O Amor de Deus É Limitado aos Eleitos?

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Refutando um Desafio Calvinista ao Evangelho

Roger E. Olsonroger olson - arminius hoje

A doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. Ele é também o calcanhar de Aquiles do Calvinismo; sem ele os outros pontos caem.

 O recente renascimento do Calvinismo entre os evangélicos trouxe à tona a questão da extensão da morte expiatória de Cristo na cruz. Muitos cristãos evangélicos simplesmente assumem que Cristo morreu por todos – que Ele carregou os pecados e sofreu a penalidade por cada pecador. Pelos últimos quatro séculos, entretanto, tem havido uma representação minoritária entre os protestantes. A maioria dos calvinistas, seguidores do reformador francês da Suíça, João Calvino (1509-1564), têm ensinado que Cristo suportou a penalidade somente pelos pecados dos eleitos – aqueles incondicionalmente predestinados por Deus para a salvação. Calvinistas contemporâneos (eles muitas vezes preferem ser chamados de cristãos reformados) chamam esta doutrina de “redenção particular” ou “expiação definida.”

 Entre os defensores evangélicos contemporâneos da expiação limitada estão, mais notavelmente, R. C. Sproul e John Piper. Sproul (nascido em 1939) tem sido um influente apologista evangélico e teólogo reformado por grande parte da última metade do século 20. De sua base em seu Ministério Ligonier ele tem falado no rádio, viajado para discursar em muitas conferências teológicas e apologéticas e escreveu muitos livros – a maioria deles tratando da soberania de Deus a partir de uma perspectiva fortemente reformada.

 Piper (nascido em 1946), pastor de Igreja Batista Bethlehem de Minneapolis, e fundador do Ministério Desiring God, também viaja muito e discursa em grandes encontros de cristãos evangélicos – incluindo as conferências Passionfrequentadas por milhares da maioria dos jovens e adolescentes batistas do sul. Ele é um prolífico autor cujos livros, incluindo Desiring God: Confessions of a Christian Hedonist (1986), têm vendido milhões de cópias. Como Sproul, Piper é um promotor apaixonado do Calvinismo de cinco pontos.

 CALVINISMO DE CINCO PONTOS

 O Calvinismo de cinco pontos é a crença nas doutrinas representadas pelo acróstico TULIP: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Os calvinistas criaram o acróstico por volta de 1913, mas as “doutrinas da graça” que ele representa remontam ao sucessor de Calvino – Teodoro Beza (1519-1605) – diretor da Academia de Genebra (um seminário reformado em Genebra, Suíça, fundado por Calvino). A expiação limitada se encontra no centro deste sistema teológico. Sproul, Piper e muitos outros teólogos evangélicos contemporâneos influentes tenazmente mantêm e defendem esta posição.

 EXPIAÇÃO LIMITADA

 O que a expiação limitada ou redenção particular significa? De acordo com Sproul, que prefere chamar essa doutrina de “expiação designada,” ela significa que Deus pretendeu que a morte de Cristo na cruz assegurasse a salvação de um número definido de seres humanos caídos – aqueles escolhidos incondicionalmente por Deus. Como outros calvinistas, Sproul argumenta que a morte substitutiva de Cristo (isto é, Deus impôs sobre Cristo a penalidade pelos pecados merecida pelos pecadores) foi de valor suficiente para salvar a todos, mas Deus apenas pretendeu que ela salvasse os eleitos. No sentido mais significante, Cristo morreu apenas pelos eleitos e não por todos.

 Para Sproul (e outros como ele), esta doutrina não é dispensável; ela é parte essencial do sistema TULIP que eles creem ser a única que faz justiça à soberania de Deus e à natureza do dom da salvação. Um argumento usado por Sproul, seguindo o teólogo puritano John Owen (1616-1683), é que, se Cristo morreu por todos igualmente, então todos são salvos. Afinal, como segue o argumento, seria injustiça de Deus punir os mesmos pecados duas vezes – uma vez impondo a penalidade sobre Cristo e outra vez ao enviar o pecador para o inferno.

 Piper é igualmente apaixonado pela expiação limitada. Como Sproul, ele não a considera um ponto secundário da teologia. Em um artigo intitulado “For Whom Did Christ Die and What Did Christ Actually Achieve on the Cross for Those for Whom He Died?[1]Piper argumenta que não é o calvinista que limita a expiação, mas o não-calvinista que crê na expiação universal. A razão: Aqueles que creem na expiação universal devem dizer que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas a oportunidade de salvarem a si mesmas. Ou eles devem abraçar o universalismo.

 Piper continua e argumenta que Cristo de fato morreu por todas as pessoas, mas não da mesma maneira. Todas as pessoas se beneficiam da morte de Cristo, por exemplo, recebendo certas bênçãos nesta vida que eles de outra forma não receberiam – mas somente os eleitos recebem dela o benefício da salvação.

 Esta doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. O teólogo evangélico Vernon Grounds, ex-presidente do Seminário Denver, atacou severamente a doutrina. Apontando para Jo 1.29; Rm 5.17-21; 11.32; 1Tm 2.6; Hb 2.9; e 1Jo 2.2, ele escreveu, “É preciso uma engenhosidade exegética que é outra coisa menos uma habilidade culta esvaziar estes textos de seu significado óbvio: é preciso uma engenhosidade exegética próxima de um sofisma negar sua explícita universalidade.”[2]É desnecessário dizer, muitos evangélicos, incluindo alguns calvinistas, acham essa doutrina repugnante.

 BASE PARA A EXPIAÇÃO LIMITADA

 Antes de explicar por que esta doutrina é repulsiva, será proveitoso ver as razões por que muitos calvinistas a têm em alta conta e a promovem tão apaixonadamente. Mais uma vez, o que é esta doutrina? É que Deus pretendeu que a morte de Jesus na cruz fosse uma propiciação (um sacrifício expiatório, substitutivo) apenas pelos pecados dos eleitos – aqueles que Deus escolheu salvar à parte de qualquer coisa que Ele vê neles ou sobre eles (exceto Sua escolha dessas pessoas para a Sua glória e boa vontade).

 Por que alguém acreditaria nisso?

 Os proponentes da expiação limitada apontam várias Escrituras: Jo 10.15; 17.6 e versículos semelhantes em Jo 10-17; Rm 8.32; Ef 5.25-27; Tt 2.14.

 Os calvinistas usam Jo 10.15 para apoiar o seu ensino: “Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas.” Muitos outros versículos em João dizem quase a mesma coisa – que Cristo deu a Sua vida por Suas ovelhas (isto é, Seus discípulos e todos os que viriam depois deles).

 Os calvinistas também apontam Rm 8.32: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” Eles supõem que “todos nós” faz referência aos eleitos.

 Ef 5.25-27 diz, “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.” Os calvinistas creem que esta passagem, como muitas outras, se refere apenas à igreja como o objeto do sacrifício purificador de Cristo.

 Tt 2.14 diz: “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” Os calvinistas acreditam que Paulo, o autor de Tito, parece restringir os benefícios salvadores da morte de Cristo ao “seu povo,” o que eles acreditam ser os eleitos.

 Os calvinistas assumem que estes versículos e outros como eles ensinam que Cristo morreu somente por aqueles escolhidos por Deus para a salvação. Mas estes versículos não ensinam as crenças calvinistas. Em nenhum lugar a Bíblia explicitamente ensina esta doutrina calvinista.

 Os calvinistas atribuem a estas passagens sua crença que Cristo morreu somente pela igreja, pelo Seu povo, por Suas ovelhas. Estes versículos não dizem que Cristo não morreu também pelos outros. E, como veremos, há muitas passagens que ensinam claramente que Cristo morreu por todos.

 Há outra razão para os calvinistas crerem na expiação limitada. Se Cristo morreu igualmente por todos, eles alegam, então todos são salvos. Eles argumentam que aqueles que creem na expiação universal se defrontam com duas opções inevitáveis, mas biblicamente insustentáveis: ou a morte de Cristo salvou a todos ou ela não salvou ninguém. Este argumento é, no entanto, falacioso. A expiação universal não requer a salvação universal; ela somente requer a possibilidade de salvação universal.

 É possível que os mesmos pecados sejam punidos duas vezes e é isso o que torna o inferno tão absolutamente trágico – ele é totalmente desnecessário. Deus pune com o inferno aqueles que rejeitam a substituição de Seu Filho. Uma analogia ajudará a tornar isto claro. Após a Guerra do Vietnã, o presidente Jimmy Carter concedeu uma anistia geral a todos os desertores que fugiram para o Canadá e outros locais. Por decreto presidencial eles estavam livres para voltar para casa. Alguns voltaram e outros não. Seu crime não era mais punível; mas alguns se recusaram a tirar proveito da anistia e puniram a si mesmos ficando longe de casa e da família. Os crentes na expiação universal creem que Deus permite aos pecadores recusarem o benefício da cruz de Cristo para sofrerem a punição do inferno apesar do fato dele ser totalmente desnecessário.

