O Amor de Deus É Limitado aos Eleitos?

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Refutando um Desafio Calvinista ao Evangelho

Roger E. Olsonroger olson - arminius hoje

A doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. Ele é também o calcanhar de Aquiles do Calvinismo; sem ele os outros pontos caem.

 O recente renascimento do Calvinismo entre os evangélicos trouxe à tona a questão da extensão da morte expiatória de Cristo na cruz. Muitos cristãos evangélicos simplesmente assumem que Cristo morreu por todos – que Ele carregou os pecados e sofreu a penalidade por cada pecador. Pelos últimos quatro séculos, entretanto, tem havido uma representação minoritária entre os protestantes. A maioria dos calvinistas, seguidores do reformador francês da Suíça, João Calvino (1509-1564), têm ensinado que Cristo suportou a penalidade somente pelos pecados dos eleitos – aqueles incondicionalmente predestinados por Deus para a salvação. Calvinistas contemporâneos (eles muitas vezes preferem ser chamados de cristãos reformados) chamam esta doutrina de “redenção particular” ou “expiação definida.”

 Entre os defensores evangélicos contemporâneos da expiação limitada estão, mais notavelmente, R. C. Sproul e John Piper. Sproul (nascido em 1939) tem sido um influente apologista evangélico e teólogo reformado por grande parte da última metade do século 20. De sua base em seu Ministério Ligonier ele tem falado no rádio, viajado para discursar em muitas conferências teológicas e apologéticas e escreveu muitos livros – a maioria deles tratando da soberania de Deus a partir de uma perspectiva fortemente reformada.

 Piper (nascido em 1946), pastor de Igreja Batista Bethlehem de Minneapolis, e fundador do Ministério Desiring God, também viaja muito e discursa em grandes encontros de cristãos evangélicos – incluindo as conferências Passionfrequentadas por milhares da maioria dos jovens e adolescentes batistas do sul. Ele é um prolífico autor cujos livros, incluindo Desiring God: Confessions of a Christian Hedonist (1986), têm vendido milhões de cópias. Como Sproul, Piper é um promotor apaixonado do Calvinismo de cinco pontos.

 CALVINISMO DE CINCO PONTOS

 O Calvinismo de cinco pontos é a crença nas doutrinas representadas pelo acróstico TULIP: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Os calvinistas criaram o acróstico por volta de 1913, mas as “doutrinas da graça” que ele representa remontam ao sucessor de Calvino – Teodoro Beza (1519-1605) – diretor da Academia de Genebra (um seminário reformado em Genebra, Suíça, fundado por Calvino). A expiação limitada se encontra no centro deste sistema teológico. Sproul, Piper e muitos outros teólogos evangélicos contemporâneos influentes tenazmente mantêm e defendem esta posição.

 EXPIAÇÃO LIMITADA

 O que a expiação limitada ou redenção particular significa? De acordo com Sproul, que prefere chamar essa doutrina de “expiação designada,” ela significa que Deus pretendeu que a morte de Cristo na cruz assegurasse a salvação de um número definido de seres humanos caídos – aqueles escolhidos incondicionalmente por Deus. Como outros calvinistas, Sproul argumenta que a morte substitutiva de Cristo (isto é, Deus impôs sobre Cristo a penalidade pelos pecados merecida pelos pecadores) foi de valor suficiente para salvar a todos, mas Deus apenas pretendeu que ela salvasse os eleitos. No sentido mais significante, Cristo morreu apenas pelos eleitos e não por todos.

 Para Sproul (e outros como ele), esta doutrina não é dispensável; ela é parte essencial do sistema TULIP que eles creem ser a única que faz justiça à soberania de Deus e à natureza do dom da salvação. Um argumento usado por Sproul, seguindo o teólogo puritano John Owen (1616-1683), é que, se Cristo morreu por todos igualmente, então todos são salvos. Afinal, como segue o argumento, seria injustiça de Deus punir os mesmos pecados duas vezes – uma vez impondo a penalidade sobre Cristo e outra vez ao enviar o pecador para o inferno.

 Piper é igualmente apaixonado pela expiação limitada. Como Sproul, ele não a considera um ponto secundário da teologia. Em um artigo intitulado “For Whom Did Christ Die and What Did Christ Actually Achieve on the Cross for Those for Whom He Died?[1]Piper argumenta que não é o calvinista que limita a expiação, mas o não-calvinista que crê na expiação universal. A razão: Aqueles que creem na expiação universal devem dizer que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas a oportunidade de salvarem a si mesmas. Ou eles devem abraçar o universalismo.

 Piper continua e argumenta que Cristo de fato morreu por todas as pessoas, mas não da mesma maneira. Todas as pessoas se beneficiam da morte de Cristo, por exemplo, recebendo certas bênçãos nesta vida que eles de outra forma não receberiam – mas somente os eleitos recebem dela o benefício da salvação.

 Esta doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. O teólogo evangélico Vernon Grounds, ex-presidente do Seminário Denver, atacou severamente a doutrina. Apontando para Jo 1.29; Rm 5.17-21; 11.32; 1Tm 2.6; Hb 2.9; e 1Jo 2.2, ele escreveu, “É preciso uma engenhosidade exegética que é outra coisa menos uma habilidade culta esvaziar estes textos de seu significado óbvio: é preciso uma engenhosidade exegética próxima de um sofisma negar sua explícita universalidade.”[2]É desnecessário dizer, muitos evangélicos, incluindo alguns calvinistas, acham essa doutrina repugnante.

 BASE PARA A EXPIAÇÃO LIMITADA

 Antes de explicar por que esta doutrina é repulsiva, será proveitoso ver as razões por que muitos calvinistas a têm em alta conta e a promovem tão apaixonadamente. Mais uma vez, o que é esta doutrina? É que Deus pretendeu que a morte de Jesus na cruz fosse uma propiciação (um sacrifício expiatório, substitutivo) apenas pelos pecados dos eleitos – aqueles que Deus escolheu salvar à parte de qualquer coisa que Ele vê neles ou sobre eles (exceto Sua escolha dessas pessoas para a Sua glória e boa vontade).

 Por que alguém acreditaria nisso?

 Os proponentes da expiação limitada apontam várias Escrituras: Jo 10.15; 17.6 e versículos semelhantes em Jo 10-17; Rm 8.32; Ef 5.25-27; Tt 2.14.

 Os calvinistas usam Jo 10.15 para apoiar o seu ensino: “Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas.” Muitos outros versículos em João dizem quase a mesma coisa – que Cristo deu a Sua vida por Suas ovelhas (isto é, Seus discípulos e todos os que viriam depois deles).

 Os calvinistas também apontam Rm 8.32: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” Eles supõem que “todos nós” faz referência aos eleitos.

 Ef 5.25-27 diz, “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.” Os calvinistas creem que esta passagem, como muitas outras, se refere apenas à igreja como o objeto do sacrifício purificador de Cristo.

 Tt 2.14 diz: “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” Os calvinistas acreditam que Paulo, o autor de Tito, parece restringir os benefícios salvadores da morte de Cristo ao “seu povo,” o que eles acreditam ser os eleitos.

 Os calvinistas assumem que estes versículos e outros como eles ensinam que Cristo morreu somente por aqueles escolhidos por Deus para a salvação. Mas estes versículos não ensinam as crenças calvinistas. Em nenhum lugar a Bíblia explicitamente ensina esta doutrina calvinista.

 Os calvinistas atribuem a estas passagens sua crença que Cristo morreu somente pela igreja, pelo Seu povo, por Suas ovelhas. Estes versículos não dizem que Cristo não morreu também pelos outros. E, como veremos, há muitas passagens que ensinam claramente que Cristo morreu por todos.

 Há outra razão para os calvinistas crerem na expiação limitada. Se Cristo morreu igualmente por todos, eles alegam, então todos são salvos. Eles argumentam que aqueles que creem na expiação universal se defrontam com duas opções inevitáveis, mas biblicamente insustentáveis: ou a morte de Cristo salvou a todos ou ela não salvou ninguém. Este argumento é, no entanto, falacioso. A expiação universal não requer a salvação universal; ela somente requer a possibilidade de salvação universal.

 É possível que os mesmos pecados sejam punidos duas vezes e é isso o que torna o inferno tão absolutamente trágico – ele é totalmente desnecessário. Deus pune com o inferno aqueles que rejeitam a substituição de Seu Filho. Uma analogia ajudará a tornar isto claro. Após a Guerra do Vietnã, o presidente Jimmy Carter concedeu uma anistia geral a todos os desertores que fugiram para o Canadá e outros locais. Por decreto presidencial eles estavam livres para voltar para casa. Alguns voltaram e outros não. Seu crime não era mais punível; mas alguns se recusaram a tirar proveito da anistia e puniram a si mesmos ficando longe de casa e da família. Os crentes na expiação universal creem que Deus permite aos pecadores recusarem o benefício da cruz de Cristo para sofrerem a punição do inferno apesar do fato dele ser totalmente desnecessário.

 Talvez a razão apresentada mais retoricamente poderosa para a expiação limitada seja aquela oferecida por John Piper (e outros calvinistas antes dele) que diz em For Whom Did Christ Die? que aqueles que creem na expiação universal “devem dizer” que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas uma oportunidade de salvarem a si mesmas. Este é um raciocínio totalmente falacioso.

 Os arminianos (aqueles que seguem Tiago Armínio na rejeição da eleição incondicional, da expiação limitada e da graça irresistível) creem que a morte de Cristo na cruz salva todos que a recebem pela fé. A morte de Cristo assegura a salvação destes – tanto quanto assegura a salvação dos eleitos no Calvinismo. Ela garante que qualquer um que vai a Cristo em fé será salvo por Sua morte. Isto não implica que eles salvam a si mesmos. Isso simplesmente significa que eles aceitaram a obra de Cristo em seu favor.

