Atos 27 E a Possibilidade da Apostasia

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Brian J. Abasciano

 

Um dos mais fortes argumentos que crentes genuínos em Cristo podem abandonar a fé em Cristo e perecer é que a Escritura alerta os crentes contra o abandono de sua fé e a seguinte consequência de perecer. Não tem sentido alertar uma pessoa contra fazer algo que ela sabe que não pode fazer e sofrer as consequências que ela sabe que não pode possivelmente experimentar. Mas alguns calvinistas apelam à história do naufrágio de Atos 27 a fim de apoiar a alegação de que é razoável emitir advertências ou tomá-las seriamente quando Deus já garantiu que uma determinada ação e sua consequência ameaçada não irão acontecer (veja, por ex., Thomas R. Schreiner, “Perseverance and Assurance: A Survey and a Proposal,” Southern Baptist Journal of Theology 2 (1998) 32–62 [55]). O argumento é basicamente que na situação descrita por Atos, Deus tinha prometido que todos que navegavam com Paulo sobreviveriam, e que a posterior advertência de Paulo, que os marinheiros tentando escapar deviam ficar no navio para que seus companheiros sobrevivessem, mostra que Paulo considerou razoável emitir uma advertência quando ele sabia que sua consequência ameaçada não podia acontecer. Mas este argumento não é convincente.

 

Em primeiro lugar, deixe-me enfatizar que a leitura que Schreiner faz da passagem é contrária à noção do senso comum que advertir uma pessoa de consequências que ela sabe serem impossíveis é inútil e desnecessário (ainda mais quando é dito a ela que as consequências não podem acontecer). É claro, Schreiner oferece a passagem para mostrar um exemplo contra esta perspectiva do senso comum. Mas a passagem não precisa ser lida como Schreiner a lê. E, o que é muito importante, para que ele possa ter sucesso em pressioná-la como um contraexemplo a esta perspectiva completamente intuitiva e do senso comum, sua leitura da passagem como Paulo conscientemente emitindo uma advertência de consequências que ele sabia que não poderiam acontecer, e tinha isso em mente enquanto estava emitindo a advertência, precisaria ser relativamente certo. Mas não é isso que acontece. Há simplesmente muito pouca informação no texto para que possamos sequer estar perto de certo disso. E há várias possibilidades alternativas que são completamente razoáveis.

 

Por exemplo, a promessa a Paulo pode muito bem ter sido dependente de todos estarem com ele ou dos marinheiros guiarem o navio. Percebemos em outras passagens das Escrituras que promessas ou advertências podem soar absolutas, mas devem realmente ser entendidas condicionalmente, e são reveladas como tais numa época posterior (por ex., Jn 3; 1Sm 2.30; Jr 18.5-10). Tal cenário se encaixa neste texto muito bem. Paulo tinha dito a todos no navio que um anjo disse a ele que Deus havia lhe concedido “todos quantos navegam” com ele, mas então mais tarde, quando os marinheiros tentam fugir, ele diz aos soldados que, se os que estavam tentando fugir não ficassem no navio, eles [os soldados] não seriam salvos. A posterior declaração de Paulo pode muito bem refletir seu entendimento da promessa que ele recebeu (e poderia ter havido mais informação específica na mensagem angélica) que todos que estivessem com ele (ou talvez pelo menos os marinheiros) precisavam estar presentes para a promessa ser cumprida. Dado o papel profético de Paulo no contexto, eu julgaria que seus companheiros de fato considerariam a advertência de Paulo como tendo a ver com seu discernimento profético da situação. Dessa forma, pode ser que a melhor forma de entender a situação é como segue: Deus prometeu as vidas de todos aqueles com Paulo, o que ele compartilha com o grupo, mas sem mencionar que alguns tentariam fugir da situação. De fato, sua promessa seria uma motivação para ficar. Mas então mais tarde ele revela que esta promessa somente é aplicável se todos ficarem juntos no navio (ou talvez se os marinheiros ficarem no navio). Isto combina com muitas passagens, algumas delas proféticas, que vemos nas Escrituras, nas quais as promessas de Deus são contingentes, frequentemente revelada numa época posterior.

