John Fletcher


 

 


 

_________________________________________________________________________Sante Uberto Barbieri

 

(Estranha Estirpe de Audazes, Cap. 7 – O Paladino da Divina Misericórdia)

 

“Não permita Deus que eu exclua de meu afeto fraternal e de minha assistência ocasional, a qualquer dos verdadeiros ministros de Cristo, porque ele lance as redes do Evangelho com os presbiterianos, ou os independentes, ou os quaqueres ou os batistas!”

 

João Guilherme de La Flechère

 

No estudo que fizemos de João Wesley dissemos que não havia sido primeiramente teólogo e sim evangelista, e que sua principal fonte de pregação era o Novo Testamento. Quando recrudesceu a controvérsia sobre o principal ponto teológico que os dividia em calvinistas e arminianos, como duas correntes metodistas paralelas, João Wesley teve de lançar mão de João Guilherme de La Flechère, ou João Fletcher como era conhecido, que aparecera no cenário metodista quando o movimento já havia tomado grande impulso na Inglaterra.

 

A razão pela qual o movimento metodista nunca se distinguiu como sistema teológico é que seu principal interesse havia sido o de despertar a consciência evangélica daqueles que nominalmente se diziam cristãos e de levar a mensagem do Evangelho aos que não tinham conhecimento. Para cumprir com tal propósito, o mais importante era a exposição que se pudesse fazer das Escrituras. Para João Wesley um sistema particular de doutrina era coisa secundária, segundo o que ele mesmo escrevera sobre a natureza do crente metodista:

 

“São estes os princípios e práticas de nossa seita, os traços do verdadeiro metodista… Se alguém diz: ‘Mas esses são apenas os princípios fundamentais comuns da fé cristã!!!’ É precisamente isso o que quero dizer… Rogo a Deus que tu e todos os homens saibam que eu e todos os que pensam como eu, recusamos veementemente ser diferençados dos demais homens por algo que não sejam os princípios comuns do cristianismo… Por estes sinais, por estes frutos de uma fé viva, tratamos de distinguir-nos do mundo crente… Mas dos verdadeiros cristãos, de qualquer denominação, desejamos ansiosamente não distinguir-nos em absoluto… É teu coração sincero como o meu o é para ti? Não te pergunto outra coisa. Se assim é, dá-me a mão… Amas e serves a Deus? Isto basta. Aperto tua destra em sinal de comunhão.”[1]

 

Em sua “Pequena História do Povo Chamado Metodista,” Wesley diz o seguinte sobre seu achado de La Flechère:

 

“Dia 13 de 1757. Achando-me em estado de fraqueza, em Snowfields, orei a Deus para que, se lhe parecesse bem, me enviasse ajuda para minhas capelas. Assim o fiz. E tão logo terminei de pregar, veio o Sr. Fletcher, que havia sido recentemente ordenado presbítero (da Igreja Anglicana) e se apressou em chegar à capela com a intenção de ajudar-me, supondo que eu estivesse só. Quão maravilhosos são os caminhos do Senhor! Quando minha força física declinava e nenhum clérigo na Inglaterra estava em condições ou pronto para ajudar-me, enviou-me ajuda das montanhas da Suíça e verdadeiro companheiro em todo sentido! Onde poderia eu ter encontrado outro igual?”[2]

 

O fundador do metodismo tinha esperança de que esse homem, que Deus lhe havia deparado de maneira tão providencial, viria a ser seu sucessor na direção do movimento. Por aquela época Wesley se encontrava um tanto quanto desalentado quanto a seu estado físico e julgou que não viveria muito tempo mais. Estava buscando alguém que pudesse ocupar seu posto se ele chegasse a faltar. Não obstante ele sobreviveria a João de La Flechère, que era de constituição física muito mais precária que Wesley.

 

Embora a João de La Flechère não o sucedesse na direção, foi-lhe muito útil na luta que precisou sustentar para defender o ponto de vista arminiano perante seus opositores calvinistas. Dessa maneira, o metodismo produziu um grande teólogo sem que este realmente escrevesse um tratado de teologia como a “Suma Teológica” de Tomás de Aquino ou “As Instituições Cristãs” de Calvino. Limitou-se a defender uma doutrina que lhe pareceu mais afinada com o ensino que o cristianismo primitivo ministrava segundo o testemunho do Novo Testamento.

