo grau de consistência lógica encontrado no cristianismo.

Certo. De fato, mesmo alguns dos grandes sábios dessas outras visões do mundo concorda. Mahatma Gandhi, em um de seus escritos, declarou que desejava que alguns aspectos do seu próprio sistema de crenças pudessem ser permanentemente apagados, porque muito deles eram um disparate. Mesmo Gandhi irá dizer-lhe isso. Muito do que está em um dos primeiros escritos sagrados hindus, o Veda, é irracional e inaceitável. Consideramos alguns dos comportamentos e práticas de Maomé em sua própria vida pessoal reprováveis se praticados dentro de nossa cultura hoje. A negação do desejo é o fundamento do Budismo, que é o único caminho que conduz à falta de sofrimento. No entanto, o principal motivo de as pessoas darem ao Dalai Lama destaque é a luta pela liberdade do Tibete. Eu concordo com isso. Concordo que precisa adquirir a liberdade política, mas por que ele mesmo deseja a liberdade política, se ele é a representação por excelência do Buda supremo?

Outro exemplo é o karma. Se cada vida é um renascimento, e cada nascimento é um renascimento, e cada nascimento é um renascimento de práticas anteriores cármicas, o que estava sendo pago no primeiro nascimento? Você não pode ter uma série infinita de renascimentos ou você não estaria neste nascimento. Isso é o que levou à conversão de um dos meus melhores amigos hindus. Ele disse que simplesmente não faz sentido. Ele tinha que ter um primeiro nascimento. O que ele estava pagando em seu primeiro parto? Ele disse: “Se eu for para o banco, cada gerente de banco vai me dizer que minha dívida é o que devo. Que tipo de sistema é este em que eu não tenho ideia sobre o que devo e quantos nascimentos vai demorar para eu pagar de volta?”.

 

A mentalidade secular parece ter invadido a igreja. Qual o resultado presente disso para a igreja?

A mentalidade secular se manifesta em algumas formas – não em todas as formas – na igreja emergente. Esse é um fenómeno perigoso, e alguns de seus protagonistas subestimam seus resultados finais. Quando você pensa que cada geração tende a afastar-se da anterior, algumas formas de igrejas emergentes hoje estão flertando com a extinção do Evangelho, inclusive no seu coração, que é a cruz de Jesus Cristo. Duas coisas aconteceram na mentalidade secular. Primeiro, pessoas de mentalidade secular para não levar a igreja a sério: em primeiro lugar, a igreja não está respondendo às suas perguntas; em segundo lugar, aqueles dentro da igreja são tímidos e incapazes de sustentar o lado sobrenatural de suas crenças em um mundo altamente naturalista. O que resta, então, neste tipo de sistema de crença religiosa é uma espiritualidade que não precisa se defender, porque é puramente uma coisa particular que não moraliza ou pontifica para ninguém. Torna-se um sentir-se bem, ser silencioso e obter-o-melhor estado-de-espírito-de-final-de-dia da religião. Absolutos morais? Uma revelação de Deus, que tem limites morais para nós? Não, isso torna-se insustentável. Assim, a igreja, quando ela não responde à mentalidade secular e não prepara o seu próprio povo, torna-se secularizada. No final, torna-se a espiritualidade sem verdade, sem referência e experiência objetiva.

O membro da igreja média hoje é despreparado e mal equipado para enfrentar os ataques que estão chegando para nós com força total. Estamos deixando nossos jovens, homens e mulheres que estão frequentando universidades, como cordeiros levados ao matadouro.

