O Que Foi a Remonstrância

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Jacó Armínio e a controvérsia dos remonstrantes

 

A Holanda na qual Jacó Armínio nasceu e foi criado estava lutando contra a tradição católica romana e contra o domínio da Espanha católica. Um pequeno grupo de rebeldes uniu várias províncias contra o domínio espanhol e estabeleceu uma aliança instável conhecida como Províncias Unidas (dos Países Baixos). A Holanda era a maior e a mais influente das províncias. Ao mesmo tempo em que os holandeses se libertaram da Espanha, estabeleceram sua igreja nacional protestante. A igreja reformada de Amsterdã foi fundada em 1566 e seus principais ministros e leigos mantiveram os três princípios protestantes fundamentais, sem se aliarem a nenhum ramo específico do protestantismo. O protestantismo holandês primitivo era um tipo sui generis que não seguia rigidamente o luteranismo ou o calvinismo.

 

Armínio foi criado como protestante na cidadezinha de Oudewater, entre Utrecht e Roterdã, mas sua formação cristã na juventude não foi pesadamente calvinista. Aos quinze anos de idade, foi enviado a Marburgo, na Alemanha, para obter sua educação. Enquanto estava lá, sua cidade natal foi invadida por soldados católicos leais à Espanha e muitos habitantes foram massacrados. A família inteira de Armínio foi exterminada em um único dia. O jovem estudante ficou sob os cuidados de um respeitado ministro holandês de Amsterdã e acabou se tornando um dos primeiros alunos a se matricular na recém-estabelecida universidade protestante de Leiden. A igreja reformada de Amsterdã considerava Armínio um dos jovens candidatos mais promissores ao ministério e por isso custeou seu estudo superior em Leiden e, depois, na Suíça. Lá, estudou por algum tempo na “Meca” da teologia reformada, a Academia de Genebra, dirigida por Beza.

 

Em 1588, Armínio iniciou o ministério na igreja reformada de Amsterdã, aos 29 anos de idade. Todos os relatos contam que seu pastorado foi ilustre. Conforme observa certo biógrafo: “Armínio se tornou o primeiro pastor holandês da igreja reformada holandesa da maior cidade da Holanda, exatamente quando ela estava emergindo de seu passado medieval e irrompendo na Idade de Ouro”. Era notadamente benquisto e respeitado, tanto como pastor quanto como pregador, e rapidamente se tornou um dos homens mais influentes de toda a Holanda. Casou-se com a filha de um dos principais cidadãos de Amsterdã e entrou para o grupo dos privilegiados e poderosos. Nem por isso demonstrou qualquer indício de arrogância ou ambição. Nem sequer seus críticos ousaram acusá-lo de abusar de seu cargo pastoral ou de qualquer outra falha pessoal ou espiritual. Acabaram acusando-o de heresia somente porque, como pastor de uma das igrejas mais influentes da Holanda, começou a criticar abertamente o supralapsarismo que entrou em ascensão conforme cada vez mais ministros holandeses retornaram de seus estudos em Genebra sob a direção de Beza. Armínio era da “escola amiga” do protestantismo holandês de mentalidade independente, que se recusava a declarar como ortodoxo qualquer ramo específico da teologia protestante. Alguns, no entanto, insistiam cada vez mais que o supralapsarismo era a única teologia protestante ortodoxa e que qualquer outra opinião significava, de alguma forma, uma acomodação à teologia católica romana e, portanto, era uma aliada em potencial da Espanha, inimiga política dos Países Baixos.

 

Na década de 1590, o conflito entre Armínio e os calvinistas rígidos da Holanda se tornou cada vez pior. Alguns estudiosos sugerem que Armínio mudou de opinião nesse período. Acreditam que tinha sido um “hipercalvinista” ou mesmo um supralapsário. Essa suposição parece ter se fundamentado simplesmente no fato de ele ter sido aluno de Beza. O principal intérprete moderno de Armínio contradiz a ideia da alegada mudança de opinião de Armínio: “Todas as evidências levam a uma só conclusão: Armínio não concordava com a doutrina de Beza sobre a predestinação, quando assumiu o seu ministério em Amsterdã; na realidade, é provável que nunca tenha concordado com ela”. Na série de sermões sobre a Epístola de Paulo aos romanos, o jovem pregador começou a negar abertamente não somente o supralapsarismo, mas também a eleição incondicional e a graça irresistível. Interpretou Romanos 9, por exemplo, como uma referência não a indivíduos, mas a classes – crentes e incrédulos – conforme predestinadas por Deus. Afirmou que o livre-arbítrio dos indivíduos os incluía nas classes de “eleitos” e de “réprobos” e explicou a predestinação como a presciência divina acerca da livre escolha dos indivíduos. Para apoiar essa ideia, Armínio apelou a Romanos 8.29. Conforme observa o biógrafo e intérprete de Armínio, Carl Bangs, o teólogo holandês demonstrou, em seus sermões da década de 1590, o desejo de encontrar o equilíbrio entre a graça soberana e o livre-arbítrio humano: “o objetivo era uma teologia da graça, que não deixasse o homem ‘entre a cruz e o punhal’”.