 RESPONDENDO AO CALVINISMO

 É difícil resistir à impressão de que os calvinistas que creem na expiação limitada assim o fazem não por claras razões bíblicas, mas porque eles acham que a Escritura a permite e a razão a exige. Não há nada necessariamente errado com isso, mas no mínimo alguns calvinistas como Piper têm criticado outros por fazerem o mesmo.[3] Piper critica outros por alegadamente abraçarem doutrinas somente porque a Escritura as permite e a lógica as exige. Parece a muitos não-calvinistas, no entanto, que os crentes na expiação limitada fazem exatamente isso. Carecendo de claro e inequívoco apoio bíblico para esta doutrina, eles a abraçam porque acham que a Escritura a permite e o seu sistema TULIP logicamente a exige. Afinal, se a eleição é incondicional e a graça é irresistível, então parece que a expiação seria somente para os eleitos.

 A Escritura contradiz a expiação limitada em Jo 3.16, 17; Rm 14.15; 2Co 5.18-19; Cl 1.19, 20; 1Tm 2.5, 6; 1Jo 2.2. Todos conhecem Jo 3.16, 17: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” Tipicamente, os calvinistas respondem que nestes versículos “mundo” faz referência a todos os tipos de pessoas e não a todos. Entretanto, isso tornaria possível interpretar todas as passagens onde o Novo Testamento conta que o “mundo” é pecador e caído no sentido de que somente algumas pessoas – todos os tipos – são pecadoras e caídas. A interpretação calvinista de Jo 3.16, 17 parece se encaixar na descrição de Vernon Grounds de exegese defeituosa usada para defender a expiação limitada.

 1Jo 2.2 é outra passagem que não podemos reconciliar com a expiação limitada: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” Esta passagem enfraquece completamente a interpretação calvinista de “mundo” em Jo 3.16, 17 porque ela explicitamente afirma que Cristo morreu uma morte expiatória não somente pelos crentes, mas também por todos. Aqui “mundo” deve incluir os não crentes porque “nosso” se refere aos crentes. Este versículo torna impossível dizer que a morte de Cristo beneficia a todos, só que não da mesma maneira (Piper diz que a morte de Cristo beneficia os não-eleitos dando-lhes somente bênçãos temporais). João diz clara e inequivocamente que o sacrifício expiatório de Cristo foi pelos pecados de todos – inclusive daqueles que não são crentes.

 E quanto a 2Co 5.18-19? “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.” Os calvinistas às vezes argumentam que esta passagem dá apoio à expiação limitada. Afinal, se Deus estava em Cristo não imputando os pecados de todos, então todos são salvos. Portanto, eles dizem, “todos” deve significar somente os eleitos. Mas isso não é verdadeiro. Quando Paulo diz que Deus estava reconciliando o mundo consigo, não imputando os pecados das pessoas contra elas, ele quer dizer se elas se arrependerem e crerem. Em outras palavras, a expiação reconciliou Deus com o mundo para que Ele pudesse perdoá-lo; isso satisfez as demandas da justiça para que da parte de Deus a reconciliação fosse possível. Mas resta aos pecadores aceitar isso pela fé. Então a plena reconciliação acontece.

 Cl 1.19, 20, diz, “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.” É impossível interpretar “todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” como se referindo somente aos eleitos. Esta passagem refuta a expiação limitada. Igualmente faz 1Tm 2.5, 6: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.” A única maneira de um crente na expiação limitada conseguir escapar da força desta passagem é interpretar o grego traduzido como “todos os homens” como de alguma forma significando “todos os tipos de homens,” mas essa não é uma interpretação permitida pelo uso comum da expressão na literatura grega fora do Novo Testamento (ou em outro lugar nele).

 Muitas Escrituras indicam claramente que o sacrifício expiatório de Jesus foi pretendido para todos, que Sua punição substitutiva foi por todas as pessoas. Mas há duas passagens raramente discutidas do Novo Testamento que absolutamente destroem a expiação limitada: Rm 14.15 e 1Co 8.11. Nestes versículos, Paulo severamente adverte os cristãos contra levar pessoas por quem Cristo morreu à destruição. A tradução grega das palavras “destruir” e “destruído” nestes versículos não pode significar meramente prejudicado ou ferido. Paulo claramente está advertindo as pessoas de que é possível levar as pessoas por quem Cristo morreu ao inferno (levando-as a tropeçarem e cairem pela demonstração de sua liberdade própria para comer carne sacrificada aos ídolos). Se o Calvinismo da TULIP está correto, esta advertência é inútil, porque isso não pode acontecer. De acordo com o Calvinismo, os eleitos, por quem Cristo morreu, não podem se perder.

 O peso da Escritura é claramente oposto à expiação limitada. As interpretações calvinistas destas e de passagens semelhantes faz recordar o sinal do lado de fora de uma ferraria se referindo ao seu trabalho artístico com metais: “Todos os tipos imagináveis de torção e torneamento são feitos aqui.” Entretanto, o problema com a expiação limitada vai além de alguns versículos que os calvinistas não podem explicar sem distorcer seus claros significados. O maior problema atinge o cerne da doutrina de Deus. Quem é Deus e como ele é?

 EXPIAÇÃO LIMITADA E A NATUREZA DE DEUS

 Se Deus é amor (1Jo 4.7), mas pretendeu que a morte expiatória de Cristo fosse a propiciação somente para algumas pessoas de forma que somente elas têm alguma chance de serem salvas, então o “amor” não tem nenhum significado inteligível quando se refere a Deus. Todos os cristãos concordam que Deus é amor. Mas os crentes na expiação limitada devem interpretar o amor de Deus como de alguma forma compatível com Deus incondicionalmente selecionando algumas pessoas para o tormento eterno no inferno quando Ele poderia salvá-las (porque a eleição para a salvação, e assim a própria salvação, é incondicional). Não há analogia na existência humana para este tipo de comportamento que é considerado como amoroso. Nós nunca consideraríamos como amoroso alguém que, por exemplo, podendo resgatar pessoas se afogando, se recusa a fazê-lo e resgata somente algumas. Consideraríamos tal pessoa má, mesmo se as pessoas resgatadas apreciassem o que a pessoa fez por elas.

 Os calvinistas tipicamente lidam com isso de duas maneiras. Alguns dizem que o amor de Deus é diferente do nosso amor. Mas se ele é tão diferente, ele é ininteligível. Se o “amor” de Deus não tem semelhança com algo que chamaríamos de amor, se ele se assemelha mais ao ódio do que ao amor, então ele perde todo o significado. Então, quando uma pessoa diz que Deus é amor, ela poderia também estar usando uma palavra sem sentido como “creech” – Deus é creech. Também, onde Deus melhor demonstrou o Seu amor do que em Jesus Cristo? Mas o amor de Jesus Cristo pelas pessoas é arbitrário e odioso a algumas? Ou Jesus Cristo em Seu amor por todas as pessoas revela o coração de Deus? O Calvinismo acaba tendo que pressupor um Deus oculto, muito diferente de Jesus Cristo.

 A outra maneira dos calvinistas lidarem com o amor de Deus e tentar reconciliá-lo com a expiação limitada e a dupla predestinação (as duas são realmente inseparáveis) é dizer que Deus ama todas as pessoas de alguma forma, mas somente algumas (os eleitos) de todas as formas. Piper, por exemplo, exalta o amor de Deus por todos – até mesmo ao não-eleito. Ele diz que Deus concede bênçãos temporais sobre os não-eleitos – isto é, conforme eles se movem em direção ao seu tormento eterno predestinado no inferno. John Wesley, respondendo a uma alegação similar dos calvinistas de sua época, ironizou dizendo que este é o tipo de amor que faz o sangue gelar nas veias. Uma outra resposta é que isso simplesmente significa que Deus dá aos não-eleitos um pouco do céu para levar com eles em sua jornada ao inferno. Que tipo de amor é esse – que dá bênçãos temporais e felicidade às pessoas escolhidas por Deus para o sofrimento eterno no inferno? Afinal, se o Calvinismo está correto, não há nada impedindo Deus de escolher todas as pessoas para o céu, exceto, alguns dizem, a Sua própria glória. Alguns calvinistas dizem que Deus deve manifestar todos os Seus atributos e um atributo é a justiça que torna o inferno necessário. Mais uma vez, no entanto, isso não funciona, porque a cruz foi uma manifestação suficiente da justiça de Deus.

 A expiação limitada torna o evangelismo indiscriminado impossível. Um crente na expiação limitada nunca pode dizer a algum estranho ou grupo aleatório: “Deus ama vocês e Cristo morreu pelos seus pecados e pelos meus; vocês podem ser salvos.” Todavia, esta é a própria força vital do evangelismo – contar as boas novas a todos e convidá-los a virem a Jesus Cristo em arrependimento e fé. Muitos calvinistas são inclinados ao evangelismo e às missões, mas em seu evangelismo e missões eles não podem dizer a todos no alcance de suas vozes que Deus os ama, que Jesus morreu por eles e que Ele quer que eles sejam salvos. Eles podem proclamar o evangelho (como eles o interpretam), mas não podem requerer fé prometendo-lhes salvação através de Cristo a todos que eles encontram ou a quem eles pregam.

 A expiação limitada é o calcanhar de Aquiles do Calvinismo TULIP; sem ela os outros pontos da TULIP caem. Se Deus é verdadeiramente amor, então Cristo morreu por todos para que todos possam ser salvos.

 

Fonte: http://enrichmentjournal.ag.org/201203/201203_044_limited_atonement.cfm

Tradução: Cloves Rocha dos Santos


[1] http://www.monergism.com/thethreshold/articles/piper/piper_atonement.html.

[2] Vernon C. Grounds, “God’s Universal Salvific Grace” em Grace Unlimited, ed., Clark H. Pinnock (Minneapolis: Bethany House, 1975), 27.

[3] John Piper, The Pleasures of God: Meditations on God’s Delight in Being God (Portland: Multnomah, 2000). Ver a longa nota de rodapé acerca da alegada hermenêutica falha de Pinnock, 70–74.

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Os Cinco Paradoxos do Calvinismo

1 Comentário

Scot McKnight

 

Roger Olson traça cinco paradoxos – algo entre contradição e mistério – no Calvinismo, e estes paradoxos, Olson pensa, colocam em dúvida o bom nome de Deus. Irei apresentá-los na forma de perguntas.

