Deus se Importa Com as Pessoas

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Uma Perspectiva Pentecostal de Lucas/Atos

 

Craig S. KeenerCraigSKeener-letrasanta

 

Everett e Esther Cook eram plantadores de igrejas pentecostais, aposentados, do oeste dos Estados Unidos. Eu os encontrei quando estavam à frente do Springfield Victory Mission, em Missouri, utilizando a renda da aposentadoria da Brother Cook. Everett e Esther Cook mentorearam alguns alunos do Central Bible College, inclusive eu. Eu ajudava na missão, colocando em prática o que estava aprendendo com a Bíblia e com o livro de Ronald Sider intitulado Rich Christians in Age of Hunger (Cristãos Ricos em Tempos de Fome).

 

O ministério dedicado aos pobres tem sido sempre uma ênfase pentecostal importante – a começar no Dia de Pentecostes. Depois do primeiro derramar do Espírito de Deus e da pregação pentecostal de Pedro, os cristãos passaram a viver sob a outorga de poder pelo Espírito (At 2.41-47). Isso incluía não somente sinais e maravilhas, oração corporativa e devoção ao ensino dos apóstolos, mas um estilo de vida radicalmente novo de servir e compartilhar. Porque aqueles cristãos amavam seus irmãos cristãos mais do que amavam suas posses, estavam predispostos a dividi-las para atender a necessidade de outros (At 2.44). Sempre que alguém se encontrava em necessidade, aqueles que possuíam mais que o suficiente para viver, vendiam o que tinham a mais para atender à necessidade de outros (2.45). Quando lemos a respeito de koinonia (comunhão) em Atos 2.42, às vezes pensamos somente em bater um papo depois de um culto (agradável como é), porém, os “irmãos” cristãos iam além do mero bate-papo para se envolverem profundamente na vida e na necessidade uns dos outros. O termo grego koinonia aparece em documentos comerciais antigos para parceiros econômicos e acionistas e, às vezes, carrega este significado no Novo Testamento também (2 Co 8.4; 9.13). Paulo comumente utilizava o verbo com este significado (Rm 12.13; 15.27; Gl 6.6, Fp 4.15).

 

Depois de a igreja orar, ao enfrentar perseguição, para que lhes concedesse coragem através de sinais e maravilhas, Deus derramou Seu Espírito mais uma vez. Um dos resultados deste derramamento foi os cristãos novamente cuidarem dos necessitados entre eles (4.31-37). Este padrão de cuidado com os pobres prosseguiu no Livro de Atos (por exemplo, 9.36-39), finalmente atravessando fronteiras culturais para servir outros grupos de necessitados cristãos na mesma cidade (6.1-6) e em fronteiras geográficas para servir igrejas necessitadas em outras localidades (11.29-30; 24.17). Esse ministério prosseguiu além da conclusão do Livro de Atos e além da preocupação com os irmãos cristãos (exemplo: Tg 5.4-5, Am 2.1), embora necessariamente tivesse que começar lá. Em meados do século II, os pagãos ricos começaram a instigar os cristãos a não cuidarem somente de seus próprios pobres, mas também os do mundo pagão. Enquanto os pagãos ricos reclamavam, a Igreja estava convertendo a maioria empobrecida de seus impérios.

 

Onde os primeiros cristãos aprenderam a servir uns aos outros dessa maneira? O Espírito deu-lhes o poder para sacrificar em prol do Reino. O aspecto mais proeminente de Seu fruto em nossas vidas é o amor (Gl 5.22). Mas o ensino e o exemplo de Jesus mostravam-lhes como o amor pode ser concretamente expresso e o Evangelho Segundo Lucas apresenta este ensino com riqueza de detalhes. Porque Lucas escreveu para que fossem lidos juntos o Evangelho Segundo Lucas e o Livro de Atos, conseguimos entender melhor o estilo de vida radical de serviço compassivo da primeira igreja pentecostal, e o que as nossas igrejas deveriam ser, examinando-se o ensino do Evangelho que a conduzia a isso.

 

A MISSÃO DE JESUS PARA O POBRE

 

Os escritores antigos, assim como os modernos, normalmente pautavam logo no início sua tese central e sintetizavam os pontos centrais em seus trabalhos. Muitos eruditos consideram Lucas 4.18-27 como o sermão programático do Evangelho Segundo Lucas, da mesma forma que Atos 1.8 e 2.17-21 expõem os temas a serem tratados no Livro de Atos. Os temas desta passagem (Jesus sendo ungido pelo Espírito, At 4.27; 10.38) são apresentados mais tarde em Lucas-Atos. A menção a Jesus pelo ministério de profetas anteriores para uma viúva estrangeira e um leproso prefigura não somente Seu próprio ministério a viúvas e leprosos no Evangelho (por exemplo, Lc 5.12-13; 7.12), mas também o ministério da Igreja para gentios no Livro de Atos. Jesus cumpriu a promessa de Isaías de que Ele pregaria as boas-novas aos pobres (Lc 6.20-25) e, mais tarde, disse a João que os sinais do Reino incluem os pobres ouvindo as boas novas (Lc 7.22).