 

Fonte: http://www.cpadnews.com.br/integra.php?s=20&i=13224

 

Com Tudo o Que Possuis, Adquire a Unção

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Leonard Ravenhill - arminianismo

 

 

Leonard Ravenhill

“Por mais erudito que um homem seja, por mais perfeita que seja sua capacidade de expressão, mais ampla sua visão das coisas, mais grandiosa sua eloquência, mais simpática sua aparência, nada disso toma o lugar do fervor espiritual. É pelo fogo que a oração sobe aos céus. O fogo empresta asas à oração, dando-lhe acesso a Deus; comunica-lhe energias e torna-a aceitável diante do Senhor. Sem fogo não há incenso; sem fervor não há oração.” E. M. Bounds

 

“Pela fé e pela oração, fortaleça as mãos frouxas e firme os joelhos vacilantes. Você ora e jejua? Importune o trono da graça e seja persistente em oração. Só assim receberá a misericórdia de Deus.” João Wesley

 

“Antes de ocorrer o grande avivamento de Gallneukirchen, Martin Boos passava horas e horas, dias e dias, e até noites em oração, intercedendo sozinho, agonizando perante Deus. Mas quando ele pregava, sua palavra era como fogo, e o coração dos ouvintes, como capim seco.” D. M. McIntyre, D. D.

 

Na igreja moderna, a reunião de oração é uma espécie de Cinderela. Essa serva do Senhor é desprezada e desdenhada porque não se adorna com as pérolas do intelectualismo, nem se veste com as sedas da Filosofia, nem se acha ataviada com o diadema da Psicologia. Mas se apresenta com a roupagem simples da sinceridade e da humildade, e por isso não tem receio de se ajoelhar.

 

O “mal” da oração é que ela não se acha necessariamente associada a grandes façanhas mentais. (Não quero dizer, porém, que se confunda com preguiça mental.) A oração só exige um requisito: a espiritualidade. Ninguém precisa ser espiritual para pregar, isto é, a preparação e pregação de um sermão perfeito segundo as regras da homilética e com exatidão exegética, não requer espiritualidade. Qualquer um que possua boa memória, vasto conhecimento, forte personalidade, vontade, autoconfiança e uma boa biblioteca pode pregar em qualquer púlpito hoje em dia. E uma pregação dessas pode sensibilizar as pessoas; mas a oração move o coração de Deus. A pregação toca o que é temporal; a oração, o que é eterno. O púlpito pode ser uma vitrina onde expomos nossos talentos; o aposento da oração, pelo contrário, desestimula toda a vaidade pessoal.

 

A grande tragédia de nossos dias é que existem muitos pregadores sem vida, no púlpito, entregando sermões sem vida, a ouvintes sem vida. Que lástima! Tenho constatado um fato muito estranho que ocorre até mesmo em igrejas conservadoras: a pregação sem unção. E o que é unção? Não sei. Mas sei muito bem o que é não ter unção (ou pelo menos sei quando não estou ungido). Uma pregação sem unção mata a alma do ouvinte, em vez de vivificá-la. Se o pregador não estiver ungido, a Palavra não tem vida. Pregador, com tudo que possuis, adquire a unção.

 

Irmão, nós poderíamos ter a metade da capacidade intelectual que possuímos se fôssemos duas vezes mais espirituais. A pregação é uma tarefa espiritual. Um sermão gerado na mente só atinge a mente de quem o ouve. Mas gerado no coração, chega ao coração. Um pregador espiritual, sob o poder de Deus, produz mentalidade espiritual em seus ouvintes. A unção não é uma pombinha mansa esvoaçando à janela da alma do pregador; não. Pelo contrário; temos de batalhar por ela e conquistá-la. Também não é algo que se aprenda; é bênção que se obtém pela oração. Ela é o prêmio que Deus concede ao combatente da fé, que luta em oração, e consegue a vitória. E não é com piadinhas e tiradas intelectuais que se chega à vitória no púlpito, não. Essa batalha é ganha ou perdida antes mesmo de o pregador pôr os pés lá. A unção é como dinamite. Não é recebida pela imposição de mãos, nem tampouco cria mofo se o pregador for lançado numa prisão. Ela penetra e permeia a alma; abranda-a e tempera-a. E se o martelo da lógica e o fogo do zelo humano não conseguirem quebrar o coração de pedra, a unção o fará.