 

Os rígidos oponentes calvinistas de Armínio em Amsterdã e outros lugares não tardaram em farejar o pavoroso erro de sinergismo em sua pregação e ensino e, publicamente, acusaram-no de heresia para os oficiais da igreja e da cidade, que examinaram a questão e inocentaram Armínio das acusações. Armínio apelou à tradição protestante holandesa da independência dos sistemas teológicos específicos e à tolerância de diversidade nos pormenores da doutrina. Os oficiais concordaram. Os oponentes supralapsários de Armínio ressentiram-se e decidiram que o arruinariam de qualquer maneira. Sofreram uma derrota fragorosa quando Armínio foi nomeado para ocupar a prestigiosa cátedra de teologia na Universidade de Leiden em 1603. O outro catedrático de teologia daquele período era Francisco Gomaro, que talvez tenha sido o calvinista supralapsário mais franco e rígido de toda a Europa. Gomaro, além de considerar todas as outras opiniões, inclusive o infralapsarismo, falhas ou até heréticas, “tinha, segundo quase todos os relatos a seu respeito, um temperamento extremamente irascível”.

 

Quase que imediatamente, Gomaro iniciou uma campanha de acusações contra Armínio. Algumas delas eram verídicas. Por exemplo, Armínio não escondia a rejeição não somente do supralapsarismo, mas também da doutrina clássica calvinista da predestinação como um todo. Gomaro distorceu esse fato e, publicamente e por trás das costas de Armínio, insinuou que ele era um simpatizante secreto dos jesuítas – uma ordem de sacerdotes católicos romanos especialmente temida que era chamada “tropa de choque da Contra Reforma”. Essa alegação de Gomaro, assim como outras, era claramente falsa. Por exemplo, Gomaro acusou Armínio de socinianismo, que era uma negação da Trindade e de quase todas as demais doutrinas cristãs clássicas. Não importa o que Armínio escrevesse ou dissesse em sua defesa, via-se constantemente atacado por boatos e sob suspeita. “Quando a controvérsia ultrapassou os limites das salas acadêmicas e chegou aos púlpitos e às ruas, suas defesas perderam o efeito. Era mais fácil chegar à conclusão de que ‘onde há fumaça, há fogo’”. A controvérsia cresceu a ponto de provocar uma guerra civil entre as províncias dos Países Baixos. Algumas apoiavam Armínio, outras apoiavam Gomaro. O conflito eclodiu em 1604, quando Gomaro, pela primeira vez, acusou Armínio abertamente de heresia e durou até a morte de Armínio por causa de tuberculose em 1609. Quando morreu, sua teologia estava sob a inquisição pública de líderes religiosos e políticos. Em seu enterro, um de seus amigos mais íntimos fez o discurso fúnebre diante do corpo de Armínio: “Viveu na Holanda um homem que só não era conhecido por quem não o estimava suficientemente e só não o estimava quem não o conhecia suficientemente”.

 

Depois da morte de Armínio, quarenta e seis ministros e leigos holandeses respeitados redigiram um documento chamado “Remonstrância” que resumia a rejeição, por Armínio e por eles mesmos, do calvinismo rígido em cinco pontos. Graças ao título do documento, os arminianos passaram a ser chamados de remonstrantes. Entre eles, estavam os estadistas e líderes políticos holandeses que tinham ajudado a libertar os Países Baixos da Espanha. Seus inimigos acusavam-nos de apoiar secretamente os jesuítas e a teologia católica romana, e de simpatizar com a Espanha, só porque concordavam com a oposição de Armínio a respeito das doutrinas da predestinação! Não existe nenhuma evidência de que qualquer um deles realmente tivesse alguma culpa em relação às acusações políticas feitas contra eles. Mesmo assim, ocorreram tumultos em várias cidades holandesas, nos quais foram pregados sermões contra os remonstrantes e distribuídos panfletos que os difamavam como hereges e traidores. Finalmente, o grande poder político dos Países Baixos, o príncipe Maurício de Nassau, entrou na luta em favor dos calvinistas. Em 1618, ordenou a detenção e o encarceramento dos principais arminianos, para aguardar o resultado do sínodo nacional de teólogos e pregadores. O Sínodo de Dort entrou em sessão em novembro de 1618 e foi encerrado em janeiro de 1619, contando com a presença de mais de cem delegados, inclusive alguns da Inglaterra, da Escócia, da França e da Suíça. “João Bogerman, um pregador calvinista com opiniões extremadas, que havia defendido em um documento a pena de morte por heresia, foi escolhido como presidente”.

 

Como esperado, a despeito das eloquentes defesas do Arminianismo feitas pelos principais remonstrantes, na conclusão do sínodo, todos os líderes remonstrantes foram condenados como hereges. Pelo menos duzentos foram depostos do ministério da igreja e do estado e cerca de oitenta foram exilados ou presos. Um deles, o presbítero, estadista e filósofo Hugo Grotius (1583-1645), foi confinado em uma masmorra da qual posteriormente escapou. Outro estadista foi publicamente decapitado. Um historiador moderno da controvérsia concluiu que “o modo de [o príncipe] Maurício tratar os estadistas arminianos só pode ser considerado um dos grandes crimes da História”.

 

O Sínodo de Dort promulgou um conjunto de doutrinas padronizadas para a igreja reformada holandesa, que se tornou a base do acrônimo TULIP. Cada cânon, conforme eram chamadas as doutrinas, baseava-se em um dos cinco pontos da “Remonstrância”. As coisas que os arminianos negavam, Dort canonizou como doutrina oficial, obrigatória para todos os crentes protestantes reformados. Não arbitrou, no entanto, sobre o supralapsarismo e o infralapsarismo e, desde então, as duas teorias continuaram dentro do consenso calvinista expresso pelo Sínodo de Dort. Após a morte do príncipe Maurício em 1625, o arminianismo gradualmente voltou a fazer parte da vida holandesa. Já em 1634, muitos exilados voltaram e organizaram a Fraternidade Remonstrante, que cresceu e formou a Igreja Reformada Remonstrante, que ainda existe. Não foi nos Países Baixos, no entanto, que a teologia arminiana causou maior impacto. Isso aconteceu na Inglaterra e na América do Norte pela influência de destacados ministros anglicanos, batistas gerais, metodistas e ministros de outras seitas e denominações que surgiram nos séculos XVII e XVIII. João Wesley (1703-1791) tornou-se o arminiano mais influente de todos os tempos. Seu movimento metodista adotou o arminianismo como teologia oficial e, através dele, tornou-se parte da tendência prevalecente na vida protestante da Grã-Bretanha e da América do Norte.