 

Como a missão de Jesus no Evangelho Segundo Lucas nos afeta? Porque o batismo de Jesus no Espírito e a missão no Evangelho Segundo Lucas prefiguram a experiência e o ministério da Igreja em Atos, Seu modelo e missão permanecem válidos para Seus seguidores. Embora o enfoque no segundo volume de Lucas seja especialmente o evangelismo transcultural com outorga do Espírito (missões, At 1.8), o ministério aos pobres que sucedeu os derramamentos do Espírito demonstra que esta ênfase no Evangelho permanece válida para a igreja de hoje também (At 2.44, 45; 4.32-34). Nós somos chamados primeiramente para evangelizar o mundo; mas somos chamados também para cuidarmos do mundo que estamos evangelizando.

 

Jesus anunciou Sua missão baseado em um texto das Escrituras extraído de Isaías (Is 61.1-2 em Lc 4.18, 19). Seus ouvintes, conhecedores também do Livro de Isaías, estariam, portanto familiarizados com a ênfase do profeta em cuidar dos pobres e estabelecer justiça na sociedade. Se Israel negligenciasse estas questões, seus rituais religiosos não impressionariam a Deus de forma alguma e Ele não consideraria suas orações (Is 1.11-17; 58.5-7). Isaías denunciou aqueles que estavam oprimindo o pobre (por exemplo, Is 10.2), preocupados somente com acumular mais para si (Is 5.8); exortou os líderes da sociedade, que deveriam ter estabelecido justiça com maior responsabilidade (Is 3.14, 15). Outros profetas também vindicavam justiça, inclusive Amós, um dos contemporâneos de Isaías (por exemplo, Am 2.6, 7). Tanto quanto Isaías, Amós arrazoava que os sacrifícios e a religião exterior são vãos, a menos que trabalhemos para transformar a sociedade moralmente, estabelecendo justiça para aqueles que estão sendo maltratados (Am 5.21-24). Assim como o primeiro público de Jesus, nós estamos familiarizados com outras passagens relevantes dos profetas; por exemplo, defender os direitos dos necessitados é intrínseco ao nosso relacionamento com Deus (Jr 22.16). Entre os pecados de Sodoma estava o de ignorar o pobre (Ez 16.49); e mesmo um reino pagão poderia estender sua longevidade ao demonstrar misericórdia para com os necessitados (Dn 4.27).

 

O público de Jesus na sinagoga estava também familiarizado com uma passagem anterior na Lei, à qual o próprio Isaías pode ter feito alusão. A “liberdade aos cativos” e o “ano do Senhor” de Isaías 61.1, 2 deveria ecoar como ensino bíblico sobre o Ano do Jubileu (Lv 25). Porque a economia de Israel antigamente era agrária, baseada na propriedade da terra, somente aqueles que detinham terra poderiam ter a esperança de gerar seu próprio sustento. Quando algumas pessoas no mundo antigo provavam-se incapazes de sustentar a si mesmas ou eram vendidas como escravas para liquidar suas dívidas ou a porção de terra do qual dependiam era vendida. Enquanto em Israel predominava o mesmo sistema, Deus lhe reservava um plano especial. Uma vez em cada geração, todas as dívidas eram baixadas. Significava que cada geração poderia recomeçar e todo mundo partiria da mesma base para gerar seu sustento. A pobreza não se tornava um ciclo entre as gerações que mantivesse uma classe inteira de pessoas reféns permanentes de uma subclasse. Não vivemos de fato em uma sociedade agrária; para muitas pessoas hoje a educação, o conhecimento de informática e outras fontes são mais relevantes para se ganhar a vida do que a terra. Porém, os princípios básicos de buscar justiça para o nosso próximo permanecem os mesmos.

 

Jesus mencionou este texto porque descrevia acuradamente a Sua missão. Isaías falou sobre o ungido pelo Espírito para Sua missão e Jesus havia acabado de experimentar esta unção. O Espírito desceu sobre Jesus em Seu batismo (Lc 3.21, 22), conduziu-O ao deserto (4.1), onde foi provado, e O fez retornar (4.14). Jesus também ministraria aos grupos apresentados por Isaías: os pobres, os cativos (Lc 13.15, 16), o cego (7.21, 22; 18.35-43) e o oprimido (incluindo outros grupos marginalizados). Destes grupos, o Evangelho Segundo Lucas enfoca especialmente os pobres. A ênfase de Jesus no cuidado para com o necessitado em Seu exemplo e ensino explica porque os primeiros cristãos depois do Pentecostes sabiam como levar adiante sua missão.

 

ENSINOS SOBRE PARTILHAR RECURSOS NO EVANGELHO SEGUNDO LUCAS

 

João Batista, que preparou o caminho para Jesus, pregou o arrependimento como o caminho para preparar para a vinda do Reino (Lc 3.3-8), exatamente como Pedro pregaria no dia do Pentecostes (At 2.38). O que envolvia este arrependimento, em termos práticos? Quando as multidões fizeram a João esta mesma pergunta, ele respondeu que a pessoa que tivesse duas túnicas deveria dar uma a quem não tivesse nenhuma (Lc 3.10, 11). Alguns campesinos que ouviam João poderiam ter uma túnica somente, mas muitos poderiam ter duas. Podemos imaginá-los sentindo-se desconfortáveis com este pedido de sacrifício.

 

Leitores modernos costumam interpretar a passagem como hipérbole (isto é, uma afirmação retórica exagerada para reforçar um ponto). É, na verdade, possível ler esta passagem como hipérbole, mas somente se mantivermos em mente que o propósito da hipérbole seja o de comunicar graficamente um ponto básico, não permitir que simplesmente releguemos o ponto, dizendo: “Esta passagem é apenas uma hipérbole!”. O ponto de pregação de João é o que precisamos para cuidar de outras pessoas mais do que cuidamos de nós mesmos; e, se tivermos mais que o necessário, devemos estar prontos para compartilhar com aqueles que têm menos do que precisam.

