Porque Deus Não Salva a Todos?

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Analisando a Resposta de John Piper para o Problemacalvario.jpeg

John Piper acredita que Deus quer que todos os homens sem exceção sejam salvos. Diferentemente de seus colegas calvinistas, ele não faz nenhum esforço para tentar minimizar a força de versículos como Ez 18.23, 1Tm 2.4 e 2Pe 3.9, que afirmam o desejo divino de salvação universal. Além disso, ele defende que a graça é irresistível, ou seja, que ela finalmente triunfará sobre a resistência daqueles que Deus quer salvar. Disso surge o problema: por que Deus não salva a todos? Piper conclui que Deus deve valorizar algo mais do que a salvação de todos.

 “A resposta dada pelos calvinistas é que o valor maior é a manifestação de toda a gama da glória de Deus em ira e misericórdia (Rm 9.22-23) e a humilhação do homem de forma que ele possa dar todo o crédito a Deus pela sua salvação (1Co 1.29).”

 A resposta é engenhosa, mas ela não está livre de alguns problemas.

 1 – Os versículos apresentados (Rm 9.22-23) por Piper não estão dizendo isso. Eles de fato afirmam que Deus tanto quis mostrar a sua ira sobre alguns quanto a sua misericórdia sobre outros, mas isso não como resultado de um suposto dilema que Deus teria enfrentado na eternidade de salvar a todos ou manifestar “toda a gama da glória de Deus em ira e misericórdia”.

 2 – A ira e a misericórdia de Deus foram manifestadas, em seu grau máximo, na cruz de Cristo, de forma que escolher alguns para a perdição eterna não faria a glória de Deus brilhar mais intensamente do que ela já foi. Se Deus alguma vez enfrentou esse dilema, ele poderia muito bem ter resolvido mostrando toda a gama de sua glória na cruz de Cristo e ainda assim decidido salvar a todos.

 Para o próximo problema ficar ainda mais claro, é interessante citar Jonathan Edwards, um dos teólogos mais admirados por John Piper:

 “Assim o mal é necessário para a glória de Deus ser perfeitamente e completamente demonstrada. É também necessário para a mais elevada felicidade da humanidade, porque nossa felicidade consiste no conhecimento de Deus e na percepção de seu amor. E se o conhecimento de Deus é imperfeito (por causa de uma demonstração desproporcional de seus atributos), a felicidade da criatura deve ser proporcionalmente imperfeita.”

 3) O terceiro – e mais grave – problema na resposta de John Piper é que, se verdadeira, ela nos leva à conclusão que Deus precisa do pecado e do mal. Segundo Edwards e Piper, Deus precisa do pecado e do mal para mostrar-se glorioso perfeita e completamente e para a mais elevada felicidade da humanidade (com exceção daqueles que sofrerão eternamente, presumo).

 Há muitas afirmações não provadas nessa pequena citação de Edwards. São elas:

 – Um universo com pecado (e todas as desgraças resultantes) torna Deus mais glorioso do que um sem pecado.

 – Deus não conseguiria revelar-se como ele é a não ser que houvesse pecado.

 – É preciso haver uma demonstração de todos os atributos de Deus para o conhecimento, e consequentemente a felicidade, da humanidade ser perfeito.

 Sobre todas essas afirmações, é de se questionar se antes do pecado ter invadido a criação, Deus era menos glorioso, impossível de ser conhecido e as criaturas eram menos felizes. Enquanto essas afirmações não forem provadas, não podemos ingenuamente aceitar uma resposta que carrega consigo a trágica conclusão que Deus precisa do pecado para revelar quem ele é e levar felicidade para as suas criaturas.

Paulo Cesar Antunes

_________________________________________________ fonte: http://www.arminianismo.com

Olhando Para Jesus (Hb 12:2)

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Henry Orton WileyArminius Hoje

 Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. Hb 12.2 ARA

 O escritor de Hebreus pede agora aos seus leitores que voltem o olhar para Jesus, exaltado acima de todos e assentado à destra do trono de Deus.

 O verbo olhar – em olhando firmemente – é aphorontes (Αφορωντες), que significa tirar a vista das coisas que estão perto e desviam a nossa atenção e, conscientemente, fixar os olhos em Jesus como o nosso grande alvo. Significa ainda interesse que absorve por completo, perfeitamente expresso pelas palavras com olhos só para Jesus.

 A expressão autor e consumador da nossa fé tem sido interpretada de várias maneiras. A palavra traduzida como autor é archegon (Αρχηγος), líderpioneiro, sendo o mesmo vocábulo traduzido como capitão (da nossa salvação) em Hebreus 2.10 (KJ). A palavra consumador é teleioten (τελειωτής), aperfeiçoadorque completa (cp. Hb 10.14).

 Em olhando firmemente para Jesus, o Autor e Consumador da nossa fé, o possessivo nossa [que aparece nas versões KJ e na NVI, mas não na ARA e na ARC], antes de , está em itálico ou entre parêntesis, pois no grego temos apenas a . No entanto, não significa a  no sentido objetivo, como o fundamento cristão, mas subjetivo, como o princípio que rege o coração e a vida do ser humano.

 A escolha da palavra archegonlíder ou pioneiro, em vez de aitios (αἴτιος), autor, no sentido de originador, é muito significativa. Como observou Davidson, na presente acepção, as palavras não “podem significar que Cristo, como Autor, originou a fé em nós e, como Aperfeiçoador, sustém-na e a leva a um resultado perfeito”, isto é, incondicionalmente quanto ao conceder e ao aperfeiçoar; a ênfase é, antes, sobre Cristo como o grande Pioneiro da fé que, na Sua vida terrena, tendo perfeitamente alcançado o ideal e terminado a corrida, está agora assentado à destra do trono de Deus.

 Em Hebreus 2.10 a palavra archegon, como capitão (KJ), refere-se em especial à preparação de Jesus para a liderança; neste caso, Ele se tornou o Alvo da realização, o Centro de toda a visão cristã. No entanto, é ainda o Líder, que do Seu trono nos céus ministra pelo Espírito a força, a perseverança, paciência e toda a graça necessária em meio ao sofrimento e aos conflitos. Para os que o seguem com confiança, Ele se tornará o aperfeiçoador, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram (2 Ts 1.10 ARA).

 A seguir, o autor da Epístola aos Hebreus passa a uma consideração da experiência de humilhação de Jesus, vividamente descrita para encorajamento dos leitores – palavras que são apenas a amplificação de Sua obra como o autor e consumador da fé.

 O escritor encontra três semelhanças entre os herois da fé e Jesus. Pela fé, aqueles passaram por grandes lutas e aflições, em parte porque foram exibidos como espetáculo ignominioso, em parte porque se tornaram companheiros dos que foram alvos daquelas tribulações. Assim também Jesus, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia (Hb 12.2b). Esta oração é introduzida pela palavra anti (ἀντί), que significa dar em troca ou, especialmente aqui, em consideração de.

 O vocábulo traduzido como alegria é charas (χαρά) – não aquilo a que Jesus renunciou ao encarnar, mas a alegria que lhe estava proposta. Era a alegria como recompensa do Seu autossacrifício pela salvação dos homens; um autossacrifício que em si mesmo era uma recompensa satisfatória. Mas significava também a alegria de ser exaltado ao trono de Deus e levar consigo a Sua natureza e a nossa, coroando assim a obra redentora por toda a eternidade. Era a alegria de administrar do trono a Sua vida celestial mediante o Espírito Santo, e assim aperfeiçoar para sempre os que são santificados (Hb 10.14). Esta foi a alegria que lhe foi proposta – uma alegria que enche com a Sua glória.Cruz, 

  O que fez Jesus pra ter essa alegria? Suportou a cruz. Temos aqui de novo a palavra hupemeinem (ὑπομένω), anteriormente traduzida como paciência, mas aqui mais propriamente traduzida como suportou com perseverança.

 A palavra traduzida como cruz é stauron (σταυρός), viga ou poste introduzido no chão para execução de criminosos, vindo depois a significar a cruz.

 A frase não fazendo caso da ignomínia ou desprezando a afronta (ARC) foi chamada o grande paradoxo.Desprezar a afronta não significa que Cristo a tinha por desprezível, mas por pequena, comparada com a alegria que lhe foi proposta.

 As palavras cruz e vergonha (NVI) são usadas sem o artigo para salientar a qualidade – coisas como a cruz e a vergonha, e assim servem para colocar em maior relevo a profundidade da abnegação de Cristo. Jesus, sendo santo em si mesmo, foi intensamente sensível à vergonha da cruz, morrendo aos olhos da Lei como um criminoso, mas não permitiu que isso fizesse vacilar Sua lealdade à vontade do Pai.

 

Fonte: A Excelência da Nova Aliança em Cristo: Comentário Exaustivo da Carta aos Hebreus, pp. 509, 510

Resenha do Livro Young, Restless, No Longer Reformed de Austin Fischer

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Jonathan AndersenProcessed with VSCOcam with t1 preset

 

Austin Fischer, Young, Restless, No Longer Reformed (Cascade Books, 2014).

 Muitos jovens cristãos durante a última década estiveram numa jornada semelhante. Eles têm fé em Jesus Cristo, paixão para compartilhar o amor de Deus com o mundo e desejo de aprofundar-se espiritualmente. Quando buscam crescer, eles encontram escritores como John Piper, David Platt, R. C. Sproul e J. I. Packer, que os desafiam a trocar um evangelho americano burguês confortável por um evangelho que magnifica a glória de Deus. Estes cristãos vão para as conferências Passion, ouvem Lecrae e enchem salas de campi universitários na RUF e reuniões no Campus Outreach. Estes jovens cristãos estão numa jornada em direção ao Calvinismo.[1]

 A jornada em direção ao Calvinismo, Novo Calvinismo, Neo-Calvinismo, Neo-Puritanismo, teologia reformada – como quer que prefira chamá-lo – é uma na qual eu estava durante a universidade. Enquanto caminhava, eu descobri a centralidade da Escritura, a depravação da humanidade e a beleza da graça imerecida de Deus. Todavia, eu nunca cheguei ao destino de ser convencido que o entendimento reformado de Deus e sua obra neste mundo era verdadeiro.

 Austin Fischer, autor de Young, Restless, No Longer Reformed, chegou a este destino. Quando chegou, ele logo descobriu um Deus que estava principalmente preocupado com glória – um Deus que até mesmo valorizava a auto-glorificação mais do que a salvação dos outros. Austin descobriu um Deus cuja natureza e obra no mundo não se relacionava com as formas que os seres humanos concebem o amor, a justiça e a bondade. Finalmente, ele se descobriu numa relação com um Deus que não parecia o Jesus encontrado nos evangelhos. E assim ele começou a desafiadora tarefa de abandonar um destino numa jornada em direção a um outro ainda desconhecido.