 

É importante notar que a interpretação de Schreiner deve supor que Paulo tinha em mente que as consequências contra as quais ele advertiu não poderiam acontecer. Mas é perfeitamente possível – e isto é outra possibilidade muito plausível que contradiria a interpretação de Schreiner – que na agitação do que estava acontecendo e ficando sabendo da trama dos marinheiros de abandonarem o navio, que Paulo não estava pensando na promessa divina que havia recebido quando ele emitiu a advertência. Se ele estava pensando nela, então ele teria falado presunçosamente na melhor das hipóteses e enganosamente na pior, visto que não há indicação de que ele de alguma forma sabia que Deus ia usar os marinheiros como meio para salvar as vidas dos que estavam com Paulo. Pois tudo que Paulo sabia, talvez, era que Deus ia milagrosamente guiar a embarcação em segurança. Schreiner poderia dizer que Deus podia ter dito a Paulo que ia usar os marinheiros, ou pelo menos não sabemos que Paulo não sabia disso. Mas, então, isso confirmaria o meu ponto. Não necessariamente sabemos tudo que Paulo soube de Deus ou muitas outras coisas sobre o estado mental de Paulo ou da situação. Supondo isso, o princípio que advertências de consequências impossíveis são inúteis realmente conta contra a interpretação de Schreiner e sugere que outra seja mais provável, quer que a promessa inicial era condicional quer que na intensidade da situação Paulo não tinha a promessa divina conscientemente em mente. De fato, o princípio do senso comum que advertências de consequências impossíveis são inúteis é muito mais certo do que os detalhes e suposições questionáveis que Schreiner leva para o texto.

 

À luz de tudo isto, é seguro concluir que Atos 27 não fornece um exemplo de Paulo emitindo uma advertência de consequências que ele sabia que não poderiam acontecer. O argumento que ele fornece tal exemplo carrega o ônus da prova (visto que é afirmado que ele refuta a alegação do senso comum que é inútil alertar contra impossibilidades) e se apoia em levar detalhes incertos ao texto enquanto há maneiras mais plausíveis de entender a passagem. Paulo poderia ter emitido a advertência porque a promessa era condicional a todos que estavam navegando com ele ficarem juntos ou aos marinheiros conduzirem o navio. Ou Paulo poderia não estar sequer pensando na promessa quando ele emitiu a advertência, mas estava apenas instintivamente reagindo à situação urgente diante dele – aqueles que podiam conduzir o navio naquela situação difícil estavam tentando abandonar o navio e tudo o mais sobre ele. Qualquer uma é mais provável do que a que Schreiner sugere que Paulo tinha a promessa de Deus de que eles ficariam bem e lhes disse sobre isso, e tinha também isto em mente com firme confiança nela, e, todavia alertou que se os marinheiros deixassem, os soldados no barco pereceriam. Alguém poderia acusar que estas leituras também se baseiam em detalhes incertos. Mas isso somente ressaltaria meu ponto maior, que não há informação suficiente no texto para fazer Atos 27 tratar da questão de se é razoável alertar contra impossibilidades. Não parece haver razão para duvidar da alegação que é inútil alertar alguém contra fazer algo que ele sabe que não pode fazer e sofrer as consequências que ele sabe que não pode possivelmente experimentar. Dadas as advertências da Escritura contra a apostasia, isto implica que crentes genuínos em Cristo podem abandonar a fé em Cristo e assim perecer. Como uma observação marginal importante, isto por sua vez desfaz o Calvinismo como um sistema, visto que os outros pontos do Calvinismo tomados juntos exigem logicamente o próprio oposto, que crentes genuínos em Cristo não podem abandonar a fé em Cristo e virem a perecer.

