Jack Cottrelljack cottrell - arminius hoje

 

PERGUNTA: Tenho visto a palavra “Hades” no Novo Testamento várias vezes, mas não estou certo quanto ao que significa. Você pode explicar isso?

 RESPOSTA: Posso tentar. Primeiro, o equivalente a Hades no Antigo Testamento é Sheol, que aparece cerca de 65 vezes nos escritos do Antigo Testamento. O Antigo Testamento Grego (a Septuaginta) traduz essa palavra com Hades quase o tempo todo. O Novo Testamento usa Hades dez vezes (ou 11 se 1Co 15.55 for contado). O que é mais importante lembrar é que estas palavras estão sempre relacionadas à morte. Elas são o lugar ou a localização dos mortos. Em relação a isto, veja Sl 18.5; Pv 5.5; Is 28.15; Ap 1.18; 6.8.

 Para entender adequadamente estes termos, devemos antes de tudo aceitar a inspiração completa de toda a Bíblia, bem como a unidade e a coerência dos conteúdos de seu ensino. Em segundo lugar, temos de aceitar o ensinamento bíblico de que os seres humanos consistem de duas partes, o corpo físico e o espírito ou alma. Elas foram feitas para existir em conjunto, mas são separadas no momento da morte física. Finalmente, devemos aceitar o fato de que existem três aspectos da morte que se abateu sobre a raça humana como resultado do pecado: a morte física do corpo, a morte espiritual da alma (Ef 2.1, 5), e a morte eterna no inferno, o lago de fogo, que é “a segunda morte” (Ap 20.14; 21.8).

 Grande parte da confusão sobre a natureza do Hades (Sheol) é resultado da negação da realidade da alma ou espírito como um aspecto real e separado da natureza humana. Tal negação é central na teologia das Testemunhas de Jeová e Adventistas do Sétimo Dia, por exemplo. A existência da alma também está se tornando cada vez mais questionada até mesmo em círculos evangélicos. Aqueles que assim veem os seres humanos, como corpos somente, nunca irão entender adequadamente a natureza do Hades. (Sobre a natureza dualista do homem, veja meu livro, The Faith Once for All, páginas 134-147.)

 Como, então, devemos entender o Hades, o lugar e poder da morte? Em primeiro lugar, devemos entender que às vezes Sheol no Antigo Testamento e Hades no Novo Testamento se referem à sepultura, que engole os corpos dos que morrem, justos e injustos. Aqueles que negam a existência da alma muitas vezes dizem que Sheol e Hades semprese referem à sepultura, mas eles estão enganados. Alguns (como Robert Morey) dizem que estas palavras nunca se referem à sepultura, mas isso também está errado.

 Por um lado (contra Morey), em alguns textos Sheol/Hades significam claramente o túmulo. Em seu sentido de “lugar dos mortos”, Sheol/Hades é o lugar abaixo da superfície da terra, onde os cadáveres são enterrados. Como tal, tanto o justo quanto o ímpio entram no Sheol/Hades, o inimigo que captura e devora todos os membros da raça de Adão. Desta forma, até mesmo para o justo, a morte parece ser vitoriosa, uma vez que a sepultura nos engole a todos e transforma nossos corpos de novo em pó (veja Sl 89.48; 116.3; 141.7; Is 38.10). Neste sentido Sheol/Hades é algo a ser receado e temido, algo do qual todos nós ansiamos ser libertados e redimidos (Sl 49.14-15; 86.13; Os 13.14). Esta é a luz na qual o Salmo 16.10 deve ser entendido: “Pois não deixarás a minha alma no Sheol, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção”. (Aqui a palavra “alma” tem o sentido de “a própria pessoa”; “minha alma” significa “eu, eu mesmo”) Em Atos 2.27, 31 Pedro cita isto como uma profecia da ressurreição do túmulo do corpo de Jesus, pela qual “Ele não foi abandonado no Hades, nem a sua carne viu a corrupção.” Isto se refere apenas ao corpo de Cristo como enterrado e ressurgido da sepultura (Sheol/Hades), não ao estado ou atividade de seu espírito entre sua morte e ressurreição.