 Talvez a razão apresentada mais retoricamente poderosa para a expiação limitada seja aquela oferecida por John Piper (e outros calvinistas antes dele) que diz em For Whom Did Christ Die? que aqueles que creem na expiação universal “devem dizer” que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas uma oportunidade de salvarem a si mesmas. Este é um raciocínio totalmente falacioso.

 Os arminianos (aqueles que seguem Tiago Armínio na rejeição da eleição incondicional, da expiação limitada e da graça irresistível) creem que a morte de Cristo na cruz salva todos que a recebem pela fé. A morte de Cristo assegura a salvação destes – tanto quanto assegura a salvação dos eleitos no Calvinismo. Ela garante que qualquer um que vai a Cristo em fé será salvo por Sua morte. Isto não implica que eles salvam a si mesmos. Isso simplesmente significa que eles aceitaram a obra de Cristo em seu favor.

 RESPONDENDO AO CALVINISMO

 É difícil resistir à impressão de que os calvinistas que creem na expiação limitada assim o fazem não por claras razões bíblicas, mas porque eles acham que a Escritura a permite e a razão a exige. Não há nada necessariamente errado com isso, mas no mínimo alguns calvinistas como Piper têm criticado outros por fazerem o mesmo.[3] Piper critica outros por alegadamente abraçarem doutrinas somente porque a Escritura as permite e a lógica as exige. Parece a muitos não-calvinistas, no entanto, que os crentes na expiação limitada fazem exatamente isso. Carecendo de claro e inequívoco apoio bíblico para esta doutrina, eles a abraçam porque acham que a Escritura a permite e o seu sistema TULIP logicamente a exige. Afinal, se a eleição é incondicional e a graça é irresistível, então parece que a expiação seria somente para os eleitos.

 A Escritura contradiz a expiação limitada em Jo 3.16, 17; Rm 14.15; 2Co 5.18-19; Cl 1.19, 20; 1Tm 2.5, 6; 1Jo 2.2. Todos conhecem Jo 3.16, 17: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” Tipicamente, os calvinistas respondem que nestes versículos “mundo” faz referência a todos os tipos de pessoas e não a todos. Entretanto, isso tornaria possível interpretar todas as passagens onde o Novo Testamento conta que o “mundo” é pecador e caído no sentido de que somente algumas pessoas – todos os tipos – são pecadoras e caídas. A interpretação calvinista de Jo 3.16, 17 parece se encaixar na descrição de Vernon Grounds de exegese defeituosa usada para defender a expiação limitada.

 1Jo 2.2 é outra passagem que não podemos reconciliar com a expiação limitada: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” Esta passagem enfraquece completamente a interpretação calvinista de “mundo” em Jo 3.16, 17 porque ela explicitamente afirma que Cristo morreu uma morte expiatória não somente pelos crentes, mas também por todos. Aqui “mundo” deve incluir os não crentes porque “nosso” se refere aos crentes. Este versículo torna impossível dizer que a morte de Cristo beneficia a todos, só que não da mesma maneira (Piper diz que a morte de Cristo beneficia os não-eleitos dando-lhes somente bênçãos temporais). João diz clara e inequivocamente que o sacrifício expiatório de Cristo foi pelos pecados de todos – inclusive daqueles que não são crentes.

 E quanto a 2Co 5.18-19? “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.” Os calvinistas às vezes argumentam que esta passagem dá apoio à expiação limitada. Afinal, se Deus estava em Cristo não imputando os pecados de todos, então todos são salvos. Portanto, eles dizem, “todos” deve significar somente os eleitos. Mas isso não é verdadeiro. Quando Paulo diz que Deus estava reconciliando o mundo consigo, não imputando os pecados das pessoas contra elas, ele quer dizer se elas se arrependerem e crerem. Em outras palavras, a expiação reconciliou Deus com o mundo para que Ele pudesse perdoá-lo; isso satisfez as demandas da justiça para que da parte de Deus a reconciliação fosse possível. Mas resta aos pecadores aceitar isso pela fé. Então a plena reconciliação acontece.

 Cl 1.19, 20, diz, “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.” É impossível interpretar “todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” como se referindo somente aos eleitos. Esta passagem refuta a expiação limitada. Igualmente faz 1Tm 2.5, 6: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.” A única maneira de um crente na expiação limitada conseguir escapar da força desta passagem é interpretar o grego traduzido como “todos os homens” como de alguma forma significando “todos os tipos de homens,” mas essa não é uma interpretação permitida pelo uso comum da expressão na literatura grega fora do Novo Testamento (ou em outro lugar nele).

 Muitas Escrituras indicam claramente que o sacrifício expiatório de Jesus foi pretendido para todos, que Sua punição substitutiva foi por todas as pessoas. Mas há duas passagens raramente discutidas do Novo Testamento que absolutamente destroem a expiação limitada: Rm 14.15 e 1Co 8.11. Nestes versículos, Paulo severamente adverte os cristãos contra levar pessoas por quem Cristo morreu à destruição. A tradução grega das palavras “destruir” e “destruído” nestes versículos não pode significar meramente prejudicado ou ferido. Paulo claramente está advertindo as pessoas de que é possível levar as pessoas por quem Cristo morreu ao inferno (levando-as a tropeçarem e cairem pela demonstração de sua liberdade própria para comer carne sacrificada aos ídolos). Se o Calvinismo da TULIP está correto, esta advertência é inútil, porque isso não pode acontecer. De acordo com o Calvinismo, os eleitos, por quem Cristo morreu, não podem se perder.

 O peso da Escritura é claramente oposto à expiação limitada. As interpretações calvinistas destas e de passagens semelhantes faz recordar o sinal do lado de fora de uma ferraria se referindo ao seu trabalho artístico com metais: “Todos os tipos imagináveis de torção e torneamento são feitos aqui.” Entretanto, o problema com a expiação limitada vai além de alguns versículos que os calvinistas não podem explicar sem distorcer seus claros significados. O maior problema atinge o cerne da doutrina de Deus. Quem é Deus e como ele é?

 EXPIAÇÃO LIMITADA E A NATUREZA DE DEUS

 Se Deus é amor (1Jo 4.7), mas pretendeu que a morte expiatória de Cristo fosse a propiciação somente para algumas pessoas de forma que somente elas têm alguma chance de serem salvas, então o “amor” não tem nenhum significado inteligível quando se refere a Deus. Todos os cristãos concordam que Deus é amor. Mas os crentes na expiação limitada devem interpretar o amor de Deus como de alguma forma compatível com Deus incondicionalmente selecionando algumas pessoas para o tormento eterno no inferno quando Ele poderia salvá-las (porque a eleição para a salvação, e assim a própria salvação, é incondicional). Não há analogia na existência humana para este tipo de comportamento que é considerado como amoroso. Nós nunca consideraríamos como amoroso alguém que, por exemplo, podendo resgatar pessoas se afogando, se recusa a fazê-lo e resgata somente algumas. Consideraríamos tal pessoa má, mesmo se as pessoas resgatadas apreciassem o que a pessoa fez por elas.

 Os calvinistas tipicamente lidam com isso de duas maneiras. Alguns dizem que o amor de Deus é diferente do nosso amor. Mas se ele é tão diferente, ele é ininteligível. Se o “amor” de Deus não tem semelhança com algo que chamaríamos de amor, se ele se assemelha mais ao ódio do que ao amor, então ele perde todo o significado. Então, quando uma pessoa diz que Deus é amor, ela poderia também estar usando uma palavra sem sentido como “creech” – Deus é creech. Também, onde Deus melhor demonstrou o Seu amor do que em Jesus Cristo? Mas o amor de Jesus Cristo pelas pessoas é arbitrário e odioso a algumas? Ou Jesus Cristo em Seu amor por todas as pessoas revela o coração de Deus? O Calvinismo acaba tendo que pressupor um Deus oculto, muito diferente de Jesus Cristo.

 A outra maneira dos calvinistas lidarem com o amor de Deus e tentar reconciliá-lo com a expiação limitada e a dupla predestinação (as duas são realmente inseparáveis) é dizer que Deus ama todas as pessoas de alguma forma, mas somente algumas (os eleitos) de todas as formas. Piper, por exemplo, exalta o amor de Deus por todos – até mesmo ao não-eleito. Ele diz que Deus concede bênçãos temporais sobre os não-eleitos – isto é, conforme eles se movem em direção ao seu tormento eterno predestinado no inferno. John Wesley, respondendo a uma alegação similar dos calvinistas de sua época, ironizou dizendo que este é o tipo de amor que faz o sangue gelar nas veias. Uma outra resposta é que isso simplesmente significa que Deus dá aos não-eleitos um pouco do céu para levar com eles em sua jornada ao inferno. Que tipo de amor é esse – que dá bênçãos temporais e felicidade às pessoas escolhidas por Deus para o sofrimento eterno no inferno? Afinal, se o Calvinismo está correto, não há nada impedindo Deus de escolher todas as pessoas para o céu, exceto, alguns dizem, a Sua própria glória. Alguns calvinistas dizem que Deus deve manifestar todos os Seus atributos e um atributo é a justiça que torna o inferno necessário. Mais uma vez, no entanto, isso não funciona, porque a cruz foi uma manifestação suficiente da justiça de Deus.