 

João Guilherme de La Flechère não nasceu na Inglaterra. Viu a luz em Nyon, pequeno povoado não muito longe de Genebra, Suíça, quase às margens do lago Leman, no dia 12 de setembro de 1729. Descendia de uma família da Sabóia francesa. Estudou na Universidade de Genebra e se distinguiu como aluno estudioso. Havia pensado fazer-se pastor da Igreja Reformada da Suíça, mas por questões de consciência recusou finalmente entrar. O que obstou a que ele desse tal passo foi o credo calvinista. Repugnava a sua consciência crer que Deus, para sua glória, houvesse desde a fundação do mundo decretado a perdição de muitos seres humanos. Renunciou a sua vocação ministerial por esse motivo e foi a outro extremo, abraçando a carreira militar. Não durou muito essa determinação, e logo viu que ali nunca prosperaria, visto como tinha ânimo demasiado gentil para acomodar-se às idéias brutais da guerra. Foi quando resolveu emigrar para a Inglaterra.

 

Como meio de vida nesse novo ambiente, João de La Flechère aceitou lugar de tutor junto a uma rica família que vivia no campo e que costumava passar os invernos em Londres. Suas ocupações docentes não fizeram diminuir-lhe o interesse pelas coisas do espírito. Uma inquietude profunda por conhecer mais intimamente as coisas de Deus não o deixava completamente em paz. Ouvindo falar dos metodistas, inquiriu a respeito deles. Disseram-lhe: “São gente que ora dia e noite.” A isto replicou: “Então eu os encontrarei, se eles estão a meu alcance.” Durante uma de suas permanências em Londres pôde entrar em contacto com os metodistas e renasceu-lhe o zelo religioso, desejando servir ao Senhor assim como o anelara em seus anos mais juvenis. João Wesley aconselhou-o a buscar ordens eclesiásticas no seio da Igreja Anglicana, que ele fez e obteve.

 

Depois de ser ordenado ministro, o rico senhor em cuja casa servira de tutor ofereceu-lhe a capelania de sua capela particular, em Dunham, onde lhe disseram que havia “pouco trabalho e bom salário.” Pouco antes de ser-lhe feito esse oferecimento havia visitado o povo de Madeley, lugar não muito grande, mas onde prosperavam algumas indústrias e minas. Notou no povo muita miséria e perdição. A Igreja Anglicana do local vivia deserta e a gente não manifestava nenhum interesse pelas coisas do espírito. Observou, também, a abundância do comércio de bebidas. Quando seu antigo amo lhe ofereceu aquela capelania, teve uma idéia: aceitá-la para permutá-la com o pároco de Madeley. Mui gostosamente este aceitou a troca e pouco depois La Flechère estava em seu novo posto de trabalho. Foi mirrada a colheita que obteve ali no princípio de seu ministério. A gente se levantava tarde nos dias de culto e por isso não assistia aos serviços religiosos. Davam, porém, como desculpa, que o lavar e aprontar as crianças lhes tomava muito tempo para que estivessem prontos na hora em que começavam os exercícios divinos. Então ele resolveu o problema lançando mão do expediente de ir cedo pelas ruas tocando campainha para que se levantassem a tempo. Além disso, se propôs visitar assiduamente, de casa em casa, indo o melhor que pôde ao encontro das muitas necessidades dessa gente, que por longo tempo havia vivido ao abandono.

 

Nessa época ele já falava bem a língua inglesa e a usava maravilhosamente. Não era homem de alta eloqüência, mas imprimia tal espírito de piedade e tal sentimento de candura no que dizia, que suas palavras chegavam fundo no coração dos ouvintes. Um de seus contemporâneos deu este testemunho: “Sua palavra viva remontava-se como vôo de águia.” A grande custo os ouvintes podiam reter as lágrimas, e suas mensagens eram recordadas por muito tempo, pois deixavam impressão indelével nas almas. Extremava-se no cuidado dos pobres, que encontravam nele não só a mão caritativa, mas também o coração compreensivo. Uma vez e outra chegou a vender os móveis de sua casa para fazer face a alguma necessidade premente dos paroquianos pobres. Atendia com carinho as crianças, às quais instruía no catecismo e as cercava com conselhos paternais. Consta que chegava a reunir até trezentas delas.

 

Sua saúde nunca foi muito boa. Estava sujeito a achaques e, ao que parece, sofria de tuberculose. Mas, apesar disso, entre enfermidade e enfermidade, levava adiante seu ministério com dedicação e carinho. Não passariam muitas semanas em sua paróquia antes que viesse o prêmio de seus esforços. A igreja se encheu de gente e muitos encontraram o caminho da salvação e o sabor de uma nova vida em Cristo. Não somente melhorou as condições de muitas famílias, mas também o povo sentiu a influência de sua piedade e consagração. Tornou-se conhecido em toda a Inglaterra como “o Vigário de Madeley.” Aqueles que o conheciam diziam que só o seu aspecto já infundia ânimo e que toda sua maneira de ser convidava a uma vida mais santa.