 Por outro lado (contra aqueles que negam a existência da alma), em alguns textos onde Sheol/Hades se refere a um local específico, ele não se refere à sepultura como o receptáculo do corpo, mas ao lugar para o qual os espíritos dealguns dos mortos são levados, onde eles existirão em seu estado intermédiário (incorpóreo, consciente) até o retorno de Cristo. Visto que o Sheol/Hades é o lugar dos mortos, somente as almas dos ímpios são colocadas no Sheol/Hades no sentido de um lugar de espera para almas desencarnadas (veja Jó 24.19; Sl 09.17; 31.17; 55.15; Pv 9.18; 23.14; Is 14.13-15; Mt 11.23). As almas dos justos não entram no Sheol/Hades, visto que suas almas não se encontram em um estado de morte espiritual, mas foram vivificadas pelo poder vivificador de Deus (Ef 2.5-6; Cl 2.12-13). Portanto, não devemos pensar que Sheol/Hades seja ocupado pelas almas dos justos e dos injustos (Sl 49.14-15; 86.13; Pv 15.24).

 Como o lugar onde os ímpios habitam até o julgamento, o Sheol/Hades é visto como um inimigo ou capturador com todo o seu terror. Na história de Jesus do homem rico e Lázaro, é dito que somente o homem rico (personificando os ímpios em geral) está em tormentos “no Hades” (Lc 16.23).

 Em ambos os seus significados específicos, (1) a sepultura como o receptáculo dos corpos de todos os homens e (2) o lugar de habitação intermediário para as almas dos ímpios, Sheol/Hades é o inimigo da humanidade, uma força sórdida conquistada pela obra redentora do Cristo crucificado e ressuscitado (Ap 1.18) e da qual encontramos refúgio na igreja (Mt 16.18). No final ele será finalmente destruído no lago de fogo (Ap 20.14).

 Para onde então as almas dos justos vão quando na morte elas são separadas do corpo? Seu destino nunca é chamado Sheol ou Hades. Elas são descritas como estando no seio de Abraão (Lc 16.23), no Paraíso (Lc 23.43), “em casa com o Senhor” (2Co 5.8), e sob o altar celestial (Ap 6.9). Podemos nos referir a isto simplesmente como o Paraíso (veja 2Co 12.4), que não deve ser considerado apenas como uma seção do Hades. As almas dos justos foram “aperfeiçoadas” (Hb 12.23), e isso inclui serem plenamente vivificadas em um sentido espiritual. Elas não têm mais o odor e a pena de morte espiritual sobre elas, e, portanto, não são propriamente cidadãs do Hades, que é lugar de morte. Os justos estão “no Hades” somente no sentido que seus corpos estão na sepultura.

 Onde estão localizados o Paraíso e o Sheol/Hades? O Paraíso, como o lugar onde as almas dos justos mortos existem em seu estado intermediário, é equivalente à, ou pelo menos adjacente à, sala do trono celestial, uma região do universo invisível criado para a raça angélica. Esta conclusão se baseia em dois fatos: Primeiro, João viu as almas de pelo menos alguns dos justos mortos sob o altar deste céu (Ap 6.9). Em segundo lugar, quando morrermos, nossas almas estarão na presença de Cristo (2Co 5.8; Fp 1.23), e o próprio Cristo em sua existência humana glorificada está presentemente nesta sala do trono celestial (At 7.55; Ap 3.21; 5.6, 13). Quando morrermos, nossas almas despertarão em consciente êxtase nesse lugar abençoado.

 Mas onde está o Sheol/Hades, o lugar para o qual as almas dos ímpios são conduzidas após a morte? Podemos apenas especular sobre isso. Mas com base no acima exposto, eu deduzo que esta é também uma parte do universo invisível, uma região distante ou inferior longe da presença de Deus e do Cristo glorificado, talvez adjacente ao lugar chamado Tártaro, ocupado por alguns anjos caídos (2Pe 2.4). É um lugar de trevas (Jó 17.13), tristeza e sofrimento, sem luz e sem esperança. É o lugar onde os seres humanos perdidos aguardam o julgamento final e seu envio eterno para o inferno.

 (Para estes e outros detalhes sobre a vida após a morte, veja o meu livro, The Faith Once for All, capítulo 29, sobre “O Estado Intermediário.”)

 

Fonte: http://jackcottrell.com/notes/hades-what-is-it/

 Tradução: Cloves Rocha dos Santos

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