Olhando Para Jesus (Hb 12:2)

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Henry Orton WileyArminius Hoje

 Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. Hb 12.2 ARA

 O escritor de Hebreus pede agora aos seus leitores que voltem o olhar para Jesus, exaltado acima de todos e assentado à destra do trono de Deus.

 O verbo olhar – em olhando firmemente – é aphorontes (Αφορωντες), que significa tirar a vista das coisas que estão perto e desviam a nossa atenção e, conscientemente, fixar os olhos em Jesus como o nosso grande alvo. Significa ainda interesse que absorve por completo, perfeitamente expresso pelas palavras com olhos só para Jesus.

 A expressão autor e consumador da nossa fé tem sido interpretada de várias maneiras. A palavra traduzida como autor é archegon (Αρχηγος), líderpioneiro, sendo o mesmo vocábulo traduzido como capitão (da nossa salvação) em Hebreus 2.10 (KJ). A palavra consumador é teleioten (τελειωτής), aperfeiçoadorque completa (cp. Hb 10.14).

 Em olhando firmemente para Jesus, o Autor e Consumador da nossa fé, o possessivo nossa [que aparece nas versões KJ e na NVI, mas não na ARA e na ARC], antes de , está em itálico ou entre parêntesis, pois no grego temos apenas a . No entanto, não significa a  no sentido objetivo, como o fundamento cristão, mas subjetivo, como o princípio que rege o coração e a vida do ser humano.

 A escolha da palavra archegonlíder ou pioneiro, em vez de aitios (αἴτιος), autor, no sentido de originador, é muito significativa. Como observou Davidson, na presente acepção, as palavras não “podem significar que Cristo, como Autor, originou a fé em nós e, como Aperfeiçoador, sustém-na e a leva a um resultado perfeito”, isto é, incondicionalmente quanto ao conceder e ao aperfeiçoar; a ênfase é, antes, sobre Cristo como o grande Pioneiro da fé que, na Sua vida terrena, tendo perfeitamente alcançado o ideal e terminado a corrida, está agora assentado à destra do trono de Deus.

 Em Hebreus 2.10 a palavra archegon, como capitão (KJ), refere-se em especial à preparação de Jesus para a liderança; neste caso, Ele se tornou o Alvo da realização, o Centro de toda a visão cristã. No entanto, é ainda o Líder, que do Seu trono nos céus ministra pelo Espírito a força, a perseverança, paciência e toda a graça necessária em meio ao sofrimento e aos conflitos. Para os que o seguem com confiança, Ele se tornará o aperfeiçoador, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram (2 Ts 1.10 ARA).

 A seguir, o autor da Epístola aos Hebreus passa a uma consideração da experiência de humilhação de Jesus, vividamente descrita para encorajamento dos leitores – palavras que são apenas a amplificação de Sua obra como o autor e consumador da fé.

 O escritor encontra três semelhanças entre os herois da fé e Jesus. Pela fé, aqueles passaram por grandes lutas e aflições, em parte porque foram exibidos como espetáculo ignominioso, em parte porque se tornaram companheiros dos que foram alvos daquelas tribulações. Assim também Jesus, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia (Hb 12.2b). Esta oração é introduzida pela palavra anti (ἀντί), que significa dar em troca ou, especialmente aqui, em consideração de.

 O vocábulo traduzido como alegria é charas (χαρά) – não aquilo a que Jesus renunciou ao encarnar, mas a alegria que lhe estava proposta. Era a alegria como recompensa do Seu autossacrifício pela salvação dos homens; um autossacrifício que em si mesmo era uma recompensa satisfatória. Mas significava também a alegria de ser exaltado ao trono de Deus e levar consigo a Sua natureza e a nossa, coroando assim a obra redentora por toda a eternidade. Era a alegria de administrar do trono a Sua vida celestial mediante o Espírito Santo, e assim aperfeiçoar para sempre os que são santificados (Hb 10.14). Esta foi a alegria que lhe foi proposta – uma alegria que enche com a Sua glória.Cruz, 

  O que fez Jesus pra ter essa alegria? Suportou a cruz. Temos aqui de novo a palavra hupemeinem (ὑπομένω), anteriormente traduzida como paciência, mas aqui mais propriamente traduzida como suportou com perseverança.

 A palavra traduzida como cruz é stauron (σταυρός), viga ou poste introduzido no chão para execução de criminosos, vindo depois a significar a cruz.

 A frase não fazendo caso da ignomínia ou desprezando a afronta (ARC) foi chamada o grande paradoxo.Desprezar a afronta não significa que Cristo a tinha por desprezível, mas por pequena, comparada com a alegria que lhe foi proposta.

 As palavras cruz e vergonha (NVI) são usadas sem o artigo para salientar a qualidade – coisas como a cruz e a vergonha, e assim servem para colocar em maior relevo a profundidade da abnegação de Cristo. Jesus, sendo santo em si mesmo, foi intensamente sensível à vergonha da cruz, morrendo aos olhos da Lei como um criminoso, mas não permitiu que isso fizesse vacilar Sua lealdade à vontade do Pai.

 

Fonte: A Excelência da Nova Aliança em Cristo: Comentário Exaustivo da Carta aos Hebreus, pp. 509, 510

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O Que É Graça Preveniente (Precedente)

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Timothy C. Tennenttimothy c. tennent

 

Anteriormente nós aprendemos que é parte da natureza de Deus o desejo de revelar-se a nós. Deus não está meramente interessado em nos dar regras pelas quais nós devemos viver. Ele quer que nós o conheçamos e entremos numa relação de aliança com ele através de Jesus Cristo. Esta natureza auto-revelatória de Deus aparece de muitas maneiras, incluindo na criação, em nossas consciências, na Escritura e finalmente em Jesus Cristo.

 É importante entender que a salvação nunca começa com algo que nós fazemos, mas sempre como uma resposta a algo que Deus fez. Pensar que a salvação começa com nosso arrependimento de nossos pecados e convite para que Jesus entre em nossos corações não é a forma que as Escrituras entendem todo o processo de salvação. Antes, a salvação sempre começa com uma ação anterior de Deus. Ele age, e nós respondemos ou resistimos. Ela sempre segue esse padrão.

 Uma abordagem de todas as maneiras que Deus nos prepara para receber o evangelho é usar o termo “graça preveniente (precedente)”. A graça preveniente diz respeito a todos esses atos da graça em nossas vidas que antecedem a nossa conversão. Sabemos que tal graça existe porque Jesus disse que “ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” (Jo 6.44). Há uma “atração” ou “preparação” que precede nossa efetiva conversão.

  A outra razão que sabemos que a graça de Deus deve preceder nossa decisão de seguir a Cristo é que as Escrituras nos ensinam que estamos mortos em nossos delitos e pecados à parte de Cristo (Ef 2.1). As Escrituras não ensinam que estamos meramente doentes ou que o nosso progresso espiritual geral é lento, mas que estamos espiritualmente mortos. (Esta é uma outra grande característica distintiva do Cristianismo.) Isto significa que somos incapazes de nos ajudar ou de nos salvar sem uma ação prévia de Deus.

 Muitos cristãos creem na doutrina da depravação total. Isso significa que os seres humanos estão mortos em seus pecados e não podem fazer nada para ajudar ou melhorar seu estado espiritual diante de Deus. Entretanto, é também um ponto de vista cristão crer no livre arbítrio. Isto significa que afirmamos que Deus quer que agimos e tomamos decisões a seu favor. Este é o problema: Como uma pessoa espiritualmente morta pode agir ou decidir dar suas vidas a Cristo? A Bíblia está repleta de prescrições para agir – as pessoas são chamadas a se arrepender, crer, vir, decidir e assim por diante. A resposta é a doutrina da graça preveniente. Esta é a ponte entre a depravação humana e o livre exercício da vontade humana. A graça preveniente é um ato soberano de Deus pelo qual ele suspende a raça humana de sua depravação e nos concede a capacidade de respondermos à graça de Deus. Ela é um ato de Deus de favor imerecido. É a luz de Deus “que ilumina a todo o homem” (Jo 1.9, ACF), que nos levanta e permite que exercemos nossa vontade e respondemos à graça de Cristo.