 

João Guilherme de La Flechère, apesar de pertencer como eclesiástico à Igreja da Inglaterra, nunca perdeu o fervor metodista, e como já o notamos, foi um dos companheiros mais achegados e fiéis de João Wesley. Pela citação de Wesley que transcrevemos antes, vemos que ele apareceu quase providencialmente numa época de premente necessidade. Wesley, em sua anotação, esqueceu-se de dizer que nesse mesmo dia La Flechère recebeu sua ordenação de presbítero. O historiador Stevens nos faz uma clara avaliação a respeito de sua contribuição ao movimento metodista:

 

“De ali em diante, dentre o clero da Igreja Anglicana, foi o coadjutor mais ardente de Wesley, seu conselheiro e companheiro de viagem na itinerância evangelizadora, assistente em suas Conferências, campeão de seus pontos teológicos e, sobretudo, exemplo santo de vida e do poder do cristianismo, assim como o ensinava o metodismo. Era lido e conhecido, admirado e amado pelos metodistas em todo o mundo, tanto assim que Madeley, sua paróquia, lhes é tão familiar e tanto a estimam como a própria Epworth.”[3]

 

Wesley sentiu muito que ele resistisse em aceitar o convite para substituí-lo no caso de vir a faltar. E por dois motivos não aceitou: por sua má saúde e por sua modéstia.

 

Apesar de exercer o ministério entre a gente humilde, pobre e viciada, nunca perdeu contacto com os mais ilustres de sua época, e gozava da mesma admiração e prestígio tanto entre ignorantes como entre sábios.

 

Quase até ao fim da vida se manteve solteiro. Em 1770 fez sua primeira visita de regresso à Suíça. Nessa viagem passou pela Itália e empenhou-se em visitar a via Ápia, e ali estando se descobriu e se ajoelhou em homenagem aos cristãos primitivos que por ela haviam passado e dado a vida em testemunho do Evangelho. Voltou à sua paróquia mais animado no espírito e mais forte no corpo, mas no verão de 1777 a saúde piora novamente, perdendo ele a esperança de curar-se. Ao fim desse verão voltou de novo à Suíça e ali permaneceu até 1781. Novamente os ares da terra natal lhe devolveram parte da saúde, já que nunca chegou a curar-se por completo. Nesse mesmo ano voltou à Inglaterra e no mês de novembro contraiu matrimônio com Maria Bosanquet, que havia sido excelente cooperadora de João Wesley e uma das poucas mulheres a quem concedera permissão para dirigir a palavra nas reuniões metodistas.

 

Maria nasceu de pais opulentos, em 1739, e desde tenra idade mostrou pronunciado pendor pela religião. Quando tinha apenas oito anos de idade já meditava acerca de sua salvação eterna, perguntando-se: “Que história é essa de se perdoar os pecados de alguém e que devemos ter fé em Jesus?” Sua família estava relacionada com círculos da alta sociedade, e assim teve ocasião de conhecer a vida prazerosa e os centros aristocráticos das cidades de Bath e de Londres, bem como os salões de baile e casa de ópera, todavia seu espírito religioso não desfaleceu. Em sua casa trabalhava uma jovem criada que foi alcançada pelo movimento metodista. Essa criada exerceu grande influência sobre Maria e sua irmã, e merece grande crédito pela resolução que Maria tomara de aderir ao metodismo.

 

Depois, em Londres, no inicio de sua juventude, entrou em contacto com alguns elementos femininos metodistas que influíram em sua maneira de viver. Os pais se alarmaram com a religiosidade da filha e quiseram levá-la a um lugar de veraneio, tratando de alijar de sua mente o que, na opinião deles, eram “idéias exóticas e extravagantes.” Todavia ela lhes suplicou que não a levassem, e ficou com alguns amigos em Londres, que alimentavam sentimentos mais afins com os seus. No seio dessa família, firmou-se mais e mais a determinação de dedicar-se a uma vida religiosa. Um dia seu pai impacientou-se com ela e lhe disse: “Tenho de exigir-te que prometas expressamente que nunca, em qualquer oportunidade, seja agora ou mais tarde, tentes fazer de tuas irmãs o que chamas um cristão.” A isso respondeu (ela mesma o relata): “De acordo com o que considero ser a vontade do Senhor, não ouso consentir em tal coisa.” Então o pai lhe replicou: “Em tal caso me obrigas a que te ponha fora de minha casa.” A isso ela respondeu: “Está bem, senhor, e de acordo com sua maneira de ver as coisas, entendo sua atitude. De minha parte me guardarei de provocar ambiente desagradável.” E quando alcançou a maioridade, estando de posse de uma pequena fortuna, por direito de herança, abandonou o lar. Com o consentimento dos pais estabeleceu-se em companhia de sua criada, num local um tanto afastado de sua morada anterior. Dedicou-se ali à vida religiosa que tanto almejava e, exceto o que reservava para seu modesto sustento, distribuía todas as rendas entre algumas viúvas pobres.

