Uma Breve Visão da Teologia Arminiana

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Roger E. Olson 

 

Um dos mais prevalecentes mitos difundidos por alguns calvinistas sobre o Arminianismo é que ele é o tipo de teologia mais popular nos púlpitos e bancos evangélicos. Minha experiência contradiz essa crença. Depende muito de como consideramos a teologia arminiana. Os críticos calvinistas estariam corretos se o Arminianismo fosse o Semipelagianismo. Mas ele não é como espero mostrar. O evangelho pregado e a doutrina da salvação ensinada na maioria dos púlpitos e tribunas evangélicos, e crido na maioria dos assentos de igrejas evangélicas, não é o Arminianismo clássico, mas o Semipelagianismo, se não um completo Pelagianismo. Qual é a diferença? O teólogo H. Orton Wiley, da Igreja do Nazareno, corretamente define o Semipelagianismo dizendo, “Ele sustentava que restou poder suficiente na vontade depravada para dar o primeiro passo em direção à salvação, mas não o suficiente para completá-la. Isso deve ser feito pela graça divina.”[1] Esta antiga heresia tem origem nos ensinos dos assim chamados massilianos, liderados principalmente por João Cassiano (m. 433 d.C.), que tentou construir uma ponte entre o Pelagianismo, que negava o pecado original, e Agostinho, que defendia a eleição incondicional sobre o fundamento de que todos os descendentes de Adão nascem espiritualmente mortos e culpados do pecado de Adão. Cassiano acreditava que as pessoas são capazes de se voltarem para Deus mesmo à parte de qualquer infusão da graça sobrenatural. Isto foi condenado pelo Segundo Concílio de Orange em 529 (sem endossar a extrema doutrina agostiniana da predestinação).

 

O Semipelagianismo tornou-se a teologia popular da Igreja Católica Romana nos séculos que antecederam a Reforma Protestante. Ele foi completamente rejeitado por todos os reformadores, exceto os assim chamados racionalistas ou antitrinitarianos, tais como Fausto Socinus. Alguns calvinistas adotaram a prática de se referir a toda teologia que ficou aquém do Calvinismo rígido (TULIP) como semipelagiana. Isto, no entanto, está incorreto. Hoje em dia, o Semipelagianismo é a teologia padrão da maioria dos cristãos evangélicos americanos. [2] Podemos comprovar isto na popularidade de clichês como “Se você der um passo em direção a Deus, ele fará o resto do caminho em direção a você,” e “Deus vota em você,  Satanás vota contra você, e você tem o voto decisivo,” juntamente com a negligência quase total da depravação humana e da incapacidade nas questões espirituais.

 

O Arminianismo é quase totalmente desconhecido, e menos ainda crido, no cristianismo evangélico popular. Um dos propósitos deste livro é superar este déficit. Um mito predominante sobre o Arminianismo é que a teologia arminiana é equivalente ao Semipelagianismo. Isto será contestado no processo de refutação de vários outros mitos que tratam da condição humana e da salvação. Isto é apenas uma antecipação do ponto de vista arminiano que será mais para frente exposto.

 

Em primeiro lugar, é importante compreender que o Arminianismo não tem uma doutrina ou ponto de vista específico sobre tudo no Cristianismo. Não há nenhuma doutrina arminiana especial das Escrituras. Os arminianos do coração – os arminianos evangélicos – acreditam nas Escrituras e têm a mesma gama de opiniões sobre os seus detalhes como os calvinistas. Alguns arminianos acreditam na inerrância bíblica e outros não. Todos os arminianos  evangélicos estão comprometidos com a inspiração sobrenatural da Bíblia e sua autoridade sobre todos os assuntos de fé e prática. Da mesma forma, não há uma eclesiologia ou escatologia arminiana distintiva; os arminianos refletem o mesmo espectro de interpretações que os outros cristãos. Um mito popular promovido por alguns calvinistas é que todos os teólogos arminianos aceitam a teoria governamental da expiação e rejeitam a teoria da substituição penal. Isso é simplesmente falso. Os arminianos acreditam na Trindade, na divindade e humanidade de Jesus Cristo, na depravação da humanidade devido à Queda primitiva, na salvação pela graça somente através da fé somente, e em todas as outras crenças protestantes essenciais. A justificação como justiça imputada é afirmada pelos arminianos clássicos seguindo o próprio Arminius. As doutrinas distintivas do Arminianismo têm a ver com a soberania de Deus sobre a história e a salvação; a providência e a predestinação são as duas doutrinas chave onde os arminianos se separam dos calvinistas clássicos.

 

Não há melhor ponto de partida para examinar as questões da providência e predestinação que a própria Remonstrância. Ela é o documento fundamental do Arminianismo clássico (além dos escritos de Arminius). A Remonstrância foi preparada por mais ou menos 43 (o número exato é debatido) pastores e teólogos reformados holandeses após a morte de Arminius em 1609. O documento foi apresentado em 1610 para uma conferência de líderes da igreja e do estado em Gouda, Holanda, para explicar a doutrina arminiana. Ele foca principalmente nas questões da salvação e especialmente a predestinação. Várias versões da Remonstrância (da qual os remonstrantes receberam o seu nome) existem. Iremos usar uma tradução para o inglês do original em latim apresentada de forma um tanto condensada pelo estudioso inglês do Arminianismo A. W. Harrison:

 

1. Que Deus, por um decreto eterno e imutável em Cristo antes da fundação do mundo, determinou eleger, da raça caída e pecadora, para a vida eterna, aqueles que, através de Sua graça, creem em Jesus Cristo e perseveram na fé e obediência; e, ao contrário, resolveu rejeitar os não convertidos e os descrentes para a condenação eterna (Jo 3.36).

 

2. Que, em consequência disto, Cristo, o Salvador do mundo, morreu por todo e cada homem, de modo que Ele obteve, pela morte na cruz, reconciliação e perdão pelo pecado por todos os homens; de tal maneira, porém, que ninguém senão os fiéis verdadeiramente desfrutam dos mesmos (Jo 3.16; 1Jo 2.2).

 

3. Que o homem não podia obter a fé salvadora de si mesmo ou pela força de seu próprio livre-arbítrio, mas se encontrava carente da graça de Deus, através de Cristo, para ser renovado no pensamento e na vontade (Jo 15.5).

 

4. Que esta graça foi a causa do início, desenvolvimento e conclusão da salvação do homem; de forma que ninguém poderia crer nem perseverar na fé sem esta graça cooperante, e consequentemente que todas as boas obras devem ser atribuídas à graça de Deus em Cristo. Quanto ao modo de operação desta graça, no entanto, não é irresistível (At 7.51).

