John F. Parkinson

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O indivíduo judeu veio a crer equivocadamente que, visto que participava da eleição nacional de Israel, ele já era pessoalmente justificado por Deus de direito. Assim como o filho mais velho recebe a herança da família como seu direito natural, da mesma forma o judeu que guardava a lei pensava que naturalmente tinha o direito à salvação pessoal. É Paulo quem nos esclarece que aqueles que compartilham da eleição nacional de Israel não são automaticamente justificados (isto é, declarados justos por Deus), não obstante suas alianças nacionais, lei, promessas e descendência. Paulo insiste que sua grande doutrina da justificação pela fé aplica igualmente a todos os homens sem distinção, seja judeu ou gentio.

 

É em Romanos 9 onde descobrimos que “nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos” (vv. 6, 7). Em outras palavras, nem todos os judeus eram automaticamente salvos porque eram descendentes naturais de Abraão. É importante avaliar o contexto e cenário deste importante e muito mal compreendido capítulo. De fato, visto que muitos consideram o capítulo como o bastião inexpugnável da eleição e reprovação pessoais desde a eternidade, será apropriado examinar com alguma demora o conteúdo e fluxo do argumento de Paulo. Paulo vinha estabelecendo nos oito primeiros capítulos de sua carta aos romanos que Deus justifica os pecadores pela graça somente, através da fé somente. Além disso, ele vinha insistindo que o judeu e o gentio são salvos exatamente na mesma base da graça através da fé, e que ninguém é justificado pelas obras da lei.

 

Quando chega no nono capítulo, Paulo antecipa que protestos surgirão dos judeus farisaicos que guardam a lei. Em primeiro lugar, eles farão a séria acusação que o evangelho de Paulo tinha certas implicações doutrinárias inaceitáveis, visto que a palavra de Deus “havia faltado” ou falhado. Em segundo lugar, eles farão a igualmente séria acusação que Paulo estava tornando Deus injusto. Paulo irá agora abordar estas duas objeções antecipadas. Para que ninguém possa acusá-lo de ter tornado anti-judaico, ele começa afirmando seu sincero e abnegado amor por seus “parentes segundo a carne” e sua mais alta apreciação das bênçãos nacionais relativas à sua adoção, glória, alianças, lei, culto, promessas e descendência. Ele é inspirado a escrever uma de suas belas doxologias conforme lembra que Cristo, segundo a carne, nasceu em sua raça. Paulo certamente não se tornou anti-judaico, mas há importantes lições espirituais a ser aprendidas das formas em que Deus soberanamente conduziu a história da nação, e são estas lições que Paulo agora irá revelar.

 

Primeira Objeção Judaica

 

“Paulo, você vem ensinando que Deus salva pela graça somente, através da fé somente, sem distinção entre judeu e gentio. Mas e quanto à lei e as promessas dadas a Israel? Se o que você ensina é correto, então as promessas falharam e a palavra de Deus falhou.”

 

Paulo responde esta objeção antecipada mostrando que não são todos os descendentes de Abraão que herdam a bênção, mas somente aqueles que descenderam de Isaque, pois ‘Em Isaque será chamada a tua descendência’. Paulo então contrasta os filhos da carne com os filhos da promessa. Qual é a importância disto?

 

Deus fez uma escolha histórica de Isaque, em preferência a Ismael, para ser o herdeiro das bênçãos da aliança com Abraão. Nesta escolha Deus foi soberano, livre e incontestável. Esta observação da história da nação será usada por Paulo para ilustrar uma importante verdade espiritual. Isto ele faz empregando um artifício literário muito antigo, a alegoria. Uma alegoria pode ser definida como uma história na qual o significado aparente dos personagens e eventos é usado para simbolizar um significado moral ou espiritual. Paulo já alegorizou esta mesma história em Gálatas 4, onde ele expressamente declara ‘o que se entende por alegoria’ (v. 24). A lição espiritual agora sendo ensinada é que os filhos das promessas é que são os filhos de Deus, e não os filhos da carne. Ismael era um filho segundo a carne (Gn 16.2-4), e dessa forma se assemelha aos homens em sua condição natural. Isaque era um filho segundo a promessa (Gn 18.10-11), e assim se assemelha àqueles que têm um nascimento espiritual. A implicação para os leitores judaicos de Paulo era muito clara. A promessa é somente àqueles que são espiritualmente renascidos, assim tendo semelhança com o nascimento de Isaque. Observe que a passagem não ensina qualquer coisa sobre um decreto eterno para salvação no caso de Isaque, ou para reprovação no caso de Ismael. Paulo está usando Ismael, o filho segundo a natureza, como um símbolo dos homens não regenerados, e Isaque o filho da promessa como um símbolo dos homens espiritualmente regenerados.

