O Amor de Deus É Limitado aos Eleitos?

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Refutando um Desafio Calvinista ao Evangelho

Roger E. Olsonroger olson - arminius hoje

A doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. Ele é também o calcanhar de Aquiles do Calvinismo; sem ele os outros pontos caem.

 O recente renascimento do Calvinismo entre os evangélicos trouxe à tona a questão da extensão da morte expiatória de Cristo na cruz. Muitos cristãos evangélicos simplesmente assumem que Cristo morreu por todos – que Ele carregou os pecados e sofreu a penalidade por cada pecador. Pelos últimos quatro séculos, entretanto, tem havido uma representação minoritária entre os protestantes. A maioria dos calvinistas, seguidores do reformador francês da Suíça, João Calvino (1509-1564), têm ensinado que Cristo suportou a penalidade somente pelos pecados dos eleitos – aqueles incondicionalmente predestinados por Deus para a salvação. Calvinistas contemporâneos (eles muitas vezes preferem ser chamados de cristãos reformados) chamam esta doutrina de “redenção particular” ou “expiação definida.”

 Entre os defensores evangélicos contemporâneos da expiação limitada estão, mais notavelmente, R. C. Sproul e John Piper. Sproul (nascido em 1939) tem sido um influente apologista evangélico e teólogo reformado por grande parte da última metade do século 20. De sua base em seu Ministério Ligonier ele tem falado no rádio, viajado para discursar em muitas conferências teológicas e apologéticas e escreveu muitos livros – a maioria deles tratando da soberania de Deus a partir de uma perspectiva fortemente reformada.

 Piper (nascido em 1946), pastor de Igreja Batista Bethlehem de Minneapolis, e fundador do Ministério Desiring God, também viaja muito e discursa em grandes encontros de cristãos evangélicos – incluindo as conferências Passionfrequentadas por milhares da maioria dos jovens e adolescentes batistas do sul. Ele é um prolífico autor cujos livros, incluindo Desiring God: Confessions of a Christian Hedonist (1986), têm vendido milhões de cópias. Como Sproul, Piper é um promotor apaixonado do Calvinismo de cinco pontos.

 CALVINISMO DE CINCO PONTOS

 O Calvinismo de cinco pontos é a crença nas doutrinas representadas pelo acróstico TULIP: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Os calvinistas criaram o acróstico por volta de 1913, mas as “doutrinas da graça” que ele representa remontam ao sucessor de Calvino – Teodoro Beza (1519-1605) – diretor da Academia de Genebra (um seminário reformado em Genebra, Suíça, fundado por Calvino). A expiação limitada se encontra no centro deste sistema teológico. Sproul, Piper e muitos outros teólogos evangélicos contemporâneos influentes tenazmente mantêm e defendem esta posição.

 EXPIAÇÃO LIMITADA

 O que a expiação limitada ou redenção particular significa? De acordo com Sproul, que prefere chamar essa doutrina de “expiação designada,” ela significa que Deus pretendeu que a morte de Cristo na cruz assegurasse a salvação de um número definido de seres humanos caídos – aqueles escolhidos incondicionalmente por Deus. Como outros calvinistas, Sproul argumenta que a morte substitutiva de Cristo (isto é, Deus impôs sobre Cristo a penalidade pelos pecados merecida pelos pecadores) foi de valor suficiente para salvar a todos, mas Deus apenas pretendeu que ela salvasse os eleitos. No sentido mais significante, Cristo morreu apenas pelos eleitos e não por todos.

 Para Sproul (e outros como ele), esta doutrina não é dispensável; ela é parte essencial do sistema TULIP que eles creem ser a única que faz justiça à soberania de Deus e à natureza do dom da salvação. Um argumento usado por Sproul, seguindo o teólogo puritano John Owen (1616-1683), é que, se Cristo morreu por todos igualmente, então todos são salvos. Afinal, como segue o argumento, seria injustiça de Deus punir os mesmos pecados duas vezes – uma vez impondo a penalidade sobre Cristo e outra vez ao enviar o pecador para o inferno.

 Piper é igualmente apaixonado pela expiação limitada. Como Sproul, ele não a considera um ponto secundário da teologia. Em um artigo intitulado “For Whom Did Christ Die and What Did Christ Actually Achieve on the Cross for Those for Whom He Died?[1]Piper argumenta que não é o calvinista que limita a expiação, mas o não-calvinista que crê na expiação universal. A razão: Aqueles que creem na expiação universal devem dizer que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas a oportunidade de salvarem a si mesmas. Ou eles devem abraçar o universalismo.

 Piper continua e argumenta que Cristo de fato morreu por todas as pessoas, mas não da mesma maneira. Todas as pessoas se beneficiam da morte de Cristo, por exemplo, recebendo certas bênçãos nesta vida que eles de outra forma não receberiam – mas somente os eleitos recebem dela o benefício da salvação.

 Esta doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. O teólogo evangélico Vernon Grounds, ex-presidente do Seminário Denver, atacou severamente a doutrina. Apontando para Jo 1.29; Rm 5.17-21; 11.32; 1Tm 2.6; Hb 2.9; e 1Jo 2.2, ele escreveu, “É preciso uma engenhosidade exegética que é outra coisa menos uma habilidade culta esvaziar estes textos de seu significado óbvio: é preciso uma engenhosidade exegética próxima de um sofisma negar sua explícita universalidade.”[2]É desnecessário dizer, muitos evangélicos, incluindo alguns calvinistas, acham essa doutrina repugnante.