 Fischer narra esta jornada – para dentro e fora do Calvinismo – em seu recém-lançado livro Young, Restless, No Longer Reformed. A jornada de Fischer irá envolver os leitores de todas as persuasões teológicas, mas são seus argumentos teológicos para abandonar o Calvinismo elaborados em toda a sua narrativa que forçarão os leitores a parar a leitura de cada capítulo para refletirem sobre as questões “Quem é Deus?” e “Como eu fico sabendo?”

 Todos os argumentos de Fischer são encaminhados para uma única pergunta: “O Deus do Calvinismo corretamente representa o Deus revelado em Jesus?” Fischer conclui, “Não.”

 Contando com as Escrituras e teólogos como Jürgen Moltmann, Richard Hays, N. T. Wright e Karl Barth, Fischer aborda a natureza de Deus, a eleição, a soberania e o amor. Ele argumenta que o Deus cujo caráter e coração são revelados em Jesus não existe para si mesmo e sua própria glória. Ele não ordena meticulosamente toda ação no mundo – incluindo o mal e o pecado. Deus intencionalmente não cria pessoas que serão condenadas por pecados que elas não tiveram nenhuma escolha senão cometê-los, para que a plenitude de seu caráter pudesse ser exibido.

 Ao invés disso, Fischer afirma que o Deus revelado em Jesus cria, é esmagado sobre uma cruz, e oferece redenção a todos de seu eternamente abnegado amor. Deus não contribui com o mal, o pecado e o sofrimento no mundo, mas, pelo contrário, se esvaziou em Jesus e entrou no mundo devastado a fim de curá-lo. E este auto-esvaziamento continua enquanto Deus concede um nível de liberdade e controle a sua criação para que o amor da humanidade por ele, em resposta ao seu por ela, possa ser livremente escolhido.

 “A glória de Deus é a glória do amor,” Fischer resume.

 Durante todo o seu criterioso e claro engajamento com estas questões espinhosas que têm penetrado comunidades cristãos por séculos, Fischer escreve com humildade e confiança antes que com arrogância e certeza. Ele reconhece que não devemos dominar a divindade, mas deixar que a divindade nos domine. Talvez ele, como eu, reconhece que se não fosse pelos seus amigos reformados, ele não estaria onde está hoje, no caminho do discipulado.

 

Young, Restless, No Longer Reformed é um livro que eu gostaria que tivesse sido escrito anos atrás. Mas sou grato por poder distribuir cópias a outras pessoas agora, particularmente àquelas nessa conhecida jornada. O livro de Fischer é um daqueles que deve ser lido por todos os cristãos que esperam aprofundar seu entendimento sobre Deus – jovens, idosos, reformados, arminianos, ou algo entre os dois. Como A. W. Tozer uma vez disse, “O que vem a nossa mente quando pensamos sobre Deus é a coisa mais importante sobre nós…. Nossa tendência, pela lei secreta da alma, é nos mover em direção a nossa imagem mental de Deus.”

 Fonte: http://seedbed.com/feed/book-review-young-restless-longer-reformed/

 Tradução: Paulo Cesar Antunes

Hades: O Que Ele É?

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Jack Cottrelljack cottrell - arminius hoje

 

PERGUNTA: Tenho visto a palavra “Hades” no Novo Testamento várias vezes, mas não estou certo quanto ao que significa. Você pode explicar isso?

 RESPOSTA: Posso tentar. Primeiro, o equivalente a Hades no Antigo Testamento é Sheol, que aparece cerca de 65 vezes nos escritos do Antigo Testamento. O Antigo Testamento Grego (a Septuaginta) traduz essa palavra com Hades quase o tempo todo. O Novo Testamento usa Hades dez vezes (ou 11 se 1Co 15.55 for contado). O que é mais importante lembrar é que estas palavras estão sempre relacionadas à morte. Elas são o lugar ou a localização dos mortos. Em relação a isto, veja Sl 18.5; Pv 5.5; Is 28.15; Ap 1.18; 6.8.

 Para entender adequadamente estes termos, devemos antes de tudo aceitar a inspiração completa de toda a Bíblia, bem como a unidade e a coerência dos conteúdos de seu ensino. Em segundo lugar, temos de aceitar o ensinamento bíblico de que os seres humanos consistem de duas partes, o corpo físico e o espírito ou alma. Elas foram feitas para existir em conjunto, mas são separadas no momento da morte física. Finalmente, devemos aceitar o fato de que existem três aspectos da morte que se abateu sobre a raça humana como resultado do pecado: a morte física do corpo, a morte espiritual da alma (Ef 2.1, 5), e a morte eterna no inferno, o lago de fogo, que é “a segunda morte” (Ap 20.14; 21.8).

 Grande parte da confusão sobre a natureza do Hades (Sheol) é resultado da negação da realidade da alma ou espírito como um aspecto real e separado da natureza humana. Tal negação é central na teologia das Testemunhas de Jeová e Adventistas do Sétimo Dia, por exemplo. A existência da alma também está se tornando cada vez mais questionada até mesmo em círculos evangélicos. Aqueles que assim veem os seres humanos, como corpos somente, nunca irão entender adequadamente a natureza do Hades. (Sobre a natureza dualista do homem, veja meu livro, The Faith Once for All, páginas 134-147.)

 Como, então, devemos entender o Hades, o lugar e poder da morte? Em primeiro lugar, devemos entender que às vezes Sheol no Antigo Testamento e Hades no Novo Testamento se referem à sepultura, que engole os corpos dos que morrem, justos e injustos. Aqueles que negam a existência da alma muitas vezes dizem que Sheol e Hades semprese referem à sepultura, mas eles estão enganados. Alguns (como Robert Morey) dizem que estas palavras nunca se referem à sepultura, mas isso também está errado.

 Por um lado (contra Morey), em alguns textos Sheol/Hades significam claramente o túmulo. Em seu sentido de “lugar dos mortos”, Sheol/Hades é o lugar abaixo da superfície da terra, onde os cadáveres são enterrados. Como tal, tanto o justo quanto o ímpio entram no Sheol/Hades, o inimigo que captura e devora todos os membros da raça de Adão. Desta forma, até mesmo para o justo, a morte parece ser vitoriosa, uma vez que a sepultura nos engole a todos e transforma nossos corpos de novo em pó (veja Sl 89.48; 116.3; 141.7; Is 38.10). Neste sentido Sheol/Hades é algo a ser receado e temido, algo do qual todos nós ansiamos ser libertados e redimidos (Sl 49.14-15; 86.13; Os 13.14). Esta é a luz na qual o Salmo 16.10 deve ser entendido: “Pois não deixarás a minha alma no Sheol, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção”. (Aqui a palavra “alma” tem o sentido de “a própria pessoa”; “minha alma” significa “eu, eu mesmo”) Em Atos 2.27, 31 Pedro cita isto como uma profecia da ressurreição do túmulo do corpo de Jesus, pela qual “Ele não foi abandonado no Hades, nem a sua carne viu a corrupção.” Isto se refere apenas ao corpo de Cristo como enterrado e ressurgido da sepultura (Sheol/Hades), não ao estado ou atividade de seu espírito entre sua morte e ressurreição.

 Por outro lado (contra aqueles que negam a existência da alma), em alguns textos onde Sheol/Hades se refere a um local específico, ele não se refere à sepultura como o receptáculo do corpo, mas ao lugar para o qual os espíritos dealguns dos mortos são levados, onde eles existirão em seu estado intermédiário (incorpóreo, consciente) até o retorno de Cristo. Visto que o Sheol/Hades é o lugar dos mortos, somente as almas dos ímpios são colocadas no Sheol/Hades no sentido de um lugar de espera para almas desencarnadas (veja Jó 24.19; Sl 09.17; 31.17; 55.15; Pv 9.18; 23.14; Is 14.13-15; Mt 11.23). As almas dos justos não entram no Sheol/Hades, visto que suas almas não se encontram em um estado de morte espiritual, mas foram vivificadas pelo poder vivificador de Deus (Ef 2.5-6; Cl 2.12-13). Portanto, não devemos pensar que Sheol/Hades seja ocupado pelas almas dos justos e dos injustos (Sl 49.14-15; 86.13; Pv 15.24).

 Como o lugar onde os ímpios habitam até o julgamento, o Sheol/Hades é visto como um inimigo ou capturador com todo o seu terror. Na história de Jesus do homem rico e Lázaro, é dito que somente o homem rico (personificando os ímpios em geral) está em tormentos “no Hades” (Lc 16.23).

 Em ambos os seus significados específicos, (1) a sepultura como o receptáculo dos corpos de todos os homens e (2) o lugar de habitação intermediário para as almas dos ímpios, Sheol/Hades é o inimigo da humanidade, uma força sórdida conquistada pela obra redentora do Cristo crucificado e ressuscitado (Ap 1.18) e da qual encontramos refúgio na igreja (Mt 16.18). No final ele será finalmente destruído no lago de fogo (Ap 20.14).

 Para onde então as almas dos justos vão quando na morte elas são separadas do corpo? Seu destino nunca é chamado Sheol ou Hades. Elas são descritas como estando no seio de Abraão (Lc 16.23), no Paraíso (Lc 23.43), “em casa com o Senhor” (2Co 5.8), e sob o altar celestial (Ap 6.9). Podemos nos referir a isto simplesmente como o Paraíso (veja 2Co 12.4), que não deve ser considerado apenas como uma seção do Hades. As almas dos justos foram “aperfeiçoadas” (Hb 12.23), e isso inclui serem plenamente vivificadas em um sentido espiritual. Elas não têm mais o odor e a pena de morte espiritual sobre elas, e, portanto, não são propriamente cidadãs do Hades, que é lugar de morte. Os justos estão “no Hades” somente no sentido que seus corpos estão na sepultura.

 Onde estão localizados o Paraíso e o Sheol/Hades? O Paraíso, como o lugar onde as almas dos justos mortos existem em seu estado intermediário, é equivalente à, ou pelo menos adjacente à, sala do trono celestial, uma região do universo invisível criado para a raça angélica. Esta conclusão se baseia em dois fatos: Primeiro, João viu as almas de pelo menos alguns dos justos mortos sob o altar deste céu (Ap 6.9). Em segundo lugar, quando morrermos, nossas almas estarão na presença de Cristo (2Co 5.8; Fp 1.23), e o próprio Cristo em sua existência humana glorificada está presentemente nesta sala do trono celestial (At 7.55; Ap 3.21; 5.6, 13). Quando morrermos, nossas almas despertarão em consciente êxtase nesse lugar abençoado.