 

Que febre de construção de templos estamos presenciando hoje. No entanto, sem pregadores ungidos, o altar dessas igrejas não verá pecadores rendidos a Cristo. Suponhamos que todos os dias diversos pescadores saiam para o alto-mar com seus barcos, levando o mais moderno equipamento que existe para o exercício deste ofício, mas retornem sempre sem apanhar um só peixe. Que desculpa poderiam dar para tal fracasso? No entanto é isso que acontece nas igrejas. Milhares delas estão abrindo as portas dominicalmente, mas não veem conversão. Depois tentam encobrir sua esterilidade interpretando textos bíblicos a seu bel-prazer. Mas a Bíblia diz: “Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia…”

 

E o mais triste em tudo isso é que o fogo que devia haver nesses altares encontra-se apagado ou arde em combustão muito lenta. A reunião de oração está morrendo ou já morreu. Com a atitude que temos em relação à oração, estamos dizendo ao Senhor que o que ele começou no Espírito, nós terminaremos na carne. Qual é a igreja que pergunta a um candidato ao ministério quanto tempo ele passa diariamente em oração? A verdade é que o pregador que não passa pelo menos duas horas por dia em oração, não vale um vintém, por mais títulos que possua.

 

A igreja hoje se acha como que postada na calçada assistindo, entre aflita e frustrada, à parada dos maus espíritos (…) que marcham pomposamente no meio da rua respirando ameaças contra “tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama”. Além disso, no lugar da regeneração, o diabo colocou a reencarnação; no lugar do Espírito Santo, os espíritos-guias; no lugar do verdadeiro Cristo, o anticristo.

 

E o que a igreja tem para contrapor aos males da pós-modernidade? Onde está o poder espiritual? A impressão que se tem é que, ultimamente, uma forte sonolência tomou o lugar da oposição religiosa, nos púlpitos e também nas publicações evangélicas. Quem hoje batalha “diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”? Onde estão os combatentes divinamente ungidos de nossos púlpitos? Os pregadores, que deviam estar “pescando homens”, parecem estar pescando mais é o elogio deles. Os que costumavam espalhar a semente, agora estão colecionando pérolas intelectuais. (Imagine só, semear pérolas num campo!)

 

Chega dessa pregação estéril, espiritualmente vazia, que é ineficaz, porque foi gerada num túmulo e não num ventre, e se desenvolveu numa alma sem oração, sem fogo espiritual! É possível alguém pregar e ainda assim se perder; mas é impossível orar e perecer. Se Deus nos chamou para o seu ministério, então, prezados irmãos, insisto em que precisamos de unção. Com tudo que possuis, adquire a unção, senão os altares vazios de nossas igrejas serão exemplos vivos de nosso intelectualismo ressequido.

 

Artigo adaptado do livro Por que Tarda o Pleno Avivamento?, publicado pela Editora Betânia

Deus se Importa Com as Pessoas

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Uma Perspectiva Pentecostal de Lucas/Atos

 

Craig S. KeenerCraigSKeener-letrasanta

 

Everett e Esther Cook eram plantadores de igrejas pentecostais, aposentados, do oeste dos Estados Unidos. Eu os encontrei quando estavam à frente do Springfield Victory Mission, em Missouri, utilizando a renda da aposentadoria da Brother Cook. Everett e Esther Cook mentorearam alguns alunos do Central Bible College, inclusive eu. Eu ajudava na missão, colocando em prática o que estava aprendendo com a Bíblia e com o livro de Ronald Sider intitulado Rich Christians in Age of Hunger (Cristãos Ricos em Tempos de Fome).

 

O ministério dedicado aos pobres tem sido sempre uma ênfase pentecostal importante – a começar no Dia de Pentecostes. Depois do primeiro derramar do Espírito de Deus e da pregação pentecostal de Pedro, os cristãos passaram a viver sob a outorga de poder pelo Espírito (At 2.41-47). Isso incluía não somente sinais e maravilhas, oração corporativa e devoção ao ensino dos apóstolos, mas um estilo de vida radicalmente novo de servir e compartilhar. Porque aqueles cristãos amavam seus irmãos cristãos mais do que amavam suas posses, estavam predispostos a dividi-las para atender a necessidade de outros (At 2.44). Sempre que alguém se encontrava em necessidade, aqueles que possuíam mais que o suficiente para viver, vendiam o que tinham a mais para atender à necessidade de outros (2.45). Quando lemos a respeito de koinonia (comunhão) em Atos 2.42, às vezes pensamos somente em bater um papo depois de um culto (agradável como é), porém, os “irmãos” cristãos iam além do mero bate-papo para se envolverem profundamente na vida e na necessidade uns dos outros. O termo grego koinonia aparece em documentos comerciais antigos para parceiros econômicos e acionistas e, às vezes, carrega este significado no Novo Testamento também (2 Co 8.4; 9.13). Paulo comumente utilizava o verbo com este significado (Rm 12.13; 15.27; Gl 6.6, Fp 4.15).