 BASE PARA A EXPIAÇÃO LIMITADA

 Antes de explicar por que esta doutrina é repulsiva, será proveitoso ver as razões por que muitos calvinistas a têm em alta conta e a promovem tão apaixonadamente. Mais uma vez, o que é esta doutrina? É que Deus pretendeu que a morte de Jesus na cruz fosse uma propiciação (um sacrifício expiatório, substitutivo) apenas pelos pecados dos eleitos – aqueles que Deus escolheu salvar à parte de qualquer coisa que Ele vê neles ou sobre eles (exceto Sua escolha dessas pessoas para a Sua glória e boa vontade).

 Por que alguém acreditaria nisso?

 Os proponentes da expiação limitada apontam várias Escrituras: Jo 10.15; 17.6 e versículos semelhantes em Jo 10-17; Rm 8.32; Ef 5.25-27; Tt 2.14.

 Os calvinistas usam Jo 10.15 para apoiar o seu ensino: “Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas.” Muitos outros versículos em João dizem quase a mesma coisa – que Cristo deu a Sua vida por Suas ovelhas (isto é, Seus discípulos e todos os que viriam depois deles).

 Os calvinistas também apontam Rm 8.32: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” Eles supõem que “todos nós” faz referência aos eleitos.

 Ef 5.25-27 diz, “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.” Os calvinistas creem que esta passagem, como muitas outras, se refere apenas à igreja como o objeto do sacrifício purificador de Cristo.

 Tt 2.14 diz: “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” Os calvinistas acreditam que Paulo, o autor de Tito, parece restringir os benefícios salvadores da morte de Cristo ao “seu povo,” o que eles acreditam ser os eleitos.

 Os calvinistas assumem que estes versículos e outros como eles ensinam que Cristo morreu somente por aqueles escolhidos por Deus para a salvação. Mas estes versículos não ensinam as crenças calvinistas. Em nenhum lugar a Bíblia explicitamente ensina esta doutrina calvinista.

 Os calvinistas atribuem a estas passagens sua crença que Cristo morreu somente pela igreja, pelo Seu povo, por Suas ovelhas. Estes versículos não dizem que Cristo não morreu também pelos outros. E, como veremos, há muitas passagens que ensinam claramente que Cristo morreu por todos.

 Há outra razão para os calvinistas crerem na expiação limitada. Se Cristo morreu igualmente por todos, eles alegam, então todos são salvos. Eles argumentam que aqueles que creem na expiação universal se defrontam com duas opções inevitáveis, mas biblicamente insustentáveis: ou a morte de Cristo salvou a todos ou ela não salvou ninguém. Este argumento é, no entanto, falacioso. A expiação universal não requer a salvação universal; ela somente requer a possibilidade de salvação universal.

 É possível que os mesmos pecados sejam punidos duas vezes e é isso o que torna o inferno tão absolutamente trágico – ele é totalmente desnecessário. Deus pune com o inferno aqueles que rejeitam a substituição de Seu Filho. Uma analogia ajudará a tornar isto claro. Após a Guerra do Vietnã, o presidente Jimmy Carter concedeu uma anistia geral a todos os desertores que fugiram para o Canadá e outros locais. Por decreto presidencial eles estavam livres para voltar para casa. Alguns voltaram e outros não. Seu crime não era mais punível; mas alguns se recusaram a tirar proveito da anistia e puniram a si mesmos ficando longe de casa e da família. Os crentes na expiação universal creem que Deus permite aos pecadores recusarem o benefício da cruz de Cristo para sofrerem a punição do inferno apesar do fato dele ser totalmente desnecessário.

 Talvez a razão apresentada mais retoricamente poderosa para a expiação limitada seja aquela oferecida por John Piper (e outros calvinistas antes dele) que diz em For Whom Did Christ Die? que aqueles que creem na expiação universal “devem dizer” que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas uma oportunidade de salvarem a si mesmas. Este é um raciocínio totalmente falacioso.

 Os arminianos (aqueles que seguem Tiago Armínio na rejeição da eleição incondicional, da expiação limitada e da graça irresistível) creem que a morte de Cristo na cruz salva todos que a recebem pela fé. A morte de Cristo assegura a salvação destes – tanto quanto assegura a salvação dos eleitos no Calvinismo. Ela garante que qualquer um que vai a Cristo em fé será salvo por Sua morte. Isto não implica que eles salvam a si mesmos. Isso simplesmente significa que eles aceitaram a obra de Cristo em seu favor.

 RESPONDENDO AO CALVINISMO

 É difícil resistir à impressão de que os calvinistas que creem na expiação limitada assim o fazem não por claras razões bíblicas, mas porque eles acham que a Escritura a permite e a razão a exige. Não há nada necessariamente errado com isso, mas no mínimo alguns calvinistas como Piper têm criticado outros por fazerem o mesmo.[3] Piper critica outros por alegadamente abraçarem doutrinas somente porque a Escritura as permite e a lógica as exige. Parece a muitos não-calvinistas, no entanto, que os crentes na expiação limitada fazem exatamente isso. Carecendo de claro e inequívoco apoio bíblico para esta doutrina, eles a abraçam porque acham que a Escritura a permite e o seu sistema TULIP logicamente a exige. Afinal, se a eleição é incondicional e a graça é irresistível, então parece que a expiação seria somente para os eleitos.

 A Escritura contradiz a expiação limitada em Jo 3.16, 17; Rm 14.15; 2Co 5.18-19; Cl 1.19, 20; 1Tm 2.5, 6; 1Jo 2.2. Todos conhecem Jo 3.16, 17: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” Tipicamente, os calvinistas respondem que nestes versículos “mundo” faz referência a todos os tipos de pessoas e não a todos. Entretanto, isso tornaria possível interpretar todas as passagens onde o Novo Testamento conta que o “mundo” é pecador e caído no sentido de que somente algumas pessoas – todos os tipos – são pecadoras e caídas. A interpretação calvinista de Jo 3.16, 17 parece se encaixar na descrição de Vernon Grounds de exegese defeituosa usada para defender a expiação limitada.