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Fonte:  Arminianismo

Fonte: Roger E. Olson, História da Teologia Cristã, 471-475

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Conceito de Armínio sobre os Decretos Divinos.

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Mildred Bangs Wynkoop

 

Tiago Armínio nasceu em Oudewater, Holanda, em 1560. As necessidades econômicas obrigaram sua mãe viúva a deixar o filho debaixo da tutela de outros. Foi adotado por um sacerdote católico convertido, que o enviou à escola em Utrecht. Com a morte de seu benfeitor, o brilhante jovem foi levado à universidade lute­rana local por um professor de Marburg. Em pouco tempo, os espanhóis tomaram Oudewater e assassi­naram a maior parte de seus habitantes por negar-se a retornar ao catolicismo. Entre os mortos estavam a mãe e os irmãos de Armínio. Seu coração se encheu de amargura por tanta impiedade política, o que prova­velmente explica sua resistência à intolerância religi­osa que mais tarde teria que experimentar.

 

O triste e destituído jovem encontrou refúgio no lar de Pedro Bertius, pastor da Igreja Reformada em Roterdã. Ele o enviou à nova universidade de Leiden, onde se distinguiu como estudante. Finalmente, os patrocinadores da grande igreja em Amsterdã “o ado­taram,” assegurando-lhe a melhor educação possível a troco de sua promessa de retornar a eles como pas­tor, se assim o desejasse. Imediatamente Armínio foi enviado à Universidade de Genebra para sua prepara­ção ministerial; ali estudou teologia com Beza e ou­tros. Alguns se perguntam se Armínio chegou a acei­tar completamente a ideologia de Beza; porém, pelo menos, se familiarizou com sua “elevada posição calvinista.”[1]

 

Ao concluir sua educação em Genebra, Armínio foi nomeado pastor da Igreja de Amsterdã. Era um pre­gador brilhante, dotado exegeta bíblico, cristão humilde e consagrado. Suas mensagens expositivas lhe de­ram especial celebridade e sua oratória o fez popular, atraindo muitos ouvintes.

 

Em 1589, um leigo instruído, Koornheert, da Holan­da, levantou uma tormenta nos círculos teológicos por suas dissertações e escritos em refutação da teoria supralapsariana dos decretos divinos. É significativo que o tremendo descontentamento gerado com a posição de Calvino e Beza, tenha levado um leigo a fazer tal coisa. Koornheert argumentava que, se como Beza ar­gumentava,  Deus causaria o pecado; então, em realidade, Ele é seu autor. A Bíblia não ensina tal monstruosidade. Koornheert atraía um número cada vez maior de ouvintes e como polemizasse de forma tão brilhante, chegou-se a temer que seu pensamento solapasse a estrutura total do calvinismo, e mesmo a estabilidade política dos Países Baixos. Parecia que nenhum ministro era capaz de refutá-lo e, por isso, Armínio foi incumbido desta tarefa.

 

Para poder fazê-la, começou uma séria revisão da doutrina da predestinação, na mesma Bíblia, particu­larmente na Epístola aos Romanos. Concentrou-se no capítulo 9, baluarte calvinista de seu dogma. Porém, quanto mais se aprofundava Armínio, mais lhe con­vencia sua investigação de que o ensinamento de Pau­lo estava em oposição à classe de predestinação que Beza ensinava. Os judeus criam que eles haviam sido divinamente predestinados para serem salvos e que nada poderia mudar este ato. Eles sustentavam que Deus seria injusto se rejeitasse a qualquer judeu. A Epístola aos Romanos foi escrita precisamente para mostrar a distinção entre a histórica soberania abso­luta e as condições da salvação pessoal. Esta última sempre é pela fé, não por decretos. Nisto se apoia a justiça de Deus.[2] Armínio nunca abandonou sua cren­ça na predestinação divina; porém, viu a posição bíbli­ca sob uma luz diferente do ensinamento de Beza.

 

A mente erudita de Armínio se encontrava agora diante do desafio de investigar o assunto até às últi­mas conseqüências. Leu os escritos dos Pais da Igre­ja. Em uma obra mestra de investigação, compilou evi­dências demonstrando que nenhum “Pai” fidedigno havia ensinado jamais os critérios de Beza, nem a du­pla predestinação particular de Calvino jamais havia sido oficialmente aceita pela igreja. Para sua surpre­sa, descobriu que o mesmo Agostinho, não só antes da controvérsia com Pelágio, como principalmente depois, havia ensinado a completa responsabilidade moral.[3] Jamais se realizou a refutação da “heresia” de Koornheert.

 

Como resultado deste estudo, Armínio começou a pregar uma série de sermões expositivos da Epístola aos Romanos. Não atacou os pontos de vista extrema­dos de seus colegas, senão que abriu o verdadeiro e rico significado desta epístola ao povo. Finalmente, seus críticos notaram sua falta de ênfase sobre o supralapsarianismo. Em lugar de questionarem abertamente, começaram uma campanha de ciladas. Diziam que Armínio havia voltado a ser católico, um semipelagiano, por seu primeiro contato com o sacerdote na primeira parte de sua vida. Por acaso a viagem que fizera mais tarde a Roma com um amigo, não revelava sua secreta inclinação ao catolicismo? A ênfase católica que em­pregava era séria, não tanto do ponto de vista teológi­co, mas porque o protestantismo estava lutando con­tra os abusos do sistema hierárquico católico e sua esmagadora dominação política.

