Professor Ravi Zacharias Ravi - arminius hoje

Ataques contra os valores do Cristianismo são cada vez mais comuns na sociedade ocidental, e poucos são tão familiarizados com esses ataques do que Frederick Antony Ravi Kumar Zacharias, 66 anos, presidente da Ravi Zacharias International Ministries. Por 40 anos, Zacharias tem viajado o mundo debatendo com ateus e defendendo o cristianismo no campo secular, e proclamando a verdade através de seus programas de rádio diários e semanais nos Estados Unidos.

 

Ravi Zacharias é autor do livro “Sua Igreja está preparada?” (CPAD), em parceria com o teólogo norte-americano Norman Geisler, e que ganhou em 2008 o Prémio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra Estrangeira de Apologética Cristã lançada no país em 2007. Ele é também um dos autores das notas da “Bíblia de Estudo Defesa da Fé” (CPAD).

A entrevista a seguir foi feita originalmente pelo jornalista Richard L. Schoonover, da revista de reflexão teológica “Enrichment Journal”, da Assembleia de Deus norte-americana. Nela, Zacharias discute alguns dos problemas enfrentados na cultura de hoje e como as igrejas, pastores e crentes em geral podem responder a esses ataques. Abaixo, você verá a íntegra desta entrevista publicada originalmente no jornal Mensageiro da Paz de maio de 2012 (edição 1.524).

 

O que está destruindo o fundamento moral e espiritual da sociedade de hoje?

Eu acredito que uma convergência de muitos fatores. Grande parte da educação na década de 1960 já era desarticulada de quaisquer absolutos morais e valores éticos, como podemos ver, por exemplo, no livro “Excellence Without Soul” (“Excelência Sem Alma”), de Harry R. Lewis. Temos visto isso acontecer nos últimos 40 anos, inclusive com muitas vozes alertando-nos para isso. Porém, mais do que uma nova filosofia tomou lugar; um novo estado de espírito também.

Primeiro, a secularização, de forma geral, estabeleceu que as ideias religiosas, instituições e interpretações perderam seu significado social. As pessoas gostaram dessa ideia de sociedade secular e governo secular. Mas, em termos de valores morais e ética, elas não atentaram para o fato de que as premissas internas da secularização tornariam a sociedade aberta a praticamente qualquer ponto de vista sobre qualquer assunto. A partir dos anos de 1960, o estado de espírito promovido pela secularização levou a sociedade à perda da vergonha.

Em seguida, a pluralização, que soa como uma ideia prática e digna, e de muitas maneiras o é. No pluralismo, você tem um número de visões de mundo concorrentes que estão disponíveis e nenhuma visão de mundo é dominante. Mas, contrabandeado para a pluralização veio a absolutização do relativismo. A única coisa da qual podíamos ter certeza era que todas as escolhas morais eram relativas e não havia nenhum ponto de referência para o certo e o errado. Isso resultou na morte da razão.

 

O último fator é o que chamo de privatização da religião, que é uma acomodação da mentalidade religiosa. Se a secularização e a pluralização estavam prevalecendo, o que a sociedade deveria fazer com o grande número de pessoas que têm uma mentalidade religiosa?

Ser religiosamente inteligente estava bem, enquanto as pessoas mantivessem as suas crenças espirituais em privado em vez de trazê-las para a arena pública. A ironia disso foi o fato de a secularização – que tem seus pressupostos como absolutos e nega qualquer coisa de natureza metafísica – ter sido autorizada a entrar no local público, mas para quem acredita em uma essência espiritual, em uma realidade última, na realidade de absolutos transcendentes que precisam ser observados, foi dito para manter essas crenças em privado. Finalmente, abriu-se o caminho para a perda de significado.

Esses três modos – secularização, pluralização e privatização – trouxeram a perda de vergonha, a perda da razão e a perda de sentido. E como foi que essa nova autoridade pontificou na tensão social? Quando a filosofia entrava em cena, os moralistas contra a moralidade entravam, e o politicamente correto veio em seguida. Isso deu à sociedade alguns parâmetros que lhe permitiram expulsar o moralizador da esfera secular. Como resultado, tudo se tornou pragmática. Filósofos e naturalistas pisaram fundo. Neste novo século, perdemos todas as definições do que significa ser humano. A sexualidade, a vida pessoal e a casa são tudo. Estamos em alto mar, lutando contra uma tempestade de visões de mundo conflitantes sem uma bússola.