 

Como Deus pode ter soberania divina absoluta e os seres humanos serem genuinamente responsáveis?

 

Como Deus pode determinar tudo e algo ser mau? Isto é, se tudo é a vontade de Deus, e Deus é bom, tudo é bom ou pelo menos nada é mau. Isto inclui o estupro, o abuso contra crianças e o inferno.

 

Como algo pode diminuir a glória de Deus se Deus deseja tudo? Até mesmo a incredulidade, a heresia e o pecado.

 

Como Deus pode salvar alguns e ignorar outros e ser bom, amoroso e gracioso? [Olson acredita que Deus escolhe na base do preconhecimento.]

 

Como Deus pode ser bom e ordenar as ações más neste mundo?

 

Há explicações não-calvinistas geralmente muito melhores e o apelo calvinista a um paradoxo, ou antinomia, mascara a falta de lógica e falha em lidar com o resposta mais adequada, racional e lógica de outras. O determinismo divino e a providência meticulosa cria mais problemas para o caráter de Deus do que os resolve. A auto-limitação divina e o livre-arbítrio humano são explicações melhores e mais racionais.

 

Fonte: http://www.patheos.com/blogs/jesuscreed/2011/12/26/the-five-conundrums-of-calvinism/

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Os Cinco Pontos do Calvinismo – introdução

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George L. Bryson

INTRODUÇÃO

 

Por mais de uma década fui entrevistador de um talk show cristão chamado “Biblicamente Falando.” Em muitas ocasiões diferentes, o tópico Calvinismo em geral, e os Cinco Pontos do Calvinismo em particular, era trazido por mim, por um convidado do palco ou por alguém no telefone. Posso claramente me lembrar de uma discussão na qual um convidado calvinista estava debatendo com um arminiano no telefone sobre a questão de se ou não a predestinação era ensinada na Escritura. Quando a questão diante de nós era simplesmente uma questão de afirmar ou negar a predestinação, eu parecia estar do lado do meu convidado calvinista.

O arminiano se surpreendeu com o meu acordo com meu convidado porque ele incorretamente pensava que eu devia ser calvinista por causa deste acordo. Quando expliquei a ele que eu não era calvinista, sua surpresa se transformou em confusão.

Afirmação vs. Definição

Meu convidado então admitiu que ele também ficou surpreso, se não confuso, pois ele também equivocadamente supunha que eu era calvinista porque concordei que a predestinação era ensinada na Escritura. O erro que ambos, meu convidado calvinista e o ouvinte arminiano, tinham cometido era supor que a peculiaridade do Calvinismo é a afirmação calvinista da predestinação. Entretanto, não é a afirmação dos calvinistas desta doutrina que os distingue de outros evangélicos. Antes, é a definição da predestinação pelos calvinistas que os distingue de outros crentes ortodoxos e evangélicos. O estudioso calvinista bastante popular, R. C. Sproul, em seu livro dedicado a definir e defender a visão calvinista da predestinação chama a mesma atenção para este ponto. Ele diz:

Virtualmente, todas as igrejas cristãs têm alguma doutrina formal sobre predestinação. Se a Bíblia é a Palavra de Deus e não mera especulação humana, e se Deus, Ele mesmo, declara que existe tal coisa chamada predestinação, então se segue inevitavelmente que devemos abraçar alguma doutrina de predestinação. [1]

As peculiaridades e as doutrinas do Calvinismo estão (relativas à doutrina da salvação) mais evidentes nos Cinco Pontos do Calvinismo. Para entender os Cinco Pontos como os calvinistas os entendem, você deve vê-los como a expressão da definição calvinista da predestinação. A definição calvinista da predestinação deve por sua vez ser vista como a base da doutrina calvinista da salvação.

O Acróstico de Cinco Pontos

Uma maneira simples e comum de se lembrar dos Cinco Pontos do Calvinismo é usando o acrônimo TULIP.

 

T = Total Depravity (Depravação Total)

U = Unconditional Election (Eleição Incondicional)

L = Limited Atonement (Expiação Limitada)

I = Irresistible Grace (Graça Irresistível)

P = Perseverance of the Saints (Perseverança dos Santos)

 

Embora reconhecendo certo valor no uso deste acrônimo, Sproul também expressa algumas sérias reservas. Ele diz:

Esta lista tem ajudado muitas pessoas a se lembrarem das peculiaridades da teologia reformada. Infelizmente, tem também causado grande confusão e desentendimento. [2]

5 Afirmações ou 5 Doutrinas

Quando fala sobre os Cinco Pontos, um calvinista pode estar se referindo às breves afirmações associadas ao acrônimo TULIP (isto é, Depravação Total, Eleição Incondicional, etc.) ou às verdadeiras doutrinas que são identificadas por estas afirmações e pelas quais o acrônimo serve de lembrete. Você não pode entender a(s) doutrinas(s) dos Cinco Pontos simplesmente lendo muito breves afirmações associadas a estas doutrinas. Isto é, há um significado calvinista específico que deve ser ligado a estas afirmações a fim de que elas sejam entendidas calvinisticamente.

Isto não deve ser encarado como uma crítica das cinco afirmações, pois nunca se pretendeu que elas fossem uma explicação. Dessa forma, cada afirmação calvinista deve ser vista em relação a uma doutrina calvinista correspondente, da mesma maneira que um título de capítulo é visto em relação ao significado completo e a mensagem do próprio capítulo. Por essa razão, uma simples declaração destas afirmações calvinistas, sem uma explicação calvinista precisa, pode ser muito enganadora.

Dirigindo-se aos Calvinistas

Visto que são os Cinco Pontos do Calvinismo que iremos discutir, é razoável que nos voltemos aos calvinistas para uma interpretação e uma explicação destes cinco pontos.

Por essa razão, na discussão que seguirá eu contarei (para uma interpretação das cinco afirmações) em grande quantidade com bem conhecidos teólogos e estudiosos calvinistas, assim como documentos calvinistas históricos e, é claro, João Calvino. Na discussão de tais conceitos como a Depravação Total, conforme usados nos Cinco Pontos, devemos nos lembrar de que eles estão sendo usados em um contexto particular histórico e calvinista. Deixar de manter isto em mente somente levará ao desentendimento e à confusão. De fato, esta é a razão de crer que muitos não-calvinistas podem honestamente (ainda que não precisamente) chamar a si mesmos de calvinistas de um, dois, três ou quatro pontos.

Suave Vs. Rígido

Como logo veremos, há o que eu chamo de formas mais suaves e mais rígidas de Calvinismo. Entretanto, muito do que passa por “Calvinismo moderado” não é Calvinismo coisa nenhuma. Isto é, muitos não-calvinistas não veem nenhum problema com o que eles creem ser um ou mais dos Cinco Pontos (isto é, uma afirmação tal como a Perseverança dos Santos), mas eles estão interpretando estas afirmações não-calvinisticamente (ou inconsistentemente com o “intento autoral”) e a verdadeira doutrina do Calvinismo às quais estas afirmações correspondem.

Coração e Alma

Deve também ser observado que, ainda que o Calvinismo seja mais do que os Cinco Pontos, não há nenhum Calvinismo sem os Cinco Pontos. Um tanto claramente eles representam o coração e a alma do Calvinismo. Dessa forma, verdadeiramente entender os cinco pontos é entender o Calvinismo. Compreender mal os cinco pontos é compreender mal o Calvinismo. De acordo com o notório estudioso calvinista Loraine Boettner:

O sistema calvinista enfatiza especialmente cinco doutrinas distintas. Estas são tecnicamente conhecidas como ‘Os Cinco Pontos do Calvinismo’ e são os principais pilares sobre os quais a superestrutura se apoia. [3]

Por esta razão, deve ser óbvio que a superestrutura do Calvinismo, de modo geral, não é mais firme do que os cinco pilares (isto é, os Cinco Pontos) sobre os quais ela se apoia.

Tudo ou Nada

Boettner continua e explica que:

Estas não são doutrinas isoladas e independentes, mas estão tão inter-relacionadas que elas formam um sistema simples, harmonioso e auto consistente, e a forma com que elas se encaixam como partes componentes de um todo bem ordenado têm conquistado a admiração de homens sérios de todos os credos. Prove que qualquer uma delas é falsa e todo o sistema deve ser abandonado. Todas elas se encaixam perfeitamente umas nas outras. [4]

Por essa razão, deve também ser enfatizado que qualquer tentativa de selecionar um dos Cinco Pontos e tentar interpretar esse ponto (ou adotá-lo) como se ele permanecesse sozinho, é também interpretá-lo não-calvinisticamente. Como diz o teólogo calvinista Gise J. Van Baren:

Os cinco pontos do Calvinismo estão intimamente relacionados. Um ponto pressupõe os outros. [5]

Isto não significa que você não possa honesta e precisamente (em um sentido não-calvinista) dizer que você crê na “Depravação Total” ou “Perseverança dos Santos” e não em (vamos dizer, como muitos fazem) “Expiação Limitada” ou “Graça Irresistível.” Antes, significa que quando você diz que crê em todos eles, você provavelmente não tem a mesma coisa em mente que tem o calvinista. Assim, você pode não falar sobre os Cinco Pontos do Calvinismo per se. O bastante respeitado defensor dos cinco pontos, J. I. Packer, alerta que:

…o próprio fato que a soteriologia calvinista é exposta sob a forma de cinco pontos distintos (um número devido, conforme já explicamos, meramente ao fato de haver cinco pontos arminianos para serem respondidos pelo Sínodo de Dort) tende por obscurecer o caráter orgânico do pensamento calvinista sobre a questão. Pois esses cinco pontos, apesar de declarados em separado, na verdade são indivisíveis uns dos outros. Eles dependem uns dos outros; ninguém pode rejeitar um deles sem rejeitar todos, pelo menos no sentido tencionado pelo Sínodo de Dort. Para o calvinismo, na realidade, há somente um único ponto a ser enfatizado no campo da soteriologia. [6]

Qual é o Ponto?