 

Cada vez que Armínio tinha oportunidade de de­fender publicamente sua exposição das Escrituras, seu talento seguro e tranqüilo ganhava todos os argumen­tos. Ninguém pôde jamais lhe refutar sobre a base da interpretação bíblica. Por fim, como ninguém se atre­veria a opor-se a ele abertamente, seus inimigos to­maram suas palavras fora do contexto e procuraram de todas as maneiras possíveis deteriorar sua influência. Armínio era um homem pacífico e lastimou a tormentosa perturbação originada na Igreja, especial­mente pelo fato de que ele mesmo poderia ter sido seu causador. Solicitou ser ouvido por uma corte pública, porém lhe foi negado, enquanto viveu. Após a sua mor­te, o Sínodo de Dort foi a resposta à sua súplica. No entanto, a ocasião foi muito diferente da que ele havia pedido, quando a oportunidade para o debate livre foi completamente negada.

 

Armínio foi eventualmente empossado como pro­fessor de teologia da Universidade de Leiden, com ple­no conhecimento de sua posição teológica. Ali chocou-se diretamente com o “elevado calvinismo de Gomar.” Este último, professor de Novo Testamento, desafiou Armínio sobre o fundamento da autoridade bíblica. Armínio negou-se a submeter sua interpretação escriturística aos credos. No calor da controvérsia, pos­tulou-se que “as Escrituras deviam ser interpretadas segundo as Confissões e o Catecismo.” Embora essa fosse uma declaração extrema, era a posição que es­tava no fundo da controvérsia. Armínio respondeu so­bre essa base.[4]

 

Ninguém jamais acusou Armínio de manobrar as Escrituras, mas somente de fracassar em seu ofício para defender uma posição predeterminada. Armínio insistia em que a autoridade devia fundamentar-se na Palavra de Deus e não nas opiniões dos homens. Então, incumbe a eles averiguar o que disse o Livro divino. Os líderes da Igreja virtualmente queriam que Armínio deixasse de pregar a Bíblia como Autoridade final. Argumentavam que o Credo Calvinista devia ser considerado como a real autoridade conclusiva. Toda­via, permaneceu pendente qual dos credos devia ocu­par esse lugar.

 

A linha supralapsariana queria que cada pastor subscrevesse anualmente a Declaração de Fé para manter seu vínculo com a Igreja. Isto seria um meio para assegurar sua conformidade e a estabilidade à religião e ao governo. Armínio lhes recordou que eles não poderiam concordar quanto a qual dos credos de­via ser considerado como autoridade final. Ele queria que a Bíblia fosse o único fundamento para a ortodoxia e destacou sua opinião pressionando com duas per­guntas incisivas:

 

– Deve prevalecer a palavra do homem sobre a Palavra de Deus?

 

– Deve estar ligada a consciência do homem cris­tão pela Palavra de Deus ou pela Palavra do ho­mem?

 

O assunto não era primordialmente a predestina­ção como tal, mas “também a função do magistrado e a tolerância.” Existia perigo, um receio de que o minis­tro “se arrogasse o poder de Cristo e deste modo se desenvolveria um novo papado.”[5] As teorias da pre­destinação estiveram a ponto de arrasar os mais vitais assuntos que estavam em ebulição para debaixo de­las.

 

Não há espaço para se comentar a história por com­pleto, porém deve-se enfocar os princípios que foram implicados.

 

Armínio rejeitou o conceito supralapsariano dos decretos de Deus porque:

 

– Não era sustentado pelas Escrituras.

 

– Não havia sido apoiado por cristãos doutos e res­ponsáveis durante mil e quinhentos anos e nun­ca fora aceito pela totalidade da Igreja.

 

– Deus se tornava o autor do pecado.

 

– O decreto da eleição se aplicara ao homem ain­da não criado.

 

Se, como ensinavam Beza e Gomar, Deus impele os homens a pecar, então, Ele é o autor do pecado. Armínio insistiu em que a lógica supralapsariana não podia escapar a esta conclusão e não poupou palavras para denunciar este erro.

 

De todas as blasfêmias que podem proferir-se contra Deus, a mais ofensiva é aquela que O declara autor do pecado; o peso dessa imputação é aumentado seria­mente se lhe agrega que, segundo essa perspectiva, Deus é o autor do pecado cometido pela criatura, para poder condená-la e lançá-la à perdição eterna que lhe havia destinado para ela de antemão, sem ter relação com o pecado. Porque, desse modo, “Ele seria a cau­sa da iniqüidade do homem para poder infligir o sofri­mento eterno”… Nada imputará tal blasfêmia a Deus, a quem todos concebem como bom… Não pode atri­buir-se a nenhum dos doutores da Igreja Reformada, que eles “abertamente declarem Deus como autor do pecado”… No entanto, “é provável que alguém possa, por ignorância, ensinar algo do qual fora possível, como claro resultado, deduzir que, por essa doutrina, Deus permaneça declarado autor do pecado.” Se tal for o caso, então… (os doutores) devem ser admoestados a abandonar e desprezar a doutrina da qual se tem tira­do tal inferência.[6]

 

Tal coisa faria de Deus, inevitavelmente, o único pecador verdadeiro no universo. Ninguém ensinou um ponto de vista tão extremo; Armínio, porém, chamou a atenção para o fato de que uma teologia determinada pela lógica e não pela Palavra de Deus, ao fim faria forçosa esta conclusão. Somente fundamentando a te­ologia sobre a Palavra de Deus poderiam ser evitados os equívocos do juízo humano, que por sua vez podem conduzir a conclusões capazes de destruir o coração da fé cristã.