 Deus toma a iniciativa para criar uma capacidade universal para a raça humana para receber sua graça.  Muitos, obviamente, ainda resistem a sua vontade e persistem em rebelião contra Deus. A doutrina da graça preveniente protege a igreja de visões que argumentam que não há nenhuma natureza pecaminosa. Ela também protege a igreja de visões que argumentam que Jesus morreu somente por aqueles que foram eleitos desde toda a criação para ser seguidores de Cristo. A graça preveniente preserva tanto a depravação da raça humana quando nossa confiança que Jesus morreu por cada pessoa que já viveu ou irá viver. De fato, a graça preveniente tecnicamente não afirma o livre arbítrio no sentido que todos podemos decidir seguir a Cristo sempre que quisermos, porque isto pressiona a salvação demais para a ideia que ela depende de nossa iniciativa. Pelo contrário, o que é algumas vezes chamado de “livre arbítrio” é na verdade “arbítrio liberto,” uma vontade escravizada que foi libertada por um ato imerecido da graça de Deus. Ela não é, obviamente, livre em todo aspecto possível, visto que todos ainda somos influenciados de muitas maneiras pelos efeitos da Queda; mas agora temos uma capacidade restaurada que possibilitou que nosso coração, mente e vontade respondessem à graça de Deus.

 

Leitura das Escrituras

 

Isaías 55.1

João 1.9

João 6.44

João 12.32

João 16.8-11

Atos 14.17

Atos 16.13-15

Romanos 2.4

1 Timóteo 2.4-6

Tito 2.11

 

Fonte: http://seedbed.com/feed/prevenient-preceding-grace-30-questions/

 Tradução: Paulo Cesar Antunes

Tomando uma Decisão

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John  Stott John_stott

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Muitas pessoas acham estranho que para se tornar um cristão é preciso tomar uma decisão. Algumas, por terem nascido em um país cristão, acham que já são cristãs. “Afinal”, dizem, “já que não somos nem judeus, nem muçulmanos, nem budistas, provavelmente somos cristãos!” Outras supõem que, por terem recebido uma educação cristã, conhecerem os princípios básicos do cristianismo e adotarem um padrão de comportamento cristão, não precisam de mais nada. Porém, seja qual for a sua formação ou herança familiar, todo adulto responsável precisa tomar uma decisão a favor ou contra Cristo. Não podemos permanecer neutros ou indiferentes, nem deixar que outra pessoa decida por nós. Devemos decidir por nós mesmos.

Mesmo o fato de concordar com tudo que foi escrito até aqui não é suficiente. Podemos admitir que as evidências da divindade de Jesus sejam convincentes ou até mesmo conclusivas, e que ele é de fato o Filho de Deus; podemos crer que ele morreu para ser o Salvador do mundo; podemos também admitir nossa condição de pecadores necessitados de um Salvador. Mas nenhuma dessas coisas nos tornam cristãos, nem mesmo todas elas juntas. Crer em certos fatos sobre a pessoa e a obra de Cristo é uma necessidade preliminar, mas a verdadeira fé transformará essa convicção mental em um ato decisivo de confiança. A convicção intelectual deve conduzir ao compromisso pessoal.

Eu mesmo costumava pensar que a morte de Jesus na cruz havia reconciliado o mundo todo, automaticamente, com Deus. Lembro-me como fiquei confuso, ou mesmo indignado, quando ouvi pela primeira vez que eu precisava considerar a salvação individualmente. Agradeço a Deus por ter aberto meus olhos para que eu reconhecesse Jesus como Salvador, e mais do que isso, o aceitasse como meu Salvador. Por certo o pronome pessoal tem proeminência na Bíblia:

O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.

O Senhor é a minha luz e a minha salvação.

Ó Deus, tu és o meu Deus.

Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Um versículo da Bíblia, que tem ajudado muitos (inclusive eu) a entender esse passo de fé que devemos dar, contém as palavras do próprio Cristo. Ele diz: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo”. [1]

Este versículo foi ilustrado por Holman Hunt em seu famoso quadro A Luz do Mundo, pintado em 1853. O original se encontra na capela do Keble College, em Oxford, e a sua réplica (pintada pelo próprio autor 40 anos depois) na Catedral de St. Paul. Não sei se os pré-rafaelitas estão em evidência hoje, mas de qualquer forma o simbolismo dessa pintura é bastante esclarecedor. John Ruskin, em uma carta ao The Times de maio de 1854, usou as seguintes palavras para descrevê-la:

[…] do lado esquerdo da tela podemos ver a porta da alma humana. Ela está trancada; suas dobradiças e pregos estão enferrujados; plantas trepadeiras estão presas e entrelaçadas aos seus umbrais, revelando que nunca foi aberta. Um morcego paira sobre ela. Sua soleira está coberta por amoras silvestres, urtigas e grãos inúteis… Cristo se aproxima dela à noite…

Ele está vestido com um manto real e traz sobre a cabeça uma coroa de espinhos; segura uma lanterna com a mão esquerda (como a luz do mundo) e com a direita bate à porta.

O contexto deste versículo é revelador. Ele se encontra no final de uma carta enviada por Cristo, através de João, à igreja de Laodicéia, situada na atual Turquia. Laodicéia era uma cidade próspera, conhecida por sua produção de roupas, seus prósperos bancos e sua escola de medicina, onde era preparado o famoso pó frígio, um remédio para os olhos.

A prosperidade material havia provocado um relaxamento dos costumes e contaminado até mesmo a igreja cristã. Muitos que se diziam cristãos verdadeiros demonstravam que só tinham o título de cristãos; eram pessoas razoavelmente respeitáveis, nada mais que isso. Seu interesse religioso era superficial e casual. Assim como a água das fontes aquecidas de Hierápolis, que chegava a Laodicéia por um sistema de dutos (as ruínas podem ser vistas até hoje), eles não eram nem frios nem quentes, mas mornos. E por serem mornos, Jesus afirmou que eles lhe causavam aversão. A sua indiferença espiritual é descrita em termos de uma imagem falsa que eles tinham de si mesmos: “Pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”.

Que dura descrição da orgulhosa e próspera Laodicéia! Eles eram miseráveis, cegos e nus – nus apesar de fabricarem roupas; cegos, apesar de seu famoso remédio para os olhos, e miseráveis, apesar de seus prósperos bancos.

Nós não somos diferentes deles. Dizemos muitas vezes, como eles, que “não precisamos de coisa alguma”. Essas palavras são extremamente perigosas. Esse espírito independente, mais do que qualquer outra coisa, é que nos impede de assumir um compromisso com Cristo. É claro que precisamos de Jesus! Sem ele estamos moralmente nus (sem as vestes apropriadas para nos apresentarmos diante de Deus), cegos para as verdades espirituais, e miseráveis, sem nada para oferecer em troca de nossa salvação. Mas Cristo pode vestir-nos com a sua justiça, tocar nossos olhos para que possamos enxergar, e nos tornar ricos com suas riquezas espirituais. Sem ele, e enquanto não abrimos a porta e o convidamos a entrar, somos miseráveis, cegos e nus.

“Eis que estou à porta, e bato”, ele diz. Ele não é uma fantasia da imaginação, ou um personagem fictício tirado de algum romance religioso. Ele é o homem de Nazaré – suas declarações, seu caráter e sua ressurreição são a garantia de que ele é o Filho de Deus. Ele é também o Salvador crucificado. A mão que bate à porta tem uma cicatriz. Os pés que estão próximos à soleira ainda trazem a marca dos pregos.

Ele é o Cristo ressurreto. João descreveu-o no primeiro capítulo do livro de Apocalipse, ao contemplá-lo em uma visão altamente simbólica. Seus olhos são como chamas de fogo e seus pés como o bronze polido. Sua voz como de um trovão e sua face radiante como o sol do meio-dia. Não é de admirar que João tenha caído a seus pés. É difícil compreender como uma pessoa com tamanha majestade tenha se dignado a visitar pobres, cegos e nus como nós.

Jesus Cristo, no entanto, diz que está à porta de nossas vidas, batendo e esperando. Note que ele está à porta, não forçando a entrada; falando conosco, não gritando. Isso é ainda mais extraordinário quando nos lembramos de que a casa em cuja porta ele está batendo pertence a ele. Ele é o arquiteto; foi ele que desenhou o projeto. Ele é o construtor. Ele é também o proprietário; ele a comprou com seu próprio sangue. Assim, ela pertence a ele, por direito. Somos apenas inquilinos em uma casa que não nos pertence. Ele poderia arrombar a porta, mas prefere bater com a mão, levemente. Ele poderia ordenar que abríssemos a porta para ele; em vez de fazer isso, ele prefere que o convidemos a entrar. Ele não força a entrada na vida de ninguém. Ele diz no versículo 18: “Aconselho-te”. Ele poderia ordenar, mas se contenta em aconselhar. Ele nos trata com condescendência, humildade e liberdade.