 

Alguma mudança está ocorrendo na sociedade de hoje em relação ao cristianismo e à Igreja. Explique.

A mudança que está ocorrendo é muito calculada. As religiões orientais são protegidas na sociedade de hoje, as críticas às religiões orientais são vistas como culturalmente insensíveis e preconceituosas. Mas, a fé cristã, que é a marca da cultura ocidental (e que as pessoas esquecem que veio do Oriente), é agora o alvo. A sociedade é livre para atacar qualquer aspecto do cristianismo.

Nas últimas primárias para a corrida presidencial, era impressionante observar como os especialistas descreviam o pré-candidato republicano Mike Huckabee sempre como um pastor batista, um religioso, e como descreviam o pré-candidato Mitt Romney sempre como mórmon e que representaria a sua fé religiosa. E era fascinante que, ao mesmo tempo, a mídia, de uma forma calculada, não mencionava o nome do meio de Barack Obama – Hussein – porque isso poderia ser visto pela sociedade como religiosamente prejudicial para ele. Esse é um ataque claro à visão de mundo judaico-cristã, a única visão de mundo que poderia justificar a existência de uma nação como os Estados Unidos.

A visão de mundo judaico-cristã é o alvo da mídia ocidental. A mídia é o único grande destruidor da noção dos absolutos e da visão de mundo judaico-cristã. Quando estou no exterior, vejo esses ataques em artigos nos jornais ocidentais e no jornalismo da televisão. Acabei de voltar da Tailândia e de Cingapura. Cada shopping que atravessei nesses países estava tocando músicas natalinas. Uma das árvores de Natal mais altas do mundo estava no Central World Plaza, em Bangkok, Tailândia. Árvores de Natal e decorações de Natal encheram as ruas de Cingapura e canções estavam sendo tocadas lá. Nos Estados Unidos, os cristãos se perguntam se eles podem até mesmo fazer isso ainda sem que alguém questione se deveriam reconhecer o Natal no mercado. O que aconteceu? A visão de mundo judaico-cristã tornou-se o enteado pária das visões de mundo e está sendo atacada enquanto outras cosmovisões são respeitadas, reverenciadas e reconhecidas como parte da história e da cultura de outras nações.

 

Qual é a base deste ataque calculado?

Eu não tenho certeza se posso localizá-lo, mas acho que os sintomas da decadência cultural eram evidentes a partir da década de 1960 – mudanças nas crenças sobre a sexualidade e sobre o direito de uma criança viver no ventre de sua mãe. Os que estão na vanguarda do cristianismo popular, e que se opunham a essas mudanças, foram atacados porque a sociedade os vê como inibidores ao progresso e à liberdade de outras cosmovisões. A mídia não se dá conta de como seria inibir algumas religiões orientais se elas mantivessem o domínio na nossa sociedade. Por alguma razão, eles acham que fazer isso com os cristãos é jogo justo, e que podem atacar a cosmovisão cristã.

Outro motivo para este ataque são os conflitos que surgiram na paisagem moral. Aqueles que questionam essa degenerescência moral eram vistos como provenientes da visão de mundo judaico-cristão, e eles tiveram de ser silenciados. Samuel Harris e Daniel Dennett diziam que inibições e visões preconceituosas sobre a sexualidade chegaram até nós a partir da cosmovisão cristã. Portanto, a cosmovisão cristã é o inimigo a ser retirado.

 

Parece haver uma proliferação de livros e filmes, como “O Código Da Vinci” e organizações como o Seminário Jesus, que estão atacando os fatos bíblicos e históricos da vida de Cristo, como sua morte e ressurreição? Por quê?