 

Armínio faleceu em 1609, antes que os problemas teológicos chegassem a uma solução. Seus seguido­res, cada um à sua maneira, seguiram a batalha. Al­guns foram fiéis ao espírito evangélico de Armínio (Episcopus). Outros chegaram a implicar assuntos tais como a separação da igreja e do Estado e as raízes da democracia (Hugo Gratius, o “Pai da Lei Internacio­nal”). Limborch interpretou o conflito arminiano numa maneira teologicamente liberal e fez com que o arminianismo parecesse destruir a fé cristã.

 

Devemos agora resumir os ensinamentos de Armínio com referência a nossos problemas (em rela­ção à santidade). Seu princípio começa a demonstrar como as teorias da predestinação conduzem para a posterior doutrina wesleyana da santidade ou se afas­tam dela. Armínio colocou fundamentos para uma doutrina bíblica da santidade ainda que ele mesmo não a tivesse desenvolvido.

 

Os Princípios de Armínio Concernentes à Predestinação

 

– A doutrina da predestinação deve ser bíblica e não principalmente lógica ou filosófica. (Este ponto de vista chegaria a ser mais tarde, na história, o princípio de Wesley).

 

– A predestinação deve ser entendida cristologicamente. Cristo, não os decretos, é a Fonte e Causa da salvação.

 

– A salvação deve ser evangélica, isto é, pela fé pessoal em Cristo.

 

– Se, por um lado, nenhuma teoria da predesti­nação é bíblica se faz que seja logicamente ne­cessário dizer que Deus é o autor do pecado; porém, por outro, não pode ser logicamente pos­sível afirmar que o homem pode ser o autor de sua própria salvação.[7]

Fonte: Fundamentos da Teologia Arminio-Wesleyana, p. 51-57

Arminianismo.com


[1] Carl Bangs, “Arminius and the Reformation,” Church History, Vol XXX, nº 2, Junho, 1961, p. 7-8.

[2] Cf. The Works of James Arminius, trad. Wn Nichols (London: Thomas Baker, 1875), III, 527 ff.

[3] Cf., ibid, II, 354-74.

[4] Cf. Caspar Brandt, The Life of James Arminius. Trad. John Guthrie (London: Ward and Co., 1854), p. 217-18.

[5] Bangs, op. cit., p. 5-6.

[6] Arminius, op. cit., III, 645-55.

[7] Ibid, II, 392-93.

Arminianismo

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O Arminianismo é um sistema teológico baseado nas idéias do pastor e teólogo reformado holandês Jacob Harmensz, mais conhecido pela forma latinizada de seu nome Jacobus Arminius. No inglês, é usualmente referenciado como James Arminius ou Jacob Arminius. Em português, seu nome seria Jacó Armínio.

Embora tenha sido discípulo do notável calvinista Teodoro de Beza, Armínio defendeu uma forma evangélica de sinergismo (crença que a salvação do homem depende da cooperação entre Deus e o homem), que é contrário ao monergismo, do qual faz parte o Calvinismo (crença de que a salvação é inteiramente determinada por Deus, sem nenhuma participação livre do homem). O sinergismo arminiano difere substancialmente de outras formas de sinergismo, tais como o Pelagianismo e o Semipelagianismo, como se demonstrará adiante. De modo análogo, também há variações entre as crenças monergistas, tais como o supra-lapsarianismo e o infra-lapsarianismo.

Armínio não foi primeiro e nem o último sinergista na história da Igreja. De fato, há dúvidas quanto ao fato de que ele tenha introduzido algo de novo na teologia cristã. Os próprios arminianos costumavam afirmar que os pais da Igreja grega dos primeiros séculos da era cristã e muitos dos teólogos católicos medievais eram sinergistas, tais como o reformador católico Erasmo de Roterdã. Até mesmo Philipp Melanchthon (1497-1560), companheiro de Lutero na reforma alemã, era sinergista, embora o próprio Lutero não fosse.

Armínio e seus seguidores divergiram do monergismo calvinista por entenderem que as crenças calvinistas na eleição incondicional (e especialmente na reprovação incondicional), na expiação limitada e na graça irresistível:

– seriam incompatíveis com o caráter de Deus, que é amoroso, compassivo, bom e deseja que todos se salvem.

– violariam o caráter pessoal da relação entre Deus e o homem.

– levariam à conseqüência lógica inevitável de que Deus fosse o autor do mal e do pecado.

Contexto Histórico

Para se compreender os motivos que levaram à aguda controvérsia entre o Calvinismo e o Arminianismo, é preciso compreender o contexto histórico e político no qual se inseriam os Países Baixos à época.

De acordo com historiadores, tais como Carl Bangs, autor de “Arminius: A Study in the Dutch Reformation(1985)”, as igrejas reformadas da região eram protestantes, em sentido geral, e não rigidamente calvinistas. Embora aceitassem o catecismo de Heidelberg como declaração primária de fé, não exigiam que seus ministros ou teólogos aderissem aos princípios calvinistas, que vinham sendo desenvolvidos em Genebra, por Beza. Havia relativa tolerância entre os protestantes holandeses. De fato, havia tanto calvinistas quanto luteranos. Os seguidores do sinergismo de Melanchthon conviviam pacificamente com os que professavam o supralapsarianismo de Beza. O próprio Armínio, acostumado com tal “unidade na diversidade”, mostrou-se estarrecido, em algumas ocasiões, com as exageradas reações calvinistas ao seu ensino.