 A expiação limitada torna o evangelismo indiscriminado impossível. Um crente na expiação limitada nunca pode dizer a algum estranho ou grupo aleatório: “Deus ama vocês e Cristo morreu pelos seus pecados e pelos meus; vocês podem ser salvos.” Todavia, esta é a própria força vital do evangelismo – contar as boas novas a todos e convidá-los a virem a Jesus Cristo em arrependimento e fé. Muitos calvinistas são inclinados ao evangelismo e às missões, mas em seu evangelismo e missões eles não podem dizer a todos no alcance de suas vozes que Deus os ama, que Jesus morreu por eles e que Ele quer que eles sejam salvos. Eles podem proclamar o evangelho (como eles o interpretam), mas não podem requerer fé prometendo-lhes salvação através de Cristo a todos que eles encontram ou a quem eles pregam.

 A expiação limitada é o calcanhar de Aquiles do Calvinismo TULIP; sem ela os outros pontos da TULIP caem. Se Deus é verdadeiramente amor, então Cristo morreu por todos para que todos possam ser salvos.

 

Fonte: http://enrichmentjournal.ag.org/201203/201203_044_limited_atonement.cfm

Tradução: Cloves Rocha dos Santos


[1] http://www.monergism.com/thethreshold/articles/piper/piper_atonement.html.

[2] Vernon C. Grounds, “God’s Universal Salvific Grace” em Grace Unlimited, ed., Clark H. Pinnock (Minneapolis: Bethany House, 1975), 27.

[3] John Piper, The Pleasures of God: Meditations on God’s Delight in Being God (Portland: Multnomah, 2000). Ver a longa nota de rodapé acerca da alegada hermenêutica falha de Pinnock, 70–74.

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A Lógica da Descrença

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Roy Inglecristianismo

O Calvinismo ensina que Cristo morreu pelos eleitos, que a expiação de Cristo comprou a salvação dos eleitos e, assim, a expiação de Cristo, pelo menos de acordo com os calvinistas, realmente salva. Os calvinistas afirmam que Jesus derramou o seu sangue para a salvação dos eleitos e, portanto, ele não morreu pelos pecados do mundo todo para não sustentar o Universalismo que claramente as Escrituras não ensinam (Mt 7.13-14).

 Na cruz, a ira de Deus pelos pecados dos eleitos foi paga na íntegra. Jesus sofreu, morreu e ressuscitou para o bem dos eleitos apenas. O restante da humanidade foi destinado por Deus para o inferno eterno. Nossos destinos foram escolhidos.

 Agora, aqui está um problema (entre outros) que eu tenho com o entendimento calvinista da expiação. Se Cristo morreu para assegurar a salvação dos eleitos, e quando Jesus morreu na cruz, Deus colocou os pecados dos eleitos em seu Filho, os eleitos então são nascidos sem pecado, uma vez que Cristo sofreu por eles antes deles nascerem e ele deu sua vida pela salvação deles há 2000 anos no Calvário? Quais pecados impedem os eleitos de nascerem salvos? Se alguém diz que a incredulidade impede a sua salvação e eles devem crer no evangelho para serem salvos e a sua salvação foi predestinada e assegurada pelo próprio Deus na cruz por meio de seu Filho, por que o pecado da incredulidade também não foi pago na cruz por Cristo?

 Eu concordo que a descrença impede a salvação de alguém. Jo 3.18 diz, “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus”. Jo 3.36 acrescenta, “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece”. A crença nos leva de mortos em nossos pecados sem a vida de Deus para nascidos de novo em Cristo (Ef 2.1-9). A obra de Deus para a salvação é crer em seu Filho (Jo 6.29). De fato, este é o próprio propósito da Bíblia, nos conduzir à fé salvadora em Jesus Cristo (Jo 20.31). O apóstolo Paulo disse ao carcereiro de Filipos que ele tinha que crer para ser salvo (At 16.30-31). A crença (ou fé) assegura a salvação, mas a descrença leva somente à destruição (Hb 3.6-19).

 No entanto, como pode algum calvinista genuíno dizer que eles uma vez estavam em seus pecados até que colocaram a fé salvadora em Jesus, uma vez que Jesus morreu pelos seus pecados (todos eles?) 2000 anos atrás? Se Jesus morreu e sua expiação garantiu a salvação dos eleitos, então segue logicamente que todos os pecados dos eleitos foram colocados em Cristo e todos os eleitos de Deus foram salvos na cruz. Dessa forma os eleitos, todos conhecidos por Deus desde a fundação do mundo, são vistos como salvos na cruz. Mas, então, por que chamar as pessoas ao arrependimento? Por que dizer às pessoas para elas abandonarem os seus pecados pelos quais Jesus já pagou e já assegurou a sua eterna salvação? Como podemos exigir um duplo pagamento pelos pecados, e o pecado pode ser legitimamente chamado pecado se de fato a pessoa já foi perdoada de todos os seus pecados na cruz?

 A lógica dos arminianos é essa: Jesus morreu pelos pecados do mundo, mas somente aqueles que colocam sua fé na obra salvadora de Jesus tornam-se os eleitos de Deus (1Tm 4.10). Jesus veio buscar e salvar o perdido (Lc 19.10) e nenhuma vez na Escritura lemos que Jesus morreu somente pelos eleitos. Nós lemos que Jesus morreu pelas ovelhas (Jo 10.11), que ele morreu pela Igreja (Ef 5.25), que ele morreu pelo apóstolo Paulo (Gl 2.20), que ele morreu por nós (Gl 1.4) e que ele morreu pelo mundo (1Jo 2.2), mas nós nunca lemos que ele morreu somente pelos eleitos. Isso deve ser deduzido pela releitura de outras passagens. Além disso, somente aqueles que colocam sua fé em Jesus e em seu sangue são salvos. Aqueles que rejeitam o seu sangue estão perdidos (Jo 5.24-25). A salvação vem pela graça de Deus por meio da fé (Rm 5.1; Ef 2.8-9) e não pelas obras (Tt 3.5-7). Nós devemos confessar os nossos pecados para sermos perdoados (1Jo 1.9) e não faz nenhum sentido se de fato Jesus morreu por todos os nossos pecados quando morreu na cruz. Como Deus pode nos perdoar de nossos pecados se de fato ele já nos perdoou de nossos pecados quando Jesus morreu por nós 2000 anos atrás pela vontade soberana de Deus?

Tradução: Walson Sales

Quem É Você para Impor Sua Moralidade aos Outros?

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Paul Copanpaulcopanarminiushoje

O relativismo moral domina o meio dos antropólogos culturais. O inimigo cultural número um é o missionário cristão. Por quê? Porque impõe seus valores sobre culturas tribais e grupos étnicos. Não deveríamos deixar esses povos sozinhos, intactos em relação à bagagem cultural ocidental que irá arruinar o seu modo de vida?

Esta filosofia do quem-é-você-para-dizer-que-a-cultura-do-outro-está-errada remonta há séculos – talvez mais notavelmente pelo filósofo Johann Gottfried von Herder (1744-1803). Ele desprezava o racionalismo frio do Iluminismo e enfatizava a individualidade das pessoas e suas culturas. De acordo com von Herder, seres humanos não têm uma natureza fixa; seus ambientes familiares e suas experiências os influenciam e, assim, podemos predizer suas ações e respostas, com base nessas influências.

Von Herder foi um expert na ideia de que as culturas são tão diferentes umas das outras que nós não poderíamos perceber o que está errado com elas. Afinal, argumentou, ninguém “se fez homem por si mesmo”. De fato, não deveríamos ser esnobes cronológicos (como colocou C. S. Lewis), agindo como se fôssemos muito melhores do que nossos antepassados. É simplesmente injusto julgá-los, uma vez que os nossos descendentes da mesma forma nos julgarão. Como o poeta inglês Alexander Pope escreveu: “Nós pensamos que os nossos pais são tolos, da mesma forma seremos. Nossos filhos mais sábios, sem dúvida, vão pensar assim de nós”.

Neste ensaio, eu foco dois temas relacionados. O primeiro tem a ver com a ideia de impor moralidade ou forçar a moralidade de alguém “goela abaixo”. O outro aborda o tema mais específico da moralidade e da lei. Vou abordar o slogan “Você não pode legislar sobre moralidade”.