 1Jo 2.2 é outra passagem que não podemos reconciliar com a expiação limitada: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” Esta passagem enfraquece completamente a interpretação calvinista de “mundo” em Jo 3.16, 17 porque ela explicitamente afirma que Cristo morreu uma morte expiatória não somente pelos crentes, mas também por todos. Aqui “mundo” deve incluir os não crentes porque “nosso” se refere aos crentes. Este versículo torna impossível dizer que a morte de Cristo beneficia a todos, só que não da mesma maneira (Piper diz que a morte de Cristo beneficia os não-eleitos dando-lhes somente bênçãos temporais). João diz clara e inequivocamente que o sacrifício expiatório de Cristo foi pelos pecados de todos – inclusive daqueles que não são crentes.

 E quanto a 2Co 5.18-19? “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.” Os calvinistas às vezes argumentam que esta passagem dá apoio à expiação limitada. Afinal, se Deus estava em Cristo não imputando os pecados de todos, então todos são salvos. Portanto, eles dizem, “todos” deve significar somente os eleitos. Mas isso não é verdadeiro. Quando Paulo diz que Deus estava reconciliando o mundo consigo, não imputando os pecados das pessoas contra elas, ele quer dizer se elas se arrependerem e crerem. Em outras palavras, a expiação reconciliou Deus com o mundo para que Ele pudesse perdoá-lo; isso satisfez as demandas da justiça para que da parte de Deus a reconciliação fosse possível. Mas resta aos pecadores aceitar isso pela fé. Então a plena reconciliação acontece.

 Cl 1.19, 20, diz, “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.” É impossível interpretar “todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” como se referindo somente aos eleitos. Esta passagem refuta a expiação limitada. Igualmente faz 1Tm 2.5, 6: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.” A única maneira de um crente na expiação limitada conseguir escapar da força desta passagem é interpretar o grego traduzido como “todos os homens” como de alguma forma significando “todos os tipos de homens,” mas essa não é uma interpretação permitida pelo uso comum da expressão na literatura grega fora do Novo Testamento (ou em outro lugar nele).

 Muitas Escrituras indicam claramente que o sacrifício expiatório de Jesus foi pretendido para todos, que Sua punição substitutiva foi por todas as pessoas. Mas há duas passagens raramente discutidas do Novo Testamento que absolutamente destroem a expiação limitada: Rm 14.15 e 1Co 8.11. Nestes versículos, Paulo severamente adverte os cristãos contra levar pessoas por quem Cristo morreu à destruição. A tradução grega das palavras “destruir” e “destruído” nestes versículos não pode significar meramente prejudicado ou ferido. Paulo claramente está advertindo as pessoas de que é possível levar as pessoas por quem Cristo morreu ao inferno (levando-as a tropeçarem e cairem pela demonstração de sua liberdade própria para comer carne sacrificada aos ídolos). Se o Calvinismo da TULIP está correto, esta advertência é inútil, porque isso não pode acontecer. De acordo com o Calvinismo, os eleitos, por quem Cristo morreu, não podem se perder.

 O peso da Escritura é claramente oposto à expiação limitada. As interpretações calvinistas destas e de passagens semelhantes faz recordar o sinal do lado de fora de uma ferraria se referindo ao seu trabalho artístico com metais: “Todos os tipos imagináveis de torção e torneamento são feitos aqui.” Entretanto, o problema com a expiação limitada vai além de alguns versículos que os calvinistas não podem explicar sem distorcer seus claros significados. O maior problema atinge o cerne da doutrina de Deus. Quem é Deus e como ele é?

 EXPIAÇÃO LIMITADA E A NATUREZA DE DEUS

 Se Deus é amor (1Jo 4.7), mas pretendeu que a morte expiatória de Cristo fosse a propiciação somente para algumas pessoas de forma que somente elas têm alguma chance de serem salvas, então o “amor” não tem nenhum significado inteligível quando se refere a Deus. Todos os cristãos concordam que Deus é amor. Mas os crentes na expiação limitada devem interpretar o amor de Deus como de alguma forma compatível com Deus incondicionalmente selecionando algumas pessoas para o tormento eterno no inferno quando Ele poderia salvá-las (porque a eleição para a salvação, e assim a própria salvação, é incondicional). Não há analogia na existência humana para este tipo de comportamento que é considerado como amoroso. Nós nunca consideraríamos como amoroso alguém que, por exemplo, podendo resgatar pessoas se afogando, se recusa a fazê-lo e resgata somente algumas. Consideraríamos tal pessoa má, mesmo se as pessoas resgatadas apreciassem o que a pessoa fez por elas.

 Os calvinistas tipicamente lidam com isso de duas maneiras. Alguns dizem que o amor de Deus é diferente do nosso amor. Mas se ele é tão diferente, ele é ininteligível. Se o “amor” de Deus não tem semelhança com algo que chamaríamos de amor, se ele se assemelha mais ao ódio do que ao amor, então ele perde todo o significado. Então, quando uma pessoa diz que Deus é amor, ela poderia também estar usando uma palavra sem sentido como “creech” – Deus é creech. Também, onde Deus melhor demonstrou o Seu amor do que em Jesus Cristo? Mas o amor de Jesus Cristo pelas pessoas é arbitrário e odioso a algumas? Ou Jesus Cristo em Seu amor por todas as pessoas revela o coração de Deus? O Calvinismo acaba tendo que pressupor um Deus oculto, muito diferente de Jesus Cristo.