 

Depois de a igreja orar, ao enfrentar perseguição, para que lhes concedesse coragem através de sinais e maravilhas, Deus derramou Seu Espírito mais uma vez. Um dos resultados deste derramamento foi os cristãos novamente cuidarem dos necessitados entre eles (4.31-37). Este padrão de cuidado com os pobres prosseguiu no Livro de Atos (por exemplo, 9.36-39), finalmente atravessando fronteiras culturais para servir outros grupos de necessitados cristãos na mesma cidade (6.1-6) e em fronteiras geográficas para servir igrejas necessitadas em outras localidades (11.29-30; 24.17). Esse ministério prosseguiu além da conclusão do Livro de Atos e além da preocupação com os irmãos cristãos (exemplo: Tg 5.4-5, Am 2.1), embora necessariamente tivesse que começar lá. Em meados do século II, os pagãos ricos começaram a instigar os cristãos a não cuidarem somente de seus próprios pobres, mas também os do mundo pagão. Enquanto os pagãos ricos reclamavam, a Igreja estava convertendo a maioria empobrecida de seus impérios.

 

Onde os primeiros cristãos aprenderam a servir uns aos outros dessa maneira? O Espírito deu-lhes o poder para sacrificar em prol do Reino. O aspecto mais proeminente de Seu fruto em nossas vidas é o amor (Gl 5.22). Mas o ensino e o exemplo de Jesus mostravam-lhes como o amor pode ser concretamente expresso e o Evangelho Segundo Lucas apresenta este ensino com riqueza de detalhes. Porque Lucas escreveu para que fossem lidos juntos o Evangelho Segundo Lucas e o Livro de Atos, conseguimos entender melhor o estilo de vida radical de serviço compassivo da primeira igreja pentecostal, e o que as nossas igrejas deveriam ser, examinando-se o ensino do Evangelho que a conduzia a isso.

 

A MISSÃO DE JESUS PARA O POBRE

 

Os escritores antigos, assim como os modernos, normalmente pautavam logo no início sua tese central e sintetizavam os pontos centrais em seus trabalhos. Muitos eruditos consideram Lucas 4.18-27 como o sermão programático do Evangelho Segundo Lucas, da mesma forma que Atos 1.8 e 2.17-21 expõem os temas a serem tratados no Livro de Atos. Os temas desta passagem (Jesus sendo ungido pelo Espírito, At 4.27; 10.38) são apresentados mais tarde em Lucas-Atos. A menção a Jesus pelo ministério de profetas anteriores para uma viúva estrangeira e um leproso prefigura não somente Seu próprio ministério a viúvas e leprosos no Evangelho (por exemplo, Lc 5.12-13; 7.12), mas também o ministério da Igreja para gentios no Livro de Atos. Jesus cumpriu a promessa de Isaías de que Ele pregaria as boas-novas aos pobres (Lc 6.20-25) e, mais tarde, disse a João que os sinais do Reino incluem os pobres ouvindo as boas novas (Lc 7.22).

 

Como a missão de Jesus no Evangelho Segundo Lucas nos afeta? Porque o batismo de Jesus no Espírito e a missão no Evangelho Segundo Lucas prefiguram a experiência e o ministério da Igreja em Atos, Seu modelo e missão permanecem válidos para Seus seguidores. Embora o enfoque no segundo volume de Lucas seja especialmente o evangelismo transcultural com outorga do Espírito (missões, At 1.8), o ministério aos pobres que sucedeu os derramamentos do Espírito demonstra que esta ênfase no Evangelho permanece válida para a igreja de hoje também (At 2.44, 45; 4.32-34). Nós somos chamados primeiramente para evangelizar o mundo; mas somos chamados também para cuidarmos do mundo que estamos evangelizando.