 

Em uma cultura onde as pessoas avançavam convidando amigos ou outras pessoas honoráveis para banquetes, Jesus enfatizou convidar os pobres e renegar os que não poderiam reembolsar seus anfitriões (Lc 14.13-21). Como recursos compartilhados com os necessitados que ajuntaram tesouro no céu (12.33-34), os convites para esta ceia procuravam uma recompensa mais elevada que aquela disponível nesta terra. Convide aqueles que não podem recompensar você, disse Jesus, e Deus lhe recompensará no julgamento (14.14). Quando enviou seguidores para Sua primeira missão evangelística, Jesus instruiu-os a curar os enfermos e também a viajarem com simplicidade, vivendo com a simplicidade dos pobres em meio aos quais estariam ministrando (Lc 9.3; 10.4). (Aproximadamente entre 70 e 90% dos galileus eram camponeses empobrecidos. Pescadores não eram homens tecnicamente ricos, mas estavam em melhor situação que muitos outros galileus). Era para focarem no serviço e não no status ou na remuneração.

 

Embora mostrasse grande compaixão pelos necessitados e recebesse de bom grado os pecadores confessos, Jesus era muito mais severo com as pessoas que se davam por satisfeitas em termos sociais ou religiosos. Quando estou mais satisfeito, fico com frequência mais complacente e preciso de palavras mais firmes para dimensionar a minha atenção. Eu desconfio que muitas outras pessoas, lá atrás e ainda hoje, ficam semelhantemente mais expostas a riscos quando a vida torna-se confortável. Felizmente, Jesus não poupou palavras que mexessem com a complacência de seus ouvintes. Ele falou sobre um tolo rico que acumulava bens em lugar de cuidar da necessidade do próximo; ao invés de ajuntar tesouro para si mesmo no céu, ele deixou para trás sua riqueza quando foi para o inferno (Lc 12.16-21). Jesus não nos diz exatamente porque outro homem rico foi para o inferno (Lc 16.23), mas se fornece qualquer dica, esta se trata de que o homem deixou Lázaro literalmente morrer de fome no beiral de sua porta. Jesus dirigiu a parábola a alguns religiosos não salvos que “amavam o dinheiro” (16.14). Que alguém muito pobre morra de fome em nossa porta não necessariamente livra-nos de embaraços. Nossa sociedade é tão sofisticada que permite os mortalmente pobres perto de nossas portas, porém, se conhecermos tais necessidades, permanecemos responsáveis.

 

Os conselhos de Jesus para cuidarmos dos pobres não implicam que sejamos justificados por obras; a Bíblia é clara ao dizer que somos justificados pela fé somente. Mas conhecemos muitos crentes nominais, pessoas que se denominam cristãs ainda que nunca o demonstrem pelo seu modo de viver. Para todos os escritores do Novo Testamento, a genuína fé salvadora, como a genuína compaixão cristã, deve ser expressa de maneiras concretas. Tiago alerta que a fé não acompanhada por ação concreta não é a genuína fé salvadora (Tg 2.14). Ele ilustra esta verdade ao perguntar: “Se um irmão ou uma irmã não tiver roupa para vestir nem comida para comer e um de vocês disser: ‘Que você fique bem, que você seja aquecido com roupas e que seja satisfeito com comida’, mas não fornece nenhuma assistência prática, que ajuda concreta deu? Assim também a fé sem obras para demonstrá-la é morta”. (Tg 2.15-17, paráfrase minha).

 

A pregação de Jesus tampouco significa que Ele fosse contrário ao rico. Não se trata de o quanto de dinheiro se pudesse ter, mas do que fazer com o que se tinha. Jesus despendia tempo considerável ministrando a coletores de impostos. Embora social e moralmente marginalizados, esses coletores não eram em geral marginalizados economicamente.

 

Eles sempre tomavam uma porção farta do que Roma ou Herodes Antipas exigia dos pobres e eram, às vezes, brutais na arrecadação de fundos. Algumas vezes ficaram conhecidos por bater em velhas senhoras para descobrir onde estavam seus filhos, responsáveis pelo pagamento de impostos, que haviam fugido. Sua má reputação crescia de tal forma que algumas vilas no Egito, deixando de pagar os próprios impostos, abandonavam suas casas e começavam novas vilas em quaisquer outros lugares ao ouvirem que os coletores de impostos estavam chegando. Os coletores de impostos estavam entre as pessoas ricas que oprimiam os camponeses galileus a quem Jesus também ministrava, porém Jesus estendeu o braço para os coletores também.

 

Jesus disse que uma pessoa rica passar para o Reino era como um camelo passar pelo buraco de uma agulha. (Apesar de os melhores esforços de alguns escritores modernos para contornar isto, o buraco de uma agulha significava a mesma coisa que significa hoje: o proposto portão de Jerusalém “buraco da agulha” não estava construído até a Idade Média). Jesus provavelmente estava recorrendo a uma hipérbole, entretanto, porque alguns ricos não O haviam seguido. Zaqueu, um rico coletor de impostos, deu metade de seus bens aos pobres e ofereceu-se para restituir quatro vezes mais a quem havia ludibriado (o que possivelmente diminuiu uma porção considerável da outra metade; Lc 19.8). O rico José de Arimateia foi além do compromisso dos discípulos mais imediatos de Jesus perguntando diretamente a Pilatos sobre o corpo de Jesus. Identificar-se publicamente com alguém crucificado acusado de traição (clamando ser “Rei dos Judeus”) era arriscar a vida, mesmo que pertencesse à aristocracia.