Essa convivência pacífica começou a ser destruída quando Franciscus Gomarus, colega de Armínio na Universidade de Leiden, passou a defender que os padrões doutrinários das igrejas e universidades holandesas fossem calvinistas. Então, lançou um ataque contra os moderados, incluindo Armínio.

De início, a campanha para impor o calvinismo não foi bem sucedida. Tanto a igreja quanto o Estado não consideravam que a teologia de Armínio fosse heterodoxa. Isso mudou quando a política passou a interferir no processo.

À época, os Países Baixos, liderados pelo príncipe Maurício de Nassau, calvinista, estavam em guerra contra a dominação da Espanha, católica. Alguns calvinistas passaram a convencer os governantes dos Países Baixos, e especialmente o príncipe Nassau, de que apenas a sua teologia proveria uma proteção segura contra a influência do catolicismo espanhol. De fato, caricaturas da época apresentavam Armínio como um jesuíta disfarçado. Nada disso foi jamais comprovado.

Depois da morte de Armínio, o governo começou a interferir cada vez mais na controvérsia teológica sobre predestinação. O príncipe Nassau destituiu os arminianos dos cargos políticos que ocupavam. Um arminiano foi executado e outros foram presos. O conflito teológico atingiu tamanha proporção que levou a Igreja a convocar o Sínodo Nacional da Igreja Reformada, em Dort, mais conhecido como o Sínodo de Dort, onde os arminianos, conhecidos como “remonstrantes”, tiveram a oportunidade de defender seus pontos de vista perante as autoridades, partidárias do Calvinismo. As discussões ocorreram em 154 reuniões iniciadas em 13 de novembro de 1618 e encerrada em 9 de maio de 1619, cujo assunto era a predestinação incondicional defendida pelo Calvinismo e a predestinação condicional defendida pelo Arminianismo. Os arminianos acabaram sendo condenados como hereges, destituídos de seus cargos eclesiásticos e seculares, tiveram suas propriedades expropriadas e foram exilados.

Logo que Maurício de Nassau morreu, os calvinistas perderam o seu poder na região e os arminianos puderam retornar ao país, onde fundaram igrejas e um seminário, o qual até hoje existe na Holanda (Remonstrants Seminarium).

Em síntese, as igrejas protestantes holandesas continham diversidade teológica, à época de Armínio. Tanto monergistas quanto sinergistas eram ali representados e conviviam pacificamente. O que levou a visão monergista à supremacia foi o poder do Estado, representado pelo príncipe Maurício de Nassau, que perseguiu os sinergistas.

Para Armínio e seus seguidores, sua teologia também era compatível com a reforma protestante. Em sua opinião, tanto o Calvinismo quanto o Arminianismo são duas correntes inseridas na reforma protestante, por serem, ambas, compatíveis com o lema dos reformados sola gratia, sola fide, sola scriptura.

Diferentes Correntes

A exemplo do que ocorre com outras correntes teológicas, tais como o Calvinismo, as crenças arminianas não são homogêneas. As idéias originalmente desenvolvidas por Armínio foram sistematizadas e desenvolvidas por inúmeros sucessores e profundamente alteradas por outros. Embora todos eles sejam considerados arminianos, divergem em alguns pontos cruciais. O teólogo reformado Allan Sell introduziu a distinção entre os “arminianos do coração” e os “arminianos da cabeça”.

Arminianos do Coração

São classificados como tal os teólogos que continuaram a trilhar os mesmos passos de Armínio, ou seja, sua teologia é perfeitamente compatível com as idéias por ele defendidas. Entre os inúmeros arminianos do coração, podem ser citados:

– Os Remonstrantes: cerca de 45 ministros e teólogos dos Países Baixos que deram continuidade ao desenvolvimento da teologia de Armínio. Seu principal representante é Simon Episcopius (1583-1643). Outro nome importante é o do conhecido cientista político Hugo Grotius (1583-1645). Os últimos remonstrantes afastaram-se substancialmente das linhas traçadas por Armínio e deram origem ao “Arminianismo da cabeça” (vide adiante).

– Século XVIII: o principal nome que desponta nessa época é o de John Wesley (1703-1791), que se declarava arminiano e defendeu o Arminianismo da acusação de heterodoxia e de heresia. Embora a teologia de Wesley seja compatível com o Arminianismo original, apresenta alguns acréscimos importantes, tais como o perfeccionismo wesleyano, com o qual nem todos os arminianos concordam, e algumas aparentes contradições, em razão da falta de rigor teológico utilizado em sua linguagem, muito mais de pregador do que de teólogo. Além de Wesley, merecem destaque John Fletcher (1729-1785) e Richard Watson (1781-1833).

– Século XIX: Thomas Summers (1812-1882), William Burton Pope (1822-1903), John Miley (1813-1895).

– Século XX: H. Orton Wiley (1877-1961), Thomas Oden (embora não aceite ser chamado de arminiano, sua obra é totalmente compatível com o Arminianismo clássico. Prefere o rótulo de “paleo-ortodoxo”, já que apela para o consenso dos primeiros pais da Igreja). Dale Moody, Stanley Grenz, Howard Marshall.

Arminianos da Cabeça

São considerados “arminianos da cabeça” os que abandonaram alguns dos princípios basilares da teologia arminiana clássica, tal como a crença no pecado original e na depravação total. Aproximaram-se do Semipelagianismo e até do Pelagianismo, negando a salvação pela graça, pilar da reforma protestante. Posteriormente, a teologia de alguns sofreu fortes influências do Iluminismo, recaindo em Universalismo, Arianismo e em vertentes da teologia moderna liberal.