 Mas onde está o Sheol/Hades, o lugar para o qual as almas dos ímpios são conduzidas após a morte? Podemos apenas especular sobre isso. Mas com base no acima exposto, eu deduzo que esta é também uma parte do universo invisível, uma região distante ou inferior longe da presença de Deus e do Cristo glorificado, talvez adjacente ao lugar chamado Tártaro, ocupado por alguns anjos caídos (2Pe 2.4). É um lugar de trevas (Jó 17.13), tristeza e sofrimento, sem luz e sem esperança. É o lugar onde os seres humanos perdidos aguardam o julgamento final e seu envio eterno para o inferno.

 (Para estes e outros detalhes sobre a vida após a morte, veja o meu livro, The Faith Once for All, capítulo 29, sobre “O Estado Intermediário.”)

 

Fonte: http://jackcottrell.com/notes/hades-what-is-it/

 Tradução: Cloves Rocha dos Santos

A Razão para a Demora Aparente (2Pe 3.9)

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Stanley M. Horton

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O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.

 Pedro dá mais uma razão à aparente demora na volta de nosso Senhor (2 Pe 3.9): a necessidade de pregarmos o Evangelho. Não foi isto o que Paulo quis dizer quando descreveu a volta de Cristo em glória com seus poderosos anjos, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao Evangelho? “Estes sofrerão penalidades de eterna destruição; serão banidos da face do Senhor e da glória de seu poder” (2 Ts 1.8, 9). A volta de Cristo é, pois, parte de uma sequência de julgamentos que há de terminar no Grande Trono Branco (Ap 20.11-15).

 Sendo assim, a oportunidade de espalharmos o Evangelho um dia chegará ao fim. O Senhor (2 Pe 3.9) não está negligenciando nem atrasando sua promessa. Sua demora não é questão de negligência. É porque Deus sofre em relação a nós. Não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento. E que entre os salvos haja redimidos de “toda família, e língua, e povo, e nação”. Que todos estes sejam reis e sacerdotes, e que reinem com Cristo por toda a eternidade (Ap 5.9, 10).

 Jesus ainda alertou quanto aos que passarão para o caminho largo, “porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela”. Além do mais, em relação à população total do mundo, os salvos são poucos; seu número incluirá eventualmente “uma grande multidão que ninguém pode enumerar” (Ap 7.9). Sim, esta é a única razão para a aparente demora de sua vinda. Ele almeja que haja um número maior de salvos.

 A época da vinda de Cristo não nos é revelada. O dia e a hora não eram conhecidos nem por Jesus enquanto estava entre nós, em virtude de sua identificação com as nossas limitações (Mc 13.32). Então não devemos supor que qualquer de nós possa lograr obter tal informação. Jesus ainda enfatizou que sua vinda seria repentina e inesperada, sem nenhuma oportunidade para preparações de última hora.

 Fonte: 1 e 2 Pedro, pp. 107-108

O Que É Graça Preveniente (Precedente)

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Timothy C. Tennenttimothy c. tennent

 

Anteriormente nós aprendemos que é parte da natureza de Deus o desejo de revelar-se a nós. Deus não está meramente interessado em nos dar regras pelas quais nós devemos viver. Ele quer que nós o conheçamos e entremos numa relação de aliança com ele através de Jesus Cristo. Esta natureza auto-revelatória de Deus aparece de muitas maneiras, incluindo na criação, em nossas consciências, na Escritura e finalmente em Jesus Cristo.

 É importante entender que a salvação nunca começa com algo que nós fazemos, mas sempre como uma resposta a algo que Deus fez. Pensar que a salvação começa com nosso arrependimento de nossos pecados e convite para que Jesus entre em nossos corações não é a forma que as Escrituras entendem todo o processo de salvação. Antes, a salvação sempre começa com uma ação anterior de Deus. Ele age, e nós respondemos ou resistimos. Ela sempre segue esse padrão.

 Uma abordagem de todas as maneiras que Deus nos prepara para receber o evangelho é usar o termo “graça preveniente (precedente)”. A graça preveniente diz respeito a todos esses atos da graça em nossas vidas que antecedem a nossa conversão. Sabemos que tal graça existe porque Jesus disse que “ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” (Jo 6.44). Há uma “atração” ou “preparação” que precede nossa efetiva conversão.

  A outra razão que sabemos que a graça de Deus deve preceder nossa decisão de seguir a Cristo é que as Escrituras nos ensinam que estamos mortos em nossos delitos e pecados à parte de Cristo (Ef 2.1). As Escrituras não ensinam que estamos meramente doentes ou que o nosso progresso espiritual geral é lento, mas que estamos espiritualmente mortos. (Esta é uma outra grande característica distintiva do Cristianismo.) Isto significa que somos incapazes de nos ajudar ou de nos salvar sem uma ação prévia de Deus.

 Muitos cristãos creem na doutrina da depravação total. Isso significa que os seres humanos estão mortos em seus pecados e não podem fazer nada para ajudar ou melhorar seu estado espiritual diante de Deus. Entretanto, é também um ponto de vista cristão crer no livre arbítrio. Isto significa que afirmamos que Deus quer que agimos e tomamos decisões a seu favor. Este é o problema: Como uma pessoa espiritualmente morta pode agir ou decidir dar suas vidas a Cristo? A Bíblia está repleta de prescrições para agir – as pessoas são chamadas a se arrepender, crer, vir, decidir e assim por diante. A resposta é a doutrina da graça preveniente. Esta é a ponte entre a depravação humana e o livre exercício da vontade humana. A graça preveniente é um ato soberano de Deus pelo qual ele suspende a raça humana de sua depravação e nos concede a capacidade de respondermos à graça de Deus. Ela é um ato de Deus de favor imerecido. É a luz de Deus “que ilumina a todo o homem” (Jo 1.9, ACF), que nos levanta e permite que exercemos nossa vontade e respondemos à graça de Cristo.

 Deus toma a iniciativa para criar uma capacidade universal para a raça humana para receber sua graça.  Muitos, obviamente, ainda resistem a sua vontade e persistem em rebelião contra Deus. A doutrina da graça preveniente protege a igreja de visões que argumentam que não há nenhuma natureza pecaminosa. Ela também protege a igreja de visões que argumentam que Jesus morreu somente por aqueles que foram eleitos desde toda a criação para ser seguidores de Cristo. A graça preveniente preserva tanto a depravação da raça humana quando nossa confiança que Jesus morreu por cada pessoa que já viveu ou irá viver. De fato, a graça preveniente tecnicamente não afirma o livre arbítrio no sentido que todos podemos decidir seguir a Cristo sempre que quisermos, porque isto pressiona a salvação demais para a ideia que ela depende de nossa iniciativa. Pelo contrário, o que é algumas vezes chamado de “livre arbítrio” é na verdade “arbítrio liberto,” uma vontade escravizada que foi libertada por um ato imerecido da graça de Deus. Ela não é, obviamente, livre em todo aspecto possível, visto que todos ainda somos influenciados de muitas maneiras pelos efeitos da Queda; mas agora temos uma capacidade restaurada que possibilitou que nosso coração, mente e vontade respondessem à graça de Deus.

 

Leitura das Escrituras

 

Isaías 55.1

João 1.9

João 6.44

João 12.32

João 16.8-11

Atos 14.17

Atos 16.13-15

Romanos 2.4

1 Timóteo 2.4-6

Tito 2.11

 

Fonte: http://seedbed.com/feed/prevenient-preceding-grace-30-questions/

 Tradução: Paulo Cesar Antunes

A Expiação

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Laulaurencemvancerence M. Vance

Assim como a negação da Eleição Incondicional é interpretada pelos calvinistas como um afastamento da salvação pela graça, da mesma forma os calvinistas deduzem que qualquer um que nega a Expiação Limitada rejeita a verdadeira doutrina da Expiação conforme encontrada na Bíblia. Portanto, uma pesquisa sobre a verdadeira natureza da doutrina bíblica da Expiação é conveniente a fim de assentar as bases para a rejeição da Expiação Limitada e defesa de uma expiação ilimitada. A morte de Jesus Cristo é universalmente reconhecida como sendo um dos mais significativos eventos da história. Ao cristão, porém, ela é muito mais que um simples evento histórico, é a expiação para os pecados designada pelo próprio Deus. E como A. A. Hodge declara: “A doutrina da Expiação é evidentemente o elemento central e principal da doutrina da Justificação.”[1] A Expiação é a marca distintiva do Cristianismo. Buda (c. 563-483) e Maomé (570-632) jamais professaram morrer pelos pecados de alguém. Embora a Bíblia seja clara em sua descrição da natureza da Expiação, a falha em se crer nela conforme foi escrita tem resultado em um sem-número de teorias, todas elas notavelmente deficientes em um aspecto: Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.

 Antes de prosseguir para o propósito bíblico da Expiação, vamos primeiramente fazer uma digressão para examinar o que a expiação não é, a partir de algumas das teorias divergentes sobre ela:

 1. Teoria do Resgate: primeiramente defendida por Orígenes (184-254), esta teoria sustenta que a morte de Cristo constituía um resgate pago a Satanás. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[2]

 2. Teoria da Recapitulação: primeiramente defendida por Irineu (130-200), esta teoria sustenta que Cristo recapitulou em si mesmo todos os estágios da vida humana, experimentando tudo que Adão experimentou, e compensando a desobediência de Adão pela sua obediência. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[3]

 3. Teoria Comercial: primeiramente defendida por Anselmo (1033-1109), esta teoria sustenta que a morte de Cristo restaurou a honra a Deus Pai que havia sido roubada dele pelo pecado do homem. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[4]

 4. Teoria da Influência Moral: primeiramente defendida por Abelardo (1079-1142), esta teoria sustenta que a morte de Cristo foi uma manifestação do amor de Deus pelo pecador para influenciá-lo. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[5]

 5. Teoria do Exemplo: primeiramente defendida pelos socinianos, esta teoria sustenta que Cristo morreu como um mártir como um exemplo de obediência para inspirar os homens à correção. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[6]

 6. Teoria do Acidente: popularizada por Albert Schweitzer (1875-1965), esta teoria sustenta que a morte de Cristo foi meramente um acidente. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[7]

 7. Teoria Governamental: primeiramente defendida por Grotius, esta teoria sustenta que a morte de Cristo foi uma demonstração que revelou o ódio de Deus pelo pecado a fim de manter o respeito pela sua lei. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[8]

 8. Teoria Mística: defendida com algumas diferenças por vários homens, esta teoria é semelhante à da Influência Moral, mas sustenta que uma mudança é produzida no homem, não por uma influência moral, mas por uma união mística de Deus e o homem realizada pela Encarnação. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[9]

 Como é evidente, cada uma destas teorias sofre de uma falha grave: Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.