 

Mas a fim de que os judeus não possam dizer que Isaque e Ismael tiveram mães diferentes e que Ismael era filho de Hagar a escrava e não lhes era pertinente, Paulo continua seu argumento introduzindo dois irmãos que tinham o mesmo pai e a mesma mãe, Isaque e Rebeca. Esaú e Jacó eram irmãos gêmeos que na Escritura tornam-se símbolos de duas nações diferentes. Quando Rebeca estava grávida dos gêmeos, o Senhor lhe disse ‘Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor’. (Gn 25.23).

 

Novamente, há importância histórica e espiritual nesta história. No nível histórico, Deus continuaria a bênção da aliança através de Jacó ao invés de Esaú, sendo esta uma escolha soberana e livre de Deus. A profecia teve um cumprimento literal nas histórias consequentes e contrastantes de Edom (Esaú) e Israel (Jacó). É habitual de comentaristas, que não aceitam a visão calvinista, explicar a escolha de Deus de Jacó e Esaú em termos de seu papel na história. Nós inteiramente respeitamos essa posição, e concordamos que a soberania de Deus na história está em vista. Entretanto, em nossa opinião, Paulo não a limita a isso.

 

Sugerimos que Paulo, novamente empregando um método alegórico, tira lições espirituais do caso de Jacó e Esaú. (Por alegoria referimos ao seu uso literário dentro das Escrituras. Não concordamos com o método de interpretação conhecido como ‘alegorização’ que é caracterizado pela busca de um significado mais profundo do que está aparente nas afirmações literais de um texto, como popularizado por Orígenes, Jerônimo e Agostinho.) A história de Jacó e Esaú é usada por Paulo para ilustrar que Deus escolhe salvar pela graça e não pelas obras, e que o propósito de Deus de acordo com a eleição ou escolha será apenas em seus termos e que as obras não terão qualquer influência. A bênção tem sua origem no chamado gracioso de Deus. No curso natural dos eventos, Esaú teria recebido a bênção porque era o primogênito. Mas ele foi desprezado em favor de seu irmão mais jovem. A importância espiritual disto agora torna-se clara.

 

Deus rejeitou e inverteu a ordem natural para que pudesse abençoar em seus próprios termos. Esaú, sendo o filho mais velho, deveria ter as bênçãos por direito. Isto é como o judeu hipócrita, ou na verdade qualquer um que se esforça pela seu salvação, que sente que deve receber a salvação por direito. Por outro lado, Jacó era o filho mais jovem e não tinha direito natural à bênção. Se ele fosse receber a bênção, seria pela graça e não por direito. Isto ilustra a base da salvação de qualquer um. Ele deve ser salvo pela graça e não por direito. Portanto, o ‘mais velho servindo ao mais moço’ é uma ilustração da lei sendo colocada de lado em favor da graça. Quando Deus fala de amar Jacó e odiar Esaú, não é sua atitude aos dois indivíduos históricos, mas sua atitude a dois tipos diferentes de pessoas, tipificadas nestes irmãos gêmeos, conforme predito antes que eles tivessem nascido ou feito bem ou mal. Jacó simboliza a posteridade crente de Abraão, enquanto Esaú simboliza a posteridade incrédula de Abraão.

 

Como no caso de Ismael e Isaque, não há menção alguma de decretos eternos para salvação ou condenação pessoal. John Goodwin (1593-1665), em sua excelente Exposition of the Ninth Chapter to the Epistle to the Romans, escreveu que o “escopo do apóstolo nisso é afirmar e manter sua grande doutrina da justificação pela fé e que aqui ele não diz absolutamente nada sobre qualquer eleição ou reprovação pessoal dos homens desde a eternidade”. Goodwin argumenta que Paulo não menciona Isaque e Jacó como exemplos de uma eleição absoluta e incondicional de indivíduos para a vida eterna, mas como ilustrações do novo nascimento e da graça. Um discernimento do método alegórico de Paulo é a chave para um entendimento desta passagem.