A maior parte dos críticos do Arminianismo cometem o equívoco de tomar a parte pelo todo, considerando que todos os arminianos são “da cabeça”, sem discernir as profundas diferenças entre as várias correntes arminianas. Tal equívoco é semelhante ao de considerar que todos os calvinistas são hiper-calvinistas ou que todos sejam supralapsarianos. Talvez por isso, o Arminianismo seja tão freqüentemente associado ao semipelagianismo.

Entre os conhecidos arminianos da cabeça, destacam-se:

– Remonstrantes: alguns dos últimos remonstrantes passaram a defender posições mais próximas do Semipelagianismo do que do Arminianismo, afastando-se do Arminianismo clássico. O principal nome dessa época é Philipp Limborch (1633-1712). Muitos opositores do Arminianismo, na realidade, baseam suas críticas nas idéias de Limborch, como se fossem iguais às de Armínio.

– Século XVIII: John Taylor (1694-1761) e Charles Chauncy (1705-1787).

– Século XIX: o nome de maior destaque é o do avivalista Charles Finney (1792-1875), cuja teologia é fortemente pelagiana.

A Essência Teológica do Arminianismo do Coração

Os Cinco Pontos do Arminianismo

No Sínodo de Dort, os remonstrantes apresentaram a doutrina arminiana clássica na forma dos cinco pontos seguintes:

Eleição Condicional

Deus, por um eterno e imutável decreto em Cristo, antes da criação do mundo, determinou eleger, dentre a raça humana caída e pecadora, aqueles que pela graça crêem em Jesus Cristo e perseveram na fé e obediência. Contrariamente, Deus resolveu rejeitar os não convertidos e descrentes, reservando-lhes o sofrimento eterno (Jo 3.36).

Expiação Universal

Em conseqüência do decreto divino, Cristo, o salvador do mundo, morreu por todos os homens, de modo a garantir, pela morte na cruz, reconciliação e perdão para o pecado de todos os homens. Entretanto, essa salvação só é desfrutada pelos fiéis (Jo 3.16; 1Jo 2.2).

Fé Salvadora

O homem não pode obter a fé salvadora por si mesmo ou pela força do seu livre-arbítrio, mas necessita da graça de Deus por meio de Cristo para ter sua vontade e seu pensamento renovados (Jo 15.5).

Graça Resistível

A graça é a causa do começo, do progresso e da completude da salvação do homem. Ninguém poderia crer ou perseverar na fé sem esta graça cooperante. Conseqüentemente, todas as boas obras devem ser creditadas à graça de Deus em Cristo. Com relação à operação desta graça, contudo, não é irresistível (At 7.51).

Indefinição Quanto à Perseverança

Os verdadeiros crentes têm força suficiente, por meio da graça divina, para lutar contra Satanás, contra o pecado e contra sua própria carne, e para vencê-los. Mas, se eles, em razão da negligência, podem ou não apostatar da fé verdadeira e vir a perder a alegria de uma boa consciência, caindo da graça, é uma questão que precisa ser melhor examinada à luz das Sagradas Escrituras.

Interpretação dos Cinco Pontos

O terceiro ponto sepulta qualquer pretensão de associar o Arminianismo ao Pelagianismo ou ao Semipelagianismo. De fato, a doutrina de Armínio é perfeitamente compatível com a Depravação Total calvinista. Ou seja, em seu estado original o homem é herdeiro da natureza pecaminosa de Adão e totalmente incapaz, até mesmo, de desejar se aproximar de Deus. Nenhum homem nasce com o “livre-arbítrio”, ou seja, com a capacidade de não resistir a Deus.

O quarto ponto demonstra claramente que é a graça preveniente que restaura no homem a sua capacidade de não resistir à Deus. Portanto, para Armínio, a salvação é pela graça somente e por meio da fé somente. Nesse sentido, os arminianos do coração concordam com os calvinistas no sentido de que a capacitação, por meio da graça, precede a fé, e que até mesmo a fé salvadora seja um dom de Deus. A diferença está na compreensão da operação dessa graça. Para os calvinistas, a graça é concedida apenas aos eleitos, que a ela não podem resistir. Para os arminianos, a expiação por meio de Jesus Cristo é universal e comunica essa graça preveniente a todos os homens, mas ela pode ser resistida. Assim como o pecado entrou no mundo pelo primeiro Adão, a graça foi concedida ao mundo por meio de Cristo, o segundo Adão (conforme Rm 5.18, Jo 1.9 etc.). Nesse sentido, os arminianos entendem que 1Tm 4.10 aponta para duas salvações em Cristo: uma universal e uma especial para os que crêem. A primeira corresponde à graça preveniente, concedida a todos os homens, que lhes restaura o arbítrio, ou seja, a capacidade de não resistir a Deus. Ela é distribuída a todos os homens porque Deus é amor (1Jo 4.8, Jo 3.16) e deseja que todos os homens se salvem (1Tm 2.4, 2Pe 3.9 etc.), conforme defendido no segundo ponto do Arminianismo. A segunda é alcançada apenas pelos que não resistem à graça salvadora e crêem em Cristo. Estes são os predestinados, segundo a visão arminiana de predestinação.

Portanto, embora a expressão “livre-arbítrio” seja comumente associada ao Arminianismo, ela deve ser entendida como “arbítrio liberto” ou “vontade liberta” pela graça preveniente, convencedora, iluminadora e capacitante que torna possíveis o arrependimento e a fé. Sem a atuação da graça, nenhum homem teria livre-arbítrio.