 

AS EXIGÊNCIAS DE JESUS PARA TODOS OS DISCÍPULOS

 

Tampouco deveríamos supor que Jesus faz exigências somente para os ricos. Normalmente nós temos nossas maneiras de ler as exigências de Jesus lá atrás sem pensar que tenham qualquer coisa a dizer-nos. Assim como pontuou Dietrich Bonhoeffer, quando Jesus ordenava a um legislador rico que desse todos os seus bens aos pobres (Lc 18.22), normalmente despendemos mais tempo explicando que Jesus estava dirigindo-se somente a aquele legislador do que nos perguntando que implicações o versículo poderia ter para nós. Bonhoeffer era um teólogo alemão que morreu por sua campanha contra Hitler. Ele leu a Bíblia com a mesma coragem que viveu, reclamando que muito frequentemente os teólogos ajudam a contornar os ensinos de Jesus ao invés de ajudarem a obedecê-los.

 

Contrário ao que normalmente assumimos, Jesus falou não somente àquele jovem rico, mas a todos os Seus discípulos, para que vendessem seus bens e ajuntassem tesouros no céu (Lc 12.33). Jesus não achava como alguns têm alegado que o dinheiro era mau; antes, o dinheiro simplesmente não tinha valor comparado aos investimentos eternos que podemos fazer na vida de outras pessoas (Lc 16.9-13). Ele prometeu que Deus suprirá nossas necessidades se buscarmos o Seu reino (12.22-32) e convidou a nos prepararmos para o Reino investindo parcialmente nossos recursos naquilo que realmente importa (12.33-40).

 

Charles Finney, um evangelista do século XIX que levou talvez um milhão de pessoas a Cristo, pregou sobre Lucas 14.33 em uma rica igreja de Boston. Nesta passagem, explicando o custo do Reino, Jesus alertou que ninguém pode ser Seu discípulo aquele que não renunciar às suas posses (14.33). O pastor, Lymam Beecher, encerrou o sermão de Finney assegurando à congregação que Deus jamais lhes pediria que desistissem de suas posses; eles simplesmente precisavam estar “desejosos” de fazê-lo. Finney disse que Deus pode exigir de nós o que quiser; nós não perdemos todos os nossos bens no momento da conversão, mas perdemos a propriedade sobre eles. Finney entendia que se Cristo for verdadeiramente Senhor de nossa vida, Ele é também Senhor de tudo o que temos.

 

Assim como pescadores e primeiros discípulos de Jesus (Lc 5.10,11), muitos de nós no ministério deixamos para trás carreiras alternativas potencialmente lucrativas para atender ao chamado de Deus; temos mostrado que valorizamos o Reino acima dos tesouros da terra. Além disso, é mais confortável até mesmo para nós olharmos a outra forma em vez de dolorosamente confrontar o sofrimento além das esferas imediatas de ministério.

 

Segundo algumas estatísticas, 35.000 crianças morrem diariamente de má nutrição e doenças passíveis de prevenção, mas esses números são insensíveis e abstratos demais para que nos atenhamos emocionalmente. Para colocar estas questões em uma perspectiva um pouco mais gráfica, nós ficamos, com razão, exasperados no assassinato de 3.000 seres humanos nas Torres Gêmeas na cidade de Nova York. Porém, 35.000 é mais que dez vezes o número de crianças morrendo todos os dias. A distância não deveria diminuir a compaixão; Paulo incitava a igreja em uma parte do mundo a cuidar da igreja em outras partes do mundo (Rm 15.26; 2 Co 8.13, 14).

 

As estatísticas não são tão tenebrosas em nosso próprio país, mas para centenas de milhares de pessoas sem teto, incluindo adolescentes fugitivos frequentemente forçados à prostituição, as implicações aqui não são menos perturbadoras. Por mais úteis que as estatísticas sejam, a Palavra de Deus e nosso engajamento com a genuína necessidade humana nos moverá mais que qualquer soma de estatística consegue, porque Deus colocou o Seu amor em nossos corações. As Escrituras lembram-nos que Cristo deu Sua vida por nós e perguntam como podemos nos recusar a cuidar de nossos irmãos e irmãs em Cristo necessitados (1Jo 3.16, 17). Nos anos iniciais na missão em Springfield, Missouri, e nos anos mais recentes de ministério, vivendo em alojamento de projetos normalmente pobre e infestado de drogas, deparei-me com rostos que eu não poderia ignorar com a mesma facilidade que consigo alhear-me das estatísticas.

 

Jesus chama para sacrificarmos nossas vidas pelo Seu Reino; parte do que significa servir ao Seu Reino é encontrar a necessidade humana, porque as pessoas são o que duram para sempre, se forem pessoas que já são nossos irmãos e irmãs que Deus deseja que sejam (isto é, todo mundo; 1Tm 2.4; 2Pd 3.9). A partir de ministérios como o Teen Challenge to Calcutta’s Mission of Mercy (Desafio Jovem para a Missão de Misericórdia de Calcutá), nossas obras de compaixão também revelam Cristo em formas que chamam a atenção do mundo para o nosso Mestre. Possa o Espírito outorgar-nos poder hoje, como no primeiro Pentecostes, para revelar Seu coração ao mundo.