 

Resumindo o argumento até então, Paulo, pelos propósitos de ilustração, retratou Ismael como um filho da carne, e Isaque como um filho da promessa. Esaú o mais velho é um símbolo do homem que reivindica bênçãos por direito, enquanto Jacó o mais moço é um símbolo do homem que recebe a bênção pela graça. A mensagem ao leitor judeu de Paulo é clara: se deve ser salvo, ele precisa experimentar o nascimento espiritual, conforme ilustrado em Isaque, o filho da promessa, e recebê-lo somente pela graça, conforme ilustrado em Jacó, o mais jovem. Assim, a palavra de Deus definitivamente não falhou. Deus abençoou em seus próprios termos, que são pela graça por meio da fé, sem as obras. A primeira objeção foi respondida. É difícil para nós plenamente apreciar que dolorosa experiência deve ter sido ao judeu ser informado que em termos espirituais ele tem mais semelhança com Ismael e Esaú do que com Isaque e Jacó.

 

Segunda Objeção Judaica

 

‘Paulo, se não há vantagem aos descendentes de Abraão, ou àqueles que se dedicam às obras da lei, então Deus é injusto.’

 

Paulo refuta totalmente a ideia que há alguma injustiça em Deus na questão da salvação. Deus salva pela graça somente, através da fé somente, e nenhum judeu hipócrita irá dar ordens de outra forma a Deus. Como ele disse a Moisés, ‘Compadecer-me-ei de quem me compadecer’. Misericórdia é prerrogativa inteiramente de Deus. É prerrogativa soberana de Deus salvar pela graça e salvar aqueles que creem, seja judeu ou gentio. Assim como Deus foi soberano na escolha histórica de Isaque e Jacó para serem os herdeiros das promessas da aliança, da mesma forma ele é soberano na escolha de como e quem ele irá salvar.

 

Como Deus salva? – Ele salva pela graça.

Quem Deus salva? – Ele salva aqueles que creem.

 

Este é o claro ensino dos primeiros oito capítulos da epístola aos Romanos. No nono capítulo, a grande doutrina de Paulo da justificação pela fé é ilustrada pela alegorização de certos personagens e eventos do Antigo Testamento, para benefício especial dos leitores judaicos de Paulo.

 

Mas se Deus é soberano sobre quem ele salva, então ele também é soberano sobre quem ele rejeita. Ele salva o crente, ele rejeita o incrédulo. Faraó é citado como um exemplo de um pecador impenitente que persistiu em sua incredulidade. A passagem não ensina que Deus predestinou Faraó à condenação por um decreto absoluto na eternidade passada. Paulo está mostrando que Faraó permanece para sempre como uma advertência divina solene contra a incredulidade obstinada (v. 17), não diferente da maneira em que Pedro retrata Sodoma e Gomorra como um exemplo ‘aos que vivessem impiamente’ (2Pe 2.6). W. E. Vine, em seu comentário The Epistle to the Romans (p. 136), afirma claramente “que a retribuição divina não é simplesmente arbitrária, mas é consequente à própria dureza de coração do homem. A soberania de Deus não é exercida predestinando os homens ao pecado, como se eles fossem máquinas impotentes, forçadas por um destino predeterminado, e compelidos a colher as consequências de um mal pelo qual eles não foram primariamente responsáveis. A presente condição dos judeus é atribuível, não a Deus, mas a eles mesmos”.

 

É a vontade soberana de Deus ter misericórdia sobre aqueles que creem e endurecer aqueles que persistem em sua incredulidade, e nenhum ser humano, judeu ou gentio, irá dar ordens diferentes a Deus. De fato, a própria ideia é tão ridícula como o barro ditando ordens ao oleiro. O pecador perdeu qualquer reivindicação a Deus. A prerrogativa de Deus de salvar pela graça e demonstrar as riquezas de sua glória salvando aqueles que creem (vasos de misericórdia, preparados nesta vida para a glória futura) é incontestável, assim como sua demonstração de ira sobre os pecadores impenitentes e empedernidos (vasos de ira que se prepararam para a destruição) é incontestável.

 

Em seu comportamento com a humanidade, Deus está completamente correto e o homem está completamente errado. O pecador não negocia com Deus na questão da salvação, e não tem nada, por assim dizer, a colocar sobre a mesa. Se o pecador for salvo, será totalmente e completamente pela própria vontade e termos de Deus. Deus não será contestado quanto a como e quem ele salva. É seu beneplácito salvar pela graça e salvar aqueles que creem, judeu ou gentio.

 

Paulo agora desenvolve o argumento lembrando aos seus leitores que Deus sempre pretendeu trazer os gentios para a bênção. Paulo estava ansioso para mostrar que ele não tinha inventado estas ideias e cita Oséias para provar aos leitores judaicos que a misericórdia de Deus aos gentios era totalmente consistente com as profecias da Escritura. Mas o judeu poderia bem perguntar se algo seriamente não saiu errado com a profecia se multidões de gentios estavam sendo salvos comparado a um número relativamente pequeno de judeus. Paulo responde esta possível objeção judaica citando Isaías para mostrar que o profeta tinha precisamente predito que somente um remanescente ou pequeno número de judeus seria salvo.