Packer reduz esse um ponto às palavras “Deus salva pecadores.” Se é a isso que realmente os Cinco Pontos reduzem, eu não teria nenhum problema com os Cinco Pontos. Entretanto, apesar do que diz Packer, como será demonstrado, esse “um ponto” do Calvinismo pode ser comparado a uma moeda de duas faces. Embora raramente, se é que alguma vez foi afirmado de forma tão direta assim, esse “um ponto” pode ser resumido como segue:

Uma pessoa será salva ou condenada por toda a eternidade porque ela foi salva ou condenada desde toda a eternidade.

Isto é, de acordo com o Calvinismo, Deus é tão responsável (e responsável da mesma maneira) por condenar os pecadores que condena quanto é por salvar os pecadores que salva. Isto se tornará particularmente claro em nossa discussão do segundo ponto do Calvinismo (isto é, a Eleição Incondicional).

Por que Eu não Sou Calvinista

Em muitas diferentes ocasiões, tenho ouvido calvinistas dizerem algo como o seguinte:

Se somente cada cristão verdadeiro com um conhecimento prático da Escritura entendesse o Calvinismo em geral e os cinco pontos em particular, ele seria um calvinista de cinco pontos.

Entretanto, como espero que se torne evidente, é precisamente porque eu entendo o Calvinismo em geral e os cinco pontos em particular que eu não sou calvinista – de qualquer tipo. Tenho gasto mais de 27 anos com estudo sério da Escritura. Não poderia sequer começar a calcular as centenas de horas que me dediquei ao estudo da Teologia Bíblica, Sistemática e Histórica. Com grande interesse, tenho também cuidadosamente lido os escritos de calvinistas assim como aqueles considerados mais moderados. Assim como os calvinistas podem e entendem os sistemas de teologia não-calvinistas sem adotá-los, da mesma forma os não-calvinistas, tais como eu mesmo, podem entender o Calvinismo e ainda rejeitá-lo como contrário às Escrituras.

Se você entender o Calvinismo e ainda rejeitá-lo (como eu faço), alguns calvinistas concluirão que você não deve realmente crer na Bíblia como a Palavra de Deus. Nada poderia estar mais longe da verdade para o meu caso como para o caso de centenas de milhares de outros. Todavia, uma rejeição do Calvinismo é interpretada por alguns calvinistas como uma rejeição da Palavra de Deus. Dessa forma, Boettner argumenta que:

A Bíblia desdobra um esquema de redenção que é calvinista do início ao fim, e estas doutrinas são ensinadas com tal inescapável clareza que a questão é estabelecida para todos aqueles que aceitam a Bíblia como a Palavra de Deus. [7]

Outros calvinistas (talvez a maioria) veem a rejeição do Calvinismo pelos cristãos evangélicos como resultado da aceitação do Arminianismo.

Razões Não-Arminianas

Entretanto, quero deixar publicamente claro que eu não estou em desacordo com o Calvinismo por razões “arminianas.” Digo isto porque um mito comum perpetuado por alguns calvinistas, assim como por alguns arminianos, é que se você é um cristão evangélico e não é calvinista, você deve ser arminiano, pelo menos por padrão. Embora concorde com calvinistas e arminianos que estes dois sistemas de teologia são mutuamente exclusivos e, portanto não podem ser ambos verdadeiros, eu enfaticamente discordo que estas são as únicas opções evangélicas e ortodoxas. Entretanto, não estou escrevendo para explicar porque eu não sou arminiano (ou um híbrido teológico chamado “calminiano”). Algum dia eu gostaria de escrever tal livro. Entretanto, esta não é a minha presente preocupação.

Calvinistas Moderados?

Devo também chamar a atenção para o fato que há muitas pessoas que se dizem calvinistas moderados que não se identificarão com os calvinistas que eu aqui cito como representantes do que creio ser o autêntico Calvinismo. Em alguns casos, será devido ao fato que muitas pessoas equivocadamente chamam a si mesmas de calvinistas porque elas aceitaram a ideia que se você não é arminiano, você deve ser calvinista. Outros simplesmente interpretam os Cinco Pontos de uma forma não-calvinista. Frequentemente, é uma combinação de ambos.

Propósito Principal

Meu principal propósito ao escrever este livro é encorajar o leitor que pode estar inclinado a seriamente considerar adotar o Calvinismo a primeiro submeter os Cinco Pontos ao que creio ser (para o Calvinismo) a luz “severa” da Escritura. Como vejo um estudo cuidadoso da Escritura não favorece nem um pouco os Cinco Pontos. Se você já é calvinista, ou pensa que poderia ser eu somente peço que esteja certo de que você está julgando os Cinco Pontos à luz da Escritura e não simplesmente interpretando a Escritura em conformidade com os Cinco Pontos.

Um Pouco de História

Para os interessados em um pouco de história dos Cinco Pontos, deve ser entendido que eles não são apenas um reflexo das opiniões do reformador João Calvino, mas também de Santo Agostinho. Assim como o Sínodo de Dort (o sínodo que primeiro apresentou formalmente estes pontos como os Cinco Pontos do Calvinismo), foi um Sínodo calvinista, da mesma forma João Calvino era um agostiniano. Isto é especialmente verdadeiro em relação à visão agostiniana da predestinação e sua ligação com a salvação dos eleitos e a condenação dos não-eleitos. Co-autor de um dos vários livros chamados Os Cinco Pontos do Calvinismo e escrito para explicar e defender o Calvinismo, o professor Herman Hanko diz que:

De fato, nossos pais em Dordrecht sabiam bem que estas verdades apresentadas nos cânones não poderiam apenas ser traçadas à Reforma de Calvino; elas poderiam ser traçadas à teologia de Santo Agostinho, que viveu quase um milênio antes que Calvino fez sua obra em Genebra. Pois foi Agostinho quem originalmente definiu estas verdades. O próprio Calvino, muitas vezes, presta homenagem à obra de Agostinho e aponta que o que ele está dizendo tinha sido dito antes dele pelo bispo de Hipona. O Sínodo de Dordrecht estava consciente disto. [8]

Boettner concorda. Ele diz:

Foi Calvino quem desenvolveu este sistema de pensamento teológico com tal ênfase e clareza lógica que ele desde então tem carregado seu nome. Ele obviamente não originou o sistema, mas somente demonstrou o que lhe parecia resplandecer tão claramente das páginas da Santa Escritura. Agostinho gerou os princípios básicos do sistema mil anos antes de Calvino ter nascido, e todo o grupo de líderes do movimento da Reforma ensinou o mesmo. Mas foi conferido a Calvino, com seu profundo conhecimento da Escritura, seu aguçado intelecto e gênio sistematizador, demonstrar e defender estas verdades mais clara e habilmente do que tinha sido feito anteriormente. [9]

O teólogo calvinista R. Laird Harris afirma que:

Embora Calvino desse à doutrina reformada sua mais completa formulação, a teologia tinha há muito sido sustentada. Calvino teria sido o primeiro a negar sua inovação… De fato, o Calvinismo é geralmente chamado Agostinianismo. [10]

Ele é Bíblico?

É óbvio que isto, em e de si mesmo, não diz nada de bom nem de mal sobre os Cinco Pontos. Como os escritores calvinistas Steele e Thomas afirmam:

A questão de suprema importância não é como o sistema sob consideração veio a ser formulado em cinco pontos, ou porque ele foi chamado Calvinismo, mas, antes, ele é apoiado pela Escritura? A corte final de apelação para determinar a validade de qualquer sistema teológico é a inspirada e autorizada Palavra de Deus. Se o Calvinismo pode ser verificado por declaração clara e explícita da Escritura, então ele deve ser reconhecido pelos cristãos; se não, ele deve ser rejeitado. [11]

Boettner concorda:

“As Escrituras são a autoridade final pela qual os sistemas são julgados” e que “em todas as questões de controvérsia entre os cristãos, as Escrituras são aceitas como o supremo tribunal de apelação.”.

O respeitado teólogo calvinista, Charles Hodge, disse que:

É dever de todo teólogo subordinar suas teorias à Bíblia, e ensinar não o que lhe parece ser verdadeiro ou razoável, mas simplesmente o que a Bíblia ensina. [13]       

 Com isto entusiasticamente concordamos. Portanto, na metade final deste livro iremos cuidadosamente considerar o que a Escritura tem a dizer sobre as questões que os Cinco Pontos abordam.

O que os Cinco Pontos Não Estão Dizendo

Uma palavra final antes de partirmos para uma explicação do que os calvinistas têm em mente quando falam dos Cinco Pontos do Calvinismo. Como observado anteriormente, muitos evangélicos equivocadamente pensam que aceitam um ou mais de três dos Cinco Pontos e assim verdadeiramente creem que são calvinistas moderados (ou de um, dois ou três pontos). Um exemplo do que quero dizer é encontrado em um artigo intitulado “Os batistas podem se dividir a respeito do Calvinismo.” O autor deste artigo corretamente observa que:

As cinco doutrinas fundamentais do Calvinismo preciso são: A Depravação Total do homem, a eleição incondicional, a expiação limitada, a graça irresistível e a Perseverança dos Santos. [14]

Entretanto, ele imediatamente continua para dizer que:

Muitos batistas do sul não disputariam três destes pontos: a Depravação Total (todos pecaram), a eleição incondicional (os salvos são escolhidos por Deus sem consideração pelo seu próprio mérito) e a Perseverança dos Santos (uma vez salvo sempre salvo). [15]

Visto que os cristãos pensam que a doutrina calvinista da Depravação Total é simplesmente que todos pecaram, ou que a peculiaridade calvinista da eleição incondicional é que a salvação é imerecida ou mesmo que a visão calvinista da perseverança pode ser equiparada à doutrina do “uma vez salvo sempre salvo,” eles continuarão a incorretamente julgarem-se calvinistas.

Enquanto os calvinistas, juntamente com os não-calvinistas, creem que todos pecaram, que a salvação é sem mérito e que uma vez salvo sempre salvo, estas não são exclusivas ao Calvinismo ou até mesmo são peculiaridades suas ou de seus Cinco Pontos.