Deus se Importa com as Pessoas

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Craig S. Keener pergaminho

 

Everett e Esther Cook eram plantadores de igrejas pentecostais, aposentados, do oeste dos Estados Unidos. Eu os encontrei quando estavam à frente do Springfield Victory Mission, em Missouri, utilizando a renda da aposentadoria da Brother Cook. Everett e Esther Cook mentorearam alguns alunos do Central Bible College, inclusive eu. Eu ajudava na missão, colocando em prática o que estava aprendendo com a Bíblia e com o livro de Ronald Sider intitulado Rich Christians in Age of Hunger (Cristãos Ricos em Tempos de Fome).

 O ministério dedicado aos pobres tem sido sempre uma ênfase pentecostal importante – a começar no Dia de Pentecostes. Depois do primeiro derramar do Espírito de Deus e da pregação pentecostal de Pedro, os cristãos passaram a viver sob a outorga de poder pelo Espírito (At 2.41-47). Isso incluía não somente sinais e maravilhas, oração corporativa e devoção ao ensino dos apóstolos, mas um estilo de vida radicalmente novo de servir e compartilhar. Porque aqueles cristãos amavam seus irmãos cristãos mais do que amavam suas posses, estavam predispostos a dividi-las para atender a necessidade de outros (At 2.44). Sempre que alguém se encontrava em necessidade, aqueles que possuíam mais que o suficiente para viver vendiam o que tinham a mais para atender à necessidade de outros (2.45). Quando lemos a respeito de koinonia (comunhão) em Atos 2.42, às vezes pensamos somente em bater um papo depois de um culto (agradável como é), porém, os “irmãos” cristãos iam além do mero bate-papo para se envolverem profundamente na vida e na necessidade uns dos outros. O termo grego koinonia aparece em documentos comerciais antigos para parceiros econômicos e acionistas e, às vezes, carrega este significado no Novo Testamento também (2Co 8.4; 9.13). Paulo comumente utilizava o verbo com este significado (Rm 12.13; 15.27; Gl 6.6, Fp 4.15).

 Depois de a igreja orar, ao enfrentar perseguição, para que lhes concedesse coragem através de sinais e maravilhas, Deus derramou Seu Espírito mais uma vez. Um dos resultados deste derramamento foi os cristãos novamente cuidarem dos necessitados entre eles (4.31-37). Este padrão de cuidado com os pobres prosseguiu no Livro de Atos (por exemplo, 9.36-39), finalmente atravessando fronteiras culturais para servir outros grupos de necessitados cristãos na mesma cidade (6.1-6) e em fronteiras geográficas para servir igrejas necessitadas em outras localidades (11.29-30; 24.17). Esse ministério prosseguiu além da conclusão do Livro de Atos e além da preocupação com os irmãos cristãos (exemplo: Tg 5.4-5, Am 2.1), embora necessariamente tivesse que começar lá. Em meados do século II, os pagãos ricos começaram a instigar os cristãos a não cuidarem somente de seus próprios pobres, mas também os do mundo pagão. Enquanto os pagãos ricos reclamavam, a Igreja estava convertendo a maioria empobrecida de seus impérios.

 Onde os primeiros cristãos aprenderam a servir uns aos outros dessa maneira? O Espírito deu-lhes o poder para sacrificar em prol do Reino. O aspecto mais proeminente de Seu fruto em nossas vidas é o amor (Gl 5.22). Mas o ensino e o exemplo de Jesus mostravam-lhes como o amor pode ser concretamente expresso e o Evangelho Segundo Lucas apresenta este ensino com riqueza de detalhes. Porque Lucas escreveu para que fossem lidos juntos o Evangelho Segundo Lucas e o Livro de Atos, conseguimos entender melhor o estilo de vida radical de serviço compassivo da primeira igreja pentecostal, e o que as nossas igrejas deveriam ser, examinando-se o ensino do Evangelho que a conduzia a isso.

 

A MISSÃO DE JESUS PARA O POBRE

 Os escritores antigos, assim como os modernos, normalmente pautavam logo no início sua tese central e sintetizavam os pontos centrais em seus trabalhos. Muitos eruditos consideram Lucas 4.18-27 como o sermão programático do Evangelho Segundo Lucas, da mesma forma que Atos 1.8 e 2.17-21 expõe os temas a serem tratados no Livro de Atos. Os temas desta passagem (Jesus sendo ungido pelo Espírito, At 4.27; 10.38) são apresentados mais tarde em Lucas-Atos. A menção a Jesus pelo ministério de profetas anteriores para uma viúva estrangeira e um leproso prefigura não somente Seu próprio ministério a viúvas e leprosos no Evangelho (por exemplo, Lc 5.12-13; 7.12), mas também o ministério da Igreja para gentios no Livro de Atos. Jesus cumpriu a promessa de Isaías de que Ele pregaria as boas-novas aos pobres (Lc 6.20-25) e, mais tarde, disse a João que os sinais do Reino incluem os pobres ouvindo as boas novas (Lc 7.22).