 

Os judeus, com todos os seus privilégios, estavam deixando de obter a bênção enquanto os gentios, com todo o seu cenário ímpio, estavam sendo salvos em grande número. Qual era a explicação deste estranho estado de coisas? O ensino da passagem é que há algum tipo de predestinação dupla e absoluta de indivíduos desde a eternidade? Nada poderia estar mais distante do argumento de Paulo.

 

A explicação bíblica é que os gentios alcançaram a bênção pela fé e que os judeus deixaram de obtê-la porque perseguiram a justiça como se a bênção fosse baseada nas obras. A fé somente em Cristo era a grande pedra de tropeço ao judeu. A essência do argumento em Romanos 9 é que a justificação é pela fé somente, mesmo no caso do judeu. Nesta questão, Deus é soberano e incontestável.

 

Em Romanos 9 Paulo tomou eventos e pessoas nas nações passadas para demonstrar a soberania de Deus na história. Ele então alegorizou estas histórias verídicas para ilustrar e ensinar a grande doutrina da justificação pela fé. No capítulo 10 ele elabora sobre o presente fracasso de Israel de entrar na bênção do evangelho por causa de sua ignorância da justiça de Deus e seu fracasso em compreender o significado da obra acabada de Cristo (v. 3, 4). A culpa e a responsabilidade de Israel são estabelecidas fora de qualquer dúvida na citação tocante de Paulo da profecia de Isaías ‘Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente.’

 

Entretanto, Deus não terminou com seu antigo povo. Nesta presente época, diz Paulo, há ‘um remanescente, segundo a eleição da graça’ (11.5). Israel não obteve a bênção que estava procurando, mas os eleitos a obtiveram. Muitos judeus foram salvos, e Paulo enfatiza que eles foram salvos pela graça e não pelas obras. O eleito neste contexto é, portanto, o judeu crente.

 

Mas Deus ainda tem um futuro para o judeu. Deus está controlando a história, e em um dia ainda por vir, quando a plenitude dos gentios tiver entrado, todo o Israel sera salvo. As promessas a Abraão e seus descendentes ainda esperam um glorioso cumprimento, quando sairá de Sião o Libertador, que desviará as impiedades de Jacó. Por fidelidade à aliança, Deus irá tirar os seus pecados. Neste tempo presente, Israel, diz Paulo, é inimigo do evangelho por causa de vocês (isto é, os gentios), mas no que se refere à eleição, eles são amados por causa dos pais. A palavra de Deus não falhou em nenhum aspecto. De fato, a presente incredulidade de Israel é a ocasião de misericórdia aos gentios. Com o passar do tempo, Israel também irá obter misericórdia. O fato que Deus encerrou todos os homens debaixo da incredulidade para que pudesse ter misericórdia sobre todos inspira Paulo a escrever uma das mais belas doxologias de toda a Bíblia: ‘Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! …Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.’ (Rm 11.33-36).

 

Há ainda um outro uso do termo eleitos relativo aos crentes em Israel e isto ocorre nos Evangelhos sinóticos. É o Senhor quem usa o termo em quatro ocasiões, e em todas elas em conexão com o remanescente fiel de Israel durante o periodo da tribulação, isto é, entre o arrebatamento da igreja e a vinda do Filho do Homem. O Senhor Jesus informou aos seus discípulos que o Filho do Homem viria nas núvens do céu com poder e grande glória e enviaria seus anjos para ‘ajuntar os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus’ (Mt 24.31). O leitor pode rapidamente consultar todas as referências para verificar que todas elas se aplicam ao remanescente fiel do tempo do fim: Mt 24.22, 24, 31; Mc 13.20, 22, 27 e Lc 18.7.

 

Para concluir esta seção, pode ser resumido que eleitos em conexão com Israel se aplica (1) a toda a nação no passado, (2) aos crentes na nação no passado e no presente, (3) ao remanescente fiel na tribulação e (4) a toda a nação no milênio futuro. Em cada caso, é o contexto que fornece a chave para o significado. Em nenhum destes casos, e certamente não em Romanos 9, os eleitos ou a eleição jamais se refere a uma predestinação absoluta de indivíduos para salvação ou reprovação por decretos imutáveis desde a eternidade.

 

Fonte: John F. Parkinson, The Faith of God’s Elect, Gospel Tract Publications (Novembro, 1999) p. 21-28.

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes

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