IMPONDO MORALIDADE AOS OUTROS

Na verdade, antropólogos culturais têm um ponto de humildade em algum lugar aqui. No entanto, quando atiram pedra nos missionários, é difícil ver qualquer base para suas denúncias. Como você pode condenar mesmo o mais tirano déspota ou assassino em massa, uma vez que ele também é simplesmente o produto de seu próprio ambiente? Apesar do clamor dos antropólogos em respeitar outras culturas, perguntamos: “Por que tanta trava e dificuldade da parte desses relativistas morais?”.

Como você pode criticar o crítico se não há nenhum objetivo universalmente vinculando padrões morais?

Como se vê, “Todos deveriam respeitar as outras culturas” acaba sendo a mesma coisa – o relativismo moral menos o relativismo. Por que os relativistas, quando pontificam sobre a falta de valores morais absolutos, escorregam em sua própria moral absoluta?

Nós simplesmente temos variações sobre o mesmo tema: sim, advoga o relativismo, mas lembre-se de ser tolerante para não ferir alguém, para estar envolvido com outro consentimento adulto, ou o que for. O antropólogo cultural nos diz, “Relativismo! Bem … mais ou menos”. Este relativismo falso resvala em uma exceção – uma regra moral – para abrandar um relativismo extremo, em que vale tudo.

Quando alguém nivela a crítica moral contra uma outra cultura, o antropólogo condena isto como o erro universal do etnocentrismo, que, com certo trejeito, diz: “A minha cultura é melhor que a sua.”. Na verdade, o antropólogo – o exemplar do relativismo moral – tem em seu arsenal uma matriz de epítetos não apenas culturais, mas moralmente carregados, para lançar contra o missionário e seus métodos: “etnocentrista”, “colonialista”, “explorador”, “ideólogo” e coisa parecida.

Outro problema para o relativista moral é que a sua opinião sobrevoa a superfície de nossas mais profundas intuições sobre a moralidade.

Considere uma história de Setembro de 2008: os missionários cristãos para as tribos da região amazônica do Brasil acusaram o governo de fazer vista grossa para a prática de infanticídio daquelas tribos. Essas tribos muitas vezes enterram vivas as crianças com defeitos congênitos tratáveis (ou aquelas que nasceram de uma mãe solteira). Alguns defenderam esta prática em nome de não interferir na cultura indígena antiga ou em nome de afirmar que aquilo “não é considerado crime” naquela cultura. Nesta lógica, se os nazistas quiserem matar judeus, quem são os estrangeiros para interferir? Afinal, os nazistas não consideram isso um homicídio. Nem algumas pessoas consideram assassinato a prática do suttee, na Índia. No entanto, podemos ser gratos pelo fato de o missionário cristão William Carey ter ajudado a cessar tal prática. O governo baniu este mal, como, finalmente, tantos outros, incluindo sacrifícios infantis no Rio Hooghly de Calcutá e de outros lugares; a queima de leprosos; e o casamento de crianças que deixaram dezenas de milhares de viúvas jovens desamparadas.

Deus dotou os seres humanos – sejam ateus, teístas ou qualquer coisa entre estes dois – com um fator de ojeriza!

O pensamento de torturar bebês por diversão, estupro por gangues, ou conduzir cegos a um penhasco revolta-nos.

Enquanto a consciência reprimida e a dureza de coração podem produzir culturas moralmente exaustas, não devemos ignorar intuições morais básicas, mesmo que seja necessário ajustá-las ou refiná-las depois de uma reflexão. Elas são, como até o filósofo ateu Kai Nielsen chama, “terra firme”: “É mais razoável acreditar em coisas tão elementares [como bater na esposa e abuso infantil] como um mal, do que acreditar em qualquer teoria cética que diz que não podemos saber ou racionalmente acreditar em qualquer destas coisas como um mal … Eu acredito firmemente que nossa intuição é uma terra firme e que qualquer que não acredita não pode ter sondado profundamente o suficiente os fundamentos de suas crenças morais.”

ALGUMA PERGUNTA?

Uma crítica do relativismo moral é que ele não consegue lidar com o dilema do reformador. Por que se preocupar com a mudança moral sobre qualquer coisa? Reforma moral não pode acontecer se o relativismo é o caso. Mas, certamente, a abolição da escravidão no Ocidente foi uma vitória moral e trouxe maior prosperidade humana. A concessão de direitos iguais para os negros nos Estados Unidos foi um ganho moral significativo, não foi? De fato, durante e depois dos debates Lincoln-Douglas de 1858, pessoas acusaram Abraham Lincoln de querer impor a sua moralidade nos estados do sul. Bem, não era a moralidade de Lincoln, mas uma moralidade universalmente vinculada. Depois disso, os senhores, ironicamente, impuseram sua vontade sobre os escravos.

Podemos ser gratos pela dedicação de Lincoln em afirmar que os escravos também são incluídos em “todos os homens” e que são “criados iguais” e “dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis”. Não seria uma boa coisa se parássemos a agressão de Hitler? Um bando de relativistas morais nunca poderia ter alcançado as metas morais alcançadas no Ocidente. Por que sacrificar a viver como uma Madre Teresa se ela não era melhor (ou pior) do que Hitler? Por que se preocupar em votar por mudanças se não existe um padrão moral para seguir?

Um outro problema para os relativistas: eles não podem julgar entre crenças de moral conflitante. Na verdade, o Ocidente tem a sua quota de problemas com imoralidade. No entanto, os movimentos de repúdio ao ocidentalismo são abundantes: eles parecem favorecer as culturas não-ocidentais, que muitas vezes trafegam em suas próprias tiranias e opressões. Na verdade, esses críticos ignoram os ganhos notáveis morais e culturais do Ocidente. Mas, além disso, tais condenações da cultura ocidental – sejam quais forem seus méritos – tendem a ser arbitrárias. Se o relativismo moral domina, por que condenam o colonialismo ou favorecem o currículo multicultural sobre um “cânone cultural” ocidental nas universidades?

Apesar da afirmação relativista de que você não pode impor seus valores morais aos outros, a ironia é que a condenação do Ocidente em geral caminha lado a lado com as tentativas de impor valores morais aos outros. Estas imposições incluem a tentativa de alterar a definição de casamento, causando a morte de nascituros, introduzindo todo tipo de práticas moralmente questionáveis nos currículos de educação sexual das escolas, votando em juízes ativistas e assim por diante. Atrás do rosto sorridente da tolerância, o relativista, muitas vezes, procura fazer sua própria imposição aos outros. Só mais uma questão: a condenação de imposição de valores morais não implica num padrão moral? Sim, claro. Aqui está a regra moral assumida pelo relativista: “É sempre errado impor seus valores morais aos outros”. Portanto, devemos perguntar gentilmente ao relativista: “Por que é errado impor valores morais aos outros? O que você faz com alguém que quer impor seus valores morais aos outros? Você deveria impor sua moralidade em quem quer impor a dele? Sem dúvida, o relativista pensa que a sua moralidade deveria ser imposta aos que pensam que a moralidade deles deve ser imposta aos outros.

Continuamos a ver como os relativistas convenientemente sacam padrões morais de seu bolso quando esses padrões se adaptam ao seu estilo.

VOCÊ NÃO PODE LEGISLAR SOBRE MORALIDADE

O caso da Suprema Corte dos Estados Unidos Planned Parenthood versus Casey (1992) – Paternidade Planejada versus Casey – levou a maioria dos ministros a afirmar: “Alguns de nós, como indivíduos, achamos o aborto ofensivo aos nossos princípios mais básicos de moralidade, mas que não pode controlar a nossa decisão. Nossa obrigação é definir a liberdade de todos, não de delegar nosso próprio código moral. (…) No coração da liberdade está o direito de definir o conceito da própria existência, do significado, do universo e do mistério da vida humana.”

Aqui nós podemos carregar a ideia de não impor a visão de um ao outro além do limite. Esta ideia caminha frequentemente lado a lado com o protesto: “Você não pode legislar sobre a moralidade”. Como vimos anteriormente, não podemos evitar algum tipo de imposição legal às pessoas para evitar males terríveis, punir os criminosos e proteger os inocentes da injustiça. Nesta decisão legal, a liberdade assumiu prioridade sobre a vida humana do nascituro. Isto é, como algumas pessoas definem o seu conceito sobre “o mistério da vida humana” significará que o nascituro não tem direito à proteção. Tragicamente, o feto não tem a mesma liberdade de se manifestar e dizer: “Você não pode legislar sobre a moralidade”.

À medida que brevemente consideramos esta questão, aqui estão algumas ponderações.