 Como a missão de Jesus no Evangelho Segundo Lucas nos afeta? Porque o batismo de Jesus no Espírito e a missão no Evangelho Segundo Lucas prefiguram a experiência e o ministério da Igreja em Atos, Seu modelo e missão permanecem válidos para Seus seguidores. Embora o enfoque no segundo volume de Lucas seja especialmente o evangelismo transcultural com outorga do Espírito (missões, At 1.8), o ministério aos pobres que sucedeu os derramamentos do Espírito demonstram que esta ênfase no Evangelho permanece válida para a igreja de hoje também (At 2.44, 45; 4.32-34). Nós somos chamados primeiramente para evangelizar o mundo; mas somos chamados também para cuidarmos do mundo que estamos evangelizando.

 Jesus anunciou Sua missão baseado em um texto das Escrituras extraído de Isaías (Is 61.1-2 em Lc 4.18, 19). Seus ouvintes, conhecedores também do Livro de Isaías, estariam portanto familiarizados com a ênfase do profeta em cuidar dos pobres e estabelecer justiça na sociedade. Se Israel negligenciasse estas questões, seus rituais religiosos não impressionariam a Deus de forma alguma e Ele não consideraria suas orações (Is 1.11-17; 58.5-7). Isaías denunciou aqueles que estavam oprimindo o pobre (por exemplo, Is 10.2), preocupados somente com acumular mais para si (Is 5.8); exortou os líderes da sociedade, que deveriam ter estabelecido justiça com maior responsabilidade (Is 3.14, 15). Outros profetas também vindicavam justiça, inclusive Amós, um dos contemporâneos de Isaías (por exemplo, Am 2.6, 7). Tanto quanto Isaías, Amós arrazoava que os sacrifícios e a religião exterior são vãos, a menos que trabalhemos para transformar a sociedade moralmente, estabelecendo justiça para aqueles que estão sendo maltratados (Am 5.21-24). Assim como o primeiro público de Jesus, nós estamos familiarizados com outras passagens relevantes dos profetas; por exemplo, defender os direitos dos necessitados é intrínseco ao nosso relacionamento com Deus (Jr 22.16). Entre os pecados de Sodoma estava o de ignorar o pobre (Ez 16.49); e mesmo um reino pagão poderia estender sua longevidade ao demonstrar misericórdia para com os necessitados (Dn 4.27).

 O público de Jesus na sinagoga estava também familiarizado com uma passagem anterior na Lei, à qual o próprio Isaías pode ter feito alusão. A “liberdade aos cativos” e o “ano do Senhor” de Isaías 61.1, 2 deveria ecoar como ensino bíblico sobre o Ano do Jubileu (Lv 25). Porque a economia de Israel antigamente era agrária, baseada na propriedade da terra, somente aqueles que detinham terra poderiam ter a esperança de gerar seu próprio sustento. Quando algumas pessoas no mundo antigo provavam-se incapazes de sustentar a si mesmas ou eram vendidas como escravas para liquidar suas dívidas ou a porção de terra do qual dependiam era vendida. Enquanto em Israel predominava o mesmo sistema, Deus lhe reservava um plano especial. Uma vez em cada geração, todas as dívidas eram baixadas. Significava que cada geração poderia recomeçar e todo mundo partiria da mesma base para gerar seu sustento. A pobreza não se tornava um ciclo entre as gerações que mantivesse uma classe inteira de pessoas reféns permanentes de uma subclasse. Não vivemos de fato em uma sociedade agrária; para muitas pessoas hoje a educação, o conhecimento de informática e outras fontes são mais relevantes para se ganhar a vida do que a terra. Porém, os princípios básicos de buscar justiça para o nosso próximo permanecem os mesmos.

 Jesus mencionou este texto porque descrevia acuradamente a Sua missão. Isaías falou sobre o ungido pelo Espírito para Sua missão e Jesus havia acabado de experimentar esta unção. O Espírito desceu sobre Jesus em Seu batismo (Lc 3.21, 22), conduziu-O ao deserto (4.1), onde foi provado, e O fez retornar (4.14). Jesus também ministraria aos grupos apresentados por Isaías: os pobres, os cativos (Lc 13.15, 16), o cego (7.21, 22; 18.35-43) e o oprimido (incluindo outros grupos marginalizados). Destes grupos, o Evangelho Segundo Lucas enfoca especialmente os pobres. A ênfase de Jesus no cuidado para com o necessitado em Seu exemplo e ensino explica porque os primeiros cristãos depois do Pentecostes sabiam como levar adiante sua missão.

 

ENSINOS SOBRE PARTILHAR RECURSOS NO EVANGELHO SEGUNDO LUCAS

 João Batista, que preparou o caminho para Jesus, pregou o arrependimento como o caminho para preparar para a vinda do Reino (Lc 3.3-8), exatamente como Pedro pregaria no dia do Pentecostes (At 2.38). O que envolvia este arrependimento, em termos práticos? Quando as multidões fizeram a João esta mesma pergunta, ele respondeu que a pessoa que tivesse duas túnicas deveria dar uma a quem não tivesse nenhuma (Lc 3.10, 11). Alguns campesinos que ouviam João poderiam ter uma túnica somente, mas muitos poderiam ter duas. Podemos imaginá-los sentindo-se desconfortáveis com este pedido de sacrifício.

 Leitores modernos costumam interpretar a passagem como hipérbole (isto é, uma afirmação retórica exagerada para reforçar um ponto). É, na verdade, possível ler esta passagem como hipérbole, mas somente se mantivermos em mente que o propósito da hipérbole seja o de comunicar graficamente um ponto básico, não permitir que simplesmente releguemos o ponto, dizendo: “Esta passagem é apenas uma hipérbole!”. O ponto de pregação de João é o que precisamos para cuidar de outras pessoas mais do que cuidamos de nós mesmos; e, se tivermos mais que o necessário, devemos estar prontos para compartilhar com aqueles que têm menos do que precisam.