Mas por que Jesus Cristo quer entrar? Nós já sabemos a resposta. Ele quer ser nosso Salvador e Senhor.

Ele morreu para nos salvar. Se nós o recebermos, ele irá nos conceder todos os benefícios de sua morte. Uma vez dentro da casa, ele irá reformá-la e mudar a decoração e os móveis. Ou seja, ele irá nos purificar e perdoar; e apagar o nosso passado. Ele promete também que ceará conosco e permitirá que comamos juntos. A frase descreve a alegria de desfrutar da sua companhia. Ele não somente entrega sua vida a nós, como também pede que entreguemos a ele nossas vidas. Nós éramos estrangeiros, agora somos amigos. Havia uma porta fechada entre nós. Agora estamos sentados à mesma mesa.

Jesus Cristo também entrará em nossas vidas como Senhor e Mestre. A casa passará a ser administrada por ele, assim só devemos abrir a porta se estivermos dispostos a deixá-lo tomar conta de tudo. Quando ele se aproximar da soleira, devemos entregar-lhe todas as chaves da casa, permitindo que ele tenha livre acesso a todos os aposentos. Um estudante da quarta série no Canadá, certa vez me escreveu: “Em vez de dar a Cristo várias chaves, uma para cada cômodo da casa, dei a ele uma senha que permite o acesso à casa toda”.

Isso envolve arrependimento, e a firme decisão de abandonar tudo que desagrada a Deus. Isso não significa que precisamos nos tornar pessoas melhores antes de convidá-lo a entrar. Ao contrário, exatamente por não podermos perdoar ou melhorar a nós mesmos é que precisamos que ele venha a nós. Mas devemos estar dispostos a permitir que ele mude o que quiser em nossa casa. Não devemos resistir às mudanças, nem tentar impor condições. Nossa entrega ao senhorio de Cristo deve ser total e incondicional. O que isso representa? Não sei explicar detalhadamente, mas em princípio, significa uma firme decisão de abandonar o pecado e seguir a Cristo.

Você ainda está em dúvida? Acha que não é razoável submeter-se a Cristo no escuro? E certamente não é. Acontece que isso é muito mais razoável que o casamento. No casamento, os cônjuges assumem um compromisso incondicional um com o outro. Eles não sabem o que o futuro lhes reserva. Mas eles se amam e confiam um no outro, por isso, podem assumir o compromisso de amar e cuidar um do outro, “na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza”, até que a morte os separe. Se as pessoas podem confiar umas nas outras, por que não podemos confiar no Filho de Deus? É bem mais razoável assumir um compromisso com Cristo, o Filho de Deus, do que com o mais nobre e admirável ser humano. Cristo nunca irá nos trair ou abusar da nossa confiança.

O que então devemos fazer? Antes de tudo, devemos ouvir a sua voz. É possível fechar os ouvidos para Cristo e ignorar a insistência de seu apelo, mas isso terá trágicas consequências para nós. Algumas vezes ouvimos a sua voz através da nossa própria consciência, outras através de conselhos de outras pessoas. Às vezes em meio a uma derrota moral, ou da sensação de vazio ou de falta de significado de nossa existência. Outras vezes nós a ouvimos por meio de uma inexplicável fome espiritual, ou de uma doença, ou de uma privação, dor ou medo. Seja como for, nós tomamos consciência do fato de que Cristo está lá fora à porta, falando conosco. Ele também pode falar conosco através de um amigo ou pastor ou pelas páginas de um livro. O importante é estar atento para ouvi-la sempre. “Quem tem ouvidos para ouvir”, disse Jesus, “ouça”.

Em seguida, devemos abrir a porta. Tendo ouvido sua voz, devemos atender ao seu chamado. Abrir a porta a Jesus Cristo é um modo figurativo de colocarmos nossa fé nele como nosso Salvador, um ato de submissão a ele como nosso Senhor.

É um ato definitivo. O tempo verbal no grego deixa isso claro. A porta não abre por acaso. Nem está entreaberta. Ela está fechada, e precisa ser aberta. Além disso, Cristo não a abrirá por conta própria. Não há maçaneta na porta no quadro de Holman Hunt. Dizem que ele a omitiu deliberadamente para mostrar que a maçaneta está do lado de dentro. Cristo bate; nós devemos abrir.

É um ato individual. Na verdade, a mensagem foi enviada a uma igreja, a comunidade nominal e morna de Laodicéia. Mas o desafio é para aqueles que estão dentro dela: “Se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele”. Todo ser humano deve decidir por si mesmo e dar esse passo individualmente. Ninguém pode tomar essa decisão por você. Seus pais e professores cristãos, pastores e amigos podem apontar o caminho, mas só a sua mão pode girar a maçaneta.

É um ato único. Você pode dar esse passo apenas uma vez. Depois que Cristo entrar, ele travará a porta do lado de dentro. O pecado poderá empurrá-lo ao porão ou ao sótão, mas ele jamais abandonará a casa onde entrou. “De maneira alguma te deixarei, nunca, jamais te abandonarei”, ele diz. Isso não significa que a partir dessa experiência ganharemos asas de anjo ou nos tornaremos perfeitos num piscar de olhos. Você pode se tornar cristão em poucos minutos, mas se tornar um cristão maduro leva tempo. Cristo pode entrar na sua vida, purificá-la e perdoar você em questão de segundos, mas é necessário muito mais tempo para transformar seu caráter e moldá-lo de acordo com a vontade dele. A cerimônia de casamento necessita apenas de alguns minutos para ser realizada, mas são necessários muitos anos para que os noivos encontrem um caminho comum. Assim também acontece quando recebemos a Cristo, um compromisso firmado em poucos minutos precede uma vida inteira de ajustes.

É um ato deliberado. Você não precisa esperar que uma luz sobrenatural venha do céu e brilhe sobre você, nem ser atingido por uma forte experiência emocional. Não. Cristo veio ao mundo e morreu por seus pecados. Ele agora está na porta da frente da casa de sua vida, e está batendo. A decisão é sua. A mão dele está batendo na porta, cabe a você estender a sua mão em direção ao trinco.

É um ato urgente. Não espere muito para tomar uma decisão. O tempo está passando. O futuro é incerto. Você talvez não tenha outra oportunidade como esta. “Não te glories no dia de amanhã, porque não sabes o que trará à luz”. “Como diz o Espírito Santo: Hoje se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações”. [2]

Não adie a sua decisão por achar que precisa melhorar para ser digno de receber a Cristo, ou resolver todos os seus problemas primeiro. Se você crê que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que ele morreu para ser o seu Salvador, isso é suficiente. O resto virá no devido tempo. Certamente essa é uma decisão que não deve ser tomada de forma precipitada ou temerária; mas adiá-la pode ser perigoso. Se o seu coração está lhe dizendo para abrir a porta agora mesmo, não deixe para depois.

É um ato indispensável. É claro que a vida cristã é muito mais que um ato. Como veremos no próximo capítulo, a vida cristã inclui desfrutar da comunhão com os irmãos, descobrir a vontade de Deus e se dispor a cumpri-la, crescer na graça e no conhecimento de Deus, servir a Deus e aos homens. Tudo começa com esse primeiro passo, e nada poderá ser feito sem ele. Você pode crer em Cristo racionalmente, e admirá-lo como pessoa; pode orar a ele através do buraco da fechadura (eu fiz isso por muitos anos); pode oferecer a ele algumas moedas, passando-as por debaixo da porta, a fim de mantê-lo quieto; pode ter um comportamento correto, decente, justo e bom; pode ser religioso; pode ter sido batizado e crismado; pode ter um profundo conhecimento da filosofia da religião; pode ser um estudante de teologia ou até mesmo pastor de uma igreja – e mesmo assim ainda não ter aberto a porta a Cristo. Não há nada que substitua este ato.