Explicação antes de uma Avaliação

Dessa forma, deve ser óbvio que sem uma clara e precisa explicação dos Cinco Pontos, uma avaliação justa e bíblica não é possível. Portanto, nesta próxima seção do livro (a primeira de duas principais seções), tentei permitir (tanto quanto possível) que os calvinistas de cinco pontos explicassem o que eles têm em mente quando falam sobre doutrinas como a Depravação Total e a Eleição Incondicional.


[1] R. C. Sproul, Eleitos de Deus, pp. 6, 7.

[2] Ibid., p. 75.

[3] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1932), 59.

[4] Ibid.

[5] Gise J. van Baren, The Five Points of Calvinism (Grand Rapids, MI: Reformed Free Publishing Assoc., 1976), 91.

[6] J. I. Packer, citado em The Five Points of Calvinism, David N. Steele e Curtis C. Thomas, (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1963), 22-23.

[7] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 52.

[8] H. Hanko, H. C. Hoeksema e J. van Baren, The Five Points of Calvinism (Grand Rapids, MI: Reformed Free Publishing Association, 1976), 10.

[9] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 3-4.

[10] R. Laird Harris, “Calvinism,” The Wycliffe Bible Encyclopedia, vol. 1 (Chicago, IL: Moody Press, 1975), 293.

[11] David N. Steele e Curtis C. Thomas, The Five Points of Calvinism, 24.

[12] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 51.

[13] Charles Hodge, citado em Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 50.

[14] Mark Wingfield, “Resurgent Calvinism Renews Debate Over Chance for Heaven,” Baptists Today, Feb. 16, 1995 (Vol. 13, No 4).

[15] Ibid.

Pós-Calvinismo: 3. Consequências

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Scot McKnight

Estou expressando em uma série de mensagens como “eu mudei de opinião” sobre o Calvinismo e adotei uma visão mais arminiana de se ou não o cristão pode lançar fora a redenção.

Esta jornada passou pelo livro de Hebreus, onde eu sugeri que podemos encontrar quatro elementos para cada Passagem de Advertência. Hoje eu quero analisar brevemente o quarto elemento, as consequências. Bem poucos discordarão disto, espero.

O primeiro comentário está em Hb 2.3: “Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?” A resposta subentendida é “Não escaparemos”.

Aqui estão outras para considerarmos:

3.11: Não entrarão no meu descanso.

6.4-6: É impossível outra vez renová-los para arrependimento (cf. 12.16-17).

10.26: Já não resta sacrifício pelos pecados.

10.27: Pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários.

10.28: Sem misericórdia morre.

10.30-31: O Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.

10.39: Perdição.

Se aceitarmos a proposta que as Passagens de Advertências estão lidando com os mesmos sujeitos, etc., então podemos sintetizar esta evidência nesta conclusão: o autor de Hebreus alerta um grupo específico de pessoas sobre algum pecado e dizem a elas que se cometerem esse pecado, elas se encontrarão fora da companhia de Deus. Eles serão despojados.

Não vamos dizer o que o texto diz: aqui está uma advertência extrema sobre as terríveis consequências na eternidade.

Há bastante espaço aqui para debate teológico: o que Hebreus diz é consistente tanto com a visão tradicional/ortodoxa da eterna separação de Deus assim como com as mais recentes visões de alguns evangélicos britânicos sobre o Aniquilacionismo. Quanto a isso, estou certo que meus amigos teológicos católicos romanos me dirão que é também consistente com o purgatório. Vamos deixar isso para lá por agora (algum dia, no entanto). A advertência de Hebreus é extrema. Não se trata de uma ruptura de comunhão, mas do “grande abismo”.

Amanhã, escreverei sobre a exortação dada pelo autor à sua audiência.

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Pós-Calvinismo: 1. Dias de Estudante em Trinity

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Scot McKnight

Quando fui para Trinity no outono de 1976, a primeira coisa que notei foi quão intrincadas eram as discussões teológicas. Aquelas pessoas sabiam do que estavam falando e conheciam textos bíblicos, discussões teológicas e a história da Igreja. Tive certo trabalho para estar apto a participar dos debates. Foi um desafio pelo qual sou grato até hoje.

 

O Calvinismo não era uma questão prioritária, mas poderia surgir a qualquer momento, bastando que alguém desse alguma informação desencontrada. Tive alguns palestrantes maravilhosos: H. Dermott McDonald era um excêntrico teólogo de Londres que nos dizia que nosso plano de estudo era a biblioteca e que devíamos ir para lá estudar sobre “Deus, o Homem e Cristo”, e então voltar para fazer seu exame no final. David Wells ensinava Pecado e Salvação, e começou nos contando que sua mulher dizia que ele poderia ensinar a primeira metade da classe dando uma autobiografia. McDonald não era calvinista; Wells era. Meus professores de Novo Testamento não levantavam tais assuntos: Norm Ericsen e Murray Harris. Mas então Grant Osborne veio para TEDS (Trinity Evangelical Divinity School). (Assim, eu posso culpar Grant por esta jornada, o que ele ficaria feliz por obter os créditos).

 

Vou passar um relato do que aconteceu. Grant é famoso por seus panfletos, e ele tinha um sobre a Segurança Eterna. Era um folheto extenso e ele me pediu para trabalhar nele, adicionar alguma bibliografia e em geral reescrevê-lo. Foi uma grande tarefa para mim, mas era a primeira chance real que eu tive de fazer algo desse nível. Para me preparar, Grant sugeriu que eu lesse Kept by the Power of God, de I. Howard Marshall. O que eu fiz. De capa a capa; sublinhei algumas partes; tomei notas; consultei comentários. Levou um bom tempo. Quando fiz uma pausa em Hebreus, eu estava persuadido de que estava equivocado sobre o Calvinismo. Como C. S. Lewis subindo em um ônibus e então descendo convertido, mas não sabendo quando ou como, da mesma forma aconteceu comigo: do começo de meu trabalho com as notas de Grant até a leitura de Marshall e discutindo com ele até que ele me jogou ao chão e me imobilizou, eu me convenci de que não era mais calvinista. Isso não significa que eu abandonei a arquitetura do Calvinismo, mas apenas sua teologia.

 

Era e ainda é minha convicção de que os cinco pontos são interdependentes. Você pode abandonar o 5º de alguma forma (eu não acho que pode, mas alguns pensam que sim) e você precisaria adicionar um 6º (Responsabilidade), mas se o entendimento arminiano de “perder a salvação” está correto, então o Calvinismo não está correto. (Eventualmente irei mostrar por que eu não gosto da expressão “perder a salvação”.) Me deixa ser mais claro: se a graça de Deus pode ser resistida de alguma maneira, se os crentes podem de alguma forma escolher privar-se de sua salvação, então a eleição incondicional e a graça irresistível (e provavelmente a expiação limitada) e certamente a perseverança/preservação dos santos não estão corretas.

 

Encontrei duas grandes fraquezas na teologia do Calvinismo (e também uma desorientação em sua arquitetura): em primeiro lugar, a ênfase de sua arquitetura não é a ênfase da Bíblia. Seu foco na Soberania de Deus, o que muito rapidamente se torna muito menos uma doutrina de graça do que uma doutrina de controle e teodiceia, etc., e sua ênfase exagerada na depravação humana não são a ênfase que encontrei na Bíblia. Não estou contestando a presença destes temas; estou contestando que neles se encontram a gravidade da ênfase na Bíblia. Sim, eu sei que todos nós temos metanarrativas que reúnem todas as coisas, e o Calvinismo é uma dessas metanarrativas. Funciona para alguns; ele simplesmente não funciona para mim.

 

Em segundo lugar, considero deficiente, e algumas vezes completamente equivocada, a exegese do Calvinismo de passagens cruciais. Eu estava uma vez parado, anos após ter começado a lecionar em Trinity, em frente à porta de casa conversando com dois professores sobre minha visão de Hebreus, quando eu simplesmente fiz uma pergunta a um deles, “Quem você acha que melhor responde à interpretação arminiana de Hebreus?” Esse professor disse “Philip Hughes.” Eu tinha acabado de ler Hughes e o considerei fraco. De fato, o que eu pensei foi o seguinte: “Se esse é o melhor, então não há debate.” O outro professor disse, “Concordo Scot. Hughes não responde as questões.” Então ele disse, “Não tenho certeza se algum comentário realmente tenha uma resposta satisfatória.” (Esses dois professores eram calvinistas, e ainda são. Deus os abençoe.) O que estou dizendo é que conclusões exegéticas que eu estava tirando (em todos os tipos de passagens) não eram adequadamente respondidas pelos calvinistas que eu estava lendo. Eu acredito que dei a eles uma bela oportunidade.

 

Então, é aqui onde me encontrava quando parti para Nottingham fazer meu doutorado em Novo Testamento. Fui educado entre os batistas defensores da segurança eterna que pegavam o que gostavam do Calvinismo e desprezavam a maioria dos cinco pontos. Então eu me tornei mais consistentemente calvinista lendo os puritanos e Calvino.

 

Então eu li a Bíblia de um ponto de vista diferente e tudo veio abaixo. Se a Bíblia, assim concluí, ensina que alguém pode ser crente e de alguma forma privar-se desse estado, então a teologia do Calvinismo não pode estar correta.

 

Isto me deixou com uma mistura estranha de teologia: fui educado batista; tinha lido mais do que o necessário dos anabatistas da Igreja Baixa e me considerava um desses no que se refere a onde a teologização deve começar: com Jesus. E eu estava agora estudando a Bíblia com algumas conclusões arminianas sobre a soteriologia.

 

Após dois anos na TEDS inglesa, me ofereceram um emprego temporário para lecionar Novo Testamento que duraram dois anos, e então (pela graça de Deus) foi elevado para cargo integral quando Wayne Grudem, na providência de Deus, mudou para Teologia Sistemática.