Primeiro: a visão de que você não pode legislar sobre a moralidade é uma visão ingênua e insustentável. Além do mais, esta declaração em si é uma questão moral: tal coisa não deveria ser feita. Mas de onde é que vem esse padrão e o que deve ser feito com aqueles que o rejeitam? Na verdade, podemos e devemos legislar sobre a moralidade em um nível fundamental – quando se trata da segurança e da proteção dos indivíduos e promove o bem público, preservando os direitos fundamentais de todos. O direito de legislar sobre a moralidade contra o estupro, o assassinato, a violência contra a mulher, a pedofilia, o roubo – ou trabalho escravo – parece-nos muito claro.

NÓS LEGISLAMOS SOBRE A MORALIDADE E É MUITAS VEZES BOM PARA A SOCIEDADE

Aqui o relativista muitas vezes se desloca para uma outra pergunta: “Então, sobre a moralidade de quem devemos legislar?”. Podemos responder dizendo (sendo objetivos) que a moralidade não é apenas arbitrária ou idiossincrática. Na verdade, as civilizações ao longo dos tempos têm chegado ao mesmo tipo de conclusão moral sobre o que é virtuoso e o que é mal. Romanos 2.14, 15 se refere a uma lei moral inscrita no coração dos gentios (aqueles sem revelação especial). Àqueles que negam o certo e o errado nós podemos perguntar: “Você realmente tem problema em afirmar que tirar uma vida humana inocente, estuprar mulheres, abusar sexualmente de crianças ou torturar bebês por diversão é errado?”. Aqueles que realmente não veem problema aqui simplesmente têm o coração duro. Eles não precisam de um argumento, mas de ajuda psicológica e espiritual.

Segundo: Voltando à questão do você-não-pode-legislar-sobre-a-moralidade, podemos acrescentar que tal afirmação pressupõe o mito da neutralidade, o que é incoerente e deve ser rejeitado. Os cidadãos não podem ser neutros sobre o aborto ou o casamento gay, nem tampouco o governo (seja estadual ou federal). Com efeito, a alegação de que o governo deveria fazer alguma coisa é em si uma reivindicação moral – não uma alegação neutra ou amoral. A respeito do casamento homossexual, o governo apoiará a definição de casamento como uma união de uma só carne entre um homem e uma mulher, ou não apoiará.

Quanto ao aborto, mesmo se alguém é ignorante sobre o estado do feto, não pode ser neutro sobre o tratamento a seres humanos ainda não nascidos. Alguns afirmam que o aborto é permitido, ou que depende da escolha individual, porque, afinal, “não sabemos o status moral do feto.” Mas isso é como um caçador atirando em alguma coisa se mexendo nos arbustos antes de descobrir o que está causando o movimento. Quando um grupo pró-aborto diz que o governo não deve impor a sua opinião sobre os cidadãos, isto levanta a questão: se o feto é um ser humano ao invés de apenas um pedaço de tecido, permitir o aborto por demanda implicaria em forçar a opinião de alguém sobre uma criança por nascer – com consequências letais.

O direito de escolher dificilmente é neutro. É uma questão de vida ou morte. (Deixe-me acrescentar que devemos mostrar preocupação total com a mãe grávida, que muitas vezes se sente presa e necessita de uma comunidade que demonstre compaixão, apoio efetivo – incluindo a alternativa de adoção).

Em terceiro lugar, a linguagem da “liberdade” ou “direitos” em nossa cultura tende a ser vazia e sem conteúdo. Os que pensam que nunca deve-se impor a moralidade são suscetíveis de enfatizar seu direito de fazer isto ou aquilo. Considere a frase “o direito à escolha”. Isto não nos diz muito. Poderíamos perguntar: “Escolher o quê?”. Para escolher o assassinato, estupro e tortura de bebês para se divertir? Não, a “liberdade/direito de escolha” é como a frase “para a direita/esquerda de ____.” O contexto e o objeto da escolha necessita ser suprido. Devemos questionar a ideia de escolhas de cheque-em-branco. As escolhas podem ser imorais ou morais – e não apenas moralmente neutras.

Em quarto lugar, felizmente, a sociedade tem legislado com frequência a moralidade de forma adequada – impedir Hitler de destruir ainda mais o mundo, proteger as crianças dos pedófilos, colocar os assassinos na prisão. Quando estamos agindo como devemos, intuitivamente reconhecemos o direito de impor legislação contra práticas como violência contra as mulheres, crimes contra a honra e discriminação racial.

Somos seres inevitavelmente morais. Sabemos quando alguém nos trata injustamente ou viola nossos direitos. Sabemos que precisamos assumir a responsabilidade por nossas ações ao invés de culparmos nossos genes ou nosso ambiente. Nossos sistemas judiciários e prisionais existem para convencer os humanos de que são moralmente responsáveis por suas escolhas.

O que é que nos dá dignidade, valor, nossa responsabilidade moral e os nossos direitos? De onde nossos deveres vêm?

Bem, é difícil ver como processos naturais e irracionais podem produzir tal resultado. O fato de termos sido feitos à imagem e semelhança de Deus, conforme Gn 1.26-27, oferece-nos uma resposta robusta e satisfatória para tais questões.

A Graça de Deus e o Povo de Deus Rm 9: 14 – 29

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achtemeier

Paulo apresentou uma proposta radical: ser membro do verdadeiro Israel, o povo escolhido de Deus, não é questão de descendência genética de Abraão, mas de ser escolhido para pertencer a esse povo. A substância e essência desse povo, portanto, não se baseia na herança biológica, no nascimento, mas, antes, na promessa de Deus de que tal povo existiria (9.8). Para tornar claro que o povo de Deus depende de Sua contínua escolha para a sua existência, Deus escolheu somente um dos irmãos gêmeos para ser aquele através do qual seu povo prosseguiria (9.11).

 É com a natureza e a existência do verdadeiro povo de Deus que Paulo continua a se ocupar nestes versículos subsequentes. A pergunta que Paulo utiliza para introduzir este segmento de seu argumento é familiar: “Que diremos pois?” Ele utilizou essa mesma pergunta em 6.1, 15 e 7.7, onde se seguiram três segmentos da discussão de Paulo, e nesse mesmo sentido ele a utilizará mais uma vez em 9.30, onde o próximo segmento de sua discussão começa.

 O ponto ao qual Paulo está se dirigindo nesta parte de seu argumento se torna claro no versículo 24. Paulo está falando sobre como o mesmo princípio de eleição e escolha que deu origem a Israel e que o manteve (veja vv. 7-13, 17-18) continuou a operar na expansão do povo escolhido realizada por Cristo. Era de fato este objetivo final de um povo escolhido expandido, Paulo argumenta, que Deus tinha em mente durante todo o tempo. Esse povo expandido de Deus agora inclui os gentios, que uma vez não eram parte desse povo (vv. 25-26). Paulo está citando alguns versículos aqui de Oséias (2.2-5, 1 nessa ordem) que Oséias tinha dirigido a Israel, indicando-lhes que sua existência como povo não tinha nada a ver com origens étnicas naturais, mas com o expresso ato de escolha de Deus. Quando Paulo agora usa estes versículos para fazer referência aos gentios que foram incluídos no novo povo de Deus, ele quer dizer que a inclusão desses gentios no povo de Deus não é diferente da designação original de Israel como povo escolhido: Em ambos os casos, à parte da escolha de Deus, não teria havido nenhum povo escolhido. Assim como Israel devia seu status de nação à eleição de Deus, como Oséias disse, da mesma forma o novo povo de Deus deve sua existência como povo a esse mesmo tipo de eleição.

 Mais ainda, Deus tinha pretendido desde o início que somente uma parte de Israel, um “remanescente,” seria incluído nesse novo povo (vv. 27-28). Realmente, o próprio fato que tal remanescente permanece e que pode ser incluído no novo povo de Deus é devido à direta intenção de Deus (v. 29). A citação de Paulo de Isaías 10.22 (veja seu contexto em Is 10.20-23) nos versículos 27-28 e de Isaías 1.9 no versículo 29 indica que Paulo vê essas profecias cumpridas na inclusão de somente uma parte de Israel entre aqueles que aceitaram Jesus como o Messias de Deus, como o Seu Cristo.

 O que tudo isso significa é simplesmente que quando Deus escolheu criar um novo povo para si mesmo, baseado na confiança em Cristo como aquele através de quem os seres humanos podem encontrar sua relação com Deus reparada, ele continuou a agir de modo consistente com a escolha original de Israel como povo eleito. De fato, o processo iniciado com essa escolha é agora cumprido. Visto que a origem de Israel, assim como sua continuação, era uma questão de escolha de Deus e não de herança genética (vv. 7-13), ninguém, menos ainda os israelitas, deveria estar surpreso se Deus continua a formar um povo escolhido por seu próprio ato de escolha.