 

Dessa época em diante passou a vida em simplicidade, aprofundando-se na piedade e extremando-se em atividade benevolente. Pôs-se à disposição das “Sociedades Metodistas” de Londres e foi alto expoente da maneira de viver, pensar e crer dos Wesley. Muitas haviam sido, já, as atividades que exercera, quando se casou com João de La Flechère. Os historiadores dizem que nunca antes duas almas tão gêmeas viveram sob um mesmo teto. O poeta Roberto Southey dá o seguinte parecer: “É mulher profundamente apropriada para ele em idade, temperamento e talentos.”[4]Foi constante companheira do esposo em todos os misteres pastorais, secundando-o em todos os giros evangelizantes e sustentando-o em sua débil saúde. Escrevendo a Carlos Wesley sobre seu casamento, depois de pouco mais de um ano de casados, diz João de La Flechère:

 

“Eu tinha medo, a princípio, de dizer muito sobre este particular, porque os recém-casados não se conhecem devidamente um ao outro, mas havendo vivido em meu novo estado por esses quatorze meses, posso dizer-lhe que a Providência me reservou um prêmio, e que minha esposa é muito melhor para mim que a Igreja para Cristo, de tal maneira que se o paralelismo falha, será por minha causa.”[5]

 

Com a publicação das Atas da Conferência Anual reunida em Londres, em 1770, surge uma nova controvérsia com os elementos calvinistas. Estes haviam interpretado algumas asserções ali contidas como se advogassem “a salvação por meio das obras,” e não pela fé somente, bradando aos céus e dizendo que se haviam apartado por completo da sã doutrina. Na realidade, o que a Conferência quis salientar era a necessidade de a fé ser confirmada por uma vida pura, dedicada ao bem. Deste incidente, que a princípio parecia ser coisa sem importância, desencadeou-se uma controvérsia que durou longo tempo, e João Guilherme de La Flechère se converteu no defensor da tese doutrinária do metodismo arminiano. Fê-lo com altura e profundidade em cartas e folhetos que depois foram reunidos em volumes chamados “Checks to Antinomianism,” nos quais se esforçou por expor o que considerava ser a essência do Evangelho, sem ferir suscetibilidades. A respeito dessas publicações, João Wesley faz o seguinte comentário:

 

“Não se sabe o que admirar mais: se a pureza de linguagem, ou a força e clareza do argumento, ou a gentileza e doçura de espírito que se desprende de tudo isto.”[6]

 

Como resultado desta controvérsia, a Condessa Huntingdong despediu o metodista arminiano José Benson da direção do colégio Trevecca, em virtude de sua negativa em aceitar a doutrina da predestinação absoluta. Ante essa atitude da Condessa, que havia sido também responsável por chamar a atenção ao conteúdo das Atas de 1770, La Flechère, eleito na época presidente da Instituição, enviou-lhe a renúncia de seu cargo, dizendo-lhe entre outras coisas que:

 

“O Sr. Benson fez uma defesa muito justa quando disse que comigo sustentava a possibilidade de salvação para todos os homens e que a misericórdia é oferecida a todos, embora possa ser recebida ou rejeitada. Se isto é o que sua senhoria identifica como opinião do Sr. Wesley, livre arbítrio ou arminianismo, e se qualquer arminiano tem de deixar o colégio, de fato estou igualmente despedido. Diante de meu atual ponto de vista nesta questão, vejo-me obrigado a manter este sentimento, se em verdade a Bíblia é verdadeira e Deus é Amor.”[7]

 

Antes de sua renúncia, ele se manteve no cargo de diretor do colégio Trevecca por dois anos, e depois da renúncia, de quando em quando visitava a escola para ali ficar alguns dias e estar em contacto com os alunos. Dessas visitas temos este testemunho de Benson:

 