 Dirigindo agora das postulações de homens para os pronunciamentos da Bíblia, podemos ver a verdadeira natureza da Expiação: a ideia de substituição. Cristo não morreu apenas em favor de outros, mas no lugar de outros. Especificamente, a morte de Cristo foi uma substituição penal na qual ele se tornou portador do pecado e da maldição:

 Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.21).

 Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro (Gl 3.13).

 Que a morte de Cristo foi uma substituição penal pressupõe uma série de coisas. A santidade e justiça de Deus demandam que a pecaminosidade do homem deve ser punida. O Senhor Jesus Cristo, por ser o único a ser tanto Deus que se “manifestou em carne” (1Tm 3.16) quanto um homem “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus” (Hb 7.26), era capaz de mediar ambas as partes: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1Tm 2.5). Deus não poderia apenas perdoar o pecador, pois como Pink afirma: “O pecador somente é perdoado com base em Outro ter sofrido sua punição.”[10] Foi por esta razão que Jesus Cristo veio ao mundo:

 Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal (1Tm 1.15).

 Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste (Hb 10.5).

 Isto ele fez voluntariamente (Jo 10.17-18), completamente (Jo 19.30), de uma vez por todas (Hb 10.10), com uma oferta (Hb 10.14) para que Deus “seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.26). Todavia, deve também ser lembrado que Deus não foi obrigado a realizar a expiação por alguém. Ele poderia não salvar ninguém e ainda assim ser santo e justo. A graça de Deus é qualquer movimento de Deus em direção ao homem.

 Acerca da Expiação de Cristo, o Novo Testamento menciona a palavra expiação apenas uma vez: “E não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a expiação” (Rm 5.11). A Expiação, não como as muitas expiações do Antigo Testamento que somente cobriam o pecado, mas expressando especificamente aquilo que Cristo realizou para salvar os homens. Apesar do uso do termo expiação ser às vezes menosprezado,[11] Homer Hoeksema explica que “o termo expiação abrange aqueles termos confessionais como redenção, redimir, comprar, satisfazer, sacrifício propiciatório, etc. E o mesmo abrange aqueles termos bíblicos como reconciliação, propiciação, resgate, compra, etc. Ele simplesmente contempla todos estes vários termos bíblicos e confessionais de um ponto de vista bem básico.”[12]

 

A Expiação é apresentada na Escritura de diversas maneiras: Sacrifício, Resgate, Expiação, Propiciação, Reconciliação.

 1. Sacrifício: O sacrifício foi a provisão divinamente instituída pela qual o pecado pode ser coberto e a sujeição à ira e maldição removida. Ela envolveu um sofrimento substitutivo da pena ou sujeição devida ao pecado. Jesus Cristo devia oferecer a si mesmo como sacrifício pelos nossos pecados:

 Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão (Is 53.10).

 Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós (1Co 5.7).

 E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave (Ef 5.2).

 Que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente por seus próprios pecados, e depois pelos do povo; porque isto fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo (Hb 7.27).

 Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez (Hb 10.10).

 Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus (Hb 10.12).

 2. Resgate: O sacrifício de Cristo foi na forma de um resgate. Um resgate é a obtenção de uma liberação pelo pagamento de um preço. Ser redimido é ser liberto pelo pagamento de um resgate. Redenção pressupõe algum tipo de servidão ou cativeiro. Em sua morte sacrificial, Jesus Cristo foi nosso substituto, por meio dela nos redimindo:

 Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos (Mt 20.28).

 Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados (Cl 1.14).

 O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo (1Tm 2.6).

 O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras (Tt 2.14).

 Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção (Hb 9.12).

 Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado (1Pe 1.18-19)

 3. Expiação: O resgate sacrificial de Cristo foi uma expiação penal visto que ela removeu a culpa do pecado ao cancelá-la e eliminá-la. A Expiação diz respeito ao efeito que a satisfação tem sobre o pecado ou o pecador. Isto é realizado pelo sofrimento vicário de nossa pena por Jesus Cristo.

 No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29).

 Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.21).

 O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas (Hb 1.3).

 Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo? (Hb 9.14).

 De outra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo (Hb 9.26).

 Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito (1Pe 3.18).

 4. Propiciação: Propiciar significa aplacar, pacificar, apaziguar, conciliar – todos os quais pressupõem a ira e o descontentamento de Deus. Por este motivo os liberais e os modernistas ficam estarrecidos com a ideia de propiciação. Negar a propiciação, entretanto, é negar a natureza da Expiação como uma satisfação necessária. Deus é santo e necessariamente deve ser “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.26). A propiciação remove o descontentamento judicial de Deus. É o apaziguamento ou afastamento da ira de um Deus justo contra o pecado pela aceitação da morte de Cristo como um substituto satisfatório:

 Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus (Rm 3.25).

 E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo (1Jo 2.2).

 Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10).

 5. Reconciliação: A reconciliação contempla nossa alienação de Deus e o método de nos restaurar ao seu favor. A causa desta alienação é o nosso pecado; seu fundamento é a absoluta santidade de Deus. Por causa desta santidade, há inimizade entre Deus e o homem (Ef 2.15-16), porque nosso pecado necessariamente incita esta reação de sua santidade. O sacrifício propiciatório de Cristo é a causa para a reconciliação:

 Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida (Rm 5.10).

 E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação (2Co 5.18-19). 

E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades (Ef 2.16).

 E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus. A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou (Cl 1.20-21).

 Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo (Hb 2.17).

 Os calvinistas menosprezariam igualmente todas estas falsas teorias da Expiação enquanto concordariam com a visão bíblica da Expiação acima. O problema é que eles não permitem que seus oponentes façam o mesmo. A rejeição da Expiação Limitada não significa que não podemos crer na doutrina da Expiação conforme encontrada na Bíblia. O argumento dos calvinistas com seus oponentes deve ser “limitado” à extensão da Expiação, não à sua natureza. Mas para fazer sua doutrina da Expiação Limitada mais palatável, os calvinistas tentam relacioná-la de todas as maneiras possíveis àqueles para os quais ela nunca foi pretendida: “os não-eleitos.”

 Numa tentativa de suavizar sua doutrina da Expiação Limitada, muitos calvinistas defenderão que a Expiação foi suficiente para todos os homens, mas eficiente apenas para os “eleitos.”[13] Apesar de usado desatentamente pelos não-calvinistas, o adágio foi inventado por Agostinho,[14] e é chamado por Dabney: “A bem conhecida fórmula calvinista.”[15] Ao citar esta fórmula ou falar sobre a Expiação tendo potencial salvador infinito,[16] os calvinistas podem fazer seus oponentes pensarem que a Expiação teve alguma relação com os “não-eleitos.” Há, porém, uma discórdia entre os calvinistas. Sproul, apesar de reconhecer que “o valor da expiação de Cristo é suficiente para cobrir os pecados do mundo,” afirma que são os arminianos que usam a fórmula que “a expiação é suficiente para todos, maseficiente apenas para alguns.”[17] Nettles sustenta que a Expiação não foi suficiente para todos – ela foi suficiente apenas para os “eleitos” – e que a fórmula suficiente/eficiente deixa de “diferenciar a expiação eficaz e definida da expiação geral.”[18] Ele apela aos “batistas calvinistas (e calvinistas de todos os tipos) a reexaminarem a fórmula tradicional ‘suficiente mas eficiente’ e talvez questionarem sua propriedade como uma descrição exata da expiação eficaz ou limitada.”[19]

 

Outra tática utilizada pelos calvinistas para relacionar sua doutrina da Expiação Limitada aos “não-eleitos” é falar sobre os benefícios da morte de Cristo para o mundo em geral. De acordo com Dabney, a morte de Cristo (1) “manifesta a benevolência e compaixão geral de Deus por todos os pecadores perdidos,” (2) “comprou para toda a raça humana um misericordioso adiamento da condenação incorrida pelos nossos pecados, incluindo todas as bênçãos temporais de nossa vida terrena, todas as restrições do Evangelho sobre a depravação humana, e a oferta sincera do céu a todos,” e, embora (3) “obstinadamente rejeitada pelos homens, coloca a resistência, perversidade e culpa de sua natureza em uma luz muito mais forte.”[20] Boettner acrescenta que a Expiação “forma uma base para a pregação do Evangelho e dessa forma introduz muitas influências morais enriquecedoras ao mundo e restringe muitas influências maléficas.”[21] Outros afirmam que a Expiação fornece uma “graça comum” a todos os homens.[22] Cunningham insiste que “os defensores da expiação universal, então, não têm nenhum direito de nos acusar de ensinar que ninguém obtém algum benefício da morte de Cristo exceto aqueles que são perdoados e salvos; nós não ensinamos isto, e não somos obrigados, por questão de consistência, a ensinar.”[23] Ao negar que uma expiação foi feita por eles, mas ao estender os benefícios da morte de Cristo aos “não-eleitos,” alguns calvinistas têm a audácia de dizer que eles creem que Cristo morreu por todos os homens:

 

Há, então, um certo sentido em que Jesus morreu por todos os homens, e não respondemos à doutrina arminiana com uma negativa não qualificada.[24]

 Cristo morreu por todo o mundo criado (Jo 3.16), incluindo Satanás.[25]

 Mas como o calvinista reformado holandês Homer Hoeksema apropriadamente afirma: “Se Cristo morreu apenas pelos eleitos, então não há benefícios possíveis na morte de Cristo para ninguém além daqueles por quem ele morreu.”[26] Somente esta visão é o Calvinismo consistente. E foi mantido por todo este capítulo, ainda que Cristo tenha realmente feito uma expiação por todos os homens, se certos homens não foram eleitos para a salvação, então o que importa se Cristo morreu por eles ou não? Não faz absolutamente nenhuma diferença se Cristo morreu pelos “não-eleitos,” pois no sistema do Calvinismo TULIP, os assim chamados não-eleitos não poderiam possivelmente ser salvos se Cristo morreu por eles ou não. É somente devido à natureza objetável da Expiação Limitada que alguns calvinistas tentam relacioná-la de todas as formas possíveis com aqueles pelos quais ela nunca foi pretendida.

Fonte: http://www.arminianismo.com


[1] A. A. Hodge, Atonement, p. 13.

[2] Berkhof, Theology, pp. 384-385.

[3] Ibid., p. 385.

[4] Ibid.

[5] Ibid., p. 386.

[6] Ibid., p. 387.

[7] Paul P. Enns, The Moody Handbook of Theology (Chicago: Moody Press, 1989), p. 320.

[8] Berkhof, Theology, p. 388.

[9] Ibid., p. 389.

[10] Arthur W. Pink, Gleanings in the Godhead (Chicago: Moody Press, 1975), p. 40.

[11] John Murray, Atonement, p. 9; A. A. Hodge, Atonement, pp. 33-34.

[12] Homer Hoeksema, Limited Atonement, p. 48.