 Fonte:  http://evangelicalarminians.org/?q=Abasciano.Acts-27-and-the-Possibility-of-Apostasy

tradução:  Paulo Cesar Antunes – http://arminianismo.com/

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A Abordagem Clássica-Teológica para a Perseverança e Apostasia: G. C. Berkouwer

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B. J. Oropeza  

 

Durante a segunda metade do século 20, G. C. Berkouwer fez uma contribuição teológica na área da apostasia e perseverança com sua obra intitulada Faith and Perseverance (1958). Berkouwer combina as primeiras  confissões protestantes com a Escritura para chegar à sua percepção da perseverança. Ele sugere que as passagens que parecem contrárias à doutrina da perseverança são meios que Deus usa para levar os santos a confiar em Deus. [1] A obediência é, portanto, um fator importante. Todavia, as passagens que parecem alertar contra o perigo de apostasia não exaurem a realidade da graça de Deus. [2] A perseverança, que é efetuada no crente através da oração, pregação e sacramentos, pode somente ser mantida em fé através da graça de Deus. Dessa forma, a perseverança é um dom que é selado pela fé. Os cristãos perseveram quando deixam de confiar em si mesmos e descansam na graça perseverante de Deus. [3]Berkouwer conclui, “Quando os pais reformados falaram sobre a consolação da perseverança, eles tinham a graça de Deus em mente. Por essa razão, a doutrina da perseverança, na medida em que ela reconhece sua dependência da graça, nunca pode ser uma mera abstração que torna uma continuidade de vida sem resultados”. [4]

 

O argumento de Berkouwer que as admoestações bíblicas são meios pelos quais Deus realiza a perseverança não é nada novo. [5] Este ponto de vista não é livre de fraquezas. Se os eleitos não fossem admoestados, eles então seriam capazes de apostatar-se? Se não, qual é exatamente a distinção ou importância especial que o tema da advertência tem no Novo Testamento? Devemos supor que, juntamente com a graça, as advertências são necessariamente eficazes aos eleitos, mas não aos não eleitos? Mesmo se supormos que isto é concebível, em vista de outras opções, ela é a mais provável? Isto é, se Berkouwer desvencilhar-se de suas pressuposições reformadas, ele teria honestamente chegado às mesmas conclusões? Sua perspectiva carece de evidência dos próprios autores do Novo Testamento. Será que eles acreditavam que ouvir ou ler suas advertências operava ou causava a perseverança eficaz entre os eleitos? Se formos examinar as passagens de advertências à luz de seus respectivos contextos, não consideraríamos uma melhor opção afirmar que pelo menos alguns dos escritores supunham que seus leitores fossem crentes genuínos que estavam em sério perigo de apostasia? Parece que a interpretação de Berkouwer é oferecida mais na tentativa de preservar o sistema reformado do que ser inteiramente fiel ao pleno efeito das passagens de advertências.

 

Berkouwer começa seu estudo citando as confissões reformadas antes de seguir para a Escritura. [6] Não é nenhuma surpresa, então, que ele classifica a perseverança sob a categoria da graça e não examina cuidadosamente as passagens que podem estar associadas à apostasia. Doutrinas centrais às confissões reformadas tornam-se a pressuposição com a qual todas as passagens bíblicas devem conformar-se. Por outro lado, outro método teológico não faz melhor se começar com passagens que podem estar relacionadas à apostasia, mas então insere neste um sistema que interpreta mal as passagens sobre a perseverança, eleição e predestinação. Se teólogos sistemáticos mitigam a doutrina da apostasia por meio da eleição, ou a eleição por meio da apostasia, sua abordagem frequentemente torna-se pouco mais do que uma repetição dos velhos dogmas calvinistas ou arminianos com, talvez, o benefício adicional de adotar e sistematizar passagens bíblicas que foram interpretadas através da exegese tradicional-apostólica. [7]

 