 

Jesus anunciou Sua missão baseado em um texto das Escrituras extraído de Isaías (Is 61.1-2 em Lc 4.18, 19). Seus ouvintes, conhecedores também do Livro de Isaías, estariam, portanto familiarizados com a ênfase do profeta em cuidar dos pobres e estabelecer justiça na sociedade. Se Israel negligenciasse estas questões, seus rituais religiosos não impressionariam a Deus de forma alguma e Ele não consideraria suas orações (Is 1.11-17; 58.5-7). Isaías denunciou aqueles que estavam oprimindo o pobre (por exemplo, Is 10.2), preocupados somente com acumular mais para si (Is 5.8); exortou os líderes da sociedade, que deveriam ter estabelecido justiça com maior responsabilidade (Is 3.14, 15). Outros profetas também vindicavam justiça, inclusive Amós, um dos contemporâneos de Isaías (por exemplo, Am 2.6, 7). Tanto quanto Isaías, Amós arrazoava que os sacrifícios e a religião exterior são vãos, a menos que trabalhemos para transformar a sociedade moralmente, estabelecendo justiça para aqueles que estão sendo maltratados (Am 5.21-24). Assim como o primeiro público de Jesus, nós estamos familiarizados com outras passagens relevantes dos profetas; por exemplo, defender os direitos dos necessitados é intrínseco ao nosso relacionamento com Deus (Jr 22.16). Entre os pecados de Sodoma estava o de ignorar o pobre (Ez 16.49); e mesmo um reino pagão poderia estender sua longevidade ao demonstrar misericórdia para com os necessitados (Dn 4.27).

 

O público de Jesus na sinagoga estava também familiarizado com uma passagem anterior na Lei, à qual o próprio Isaías pode ter feito alusão. A “liberdade aos cativos” e o “ano do Senhor” de Isaías 61.1, 2 deveria ecoar como ensino bíblico sobre o Ano do Jubileu (Lv 25). Porque a economia de Israel antigamente era agrária, baseada na propriedade da terra, somente aqueles que detinham terra poderiam ter a esperança de gerar seu próprio sustento. Quando algumas pessoas no mundo antigo provavam-se incapazes de sustentar a si mesmas ou eram vendidas como escravas para liquidar suas dívidas ou a porção de terra do qual dependiam era vendida. Enquanto em Israel predominava o mesmo sistema, Deus lhe reservava um plano especial. Uma vez em cada geração, todas as dívidas eram baixadas. Significava que cada geração poderia recomeçar e todo mundo partiria da mesma base para gerar seu sustento. A pobreza não se tornava um ciclo entre as gerações que mantivesse uma classe inteira de pessoas reféns permanentes de uma subclasse. Não vivemos de fato em uma sociedade agrária; para muitas pessoas hoje a educação, o conhecimento de informática e outras fontes são mais relevantes para se ganhar a vida do que a terra. Porém, os princípios básicos de buscar justiça para o nosso próximo permanecem os mesmos.

 

Jesus mencionou este texto porque descrevia acuradamente a Sua missão. Isaías falou sobre o ungido pelo Espírito para Sua missão e Jesus havia acabado de experimentar esta unção. O Espírito desceu sobre Jesus em Seu batismo (Lc 3.21, 22), conduziu-O ao deserto (4.1), onde foi provado, e O fez retornar (4.14). Jesus também ministraria aos grupos apresentados por Isaías: os pobres, os cativos (Lc 13.15, 16), o cego (7.21, 22; 18.35-43) e o oprimido (incluindo outros grupos marginalizados). Destes grupos, o Evangelho Segundo Lucas enfoca especialmente os pobres. A ênfase de Jesus no cuidado para com o necessitado em Seu exemplo e ensino explica porque os primeiros cristãos depois do Pentecostes sabiam como levar adiante sua missão.