[13] Talbot e Crampton, p. 30; Boettner, Predestination, p. 152; Kruithof, p. 60.

[14] Custance, p. 153.

[15] Dabney, Theology, p. 527.

[16] A. A. Hodge, Outlines of Theology, edição revista e ampliada (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1972), p. 416; Shedd, Theology, vol. 2, p. 468.

[17] Sproul, Grace Unknown, p. 165.

[18] Nettles, By His Grace, p. 305.

[19] Ibid., p. 319.

[20] Dabney, Calvinism, p. 62, 63.

[21] Boettner, Predestination, p. 160.

[22] Kruithof, p. 60; Talbot e Crampton, p. 30; Gunn, p. 17; Palmer, p. 54.

[23] Cunningham, Theology, vol. 2, p. 333.

[24] Boettner, Predestination, p. 161.

[25] North, p. 43.

[26] Homer Hoeksema, Limited Atonement, p. 61.

Tomando uma Decisão

1 Comentário

John  Stott John_stott

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Muitas pessoas acham estranho que para se tornar um cristão é preciso tomar uma decisão. Algumas, por terem nascido em um país cristão, acham que já são cristãs. “Afinal”, dizem, “já que não somos nem judeus, nem muçulmanos, nem budistas, provavelmente somos cristãos!” Outras supõem que, por terem recebido uma educação cristã, conhecerem os princípios básicos do cristianismo e adotarem um padrão de comportamento cristão, não precisam de mais nada. Porém, seja qual for a sua formação ou herança familiar, todo adulto responsável precisa tomar uma decisão a favor ou contra Cristo. Não podemos permanecer neutros ou indiferentes, nem deixar que outra pessoa decida por nós. Devemos decidir por nós mesmos.

Mesmo o fato de concordar com tudo que foi escrito até aqui não é suficiente. Podemos admitir que as evidências da divindade de Jesus sejam convincentes ou até mesmo conclusivas, e que ele é de fato o Filho de Deus; podemos crer que ele morreu para ser o Salvador do mundo; podemos também admitir nossa condição de pecadores necessitados de um Salvador. Mas nenhuma dessas coisas nos tornam cristãos, nem mesmo todas elas juntas. Crer em certos fatos sobre a pessoa e a obra de Cristo é uma necessidade preliminar, mas a verdadeira fé transformará essa convicção mental em um ato decisivo de confiança. A convicção intelectual deve conduzir ao compromisso pessoal.

Eu mesmo costumava pensar que a morte de Jesus na cruz havia reconciliado o mundo todo, automaticamente, com Deus. Lembro-me como fiquei confuso, ou mesmo indignado, quando ouvi pela primeira vez que eu precisava considerar a salvação individualmente. Agradeço a Deus por ter aberto meus olhos para que eu reconhecesse Jesus como Salvador, e mais do que isso, o aceitasse como meu Salvador. Por certo o pronome pessoal tem proeminência na Bíblia:

O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.

O Senhor é a minha luz e a minha salvação.

Ó Deus, tu és o meu Deus.

Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Um versículo da Bíblia, que tem ajudado muitos (inclusive eu) a entender esse passo de fé que devemos dar, contém as palavras do próprio Cristo. Ele diz: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo”. [1]

Este versículo foi ilustrado por Holman Hunt em seu famoso quadro A Luz do Mundo, pintado em 1853. O original se encontra na capela do Keble College, em Oxford, e a sua réplica (pintada pelo próprio autor 40 anos depois) na Catedral de St. Paul. Não sei se os pré-rafaelitas estão em evidência hoje, mas de qualquer forma o simbolismo dessa pintura é bastante esclarecedor. John Ruskin, em uma carta ao The Times de maio de 1854, usou as seguintes palavras para descrevê-la:

[…] do lado esquerdo da tela podemos ver a porta da alma humana. Ela está trancada; suas dobradiças e pregos estão enferrujados; plantas trepadeiras estão presas e entrelaçadas aos seus umbrais, revelando que nunca foi aberta. Um morcego paira sobre ela. Sua soleira está coberta por amoras silvestres, urtigas e grãos inúteis… Cristo se aproxima dela à noite…

Ele está vestido com um manto real e traz sobre a cabeça uma coroa de espinhos; segura uma lanterna com a mão esquerda (como a luz do mundo) e com a direita bate à porta.

O contexto deste versículo é revelador. Ele se encontra no final de uma carta enviada por Cristo, através de João, à igreja de Laodicéia, situada na atual Turquia. Laodicéia era uma cidade próspera, conhecida por sua produção de roupas, seus prósperos bancos e sua escola de medicina, onde era preparado o famoso pó frígio, um remédio para os olhos.

A prosperidade material havia provocado um relaxamento dos costumes e contaminado até mesmo a igreja cristã. Muitos que se diziam cristãos verdadeiros demonstravam que só tinham o título de cristãos; eram pessoas razoavelmente respeitáveis, nada mais que isso. Seu interesse religioso era superficial e casual. Assim como a água das fontes aquecidas de Hierápolis, que chegava a Laodicéia por um sistema de dutos (as ruínas podem ser vistas até hoje), eles não eram nem frios nem quentes, mas mornos. E por serem mornos, Jesus afirmou que eles lhe causavam aversão. A sua indiferença espiritual é descrita em termos de uma imagem falsa que eles tinham de si mesmos: “Pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”.

Que dura descrição da orgulhosa e próspera Laodicéia! Eles eram miseráveis, cegos e nus – nus apesar de fabricarem roupas; cegos, apesar de seu famoso remédio para os olhos, e miseráveis, apesar de seus prósperos bancos.

Nós não somos diferentes deles. Dizemos muitas vezes, como eles, que “não precisamos de coisa alguma”. Essas palavras são extremamente perigosas. Esse espírito independente, mais do que qualquer outra coisa, é que nos impede de assumir um compromisso com Cristo. É claro que precisamos de Jesus! Sem ele estamos moralmente nus (sem as vestes apropriadas para nos apresentarmos diante de Deus), cegos para as verdades espirituais, e miseráveis, sem nada para oferecer em troca de nossa salvação. Mas Cristo pode vestir-nos com a sua justiça, tocar nossos olhos para que possamos enxergar, e nos tornar ricos com suas riquezas espirituais. Sem ele, e enquanto não abrimos a porta e o convidamos a entrar, somos miseráveis, cegos e nus.

“Eis que estou à porta, e bato”, ele diz. Ele não é uma fantasia da imaginação, ou um personagem fictício tirado de algum romance religioso. Ele é o homem de Nazaré – suas declarações, seu caráter e sua ressurreição são a garantia de que ele é o Filho de Deus. Ele é também o Salvador crucificado. A mão que bate à porta tem uma cicatriz. Os pés que estão próximos à soleira ainda trazem a marca dos pregos.

Ele é o Cristo ressurreto. João descreveu-o no primeiro capítulo do livro de Apocalipse, ao contemplá-lo em uma visão altamente simbólica. Seus olhos são como chamas de fogo e seus pés como o bronze polido. Sua voz como de um trovão e sua face radiante como o sol do meio-dia. Não é de admirar que João tenha caído a seus pés. É difícil compreender como uma pessoa com tamanha majestade tenha se dignado a visitar pobres, cegos e nus como nós.

Jesus Cristo, no entanto, diz que está à porta de nossas vidas, batendo e esperando. Note que ele está à porta, não forçando a entrada; falando conosco, não gritando. Isso é ainda mais extraordinário quando nos lembramos de que a casa em cuja porta ele está batendo pertence a ele. Ele é o arquiteto; foi ele que desenhou o projeto. Ele é o construtor. Ele é também o proprietário; ele a comprou com seu próprio sangue. Assim, ela pertence a ele, por direito. Somos apenas inquilinos em uma casa que não nos pertence. Ele poderia arrombar a porta, mas prefere bater com a mão, levemente. Ele poderia ordenar que abríssemos a porta para ele; em vez de fazer isso, ele prefere que o convidemos a entrar. Ele não força a entrada na vida de ninguém. Ele diz no versículo 18: “Aconselho-te”. Ele poderia ordenar, mas se contenta em aconselhar. Ele nos trata com condescendência, humildade e liberdade.

Mas por que Jesus Cristo quer entrar? Nós já sabemos a resposta. Ele quer ser nosso Salvador e Senhor.

Ele morreu para nos salvar. Se nós o recebermos, ele irá nos conceder todos os benefícios de sua morte. Uma vez dentro da casa, ele irá reformá-la e mudar a decoração e os móveis. Ou seja, ele irá nos purificar e perdoar; e apagar o nosso passado. Ele promete também que ceará conosco e permitirá que comamos juntos. A frase descreve a alegria de desfrutar da sua companhia. Ele não somente entrega sua vida a nós, como também pede que entreguemos a ele nossas vidas. Nós éramos estrangeiros, agora somos amigos. Havia uma porta fechada entre nós. Agora estamos sentados à mesma mesa.

Jesus Cristo também entrará em nossas vidas como Senhor e Mestre. A casa passará a ser administrada por ele, assim só devemos abrir a porta se estivermos dispostos a deixá-lo tomar conta de tudo. Quando ele se aproximar da soleira, devemos entregar-lhe todas as chaves da casa, permitindo que ele tenha livre acesso a todos os aposentos. Um estudante da quarta série no Canadá, certa vez me escreveu: “Em vez de dar a Cristo várias chaves, uma para cada cômodo da casa, dei a ele uma senha que permite o acesso à casa toda”.

Isso envolve arrependimento, e a firme decisão de abandonar tudo que desagrada a Deus. Isso não significa que precisamos nos tornar pessoas melhores antes de convidá-lo a entrar. Ao contrário, exatamente por não podermos perdoar ou melhorar a nós mesmos é que precisamos que ele venha a nós. Mas devemos estar dispostos a permitir que ele mude o que quiser em nossa casa. Não devemos resistir às mudanças, nem tentar impor condições. Nossa entrega ao senhorio de Cristo deve ser total e incondicional. O que isso representa? Não sei explicar detalhadamente, mas em princípio, significa uma firme decisão de abandonar o pecado e seguir a Cristo.

Você ainda está em dúvida? Acha que não é razoável submeter-se a Cristo no escuro? E certamente não é. Acontece que isso é muito mais razoável que o casamento. No casamento, os cônjuges assumem um compromisso incondicional um com o outro. Eles não sabem o que o futuro lhes reserva. Mas eles se amam e confiam um no outro, por isso, podem assumir o compromisso de amar e cuidar um do outro, “na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza”, até que a morte os separe. Se as pessoas podem confiar umas nas outras, por que não podemos confiar no Filho de Deus? É bem mais razoável assumir um compromisso com Cristo, o Filho de Deus, do que com o mais nobre e admirável ser humano. Cristo nunca irá nos trair ou abusar da nossa confiança.