 

5. Que os verdadeiros crentes tinham força suficiente através da graça divina para lutar contra Satanás, o pecado, o mundo, sua própria carne, e obter vitória sobre eles; mas se por negligência eles não poderiam apostatar da verdadeira fé, perder a alegria de uma boa consciência e ser privado da graça necessária, deve ser mais plenamente investigado de acordo com a Sagrada Escritura.[3]

 

Observe que os remonstrantes, como Arminius anteriormente, não tomaram qualquer posição sobre a questão da segurança eterna dos crentes. Ou seja, eles deixaram em aberto à questão se uma pessoa verdadeiramente salva poderia cair da graça ou não. Eles também não seguiram o padrão da TULIP. Embora o modelo de cinco pontos que descreve a crença calvinista fora desenvolvido mais tarde, a negação dos três pontos centrais é bastante clara na Remonstrância. No entanto, ao contrário da ideia popular sobre o Arminianismo (especialmente entre os calvinistas), nem Armínio nem os remonstrantes negaram a depravação total; eles a afirmaram. É claro que a Remonstrância não é uma declaração completa da doutrina arminiana, mas ela aborda bem a sua essência. Além do que ela diz, há um campo de interpretação onde os arminianos às vezes discordam entre si. Todavia, existe um consenso arminiano geral, e é isso o que este breve resumo irá explicar, recorrendo amplamente ao teólogo nazareno Wiley, que recorreu amplamente a Armínio, Wesley e os principais teólogos metodistas do século XIX mencionados anteriormente.

 

O Arminianismo ensina que todos os seres humanos nascem moralmente e espiritualmente depravados e impotentes para fazerem qualquer coisa boa ou digna aos olhos de Deus sem que haja uma infusão especial da graça de Deus para superar os efeitos do pecado original. “Os homens não apenas nascem debaixo da penalidade da morte como consequência do pecado, mas eles também nascem com uma natureza depravada, que em contraste com o aspecto legal da pena, é geralmente chamada de pecado inato ou depravação herdada.”[4] O Arminianismo clássico em geral concorda com a ortodoxia protestante que a unidade da raça humana no pecado resulta em que todos nascem “filhos de ira”. No entanto, os arminianos acreditam que a morte de Cristo na cruz fornece um remédio universal para a culpa do pecado herdado, de modo que ele não é imputado às crianças por causa de Cristo. É assim que os arminianos, de acordo com os anabatistas, tais como os menonitas, interpretam as passagens universais do Novo Testamento como Romanos 5, onde tudo é declarado estar incluído debaixo do pecado assim como tudo é incluído na redenção através de Cristo. Esta é também a interpretação arminiana de 1Tm 4.10, que indica duas salvações através de Cristo: uma universal para todas as pessoas e uma especialmente para todos os que creem. A crença arminiana na redenção geral não é a salvação universal; é a redenção universal do pecado de Adão. Assim, na teologia arminiana todas as crianças que morrem antes de atingirem a idade do despertar da consciência e cometerem pecados atuais (em oposição ao pecado inato) são consideradas inocentes por Deus e levadas ao paraíso. Entre aquelas que cometem pecados atuais, apenas aquelas que se arrependem e creem têm Cristo como Salvador.

 

O Arminianismo considera o pecado original primariamente como uma depravação moral que é resultado da privação da imagem de Deus; esta é a perda do poder de evitar o pecado atual. “A depravação é total, visto que ela afeta todo o ser do homem.”[5] Isso significa que todas as pessoas nascem com inclinações alienadas, intelecto obscurecido e vontade corrompida. [6] Há tanto uma cura universal quanto um remédio mais específico para essa condição; a morte expiatória de Cristo na cruz removeu a penalidade do pecado original e liberou para a humanidade um novo impulso que começa a reverter à depravação com que todos vêm ao mundo. Cristo é o novo Adão (Romanos 5) que é o novo cabeça da raça; ele não veio apenas para salvar alguns, mas para fornecer um novo começo para todos. Uma medida da graça preveniente se estende através de Cristo a toda pessoa que nasce (João 1).

 

Dessa forma, a verdadeira posição arminiana admite a completa penalidade do pecado, e consequentemente não diminui a extrema pecaminosidade do pecado, nem deprecia a obra expiatória de nosso Senhor Jesus Cristo. Faz assim, no entanto, não negando toda a força da penalidade, como fazem os semipelagianos, mas magnificando a suficiência da expiação, e a consequente transmissão da graça preveniente a todos os homens através da autoridade do último Adão. [7]

 

A autoridade de Cristo é coextensiva com a de Adão, mas as pessoas devem aceitar (através da não resistência) esta graça de Cristo a fim de se beneficiar plenamente dela.

 

O homem é condenado unicamente por suas próprias transgressões. A oferta gratuita removeu a condenação original e é abundante para muitas ofensas. O homem torna-se responsável pela depravação de seu próprio coração somente quando rejeita o remédio para ela, e conscientemente ratifica-a como sua própria, com todas as suas consequências penais. [8]

 

A depravação herdada inclui o cativeiro da vontade ao pecado, que só é superado pela graça sobrenatural, preveniente. Esta graça começa a operar em todos mediante o sacrifício de Cristo (e o Espírito Santo enviado ao mundo por Cristo), mas surge com poder especial mediante a proclamação do evangelho. Wiley, seguindo Pope e outros teólogos arminianos, chama a condição humana – por causa do pecado herdado – de “impotência para o bem”, e rejeita qualquer possibilidade de bondade espiritual à parte da graça especial de Cristo tendo a precedência.

 

Porque Deus é amor (Jo 3.16; 1Jo 4.8), e não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento (1Tm 2.4; 2Pe 3.9), a morte expiatória de Cristo é universal; alguns de seus benefícios são automaticamente estendidos a todos (por exemplo, a libertação da condenação do pecado de Adão) e todos os seus benefícios são para todos que os aceitarem (por exemplo, o perdão dos pecados atuais e a imputação da justiça).

 

A expiação é universal. Isto não quer dizer que toda a humanidade se salvará incondicionalmente, mas apenas que a oferta sacrificial de Cristo satisfez as pretensões da lei divina, de maneira que tornou a salvação possível para todos. A redenção, portanto, é universal ou geral no sentido de provisão, mas especial ou condicional na sua aplicação ao indivíduo. [9]

 

No entanto, somente serão salvos aqueles que são predestinados por Deus para a salvação eterna. Eles são os eleitos. Quem está incluído nos eleitos? Todos aqueles que Deus anteviu que aceitarão sua oferta de salvação através de Cristo pela não resistência à graça que se estende a eles por meio da cruz e do evangelho. Assim, a predestinação é condicional ao invés de incondicional; a presciência eletiva de Deus é causada pela fé dos eleitos.

