A Expiação

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Laulaurencemvancerence M. Vance

Assim como a negação da Eleição Incondicional é interpretada pelos calvinistas como um afastamento da salvação pela graça, da mesma forma os calvinistas deduzem que qualquer um que nega a Expiação Limitada rejeita a verdadeira doutrina da Expiação conforme encontrada na Bíblia. Portanto, uma pesquisa sobre a verdadeira natureza da doutrina bíblica da Expiação é conveniente a fim de assentar as bases para a rejeição da Expiação Limitada e defesa de uma expiação ilimitada. A morte de Jesus Cristo é universalmente reconhecida como sendo um dos mais significativos eventos da história. Ao cristão, porém, ela é muito mais que um simples evento histórico, é a expiação para os pecados designada pelo próprio Deus. E como A. A. Hodge declara: “A doutrina da Expiação é evidentemente o elemento central e principal da doutrina da Justificação.”[1] A Expiação é a marca distintiva do Cristianismo. Buda (c. 563-483) e Maomé (570-632) jamais professaram morrer pelos pecados de alguém. Embora a Bíblia seja clara em sua descrição da natureza da Expiação, a falha em se crer nela conforme foi escrita tem resultado em um sem-número de teorias, todas elas notavelmente deficientes em um aspecto: Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.

 Antes de prosseguir para o propósito bíblico da Expiação, vamos primeiramente fazer uma digressão para examinar o que a expiação não é, a partir de algumas das teorias divergentes sobre ela:

 1. Teoria do Resgate: primeiramente defendida por Orígenes (184-254), esta teoria sustenta que a morte de Cristo constituía um resgate pago a Satanás. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[2]

 2. Teoria da Recapitulação: primeiramente defendida por Irineu (130-200), esta teoria sustenta que Cristo recapitulou em si mesmo todos os estágios da vida humana, experimentando tudo que Adão experimentou, e compensando a desobediência de Adão pela sua obediência. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[3]

 3. Teoria Comercial: primeiramente defendida por Anselmo (1033-1109), esta teoria sustenta que a morte de Cristo restaurou a honra a Deus Pai que havia sido roubada dele pelo pecado do homem. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[4]

 4. Teoria da Influência Moral: primeiramente defendida por Abelardo (1079-1142), esta teoria sustenta que a morte de Cristo foi uma manifestação do amor de Deus pelo pecador para influenciá-lo. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[5]

 5. Teoria do Exemplo: primeiramente defendida pelos socinianos, esta teoria sustenta que Cristo morreu como um mártir como um exemplo de obediência para inspirar os homens à correção. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[6]

 6. Teoria do Acidente: popularizada por Albert Schweitzer (1875-1965), esta teoria sustenta que a morte de Cristo foi meramente um acidente. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[7]

 7. Teoria Governamental: primeiramente defendida por Grotius, esta teoria sustenta que a morte de Cristo foi uma demonstração que revelou o ódio de Deus pelo pecado a fim de manter o respeito pela sua lei. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[8]

 8. Teoria Mística: defendida com algumas diferenças por vários homens, esta teoria é semelhante à da Influência Moral, mas sustenta que uma mudança é produzida no homem, não por uma influência moral, mas por uma união mística de Deus e o homem realizada pela Encarnação. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[9]

 Como é evidente, cada uma destas teorias sofre de uma falha grave: Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.

 Dirigindo agora das postulações de homens para os pronunciamentos da Bíblia, podemos ver a verdadeira natureza da Expiação: a ideia de substituição. Cristo não morreu apenas em favor de outros, mas no lugar de outros. Especificamente, a morte de Cristo foi uma substituição penal na qual ele se tornou portador do pecado e da maldição:

 Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.21).

 Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro (Gl 3.13).

 Que a morte de Cristo foi uma substituição penal pressupõe uma série de coisas. A santidade e justiça de Deus demandam que a pecaminosidade do homem deve ser punida. O Senhor Jesus Cristo, por ser o único a ser tanto Deus que se “manifestou em carne” (1Tm 3.16) quanto um homem “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus” (Hb 7.26), era capaz de mediar ambas as partes: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1Tm 2.5). Deus não poderia apenas perdoar o pecador, pois como Pink afirma: “O pecador somente é perdoado com base em Outro ter sofrido sua punição.”[10] Foi por esta razão que Jesus Cristo veio ao mundo:

 Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal (1Tm 1.15).

 Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste (Hb 10.5).

 Isto ele fez voluntariamente (Jo 10.17-18), completamente (Jo 19.30), de uma vez por todas (Hb 10.10), com uma oferta (Hb 10.14) para que Deus “seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.26). Todavia, deve também ser lembrado que Deus não foi obrigado a realizar a expiação por alguém. Ele poderia não salvar ninguém e ainda assim ser santo e justo. A graça de Deus é qualquer movimento de Deus em direção ao homem.

 Acerca da Expiação de Cristo, o Novo Testamento menciona a palavra expiação apenas uma vez: “E não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a expiação” (Rm 5.11). A Expiação, não como as muitas expiações do Antigo Testamento que somente cobriam o pecado, mas expressando especificamente aquilo que Cristo realizou para salvar os homens. Apesar do uso do termo expiação ser às vezes menosprezado,[11] Homer Hoeksema explica que “o termo expiação abrange aqueles termos confessionais como redenção, redimir, comprar, satisfazer, sacrifício propiciatório, etc. E o mesmo abrange aqueles termos bíblicos como reconciliação, propiciação, resgate, compra, etc. Ele simplesmente contempla todos estes vários termos bíblicos e confessionais de um ponto de vista bem básico.”[12]

 

A Expiação é apresentada na Escritura de diversas maneiras: Sacrifício, Resgate, Expiação, Propiciação, Reconciliação.