O que então devemos fazer? Antes de tudo, devemos ouvir a sua voz. É possível fechar os ouvidos para Cristo e ignorar a insistência de seu apelo, mas isso terá trágicas consequências para nós. Algumas vezes ouvimos a sua voz através da nossa própria consciência, outras através de conselhos de outras pessoas. Às vezes em meio a uma derrota moral, ou da sensação de vazio ou de falta de significado de nossa existência. Outras vezes nós a ouvimos por meio de uma inexplicável fome espiritual, ou de uma doença, ou de uma privação, dor ou medo. Seja como for, nós tomamos consciência do fato de que Cristo está lá fora à porta, falando conosco. Ele também pode falar conosco através de um amigo ou pastor ou pelas páginas de um livro. O importante é estar atento para ouvi-la sempre. “Quem tem ouvidos para ouvir”, disse Jesus, “ouça”.

Em seguida, devemos abrir a porta. Tendo ouvido sua voz, devemos atender ao seu chamado. Abrir a porta a Jesus Cristo é um modo figurativo de colocarmos nossa fé nele como nosso Salvador, um ato de submissão a ele como nosso Senhor.

É um ato definitivo. O tempo verbal no grego deixa isso claro. A porta não abre por acaso. Nem está entreaberta. Ela está fechada, e precisa ser aberta. Além disso, Cristo não a abrirá por conta própria. Não há maçaneta na porta no quadro de Holman Hunt. Dizem que ele a omitiu deliberadamente para mostrar que a maçaneta está do lado de dentro. Cristo bate; nós devemos abrir.

É um ato individual. Na verdade, a mensagem foi enviada a uma igreja, a comunidade nominal e morna de Laodicéia. Mas o desafio é para aqueles que estão dentro dela: “Se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele”. Todo ser humano deve decidir por si mesmo e dar esse passo individualmente. Ninguém pode tomar essa decisão por você. Seus pais e professores cristãos, pastores e amigos podem apontar o caminho, mas só a sua mão pode girar a maçaneta.

É um ato único. Você pode dar esse passo apenas uma vez. Depois que Cristo entrar, ele travará a porta do lado de dentro. O pecado poderá empurrá-lo ao porão ou ao sótão, mas ele jamais abandonará a casa onde entrou. “De maneira alguma te deixarei, nunca, jamais te abandonarei”, ele diz. Isso não significa que a partir dessa experiência ganharemos asas de anjo ou nos tornaremos perfeitos num piscar de olhos. Você pode se tornar cristão em poucos minutos, mas se tornar um cristão maduro leva tempo. Cristo pode entrar na sua vida, purificá-la e perdoar você em questão de segundos, mas é necessário muito mais tempo para transformar seu caráter e moldá-lo de acordo com a vontade dele. A cerimônia de casamento necessita apenas de alguns minutos para ser realizada, mas são necessários muitos anos para que os noivos encontrem um caminho comum. Assim também acontece quando recebemos a Cristo, um compromisso firmado em poucos minutos precede uma vida inteira de ajustes.

É um ato deliberado. Você não precisa esperar que uma luz sobrenatural venha do céu e brilhe sobre você, nem ser atingido por uma forte experiência emocional. Não. Cristo veio ao mundo e morreu por seus pecados. Ele agora está na porta da frente da casa de sua vida, e está batendo. A decisão é sua. A mão dele está batendo na porta, cabe a você estender a sua mão em direção ao trinco.

É um ato urgente. Não espere muito para tomar uma decisão. O tempo está passando. O futuro é incerto. Você talvez não tenha outra oportunidade como esta. “Não te glories no dia de amanhã, porque não sabes o que trará à luz”. “Como diz o Espírito Santo: Hoje se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações”. [2]

Não adie a sua decisão por achar que precisa melhorar para ser digno de receber a Cristo, ou resolver todos os seus problemas primeiro. Se você crê que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que ele morreu para ser o seu Salvador, isso é suficiente. O resto virá no devido tempo. Certamente essa é uma decisão que não deve ser tomada de forma precipitada ou temerária; mas adiá-la pode ser perigoso. Se o seu coração está lhe dizendo para abrir a porta agora mesmo, não deixe para depois.

É um ato indispensável. É claro que a vida cristã é muito mais que um ato. Como veremos no próximo capítulo, a vida cristã inclui desfrutar da comunhão com os irmãos, descobrir a vontade de Deus e se dispor a cumpri-la, crescer na graça e no conhecimento de Deus, servir a Deus e aos homens. Tudo começa com esse primeiro passo, e nada poderá ser feito sem ele. Você pode crer em Cristo racionalmente, e admirá-lo como pessoa; pode orar a ele através do buraco da fechadura (eu fiz isso por muitos anos); pode oferecer a ele algumas moedas, passando-as por debaixo da porta, a fim de mantê-lo quieto; pode ter um comportamento correto, decente, justo e bom; pode ser religioso; pode ter sido batizado e crismado; pode ter um profundo conhecimento da filosofia da religião; pode ser um estudante de teologia ou até mesmo pastor de uma igreja – e mesmo assim ainda não ter aberto a porta a Cristo. Não há nada que substitua este ato.

C. S. Lewis, conhecido pensador cristão, descreve em sua autobiografia intitulado “Surpreendido pela Alegria”, uma experiência que lhe aconteceu durante uma viagem de ônibus:

Sem palavras e (eu acho) sem imagens, um fato a meu respeito me foi de algum modo revelado. Eu percebi que havia uma barreira, que eu estava impedindo alguma coisa de entrar. Ou se você preferir, como se eu estivesse vestindo uma roupa apertada, uma espécie de colete ou espartilho, ou mesmo uma armadura. Senti então que eu era livre para decidir por mim mesmo. Eu poderia abrir a porta ou mantê-la fechada. Poderia me livrar da armadura ou continuar dentro dela. Nenhuma das escolhas me foi apresentada como uma obrigação; não havia nenhuma ameaça ou promessa atrelada a qualquer uma delas, mas eu sabia que abrir a porta ou tirar a armadura era uma decisão extremamente importante… Eu escolhi abrir, destravar, soltar as amarras. Eu digo “escolhi”, embora não me parecesse realmente possível fazer o contrário.

Uma senhora distinta atendeu ao convite de Billy Graham para ir à frente ao final de uma campanha evangelística. Ela foi acompanhada por um conselheiro que, percebendo que ela ainda não havia tomado uma decisão por Cristo sugeriu que orassem ali mesmo. Abaixando a cabeça, ela orou: “Querido Senhor Jesus, quero que tu entres em meu coração mais que qualquer outra coisa no mundo. Amém”.

Um jovem estudante ajoelhou-se ao lado de sua cama, num domingo à noite, no dormitório de sua escola. De maneira simples e direta, ele contou a Cristo o quanto sua vida estava confusa, confessou os seus pecados; agradeceu a Cristo por ter morrido por ele e pediu-lhe que entrasse em sua vida. No dia seguinte, escreveu em seu diário:

Ontem foi realmente um dia especial!… Até esse dia Cristo estava na periferia da minha vida; eu pedia a ele para guiar meus passos, mas não lhe dava o controle completo. Então eu percebi que ele estava à porta, e batendo. Eu ouvi e abri a porta. Agora ele está dentro da minha casa. Ele purificou-a e agora reina dentro dela…

E no dia seguinte:

Eu realmente senti uma enorme e nova alegria por todo o dia. Aquela alegria que você sente por estar em paz com o mundo e em contato com Deus. Sei, agora que ele reina sobre mim, que eu nunca o havia conhecido antes…

Estes trechos foram extraídos do meu diário. Achei que devia citá-los porque não quero que você fique com a impressão de que estou lhe dizendo para fazer algo que eu mesmo não tenha feito.

Você é cristão? Um cristão verdadeiro e comprometido? A sua resposta depende de outra pergunta. Não vou perguntar se você vai à igreja, se acredita em Jesus, ou se tem uma vida decente (embora todas essas coisas sejam importantes). Minha pergunta é: de que lado da porta está Jesus Cristo? Do lado de dentro ou do lado de fora? Esta é uma questão fundamental.

Talvez você esteja pronto a abrir a porta para Cristo, talvez tenha dúvidas se já fez isso antes. Se não tem certeza, procure se certificar, nem que você tenha que escrever com tinta o que já escreveu a lápis (como alguém já disse).

Sugiro que você procure um lugar para ficar a sós e orar. Confesse seus pecados a Deus e os abandone. Agradeça a Jesus Cristo por ter morrido por você e em seu lugar. Abra então a porta e peça para ele entrar como seu Salvador e Senhor.

Talvez você queira repetir esta oração em seu coração:

Senhor Jesus Cristo, reconheço que vivi até agora do meu jeito. Pequei em pensamentos, palavras e atos. Peço perdão pelos meus pecados, e deixo-os, arrependido. Creio que tu morreste por mim, levando os meus pecados em teu próprio corpo. Agradeço a ti por teu grande amor.

Agora eu abro a porta e peço que entres. Entre, Senhor Jesus. Entre como meu Salvador, e purifique a minha vida. Entre como meu Senhor e tome o controle da minha vida.

Se você orou com sinceridade, agradeça humildemente a Cristo por ter entrado em seu coração. Ele disse que entraria, pois ele mesmo afirmou: “Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta entrarei em sua casa”. Não leve em conta o que você está sentindo; confie na promessa; e agradeça a ele por manter sua palavra.

Fonte: Cristianismo Básico, pp. 167-179.

 

Ap 3.20. Pv 27.1; Hb 3.7-8.

Romanos 9 – Parkinson

1 Comentário

John F. Parkinson

 parkinson

O indivíduo judeu veio a crer equivocadamente que, visto que participava da eleição nacional de Israel, ele já era pessoalmente justificado por Deus de direito. Assim como o filho mais velho recebe a herança da família como seu direito natural, da mesma forma o judeu que guardava a lei pensava que naturalmente tinha o direito à salvação pessoal. É Paulo quem nos esclarece que aqueles que compartilham da eleição nacional de Israel não são automaticamente justificados (isto é, declarados justos por Deus), não obstante suas alianças nacionais, lei, promessas e descendência. Paulo insiste que sua grande doutrina da justificação pela fé aplica igualmente a todos os homens sem distinção, seja judeu ou gentio.

 

É em Romanos 9 onde descobrimos que “nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos” (vv. 6, 7). Em outras palavras, nem todos os judeus eram automaticamente salvos porque eram descendentes naturais de Abraão. É importante avaliar o contexto e cenário deste importante e muito mal compreendido capítulo. De fato, visto que muitos consideram o capítulo como o bastião inexpugnável da eleição e reprovação pessoais desde a eternidade, será apropriado examinar com alguma demora o conteúdo e fluxo do argumento de Paulo. Paulo vinha estabelecendo nos oito primeiros capítulos de sua carta aos romanos que Deus justifica os pecadores pela graça somente, através da fé somente. Além disso, ele vinha insistindo que o judeu e o gentio são salvos exatamente na mesma base da graça através da fé, e que ninguém é justificado pelas obras da lei.