 

Em contraste com o Calvinismo acima estudado, o Arminianismo sustenta que a predestinação é o propósito gracioso de Deus de salvar da ruína completa toda a humanidade. Não é um ato arbitrário e indiscriminado de Deus para garantir a salvação a um número especial de pessoas e a ninguém mais. Inclui provisionalmente todos os homens e está condicionada somente pela fé em Cristo. [10]

 

O Espírito Santo opera nos corações e mentes de todas as pessoas até certo ponto, dá-lhes alguma consciência das expectativas e provisão de Deus, e as chama ao arrependimento e à fé. Assim, “a Palavra de Deus é, em certo sentido, universalmente pronunciada, mesmo quando não registrada em uma linguagem escrita.” “Aqueles que ouvem a proclamação e aceitam o chamado são conhecidos nas Escrituras como os eleitos.”[11] Os reprovados são aqueles que resistem ao chamado de Deus.

 

Uma doutrina arminiana crucial é a graça preveniente, na qual os calvinistas também acreditam, mas os arminianos a interpretam diferentemente. A graça preveniente é simplesmente aquela graça de Deus que convence, chama, ilumina e capacita, e que precede a conversão e torna o arrependimento e a fé possíveis. Os calvinistas a interpretam como irresistível e eficaz; a pessoa em quem ela opera irá crer e arrepender-se para salvação. Os arminianos a interpretam como resistível; as pessoas são sempre capazes de resistir à graça de Deus, como a Escritura chama a atenção (At 7.51). Mas sem a graça preveniente, elas inevitavelmente e inexoravelmente resistirão à vontade de Deus por causa de sua escravidão ao pecado.

 

Quando falamos de “graça preveniente” estamos pensando na que “precede”, que prepara a alma para a sua entrada no estado inicial da salvação. É a graça preparatória do Espírito Santo exercida para o homem enfraquecido pelo pecado. Pelo que se refere aos impotentes, é tida como força capacitadora. É aquela manifestação da influência divina que precede a vida de regeneração completa. [12]

 

Em um sentido, então, os arminianos, como os calvinistas, creem que a regeneração precede a conversão; o arrependimento e a fé são somente possíveis porque a velha natureza está sendo dominada pelo Espírito de Deus. A pessoa que recebe a total intensidade da graça preveniente (isto é, através da proclamação da Palavra e a chamada interna correspondente de Deus) não mais está morta em delitos e pecados. Entretanto, tal pessoa não está ainda completamente regenerada. A ponte entre a regeneração parcial pela graça preveniente e a completa regeneração pelo Espírito Santo é a conversão, que inclui arrependimento e fé. Estes se tornam possíveis por dádiva de Deus, mas são livres respostas da parte do indivíduo. “O Espírito opera com o concurso humano e por meio dele. Nesta cooperação, contudo, dá-se sempre à graça divina preeminência especial.”[13]

 

A ênfase sobre a antecedência e preeminência da graça forma o denominador comum entre o Arminianismo e o Calvinismo. É o que torna o sinergismo arminiano “evangélico.” Os arminianos levam extremamente a sério a ênfase neotestamentária na salvação como um dom da graça que não pode ser merecido (Ef 2.8). Entretanto, as teologias arminianas e calvinistas – como todos os sinergismos e monergismos – divergem sobre o papel que os humanos desempenham na salvação. Como Wiley observa, a graça preveniente não interfere na liberdade da vontade. Ela não dobra a vontade ou torna certa a resposta da vontade. Ela somente capacita a vontade a fazer a escolha livre para cooperar ou resistir à graça. Essa cooperação não contribui para a salvação, como se Deus fizesse uma parte e os humanos fizessem outra parte. Antes, a cooperação com a graça na teologia arminiana é simplesmente não resistência à graça. É meramente decidir permitir a graça fazer sua obra renunciando a todas as tentativas de auto justificação e autopurificação e admitindo que somente Cristo pode salvar. Todavia, Deus não toma esta decisão pelo indivíduo; é uma decisão que os indivíduos, sob a pressão da graça preveniente, devem tomar por si mesmos.

 

O Arminianismo sustenta que a salvação é toda pela graça – todo movimento da alma em direção a Deus é iniciado pela graça divina – mas os arminianos reconhecem também que a cooperação da vontade humana é necessária, porque, em última análise, o agente livre decide se a graça oferecida é aceita ou rejeitada. [14]

 

O Arminianismo clássico ensina que a predestinação é simplesmente a determinação (decreto) de Deus para salvar através de Cristo aqueles que livremente respondem à oferta de Deus da graça livre pelo arrependimento do pecado e fé (confiança) em Cristo. Ela inclui a presciência de Deus de quem responderá. Não inclui uma seleção de certas pessoas para a salvação, muito menos para a condenação. Muitos arminianos fazem uma distinção entre a eleição e a predestinação. A eleição é corporativa, Deus determinou Cristo para ser o Salvador daquele grupo de pessoas que se arrependem e creem (Ef 1); a predestinação é individual – a presciência de Deus daqueles que se arrependerão e crerão (Rm 8.29). O Arminianismo clássico também ensina que essas pessoas que respondem positivamente à graça de Deus pela não resistência a ela (que envolve arrependimento e confiança em Cristo) são nascidas de novo pelo Espírito de Deus (que é a regeneração completa), perdoadas de todos os seus pecados e consideradas por Deus como justas por causa da morte expiatória de Cristo por elas. Nada disto é baseado em qualquer mérito humano; é um dom gratuito, não imposto, mas livremente recebido. “A única base da justificação… é a obra propiciatória de Cristo recebida pela fé,” e “o único ato de justificação, quando visto negativamente, é o perdão dos pecados; quando visto positivamente, é a aceitação do crente como justo [por Deus].”[15] A única diferença significativa entre o Arminianismo clássico e o Calvinismo nesta doutrina, então, é o papel do indivíduo em receber a graça da regeneração e justificação. Como Wiley coloca, a salvação “é um trabalho feito nas almas dos homens pela operação eficaz do Espírito Santo. O Espírito Santo exerce seu poder regenerador apenas em certas condições, isto é, nas condições de arrependimento e fé.”[16] Assim, a salvação é condicional, não incondicional; os humanos exercem um papel e não são passivos ou controlados por alguma força, interna ou externa.