O que falta em Berkouwer e outras obras teológicas é a análise de passagens à luz de seu ambiente socio-histórico, cultural e retórico. Deve-se tentar entender o que um tema bíblico significava aos destinatários originais. Uma base inicial falha inevitavelmente leva a uma trajetória falha. As suposições de Berkouwer convencem apenas aqueles que compartilham de suas opiniões reformadas. Aos de fora, seus argumentos soam como casos de argumentação tendenciosa. Outro problema relacionado é que a sistematização de passagens tem a tendência de fazer Paulo, João, os textos sinóticos e outros escritores ou escritos do Novo Testamento afirmarem essencialmente a mesma coisa, sem apresentar qualquer real diversidade sobre as questões da perseverança e apostasia.

 Fonte: Arminianismo

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] BERKOUWER (1958), 97-121.

[2] Berkouwer escreve, “Se algo é certo é isto, que de acordo com as Escritura, a graça de Deus não cessa diante dos limites da liberdade de escolha humana” (1958:90).

[3] BERKOUWER, 234-36 cf. 106, 213.

[4] BERKOUWER, 238.

[5] Cf. DODDRIDGE (1802-06) antes da época de Berkhouwer e SCHREINER (1998) posteriormente.

[6] BERKOUWER, 19.

[7] A visão de Berkouwer parcialmente motivou a obra de Shank (1961), uma resposta wesleyana-arminiana para a perseverança e apostasia (1961:165-78). A obra de Sellers (1987), que defende a visão calvinista, é, por sua vez, uma resposta a Shank.

As Advertências contra a Apostasia.

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Paulo Cesar Antunes

 

Qual a necessidade das advertências bíblicas constantes contra o perigo de apostasia? É provável que, pelo menos alguma vez em suas vidas, todos os cristãos já tenham feito esta pergunta. Tais advertências provocam inúmeras questões como: “Posso realmente perder minha salvação?”, “A advertência é contra um perigo real ou hipotético?”.

 

As advertências contra a apostasia estão intimamente ligadas à doutrina da Perseverança dos Santos. Uma rápida história da doutrina pode ser útil.

 Se alguém quiser ler algo dos primeiros cristãos a respeito da doutrina da Perseverança dos Santos certamente irá se decepcionar. Há uma lacuna muito grande entre a época de Cristo e Agostinho. Mas isto pode ser explicado pelo fato dos primeiros cristãos terem sofrido forte perseguição ou mesmo achado necessário combater algumas heresias que assolavam a Igreja cristã na época.

 Louis Berkhof nos diz que “Quem primeiro ensinou explicitamente esta doutrina foi Agostinho, embora não fosse coerente neste ponto, como se poderia esperar dele, um rigoroso predestinacionista”. A incoerência de Agostinho seria porque, apesar de sustentar que “os eleitos não podem cair de modo que se percam definitivamente”, também “achava possível que alguns que foram revestidos da nova vida e da fé verdadeira possam cair completamente da graça e, por fim, sofrer a condenação eterna”.[1]

 Justo L. González concorda,

Essa doutrina, que parece haver sido proposta primeiramente por Agostinho (354-430), sustenta que aqueles que têm sido predestinados para a salvação perseverarão até o fim.[2]

 Como podemos ver, embora Agostinho tenha sido o primeiro a sustentar a doutrina, ela é um tanto diferente da forma como é atualmente defendida pelos calvinistas.

 De Agostinho até os reformadores temos novamente um longo silêncio. Lutero defendeu a doutrina, mas não ficou muito distante da concepção de Agostinho.

 Lutero cria que o cristão poderia ter certeza acerca do presente estado de graça mas não acerca da perseverança final. Como a tradição católica romana que o precedeu e a tradição wesleyana que o sucedeu, Lutero não via a regeneração como inextricavelmente ligada à salvação final.[3Uma defesa coerente da doutrina só encontramos em Calvino, sendo a partir de então seguido pelas igrejas reformadas. Mas se é certo que os crentes irão permanecer na fé até o fim, qual a necessidade de advertências contra a apostasia?