 Em uma cultura onde as pessoas avançavam convidando amigos ou outras pessoas honoráveis para banquetes, Jesus enfatizou convidar os pobres e renegar os que não poderiam reembolsar seus anfitriões (Lc 14.13-21). Como recursos compartilhados com os necessitados que ajuntaram tesouro no céu (12.33-34), os convites para esta ceia procuravam uma recompensa mais elevada que aquela disponível nesta terra. Convide aqueles que não podem recompensar você, disse Jesus, e Deus lhe recompensará no julgamento (14.14). Quando enviou seguidores para Sua primeira missão evangelística, Jesus instruiu-os a curar os enfermos e também a viajarem com simplicidade, vivendo com a simplicidade dos pobres em meio aos quais estariam ministrando (Lc 9.3; 10.4). (Aproximadamente entre 70 e 90% dos galileus eram camponeses empobrecidos. Pescadores não eram homens tecnicamente ricos, mas estavam em melhor situação que muitos outros galileus). Era para focarem no serviço e não no status ou na remuneração.

 Embora mostrasse grande compaixão pelos necessitados e recebesse de bom grado os pecadores confessos, Jesus era muito mais severo com as pessoas que se davam por satisfeitas em termos sociais ou religiosos. Quando estou mais satisfeito, fico com frequência mais complacente e preciso de palavras mais firmes para dimensionar a minha atenção. Eu desconfio que muitas outras pessoas, lá atrás e ainda hoje, ficam semelhantemente mais expostas a riscos quando a vida torna-se confortável. Felizmente, Jesus não poupou palavras que mexessem com a complacência de seus ouvintes. Ele falou sobre um tolo rico que acumulava bens em lugar de cuidar da necessidade do próximo; ao invés de ajuntar tesouro para si mesmo no céu, ele deixou para trás sua riqueza quando foi para o inferno (Lc 12.16-21). Jesus não nos diz exatamente porque um outro homem rico foi para o inferno (Lc 16.23), mas se fornece qualquer dica, esta se trata de que o homem deixou Lázaro literalmente morrer de fome no beiral de sua porta. Jesus dirigiu a parábola a alguns religiosos não salvos que “amavam o dinheiro” (16.14). Que alguém muito pobre morra de fome em nossa porta não necessariamente livra-nos de embaraços. Nossa sociedade é tão sofisticada que permite os mortalmente pobres perto de nossas portas, porém, se conhecermos tais necessidades, permanecemos responsáveis.

 Os conselhos de Jesus para cuidarmos dos pobres não implicam que sejamos justificados por obras; a Bíblia é clara ao dizer que somos justificados pela fé somente. Mas conhecemos muitos crentes nominais, pessoas que se denominam cristãs ainda que nunca o demonstrem pelo seu modo de viver. Para todos os escritores do Novo Testamento, a genuína fé salvadora, como a genuína compaixão cristã, deve ser expressa de maneiras concretas. Tiago alerta que a fé não acompanhada por ação concreta não é a genuína fé salvadora (Tg 2.14). Ele ilustra esta verdade ao perguntar: “Se um irmão ou uma irmã não tiver roupa para vestir nem comida para comer e um de vocês disser: ‘Que você fique bem, que você seja aquecido com roupas e que seja satisfeito com comida’, mas não fornece nenhuma assistência prática, que ajuda concreta deu? Assim também a fé sem obras para a demonstrar é morta”. (Tg 2.15-17, paráfrase minha).

 A pregação de Jesus tampouco significa que Ele fosse contrário ao rico. Não se trata de o quanto de dinheiro se pudesse ter, mas do que fazer com o que se tinha. Jesus despendia tempo considerável ministrando a coletores de impostos. Embora social e moralmente marginalizados, esses coletores não eram em geral marginalizados economicamente.

 Eles sempre tomavam uma porção farta do que Roma ou Herodes Antipas exigia dos pobres e eram, às vezes, brutais na arrecadação de fundos. Algumas vezes ficaram conhecidos por bater em velhas senhoras para descobrir onde estavam seus filhos, responsáveis pelo pagamento de impostos, que haviam fugido. Sua má reputação crescia de tal forma que algumas vilas no Egito, deixando de pagar os próprios impostos, abandonavam suas casas e começavam novas vilas em quaisquer outros lugares ao ouvirem que os coletores de impostos estavam chegando. Os coletores de impostos estavam entre as pessoas ricas que oprimiam os camponeses galileus a quem Jesus também ministrava, porém Jesus estendeu o braço para os coletores também.

 Jesus disse que uma pessoa rica passar para o Reino era como um camelo passar pelo buraco de uma agulha. (Apesar de os melhores esforços de alguns escritores modernos para contornar isto, o buraco de uma agulha significava a mesma coisa que significa hoje: o proposto portão de Jerusalém “buraco da agulha” não estava construído até a Idade Média). Jesus provavelmente estava recorrendo a uma hipérbole, entretanto, porque alguns ricos não O haviam seguido. Zaqueu, um rico coletor de impostos, deu metade de seus bens aos pobres e ofereceu-se para restituir quatro vezes mais a quem havia ludibriado (o que possivelmente diminuiu uma porção considerável da outra metade; Lc 19.8). O rico José de Arimateia foi além do compromisso dos discípulos mais imediatos de Jesus perguntando diretamente a Pilatos sobre o corpo de Jesus. Identificar-se publicamente com alguém crucificado acusado de traição (clamando ser “Rei dos Judeus”) era arriscar a vida, mesmo que pertencesse à aristocracia.