 

É aqui onde muitos críticos monergistas do Arminianismo apontam o dedo e declaram que a teologia arminiana é um sistema de salvação pelas obras, ou pelo menos algo inferior à vigorosa doutrina de Paulo da salvação como um dom gratuito. Se ele deve ser livremente aceito, eles afirmam, é merecido. Pelo fato do ato de aceitação ser crucial, o que é recebido não é um dom gratuito. Os arminianos simplesmente não conseguem entender essa afirmação e sua acusação implícita. Como veremos em vários pontos ao longo deste livro, os arminianos sempre têm afirmado enfaticamente que a salvação é um dom gratuito; até mesmo o arrependimento e a fé são apenas causas instrumentais da salvação e impossíveis à parte de uma operação interna da graça! A única causa eficiente da salvação é a graça de Deus através de Jesus Cristo e do Espírito Santo. A lógica do argumento de que um dom livremente recebido (no sentido de que poderia ser rejeitado) não é um dom gratuito surpreende a mente arminiana. Mas a principal razão para os arminianos rejeitarem a noção calvinista da salvação monergística, em que Deus incondicionalmente elege alguns para salvação e inclina suas vontades irresistivelmente, é que ela ofende o caráter de Deus e a natureza de um relacionamento pessoal. Se Deus salva incondicionalmente e irresistivelmente, por que ele não salva a todos? Apelar para mistério neste ponto não satisfaz a mente arminiana porque o caráter de Deus como amor se mostrando em misericórdia está em jogo. Se os homens escolhidos por Deus não podem resistir a ter um relacionamento correto com Deus, que tipo de relacionamento é esse? Pode uma relação pessoal ser irresistível? Tais predestinados são realmente pessoas em um relacionamento assim? Estas são questões fundamentais que motivam os arminianos – como outros sinergistas – a questionarem toda forma de monergismo, incluindo o Calvinismo rígido. A questão não é, mais enfaticamente, uma visão humanista do livre-arbítrio autônomo, como se os arminianos fossem apaixonados pelo livre arbítrio pela sua própria causa. Qualquer leitura imparcial de Arminius, Wesley, ou qualquer outro arminiano clássico, irá revelar que este não é o caso. Pelo contrário, a questão é o caráter de Deus e a natureza do relacionamento pessoal.

 

Anteriormente eu observei que não apenas a predestinação, mas também a providência fornece um ponto de diferença entre o Arminianismo e o Calvinismo. Em resumo, os arminianos creem na soberania divina e na providência, mas as interpretam diferentemente dos calvinistas rígidos. Os arminianos consideram que Deus se autolimita em relação à história humana. Portanto, muito do que acontece na história é contrário à perfeita vontade antecedente de Deus. Os arminianos afirmam que Deus está no comando da natureza e da história, mas negam que Deus controla todo evento. Os arminianos negam que Deus “esconde um rosto alegre” por trás dos horrores da história. O diabo não é o “diabo de Deus”, ou mesmo um instrumento da autoglorificação providencial de Deus. A Queda não foi preordenada por Deus para algum propósito secreto. Os arminianos clássicos acreditam que Deus pré-conhece todas as coisas, incluindo todo evento mal, mas rejeitam qualquer noção de que Deus provê “impulsos secretos” que controlam até as ações de criaturas malignas (angélicas ou humanas). [17] O governo de Deus é abrangente, mas porque Deus se limita para permitir a livre agência humana (por uma questão de relacionamentos genuínos que não são manipulados ou controlados), esse governo é exercido de modos diferentes. Tudo o que acontece é, pelo menos, permitido por Deus, mas nem tudo que acontece é positivamente desejado ou mesmo tornado certo por Deus. Assim, o sinergismo entra na doutrina arminiana da providência bem como da predestinação. Deus pré-conhece, mas não age sozinho na história. A história é o produto de ambas as agências divina e humana. (Não devemos esquecer as agências angélicas e demoníacas também!) O pecado especialmente não é nem desejado nem governado por Deus, exceto no sentido que Deus o permite e o limita. Mais importante, Deus não o predestina ou o torna certo. Não é possível uma expressão breve melhor do entendimento arminiano da providência do que a fornecida pelo teólogo reformado revisionista Adrio König:

 

Há lamentavelmente muitas coisas que acontecem sobre a Terra que não são a vontade de Deus (Lc 7.30 e todo outro pecado mencionado na Bíblia), que são contra a sua vontade, e que derivam do incompreensível e sem sentido pecado no qual nascemos, no qual a maior parte dos homens vive, e no qual Israel persistiu, e contra o qual até os “mais santos homens” (Heid. Cat. p. 114) lutavam todos os seus dias (Davi, Pedro). Deus tem apenas um curso de ação para o pecado, e que é prover sua expiação, por tê-lo totalmente crucificado e sepultado com Cristo. Tentar interpretar todas estas coisas através do conceito de um plano de Deus cria dificuldades intoleráveis e dá origem a mais exceções do que regularidades. Mas a mais importante objeção é que a ideia de um plano é contra a mensagem da Bíblia, visto que Deus mesmo se torna inacreditável se aquilo contra o qual ele lutou com poder, e pelo qual ele sacrificou seu único Filho, foi, todavia, de alguma forma parte integrante do seu conselho eterno. Então, é melhor partir da ideia que Deus tinha certo objetivo em mente (a aliança, ou o reino de Deus, ou a nova Terra – que são a mesma coisa vista de diferentes ângulos) que ele irá alcançar conosco, sem nós, ou mesmo contra nós. [18]

 

Fonte: Arminian Theology: Myths and Realities, pp. 30-39.

 

Tradução: Samuel Paulo Coutinho

Revisão: Magno Aquino

Fonte: Arminianismo.com

 


[1] H. Orton Wiley, Christian Theology (Kansas City, Mo.: Beacon Hill, 1941), 2:103.

[2] Não posso afirmar o mesmo de cristãos evangélicos em outros países, porque eu não sei o suficiente sobre eles para fazer tal declaração.

[3] A Remonstrância, em Harrison, Beginnings of Arminianism, pp.150–51.

[4] Wiley, Christian Theology, 2:98.

[5] Ibid., p. 128.

[6] Ibid., p. 129. Nesta crença, Wiley seguiu John Fletcher.

[7] Ibid., pp. 132–33.

[8] Ibid., p. 135.

[9] H. Orton Wiley, Introdução à Teologia Cristã (São Paulo, SP: Casa Nazarena de Publicações, 1990), p. 270.

[10] Ibid., p. 294.

[11]H. Orton Wiley, Christian Theology (Kansas City, Mo.: Beacon Hill, 1941), 2:341, 343.