 A outra maneira dos calvinistas lidarem com o amor de Deus e tentar reconciliá-lo com a expiação limitada e a dupla predestinação (as duas são realmente inseparáveis) é dizer que Deus ama todas as pessoas de alguma forma, mas somente algumas (os eleitos) de todas as formas. Piper, por exemplo, exalta o amor de Deus por todos – até mesmo ao não-eleito. Ele diz que Deus concede bênçãos temporais sobre os não-eleitos – isto é, conforme eles se movem em direção ao seu tormento eterno predestinado no inferno. John Wesley, respondendo a uma alegação similar dos calvinistas de sua época, ironizou dizendo que este é o tipo de amor que faz o sangue gelar nas veias. Uma outra resposta é que isso simplesmente significa que Deus dá aos não-eleitos um pouco do céu para levar com eles em sua jornada ao inferno. Que tipo de amor é esse – que dá bênçãos temporais e felicidade às pessoas escolhidas por Deus para o sofrimento eterno no inferno? Afinal, se o Calvinismo está correto, não há nada impedindo Deus de escolher todas as pessoas para o céu, exceto, alguns dizem, a Sua própria glória. Alguns calvinistas dizem que Deus deve manifestar todos os Seus atributos e um atributo é a justiça que torna o inferno necessário. Mais uma vez, no entanto, isso não funciona, porque a cruz foi uma manifestação suficiente da justiça de Deus.

 A expiação limitada torna o evangelismo indiscriminado impossível. Um crente na expiação limitada nunca pode dizer a algum estranho ou grupo aleatório: “Deus ama vocês e Cristo morreu pelos seus pecados e pelos meus; vocês podem ser salvos.” Todavia, esta é a própria força vital do evangelismo – contar as boas novas a todos e convidá-los a virem a Jesus Cristo em arrependimento e fé. Muitos calvinistas são inclinados ao evangelismo e às missões, mas em seu evangelismo e missões eles não podem dizer a todos no alcance de suas vozes que Deus os ama, que Jesus morreu por eles e que Ele quer que eles sejam salvos. Eles podem proclamar o evangelho (como eles o interpretam), mas não podem requerer fé prometendo-lhes salvação através de Cristo a todos que eles encontram ou a quem eles pregam.

 A expiação limitada é o calcanhar de Aquiles do Calvinismo TULIP; sem ela os outros pontos da TULIP caem. Se Deus é verdadeiramente amor, então Cristo morreu por todos para que todos possam ser salvos.

 

Fonte: http://enrichmentjournal.ag.org/201203/201203_044_limited_atonement.cfm

Tradução: Cloves Rocha dos Santos


[1] http://www.monergism.com/thethreshold/articles/piper/piper_atonement.html.

[2] Vernon C. Grounds, “God’s Universal Salvific Grace” em Grace Unlimited, ed., Clark H. Pinnock (Minneapolis: Bethany House, 1975), 27.

[3] John Piper, The Pleasures of God: Meditations on God’s Delight in Being God (Portland: Multnomah, 2000). Ver a longa nota de rodapé acerca da alegada hermenêutica falha de Pinnock, 70–74.

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A Lógica da Descrença

1 Comentário

Roy Inglecristianismo

O Calvinismo ensina que Cristo morreu pelos eleitos, que a expiação de Cristo comprou a salvação dos eleitos e, assim, a expiação de Cristo, pelo menos de acordo com os calvinistas, realmente salva. Os calvinistas afirmam que Jesus derramou o seu sangue para a salvação dos eleitos e, portanto, ele não morreu pelos pecados do mundo todo para não sustentar o Universalismo que claramente as Escrituras não ensinam (Mt 7.13-14).

 Na cruz, a ira de Deus pelos pecados dos eleitos foi paga na íntegra. Jesus sofreu, morreu e ressuscitou para o bem dos eleitos apenas. O restante da humanidade foi destinado por Deus para o inferno eterno. Nossos destinos foram escolhidos.

 Agora, aqui está um problema (entre outros) que eu tenho com o entendimento calvinista da expiação. Se Cristo morreu para assegurar a salvação dos eleitos, e quando Jesus morreu na cruz, Deus colocou os pecados dos eleitos em seu Filho, os eleitos então são nascidos sem pecado, uma vez que Cristo sofreu por eles antes deles nascerem e ele deu sua vida pela salvação deles há 2000 anos no Calvário? Quais pecados impedem os eleitos de nascerem salvos? Se alguém diz que a incredulidade impede a sua salvação e eles devem crer no evangelho para serem salvos e a sua salvação foi predestinada e assegurada pelo próprio Deus na cruz por meio de seu Filho, por que o pecado da incredulidade também não foi pago na cruz por Cristo?

 Eu concordo que a descrença impede a salvação de alguém. Jo 3.18 diz, “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus”. Jo 3.36 acrescenta, “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece”. A crença nos leva de mortos em nossos pecados sem a vida de Deus para nascidos de novo em Cristo (Ef 2.1-9). A obra de Deus para a salvação é crer em seu Filho (Jo 6.29). De fato, este é o próprio propósito da Bíblia, nos conduzir à fé salvadora em Jesus Cristo (Jo 20.31). O apóstolo Paulo disse ao carcereiro de Filipos que ele tinha que crer para ser salvo (At 16.30-31). A crença (ou fé) assegura a salvação, mas a descrença leva somente à destruição (Hb 3.6-19).