 

AS EXIGÊNCIAS DE JESUS PARA TODOS OS DISCÍPULOS

 Tampouco deveríamos supor que Jesus faz exigências somente para os ricos. Normalmente nós temos nossas maneiras de ler as exigências de Jesus lá atrás sem pensar que tenham qualquer coisa a dizer-nos. Assim como pontuou Dietrich Bonhoeffer, quando Jesus ordenava a um legislador rico que desse todos os seus bens aos pobres (Lc 18.22), normalmente despendemos mais tempo explicando que Jesus estava dirigindo-se somente a aquele legislador do que nos perguntando que implicações o versículo poderia ter para nós. Bonhoeffer era um teólogo alemão que morreu por sua campanha contra Hitler. Ele leu a Bíblia com a mesma coragem que viveu, reclamando que muito frequentemente os teólogos ajudam a contornar os ensinos de Jesus ao invés de ajudarem a obedecê-los.

 Contrário ao que normalmente assumimos, Jesus falou não somente àquele jovem rico, mas a todos os Seus discípulos, para que vendessem seus bens e ajuntassem tesouros no céu (Lc 12.33). Jesus não achava, como alguns têm alegado, que o dinheiro era mau; antes, o dinheiro simplesmente não tinha valor comparado aos investimentos eternos que podemos fazer na vida de outras pessoas (Lc 16.9-13). Ele prometeu que Deus suprirá nossas necessidades se buscarmos o Seu reino (12.22-32) e convidou a nos prepararmos para o Reino investindo parcialmente nossos recursos naquilo que realmente importa (12.33-40).

 Charles Finney, um evangelista do século XIX que levou talvez um milhão de pessoas a Cristo, pregou sobre Lucas 14.33 em uma rica igreja de Boston. Nesta passagem, explicando o custo do Reino, Jesus alertou que ninguém pode ser Seu discípulo aquele que não renunciar às suas posses (14.33). O pastor, Lymam Beecher, encerrou o sermão de Finney assegurando à congregação que Deus jamais lhes pediria que desistissem de suas posses; eles simplesmente precisavam estar “desejosos” de fazê-lo. Finney disse que Deus pode exigir de nós o que quiser; nós não perdemos todos os nossos bens no momento da conversão, mas perdemos a propriedade sobre eles. Finney entendia que se Cristo for verdadeiramente Senhor de nossa vida, Ele é também Senhor de tudo o que temos.

 Assim como pescadores e primeiros discípulos de Jesus (Lc 5.10,11), muitos de nós no ministério deixamos para trás carreiras alternativas potencialmente lucrativas para atender ao chamado de Deus; temos mostrado que valorizamos o Reino acima dos tesouros da terra. Além disso, é mais confortável até mesmo para nós olharmos a outra forma em vez de dolorosamente confrontar o sofrimento além das esferas imediatas de ministério.

 Segundo algumas estatísticas, 35.000 crianças morrem diariamente de má nutrição e doenças passíveis de prevenção, mas esses números são insensíveis e abstratos demais para que nos atenhamos emocionalmente. Para colocar estas questões em uma perspectiva um pouco mais gráfica, nós ficamos com razão exasperados no assassinato de 3.000 seres humanos nas Torres Gêmeas na cidade de Nova York. Porém, 35.000 é mais que dez vezes o número de crianças morrendo todos os dias. A distância não deveria diminuir a compaixão; Paulo incitava a igreja em uma parte do mundo a cuidar da igreja em outras partes do mundo (Rm 15.26; 2Co 8.13, 14).

 As estatísticas não são tão tenebrosas em nosso próprio país, mas para centenas de milhares de pessoas sem teto, incluindo adolescentes fugitivos frequentemente forçados à prostituição, as implicações aqui não são menos perturbadoras. Por mais úteis que as estatísticas sejam, a Palavra de Deus e nosso engajamento com a genuína necessidade humana nos moverá mais que qualquer soma de estatística consegue, porque Deus colocou o Seu amor em nossos corações. As Escrituras lembram-nos que Cristo deu Sua vida por nós e perguntam como podemos nos recusar a cuidar de nossos irmãos e irmãs em Cristo necessitados (1Jo 3.16, 17). Nos anos iniciais na missão em Springfield, Missouri, e nos anos mais recentes de ministério, vivendo em alojamento de projetos normalmente pobre e infestado de drogas, deparei-me com rostos que eu não poderia ignorar com a mesma facilidade que consigo alhear-me das estatísticas.

 Jesus chama para sacrificarmos nossas vidas pelo Seu Reino; parte do que significa servir ao Seu Reino é encontrar a necessidade humana, porque as pessoas são o que duram para sempre, se forem pessoas que já são nossos irmãos e irmãs que Deus deseja que sejam (isto é, todo mundo; 1Tm 2.4; 2Pd 3.9). A partir de ministérios como o Teen Challenge to Calcutta’s Mission of Mercy (Desafio Jovem para a Missão de Misericórdia de Calcutá), nossas obras de compaixão também revelam Cristo em formas que chamam a atenção do mundo para o nosso Mestre. Possa o Espírito outorgar-nos poder hoje, como no primeiro Pentecostes, para revelar Seu coração ao mundo.