 

Quando chega no nono capítulo, Paulo antecipa que protestos surgirão dos judeus farisaicos que guardam a lei. Em primeiro lugar, eles farão a séria acusação que o evangelho de Paulo tinha certas implicações doutrinárias inaceitáveis, visto que a palavra de Deus “havia faltado” ou falhado. Em segundo lugar, eles farão a igualmente séria acusação que Paulo estava tornando Deus injusto. Paulo irá agora abordar estas duas objeções antecipadas. Para que ninguém possa acusá-lo de ter tornado anti-judaico, ele começa afirmando seu sincero e abnegado amor por seus “parentes segundo a carne” e sua mais alta apreciação das bênçãos nacionais relativas à sua adoção, glória, alianças, lei, culto, promessas e descendência. Ele é inspirado a escrever uma de suas belas doxologias conforme lembra que Cristo, segundo a carne, nasceu em sua raça. Paulo certamente não se tornou anti-judaico, mas há importantes lições espirituais a ser aprendidas das formas em que Deus soberanamente conduziu a história da nação, e são estas lições que Paulo agora irá revelar.

 

Primeira Objeção Judaica

 

“Paulo, você vem ensinando que Deus salva pela graça somente, através da fé somente, sem distinção entre judeu e gentio. Mas e quanto à lei e as promessas dadas a Israel? Se o que você ensina é correto, então as promessas falharam e a palavra de Deus falhou.”

 

Paulo responde esta objeção antecipada mostrando que não são todos os descendentes de Abraão que herdam a bênção, mas somente aqueles que descenderam de Isaque, pois ‘Em Isaque será chamada a tua descendência’. Paulo então contrasta os filhos da carne com os filhos da promessa. Qual é a importância disto?

 

Deus fez uma escolha histórica de Isaque, em preferência a Ismael, para ser o herdeiro das bênçãos da aliança com Abraão. Nesta escolha Deus foi soberano, livre e incontestável. Esta observação da história da nação será usada por Paulo para ilustrar uma importante verdade espiritual. Isto ele faz empregando um artifício literário muito antigo, a alegoria. Uma alegoria pode ser definida como uma história na qual o significado aparente dos personagens e eventos é usado para simbolizar um significado moral ou espiritual. Paulo já alegorizou esta mesma história em Gálatas 4, onde ele expressamente declara ‘o que se entende por alegoria’ (v. 24). A lição espiritual agora sendo ensinada é que os filhos das promessas é que são os filhos de Deus, e não os filhos da carne. Ismael era um filho segundo a carne (Gn 16.2-4), e dessa forma se assemelha aos homens em sua condição natural. Isaque era um filho segundo a promessa (Gn 18.10-11), e assim se assemelha àqueles que têm um nascimento espiritual. A implicação para os leitores judaicos de Paulo era muito clara. A promessa é somente àqueles que são espiritualmente renascidos, assim tendo semelhança com o nascimento de Isaque. Observe que a passagem não ensina qualquer coisa sobre um decreto eterno para salvação no caso de Isaque, ou para reprovação no caso de Ismael. Paulo está usando Ismael, o filho segundo a natureza, como um símbolo dos homens não regenerados, e Isaque o filho da promessa como um símbolo dos homens espiritualmente regenerados.

 

Mas a fim de que os judeus não possam dizer que Isaque e Ismael tiveram mães diferentes e que Ismael era filho de Hagar a escrava e não lhes era pertinente, Paulo continua seu argumento introduzindo dois irmãos que tinham o mesmo pai e a mesma mãe, Isaque e Rebeca. Esaú e Jacó eram irmãos gêmeos que na Escritura tornam-se símbolos de duas nações diferentes. Quando Rebeca estava grávida dos gêmeos, o Senhor lhe disse ‘Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor’. (Gn 25.23).

 

Novamente, há importância histórica e espiritual nesta história. No nível histórico, Deus continuaria a bênção da aliança através de Jacó ao invés de Esaú, sendo esta uma escolha soberana e livre de Deus. A profecia teve um cumprimento literal nas histórias consequentes e contrastantes de Edom (Esaú) e Israel (Jacó). É habitual de comentaristas, que não aceitam a visão calvinista, explicar a escolha de Deus de Jacó e Esaú em termos de seu papel na história. Nós inteiramente respeitamos essa posição, e concordamos que a soberania de Deus na história está em vista. Entretanto, em nossa opinião, Paulo não a limita a isso.

 

Sugerimos que Paulo, novamente empregando um método alegórico, tira lições espirituais do caso de Jacó e Esaú. (Por alegoria referimos ao seu uso literário dentro das Escrituras. Não concordamos com o método de interpretação conhecido como ‘alegorização’ que é caracterizado pela busca de um significado mais profundo do que está aparente nas afirmações literais de um texto, como popularizado por Orígenes, Jerônimo e Agostinho.) A história de Jacó e Esaú é usada por Paulo para ilustrar que Deus escolhe salvar pela graça e não pelas obras, e que o propósito de Deus de acordo com a eleição ou escolha será apenas em seus termos e que as obras não terão qualquer influência. A bênção tem sua origem no chamado gracioso de Deus. No curso natural dos eventos, Esaú teria recebido a bênção porque era o primogênito. Mas ele foi desprezado em favor de seu irmão mais jovem. A importância espiritual disto agora torna-se clara.

 

Deus rejeitou e inverteu a ordem natural para que pudesse abençoar em seus próprios termos. Esaú, sendo o filho mais velho, deveria ter as bênçãos por direito. Isto é como o judeu hipócrita, ou na verdade qualquer um que se esforça pela seu salvação, que sente que deve receber a salvação por direito. Por outro lado, Jacó era o filho mais jovem e não tinha direito natural à bênção. Se ele fosse receber a bênção, seria pela graça e não por direito. Isto ilustra a base da salvação de qualquer um. Ele deve ser salvo pela graça e não por direito. Portanto, o ‘mais velho servindo ao mais moço’ é uma ilustração da lei sendo colocada de lado em favor da graça. Quando Deus fala de amar Jacó e odiar Esaú, não é sua atitude aos dois indivíduos históricos, mas sua atitude a dois tipos diferentes de pessoas, tipificadas nestes irmãos gêmeos, conforme predito antes que eles tivessem nascido ou feito bem ou mal. Jacó simboliza a posteridade crente de Abraão, enquanto Esaú simboliza a posteridade incrédula de Abraão.

 

Como no caso de Ismael e Isaque, não há menção alguma de decretos eternos para salvação ou condenação pessoal. John Goodwin (1593-1665), em sua excelente Exposition of the Ninth Chapter to the Epistle to the Romans, escreveu que o “escopo do apóstolo nisso é afirmar e manter sua grande doutrina da justificação pela fé e que aqui ele não diz absolutamente nada sobre qualquer eleição ou reprovação pessoal dos homens desde a eternidade”. Goodwin argumenta que Paulo não menciona Isaque e Jacó como exemplos de uma eleição absoluta e incondicional de indivíduos para a vida eterna, mas como ilustrações do novo nascimento e da graça. Um discernimento do método alegórico de Paulo é a chave para um entendimento desta passagem.

 

Resumindo o argumento até então, Paulo, pelos propósitos de ilustração, retratou Ismael como um filho da carne, e Isaque como um filho da promessa. Esaú o mais velho é um símbolo do homem que reivindica bênçãos por direito, enquanto Jacó o mais moço é um símbolo do homem que recebe a bênção pela graça. A mensagem ao leitor judeu de Paulo é clara: se deve ser salvo, ele precisa experimentar o nascimento espiritual, conforme ilustrado em Isaque, o filho da promessa, e recebê-lo somente pela graça, conforme ilustrado em Jacó, o mais jovem. Assim, a palavra de Deus definitivamente não falhou. Deus abençoou em seus próprios termos, que são pela graça por meio da fé, sem as obras. A primeira objeção foi respondida. É difícil para nós plenamente apreciar que dolorosa experiência deve ter sido ao judeu ser informado que em termos espirituais ele tem mais semelhança com Ismael e Esaú do que com Isaque e Jacó.

 

Segunda Objeção Judaica

 

‘Paulo, se não há vantagem aos descendentes de Abraão, ou àqueles que se dedicam às obras da lei, então Deus é injusto.’

 

Paulo refuta totalmente a ideia que há alguma injustiça em Deus na questão da salvação. Deus salva pela graça somente, através da fé somente, e nenhum judeu hipócrita irá dar ordens de outra forma a Deus. Como ele disse a Moisés, ‘Compadecer-me-ei de quem me compadecer’. Misericórdia é prerrogativa inteiramente de Deus. É prerrogativa soberana de Deus salvar pela graça e salvar aqueles que creem, seja judeu ou gentio. Assim como Deus foi soberano na escolha histórica de Isaque e Jacó para serem os herdeiros das promessas da aliança, da mesma forma ele é soberano na escolha de como e quem ele irá salvar.

 

Como Deus salva? – Ele salva pela graça.

Quem Deus salva? – Ele salva aqueles que creem.

 

Este é o claro ensino dos primeiros oito capítulos da epístola aos Romanos. No nono capítulo, a grande doutrina de Paulo da justificação pela fé é ilustrada pela alegorização de certos personagens e eventos do Antigo Testamento, para benefício especial dos leitores judaicos de Paulo.

 

Mas se Deus é soberano sobre quem ele salva, então ele também é soberano sobre quem ele rejeita. Ele salva o crente, ele rejeita o incrédulo. Faraó é citado como um exemplo de um pecador impenitente que persistiu em sua incredulidade. A passagem não ensina que Deus predestinou Faraó à condenação por um decreto absoluto na eternidade passada. Paulo está mostrando que Faraó permanece para sempre como uma advertência divina solene contra a incredulidade obstinada (v. 17), não diferente da maneira em que Pedro retrata Sodoma e Gomorra como um exemplo ‘aos que vivessem impiamente’ (2Pe 2.6). W. E. Vine, em seu comentário The Epistle to the Romans (p. 136), afirma claramente “que a retribuição divina não é simplesmente arbitrária, mas é consequente à própria dureza de coração do homem. A soberania de Deus não é exercida predestinando os homens ao pecado, como se eles fossem máquinas impotentes, forçadas por um destino predeterminado, e compelidos a colher as consequências de um mal pelo qual eles não foram primariamente responsáveis. A presente condição dos judeus é atribuível, não a Deus, mas a eles mesmos”.