 

Não é possível ler o que Paulo diz nesta passagem sobre o tratamento de Deus a Israel e aos gentios sem levantar uma série de perguntas. Algumas dessas perguntas são levantadas pelo conteúdo do que Paulo tem a dizer, enquanto outras são levantadas pelos equívocos que gerações de interpretação introduziram nestes versículos. Se formos ser claros sobre o que Paulo quer dizer nestes versículos, de forma que nossas perguntas lidam com o que ele realmente está dizendo e não com o que imaginamos que ele esteja dizendo, três pontos precisam ser mantidos firmes em mente.

 O primeiro ponto diz respeito ao claro entendimento que Deus é o criador do mundo e o governante de sua história e que ele portanto dispõe sobre ela como Senhor soberano. Isso é especialmente claro nos versículos 19-21. Chamar o Criador para prestar contas pelo modo que ele criou seu mundo, ou pelo modo que ele dispõe sobre a sua história, está fora da competência de uma criatura. Perguntas que temos sobre esse aspecto da discussão de Paulo, portanto, são perguntas levantadas pela nossa condição de criatura e as limitações que essa condição inevitavelmente coloca sobre nós. Sabemos que esta linha de argumentação não é única nesta parte da carta de Paulo. Paulo foi claro desde o começo que é precisamente rebelião contra Deus por causa da condição humana de criatura que envolveu o mundo em sua presente desordem (recorde a discussão de idolatria no cap. 1 e de Adão no cap. 5), e uma continuação da ilusão que podemos nos erguer acima de tais limitações simplesmente significa uma continuação de nossa desgraça.

 O que Paulo nos dá nesta parte de sua discussão é uma forte dose de realidade, algo que, como é o caso com algum remédio forte mas eficaz, alguns pacientes tendem a resistir. Mas nós de fato não somos deuses. Não somos de fato capazes de qualquer disposição soberana sobre a realidade, como a história da humanidade demonstra convincentemente. O que os humanos têm feito uns aos outros e ao seu ambiente deve constituir prova irrefutável desse fato. Resistência a Deus como Deus, como Criador soberano, se encontra no centro da rebelião e do pecado humanos, e é precisamente essa resistência que está por baixo de muito do que tendemos a achar repugnante nestes versículos. Mas somos, e permanecemos, criaturas, e até que cheguemos a entender esse fato, o que significa até que admitimos que precisamos da ajuda de Deus para agir como criaturas de uma maneira responsável e amorosa com nossos semelhantes, pouco do que Paulo diz será convincente.

 Parte da boa nova do Evangelho é que não somos de fato deuses e que portanto o futuro não está em nossas manifestamente incapazes mãos. Essa boa nova constitui parte do argumento de Paulo nestes versículos, e devemos estar cientes desse fato.

 O segundo ponto que devemos ter em mente se formos ser claros sobre o que Paulo quer que encontremos nesta passagem é o fato de que o Deus que dispõe sobre sua criação como soberano Criador é um Deus de misericórdia. É dentro desse quadro geral que estes versículos devem ser compreendidos ou eles podem somente ser mal compreendidos. Que o quadro é a misericórdia de Deus torna-se claro no versículo 15, por exemplo, onde Paulo começa sua resposta ao tipo de perguntas que inevitavelmente surge como resultado do tipo de discussão com que ele está aqui se ocupando. Note cuidadosamente a citação de Paulo de Êx 33.19b. Ela fala exclusivamente da decisão de Deus de ser misericordioso. Ela não está precisamente balanceada, como se Deus tivesse dito que ele seria misericordioso com quem ele escolheu e irado com quem ele escolheu. Tal simetria entre graça e ira, entre misericórdia e condenação, está ausente aqui, como está ausente por toda esta passagem. Toda a discussão é caracterizada, antes, pela assimetria de uma graça dominante. Esse mesmo ponto está claro no versículo 22, onde Paulo, falando dos “vasos da ira, preparados para a destruição,” chega mais próximo do que ele jamais chegou ao que é popularmente chamado “dupla predestinação”, mas que, em seu entendimento popular, seria mais precisamente chamado de “duplo predeterminismo.” É a ideia de que a graça é balanceada pela ira, que Deus salva alguns e condena outros e que nenhum grupo tem algo a ver com o seu próprio destino. É precisamente desse tipo de simetria entre graça e ira que Paulo discordará. Olhe atentamente para o versículo 22; note o destino dos “vasos da ira.” Eles não são destruídos, mas suportados “com muita paciência.” Para que finalidade? Para mostrar as riquezas da misericórdia de Deus! Se alguma vez houve uma passagem na carta de Paulo onde ele poderia ter expressado a terrível simetria da graça e da ira, certamente é aqui. Todavia ele não faz isso. De fato, ele cuidadosamente a evitou. Que ele fez assim indica que, para Paulo, tal simetria não existe.

 

O mesmo ponto está claro mesmo nos versículos 17-18. A linguagem com que o versículo 17 é introduzido (grego gar, dessa forma) indica que Paulo pretende que o versículo seja entendido como um exemplo do que é afirmado no versículo 16: O destino do povo escolhido depende da misericórdia de Deus. Mais uma vez, se, como a linguagem de Paulo deixa claro, o resultado lógico do versículo 17 é o versículo 18, o que mais uma vez afirma o direito de Deus de dispor sobre a história conforme ele julga adequado, esse resultado lógico é, todavia, mais uma vez estabelecido dentro do quadro de misericórdia. Esse quadro é fornecido, não apenas pelo contexto literário imediato (isto é, os vv. 15-16), mas pelo contexto histórico também. O resultado do endurecimento de Faraó foi o êxodo de Israel do Egito, para que o propósito de Deus de abençoar a humanidade por meio de um povo descendente de Abraão pudesse ser continuado. Era desse povo, como Paulo indicou, que o próprio Cristo veio (v. 5), o Cristo que é o redentor de todo aquele que crê nele, seja judeu ou grego (1.16). O endurecimento de Faraó é, portanto, para o propósito final de redenção, até mesmo da descendência de Faraó! Se alguém achar isto difícil de compreender, fique na companhia de Paulo, que irá resumir toda a discussão do plano de Deus para a redenção da humanidade em 11.33, onde, numa manifestação de uma feliz perplexidade, ele descreve os misteriosos caminhos do Deus de misericórdia.

 A boa nova adicional, portanto, no que Paulo tem a dizer aqui está no fato que o Senhor da criação é um Pai misericordioso, que faz o que faz para servir a finalidade de sua misericórdia graciosa para sua criação rebelde.

 O terceiro ponto que precisamos ter em mente é o fato de que Paulo está lidando nesta passagem com o lugar de Israel no plano de salvação de Deus. Ele não está tratando do destino de indivíduos. O que ele diz dos propósitos graciosos de Deus na execução desse plano tem significância, é claro, para nós como indivíduos, mas a passagem será mal compreendida se sua mensagem for tomada em termos individualistas. Se a passagem não contém nada de uma simetria de graça e ira em termos de inclusão no ou exclusão do povo de Deus, ela certamente não contém nada daquele tipo de simetria em relação aos indivíduos. Aqui ninguém encontrará na intenção de Paulo algo da “dupla predestinação” de indivíduos, e isso pelas duas razões que já mencionamos: Primeiro, a passagem não diz respeito a indivíduos; e segundo, Paulo fala da assimetria da graça de Deus, não da simetria de graça e ira. Por toda parte no argumento de Paulo até este ponto, a graça estava em preeminência: Ela chega àqueles que não a merecem (3.22-24; 5.8-10), é mais abundante do que o pecado (5.20-21) e interrompe o seu poder (6.22; 7.6), e não há nada que possa frustrá-la (8.38-39).

 Certamente Paulo sabe do perigo que existe se alguém resistir à oferta graciosa da misericórdia de Deus a nós criaturas rebeldes. Se rejeitarmos essa oferta de misericórdia, corremos o risco de Deus honrar nossa escolha. Mas em lugar nenhum Paulo sugere que tal recusa é desejada, muito menos predeterminada, por Deus. Fosse assim, o ofício apostólico seria uma fraude e a proclamação do gracioso ato de Deus em Jesus de Nazaré e seu chamado para confiar naquele que Jesus chamou de “Pai” seria uma cilada e uma ilusão.

 Antes, o propósito de Deus é graça e redenção. Mesmo nessa estranha progressão das reflexões de Paulo, onde, reconhecendo a total soberania de Deus, Paulo pode nutrir o pensamento de que até a rebelião humana está incluída no plano de Deus, é finalmente para os propósitos de misericórdia (veja 11.32). De fato, as únicas coisas que Paulo sabe serem irrevogáveis são os dons de Deus e Seu chamado de constituir Seu povo escolhido (11.29).

 Essa é finalmente a boa nova do Evangelho a ser encontrada até mesmo no tipo de passagem aqui sob consideração: Deus é finalmente e desproporcionalmente um Deus de misericórdia e graça, que faz o que faz pelo bem de sua criação e sua final cura e redenção. Deus lida conosco, não na base do que somos, mas na base do que ele é: um Pai misericordioso.