“O leitor me perdoará se pensa que estou exagerando, mas meu coração se ilumina enquanto escrevo. Isto é o que eu via: que direi? Um anjo em carne humana? Não me excederia muito da verdade se assim o dissesse. Em verdade eu via diante de mim um descendente do caído Adão tão completamente restaurado das conseqüências da queda, que embora o corpo estivesse atado à terra, sem dúvida sua conservação era dos céus e sua vida estava dia após dia escondida com Cristo em Deus. Oração, louvor, amor e consagração, tudo isso ardente e elevado muito acima do que comumente julgamos ser possível alcançar neste nosso estado de fraqueza, eram os elementos pelos quais vivia constantemente. As línguas, as artes, a ciência, a gramática, a lógica e mesmo as próprias matérias teológicas eram postas de lado quando ele aparecia em aula entre os estudantes. Estes raramente o ouviam por muito tempo sem que brotassem lágrimas de seus olhos e sem que cada coração se incendiasse com a chama que ardia em sua alma.”[8]

 

Talvez seja conveniente dizer que depois de seis anos de controvérsia, os dois grupos se reconciliaram, reconhecendo que, apesar de seus diferentes pontos de vistas teológicos, estavam trabalhando para a mesma causa e que decerto se haviam excedido em zelo e expressões. Em conexão com este fato é reconfortante recordar ainda que Fletcher possuía um estranho espírito ecumênico, para quem o mais importante não era pertencer a esta ou àquela denominação, e sim ter o espírito de Cristo na vida e na alma. Uma declaração sua, a respeito da atitude que tinha para com os colegas de outras denominações, revela-nos esse espírito:

 

“Não permita Deus que eu exclua de meu afeto fraternal e de minha assistência ocasional, a qualquer dos verdadeiros ministros de Cristo, porque ele lance as redes do Evangelho com os presbiterianos, ou os independentes, ou os quaqueres ou os batistas! Se eles não me desejam boa sorte no Senhor, eu a desejarei a eles. Podem eles excomungar-se se seus preconceitos os compelem a isso, podem levantar, se quiserem, muros de separação entre mim e eles, mas pelo poder de meu Senhor, cujo amor é tão ilimitado como sua imensidade, saltarei por cima de seus muros.”[9]

 

A morte o surpreendeu no dia 14 de agosto de 1785, apenas quatro anos após seu enlace matrimonial. Sua saída deste mundo foi tão gloriosa e luminosa como sua própria vida. A esposa o acompanhou carinhosamente em seu leito de morte, vigiando-o minuto após minuto e bebendo de seus lábios as últimas palavras, até que já não pôde falar mais. Durante os últimos dias, em meio à dor, ouviam-se, de quando em quando, estas exclamações: “Deus é amor! Proclamai-o, proclamai-o com força! Oh! que uma onda de louvor se estenda até aos confins da terra!” Seu espírito arminiano, segundo o qual o amor de Deus está sempre permanente e ativo, acompanhou-o até aos últimos momentos de vida. No último dia, quando estava agonizando, os pobres que ele havia socorrido vieram de toda parte desejando vê-lo pela última vez, e deixaram que passassem diante da porta do quarto onde jazia para que dessem uma última olhadela em seu rosto. Não podendo falar mais, a esposa se inclinou sobre ele e lhe disse: “Conheço tua alma, mas por amor aos demais, se Jesus está mui perto de ti, levanta tua mão direita.” Imediatamente a levantou. Outra vez ela lhe disse: “Se as perspectivas de glória se abrem amplamente sobre ti, repete o sinal.” Instantaneamente a levantou outra vez e passado meio minuto, uma vez mais. Ato contínuo levantou-a tão alto como se quisesse alcançar a cabeceira da cama. Depois disso as mãos não se moveram mais, e como se estivesse dormindo, morreu. João Wesley deixou este comentário a respeito de sua vida:

 

“Muitos homens exemplares, santos na vida e no coração, tenho conhecido durante oitenta anos de vida, mas igual a ele não conheci nenhum tão consagrado a Deus, tanto interior como exteriormente, caráter tão sem jaça em todo sentido. Não tenho encontrado nem na Europa, nem na América, nem espero encontrar outro igual neste lado da eternidade.”[10]



[1] Citado por Schofield, C.E., “La Iglesia Metodista,” pág. 131.

[2] Stevens, A., Op. Cit., Vol. I, pág. 365.

[3] Stevens, A., Op. Cit., Vol I, pág. 367.

[4] Soutley, R., citado por Stevens, A., Op. Cit. Vol II.

[5] Wesley, C., citado por Stevens, A., Vol II, págs 270-271.

[6] Wesley, citado em “A New History of Methodism”, Vol I, págs 319-320.

[7] Citado por Stevens, A., Op. Cit., Vol II, pág. 37.

[8] Citado por Stevens, A., Op. Cit., Vol I, pág. 425.

[9] Citado por Stevens, A., Op. Cit., Vol II, pág. 272.

[10] Citado por Stevens, A., Vol. II, pág. 274.

 

Fonte: Arminianismo.com


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