 

ENSINOS SOBRE PARTILHAR RECURSOS NO EVANGELHO SEGUNDO LUCAS

 

João Batista, que preparou o caminho para Jesus, pregou o arrependimento como o caminho para preparar para a vinda do Reino (Lc 3.3-8), exatamente como Pedro pregaria no dia do Pentecostes (At 2.38). O que envolvia este arrependimento, em termos práticos? Quando as multidões fizeram a João esta mesma pergunta, ele respondeu que a pessoa que tivesse duas túnicas deveria dar uma a quem não tivesse nenhuma (Lc 3.10, 11). Alguns campesinos que ouviam João poderiam ter uma túnica somente, mas muitos poderiam ter duas. Podemos imaginá-los sentindo-se desconfortáveis com este pedido de sacrifício.

 

Leitores modernos costumam interpretar a passagem como hipérbole (isto é, uma afirmação retórica exagerada para reforçar um ponto). É, na verdade, possível ler esta passagem como hipérbole, mas somente se mantivermos em mente que o propósito da hipérbole seja o de comunicar graficamente um ponto básico, não permitir que simplesmente releguemos o ponto, dizendo: “Esta passagem é apenas uma hipérbole!”. O ponto de pregação de João é o que precisamos para cuidar de outras pessoas mais do que cuidamos de nós mesmos; e, se tivermos mais que o necessário, devemos estar prontos para compartilhar com aqueles que têm menos do que precisam.

 

Em uma cultura onde as pessoas avançavam convidando amigos ou outras pessoas honoráveis para banquetes, Jesus enfatizou convidar os pobres e renegar os que não poderiam reembolsar seus anfitriões (Lc 14.13-21). Como recursos compartilhados com os necessitados que ajuntaram tesouro no céu (12.33-34), os convites para esta ceia procuravam uma recompensa mais elevada que aquela disponível nesta terra. Convide aqueles que não podem recompensar você, disse Jesus, e Deus lhe recompensará no julgamento (14.14). Quando enviou seguidores para Sua primeira missão evangelística, Jesus instruiu-os a curar os enfermos e também a viajarem com simplicidade, vivendo com a simplicidade dos pobres em meio aos quais estariam ministrando (Lc 9.3; 10.4). (Aproximadamente entre 70 e 90% dos galileus eram camponeses empobrecidos. Pescadores não eram homens tecnicamente ricos, mas estavam em melhor situação que muitos outros galileus). Era para focarem no serviço e não no status ou na remuneração.

 

Embora mostrasse grande compaixão pelos necessitados e recebesse de bom grado os pecadores confessos, Jesus era muito mais severo com as pessoas que se davam por satisfeitas em termos sociais ou religiosos. Quando estou mais satisfeito, fico com frequência mais complacente e preciso de palavras mais firmes para dimensionar a minha atenção. Eu desconfio que muitas outras pessoas, lá atrás e ainda hoje, ficam semelhantemente mais expostas a riscos quando a vida torna-se confortável. Felizmente, Jesus não poupou palavras que mexessem com a complacência de seus ouvintes. Ele falou sobre um tolo rico que acumulava bens em lugar de cuidar da necessidade do próximo; ao invés de ajuntar tesouro para si mesmo no céu, ele deixou para trás sua riqueza quando foi para o inferno (Lc 12.16-21). Jesus não nos diz exatamente porque outro homem rico foi para o inferno (Lc 16.23), mas se fornece qualquer dica, esta se trata de que o homem deixou Lázaro literalmente morrer de fome no beiral de sua porta. Jesus dirigiu a parábola a alguns religiosos não salvos que “amavam o dinheiro” (16.14). Que alguém muito pobre morra de fome em nossa porta não necessariamente livra-nos de embaraços. Nossa sociedade é tão sofisticada que permite os mortalmente pobres perto de nossas portas, porém, se conhecermos tais necessidades, permanecemos responsáveis.