 

Dentro de dois anos, fui requisitado a lecionar Hebreus em um curso acadêmico, e decidi passar meu verão inteiro realizando a exegese de Hebreus e estava determinado a me concentrar naquelas perturbadoras passagens de advertências para ver se eu poderia estabelecer as questões de uma vez por todas.

 

Se estiver certo sobre Hebreus, o Calvinismo está errado. O número de estudantes que escreveu ensaios de meio de semestre concordando comigo me deixou nervoso. Não foi nenhuma coincidência que um bem conhecido professor calvinista, a quem eu frequentemente chamava “D. A. qual é o nome dele?” na classe, começou a lecionar Hebreus logo depois.

 

Amanhã eu começarei sobre as passagens de advertências em Hebreus, sendo a mais famosa Hb 6.4-6. Eu acredito que posso provar que o autor acreditava que os “crentes” podiam privar-se de sua salvação.

Fonte: http://www.patheos.com/community/jesuscreed/2005/07/29/post-calvinism-trinity-student-days/

Tradução: Paulo Cesar Antunes




Uma Análise do Calvinismo

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____________________________________________________________________________  Philip Schaff

(History of the Christian Church, Volume 7, Capítulo XIV, § 114)

 

Não podemos deixar este importante assunto sem examinar o sistema calvinista da predestinação à luz da experiência cristã, da razão e do ensino da Bíblia.

 

O Calvinismo, como vimos, começa de um duplo decreto de predestinação absoluta, que precede a criação, e é o plano divino da história humana. Este plano inclui os estágios sucessivos da criação do homem, uma queda e condenação universal da raça, uma redenção e salvação parcial, e uma reprovação e perdição parcial: tudo para a glória de Deus e para a demonstração de seus atributos de misericórdia e justiça. A história é somente a execução do propósito original. Não pode haver nenhuma falha. O início e o fim, o plano imutável de Deus e o resultado da história do mundo, devem estar em harmonia.

 

Devemos lembrar logo no início que temos que lidar aqui com nada menos do que a solução do problema do mundo, e devemos abordá-la com reverência e um senso humilde de limitação de nossas capacidades mentais. Estamos situados, por assim dizer, ante uma montanha cujo topo está perdido nas nuvens. Muitos que ousaram subir ao cume perderam sua visão nos ofuscantes montes de neve. Dante, o mais profundo pensador entre os poetas, considera o mistério da predestinação distante demais dos mortais que não podem ver “a primeira causa em sua totalidade,” e profunda demais até para a compreensão dos santos no Paraíso, que desfrutam a visão beatífica, todavia “não conhecem todos os eleitos,” e estão satisfeitos por “desejar o que quer que Deus queira.”[1] O próprio Calvino confessa que, “a predestinação de Deus é um emaranhamento, do qual a mente do homem de forma alguma consegue desprender-se.”[2]

 

A única saída do emaranhamento é o fio de Ariadne do amor de Deus em Cristo, e este é um ainda maior, mas mais santo mistério, que podemos adorar antes que compreender.

 

OS FATOS DA EXPERIÊNCIA.

 

Encontramos em todo lugar neste mundo os traços de um Deus revelado e de um Deus oculto; revelado o suficiente para fortalecer nossa fé, oculto o suficiente para testar nossa fé.

 

Estamos cercados de mistérios. No reino da natureza vemos os contrastes de luz e trevas, dia e noite, calor e frio, verão e inferno, vida e morte, vales florescentes e desertos infecundos, pássaros canoros e serpentes venenosas, animais benéficos e bestas vorazes, a luta pela existência e a sobrevivência dos mais aptos. Passando para a vida humana, descobrimos que um homem nasce para a prosperidade, outro para a miséria; um rei, outro mendigo; um forte e saudável, o outro um paralítico desamparado; um gênio, o outro um ignorante; um inclinado à virtude, outro ao vício; um filho de um santo, o outro de um criminoso; um na escuridão do paganismo, outro na luz do Cristianismo. Tanto os melhores quanto os piores homens estão expostos a acidentes fatais, e nações inteiras com sua prole inocente são assoladas e dizimadas pela guerra, pestilência e fome.

 

Quem pode explicar todos estes e mil outras diferenças e problemas desconcertantes? Eles estão além do controle da vontade do homem, e devem ser achados na vontade inescrutável de Deus, cujos caminhos estão além da nossa compreensão.

 

Aqui, então, está a predestinação, e, aparentemente, uma dupla predestinação para o bem ou mal, para a alegria ou miséria.

 

Pecado e morte são fatos universais que ninguém em sã consciência pode negar. Eles constituem o problema dos problemas. E a única solução prática do problema é o fato da redenção. “Onde o pecado abundou, superabundou a graça; para que, assim como o pecado veio a reinar na morte, assim também viesse a reinar a graça pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 5.20, 21).

 

Se a redenção fosse tão universal em sua operação quanto o pecado, a solução seria mais satisfatória e mais gloriosa. Mas a redenção é somente em parte revelada neste mundo, e a grande questão permanece: O que será da imensa maioria dos seres humanos que vivem e morrem sem Deus e sem esperança neste mundo? Este terrível fato deve ser achado no eterno conselho de Deus ou na livre agência do homem? Aqui está o ponto onde o Agostinianismo e o Calvinismo discordam do Pelagianismo, do Semipelagianismo, do Sinergismo e do Arminianismo.

 

O sistema calvinista envolve uma verdade positiva: a eleição para a vida eterna pela graça livre, e a inferência negativa: a reprovação para a morte eterna pela justiça arbitrária. A primeira é a força, a última é a fraqueza do sistema. A primeira é praticamente aceita por todos os crentes verdadeiros; a última sempre foi, e sempre será, rechaçada pela grande maioria dos cristãos.

 

A doutrina de uma eleição graciosa é tão claramente ensinada no Novo Testamento quanto qualquer outra doutrina. Consulte passagens como Mt 25.34; Jo 6.37, 44, 65; 10.28; 15.16; 17.12; 18.9; At 13.48; Rm 8.28-39; Gl 1.4; Ef 1.4-11; 2.8-10; 1Ts 1.4; 2Ts 2.13-14; 2Tm 1.9; 1Pe 1.2. A doutrina é confirmada pela experiência. Os cristãos traçam todas as suas bênçãos temporais e espirituais, suas vidas, saúde, e força, sua regeneração e conversão, todo bom pensamento e obra à graça imerecida de Deus, e esperam ser salvos unicamente pelos méritos de Cristo, “pela graça, por meio da fé,” não pelas suas próprias obras. Quanto mais avançam na vida espiritual, mais gratos se sentem a Deus, e menos inclinados a reivindicar algum mérito. Os maiores santos são também os mais humildes. Sua teologia reflete o espírito e atitude de oração, que se apóia na convicção de que Deus é o livre doador de todo bem e dom perfeito, e que, sem Deus, não somos nada. Diante do trono da graça todos os cristãos podem ser chamados de agostinianos e calvinistas.

 

O grande mérito de Calvino é ter apresentado esta doutrina da salvação pela livre graça mais vigorosa e claramente do que qualquer teólogo desde os dias de Agostinho. Ela tem sido o tema eficaz dos grandes pregadores e escritores calvinistas na Europa e América até o dia de hoje. Howe, Owen, Baxter, Bunyan, South, Whitefield, Jonathan Edwards, Robert Hall, Chalmers, Spurgeon, foram calvinistas em seus credos, embora pertencendo a diferentes denominações, – Congregacional, Presbiteriana, Episcopal, Batista, – e não tiveram superiores em força e influência no púlpito. Spurgeon foi o pregador mais popular e eficaz do século dezenove, que se dirigia de semana a semana a cinco mil ouvintes em seu tabernáculo, e milhões de leitores através de seus sermões impressos em muitas línguas. Nem devemos nos esquecer de que alguns dos mais devotos católicos romanos foram agostinianos ou jansenistas.

 

Por outro lado, ninguém é salvo mecanicamente ou pela força, mas por meio da fé, gratuitamente, aceitando o dom de Deus. Isto implica a força contrária de rejeitar o dom. Aceitar não é nenhum mérito, rejeitar é ingratidão e culpa. Todos os pregadores calvinistas apelam à responsabilidade do homem. Eles oram como se tudo dependesse de Deus; e, no entanto pregam e agem como se tudo dependesse do homem. E a Igreja é instruída a enviar o evangelho a toda criatura. Oramos pela salvação de todos os homens, mas não pela perda de um único ser humano. Cristo intercedeu até mesmo por seus assassinos na cruz.

 

Aqui, então, está uma dificuldade prática. O decreto da reprovação não pode ser feito objeto de oração ou pregação, e este é um argumento contra ele. A experiência confirma a eleição, mas repudia a reprovação.

 

O ARGUMENTO LÓGICO.

 

O argumento lógico para a reprovação é que não pode haver nenhum positivo sem um negativo; nenhuma eleição de alguns sem uma reprovação de outros. Isto é verdadeiro por lógica dedutiva, mas não por lógica indutiva. Há graus e fases de eleição. Deve haver uma ordem cronológica na história da salvação. Todos são chamados mais cedo ou mais tarde; alguns na sexta, outros na nona, outros na décima primeira hora, de acordo com a providência de Deus. Aqueles que aceitam a chamada e perseveram na fé estão entre os eleitos (1Pe 1.1; 2.9). Aqueles que a rejeitam se tornam reprovados por sua própria incredulidade, e contra o desejo e vontade de Deus. Não há nenhum decreto antecedente de reprovação, mas somente um ato judicial de reprovação em consequência do pecado do homem.

 

A lógica é uma espada de duas pontas. Ela pode levar das premissas predestinacionistas à conclusão de que Deus é o autor do mal, o que o próprio Calvino rejeita e abomina como blasfêmia. Ela pode também levar ao fatalismo, panteísmo ou universalismo. Devemos parar em algum lugar em nosso processo de raciocínio, ou sacrificar uma parte da verdade. A lógica, deve ser lembrado, lida somente com categorias finitas, e não pode compreender verdade infinita. O Cristianismo não é um problema lógico ou matemático, e não pode ser reduzido às limitações de um sistema humano. Ele está acima de qualquer sistema particular e abrange as verdades de todos os sistemas. Está acima da lógica, todavia não é ilógico; como a revelação está acima da razão, todavia não contra a razão.