[12]H. Orton Wiley, Introdução à Teologia Cristã (São Paulo, SP: Casa Nazarena de Publicações, 1990), p. 298.

[13] Ibid., p. 300.

[14] Ibid.

[15] H. Orton Wiley, Christian Theology (Kansas City, Mo.: Beacon Hill, 1941), 2: 395, 393.

[16] Ibid., p. 419.

[17] Calvino conhecidamente atribuiu até os atos pecaminosos e maus dos ímpios aos impulsos secretos de Deus. Uma cuidadosa leitura do livro 1, cap. 18 – “Deus utiliza-se das obras dos ímpios, e inclina suas mentes para cumprir Seus juízos, de forma que Ele se mantém puro de toda mancha.” – das Institutas da Religião Cristã revela isso. Lá, entre outras coisas, Calvino diz que “visto que a vontade de Deus é declarada ser a causa de todas as coisas, fiz da sua providência o princípio determinante para todos os planos humanos e obras, não só para exibir sua força nos eleitos, que são guiados pelo Espírito Santo, mas também para obrigar o réprobo à obediência” (Institutes of the Christian Religion1. 18.2, ed. John T. McNeill, trad. Ford Lewis Battles [Philadelphia: Westminster Press, 1960], p. 232). Os arminianos acreditam que o calvinismo rígido não pode escapar de fazer de Deus o autor do pecado e do mal, e assim contrariando o seu caráter.

[18] Adrio König, Here Am I! A Believer’s Reflection on God (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), pp. 198–99.

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Atos 2:23 – PC Antunes

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A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos.

 Este poderia ser um verso totalmente irrelevante para as controvérsias entre calvinistas e arminianos, pois ele não resolve a problemática da soberania divina e responsabilidade humana; ele apenas expõe os dois lados dessa grande verdade, de que a soberania divina é compatível com a responsabilidade humana, sem preocupação alguma de harmonizá-los. Mas como os calvinistas têm extraído algumas conclusões deste verso a fim de fundamentar melhor sua posição, é imperativo que os arminianos avaliem, não apenas o verso, como também as premissas nas quais os calvinistas se apóiam para concluir que o verso se ajusta apenas com o seu sistema, e dêem uma resposta clara e consistente.

 A primeira conclusão é que eventos contingentes não podem ser pré-conhecidos por Deus. A razão apresentada é unicamente que, por não podermos prever eventos contingentes, Deus também não deve poder. Mas Deus tem infinitamente mais recursos que os humanos para antecipar eventos contingentes, e essa conclusão leva em consideração apenas o nosso lado (nosso raciocínio lógico e experiência pessoal), e não o de Deus. O verso em questão, então, não serve para estabelecer a idéia de que Deus primeiro precisa decretar algo antes que possa “pré conhecê-lo”. Os arminianos entendem que um evento contingente (que pode ou não acontecer) pode ser pré-conhecido por Deus, e é certo que acontecerá, se os meios necessários para a sua realização forem satisfeitos.

 Alguém pode sugerir que nem todos os calvinistas tiram esta conclusão, o que eu devo admitir. Berkhof, por exemplo, reconhece que “é perfeitamente evidente que a Escritura ensina a presciência divina de eventos contingentes,” e que “é-nos levantado um problema aqui, que não podemos resolver plenamente.” [1] Portanto, o problema não é exclusivo dos arminianos, mas dos cristãos em geral, que acreditam na presciência divina de todos os eventos e na liberdade humana. Logicamente, Berkhof não tem o mesmo entendimento dos arminianos e descarta a possibilidade de que algo possa ser pré-conhecido por Deus sem que primeiro seja determinado por Ele. Ele diz:

 Ações que de maneira nenhuma são determinadas por Deus, direta ou indiretamente, mas que são totalmente dependentes da vontade arbitrária do homem, dificilmente podem ser objeto do pré-conhecimento divino. [2]

                    Berkhof foi cauteloso: ele não diz que tais ações não podem ser objeto do pré conhecimento divino, mas que dificilmente podem. Mas o que ele quer dizer por ‘vontade arbitrária do homem’? Em outro lugar, ele esclarece:

 Ao que parece, é impossível conhecer antecipadamente eventos que dependem por completo da decisão causal de uma vontade alheia a princípios que podem em qualquer ocasião, independentemente do estado de espírito, das condições existentes, e dos motivos que se apresentam à mente, seguir diferentes direções. Eventos dessa natureza só podem ser conhecidos previamente como puras possibilidades. [3]

     Essa é uma caracterização um tanto distorcida da posição arminiana. É óbvio que as nossas decisões dependem de nosso estado de espírito, das condições existentes, e dos motivos que se apresentam à mente, enfim, as condições causais devem existir e elas são necessárias para que tomemos qualquer decisão. O arminiano não acredita que a nossa vontade se move independentemente de condições causais; ele apenas nega que essas condições causais são suficientes para determinar nossas decisões.

               A segunda conclusão extraída pelos calvinistas de At 2.23 é que o decreto de Deus vem antes de Sua presciência, em razão do verso apresentar, primeiro, o ‘conselho, ’ e só então a ‘presciência de Deus. ’ Pink nos diz:

 A presciência divina alicerça-se nos próprios decretos de Deus, conforme se vê claramente em Atos 2.23: “Sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos.” Notem a ordem de apresentação: primeiramente, o “determinado desígnio” de Deus (o seu decreto); em segundo lugar, a sua “presciência.”[4]

                 O raciocínio de Pink é que, pela razão de que o autor bíblico escreveu a palavra ‘conselho’ antes da palavra ‘presciência, ’ segue-se que o decreto de Deus antecede sua presciência. Que nessa ordem foi escrito é evidente. O que não é tão evidente é a validade dessa argumentação.

 Supondo ser válida, esta linha de raciocínio poderia nos levar a concluir absurdamente que:

 1 – O nosso chamado é anterior à nossa eleição.

 Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis (2Pe 1.10).

 2 – A nossa salvação é anterior ao nosso chamado.

 Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos (2Tm 1.9).

 3 – Que recebemos o convite geral do Evangelho antes de sermos escolhidos.

 Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos (Mt 22.14).

              Há certamente versos onde a ordem em que as palavras foram escritas servem para estabelecermos certos entendimentos. Tomemos como exemplo Rm 8.30 (E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou). Há razões suficientes para concluir, por exemplo, que a predestinação precede a justificação, não porque uma palavra foi escrita antes da outra, mas porque o autor inspirado fixou uma relação de dependência entre elas, na qual cada etapa pela qual o crente passa, até culminar em sua glorificação, depende de seu antecedente. Mas essa relação de dependência não existe, explícita ou implicitamente, em At 2.23, sendo, por essa razão, precipitado tirar qualquer conclusão em função da ordem em que as palavras foram escritas.