C. S. Lewis, conhecido pensador cristão, descreve em sua autobiografia intitulado “Surpreendido pela Alegria”, uma experiência que lhe aconteceu durante uma viagem de ônibus:

Sem palavras e (eu acho) sem imagens, um fato a meu respeito me foi de algum modo revelado. Eu percebi que havia uma barreira, que eu estava impedindo alguma coisa de entrar. Ou se você preferir, como se eu estivesse vestindo uma roupa apertada, uma espécie de colete ou espartilho, ou mesmo uma armadura. Senti então que eu era livre para decidir por mim mesmo. Eu poderia abrir a porta ou mantê-la fechada. Poderia me livrar da armadura ou continuar dentro dela. Nenhuma das escolhas me foi apresentada como uma obrigação; não havia nenhuma ameaça ou promessa atrelada a qualquer uma delas, mas eu sabia que abrir a porta ou tirar a armadura era uma decisão extremamente importante… Eu escolhi abrir, destravar, soltar as amarras. Eu digo “escolhi”, embora não me parecesse realmente possível fazer o contrário.

Uma senhora distinta atendeu ao convite de Billy Graham para ir à frente ao final de uma campanha evangelística. Ela foi acompanhada por um conselheiro que, percebendo que ela ainda não havia tomado uma decisão por Cristo sugeriu que orassem ali mesmo. Abaixando a cabeça, ela orou: “Querido Senhor Jesus, quero que tu entres em meu coração mais que qualquer outra coisa no mundo. Amém”.

Um jovem estudante ajoelhou-se ao lado de sua cama, num domingo à noite, no dormitório de sua escola. De maneira simples e direta, ele contou a Cristo o quanto sua vida estava confusa, confessou os seus pecados; agradeceu a Cristo por ter morrido por ele e pediu-lhe que entrasse em sua vida. No dia seguinte, escreveu em seu diário:

Ontem foi realmente um dia especial!… Até esse dia Cristo estava na periferia da minha vida; eu pedia a ele para guiar meus passos, mas não lhe dava o controle completo. Então eu percebi que ele estava à porta, e batendo. Eu ouvi e abri a porta. Agora ele está dentro da minha casa. Ele purificou-a e agora reina dentro dela…

E no dia seguinte:

Eu realmente senti uma enorme e nova alegria por todo o dia. Aquela alegria que você sente por estar em paz com o mundo e em contato com Deus. Sei, agora que ele reina sobre mim, que eu nunca o havia conhecido antes…

Estes trechos foram extraídos do meu diário. Achei que devia citá-los porque não quero que você fique com a impressão de que estou lhe dizendo para fazer algo que eu mesmo não tenha feito.

Você é cristão? Um cristão verdadeiro e comprometido? A sua resposta depende de outra pergunta. Não vou perguntar se você vai à igreja, se acredita em Jesus, ou se tem uma vida decente (embora todas essas coisas sejam importantes). Minha pergunta é: de que lado da porta está Jesus Cristo? Do lado de dentro ou do lado de fora? Esta é uma questão fundamental.

Talvez você esteja pronto a abrir a porta para Cristo, talvez tenha dúvidas se já fez isso antes. Se não tem certeza, procure se certificar, nem que você tenha que escrever com tinta o que já escreveu a lápis (como alguém já disse).

Sugiro que você procure um lugar para ficar a sós e orar. Confesse seus pecados a Deus e os abandone. Agradeça a Jesus Cristo por ter morrido por você e em seu lugar. Abra então a porta e peça para ele entrar como seu Salvador e Senhor.

Talvez você queira repetir esta oração em seu coração:

Senhor Jesus Cristo, reconheço que vivi até agora do meu jeito. Pequei em pensamentos, palavras e atos. Peço perdão pelos meus pecados, e deixo-os, arrependido. Creio que tu morreste por mim, levando os meus pecados em teu próprio corpo. Agradeço a ti por teu grande amor.

Agora eu abro a porta e peço que entres. Entre, Senhor Jesus. Entre como meu Salvador, e purifique a minha vida. Entre como meu Senhor e tome o controle da minha vida.

Se você orou com sinceridade, agradeça humildemente a Cristo por ter entrado em seu coração. Ele disse que entraria, pois ele mesmo afirmou: “Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta entrarei em sua casa”. Não leve em conta o que você está sentindo; confie na promessa; e agradeça a ele por manter sua palavra.

Fonte: Cristianismo Básico, pp. 167-179.

 

Ap 3.20. Pv 27.1; Hb 3.7-8.

As Amarras da Liberdade

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Roger E. Olsonroger olson - arminius hoje

 

Há um paradoxo na compreensão cristã do que significa ser livre.

 

Para milhões de pessoas, nenhuma palavra soa tão bem quanto “liberdade”. Nos comerciais de televisão, anuncia-se que a compra de um automóvel ou uma viagem àquele destino paradisíaco trarão a liberdade de que o telespectador tanto precisa. Datas festivas, como a da independência de um país, também são saudadas como símbolos de liberdade, e boa parte dos hinos nacionais a mencionam. Políticos, homens de negócios, publicitários, vendedores, chefes militares – todos sabem como usar essa palavra para chamar a atenção de seus públicos e atrair interesse. Sim, poucas palavras são tão comuns e, ao mesmo tempo, carregam tamanho significado.

 A palavra liberdade também é encontrada diversas vezes nas Escrituras e na tradição cristã. Qualquer crente que conheça minimamente a Bíblia já se deparou com versículos que dizem coisas como “a verdade vos libertará” (Jo 8.32) e que “é para a liberdade que Cristo vos libertou” (Gl 5.1). Logo, liberdade não é um tema apenas patriótico ou humanitário; é, também, um valor presente no Evangelho. Infelizmente, muitas pessoas confundem dois conceitos de liberdade bastante distintos. O conceito bíblico é bem diferente do significado cultural do termo, apesar de serem facilmente confundidos. E nenhum desses é o mesmo que “livre-arbítrio”. Isso pode ser confuso para o cristão comum que deseja saber o que é a verdadeira liberdade. Seria a prerrogativa de ter escolhas? Seria a ausência de limites e restrições? Ou é o poder de fazer o que se deseja? E em que sentido Cristo nos liberta, e em que isso difere daquilo que a mídia, constantemente, nos promete?

 No âmago do Evangelho cristão repousa uma incômoda verdade: a de que, para sermos livres, precisamos abrir mão de tudo o que a cultura secular nos oferece como fonte de liberdade. O Evangelho, ao que parece, requer uma distinção entre o prazer da verdadeira liberdade e a simples posse do chamado livre arbítrio. Não que o livre arbítrio ou a independência da tirania seja algo ruim; apenas, nenhuma dessas coisas representam a verdadeira liberdade. Esta, segundo o Evangelho, se encontra na obediência. E não é exatamente essa a imagem retratada na cultura popular.

 Agostinho, o grande pai da Igreja, ensinava que a liberdade verdadeira não se trata de poder para escolher ou falta de restrições, mas sim, de sermos aquilo que fomos chamados a ser. Os seres humanos foram criados à imagem de Deus; a liberdade verdadeira, portanto, não é encontrada ao nos distanciarmos dessa imagem, e sim, se a vivenciarmos. Quanto mais nos conformamos à imagem de Deus, mais livres nos tornamos – em contrapartida, quanto mais nos distanciamos disso, mais perdemos nossa liberdade.

 De uma perspectiva cristã, então, a liberdade – paradoxalmente – é um tipo de cativeiro. Martinho Lutero foi quem expressou essa verdade da melhor maneira, desde o apóstolo Paulo. Em seu tratado de 1520, A liberdade de um cristão, o reformador sintetizou a ideia em poucas palavras: “O cristão é o senhor mais livre de todos e não está sujeito a ninguém; o cristão é o servo mais obediente, e está sujeito a todos”. Em outras palavras, de acordo com Lutero, por causa do que Cristo fez e por causa de sua fé no Salvador, o cristão se tornou completamente livre da escravidão da lei. Ele não precisa fazer nada. Por outro lado, em gratidão pelo que Jesus fez por ele e nele, o cristão está preso no serviço a Deus e ao próximo. Ele tem a oportunidade de servi-los com alegria e liberdade. Logo, quem não entende o significado dessa oportunidade simplesmente não experimenta a alegria da salvação. Foi isso que Lutero quis dizer.