 

Não podemos imaginar Deus exceto como um ser onisciente e onipotente, que da eternidade previu e, de alguma forma, também preordenou todas as coisas que acontecem em seu universo. Ele previu o que preordenou, e preordenou o que previu; sua presciência e preordenação, sua inteligência e vontade são coeternas, e devem harmonizar-se. Não há nenhuma sucessão de tempo, nem antes nem depois no Deus eterno. A queda do primeiro homem, com seus efeitos sobre todas as futuras gerações, não pode ter sido um acidente que Deus, como um espectador passivo e neutro, simplesmente permitiu que acontecesse quando ele podia tão facilmente ter evitado. Ele deve de alguma forma ter preordenado a queda, como um meio para um fim maior, como uma condição negativa para o maior bem. Até agora a força do raciocínio, baseado na crença em um Deus pessoal, vai até o extremo do supralapsarianismo calvinista, e até mesmo além dele, à própria margem do universalismo. Se abandonarmos a ideia de um Deus autoconsciente, pessoal, a razão nos forçaria ao fatalismo ou panteísmo.

 

Mas há uma lógica da ética assim como da metafísica. Deus é santo assim como todo-poderoso e onisciente, e por essa razão não pode ser o autor do pecado. O homem é um ser tanto moral quanto intelectual, e as afirmações de sua constituição moral são iguais às suas afirmações de sua constituição intelectual. A consciência é um fator tão poderoso quanto à razão. O crente mais rígido na soberania divina, se cristão, não pode se livrar do senso de responsabilidade pessoal, apesar de incapaz de reconciliar as duas. A harmonia jaz em Deus e na constituição moral do homem. Elas são os dois lados complementares de uma verdade. Paulo as une em uma sentença: “Efetuai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13). O problema, entretanto, chega dentro do alcance da solução possível, se distinguirmos entre soberania como um poder inerente e o exercício da soberania. Deus pode limitar o exercício de sua soberania para dar lugar à livre ação de suas criaturas. É por seu decreto soberano que o homem é livre. Sem essa autolimitação ele não poderia exortar os homens ao arrependimento e à fé. Aqui, novamente, a lógica calvinista deve curvar-se ou partir-se. Estritamente executada, ela transformaria as exortações de Deus aos pecadores em uma solene zombaria e cruel ironia.

 

O ARGUMENTO DA ESCRITURA.

 

Calvino, embora um dos mais hábeis lógicos, se preocupou menos com a lógica do que com a Bíblia, e foi sua obediência à Palavra de Deus que o induziu a aceitar o decretam horribile contra seu desejo e vontade. Seu julgamento é da maior importância, pois ele não teve ninguém superior, e dificilmente alguém à altura, em conhecimento pleno e sistemático da Bíblia e em discernimento exegético.

 

E aqui devemos espontaneamente admitir que um número considerável de passagens, especialmente no Velho Testamento, favorecem um duplo decreto até o limite do extremo supralapsarianismo; sim, eles vão além do sistema calvinista, e parecem fazer do próprio Deus o autor do pecado e do mal. Veja Êx 4.21; 7.13 (repetidamente citado sobre o endurecimento do coração do Faraó por Deus); Is 6.9, 10; 44.18; Jr 6.21; Am 3.6 (“Sucederá qualquer mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?”); Pv 16.4; Mt 11.25; 13.14, 15; Jo 12.40; Rm 9.10-23; 11.7, 8; 1Co 14.3; 2Ts 2.11; 1Pe 2.8; Jd 4 (“que já desde há muito estavam destinados para este juízo”).[3]

 

A defesa da reprovação é o nono capítulo de Romanos. Não foi acidental que Calvino elaborou e publicou a segunda edição de suas Institutas simultaneamente com seu Comentário sobre Romanos, em Estrasburgo, em 1539.

 

Há especialmente três passagens em Rm 9, que em seu sentido literal favorecem o Calvinismo extremado, e são assim explicadas por alguns dos mais rigorosos comentaristas gramaticais dos tempos modernos (como Meyer e Weiss).

 

(a) 9.13: “Amei a Jacó, e aborreci a Esaú,” citado de Ml 1.2, 3. Esta passagem, se a tomarmos num sentido literal ou antropopático, não tem nenhuma referência com o destino eterno de Jacó e Esaú, mas com a posição representativa na história da teocracia. Isto remove a principal dificuldade. Esaú recebeu uma bênção temporal de seu pai (Gn 27.39, 40), e se comportou gentil e generosamente com seu irmão (33.4); ele provavelmente se arrependeu da estupidez de sua juventude de vender sua primogenitura,[4] e pode estar entre os salvos, assim como Adão e Eva – os primeiros entre os perdidos e os primeiros entre os salvos.

 

Além disso, o significado rígido de um ódio positivo parece impossível na natureza do caso, visto que contradiria tudo que conhecemos da Bíblia dos atributos de Deus. Um Deus de amor, que nos comanda a amar todos os homens, até os nossos inimigos, não pode odiar uma criança antes de seu nascimento, ou qualquer de suas criaturas feitas à sua própria imagem. “Pode uma mulher esquecer-se de seu filho de peito,” diz o Senhor, “de maneira que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse, eu, todavia, não me esquecerei de ti” (Is 49.15). Esta é a concepção do profeta das afáveis misericórdias de Deus. Quanto mais deve ser a concepção do Novo Testamento? A palavra ódio deve, por essa razão, ser entendida como uma expressão hebraística forte para amar menos ou recusar; como em Gn 29.31, onde o texto original diz, “Léia era odiada” por Jacó, isto é, amada menos do que Raquel (comp. v. 30). Quando nosso Salvador diz, Lc 14.26: “Se alguém vier a mim, e não odiar a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo,” ele não quer dizer que seus discípulos devem violar o quinto mandamento, e agir de forma contrária à sua orientação: “Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44), mas simplesmente que devemos preferir a ele acima de tudo, até da própria vida, e devemos sacrificar o que quer que venha em conflito com ele. Este significado é confirmado pela passagem paralela, Mt 10.37: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim”

 

(b) Rm 9.17. Paulo traça o endurecimento do coração do Faraó à intervenção de Deus, e até então faz Deus o responsável pelo pecado. Mas este era um ato judicial de punir o pecado com pecado; pois Faraó tinha primeiro endurecido seu próprio coração (Êx 8.15, 32; 9.34). Além disso, esta passagem não tem nenhuma referência com o destino futuro do Faraó mais do que a passagem sobre Esaú, mas ambas se referem aos seus lugares na história de Israel.

 

(c) Em 9.22 e 23, o apóstolo fala de “vasos da ira, preparados para a perdição,” e “vasos de misericórdia, que (Deus) preparou para a glória.” Mas a diferença dos verbos, e as diferenças entre a passiva (ou média) na primeira frase e a ativa na segunda é mais significante, e mostra que Deus não tem nenhuma interferência direta na destruição dos vasos da ira, que é devido à sua autodestruição; o particípio perfeito denota o resultado de um processo gradual e um estado de maturidade para a destruição, mas não um propósito divino. Calvino é um exegeta bom demais para negligenciar esta diferença, e verdadeiramente admite sua força, embora tentasse enfraquecê-la.

 

“Eles observam,” ele diz de seus oponentes, “que não é dito sem propósito, que os vasos da ira são preparados para a destruição, mas que Deus preparou os vasos de misericórdia; visto que por este modo de expressão, Paulo atribui a Deus o louvor da salvação, e lança a culpa da perdição naqueles que por suas escolhas a obtêm para si mesmos. Mas embora concorde com eles que Paulo suaviza a asperidade da primeira frase pela diferença de fraseologia; todavia não é consistente transferir a preparação para a destruição a qualquer outra coisa que não o secreto conselho de Deus, que também é afirmado bem antes no contexto, ‘que Deus levantou a Faraó, e quem ele quer ele endurece.’ De onde segue que a causa do endurecimento é o conselho secreto de Deus. Por essa razão, sustento, o que é observado por Agostinho, que quando Deus transforma lobos em ovelhas, ele os renova pela mais poderosa graça para conquistar sua obstinação; e por essa razão os obstinados não são convertidos, pois Deus exerce, não aquela graça mais poderosa, da qual não está destituído se escolhesse mostrá-la.”[5]

 

O ENSINO DE PAULO DA EXTENSÃO DA REDENÇÃO.

 

Qualquer que seja a opinião que possamos tirar destas difíceis passagens, devemos lembrar que o nono capítulo de Romanos é somente uma parte da filosofia da história de Paulo, revelada nos capítulos 9-11. Enquanto o nono capítulo estabelece a soberania divina, o décimo capítulo afirma a responsabilidade humana, e o décimo primeiro avança para a solução futura do misterioso problema, a saber, a conversão da plenitude dos gentios e a salvação de todo o Israel (11.25). E ele encerra toda a discussão com a gloriosa sentença: “Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos” (32). Esta é a chave para o entendimento, não apenas desta seção, mas de toda a epístola aos Romanos.[6]

 

E isto está em harmonia com todo o espírito e objetivo desta epístola. É mais fácil fazê-la provar um sistema de universalismo condicional do que um sistema de particularismo dualístico. O próprio tema, 1.16, declara que o evangelho é o poder de Deus para salvação, não de uma classe particular, mas de “todo aquele” que crê. Ao traçar um paralelo entre o primeiro e o segundo Adão (5.12-21), ele representa o efeito do último como igual em extensão, e maior em intensidade, do que o efeito do primeiro; enquanto no sistema calvinista deveria ser menos. Não temos direito de limitar “os muitos” e o “todos” em uma frase, e a tomarmos literalmente na outra. “Porque, se pela ofensa de um só [Adão], a morte veio a reinar por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Portanto, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação e vida. Porque, assim como pela desobediência de um só homem muitos [isto é, todos] foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um muitos [todos] serão constituídos justos” (5.17-19).[7] O mesmo paralelo, sem qualquer restrição, é mais brevemente expressado na passagem (1Co 15.22): “Como em Adão todos morrem, do mesmo modo em Cristo todos serão vivificados;” e de uma forma diferente em Rm 11.32 e Gl 3.22, já citadas.