[1] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 70

[2] Ibid., p. 71.

[3] Ibid., p. 108.

[4] Arthur Pink, Deus é Soberano, p. 59.

 

2ª Pedro 3: 9 – Artigo –

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Artigos – Paulo Cesar Antunes

2Pe 3.9

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.

R. K. McGregor Wright está correto quando diz que “a questão a ser resolvida em 2Pe 3.9 é a quem o ‘nenhum’ se refere.”[1] Os arminianos entendem que este versículo ensina que Deus deseja a salvação de todo ser humano. Deus não quer que alguns da raça humana se percam, senão que todos venham a arrepender-se.

Wesley comenta sobre este versículo:

Não retarda o Senhor – Como se o tempo fixado para ela tivesse passado, a sua promessa – Que certamente será cumprida no tempo certo; pelo contrário, ele é longânimo para convosco – Filhos dos homens, não querendo que nenhum – Nenhuma alma que ele criou, pereça. [2]

Para tal conclusão os arminianos apóiam-se em outros versículos das Escrituras, como Ez 33.11, que diz que Deus não tem “prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva”, e 1Tm 2.4, que nos revela que Deus “quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade”. Deus sinceramente deseja a salvação de cada ser humano, ainda que alguns venham a perder-se.

Os arminianos e a maioria dos calvinistas descartam a possibilidade de Pedro estar falando dos crentes em geral, e por uma boa razão. Segundo esta hipótese, o versículo estaria dizendo que Deus não quer que alguns dos crentes se percam, senão que todos os crentes venham a arrepender-se. Seria uma insensatez a afirmação de que Deus quer que todos os crentes venham a arrepender-se. Eles já se arrependeram. Não resolve dizer que Pedro está falando do arrependimento diário dos crentes, pois as pessoas aqui em vista correm o risco de perderem-se para sempre e a longanimidade de Deus tem como finalidade a sua salvação (“Tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor,” 2Pe 3.15).

A interpretação arminiana, no entanto, não tem sido bem recebida pelos calvinistas:

Ora, alegar que o Senhor… Quer que todos os homens se arrependam, é uma tolice, sem dúvida alguma![3]

O texto diz mais do que simplesmente que Deus não quer que ninguém pereça. A cláusula inteira é importante: “pelo contrário, ele é longânime para convosco, não querendo que nenhum pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento.”

Qual é o antecedente de nenhum? Somos claramente nós. Será que “nós” se refere a todos nós humanos? Ou se refere a nós cristãos, o povo de Deus? Pedro gosta de falar dos eleitos como um grupo especial de pessoas. Eu acho que o que ele está dizendo aqui é que Deus não quer que nenhum de nós (os eleitos) pereça. [4]

Ainda, os calvinistas chamam a atenção para o fato de que Pedro está escrevendo, como fez em sua primeira carta (2Pe 3.1), aos “eleitos segundo a presciência de Deus Pai” (1Pe 1.1).[5] Nessa interpretação, portanto, Pedro estaria dizendo que Deus não quer que alguns dos eleitos se percam, senão que todos os eleitos venham a arrepender-se.

Essa interpretação, no entanto, não se sustenta pela seguinte razão: Pedro não está escrevendo sua carta aos eleitos como tais, de forma que qualquer um que porventura venha alcançar “fé igualmente preciosa” (2Pe 1.1) se sinta destinatário da carta. Ele escreveu, não a uma classe abstrata, mas a um grupo definido de pessoas, “aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1Pe 1.1), a quem ele freqüentemente chamava de “amados” (1Pe 2.10; 4.12; 2Pe 3.1, 8, 14, 17). É evidente, portanto, que Pedro não inclui em sua carta os eleitos ainda incrédulos, mas somente aqueles que verdadeiramente se converteram.

John Murray, embora calvinista, também rejeita esta opinião:

Não cremos que a restrição da referência aos eleitos é bem estabelecida. A epístola não faz esta restrição. [6]

Gordon H. Clark ainda oferece uma segunda objeção à hipótese de que Deus deseja a salvação de todos:

Pedro nos conta que o retorno de Cristo aguarda o arrependimento de certas pessoas. Agora, se o retorno de Cristo esperasse o arrependimento de cada indivíduo sem exceção, Cristo nunca retornaria. [7]

Clark, como pode ser visto, não acredita que Cristo possa aguardar o arrependimento de pessoas que nunca se arrependerão. Não obstante, as Escrituras afirmam exatamente o oposto:

Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição? (Rm 9.22).

Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus (Rm 2.4, 5).

Certamente os calvinistas não irão afirmar que as pessoas aqui em vista, com quem Deus está sendo longânimo, são os eleitos. E é notável ainda que, tanto em Rm 9.22 como em Rm 2.4, a palavra longanimidade é a tradução do grego makrothumia, enquanto que em 2Pe 3.9 a palavra longânimo traduz o grego makrothumeō. Portanto, a afirmação de alguns calvinistas de que seria uma tolice imaginar que Deus deseja a salvação daqueles que perecem é simplesmente insustentável à luz de outros versículos.

Uma prova adicional da longanimidade de Deus com os reprovados pode ser vista na própria carta de Pedro:

Os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade (gr. makrothumia) de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água (1Pe 3.20).

Seguindo o raciocínio de Clark, quando diz que “se o retorno de Cristo esperasse o arrependimento de cada indivíduo sem exceção, Cristo nunca retornaria,” poderíamos chegar à estúpida conclusão que, se Deus esperasse o arrependimento dos contemporâneos de Noé, o dilúvio nunca aconteceria. Como as Escrituras tanto afirmam que Deus esperou o seu arrependimento como que o dilúvio aconteceu, há algo de errado com a objeção de Clark. E como ela pode ser usada para afirmar a impossibilidade de algo que já aconteceu, ela não prova nada.