 No entanto, como pode algum calvinista genuíno dizer que eles uma vez estavam em seus pecados até que colocaram a fé salvadora em Jesus, uma vez que Jesus morreu pelos seus pecados (todos eles?) 2000 anos atrás? Se Jesus morreu e sua expiação garantiu a salvação dos eleitos, então segue logicamente que todos os pecados dos eleitos foram colocados em Cristo e todos os eleitos de Deus foram salvos na cruz. Dessa forma os eleitos, todos conhecidos por Deus desde a fundação do mundo, são vistos como salvos na cruz. Mas, então, por que chamar as pessoas ao arrependimento? Por que dizer às pessoas para elas abandonarem os seus pecados pelos quais Jesus já pagou e já assegurou a sua eterna salvação? Como podemos exigir um duplo pagamento pelos pecados, e o pecado pode ser legitimamente chamado pecado se de fato a pessoa já foi perdoada de todos os seus pecados na cruz?

 A lógica dos arminianos é essa: Jesus morreu pelos pecados do mundo, mas somente aqueles que colocam sua fé na obra salvadora de Jesus tornam-se os eleitos de Deus (1Tm 4.10). Jesus veio buscar e salvar o perdido (Lc 19.10) e nenhuma vez na Escritura lemos que Jesus morreu somente pelos eleitos. Nós lemos que Jesus morreu pelas ovelhas (Jo 10.11), que ele morreu pela Igreja (Ef 5.25), que ele morreu pelo apóstolo Paulo (Gl 2.20), que ele morreu por nós (Gl 1.4) e que ele morreu pelo mundo (1Jo 2.2), mas nós nunca lemos que ele morreu somente pelos eleitos. Isso deve ser deduzido pela releitura de outras passagens. Além disso, somente aqueles que colocam sua fé em Jesus e em seu sangue são salvos. Aqueles que rejeitam o seu sangue estão perdidos (Jo 5.24-25). A salvação vem pela graça de Deus por meio da fé (Rm 5.1; Ef 2.8-9) e não pelas obras (Tt 3.5-7). Nós devemos confessar os nossos pecados para sermos perdoados (1Jo 1.9) e não faz nenhum sentido se de fato Jesus morreu por todos os nossos pecados quando morreu na cruz. Como Deus pode nos perdoar de nossos pecados se de fato ele já nos perdoou de nossos pecados quando Jesus morreu por nós 2000 anos atrás pela vontade soberana de Deus?

Tradução: Walson Sales

A Abordagem Clássica-Teológica para a Perseverança e Apostasia: G. C. Berkouwer

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B. J. Oropeza  

 

Durante a segunda metade do século 20, G. C. Berkouwer fez uma contribuição teológica na área da apostasia e perseverança com sua obra intitulada Faith and Perseverance (1958). Berkouwer combina as primeiras  confissões protestantes com a Escritura para chegar à sua percepção da perseverança. Ele sugere que as passagens que parecem contrárias à doutrina da perseverança são meios que Deus usa para levar os santos a confiar em Deus. [1] A obediência é, portanto, um fator importante. Todavia, as passagens que parecem alertar contra o perigo de apostasia não exaurem a realidade da graça de Deus. [2] A perseverança, que é efetuada no crente através da oração, pregação e sacramentos, pode somente ser mantida em fé através da graça de Deus. Dessa forma, a perseverança é um dom que é selado pela fé. Os cristãos perseveram quando deixam de confiar em si mesmos e descansam na graça perseverante de Deus. [3]Berkouwer conclui, “Quando os pais reformados falaram sobre a consolação da perseverança, eles tinham a graça de Deus em mente. Por essa razão, a doutrina da perseverança, na medida em que ela reconhece sua dependência da graça, nunca pode ser uma mera abstração que torna uma continuidade de vida sem resultados”. [4]

 

O argumento de Berkouwer que as admoestações bíblicas são meios pelos quais Deus realiza a perseverança não é nada novo. [5] Este ponto de vista não é livre de fraquezas. Se os eleitos não fossem admoestados, eles então seriam capazes de apostatar-se? Se não, qual é exatamente a distinção ou importância especial que o tema da advertência tem no Novo Testamento? Devemos supor que, juntamente com a graça, as advertências são necessariamente eficazes aos eleitos, mas não aos não eleitos? Mesmo se supormos que isto é concebível, em vista de outras opções, ela é a mais provável? Isto é, se Berkouwer desvencilhar-se de suas pressuposições reformadas, ele teria honestamente chegado às mesmas conclusões? Sua perspectiva carece de evidência dos próprios autores do Novo Testamento. Será que eles acreditavam que ouvir ou ler suas advertências operava ou causava a perseverança eficaz entre os eleitos? Se formos examinar as passagens de advertências à luz de seus respectivos contextos, não consideraríamos uma melhor opção afirmar que pelo menos alguns dos escritores supunham que seus leitores fossem crentes genuínos que estavam em sério perigo de apostasia? Parece que a interpretação de Berkouwer é oferecida mais na tentativa de preservar o sistema reformado do que ser inteiramente fiel ao pleno efeito das passagens de advertências.

 

Berkouwer começa seu estudo citando as confissões reformadas antes de seguir para a Escritura. [6] Não é nenhuma surpresa, então, que ele classifica a perseverança sob a categoria da graça e não examina cuidadosamente as passagens que podem estar associadas à apostasia. Doutrinas centrais às confissões reformadas tornam-se a pressuposição com a qual todas as passagens bíblicas devem conformar-se. Por outro lado, outro método teológico não faz melhor se começar com passagens que podem estar relacionadas à apostasia, mas então insere neste um sistema que interpreta mal as passagens sobre a perseverança, eleição e predestinação. Se teólogos sistemáticos mitigam a doutrina da apostasia por meio da eleição, ou a eleição por meio da apostasia, sua abordagem frequentemente torna-se pouco mais do que uma repetição dos velhos dogmas calvinistas ou arminianos com, talvez, o benefício adicional de adotar e sistematizar passagens bíblicas que foram interpretadas através da exegese tradicional-apostólica. [7]

 

O que falta em Berkouwer e outras obras teológicas é a análise de passagens à luz de seu ambiente socio-histórico, cultural e retórico. Deve-se tentar entender o que um tema bíblico significava aos destinatários originais. Uma base inicial falha inevitavelmente leva a uma trajetória falha. As suposições de Berkouwer convencem apenas aqueles que compartilham de suas opiniões reformadas. Aos de fora, seus argumentos soam como casos de argumentação tendenciosa. Outro problema relacionado é que a sistematização de passagens tem a tendência de fazer Paulo, João, os textos sinóticos e outros escritores ou escritos do Novo Testamento afirmarem essencialmente a mesma coisa, sem apresentar qualquer real diversidade sobre as questões da perseverança e apostasia.