Ao contrário dos calvinistas, os arminianos crêem que essa graça preveniente, concedida a todos os homens, não é uma força irresistível, que leva o homem necessariamente à salvação. Para Armínio, tal graça irresistível violaria o caráter pessoal da relação entre Deus e o homem. Assim, todos os homens continuam a ter a capacidade de resistir a Deus, que já possuíam antes da operação da graça (conforme At 7.51, Lc 7.30, Mt 23.37 etc.). Portanto, a responsabilidade do homem em sua salvação consiste em não resistir ao Espírito Santo. Este é o coração do sinergismo arminiano, o qual difere radicalmente dos sinergismos pelagiano e semipelagiano.

No que tange à perseverança dos santos, os remonstrantes não se posicionaram, já que deixaram a questão em aberto.

Citações das Obras de Armínio

Os textos a seguir transcritos, escritos pelo próprio Armínio, são úteis para demonstrar algumas de suas idéias.

…Mas em seu estado caído e pecaminoso, o homem não é capaz, de e por si mesmo, pensar, desejar, ou fazer aquilo que é realmente bom; mas é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade, e em todos os seus poderes, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que ele possa ser capacitado corretamente a entender, avaliar, considerar, desejar, e executar o que quer que seja verdadeiramente bom. Quando ele é feito participante desta regeneração ou renovação, eu considero que, visto que ele está liberto do pecado, ele é capaz de pensar, desejar e fazer aquilo que é bom, todavia não sem a ajuda contínua da Graça Divina.

Com referência à Graça Divina, creio, (1.) É uma afeição imerecida pela qual Deus é amavelmente afetado em direção a um pecador miserável, e de acordo com a qual ele, em primeiro lugar, doa seu Filho, “para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna”, e, depois, ele o justifica em Cristo Jesus e por sua causa, e o admite no direito de filhos, para salvação. (2.) É uma infusão (tanto no entendimento humano quanto na vontade e afeições,) de todos aqueles dons do Espírito Santo que pertencem à regeneração e renovação do homem – tais como a fé, a esperança, a caridade, etc.; pois, sem estes dons graciosos, o homem não é capaz de pensar, desejar, ou fazer qualquer coisa que seja boa. (3.) É aquela perpétua assistência e contínua ajuda do Espírito Santo, de acordo com a qual Ele age sobre o homem que já foi renovado e o excita ao bem, infundindo-lhe pensamentos salutares, inspirando-lhe com bons desejos, para que ele possa dessa forma verdadeiramente desejar tudo que seja bom; e de acordo com a qual Deus pode então desejar trabalhar junto com o homem, para que o homem possa executar o que ele deseja.

Desta maneira, eu atribuo à graça O COMEÇO, A CONTINUIDADE E A CONSUMAÇÃO DE TODO BEM, e a tal ponto eu estendo sua influência, que um homem, embora regenerado, de forma nenhuma pode conceber, desejar, nem fazer qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação do mal, sem esta graça preveniente e excitante, seguinte e cooperante. Desta declaração claramente parecerá que de maneira nenhuma eu faço injustiça à graça, atribuindo, como é dito de mim, demais ao livre-arbítrio do homem. Pois toda a controvérsia se reduz à solução desta questão, “a graça de Deus é uma certa força irresistível”? Isto é, a controvérsia não diz respeito àquelas ações ou operações que possam ser atribuídas à graça, (pois eu reconheço e ensino muitas destas ações ou operações quanto qualquer um,) mas ela diz respeito unicamente ao modo de operação, se ela é irresistível ou não. A respeito da qual, creio, de acordo com as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que é oferecida.

Extraído de As Obras de James Arminius Vol. I

Comparação com o Calvinismo

Posteriormente ao Sínodo, quando os arminianos apresentaram os cinco pontos do Arminianismo, os calvinistas responderam com os cinco pontos do Calvinismo, que são os seguintes:

– Total depravação: não existe no homem após a queda de Adão força ou vontade do ser humano para buscar a salvação. Todos os homens herdam, de Adão, a natureza pecaminosa, decaída.

– Eleição Incondicional: a salvação não está condicionada à vontade ou ações humanas, mas ao soberano decreto de Deus que decide salvar alguns, os eleitos, deixando que os demais sofram o castigo eterno.

– Expiação Limitada: a salvação e o sacrifício de Cristo foram realizados apenas para o grupo dos eleitos.

– Graça Irresistível: a graça, enquanto ação e vontade de Deus, não pode ser resistida pela vontade ou ações do homem. Assim, uma vez que o homem tenha sido eleito para a salvação, ele não poderá resistir ao chamamento divino.

– Perseverança dos Santos: todos aqueles que tiveram sua salvação decretada perseverarão através da vontade e ação de Deus até o fim. Uma vez salvo, o eleito jamais perderá sua salvação.

A análise dos textos arminianos revela que o Arminianismo do coração concorda integralmente com a depravação total calvinista. O homem em seu estado natural é totalmente incapaz de desejar ou de buscar Deus. Somente a graça preveniente o capacita a crer na mensagem salvadora. Portanto, a discordância ocorre somente com relação à eleição incondicional, a expiação limitada e a graça irresistível.

No que tange à perseverança dos santos, os arminianos não são unânimes. Há quem acredite que a salvação pode ser definitiva e irremediavelmente perdida.

Com relação à predestinação, o Arminianismo crê que é baseada na presciência divina daqueles que, capacitados pela graça preveniente, crêem na mensagem de salvação em Jesus Cristo.

Escrito pelo Pr. Flávio Cardoso para a Wikipédia

Fonte:Arminianismo.com