 Por causa do tipo de equívocos que podem colocar nesta passagem, particularmente entre aqueles que estão na tradição reformada, o professor deve tomar cuidado para que os estudantes entendam o que Paulo está realmente dizendo nestes versículos. Atenção cuidadosa deve ser prestada em particular aos três pontos delineados acima, de forma que pelo menos alguns dos equívocos populares sobre o pensamento de Paulo possam ser evitados. Estes versículos devem ser entendidos dentro do contexto mais amplo de graça e deve provavelmente ser tratados somente em situações que permitam o desenvolvimento de um entendimento desse contexto mais amplo. Considerados isoladamente, ou tendo como segundo plano o destino dos indivíduos, estes versículos quase inevitavelmente serão mal compreendidos.

 

A dificuldade está no fato que aqueles que entenderam estes versículos como afirmações de verdade eterna sobre como Deus lida com cada indivíduo, e não como uma afirmação de como Deus lidou com Israel na busca de seu plano para a redenção de sua criação rebelde, tenderam também a entender estes versículos em termos de um rígido e simétrico predeterminismo. Nesse predeterminismo, Deus determinou, antes de seu nascimento, se uma pessoa seria salva ou condenada. Nada que ela possa fazer alteraria esse fato. Aquelas que foram condenadas tiveram o que mereceram como criaturas rebeldes. Aquelas que foram salvas foram salvas somente pela graça. Mas a simetria de graça e ira não foi violada: Como Deus agiu com graça com algumas pessoas, ele agiu com ira com outras.

 Isto simplesmente não é o que Paulo está dizendo nesta passagem. Ele não está escrevendo sobre o destino de cada indivíduo. Ele está fazendo uma afirmação sobre como Deus lidou com Israel, e continua a lidar com ele, mesmo diante de sua rejeição de Seu Filho, a saber, Deus lida com Israel com misericórdia, ainda que ele mereça ira. É por isso que irá distorcer completamente o ponto de Paulo aquele que supor que estes versículos me contam sobre o meu destino, ou o destino de qualquer pessoa, diante de Deus: se condenado ou salvo. Antes, o que estes versículos me contam é que o mesmo propósito gracioso em operação na eleição de Israel está agora em operação em um novo povo escolhido a quem eu posso agora também pertencer, por esse mesmo propósito gracioso de Deus. A passagem, portanto, trata da expansão da misericórdia de Deus para incluir os gentios, não sobre o restrito e predeterminado destino de cada indivíduo. Nós gentios agora podemos ser parte de seu propósito gracioso, podemos ser parte de Seu povo, escolhido pela graça através de Jesus Cristo. Esse é o ponto desta passagem.

 Estes versículos são ricos em recursos para a pregação e podem ser conduzidos de diferentes formas, dependendo das necessidades da congregação. Os versículos seriam apropriados para um sermão sobre a graça de Deus, particularmente sobre o modo no qual a vinda de Cristo ampliou o âmbito dessa misericórdia para incluir os gentios também. Qualquer um que Paulo cita das passagens do Antigo Testamento seria um lição conveniente, e uma passagem como Mt 15.21-28, com sua expansão da misericórdia de Deus em Cristo também aos gentios (por causa da fé, v. 28!), seria uma leitura adequada do Evangelho.

 A passagem também seria apropriada para um sermão sobre a natureza da igreja como povo de Deus, possibilitando que uma congregação entenda a si mesma em sua continuidade com o povo de Israel. Como co-membros do povo escolhido de Deus, assim como co-herdeiros de Abraão na fé, os cristãos verão que não têm motivos para qualquer tipo de sentimento anti-semítico. Para a maioria dos membros da igreja, participantes de uma cultura que não é notável pelo seu conhecimento ou consideração por sua herança do passado, esta passagem forneceria uma compreensão da longa história da qual alguém torna-se herdeiro quando entra para a comunidade de fé. Como cristãos, temos Abraão como nosso pai também, e a história dos patriarcas e profetas é nossa história também. É uma história que precisamos conhecer e da qual podemos ser orgulhosos.

Fonte: Romans, 159-165

Tradução: Paulo Cesar Antunes

As Amarras da Liberdade

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Roger E. Olsonroger olson - arminius hoje

 

Há um paradoxo na compreensão cristã do que significa ser livre.

 

Para milhões de pessoas, nenhuma palavra soa tão bem quanto “liberdade”. Nos comerciais de televisão, anuncia-se que a compra de um automóvel ou uma viagem àquele destino paradisíaco trarão a liberdade de que o telespectador tanto precisa. Datas festivas, como a da independência de um país, também são saudadas como símbolos de liberdade, e boa parte dos hinos nacionais a mencionam. Políticos, homens de negócios, publicitários, vendedores, chefes militares – todos sabem como usar essa palavra para chamar a atenção de seus públicos e atrair interesse. Sim, poucas palavras são tão comuns e, ao mesmo tempo, carregam tamanho significado.

 A palavra liberdade também é encontrada diversas vezes nas Escrituras e na tradição cristã. Qualquer crente que conheça minimamente a Bíblia já se deparou com versículos que dizem coisas como “a verdade vos libertará” (Jo 8.32) e que “é para a liberdade que Cristo vos libertou” (Gl 5.1). Logo, liberdade não é um tema apenas patriótico ou humanitário; é, também, um valor presente no Evangelho. Infelizmente, muitas pessoas confundem dois conceitos de liberdade bastante distintos. O conceito bíblico é bem diferente do significado cultural do termo, apesar de serem facilmente confundidos. E nenhum desses é o mesmo que “livre-arbítrio”. Isso pode ser confuso para o cristão comum que deseja saber o que é a verdadeira liberdade. Seria a prerrogativa de ter escolhas? Seria a ausência de limites e restrições? Ou é o poder de fazer o que se deseja? E em que sentido Cristo nos liberta, e em que isso difere daquilo que a mídia, constantemente, nos promete?

 No âmago do Evangelho cristão repousa uma incômoda verdade: a de que, para sermos livres, precisamos abrir mão de tudo o que a cultura secular nos oferece como fonte de liberdade. O Evangelho, ao que parece, requer uma distinção entre o prazer da verdadeira liberdade e a simples posse do chamado livre arbítrio. Não que o livre arbítrio ou a independência da tirania seja algo ruim; apenas, nenhuma dessas coisas representam a verdadeira liberdade. Esta, segundo o Evangelho, se encontra na obediência. E não é exatamente essa a imagem retratada na cultura popular.

 Agostinho, o grande pai da Igreja, ensinava que a liberdade verdadeira não se trata de poder para escolher ou falta de restrições, mas sim, de sermos aquilo que fomos chamados a ser. Os seres humanos foram criados à imagem de Deus; a liberdade verdadeira, portanto, não é encontrada ao nos distanciarmos dessa imagem, e sim, se a vivenciarmos. Quanto mais nos conformamos à imagem de Deus, mais livres nos tornamos – em contrapartida, quanto mais nos distanciamos disso, mais perdemos nossa liberdade.

 De uma perspectiva cristã, então, a liberdade – paradoxalmente – é um tipo de cativeiro. Martinho Lutero foi quem expressou essa verdade da melhor maneira, desde o apóstolo Paulo. Em seu tratado de 1520, A liberdade de um cristão, o reformador sintetizou a ideia em poucas palavras: “O cristão é o senhor mais livre de todos e não está sujeito a ninguém; o cristão é o servo mais obediente, e está sujeito a todos”. Em outras palavras, de acordo com Lutero, por causa do que Cristo fez e por causa de sua fé no Salvador, o cristão se tornou completamente livre da escravidão da lei. Ele não precisa fazer nada. Por outro lado, em gratidão pelo que Jesus fez por ele e nele, o cristão está preso no serviço a Deus e ao próximo. Ele tem a oportunidade de servi-los com alegria e liberdade. Logo, quem não entende o significado dessa oportunidade simplesmente não experimenta a alegria da salvação. Foi isso que Lutero quis dizer.

 

OBEDIÊNCIA E SERVIDÃO

 

Pulando do século 16 para o 20, e de um reformador do magistério para um teólogo anabatista radical, temos John Howard Yoder escrevendo, em A política de Jesus, acerca de “subordinação revolucionária”. Segundo ele, não é possível encontrar a verdadeira liberdade focando em nossos próprios direitos, mas sim, entregando-os livremente, sendo servos de Jesus Cristo e do povo de Deus. Tudo isso, claro, é bastante difícil para ocidentais do século 21 engolirem. Somos herdeiros do Iluminismo, vítimas de uma lavagem cerebral feita pela ênfase da modernidade no individualismo e na liberdade. Somos bombardeados, desde a infância, com a mensagem de que a liberdade significa autoafirmação, reivindicação de nossos direitos, ausência de restrições e senhorio sobre nós mesmos. A maior virtude defendida pela sociedade contemporânea é a de “ser verdadeiro consigo mesmo”. Em outras palavras, é como se cada um dissesse, o tempo todo: “Não me limite!”.