 Fonte: Arminianismo

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] BERKOUWER (1958), 97-121.

[2] Berkouwer escreve, “Se algo é certo é isto, que de acordo com as Escritura, a graça de Deus não cessa diante dos limites da liberdade de escolha humana” (1958:90).

[3] BERKOUWER, 234-36 cf. 106, 213.

[4] BERKOUWER, 238.

[5] Cf. DODDRIDGE (1802-06) antes da época de Berkhouwer e SCHREINER (1998) posteriormente.

[6] BERKOUWER, 19.

[7] A visão de Berkouwer parcialmente motivou a obra de Shank (1961), uma resposta wesleyana-arminiana para a perseverança e apostasia (1961:165-78). A obra de Sellers (1987), que defende a visão calvinista, é, por sua vez, uma resposta a Shank.

Um Povo Escolhido.

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Bruce L. Shelley 

Aprendemos finalmente que a igreja é uma comunidade de pessoas – o povo de Deus – escolhidas por Deus para refletir a sua glória e espalhar o evangelho a todos os povos.

 Considero ser esse o ponto central da doutrina bíblica da eleição. A palavra eleição deixa muitas pessoas inquietas. Ela conjura imagens de calvinistas sombrios e puritanos com negros capuzes. Jonathan Edwards que pregou o sermão “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado,” não acreditava na eleição? Quem quer retroceder a esse ponto?

 Tais temores têm certo fundamento. A doutrina da eleição nas mãos de certos cristãos tem sido deturpada, tornando-se irreconhecível biblicamente. A tradição calvinista, em particular, a partir de um desejo justificado de eliminar todos os pensamentos no sentido do homem ganhar a salvação por seus próprios méritos, salientou a liberdade soberana de Deus em eleger e regenerar quem Ele quiser. Ela tem frequentemente defendido a eleição, no entanto, como um decreto arbitrário de Deus estabelecido na eternidade. Nesta forma de pensamento, a verdadeira igreja torna-se facilmente uma companhia misteriosa dos eleitos invisíveis, só conhecidos de Deus.

 O resultado desta conclusão é muitas vezes a remoção da igreja na terra do lugar central que ocupa nos registros do Novo Testamento e em especial o deslocamento da tarefa missionária do centro de interesse e obediência cristãos.

 Sob a influência das aventuras do Capitão Cook nas Ilhas dos Mares do Sul, e as instruções de seu amigo, Andrew Fuller, William Carey começou a pregar sobre as obrigações universais do evangelho. Numa reunião de ministros, ele propôs que os pregadores discutissem a necessidade de levar as Boas Novas para aqueles que jamais as tinham ouvido. O idoso John Ryland agastou-se com ele por interferir nos assuntos de Deus. “Sente-se, jovem,” falou ele. “Quando Deus quiser converter os pagãos, Ele o fará sem a sua ou a minha ajuda.”

 Essa é uma doutrina de eleição sem apoio neotestamentário, construída sobre conclusões filosóficas em lugar de revelação bíblica.

 A eleição no Novo Testamento acha-se arraigada em fatos históricos, especialmente em Jesus Cristo que foi crucificado sob Pôncio Pilatos. Ele é o Eleito de Deus, o Filho amado do Pai (Mt 3.17). Nossa eleição se faz apenas por causa de nossa união com Ele. Não somos escolhidos isoladamente, como indivíduos, mas como membros do seu corpo, a igreja.

 O instrumento da escolha de Deus na Bíblia é a pregação do evangelho da morte e ressurreição de Jesus. Foi assim que Paulo entendeu. Ele recapitulou seu ministério para os Tessalonicenses e fez com que se lembrassem dos resultados do mesmo: “Reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição, porque o nosso evangelho não chegou até vós tão somente em palavra, mas, sobretudo em poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1Ts 1.4-5).

 Os teólogos cristãos têm-se interessado geralmente pelas razões ou falta de razões na eleição. A Bíblia, porém, não nos oferece razões. Ela enfatiza o propósito da eleição, permitindo que o mistério da escolha de Deus continue inexplicado, e se concentra em vez disso na qualidade de vida que a igreja deve manifestar.

 Deus disse a Israel no Sinai: “Vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Êx 19.6). E Paulo escreveu aos Efésios que Deus nos escolheu em Cristo “antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (Ef 1.4).

 A Escritura não sugere em ponto algum que eleito signifique “favorito.” Se for o caso, eleito representa “instrumento,” porque Deus escolheu Israel para ser um “reino de sacerdotes,” isto é, um povo que serviria de mediador das misericórdias divinas àqueles que não têm esperança de misericórdia.

 Essa distinção é absolutamente imperativa. Lesslie Newbigin a reforça quando escreve: “Toda vez em que o caráter missionário da doutrina de eleição é esquecido; sempre que esquecemos termos sido escolhidos a fim de sermos enviados;… sempre que os homens pensam que o propósito da eleição é sua própria salvação em lugar da salvação do mundo; então o povo de Deus terá traído a sua confiança” (The Household of God, New York: Friendship Press, 1954, p. 111).  A doutrina da eleição longe de ser antiquada e irrelevante, é uma explicação fundamental da razão da existência da igreja.