 

Os conselhos de Jesus para cuidarmos dos pobres não implicam que sejamos justificados por obras; a Bíblia é clara ao dizer que somos justificados pela fé somente. Mas conhecemos muitos crentes nominais, pessoas que se denominam cristãs ainda que nunca o demonstrem pelo seu modo de viver. Para todos os escritores do Novo Testamento, a genuína fé salvadora, como a genuína compaixão cristã, deve ser expressa de maneiras concretas. Tiago alerta que a fé não acompanhada por ação concreta não é a genuína fé salvadora (Tg 2.14). Ele ilustra esta verdade ao perguntar: “Se um irmão ou uma irmã não tiver roupa para vestir nem comida para comer e um de vocês disser: ‘Que você fique bem, que você seja aquecido com roupas e que seja satisfeito com comida’, mas não fornece nenhuma assistência prática, que ajuda concreta deu? Assim também a fé sem obras para demonstrá-la é morta”. (Tg 2.15-17, paráfrase minha).

 

A pregação de Jesus tampouco significa que Ele fosse contrário ao rico. Não se trata de o quanto de dinheiro se pudesse ter, mas do que fazer com o que se tinha. Jesus despendia tempo considerável ministrando a coletores de impostos. Embora social e moralmente marginalizados, esses coletores não eram em geral marginalizados economicamente.

 

Eles sempre tomavam uma porção farta do que Roma ou Herodes Antipas exigia dos pobres e eram, às vezes, brutais na arrecadação de fundos. Algumas vezes ficaram conhecidos por bater em velhas senhoras para descobrir onde estavam seus filhos, responsáveis pelo pagamento de impostos, que haviam fugido. Sua má reputação crescia de tal forma que algumas vilas no Egito, deixando de pagar os próprios impostos, abandonavam suas casas e começavam novas vilas em quaisquer outros lugares ao ouvirem que os coletores de impostos estavam chegando. Os coletores de impostos estavam entre as pessoas ricas que oprimiam os camponeses galileus a quem Jesus também ministrava, porém Jesus estendeu o braço para os coletores também.

 

Jesus disse que uma pessoa rica passar para o Reino era como um camelo passar pelo buraco de uma agulha. (Apesar de os melhores esforços de alguns escritores modernos para contornar isto, o buraco de uma agulha significava a mesma coisa que significa hoje: o proposto portão de Jerusalém “buraco da agulha” não estava construído até a Idade Média). Jesus provavelmente estava recorrendo a uma hipérbole, entretanto, porque alguns ricos não O haviam seguido. Zaqueu, um rico coletor de impostos, deu metade de seus bens aos pobres e ofereceu-se para restituir quatro vezes mais a quem havia ludibriado (o que possivelmente diminuiu uma porção considerável da outra metade; Lc 19.8). O rico José de Arimateia foi além do compromisso dos discípulos mais imediatos de Jesus perguntando diretamente a Pilatos sobre o corpo de Jesus. Identificar-se publicamente com alguém crucificado acusado de traição (clamando ser “Rei dos Judeus”) era arriscar a vida, mesmo que pertencesse à aristocracia.

 

AS EXIGÊNCIAS DE JESUS PARA TODOS OS DISCÍPULOS

 

Tampouco deveríamos supor que Jesus faz exigências somente para os ricos. Normalmente nós temos nossas maneiras de ler as exigências de Jesus lá atrás sem pensar que tenham qualquer coisa a dizer-nos. Assim como pontuou Dietrich Bonhoeffer, quando Jesus ordenava a um legislador rico que desse todos os seus bens aos pobres (Lc 18.22), normalmente despendemos mais tempo explicando que Jesus estava dirigindo-se somente a aquele legislador do que nos perguntando que implicações o versículo poderia ter para nós. Bonhoeffer era um teólogo alemão que morreu por sua campanha contra Hitler. Ele leu a Bíblia com a mesma coragem que viveu, reclamando que muito frequentemente os teólogos ajudam a contornar os ensinos de Jesus ao invés de ajudarem a obedecê-los.