Isso não é acidental, e também não acho que seja o fim. Alguns desses ataques morrerão de morte natural. Esses ataques têm uma vida útil limitada. Muitos já tentaram esses truques antes. Quando a filosofia e o naturalismo atacaram a fé cristã e as visões de mundo teístas em geral, eles começaram com um ataque contra os argumentos clássicos da existência de Deus. O argumento cosmológico – que argumenta a partir de causalidade – afirma que tudo o que vem a ser não poderia ter a causa em si mesmo, mas tinha que ter algo para causá-lo. Mas, não pode haver uma regressão infinita dessas causas. Finalmente, você deve parar em um ser sem causa. Uma vez que nada neste mundo físico parece ser sem causa, a única maneira de ter um ser sem causa é que ele seja espiritual. O argumento cosmológico foi na convergência de outras linhas para provar a existência de Deus. De repente, os naturalistas entraram na briga e disseram: “Por que tudo tem que ter uma causa? Se tudo tem que ter uma causa, e se há uma causa que não foi causada, portanto esse argumento é auto-destrutivo”. Trata-se de uma distorção completa do argumento. Ninguém disse que tudo precisa ter uma causa. O que é dito é que tudo que vem a ser para ser precisa de uma causa, e nada no mundo físico é sem causa. Tudo tem uma explicação para fora de si. É assim que o argumento segue. Mas, de alguma forma, David Hume e outros no século 18 desafiaram o argumento de causalidade até que as pessoas cansaram de ouvir isso.

Temos ainda o argumento etiológico, que não argue simplesmente a partir de design, mas a um design. Toda vez que você vê na natureza inteligibilidade, complexidade específica ou um efeito inteligente, você assume que há uma inteligência e uma causa por trás dela. Os naturalistas propuseram um mundo aleatório e argumentam contra o design intencional, e eles não foram capazes de assumir o argumento moral. Não importa o quanto eles argumentaram contra ele, havia sempre aquela sensação de um impulso moral dentro da humanidade. As pessoas não podiam agir como se não houvesse uma lei moral. Mas, a razão sozinha não o levará o ateu a própria admissão. John Mackie, e especialmente Kai Nielsen, um ateu bem conhecido do Canadá, disseram: “Você realmente não pode argumentar racionalmente contra o argumento moral. Talvez de forma pragmática, mas racionalmente você não pode”. Assim, o argumento moral é um espinho para os ateus. Como eles poderiam acabar com ele? Ora, tentar fazer um Jesus que é como nós e imoral é uma tentativa de  tentar atacar esse argumento.

Naturalistas não derrubaram o argumento cosmológico, mas acham que fizeram. Eles também acham que danificaram o argumento etiológico, o que não é verdade. E não poderiam deixar escapar o argumento moral. Assim, “O Código DaVinci”, “O Evangelho de Judas” e “O Evangelho de Filipe” entraram em voga. Esses escritos gnósticos foram para tentar criar a ideia de que Jesus teve alguns problemas particulares morais. A tentativa é atacar o argumento moral. É engraçado que nunca foram para o Alcorão ou o Gita para procurar falhas morais das personalidades-chave representados lá. Eles teriam encontrado terreno suficiente para mostrar problemas morais nesses lugares. Em vez disso, eles atacaram o Cristo das Escrituras, que é tão puro, tão puro, e assim demonstrativo de tudo o que é puro e bom.

 

Por que a divinidade de Cristo sob ataque?

Se as pessoas podem negar a divindade de Cristo, então eles afastará as pessoas do Evangelho. Se eles podem atacar Cristo e torná-lo parecido com o que eles querem que ele pareça, então eles terão retirado a autoridade máxima.

 

Por que o pluralismo religioso não é filosoficamente possível?

O pluralismo religioso é um sistema de crença que soa bem, mas faz desserviço a todas as religiões. Todas as religiões são exclusivas. Mesmo o naturalismo, que se apresenta como irreligião, é exclusiva. Cada religião tem os seus pontos de partida e suas deduções, e esses pontos de partida excluem. Por exemplo, o hinduísmo tem duas inegociáveis crenças: o karma e a reencarnação. Nenhum hindu vai trocá-las ou deixá-las de lado. No budismo, existe a negação da noção essencial de si mesmo. Os budistas acreditam que o eu como o entendemos não existe, e deixar o nosso desejo resulta no fim de todo sofrimento. Se negarmos essas premissas, negamos o budismo. O naturalismo ensina que o sobrenatural ou o metafísico estão fora do reino das provas e são puramente uma opinião e não uma questão de fato. O islã acredita que Maomé é o último profeta e o Alcorão, a revelação perfeita. Se negarmos essas duas premissas, negamos o islã. Na fé cristã, nós acreditamos que Jesus é Deus encarnado, o Salvador e Redentor do mundo. Não podemos negar essas premissas e continuarmos a ser cristãos. A questão não é se essas premissas todas são mutuamente exclusivas, mas qual destas vamos negar como sendo não razoáveis ou inconsistentes. Qual dessas é que seremos capazes de sustentar por meio de argumentos e provas? Nós podemos ter o pluralismo na cozinha, nos estilos de roupa e em outras coisas. Mas, se o pluralismo significa relativismo ideacional e a destruição da lei da não-contradição, é absolutamente insuportável e impensável.