 

É a vontade soberana de Deus ter misericórdia sobre aqueles que creem e endurecer aqueles que persistem em sua incredulidade, e nenhum ser humano, judeu ou gentio, irá dar ordens diferentes a Deus. De fato, a própria ideia é tão ridícula como o barro ditando ordens ao oleiro. O pecador perdeu qualquer reivindicação a Deus. A prerrogativa de Deus de salvar pela graça e demonstrar as riquezas de sua glória salvando aqueles que creem (vasos de misericórdia, preparados nesta vida para a glória futura) é incontestável, assim como sua demonstração de ira sobre os pecadores impenitentes e empedernidos (vasos de ira que se prepararam para a destruição) é incontestável.

 

Em seu comportamento com a humanidade, Deus está completamente correto e o homem está completamente errado. O pecador não negocia com Deus na questão da salvação, e não tem nada, por assim dizer, a colocar sobre a mesa. Se o pecador for salvo, será totalmente e completamente pela própria vontade e termos de Deus. Deus não será contestado quanto a como e quem ele salva. É seu beneplácito salvar pela graça e salvar aqueles que creem, judeu ou gentio.

 

Paulo agora desenvolve o argumento lembrando aos seus leitores que Deus sempre pretendeu trazer os gentios para a bênção. Paulo estava ansioso para mostrar que ele não tinha inventado estas ideias e cita Oséias para provar aos leitores judaicos que a misericórdia de Deus aos gentios era totalmente consistente com as profecias da Escritura. Mas o judeu poderia bem perguntar se algo seriamente não saiu errado com a profecia se multidões de gentios estavam sendo salvos comparado a um número relativamente pequeno de judeus. Paulo responde esta possível objeção judaica citando Isaías para mostrar que o profeta tinha precisamente predito que somente um remanescente ou pequeno número de judeus seria salvo.

 

Os judeus, com todos os seus privilégios, estavam deixando de obter a bênção enquanto os gentios, com todo o seu cenário ímpio, estavam sendo salvos em grande número. Qual era a explicação deste estranho estado de coisas? O ensino da passagem é que há algum tipo de predestinação dupla e absoluta de indivíduos desde a eternidade? Nada poderia estar mais distante do argumento de Paulo.

 

A explicação bíblica é que os gentios alcançaram a bênção pela fé e que os judeus deixaram de obtê-la porque perseguiram a justiça como se a bênção fosse baseada nas obras. A fé somente em Cristo era a grande pedra de tropeço ao judeu. A essência do argumento em Romanos 9 é que a justificação é pela fé somente, mesmo no caso do judeu. Nesta questão, Deus é soberano e incontestável.

 

Em Romanos 9 Paulo tomou eventos e pessoas nas nações passadas para demonstrar a soberania de Deus na história. Ele então alegorizou estas histórias verídicas para ilustrar e ensinar a grande doutrina da justificação pela fé. No capítulo 10 ele elabora sobre o presente fracasso de Israel de entrar na bênção do evangelho por causa de sua ignorância da justiça de Deus e seu fracasso em compreender o significado da obra acabada de Cristo (v. 3, 4). A culpa e a responsabilidade de Israel são estabelecidas fora de qualquer dúvida na citação tocante de Paulo da profecia de Isaías ‘Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente.’

 

Entretanto, Deus não terminou com seu antigo povo. Nesta presente época, diz Paulo, há ‘um remanescente, segundo a eleição da graça’ (11.5). Israel não obteve a bênção que estava procurando, mas os eleitos a obtiveram. Muitos judeus foram salvos, e Paulo enfatiza que eles foram salvos pela graça e não pelas obras. O eleito neste contexto é, portanto, o judeu crente.

 

Mas Deus ainda tem um futuro para o judeu. Deus está controlando a história, e em um dia ainda por vir, quando a plenitude dos gentios tiver entrado, todo o Israel sera salvo. As promessas a Abraão e seus descendentes ainda esperam um glorioso cumprimento, quando sairá de Sião o Libertador, que desviará as impiedades de Jacó. Por fidelidade à aliança, Deus irá tirar os seus pecados. Neste tempo presente, Israel, diz Paulo, é inimigo do evangelho por causa de vocês (isto é, os gentios), mas no que se refere à eleição, eles são amados por causa dos pais. A palavra de Deus não falhou em nenhum aspecto. De fato, a presente incredulidade de Israel é a ocasião de misericórdia aos gentios. Com o passar do tempo, Israel também irá obter misericórdia. O fato que Deus encerrou todos os homens debaixo da incredulidade para que pudesse ter misericórdia sobre todos inspira Paulo a escrever uma das mais belas doxologias de toda a Bíblia: ‘Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! …Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.’ (Rm 11.33-36).

 

Há ainda um outro uso do termo eleitos relativo aos crentes em Israel e isto ocorre nos Evangelhos sinóticos. É o Senhor quem usa o termo em quatro ocasiões, e em todas elas em conexão com o remanescente fiel de Israel durante o periodo da tribulação, isto é, entre o arrebatamento da igreja e a vinda do Filho do Homem. O Senhor Jesus informou aos seus discípulos que o Filho do Homem viria nas núvens do céu com poder e grande glória e enviaria seus anjos para ‘ajuntar os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus’ (Mt 24.31). O leitor pode rapidamente consultar todas as referências para verificar que todas elas se aplicam ao remanescente fiel do tempo do fim: Mt 24.22, 24, 31; Mc 13.20, 22, 27 e Lc 18.7.

 

Para concluir esta seção, pode ser resumido que eleitos em conexão com Israel se aplica (1) a toda a nação no passado, (2) aos crentes na nação no passado e no presente, (3) ao remanescente fiel na tribulação e (4) a toda a nação no milênio futuro. Em cada caso, é o contexto que fornece a chave para o significado. Em nenhum destes casos, e certamente não em Romanos 9, os eleitos ou a eleição jamais se refere a uma predestinação absoluta de indivíduos para salvação ou reprovação por decretos imutáveis desde a eternidade.

 

Fonte: John F. Parkinson, The Faith of God’s Elect, Gospel Tract Publications (Novembro, 1999) p. 21-28.

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes

A Soberania Divina no Velho Testamento

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William Sanday e A. C. Headlamarquivo - arminius hoje

 

Uma segunda objeção é respondida e um segundo passo no argumento é afirmado. Deus não é injusto caso escolha um homem ou uma nação para um propósito superior e outro para um propósito inferior, um homem para Sua misericórdia e outro para Sua ira. Como é mostrado pelas Escrituras, Ele tem absoluta liberdade no exercício de Sua soberania divina. São Paulo está argumentando contra um oponente definido, um típico judeu, e ele deduz das premissas a validade do que esse judeu deve admitir, a saber, a concepção de Deus contida no Velho Testamento. Lá é claramente declarada a soberania de Deus, ou, em outras palavras, Seu poder e direito de dispor o curso das ações humanas como Ele deseja. Ele poderia escolher Israel para um ofício elevado e Edom para uma papel vil. Ele poderia escolher Moisés como um exemplo de Sua misericórdia e Faraó como um exemplo de Sua ira. Se isto for admitido, Ele pode (sobre razões que o judeu deve admitir), se quiser, escolher alguns judeus e alguns gentios para o elevado propósito de serem membros de Seu reino messiânico, enquanto rejeita para um papel inferior a maioria do povo eleito.

 

Este é o argumento de São Paulo. Por essa razão não há nenhuma necessidade de suavizar (como alguns têm tentado fazer) a aparentemente severa expressão do versículo 18, que Ele ‘endurece a quem quer.’ São Paulo não diz nada mais do que havia dito em 1.20-28, onde ele descreveu a perversidade final do mundo como, de certo modo, resultado da ação divina. Em ambas as passagens ele está isolando um lado da ação divina; e ao fazermos deduções teológicas de sua linguagem, estas passagens devem ser contrabalançadas por outras que envolvem o amor divino e a liberdade humana. Será necessário fazer isto ao final da discussão. No momento, devemos estar satisfeitos com a conclusão de São Paulo, que Deus, como soberano, tem o direito e poder absoluto de dispor as vidas dos homens como quiser.

 

Não devemos suavizar a passagem. Por outro lado, não devemos extrair um significado além do que ela contém, como, por exemplo, faz Calvino. Ele introduz várias idéias estranhas, que São Paulo fala de eleição para salvação e de reprovação para morte, que os homens foram criados para que possam perecer, que a ação de Deus não somente poderia ser como foi arbitrária: Hoc enim vult efficere apud nos, ut in ea quae apparet inter electos et reprobos diversitate, mens nostra contenta sit quod ita visum fuerit Deo, alios illuminare in salutem, alios in mortem excaecare…Corruit ergo frivolum illud effugium quod de praescientia Scholastici habent. Neque enim praevideri ruinam impiorum a Domino Paulus tradit, sed eius consilio et voluntate ordinari, quemadmodum et Solomo docet, non modo praecognitum fuisse impiorum interitum, sed impios ipsos fuisse destinato creatos ut perirent [For this he goeth about to bring to pass amongst us, that concerning the diversity [that] is between the elect and reprobate, our mind might be content with this, namely, that it hath so pleased God to illuminate some unto salvation, and blind other some unto death… A evasiva trivial sustentada pelos escolásticos com respeito à presciência cai, portanto, por terra. Paulo não nos informa que a ruína dos ímpios é prevista pelo Senhor, e, sim, que é ordenada pelo seu conselho e vontade. Salomão igualmente nos ensina que a destruição dos ímpios não foi apenas conhecida antecipadamente, mas que os ímpios mesmos foram criados com o propósito específico de perecerem (Pv 16.4)].

 

O apóstolo não diz nada sobre vida ou morte eterna. Ele não diz nada sobre os princípios de acordo com os quais Deus age. Ele nunca diz que Sua ação é arbitrária (ele provará no devido tempo que ela não é assim), mas somente que se ela for, nenhum judeu que aceita a Escritura tem algum direito de reclamar. Ele nunca diz ou deixa implícito que Deus criou o homem para que pudesse condená-lo. O que ele diz é que, em Seu governo do mundo, Deus reserva a Si mesmo completa liberdade de lidar com o homem sob Suas próprias condições e não sob as do homem. Dessa forma, Gore, op. cit. p. 40, resume o argumento: ‘Deus sempre se revelou como Aquele que preserva Sua liberdade de escolha, como Aquele que recusa se restringir, como Aquele que escolhe os exemplos históricos de seu juízo endurecedor e de Sua boa vontade compassiva, de forma a frustar todas as tentativas de nossa parte de produzir Suas vocações por nossos próprios esforços, ou de antecipar as pessoas que Ele usará para Seus propósitos de misericórdia ou de juízo.’

 

Fonte: The Epistle to the Romans, sobre Rm 9.18, pp. 257-258

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes

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