Podemos seguramente dizer que em 2Pe 3.9 a imagem do dilúvio ainda estava na mente do apóstolo, considerando que poucas linhas antes ele fala desse acontecimento (2Pe 2.5). Da mesma forma que Noé proclamou a vinda do dilúvio, os crentes hoje proclamam o retorno de Cristo (2Pe 3.9). Da mesma forma que zombaram de Noé acerca da demora do dilúvio, “nos últimos dias virão escarnecedores” perguntando “onde está a promessa da sua vinda?” (2Pe 3.3, 4). E não poderíamos justamente concluir que, da mesma forma que Deus foi longânimo com os contemporâneos de Noé, que pereceram no dilúvio (1Pe 3.20), Ele não estaria sendo longânimo com todos os seres humanos, mesmo aqueles que irão perecer, até o dia do retorno de Cristo (2Pe 3.9)? Havendo tantos paralelos entre o dilúvio e o retorno de Cristo, nossa interpretação não é apenas plausível, ela é tanto provável como muito bem fundamentada. Sobre isto o calvinista Millard J. Erickson reconhece:

A paciência de Deus não se limitou a seu relacionamento com Israel. Pedro chega a afirmar (1Pe 3.20) que o dilúvio foi retardado o quanto possível para dar oportunidade de salvação para os que, por fim, foram destruídos. Ao falar do dia vindouro de grande destruição, Pedro também afirma que a segunda vinda custa a chegar por causa da clemência de Deus. Ele não deseja “que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9). [8]

Que Deus quer que todos os seres humanos sejam salvos é algo tão evidente em 2Pe 3.9 que Berkhof, conforme observado por Picirilli, [9] acaba sendo traído pelo versículo. Primeiramente ele diz:

As passagens de 1Tm 2.4-6; Hb 2.9; 2Pe 3.9 referem-se à vontade revelada de Deus de que judeus e gentios seriam salvos, mas nada implicam quanto à intenção universal da expiação. Mesmo Moisés Stuart, que crê na expiação universal, admite que, nestes casos, a palavra “todos” não pode ser entendida no sentido universal. [10]

Aqui ele diz que “todos” em 2Pe 3.9 deve ser entendido como “judeus e gentios,” ainda que o contexto não diga absolutamente nada sobre isto. Ele não admite que a passagem esteja falando de todos os homens sem exceção, mas, mais especificamente, dos eleitos entre judeus e gentios. Mas mais adiante em sua Teologia Sistemática, ele diz:

Ele não dá logo fim à vida do pecador, mas lhe dá oportunidade para arrepender-se, tirando com isso qualquer motivo para desculpa e justificando a vindoura manifestação da Sua ira sobre os que persistirem no pecado até o fim. Que Deus age com base neste princípio evidencia-se amplamente em passagens como Is 48.9; Jr 7.23-25; Lc 13.6-9; Rm 2.4; 9.22; 2Pe 3.9.[11]

Contradizendo o que disse anteriormente, Berkhof agora diz que 2Pe 3.9 deve ser entendido como incluindo até mesmo aqueles que “persistirem no pecado até o fim.”

Calvino chega a dizer que “o Senhor adia a sua vinda para que ele possa convidar toda a humanidade ao arrependimento” e que “tão maravilhoso é seu amor pela humanidade que ele quer que todos sejam salvos, e de sua parte está preparado para conceder salvação aos perdidos” para então tornar tudo sem sentido:

Pode-se perguntar aqui: se Deus não quer que ninguém pereça, por que tantos, na verdade, perecem? Minha resposta é que não há menção aqui sobre o decreto secreto de Deus pelo qual os ímpios são condenados à ruína, sendo revelada somente sua misericórdia por meio do evangelho. Aí Deus estende sua mão a todos, mas só segura (de forma a conduzi-los para si) aqueles que ele escolheu antes da fundação do mundo. [12]

Em outras palavras, Calvino está nos dizendo que a vontade revelada de Deus é que todos sejam salvos, mas que, em oposição a esta, há uma vontade secreta, que é que muitos sejam condenados. Mas, como observa Philip Schaff, “uma contradição entre intenção e expressão é fatal à veracidade, que é a fundação da moralidade humana, e deve ser um atributo essencial da Divindade. Um homem que diz o inverso do que pretende é chamado, em linguagem clara, de hipócrita e mentiroso.”[13]

Insatisfeito com a interpretação da grande maioria de seus colegas calvinistas, Anthony Hoekema interpreta corretamente o versículo:

A “demora” alegada é, na verdade, uma evidência da graça divina. O Senhor deseja dar aos seres humanos vivos nesta terra plena oportunidade para arrependimento e salvação; por isso ele ainda não voltou.

Observe particularmente as palavras “não querendo que nenhum pereça.” Alguém poderia ler essas palavras e conceber o seguinte entendimento: “não querendo que nenhum dos eleitos pereça.” Mas isso não é o que Pedro diz; introduzir esse pensamento é contrabandear para dentro do texto algo que não está aí. A forma negativa da declaração não deixa espaço para a possibilidade da exclusão de ninguém: o Senhor não deseja que qualquer pessoa pereça. Segundo essa passagem, é claro o desejo do Senhor de que todos os que ouvem o evangelho se arrependam e se salvem. [14]

Embora fiel ao texto bíblico, Hoekema entra em contradição com o seu Calvinismo. Pois o que significa dizer que Deus deseja a salvação de todos diante da afirmação que Deus escolheu incondicionalmente apenas alguns? Que desejo divino de salvação universal seria este que fica somente na intenção e não se revela na prática, sendo que Deus nega àqueles que quer que sejam salvos aquela graça que unicamente pode levá-los à salvação? Como Deus deseja verdadeiramente a salvação de cada ser humano se restringe a extensão da expiação de Cristo a apenas um grupo de pessoas?

Mas a questão é que, mesmo se fosse possível provar que Pedro restringe a longanimidade de Deus a um grupo de pessoas apenas, o versículo não poderia ser usado contra a afirmação de que Deus é longânimo com todos, tanto porque, como já foi mostrado, há outras passagens que admitem a idéia, quanto porque não se pode negá-la a partir do silêncio do apóstolo. Não é porque se afirma que Deus é longânimo com os que irão finalmente se salvar que Ele não é longânimo com aqueles que irão finalmente se perder.


 


 

[1] R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida, (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 1998), p. 185.

[2] John Wesley, Explanatory Notes upon the New Testament, (New York: Eaton & Mains), p. 626.

[3] John Owen, Por Quem Cristo Morreu, (São Paulo: Editora PES, 1996), p. 84.

[4] R. C. Sproul, Eleitos de Deus, (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2002), p. 146

[5] R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida, (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 1998), p. 185.

[6] John Murray, The Free Offer of the Gospel.

[7] Gordon H. Clark, I & II Peter (New Jersey: Presbyterian & Reformed, 1980), 2:71.

[8] Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, (São Paulo – SP: Edições Vida Nova, 2002) p. 125.

[9] Robert E. Picirilli, Grace Faith Free Will, (Nashville – Tennessee: Randall House, 2002), pp. 109 110.

[10] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, (Campinas – SP: Luz para o Caminho Publicações, 1994), p. 398.

[11] Ibid., p. 443.