 

Estas passagens contêm, resumidamente, a teodiceia de Paulo. Elas dissipam a obscuridade do nono capítulo de Romanos. Elas excluem todas as limitações do plano e intenção de Deus a uma classe particular; elas não ensinam, de fato, que todos os homens serão na verdade salvos – pois muitos rejeitam a oferta divina, e morrem na impenitência, – mas que Deus sinceramente deseja e verdadeiramente provê salvação para todos. Quem quer que seja salvo, é salvo pela graça; quem quer que seja perdido, é perdido por sua própria culpa da incredulidade.

 

A OFERTA DA SALVAÇÃO.

 

Ainda resta, é verdade, a grande dificuldade que a oferta de salvação é limitada neste mundo, até onde sabemos, a uma parte da raça humana, e que a grande maioria passa por este mundo sem qualquer conhecimento do Cristo histórico.

 

Mas Deus deu a todo homem a luz da razão e da consciência (Rm 1.19; 2.14, 15). O Logos Divino “alumia a todo homem” que vem ao mundo (Jo 1.9). Deus nunca deixou de “dar testemunho” de si mesmo (At 14.17). Ele lida com suas criaturas de acordo com a medida de sua capacidade e oportunidade, se têm um, cinco ou dez talentos (Mt 25.15 sqq.). Ele “não faz acepção de pessoas; mas que lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo” (At 10.35).

 

Não podemos, então, nutrir ao menos uma esperança generosa, se não uma crença firme, que um Deus de infinito amor e justiça irá receber em seu reino celestial todos aqueles que morrem inocentemente ignorantes da revelação cristã, mas em estado de boa vontade ou disposição para o evangelho, de modo que eles aceitariam agradecidamente se ele lhes fosse oferecido? Cornélio estava nessa condição antes de Pedro entrar em sua casa, e ele representa uma multidão que ninguém pode enumerar. Não podemos saber e medir as operações secretas do Espírito de Deus, que trabalha “quando, onde, e como quer.”

 

Certamente, aqui está um ponto onde o rigor da velha ortodoxia, se católica romana, ou luterana, ou calvinista, deve ser moderada. E o sistema calvinista admite uma expansão mais facilmente do que o tipo de ortodoxia eclesiástica e sacramental.

 

O AMOR GERAL DE DEUS POR TODOS OS HOMENS.

 

Esta doutrina de uma vontade e provisão divina de uma salvação universal, sob a única condição de fé, é ensinada em muitas passagens que não admitem nenhuma outra interpretação, e que devem, por essa razão, decidir toda esta questão. Pois é uma regra estabelecida em hermenêutica que passagens obscuras devem ser explicadas por passagens claras, e não vice versa. Tais passagens são as seguintes: –

 

“Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor Deus; convertei-vos, pois, e vivei” (Ez 18.32, 23; 33.11). “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” (Jo 12.32). “Porque Deus amou o mundo” (isto é, toda a humanidade) “de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). “Deus nosso Salvador deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2.4).[8] “Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens” (Tt 2.11). “O Senhor é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se” (2Pe 3.9).[9] “Jesus Cristo é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos (os pecados de) de todo o mundo” (1Jo 2.2). É impossível declarar a doutrina de uma expiação universal mais claramente em tão poucas palavras.[10]

 

A estas passagens devem ser acrescentadas as exortações divinas ao arrependimento, ao lamento de Cristo sobre os habitantes de Jerusalém que “não quiseram” vir a ele (Mt 23.37). Estas exortações são insinceras ou sem sentido, se Deus não quer que todos os homens sejam salvos, e se os homens não têm a capacidade de obedecer ou desobedecer a voz. O mesmo está implícito no comando de Cristo para pregar o evangelho a toda a criatura (Mc 16.15), e para fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.19).

 

É impossível restringir estas passagens a uma classe particular sem fazer violência à gramática e ao contexto.

 

A única forma de escape é a distinção entre uma vontade revelada de Deus, que declara sua disposição para salvar todos os homens, e uma vontade secreta de Deus, que pretende salvar somente alguns homens.[11] Agostinho e Lutero fizeram esta distinção. Calvino a usa para explicar 2Pe 3.9, e aquelas passagens do Velho Testamento que atribuem arrependimento e mudanças ao Deus imutável.

 

Mas esta distinção destrói o sistema que se pretende defender. Uma contradição entre intenção e expressão é fatal à veracidade, que é a fundação da moralidade humana, e deve ser um atributo essencial da Divindade. Um homem que diz o inverso do que pretende é chamado, em linguagem clara, de hipócrita e mentiroso. Não ajuda a questão quando Calvino diz, reiteradamente, que não há duas vontades em Deus, mas somente duas formas de falar, adaptadas à nossa fraqueza. Nem remove a dificuldade quando ele nos exorta a confiar na vontade revelada de Deus antes que meditar em sua vontade secreta.

 

A maior, a mais profunda, a mais confortante expressão na Bíblia é a expressão, “Deus é amor,” e o maior fato na história do mundo é a manifestação daquele amor na pessoa e obra de Cristo. Essa expressão e este fato são a soma e substância do evangelho, e a única sólida fundação da teologia cristã. A soberania de Deus é reconhecida por judeus e muçulmanos assim como pelos cristãos, mas o amor de Deus é revelado somente na religião cristã. É a essência íntima de Deus, e a chave para todos os seus caminhos e obras. É a verdade central que irradia luz sobre todas as outras verdades.

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] Paradiso, XX. 130-138: –

“O predestinazion, quanto rimota

È la radice tua da quegli aspetti

Che la prima cagion non veggion tota!

“E voi, mortali, tenetevi stretti

A giudicar; chè noi, che Dio vedemo,

Non conosciamo ancor tutti gli eletti:

“Ed ènne dolce così fatto scemo,

Perchè il ben nostro in questo ben s’affina,

Che quel che vuole Dio, e noi volemo.”

[2] Comentários sobre Rm 9.14: “Est prædestinatio Dei vere labyrinthus, unde hominis ingenium nullo modo se explicare queat.”

[3] A última passagem é freqüentemente citada em favor de um decreto da reprovação, mas o verbo progegrammevnoi está incorretamente traduzido como “ordenados” na E. V. Progravfw significa escrever antes, e se refere aos escritos anteriores, a saber, as Escrituras do Velho Testamento. Calvino corretamente traduz “praescripti in hoc judicium,” mas a refere, metaforicamente, ao livro do conselho divino “aeternum Dei consilium liber vocatur.”

[4] Isto está implícito em Hb 12.17, se aplicarmos metanoia ao arrependimento posterior de Esaú (Calvin, Bleek), ou a uma mudança de opinião em Isaque (Beza, Weiss).

[5] Inst.Veja Mitchell, Minutes of the Westminster Assembly, pp. 152 sqq.; Schaff, Creeds, I. 770 sq. III. cap. XXII. 1. Em seu Comentário sobre Rm 9.22, 23, ele ignora esta distinção e explica kathrtismevna, “abandonados e apontados para destruição, criados e formados para este fim” (devota et destinata exitio: sunt enim vasa iræ, id est in hoc facta et formata, ut documenta sint vindictæ et furoris Dei). Esta é a exposição supralapsariana extrema. Mas outros exegetas reformados completamente reconhecem a diferença de fraseologia. Foi pressionado pelos membros da Assembléia de Westminster que estavam de acordo com o universalismo hipotético da escola de Saumur de Cameron e Amyrauld. “Os não-eleitos,” disse o Dr. Arrowsmith, “são ditos ser preparados para a destruição que seus pecados trouxeram sobre eles, mas não por Deus.”

[6] “Das ganze Summarium und der herrliche Schlussstein des ganzen bisherigen BrieftheilsA frase “judeus e gentios” não ensina, de fato, a aceitação forçada da misericórdia por todos, mas, em qualquer caso, a universalidade do propósito e intenção divinos. Meyer vê nesta passagem um argumento exegético conclusivo contra um decretum reprobationis..” Weiss na 6a. ed. de Meyer sobre Romanos (p. 555). Godet: “C’est ici comme le point final appose à tout ce qui précede; ce dernier mot rend compte de tout le plan de Dieu, dont les phases principales viennent d’être esquissées.”

[7] Infelizmente a A. V. suprime a força do paralelo no quinto capítulo de Romanos ao negligenciar o artigo definido antes depolloiv. “Os muitos” do original é oposto ao “um,” e é equivalente ao “todos;” enquanto “muitos” seria oposto a “poucos.” A Revised Version de 1881 corrige estes erros.

[8] Calvino explica “todos os homens” como sendo homens de todas as classes e condições (“de hominum generibus, non singulis personis”). Veja seu Comentário sobre 1Tm 2.4, e seu sermão sobre a passagem. Mas o apóstolo enfatiza “todos os homens” com referência à oração por “todos os homens,” que ele comanda no versículo 1, e que não pode ser limitada.

[9] Calvino arbitrariamente explica esta passagem da “voluntas Dei quae nobis in evangelio patefit,” mas não “de arcano Dei consilio quo destinati sunt reprobi in suum exitium.”

[10] Calvino entende “totus mundus” nesta passagem como sendo “tota ecclesia!” Isto é tão impossível quanto a restrição do “mundo,” Jo 3.16, aos “eleitos.” Ele menciona, entretanto, também uma melhor explicação, que Cristo morreu “sufficienter pro toto mundo, sed pro electis tantum efficaciter.”

[11] Vários termos para a distinção: voluntas revelata e voluntas arcana; voluntas signi e voluntas beneplaciti; voluntas universalis e voluntas specialis; verbum externum et verbum internum. O texto-prova freqüentemente citado, Dt 29.29, ensina uma distinção, mas não uma contradição, entre as coisas secretas e as coisas reveladas de Deus.

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