 

OBEDIÊNCIA E SERVIDÃO

 

Pulando do século 16 para o 20, e de um reformador do magistério para um teólogo anabatista radical, temos John Howard Yoder escrevendo, em A política de Jesus, acerca de “subordinação revolucionária”. Segundo ele, não é possível encontrar a verdadeira liberdade focando em nossos próprios direitos, mas sim, entregando-os livremente, sendo servos de Jesus Cristo e do povo de Deus. Tudo isso, claro, é bastante difícil para ocidentais do século 21 engolirem. Somos herdeiros do Iluminismo, vítimas de uma lavagem cerebral feita pela ênfase da modernidade no individualismo e na liberdade. Somos bombardeados, desde a infância, com a mensagem de que a liberdade significa autoafirmação, reivindicação de nossos direitos, ausência de restrições e senhorio sobre nós mesmos. A maior virtude defendida pela sociedade contemporânea é a de “ser verdadeiro consigo mesmo”. Em outras palavras, é como se cada um dissesse, o tempo todo: “Não me limite!”.

 

Acontece que nenhuma verdade é mais difundida nas Escrituras e na tradição cristã do que a de que a verdadeira liberdade se encontra na obediência e na servidão. E, ao mesmo tempo, nenhuma verdade está mais em desacordo com a cultura moderna. Nesse ponto, nos encontramos diante de duas alternativas: a mensagem do Evangelho a respeito da verdadeira liberdade versus a mensagem cultural da autonomia e do “vivo como quero”. O contraste que há entre a verdade do Evangelho e seu substituto satânico começa a se desenrolar em Gênesis, na história da criação e da queda. De acordo com Gênesis 2, Deus deu liberdade aos primeiros seres humanos: “De toda árvore do jardim comerás livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Condicionados como estamos pela modernidade e sua obsessão por autonomia, nossa primeira reação é o questionamento: “Como isso pode ser liberdade?” – afinal, para nós, liberdade com limitação não é liberdade.

 Sabemos, entretanto, como esse tipo de liberdade foi compreendida por Adão e Eva, assim como por toda a raça humana. Trata-se de uma história de vergonha, alienação, inimizade e morte – em suma, a antítese absoluta da liberdade. Em Paraíso perdido, John Milton parodiou a raiva da humanidade por causa de suas limitações na declaração de Lúcifer: “Melhor reinar no inferno do que servir no céu!”. Fica a questão: Quando Adão e Eva estavam mais livres? No Jardim do Éden, quando podiam comer de todas as árvores, exceto uma? Ou depois, quando perderam o Paraíso e ficaram “livres” para comer de tudo o que quisessem? As implicações do ocorrido no início são inevitáveis: a verdadeira liberdade é encontrada apenas através da obediência a Deus e da comunhão que a acompanha. Já sua perda se dá com a autoafirmação, o desejo idólatra de cada um governar seu “pedacinho de inferno”, em vez de desfrutar das bênçãos do favor de Deus.

 Toda a narrativa bíblica pode ser lida como um drama sobre a liberdade e sua perda através do desejo e da tentativa do ser humano de aproveitar uma autonomia irrestrita. Tome-se como exemplo as frequentes rebeliões de Israel e sua consequente perda de proteção divina; ou a atitude de Davi diante de sua redescoberta da alegria na obediência às leis de Deus; e também os chamados de trombeta dos profetas para que Israel e Judá guardassem a lei do Senhor – e a subsequente perda da liberdade do povo, por ter insistido em fazer as coisas à sua maneira.

 

Em nenhum outro trecho bíblico esse contraditório tema ficou mais claro do que no Novo Testamento. Jesus disse a seus discípulos: “Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á”. E, mais uma vez, ele disse aos que o seguiam: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo” (Mt 20.26-27). É verdade: o apóstolo Paulo falou diversas vezes sobre nossa libertação, em Cristo, de uma obrigação externa, ou seja, da lei. A confiança em Jesus é, de acordo com ele, a única base para um relacionamento correto com Deus. Por outro lado, ao longo de suas epístolas, ele nos aconselha a abrir mão de nossos direitos e liberdades em prol da propagação do Evangelho e da proteção da consciência das outras pessoas. Paulo encontrou a verdadeira liberdade ao abrir mão de seus direitos: “Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais” (1Co 9.19).

 

AMOR SACRIFICIAL

 

O tema da liberdade através da obediência e servidão é tão predominante no Evangelho que é difícil deixá-lo passar despercebido. No entanto, isso, muitas vezes, acontece devido à ênfase dada à autonomia por nossa cultura. Então que tipo de obediência traz a liberdade verdadeira? Em primeiro lugar, e contrariamente à opinião popular, não se trata de uma obediência imposta. Não se trata de obedecer à vontade de Deus porque tememos as consequências da desobediência. A obediência ao Evangelho é sempre voluntária. No momento em que a obediência a Cristo se torna penosa, ou mero conformismo relutante, não é mais a obediência do Evangelho. Somente quando a obediência é prazerosa, resultado de gratidão, ela proporciona liberdade verdadeira, a que vem quando somos aquilo que fomos criados para ser.

 Em segundo lugar, a obediência que traz liberdade verdadeira é motivada pelo amor sacrificial. Yoder descreve profeticamente esse tipo de servidão como “subordinação revolucionária”, onde cada crente busca o bem dos outros sem tentar fazer valer seus próprios direitos. Em uma comunidade onde todos vivem dessa forma, em gratidão a Jesus Cristo, capacitados pelo seu Espírito, a verdadeira liberdade é abundante.

 Então, qual a relação de tudo isso com o conceito de livre arbítrio? Liberdade, então, não significa nada além de livre arbítrio? É claro que não. Se, por “liberdade” queremos dizer a liberdade do Evangelho – na servidão, tornamo-nos aquilo que Deus deseja de nós, na obediência a Cristo e em nossa transformação à sua imagem –, então está claro que estamos falando de algo bem mais profundo que o simples exercício do livre arbítrio. Isso é algo em que arminianos, que creem que o homem é livre para escolher, e calvinistas, que acreditam na escravidão da vontade e soberania absoluta de Deus, poderiam concordar. Os arminianos evangélicos acreditam que a verdadeira liberdade transcende o livre arbítrio, que, nessa análise, seria simplesmente a capacidade dada por Deus para escolhermos a verdadeira liberdade, oferecida pela graça, ou a rejeitarmos devido à nossa obstinação egocêntrica.

 Nem todos os cristãos creem no livre arbítrio. Lutero era um deles. Mas não é essa a questão. Quer alguém creia ou não, a liberdade verdadeira é outra coisa, e não contradiz o livre arbítrio; ela simplesmente o transcende. Todos os cristãos concordam que a autêntica liberdade, aquela que procede da obediência a Cristo e da conformidade à sua imagem, é um dom de Deus que iremos desfrutar plenamente quando formos glorificados com ele. É sobre isso que Paulo fala em Romanos 7: aqui na terra guerreamos entre a “carne” – a natureza caída – e o Espírito, dom de Deus, que habita em nós. Nesse ínterim, enquanto aguardamos nossa plena glorificação, crescemos em liberdade apenas ao trocarmos uma atitude de submissão à lei por um novo coração que se deleita em obedecer a Cristo. Pela graça de Deus, e com a ajuda de seu Espírito, podemos perceber uma liberdade ainda maior do pecado e da morte. Mas a liberdade em sua plenitude só vem após nossa ressurreição.

 Teólogos chamam de “santificação” o processo pelo qual se experimenta gradualmente a autêntica liberdade antes da morte. Há muitas opiniões divergentes a respeito de quão intensa e completa tal liberdade pode ser antes da ressurreição. Todos, porém, concordam que a liberdade verdadeira é um dom que recebemos aos poucos, ao longo da vida. Paulo foi claro em sua carta aos crentes de Filipos: “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”. A salvação, em outras palavras, é tanto dom quanto missão. O “porque” usado por Paulo indica que o dom está na base da missão. Somos chamados, em um exercício de livre arbítrio, a obedecer e servir. Trata-se de uma decisão nossa.