[12] João Calvino, citado em Anthony Hoekema, Salvos pela Graça, 2ª edição revisada (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2002) p. 82.

[13] Philip Schaff, History of the Christian Church, Vol. 7, Capítulo XIV, § 114.

[14] Anthony Hoekema, Salvos pela Graça, 2ª edição revisada (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2002) p. 82.

Fonte: Arminianismo.com

Mortos em ofensas e pecados

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_________________________________ Paulo Cesar Antunes

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“E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados” Ef 2.1

 

Este verso tem sido tanto abusado pelos calvinistas quanto minimizado pelos arminianos. Alegam os últimos que o verso apenas expõe uma forte analogia, e os primeiros, que o homem está morto espiritualmente da mesma forma que os mortos estão fisicamente. Muitos calvinistas não permitem que os arminianos digam que o homem está verdadeiramente morto. O máximo que os arminianos poderiam dizer, segundo eles, é que o homem estaria ‘meio-morto, ’ ou ‘doente, ’ precisando de ajuda para se recuperar. Nada disso é verdadeiro se verificarmos o que disse Arminius sobre a condição do homem após a Queda. Ele não poupou palavras para expressar a incapacidade humana para se aproximar de Deus.

 

Não há dúvida de que estamos ‘mortos em ofensas e pecados,’ incapazes de agradar a Deus em nosso estado natural, ou de merecer algum favor divino. Se não formos regenerados pelo Espírito, permaneceremos nessa condição, sem qualquer esperança de salvação. A questão diante de nós não é se o homem está morto ou meio-morto, pois é certo que ele está morto, mas até onde podemos forçar a analogia.

 

A maioria dos calvinistas faz um paralelo perfeito entre morte física e morte espiritual. Dizem eles que, assim como pessoas fisicamente mortas não podem fazer nada para voltarem à vida, pessoas espiritualmente mortas não podem fazer nada para nascerem de novo. Pessoas mortas não podem crer, não podem querer voltar a viver, não podem esticar suas mãos para receber qualquer dádiva de Deus, não podem gritar por socorro. O exemplo de Lázaro é quase sempre citado. Lázaro jazia morto e se Cristo não tivesse gritado ‘Lázaro, sai para fora,’ e lhe dado vida, ele permaneceria morto. Tudo isso é verdadeiro, se estivermos falando de pessoas fisicamente mortas. A verdade é que, se forçarmos demais a analogia, como fazem os calvinistas, então certamente não poderíamos crer, querer voltar a viver, gritar por socorro, mas também não poderíamos nem mesmo saber que estamos mortos, que precisamos ser regenerados. Mas qualquer calvinista deve concordar que pessoas espiritualmente mortas podem freqüentar cultos, ler a Bíblia, orar regularmente. Portanto, o estado de Lázaro no túmulo é um tanto diferente do estado do homem natural, ainda que ambos não possam empregar meios para vivificarem a si próprios.

 

Estou querendo, então, dizer que o homem natural pode fazer alguma coisa de si próprio para alcançar favor divino? De forma alguma. O homem natural está completamente morto, incapaz de agradar a Deus com suas próprias ações, alienado, e insensível para ‘as coisas do Espírito de Deus’ (1Co 2.14). Sem que Deus lhe dê vida espiritual, ele continuará morto.

 

Além da morte física, o calvinista também compara a morte espiritual com a condição de uma criatura e um bebê ainda não nascidos. Assim como uma criatura e um bebê não escolhem nascer, nem contribuem para o seu nascimento, também não escolhemos ser regenerados, nem contribuímos para o nosso novo nascimento. Novamente, tudo isso é verdadeiro, se estivermos falando de criaturas e bebês ainda não nascidos. Mas este tipo de comparação é condenado até mesmo pelo calvinista Arthur Pink. [1] Uma criatura ainda não nascida não tem qualquer consciência de sua existência, nem mesmo é um ser moral. Um bebê ainda não nascido nem mesmo desenvolveu sua personalidade. O corpo de alguém fisicamente morto não mais guarda averdadeira pessoa que um dia esteve nele. Chega a ser irônico que os calvinistas, que tanto enfatizam a distinção entre incapacidade moral e física, e condenam aqueles que não fazem o mesmo, usam a ilustração de alguém que está incapacitado fisicamente para apoiar a idéia da incapacidade moral do homem!

 

Levada ao seu extremo lógico, essa comparação rígida entre morte física e espiritual eliminaria qualquer estímulo para os incrédulos buscarem a Deus. Poderiam eles pensar, com toda razão, que a única alternativa é aguardar pacientemente ser regenerados. Talvez percebendo esta implicação, Shedd faz algumas recomendações aos ainda não regenerados, dentre as quais, orar para que o Espírito Santo os regenere. [2] O único problema é que estas recomendações destroem o próprio argumento que tanto se quer preservar, de que morto não pode fazer nada. Diante disso, Roy L. Aldrich, abusando desse mesmo argumento, contra os próprios calvinistas, ironizou, dizendo que eles lidam “com um cadáver espiritual bem vivo afinal de contas.”[3]

 

Acredito que morte espiritual significa que o homem está separado de Deus, impróprio para qualquer comunhão com Ele. Como diz Isaias, “as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” (Is 59.2). Separação também parece ser o sentido em Lucas, na parábola do filho pródigo: “Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado” (Lc 15.24). Da mesma forma, Paulo diz que devemos nos considerar como “mortos para o pecado” (Rm 6.11). Todos estes exemplos mostram que morte significa separação. Isso não implica que podemos eliminar essa separação por nossas próprias vontades. O homem natural não tem nenhuma vontade por Cristo. Ele não pode de si mesmo crer salvificamente em Cristo para sua salvação. Qualquer mitigação dessa verdade pode comprometer seriamente a crença evangélica da salvação pela graça. Mas disso não se conclui que a regeneração deve preceder a fé? Não, absolutamente. Usar o argumento de que ‘morto não pode fazer nada’ é cair no mesmo erro observado acima. É certo que o homem natural não pode crer salvificamente com suas próprias forças, mas disso não podemos concluir que, sob a graça divina, ele também não pode. Mas aqui eu apenas gostaria de mostrar que é impróprio abusar da expressão ‘mortos em ofensas e pecados’, da mesma forma que é perigoso minimizá-la. A precedência lógica entre fé e regeneração será tratada adiante.


[1] Arthur W. Pink, Gleanings from the Scriptures, p. 276; Salvation, pp. 26-27.

[2] W.G.T. Shedd, Dogmatic Theology, Vol. II, pp. 472, 512, 513.

[3] Roy L. Aldrich, “The Gift of God.”

Fonte: Arminianismo.com