 Se a igreja é a companhia dos eleitos – e ela é realmente – não tem motivo para vangloriar-se, pois a verdade e a graça de Deus são nossas para passar adiante e não para guardar. O convite para receber o evangelho é também uma ordem para passá-lo adiante. Esse o motivo pelo qual a única igreja de que a Bíblia fala é uma igreja missionária.

 Isso nos leva de volta ao ponto inicial porque na passagem que inaugurou este capítulo – 1Pe 2.9-10 – o apóstolo tocou nesta nota missionária. Ele lembrou os leitores de que eram “povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). Essa é uma nota digna de ser soada repetidas vezes.

 Fonte: Arminianismo.com

Fonte: A Igreja: O Povo de Deus, pp. 27-29.

Um Problema com Recentes Tratamentos da Doutrina da Predestinação.

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G. B. McClanahan e Christopher Bounds 

Dictionary of Everyday Theology and Culture. Bruce Demarest e Keith Mathews, eds. Colorado Springs: NavPress, 2010. ISBN: 978-1600061929

Peter Thuesen, Predestination: The American Career of a Contentious Doctrine. New York: Oxford University Press, 2009. ISBN: 978-0195174274

A doutrina da predestinação tem sido um dos temas teológicos mais controversamente debatidos através de boa parte da história da igreja. Atualmente, ela continua a estimular discussões animadas em contextos acadêmicos e igrejas locais.

Infelizmente, com o recente ressurgimento da teologia reformada no contexto americano, tentativas de sustentar a doutrina baseando-a no pensamento cristão consensual tem levado a afirmações falsas sobre a doutrina. No recém-lançado Dictionary of Everyday Theology, Bruce Demarest afirma que “A maioria dos cristãos crê que, de acordo com a sabedoria e vontade de Deus, ele, na eternidade passada, soberanamente escolheu dentre a humanidade caída, ainda a ser criada, aqueles que ele quis que fossem salvos pela graça. O restante ele deixou para sofrer a justa punição por seus pecados…. Os salvos são os objetos da vontade decretiva ou incondicional de Deus, enquanto os perdidos são objetos de sua vontade permissiva ou condicional.”

Esta concepção da “predestinação simples” na qual “a maioria dos cristãos crê” torna-se grotesca quando se percebe que o Catolicismo Romano e a Ortodoxia Oriental compõem a maior parte dos cristãos no mundo atualmente e nenhuma destas tradições defende tal concepção. Além disso, alguém poderia argumentar que esta não é nem mesmo a posição majoritária sobre a predestinação no Protestantismo atual. Quando estudiosos reformados, como Demarest, fazem afirmações atrevidas como esta, eles enganam seu público sobre a aceitação desta doutrina dentro da igreja mais ampla.

Estes exageros estão acontecendo em outras disciplinas. Tentativas de fundamentar a doutrina no consenso histórico tem levado a desastrosas deturpações. Em seu livro, Predestination: The American Career of a Contentious Doctrine, Peter Thuesen, professor associado nas universidades de Indiana e Purdue, em Indianapolis, fornece um excelente tratamento da doutrina da predestinação no contexto americano. Entretanto, na descrição do fundo histórico primitivo da doutrina, Thuesen claramente articula a posição de Demarest sobre a predestinação como a visão consensual da igreja ocidental após Agostinho.

Especificamente, quando examina as concepções de Agostinho sobre a graça de Deus, Thuesen apresenta o ensino de Agostinho sobre a predestinação, particularmente sobre os eleitos, como a posição “mais ou menos oficial” do Ocidente. Ele leva os leitores a crerem que o ensino agostiniano sobre a eleição é a “ortodoxia” padrão na igreja ocidental até o final do período medieval.

Enquanto visões reformadas da predestinação tirariam proveito deste tipo de validação histórica, a evidência fala vigorosamente ao contrário. Uma pesquisa cuidadosa mostra que a igreja ocidental não apoiou a doutrina de Agostinho sobre a eleição. Ao invés, a igreja seguiu entre os extremos do Pelagianismo e Agostinianismo.

Uma rápida análise de tratamentos acadêmicos que abordam os séculos V e VI da igreja revela este ponto. Jaroslav Pelikan em The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine: Volume 1 The Emergence of the Catholic Tradition (100-600) deixa claro que a condenação oficial do Pelagianismo pela igreja não acarretou a aprovação incondicional do ensino de Agostinho. Enquanto a igreja ocidental aceitou a doutrina da graça anti-pelagiana de Agostinho, ela foi “podada de seus elementos predestinacionistas.” O “ensino oficial do Cristianismo latino” rejeitou a “teoria particular e idiossincrásica” da predestinação de Agostinho.

Thomas Oden, em sua tentativa de afirmar o consenso do Cristianismo sobre a questão da eleição em The Transforming Power of Grace, argumenta que a igreja ocidental situou a doutrina da predestinação no preconhecimento divino antes que em um ato da vontade soberana de Deus antes da criação. O conhecimento de Deus do exercício da “fé” de um cristão e da “recalcitrância” de um incrédulo não “determina” a resposta de “um ou outro.”