 

GRAÇA x LIVRE ARBÍTRIO

 

Por outro lado, sempre que experimentamos essa liberdade maior que vem da obediência genuína e somos conformados ao caráter de Cristo, nos tornando servos verdadeiros, reconhecemos que é tudo devido à obra de Deus em nós. É esse o paradoxo da graça e do livre arbítrio. A graça de Deus, que deseja nos conceder a liberdade, está presente, desde o momento da nossa conversão. A graça nunca nos falta, nem precisa ser reforçada. Mas pode, no entanto, ser bloqueada por atitudes e hábitos indevidos, ressentimentos e atitudes egoístas. Cabe a nós encontrá-los – com a ajuda do Espírito, é claro – e trabalhá-los através de um processo de arrependimento e submissão. O livre arbítrio, assim, é uma condição necessária a esse processo, mas não o resultado final. Tal processo não leva à autonomia absoluta, mas sim, a uma liberdade crescente do jugo do pecado e da morte. Já estamos livres da lei e da condenação; portanto, a liberdade para nos tornarmos o que Deus planejou é trabalho dele e nosso também – a glória, porém, é toda do Senhor.

 O Evangelho é uma boa nova incondicional. Não precisamos fazer algo ou obedecer a alguém; isso seria horrível. Não; o Evangelho trata-se, de fato, de poder fazer algo, o que é sempre positivo. Trata-se do que podemos ter à medida que permitimos, de bom grado, que Deus, através do seu Espírito, faça sua obra em nós: a certeza da vitória sobre o pecado e a morte. Apenas quando abraçarmos essa vitória – e renunciarmos a todas as reivindicações para governar nossas próprias vidas – é que seremos verdadeiramente livres. 

A Fé de Abraão e a Maldição da Lei – Gl 3.6-14

1 Comentário

Craig S. Keener

 

 Paulo faz cinco referências à lei de Moisés e uma aos profetas, formando um argumento com base na Escritura, de modo que aqueles que afirmavam respeitar a Lei tinham que aceitá-lo. Ele faz uma comparação entre a fé (3.6-9; 14) e as obras resultantes da prática da Lei (3.10-13), da mesma forma que em 3.5. Há duas interpretações principais para esta passagem: a primeira é de que os cristãos gentios criam como Abraão (a posição tradicional, seguida aqui) e a segunda, de que eles seriam salvos pela fé de Abraão (como no judaísmo), e consequentemente pela fé em Cristo, ou seja, pela fidelidade de Abraão e de Cristo à aliança.

 3.6. Paulo cita Gênesis 15.6, um texto bastante conhecido no judaísmo, para demonstrar como Abraão era um exemplo de fé. Paulo apresenta uma interpretação diferente daquela aceita pela tradição judaica.

 3.7. O povo judeu empregava a palavra “filhos” tanto no sentido literal (descendentes biológicos) como no sentido espiritual (os que se conduziam de acordo com os ensinamentos de seus antigos mestres). O título “descendência de Abraão” (ou “filhos de Abraão”) era geralmente aplicado ao povo judeu, mas algumas vezes referia-se especificamente àqueles que excediam em justiça – se bem que o povo judeu nunca aplicasse esta designação aos gentios. Paulo demonstra aqui que aqueles que criam como Abraão eram seus descendentes espirituais (Gn 15.6, citado em Gl 3.6).

 3.8, 9. Se os gentios podiam crer como Abraão (3.7), eles também poderiam ser justificados da mesma maneira como ele foi justificado. (Os mestres judeus consideravam Abraão um exemplo de conversão ao judaísmo, portanto seriam forçados a respeitar os argumentos de Paulo mais do que gostariam). Como bom expositor judeu, Paulo prova sua argumentação nesta passagem referindo-se a outro texto relacionado à promessa feita a Abraão (Gn 12.3 = 18.18; cf. 17.4, 5; 22.18). O propósito de Deus, desde o princípio, era alcançar também os gentios, como já havia sido predeterminado no início da narrativa de Abraão. No modo de pensar judaico, os justos (Israel) eram salvos em Abraão; Paulo afirma aqui que os cristãos gentios são salvos (abençoados) junto com Abraão.

 3.10. Tanto Gênesis 12.3 como as bênçãos da obediência encontradas em Deuteronômio 28 estabelecem um contraste entre as maldições recebidas por aqueles que se opõem a Abraão ou quebram a aliança e as bênçãos recebidas pelos descendentes de Abraão ou por aqueles que guardam a aliança. O raciocínio dos adversários segue o padrão normal de interpretação judaica. Paulo desta maneira apresenta seu veredicto sobre a justificação baseada nas “obras da Lei” (ARA) ou na “prática da Lei” (NVI): obediência parcial resulta em maldição (Dt 27.26, a síntese das maldições). De acordo com o ensino judaico, a obediência humana foi sempre incompleta, e Deus poderia, portanto não exigir uma obediência completa como condição para a salvação; mas como bom rabino, Paulo interpreta Deuteronômio 27.26 de maneira a obter tudo que está contido neste texto – afinal, Deus estava em posição de exigir perfeição.

 3.11. Paulo cita Habacuque 2.4 (ver comentário em Rm 1.17) para provar que a justificação baseada apenas na obediência humana é inadequada. Paulo demonstra conhecer profundamente o Antigo Testamento ao selecionar os dois únicos textos ali presentes que tratam tanto da justificação como da fé: Gn 15.6 (citado em 3.6) e Hc 2.4 (citado aqui).

 3.12. Como Habacuque 2.4 estabelece o vínculo entre justificação e vida, Paulo cita outro texto do Antigo Testamento relacionado a ambas, novamente demonstrando sua destreza na exegese judaica (os mestres judeus normalmente relacionavam os textos com base nas palavras-chave encontradas neles). Paulo apresenta o contraste entre o método baseado na fé (3.11) e o método firmado nas obras, apresentado em Levítico 18.5 (ver Êx 20.12, 20; Lv 25.18; Dt 4.1, 40; 5.33; 8.1; 30.16, 20; 32.47; Ne 9.29; Ez 20.11, 13; 33.19). Embora estes textos do Antigo Testamento prometam uma vida longa na terra prometida, Paulo sabia que muitos mestres judeus aplicavam estes textos à vida futura, por isso ele responde: “Este é o método baseado nas obras”. Os adversários de Paulo talvez tenham usado este texto para firmar seus argumentos de que só a fé não era suficiente. Paulo concorda que a justiça baseada na lei tem que ser cumprida, mas ele crê que essa justiça é cumprida em Cristo e pelo viver através de seu Espírito (5.16-25); já seus adversários acreditavam que o gentio seria justificado obedecendo aos pormenores da lei, especialmente o ato inicial da circuncisão.

 3.13. Paulo novamente emprega o recurso de ligar os textos do Antigo Testamento de acordo com as palavras-chave que têm em comum e cita Deuteronômio 21.23 para mostrar que Cristo se tornou “maldição” no lugar de todos os que deixaram de cumprir integralmente a Lei (Gl 3.10).

 3.14. Na perspectiva judaica “a bênção de Abraão” incluía o mundo inteiro por vir; Paulo aqui diz que os crentes se livraram da maldição deste mundo (Ef 1.3, 13, 14) pela bênção do Espírito (Is 44.3). (Sobre esta relação entre a promessa da terra e a promessa do Espírito, compare também Ag 2.5 com Êx 12.25; 13.5.).

 Fonte: Comentário Bíblico Atos: Novo Testamento, 544-546.

Fonte: Site Arminianismo

Romanos 9 – John Wesley

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John Wesley

No presente capítulo, Paulo, depois de declarar fortemente seu amor e estima pelos seus patrícios, propõe-se a responder à grande objeção que faziam; a saber, que a rejeição dos judeus e a recepção dos gentios contrariavam a palavra de Deus. Que aqui não tinha o menor pensamento da eleição ou reprovação pessoais é manifesto, (1) porque isto estava totalmente fora da sua intenção, que era mostrar serem a rejeição dos judeus e a recepção dos gentios coerentes com sua palavra; (2) porque tal doutrina não tenderia a convencer os judeus; antes, tenderia obviamente, a endurecê-los; (3) porque quando, ao final do capítulo ele resume seu argumento, ele não diz palavra alguma sobre isto ou sugere semelhante coisa.

1. Em Cristo – Isto parece sugerir um apelo a Cristo. No Espírito Santo – Pela sua graça.

2. Tenho grande tristeza – Um alto grau de tristeza e de alegria espirituais pode existir um ao lado do outro (Rm 8.39). Por declarar sua tristeza pelos judeus incrédulos, os quais se excluíam de todas as bênçãos que acaba de enumerar, ele mostra que o que agora ia falar não provinha de qualquer preconceito contra eles.