 

Contrário ao que normalmente assumimos, Jesus falou não somente àquele jovem rico, mas a todos os Seus discípulos, para que vendessem seus bens e ajuntassem tesouros no céu (Lc 12.33). Jesus não achava como alguns têm alegado que o dinheiro era mau; antes, o dinheiro simplesmente não tinha valor comparado aos investimentos eternos que podemos fazer na vida de outras pessoas (Lc 16.9-13). Ele prometeu que Deus suprirá nossas necessidades se buscarmos o Seu reino (12.22-32) e convidou a nos prepararmos para o Reino investindo parcialmente nossos recursos naquilo que realmente importa (12.33-40).

 

Charles Finney, um evangelista do século XIX que levou talvez um milhão de pessoas a Cristo, pregou sobre Lucas 14.33 em uma rica igreja de Boston. Nesta passagem, explicando o custo do Reino, Jesus alertou que ninguém pode ser Seu discípulo aquele que não renunciar às suas posses (14.33). O pastor, Lymam Beecher, encerrou o sermão de Finney assegurando à congregação que Deus jamais lhes pediria que desistissem de suas posses; eles simplesmente precisavam estar “desejosos” de fazê-lo. Finney disse que Deus pode exigir de nós o que quiser; nós não perdemos todos os nossos bens no momento da conversão, mas perdemos a propriedade sobre eles. Finney entendia que se Cristo for verdadeiramente Senhor de nossa vida, Ele é também Senhor de tudo o que temos.

 

Assim como pescadores e primeiros discípulos de Jesus (Lc 5.10,11), muitos de nós no ministério deixamos para trás carreiras alternativas potencialmente lucrativas para atender ao chamado de Deus; temos mostrado que valorizamos o Reino acima dos tesouros da terra. Além disso, é mais confortável até mesmo para nós olharmos a outra forma em vez de dolorosamente confrontar o sofrimento além das esferas imediatas de ministério.

 

Segundo algumas estatísticas, 35.000 crianças morrem diariamente de má nutrição e doenças passíveis de prevenção, mas esses números são insensíveis e abstratos demais para que nos atenhamos emocionalmente. Para colocar estas questões em uma perspectiva um pouco mais gráfica, nós ficamos, com razão, exasperados no assassinato de 3.000 seres humanos nas Torres Gêmeas na cidade de Nova York. Porém, 35.000 é mais que dez vezes o número de crianças morrendo todos os dias. A distância não deveria diminuir a compaixão; Paulo incitava a igreja em uma parte do mundo a cuidar da igreja em outras partes do mundo (Rm 15.26; 2 Co 8.13, 14).

 

As estatísticas não são tão tenebrosas em nosso próprio país, mas para centenas de milhares de pessoas sem teto, incluindo adolescentes fugitivos frequentemente forçados à prostituição, as implicações aqui não são menos perturbadoras. Por mais úteis que as estatísticas sejam, a Palavra de Deus e nosso engajamento com a genuína necessidade humana nos moverá mais que qualquer soma de estatística consegue, porque Deus colocou o Seu amor em nossos corações. As Escrituras lembram-nos que Cristo deu Sua vida por nós e perguntam como podemos nos recusar a cuidar de nossos irmãos e irmãs em Cristo necessitados (1Jo 3.16, 17). Nos anos iniciais na missão em Springfield, Missouri, e nos anos mais recentes de ministério, vivendo em alojamento de projetos normalmente pobre e infestado de drogas, deparei-me com rostos que eu não poderia ignorar com a mesma facilidade que consigo alhear-me das estatísticas.

 

Jesus chama para sacrificarmos nossas vidas pelo Seu Reino; parte do que significa servir ao Seu Reino é encontrar a necessidade humana, porque as pessoas são o que duram para sempre, se forem pessoas que já são nossos irmãos e irmãs que Deus deseja que sejam (isto é, todo mundo; 1Tm 2.4; 2Pd 3.9). A partir de ministérios como o Teen Challenge to Calcutta’s Mission of Mercy (Desafio Jovem para a Missão de Misericórdia de Calcutá), nossas obras de compaixão também revelam Cristo em formas que chamam a atenção do mundo para o nosso Mestre. Possa o Espírito outorgar-nos poder hoje, como no primeiro Pentecostes, para revelar Seu coração ao mundo.