 Os arminianos não encontram dificuldade na resposta. Comentando Hb 5.11-10.39, I. Howard Marshall diz:

 Há o perigo de que as pessoas possam voltar suas costas para a salvação e, portanto, para o Salvador, não restando nesse caso esperança para elas. Mas, ainda que o perigo seja real, o autor não acredita que esse seja a situação deles e, ao relembrar os sinais da salvação observados nos membros daquela igreja, ele se sente encorajado a continuar com o ensino. Os crentes, por sua vez, devem permanecer na fé e herdar o que Deus prometeu.[4]

 Aos arminianos, portanto, as advertências contra a apostasia são necessárias porque elas nos alertam contra um perigo real. Há verdadeiramente o risco do crente se apostatar da fé.

 Aos calvinistas, no entanto, a questão não é assim tão simples e ela tem sido respondida de diversas maneiras.

 Alguns sugerem que as advertências são contra a perda de recompensas e não contra a perda de salvação.[5]Outros acreditam que elas se referem aos julgamentos disciplinares pelos quais os crentes passam, podendo ou não incluir a morte física mas nunca a condenação eterna, e apelam à morte de muitos judeus no deserto, alegando que eles perderam a vida mas não a salvação (Hb 3.7-19).

 Todavia, estas duas propostas deixam de levar as Escrituras a sério e são combatidas inclusive por muitos calvinistas. Como acreditar que as advertências se referem a perdas de recompensas ou julgamentos disciplinares diante de passagens como Hb 10.26-29?

 Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários. Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas. De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?

 O autor de Hebreus afirma um castigo muito mais severo àqueles que desprezam a Cristo. Se antes de Cristo alguém era punido com a perda da própria vida, mas não da salvação, que castigo mais severo seria este? Parece claro que o autor tem a condenação final em vista, muito mais severa a quem despreza o Filho de Deus, e, além do mais, é improvável que os judeus no deserto, se salvos, foram punidos apenas com a morte física.

 Outros calvinistas acreditam que uma melhor resposta seria que essas advertências são meios usados por Deus para preservar os seus eleitos:

 O principal propósito dessas passagens, entretanto, é induzir os homens a desejosamente cooperarem com Deus para o cumprimento de seus propósitos.[6]

 Essas advertências consideram a questão toda a partir do lado do homem e seu propósito é sério. Elas incitam os crentes ao exame de si mesmos e servem de instrumentos para mantê-los no caminho da perseverança. Não provam que alguns dos seus destinatários irão se apostatar da fé, mas simplesmente que o uso dos meios é necessário para impedi-los de cometer este pecado.[7]

 Esta tentativa sofre igualmente de algumas dificuldades. Seria legítimo perguntar: se as advertências não fossem dadas, os crentes iriam apostatar-se? Se a resposta for afirmativa, então a doutrina da Perseverança dos Santos é falsa. Se a resposta for negativa, então qual seria mesmo a necessidade de tais advertências, visto que, sendo dadas ou não, os crentes não podem apostatar-se?

 O segundo problema é que, como diz Sproul, “parece frívolo exortar pessoas a evitar o impossível”.[8] Se a apostasia é uma impossibilidade aos crentes, então não há nenhuma necessidade de se alertar contra ela.

 Esta resposta, ainda, vai de encontro à afirmação de que a doutrina da Perseverança dos Santos traz conforto e segurança aos crentes. Boettner diz:

 Quando Deus mantém um alma com medo de cair, de forma alguma isto é prova de que Deus em seu propósito secreto pretende permitir que ela caia. Estes medos podem ser o próprio meio que Deus planejou para impedi-la de cair.[9]

 Boettner parece não enxergar que está diante de uma contradição. Ele acredita que Deus transmite segurançaaos crentes com a ideia de que os crentes não podem apostatar-se ao mesmo tempo em que lhes infunde medo a fim de que não caiam em apostasia.