3. Eu mesmo desejaria – Meras palavras humanas são incapazes de descrever as emoções de almas plenas de Deus. É como se tivesse falado: eu poderia desejar sofrer em seu lugar; sim, ser o separado de Cristo em seu lugar. Não se pode dizer em que grau ele desejou isto, a menos que alguém tivesse perguntado ao próprio Paulo e que ele tivesse dado a resposta. Mas por certo ele não estava, de forma alguma, pensando em si, mas só nos outros e na glória de Deus. Tal coisa não podia acontecer; mesmo assim, o desejo era piedoso e sólido; embora sob uma condição tácita, isto se fosse certo e possível.

4. Pertence-lhe a adoção, etc. – Ele enumera seis prerrogativas, das quais o primeiro par concerne ao Pai, o segundo a Cristo, o terceiro ao Espírito Santo. A adoção, e também a glória – Isto é, Israel e o filho primogênito de Deus e o Deus da glória e seu Deus (Dt 4.7, Sl 106.20). Estes são relativos, um ao outro, a uma vez, Deus é o Pai de Israel, e Israel o povo de Deus. Paulo não fala aqui da arca da aliança ou de qualquer coisa material. O próprio Deus é “a glória do seu povo Israel” [Cf. Lc 2.32]. As alianças, a legislação – A aliança foi dada muito antes da lei. É chamada de alianças, no plural, porque foi repetida tão frequentemente e de tantas maneiras, e porque havia nela duas disposições (Gl 4.24), uma prometendo e a outra exibindo a promessa. O culto e as promessas – A verdadeira maneira de adorar a Deus e todas as promessas feitas aos antepassados.

5. Às prerrogativas já mencionadas, Paulo agora acrescenta mais duas. Deles são os pais – Os patriarcas e homens santos da antiguidade, sim, e o próprio Messias. O qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre – As palavras originais sugerem o ser auto-existente, independente, o qual era, é e será. Sobre todos – O supremo, como sendo Deus, e consequentemente bendito para todo o sempre. Palavra alguma pode expressar mais claramente sua divina, suprema majestade e sua graciosa soberania sobre judeus e gentios.

6. E não como se – Os judeus imaginaram que a Palavra de Deus deveria falhar, se toda a sua nação não fosse salva. Paulo refuta este pensamento e prova que a própria palavra havia previsto sua apostasia. A palavra de Deus – As promessas de Deus a Israel. Tenha falhado – Isto não poderia ser. Mesmo agora, diz o apóstolo, alguns desfrutam das promessas; e, posteriormente “todo o Israel será salvo” [Rm 11.26]. Isto é a essência dos capítulos 9, 10 e 11. Porque – Aqui ele entra nas provas da sua declaração. Nem todos são Israel, os que são de Israel – Os judeus sustentavam o contrário; a saber, que todos os que nasceram como israelitas, e só eles, eram povo de Deus. A primeira parte dessa tese é refutada aqui; a última, nos vv. 24 e 25. A conclusão é que Deus aceita todos os crentes, e só eles, e que este de forma alguma contraria a sua palavra. Pelo contrário, ele tem declarado na sua palavra, tanto por tipos como por testemunhos expressos, que crentes são aceitos como “filhos da promessa”, enquanto incrédulos são rejeitados, embora sendo “filhos da carne” [Rm 9.8]. Não todos são Israel – Isto é, nem todos estão no favor de Deus que são descendentes genealógicos de lsrael.[1]

7. Nem por serem sementes de Abraão resultará que todos são filhos de Deus[2] – Isto não foi o caso nem com toda a família de Abraão, e muito menos o seria na casa dos seus descendentes remotos. Mas, disse Deus então: Em Isaque será chamada a tua descendência – A saber, Isaque, não Ismael, será chamado tua semente; a semente para a qual se faz a promessa.

8. Isto é, Estes filhos não, etc. É como se tivesse dito: aqui temos um claro tipo das coisas do porvir; mostrando para nós que em todas as gerações futuras, não são os filhos da carne, os descendentes genealógicos de Abraão, mas os filhos da promessa, aqueles aos quais a promessa é feita, ou seja, os crentes são os filhos de Deus.

9. Porque esta é a palavra da promessa – Pelo poder pelo qual Isaque foi concebido, e não pelo poder da natureza. [A palavra] não é: Todo aquele que nasce de ti será abençoado, mas [ele diz]: Por esse tempo – Que agora determino. Virei, e Sara terá um filho, o qual herdará a bênção.

10. E que a bênção de Deus não pertence a todos os descendentes de Abraão fica evidente, não só por este exemplo, como também quando pelo caso de Esaú e Jacó, sendo que Jacó já fora escolhido para herdar a bênção, antes que qualquer dos dois tivesse praticado o bem ou o mal.[3] O apóstolo menciona isto para mostrar que nem os antepassados [dos judeus] foram aceitos por causa de qualquer mérito próprio. Que o propósito de Deus quanto à eleição permanecesse firme – Sendo esse propósito o de eleger ou escolher a semente prometida. Não por obras – Não por causa de qualquer mérito antecedente da parte daquele a quem Deus escolheu. Mas por aquele que chamou – De acordo com a própria vontade daquele que chamou para tal privilégio aquele que ele próprio quis chamar.

12. O mais velho – Esaú. Será servo do mais moço – Não na sua própria pessoa, pois isto nunca aconteceu, mas na sua posteridade. Assim, os edomitas frequentemente foram sujeitos aos israelitas.

13. Como está escrito – Com a palavra falada há tanto tempo em Gênesis, a de Malaquias concorda. Amei a Jacó– Com um amor peculiar; isto é, aos israelitas, à posteridade. Porém, comparativamente, me aborreci de Esaú – Isto é, dos edomitas, a posteridade de Esaú. Mas prestem atenção para: (1) Isto não diz respeito à pessoa de Jacó ou Esaú; (2) nem diz respeito ao estado eterno, deles próprios ou da sua descendência. Até aqui o apóstolo vem provando sua tese; a saber, que a exclusão de uma grande parte da descendência de Abraão, e mesmo de Isaque das promessas especiais de Deus, longe de ser impossível, já tinha realmente acontecido, conforme as Escrituras. Ele agora passa a refutar uma objeção.

14. Há injustiça da parte de Deus? Deus será injusto pelo fato de dar a bênção a Jacó em vez de Esaú? Ou por aceitar crentes e estes tão-somente? De modo nenhum. Isto é bem coerente com a sua justiça, porque ele tem o direito de fixar as condições sob as quais ele mostrará misericórdia, consoante a sua declaração a Moisés, intercedendo por todo o povo depois de ter praticado a idolatria com o bezerro de ouro. Terei misericôrdia de quem me aprouver ter misericórdia – Conforme os termos que eu próprio estabeleci. E compadecer-me-ei de quem me aprouuer ter compaixão– A saber, aos que se submetem às minhas condições, que aceitam a compaixão da maneira que eu determinei.

16. A bênção, portanto, não depende de quem quer, ou de quem corre – Ela não resulta nem da vontade e nem das obras humanas, mas da graça e do poder de Deus. A vontade do ser humano aqui se opõe à graça de Deus, e o seu correr à operação divina. Também esta declaração geral não se aplica apenas a Isaque, a Jacó e aos israelitas no tempo de Moisés, mas também a todos os seus descendentes, até ao fim do mundo.