 

Parece que em alguns dessas diferentes visões falta o mesmo grau de consistência lógica encontrado no cristianismo.

Certo. De fato, mesmo alguns dos grandes sábios dessas outras visões do mundo concorda. Mahatma Gandhi, em um de seus escritos, declarou que desejava que alguns aspectos do seu próprio sistema de crenças pudessem ser permanentemente apagados, porque muito deles eram um disparate. Mesmo Gandhi irá dizer-lhe isso. Muito do que está em um dos primeiros escritos sagrados hindus, o Veda, é irracional e inaceitável. Consideramos alguns dos comportamentos e práticas de Maomé em sua própria vida pessoal reprováveis se praticados dentro de nossa cultura hoje. A negação do desejo é o fundamento do Budismo, que é o único caminho que conduz à falta de sofrimento. No entanto, o principal motivo de as pessoas darem ao Dalai Lama destaque é a luta pela liberdade do Tibete. Eu concordo com isso. Concordo que precisa adquirir a liberdade política, mas por que ele mesmo deseja a liberdade política, se ele é a representação por excelência do Buda supremo?

Outro exemplo é o karma. Se cada vida é um renascimento, e cada nascimento é um renascimento, e cada nascimento é um renascimento de práticas anteriores cármicas, o que estava sendo pago no primeiro nascimento? Você não pode ter uma série infinita de renascimentos ou você não estaria neste nascimento. Isso é o que levou à conversão de um dos meus melhores amigos hindus. Ele disse que simplesmente não faz sentido. Ele tinha que ter um primeiro nascimento. O que ele estava pagando em seu primeiro parto? Ele disse: “Se eu for para o banco, cada gerente de banco vai me dizer que minha dívida é o que devo. Que tipo de sistema é este em que eu não tenho ideia sobre o que devo e quantos nascimentos vai demorar para eu pagar de volta?”.

 

A mentalidade secular parece ter invadido a igreja. Qual o resultado presente disso para a igreja?

A mentalidade secular se manifesta em algumas formas – não em todas as formas – na igreja emergente. Esse é um fenómeno perigoso, e alguns de seus protagonistas subestimam seus resultados finais. Quando você pensa que cada geração tende a afastar-se da anterior, algumas formas de igrejas emergentes hoje estão flertando com a extinção do Evangelho, inclusive no seu coração, que é a cruz de Jesus Cristo. Duas coisas aconteceram na mentalidade secular. Primeiro, pessoas de mentalidade secular para não levar a igreja a sério: em primeiro lugar, a igreja não está respondendo às suas perguntas; em segundo lugar, aqueles dentro da igreja são tímidos e incapazes de sustentar o lado sobrenatural de suas crenças em um mundo altamente naturalista. O que resta, então, neste tipo de sistema de crença religiosa é uma espiritualidade que não precisa se defender, porque é puramente uma coisa particular que não moraliza ou pontifica para ninguém. Torna-se um sentir-se bem, ser silencioso e obter-o-melhor estado-de-espírito-de-final-de-dia da religião. Absolutos morais? Uma revelação de Deus, que tem limites morais para nós? Não, isso torna-se insustentável. Assim, a igreja, quando ela não responde à mentalidade secular e não prepara o seu próprio povo, torna-se secularizada. No final, torna-se a espiritualidade sem verdade, sem referência e experiência objetiva.

O membro da igreja média hoje é despreparado e mal equipado para enfrentar os ataques que estão chegando para nós com força total. Estamos deixando nossos jovens, homens e mulheres que estão frequentando universidades, como cordeiros levados ao matadouro.

 

Fonte: http://www.cpadnews.com.br/integra.php?s=20&i=13224

 

Anúncios