Similarmente, Gerald Bray, teólogo reformado, em sua obra Ancient Christian Commentary on Scripture: New Testament, Vol. VI, Romans, ensina que os Pais da Igreja primitiva como um todo não seguiram a interpretação de Agostinho da predestinação em Romanos 9. Ao invés, eles viam passagens como “Amei a Jacó e odiei a Esaú” como exemplo do preconhecimento e avaliação do que estes dois irmãos fariam em vida mais tarde. Os Pais foram cuidadosos em esclarecer que Deus não era a causa “unilateral” do amor e do ódio aqui. Os Pais que vieram após Agostinho, como um todo, repudiaram a leitura predestinacionista deste texto.

Christopher Hall, em Learning Theology with the Church Fathers, admite que a igreja viu o ensino de Agostinho sobre o pecado e seu efeito sobre a vontade humana como muito mais próximo da verdade do que a visão de Pelágio. Entretanto, a adoção da Igreja da necessidade da graça para o arrependimento e a fé não “exigia que a Igreja aceitasse toda a soteriologia de Agostinho,” tais como o ensino extremado da predestinação.

Igualmente, J. N. D. Kelly, em Patrística: Origem e Desenvolvimento das Doutrinas Centrais da Fé Cristã, reconhece o triunfo da teologia agostiniana no Ocidente. Entretanto, ele qualifica esta afirmação dizendo que o ensino de Agostinho sobre “a irresistibilidade da graça e sua interpretação restrita da predestinação foram tacitamente deixadas de lado.”[1] Ele argumenta que, no final, a igreja ocidental adotaria uma teologia semi-agostiniana, com entendimento sinergista da salvação, mas com prioridade dada à graça de Deus em tudo.

Em conclusão, enquanto recentes tratamentos da doutrina da predestinação tem feito a perspectiva reformada parecer a visão dominante no Cristianismo e o consenso da igreja primitiva no ocidente, tais patrocinadores sofrem de miopia histórica e eclesiástica.

Tradução: Paulo Cesar Antunes


[1] J. N. D. Kelly, Patrística (São Paulo: Vida Nova, 1994), p. 281.

João 5.21

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William W. Klein

 

Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer. Jo 5.21

 

Na defesa de seu relacionamento especial com Deus, Jesus afirma que, como o Pai, o Filho dá vida àquele quequer dá-la. É a vontade de Jesus que determina quem são os recebedores da vida. Esta é uma afirmação da eleição específica: a vontade de Jesus determina exatamente aqueles que ele irá salvar? Calvino está correto quando diz deste versículo, “Ele quer dizer que Ele especialmente favorece somente certos homens, os eleitos, com esta graça”?[1]

 

Talvez devêssemos estabelecer primeiramente que “vida” aqui deve fazer referência à vida eterna ou salvação. O uso do substantivo zoe (vida) no quarto evangelho deixa isso claro (p. ex., Jo 3.15-16, 36; 4.14, 36; 5.24, 29, 39-40; 6.40, 54, 68; 10.28; 11.25). Aqui João usa um composto, zoopoieo, “dar vida”. Não deve haver dúvida que o Pai e o Filho dão a vida eterna. [2] Podemos determinar deste contexto algum esclarecimento da vontade de Jesus – a quem ele deseja dar a salvação? É sua escolha soberana que está em vista aqui?

 

O contexto deixa abundantemente claro qual é o critério para obter a vida ou a salvação. Deve-se “honrar o Filho” (5.23), exatamente o que os judeus não estavam fazendo (5.16-18). Deve-se aceitar o testemunho de João a respeito de Jesus “para que vos salveis” (5.32-34). O testemunho de João a respeito de Jesus é indicado, resumidamente, nas palavras “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (1.29), ou em sua afirmação “Eu vi, e tenho testificado que este é o Filho de Deus” (1.34). “Quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna,” disse Jesus (5.24). Deve-se crer em Jesus (5.38) e vir a ele a fim de obter vida (5.40). Fé em Jesus (5.46) é a explicação.

 

O modo de obter vida é fé em Jesus. Jesus deixa isto claro nesta passagem (e em outras). A afirmação em 5.21, então, não pode significar que Jesus tem alguma vontade secreta, e dá vida somente a algum grupo seleto que ele escolheu. Jesus quer dar vida àqueles que creem nele. Neste confronto com os judeus, Jesus afirma que a vida está disponível somente nos termos do Pai e nos dele. E esse modo é através do Filho. Jesus quer dar vida somente aos crentes nele. [3] O Filho não seleciona arbitrariamente alguns a quem dar vida. O quarto evangelho dá testemunho consistente de que ele dá vida àqueles que creem (3.16, 18, 36; 4.42, 53; 6.40, 47, e outros). [4]

 

Fonte: The New Chosen People, pp. 137, 138

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] Calvino, The Gospel According to St. John, 1-10, 127.

[2] O verbo zoopoieo ocorre somente em outra passagem em Jo, 6.63, onde o Espírito dá vida. Salvação é claramente a questão aqui. Fora de João, ele ocorre em Rm 4.17; 8.11; 1co 15.22, 36, 45; 2Co 3.6; Gl 3.21; e 1Pe 3.18, com vários sentidos.

[3] É interessante que vários manuscritos siríacos antigos na verdade deixam esta interpretação explícita. Eles versam, “… o Filho dá vida àqueles que creem nele” (syrs e syrc). Claramente, esta leitura não é original, mas ela aponta para o correto entendimento do versículo.

[4] Bultmann concorda que não há sentido eletivo em thelei aqui. Antes, ele mostra que Jesus age intencionalmente; “pretende-se salientar a congruência de seu propósito e suas ações” (Bultmann, The Gospel of John. A Commentary, 256). Schnackenburg diz, “A adição de hous thelei, “àqueles que quer”… não implica arbitrariedade mas autoridade, visto que o Filho somente executa a vontade do Pai, que deseja dar a vida eterna a todos que creem no Filho” (The Gospel According to St. John, 2:106; ênfase adicionada).