17. Além disso – Deus tem o direito incontestável de rejeitar aqueles que se recusam a aceitar as bênçãos sob as condições dele. Ele exercitou tal direito no caso de Faraó; após muitos atos de teimosia e rebelião, Deus disse, como se encontra registrado na Escritura: Para isto mesmo te levantei – A saber, a não ser que tu te arrependas, isto certamente será a consequência do fato de ter eu te levantado, fazendo de ti um grande e glorioso monarca, para mostrar em ti o meu poder (como realmente aconteceu, por submergir a ele e ao seu exército no mar) e que meu nome seja anunciado por toda a terra – Como o é no dia de hoje. Isto pode ter ainda um outro sentido. Parece que Deus estava disposto a mostrar seu poder sobre o rio, os insetos, outros animais (bem como as causas de sua saúde, doenças, vida e morte), sobre os meteoros, o ar, o sol (os egípcios adoravam todas estas coisas e outras nações aprenderam destes as suas idolatrias), e, ao mesmo tempo, sobre seus deuses, por aquele terrível golpe, matando todos os seus sacerdotes e suas vítimas prediletas, os primogênitos dos seres humanos e das bestas-feras. Tudo isto se fez com o propósito não apenas de libertar seu povo Israel (para que uma só ação de onipotência teria sido suficiente), mas também de convencer os egípcios de que os objetos da sua adoração não passavam de criaturas de Jeová, inteiramente sob seu controle, e a atraí-los e às nações vizinhas, as quais ouviriam de todas essas maravilhas, da sua idolatria e para a adoração do único [verdadeiro] Deus. Para a execução deste desígnio (visando à demonstração do poder divino sobre os vários objetos do seu culto, através de uma variedade de atos maravilhosos, que, ao mesmo tempo se constituíram em justas punições pela sua cruel pressão dos israelitas), Deus se agradou em elevar ao trono de uma monarquia absoluta, um homem, não um homem que ele havia tornado iníquo de propósito, mas um que ele descobriu assim, o mais orgulhoso, o mais ousado e obstinado de todos os príncipes egípcios; e que, sendo incorrigível, bem mereceu ser colocado naquela situação na qual o juízo divino caiu pesadíssimo.

18. Logo – Isto é, ele de fato mostra a misericórdia sob suas próprias condições; a saber, aos que creem. [Ele] endurece – Isto é, ele os abandona à dureza de seu coração. A quem lhe apraz – A saber, os que não creem.

19. De que se queixa ele ainda? O vocábulo ainda é fortemente expressivo da murmuração mal-humorada e rabugenta daquele que faz a objeção. Pois quem jamais resistiu à sua vontade? – A palavra “sua” também expressa sua insolência e aversão a Deus, de quem ele nem se digna mencionar o nome.

20. Mas quem és tu, ó homem. Homem pequeno, impotente e ignorante. Para discutires com Deus? Ter que acusar Deus de injustiça, por ele próprio estabelecer os termos sob as quais ele mostrará a misericórdia? Porventura pode o artefato perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? – Por que me fizeste capaz de honra e imortalidade só pela fé?

21. Ou não tem o oleiro direito sobre a massa? – E quanto mais não tem Deus direito sobre suas criaturas, para designar um vaso, a saber, o crente, para honra e um outro, a saber, o incrédulo, para desonra? Se examinar o direito que Deus tem sobre nós de um modo mais geral, no que tange às suas criaturas inteligentes, Deus pode ser considerado de dois ângulos diferentes: como criador, proprietário e Senhor de tudo, ou como seu governador e juiz. Deus, na qualidade de Senhor soberano e Proprietário de tudo, dispensa seus dons ou favores com perfeita sabedoria, porém, não de acordo com quaisquer regras ou métodos que nos são familiares. A época em que nós existiremos, o país em que viveremos, nossos pais, a constituição do nosso corpo ou o feito mental: estas e inumeráveis outras circunstâncias são, sem dúvida, ordenadas com perfeita sabedoria; mas por regras que nos são invisíveis.

Os métodos de Deus em tratar conosco como Governador e Juiz, porém, são claramente revelados e perfeitamente conhecidos; a saber, que ele, no fim, retribuirá a cada um conforme as suas obras [Mt 16.27]. “Quem crer será salvo: quem não crer será condenado” [Mc 16.16].

Portanto, embora “ele tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” [v.18], isto é, ele permite que se endureçam como consequência da sua maldade obstinada; mesmo assim, sua vontade não é a de um ser arbitrário, caprichoso e tirânico. Ele só deseja aquilo que é infinitamente sábio e bom; por isso, sua vontade é uma regra justíssima de julgamento. Mostrará misericórdia, como já nos assegurou, só aos verdadeiros crentes e nem endurecerá a ninguém, exceto os que obstinadamente recusam sua misericórdia.

22. Se Deus, querendo – Isto se refere aos vv. 18-19. A saber, embora seja agora sua vontade, por causa da sua obstinada descrença. Mostrar a sua ira – A qual necessariamente pressupõe o pecado. E dar a conhecer o seu poder – Isto é repetido no v. 17. Suportou – Como fez com Faraó. Com muita longanimidade – A qual os deveria ter levado ao arrependimento. Os vasos da ira – Os que haviam movido sua ira por continuar a rejeitar a sua misericórdia. Preparados para a destruição – Por causa de sua própria impenitência voluntariosa. Haverá injustiça nisso?

23. Para que desse a conhecer – E se, por mostrar tal longanimidade mesmo aos “vasos da ira”, ele mostrou mais abundantemente a grandeza da sua gloriosa bondade, sabedoria e poder, aos vasos de misericórdia; aos que ele próprio, pela sua graça preparou para a glória. Existe nisso alguma injustiça?

24. Os quais somos nós – Aqui o apóstolo chega à outra proposição, a da graça livre para todos, quer judeu, quer gentio. Dentre os judeus – De que ele trata no v. 20. Dentre os gentios – Tratado no mesmo verso.

25. Amada – Como esposa. A que antes não era amada – Consequentemente, não eleita incondicionalmente.

26. Ali mesmo serão chamados filhos de Deus – Assim, eles não precisam deixar seu próprio país e vir à Judeia.

27. Mas Isaías testifica que (assim como muitos gentios serão aceitos) muitos judeus serão rejeitados e que de todos os milhares de Israel, só o remanescente é que será salvo. Isto foi falado originalmente dos poucos que foram poupados da destruição pelo exército de Senaqueribe.

28. Porque o Senhor cumprirá a sua palavra[4] – Agindo com rigorosa justiça, ele deixará apenas um pequeno remanescente. Haverá uma destruição tão generalizada que apenas poucos escaparão.

29. Como lsaias já disse – A saber, em Isaías 1.9 [e 7.1], que se refere aos que foram sitiados em Jerusalém por Rezim e Peca. Se o Senhor não nos tivesse deixado descendência – O que significa (1) a carência presente e (2) a abundância futura. Ter-nos-íamos tornado como Sodoma – Portanto, o revoltar-se contra Deus pela maioria da nação judaica e a consequente morte nos seus pecados não são coisas sem precedente.

30. Que diremos pois? O que devemos concluir de tudo isso, a não ser que os gentios, que não buscavam a justiça – Os quais antigamente não tinham conhecimento da justiça e nem se preocupavam com ela. Vieram a alcançá-la– ou seja, a justificação. Todavia a justiça que decorre da fé – Eis a primeira conclusão que devemos tirar das observações anteriores.

31. A segunda é que Israel (os judeus), procurando uma lei da justiça, a lei que, devidamente empregada, teria levado esse povo à fé e, daí, à justiça. Não chegou a atingir essa lei – A saber, não alcançaram aquela justiça ou justificação que é o único grande fim da lei.

32. Por quê? – Será porque Deus decretou eternamente que não a atingissem? Não encontramos aqui coisa semelhante; mas, coerente com o seu argumento, o apóstolo nos dá uma boa explicação: Porque não a procuraram pela fé – A única maneira de atingi-la. E, sim, como que pelas obras – Com efeito, se não declaradamente, das obrasPorque tropeçaram na pedra de tropeço – Isto é, Cristo crucificado [Cf. 1Pe 1.8].

33. Como está escrito – Prenunciado pelo vosso próprio profeta [Isaías]. Eis que ponho em Sião – Exibo na minha Igreja aquilo que embora realmente sendo o único seguro fundamento da felicidade, mesmo assim será uma pedra de tropeço e rocha de escândalo – Isto é, a ocasião de ruína para muitos, por causa da sua incredulidade obstinada.

Fonte: Romanos – Notas Explicativas, pp. 68-76

Fonte:  http://www.arminianismo.com/


[1] O comentário de Wesley exige a sua própria versão.

[2] Wesley não inclui as palavras “de Deus” na sua tradução. No comentário ele as acrescenta, grifadas, como se fosse parte do texto bíblico, provavelmente para deixar evidente a sua interpretação da passagem.

[3] “O bem ou o mal” é citado do v. 11.

[4] O sentido do texto na KJV e também no de Wesley é um tanto difícil de interpretar. Por ser bem mais claro, aqui seguimos Almeida.

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