 

Acontece que nenhuma verdade é mais difundida nas Escrituras e na tradição cristã do que a de que a verdadeira liberdade se encontra na obediência e na servidão. E, ao mesmo tempo, nenhuma verdade está mais em desacordo com a cultura moderna. Nesse ponto, nos encontramos diante de duas alternativas: a mensagem do Evangelho a respeito da verdadeira liberdade versus a mensagem cultural da autonomia e do “vivo como quero”. O contraste que há entre a verdade do Evangelho e seu substituto satânico começa a se desenrolar em Gênesis, na história da criação e da queda. De acordo com Gênesis 2, Deus deu liberdade aos primeiros seres humanos: “De toda árvore do jardim comerás livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Condicionados como estamos pela modernidade e sua obsessão por autonomia, nossa primeira reação é o questionamento: “Como isso pode ser liberdade?” – afinal, para nós, liberdade com limitação não é liberdade.

 Sabemos, entretanto, como esse tipo de liberdade foi compreendida por Adão e Eva, assim como por toda a raça humana. Trata-se de uma história de vergonha, alienação, inimizade e morte – em suma, a antítese absoluta da liberdade. Em Paraíso perdido, John Milton parodiou a raiva da humanidade por causa de suas limitações na declaração de Lúcifer: “Melhor reinar no inferno do que servir no céu!”. Fica a questão: Quando Adão e Eva estavam mais livres? No Jardim do Éden, quando podiam comer de todas as árvores, exceto uma? Ou depois, quando perderam o Paraíso e ficaram “livres” para comer de tudo o que quisessem? As implicações do ocorrido no início são inevitáveis: a verdadeira liberdade é encontrada apenas através da obediência a Deus e da comunhão que a acompanha. Já sua perda se dá com a autoafirmação, o desejo idólatra de cada um governar seu “pedacinho de inferno”, em vez de desfrutar das bênçãos do favor de Deus.

 Toda a narrativa bíblica pode ser lida como um drama sobre a liberdade e sua perda através do desejo e da tentativa do ser humano de aproveitar uma autonomia irrestrita. Tome-se como exemplo as frequentes rebeliões de Israel e sua consequente perda de proteção divina; ou a atitude de Davi diante de sua redescoberta da alegria na obediência às leis de Deus; e também os chamados de trombeta dos profetas para que Israel e Judá guardassem a lei do Senhor – e a subsequente perda da liberdade do povo, por ter insistido em fazer as coisas à sua maneira.

 

Em nenhum outro trecho bíblico esse contraditório tema ficou mais claro do que no Novo Testamento. Jesus disse a seus discípulos: “Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á”. E, mais uma vez, ele disse aos que o seguiam: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo” (Mt 20.26-27). É verdade: o apóstolo Paulo falou diversas vezes sobre nossa libertação, em Cristo, de uma obrigação externa, ou seja, da lei. A confiança em Jesus é, de acordo com ele, a única base para um relacionamento correto com Deus. Por outro lado, ao longo de suas epístolas, ele nos aconselha a abrir mão de nossos direitos e liberdades em prol da propagação do Evangelho e da proteção da consciência das outras pessoas. Paulo encontrou a verdadeira liberdade ao abrir mão de seus direitos: “Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais” (1Co 9.19).

 

AMOR SACRIFICIAL

 

O tema da liberdade através da obediência e servidão é tão predominante no Evangelho que é difícil deixá-lo passar despercebido. No entanto, isso, muitas vezes, acontece devido à ênfase dada à autonomia por nossa cultura. Então que tipo de obediência traz a liberdade verdadeira? Em primeiro lugar, e contrariamente à opinião popular, não se trata de uma obediência imposta. Não se trata de obedecer à vontade de Deus porque tememos as consequências da desobediência. A obediência ao Evangelho é sempre voluntária. No momento em que a obediência a Cristo se torna penosa, ou mero conformismo relutante, não é mais a obediência do Evangelho. Somente quando a obediência é prazerosa, resultado de gratidão, ela proporciona liberdade verdadeira, a que vem quando somos aquilo que fomos criados para ser.

 Em segundo lugar, a obediência que traz liberdade verdadeira é motivada pelo amor sacrificial. Yoder descreve profeticamente esse tipo de servidão como “subordinação revolucionária”, onde cada crente busca o bem dos outros sem tentar fazer valer seus próprios direitos. Em uma comunidade onde todos vivem dessa forma, em gratidão a Jesus Cristo, capacitados pelo seu Espírito, a verdadeira liberdade é abundante.

 Então, qual a relação de tudo isso com o conceito de livre arbítrio? Liberdade, então, não significa nada além de livre arbítrio? É claro que não. Se, por “liberdade” queremos dizer a liberdade do Evangelho – na servidão, tornamo-nos aquilo que Deus deseja de nós, na obediência a Cristo e em nossa transformação à sua imagem –, então está claro que estamos falando de algo bem mais profundo que o simples exercício do livre arbítrio. Isso é algo em que arminianos, que creem que o homem é livre para escolher, e calvinistas, que acreditam na escravidão da vontade e soberania absoluta de Deus, poderiam concordar. Os arminianos evangélicos acreditam que a verdadeira liberdade transcende o livre arbítrio, que, nessa análise, seria simplesmente a capacidade dada por Deus para escolhermos a verdadeira liberdade, oferecida pela graça, ou a rejeitarmos devido à nossa obstinação egocêntrica.

 Nem todos os cristãos creem no livre arbítrio. Lutero era um deles. Mas não é essa a questão. Quer alguém creia ou não, a liberdade verdadeira é outra coisa, e não contradiz o livre arbítrio; ela simplesmente o transcende. Todos os cristãos concordam que a autêntica liberdade, aquela que procede da obediência a Cristo e da conformidade à sua imagem, é um dom de Deus que iremos desfrutar plenamente quando formos glorificados com ele. É sobre isso que Paulo fala em Romanos 7: aqui na terra guerreamos entre a “carne” – a natureza caída – e o Espírito, dom de Deus, que habita em nós. Nesse ínterim, enquanto aguardamos nossa plena glorificação, crescemos em liberdade apenas ao trocarmos uma atitude de submissão à lei por um novo coração que se deleita em obedecer a Cristo. Pela graça de Deus, e com a ajuda de seu Espírito, podemos perceber uma liberdade ainda maior do pecado e da morte. Mas a liberdade em sua plenitude só vem após nossa ressurreição.

 Teólogos chamam de “santificação” o processo pelo qual se experimenta gradualmente a autêntica liberdade antes da morte. Há muitas opiniões divergentes a respeito de quão intensa e completa tal liberdade pode ser antes da ressurreição. Todos, porém, concordam que a liberdade verdadeira é um dom que recebemos aos poucos, ao longo da vida. Paulo foi claro em sua carta aos crentes de Filipos: “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”. A salvação, em outras palavras, é tanto dom quanto missão. O “porque” usado por Paulo indica que o dom está na base da missão. Somos chamados, em um exercício de livre arbítrio, a obedecer e servir. Trata-se de uma decisão nossa.

 

GRAÇA x LIVRE ARBÍTRIO

 

Por outro lado, sempre que experimentamos essa liberdade maior que vem da obediência genuína e somos conformados ao caráter de Cristo, nos tornando servos verdadeiros, reconhecemos que é tudo devido à obra de Deus em nós. É esse o paradoxo da graça e do livre arbítrio. A graça de Deus, que deseja nos conceder a liberdade, está presente, desde o momento da nossa conversão. A graça nunca nos falta, nem precisa ser reforçada. Mas pode, no entanto, ser bloqueada por atitudes e hábitos indevidos, ressentimentos e atitudes egoístas. Cabe a nós encontrá-los – com a ajuda do Espírito, é claro – e trabalhá-los através de um processo de arrependimento e submissão. O livre arbítrio, assim, é uma condição necessária a esse processo, mas não o resultado final. Tal processo não leva à autonomia absoluta, mas sim, a uma liberdade crescente do jugo do pecado e da morte. Já estamos livres da lei e da condenação; portanto, a liberdade para nos tornarmos o que Deus planejou é trabalho dele e nosso também – a glória, porém, é toda do Senhor.

 O Evangelho é uma boa nova incondicional. Não precisamos fazer algo ou obedecer a alguém; isso seria horrível. Não; o Evangelho trata-se, de fato, de poder fazer algo, o que é sempre positivo. Trata-se do que podemos ter à medida que permitimos, de bom grado, que Deus, através do seu Espírito, faça sua obra em nós: a certeza da vitória sobre o pecado e a morte. Apenas quando abraçarmos essa vitória – e renunciarmos a todas as reivindicações para governar nossas próprias vidas – é que seremos verdadeiramente livres.