 Também precisamos considerar a sugestão de que “essas advertências consideram a questão toda a partir do lado do homem”, como diz Berkhof. Boettner concorda,

 Há, obviamente, um sentido no qual é possível a apostasia dos crentes, – quando vistos simplesmente em si mesmos, com referência a seus próprios poderes e capacidades, e à parte do propósito ou desígnio de Deus a seu respeito.[10]

 Sobre esta sugestão, cabe a estes teólogos provarem que os autores bíblicos, quando proferiram estas advertências, consideraram “a questão toda a partir do lado do homem”, “com referência a seus próprios poderes e capacidades, e à parte do propósito ou desígnio de Deus a seu respeito”. Não parece ser o caso de nenhuma das advertências contra a apostasia. Nenhuma delas considera o crente entregue a si mesmo, e conclui que, dependendo somente de suas próprias forças, a apostasia é possível. Esta ideia não está nem mesmo implícita em Hb 6.4.6:

 Ora para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, e [considerando a questão toda a partir do lado do homem… com referência a seus próprios poderes e capacidades, e à parte do propósito ou desígnio de Deus a seu respeito] caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública.

 O último problema com esta resposta é que Deus estaria utilizando uma mentira para manter os crentes na fé. Se é verdadeiro que os crentes não podem cair da graça, dizer que eles podem cair para impedi-los de cair não seria um meio honesto de preservá-los na fé.

 Mas uma analogia é oferecida em favor desta hipótese. Boettner diz que “um pai, a fim de obter a cooperação voluntária de uma criança, pode dizer a ela para ficar fora do caminho de um carro que se aproxima, quando o tempo todo o pai não tem a intenção de deixar a criança chegar numa posição onde ela seria ferida”.[11] Esta é uma grande verdade, mas o que Boettner deixa de perceber é que sua analogia leva em consideração um perigo real. Crianças que se desgarram de seus pais podem realmente ser atropeladas. Isto não é uma impossibilidade e casos desse tipo acontecem a todo instante. Já para as advertências contra a apostasia, dizem, são advertências contra um perigo hipotético e não real. Não há a menor possibilidade de um crente se apostatar, ensinam.

 Mas pode ser que Boettner está querendo dizer que, se a criança se desgarrar de seu pai, e depender somente de si mesma, ela pode ser atropelada, e isso confirmaria que os crentes, se entregues a si mesmos, podem apostatar-se. Mas o problema ainda permanece que, dada a doutrina da Perseverança dos Santos, os crentes nunca são entregues a si mesmos, permanecendo sem sentido as advertências contra a apostasia. Quem levaria as advertências a sério sabendo que, dependendo de si mesmos eles podem apostatar-se, mas que nunca são deixados numa situação em que dependem somente de si mesmos?

 Diante de todos esses problemas, as hipóteses de que as advertências contra a apostasia se referem a perdas de recompensas, punições disciplinares ou são meios que Deus se utiliza para manter os crentes em estado de graça deveriam certamente ser abandonadas. Elas não conseguem fazer sentido com as advertências contra a apostasia.


[1] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, (Campinas-SP: Luz para o Caminho Publicações, 1990), p. 549.

[2] Justo L. González, Breve Dicionário de Teologia (São Paulo: Hagnos, 2009), p. 252.

[3] John Jefferson Davis, “The Perseverance of the Saints: A History of the Doctrine”, em Journal of the Evangelical Theological Society [JETS] 34/2 (junho de 1991) p. 213-228.

[4] I. Howard Marshall, Teologia do Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2007), p. 523, 524.

[5] Charles C. Ryrie, Teologia Básica (São Paulo: Mundo Cristão, 2004), p. 386; Norman Geisler, Eleitos Mas Livres(São Paulo: Editora Vida, 2001), p. 141.

[6] Loraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination.

[7] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, (Campinas-SP: Luz para o Caminho Publicações, 1990), p. 552.

[8] R. C. Sproul, Eleitos de Deus (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002), p. 138.

[9] Loraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination.

[10] Idem.

[11] Idem.