 1. Sacrifício: O sacrifício foi a provisão divinamente instituída pela qual o pecado pode ser coberto e a sujeição à ira e maldição removida. Ela envolveu um sofrimento substitutivo da pena ou sujeição devida ao pecado. Jesus Cristo devia oferecer a si mesmo como sacrifício pelos nossos pecados:

 Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão (Is 53.10).

 Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós (1Co 5.7).

 E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave (Ef 5.2).

 Que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente por seus próprios pecados, e depois pelos do povo; porque isto fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo (Hb 7.27).

 Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez (Hb 10.10).

 Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus (Hb 10.12).

 2. Resgate: O sacrifício de Cristo foi na forma de um resgate. Um resgate é a obtenção de uma liberação pelo pagamento de um preço. Ser redimido é ser liberto pelo pagamento de um resgate. Redenção pressupõe algum tipo de servidão ou cativeiro. Em sua morte sacrificial, Jesus Cristo foi nosso substituto, por meio dela nos redimindo:

 Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos (Mt 20.28).

 Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados (Cl 1.14).

 O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo (1Tm 2.6).

 O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras (Tt 2.14).

 Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção (Hb 9.12).

 Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado (1Pe 1.18-19)

 3. Expiação: O resgate sacrificial de Cristo foi uma expiação penal visto que ela removeu a culpa do pecado ao cancelá-la e eliminá-la. A Expiação diz respeito ao efeito que a satisfação tem sobre o pecado ou o pecador. Isto é realizado pelo sofrimento vicário de nossa pena por Jesus Cristo.

 No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29).

 Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.21).

 O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas (Hb 1.3).

 Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo? (Hb 9.14).

 De outra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo (Hb 9.26).

 Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito (1Pe 3.18).

 4. Propiciação: Propiciar significa aplacar, pacificar, apaziguar, conciliar – todos os quais pressupõem a ira e o descontentamento de Deus. Por este motivo os liberais e os modernistas ficam estarrecidos com a ideia de propiciação. Negar a propiciação, entretanto, é negar a natureza da Expiação como uma satisfação necessária. Deus é santo e necessariamente deve ser “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.26). A propiciação remove o descontentamento judicial de Deus. É o apaziguamento ou afastamento da ira de um Deus justo contra o pecado pela aceitação da morte de Cristo como um substituto satisfatório:

 Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus (Rm 3.25).

 E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo (1Jo 2.2).

 Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10).

 5. Reconciliação: A reconciliação contempla nossa alienação de Deus e o método de nos restaurar ao seu favor. A causa desta alienação é o nosso pecado; seu fundamento é a absoluta santidade de Deus. Por causa desta santidade, há inimizade entre Deus e o homem (Ef 2.15-16), porque nosso pecado necessariamente incita esta reação de sua santidade. O sacrifício propiciatório de Cristo é a causa para a reconciliação:

 Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida (Rm 5.10).

 E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação (2Co 5.18-19). 

E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades (Ef 2.16).

 E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus. A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou (Cl 1.20-21).

 Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo (Hb 2.17).

 Os calvinistas menosprezariam igualmente todas estas falsas teorias da Expiação enquanto concordariam com a visão bíblica da Expiação acima. O problema é que eles não permitem que seus oponentes façam o mesmo. A rejeição da Expiação Limitada não significa que não podemos crer na doutrina da Expiação conforme encontrada na Bíblia. O argumento dos calvinistas com seus oponentes deve ser “limitado” à extensão da Expiação, não à sua natureza. Mas para fazer sua doutrina da Expiação Limitada mais palatável, os calvinistas tentam relacioná-la de todas as maneiras possíveis àqueles para os quais ela nunca foi pretendida: “os não-eleitos.”

 Numa tentativa de suavizar sua doutrina da Expiação Limitada, muitos calvinistas defenderão que a Expiação foi suficiente para todos os homens, mas eficiente apenas para os “eleitos.”[13] Apesar de usado desatentamente pelos não-calvinistas, o adágio foi inventado por Agostinho,[14] e é chamado por Dabney: “A bem conhecida fórmula calvinista.”[15] Ao citar esta fórmula ou falar sobre a Expiação tendo potencial salvador infinito,[16] os calvinistas podem fazer seus oponentes pensarem que a Expiação teve alguma relação com os “não-eleitos.” Há, porém, uma discórdia entre os calvinistas. Sproul, apesar de reconhecer que “o valor da expiação de Cristo é suficiente para cobrir os pecados do mundo,” afirma que são os arminianos que usam a fórmula que “a expiação é suficiente para todos, maseficiente apenas para alguns.”[17] Nettles sustenta que a Expiação não foi suficiente para todos – ela foi suficiente apenas para os “eleitos” – e que a fórmula suficiente/eficiente deixa de “diferenciar a expiação eficaz e definida da expiação geral.”[18] Ele apela aos “batistas calvinistas (e calvinistas de todos os tipos) a reexaminarem a fórmula tradicional ‘suficiente mas eficiente’ e talvez questionarem sua propriedade como uma descrição exata da expiação eficaz ou limitada.”[19]

 

Outra tática utilizada pelos calvinistas para relacionar sua doutrina da Expiação Limitada aos “não-eleitos” é falar sobre os benefícios da morte de Cristo para o mundo em geral. De acordo com Dabney, a morte de Cristo (1) “manifesta a benevolência e compaixão geral de Deus por todos os pecadores perdidos,” (2) “comprou para toda a raça humana um misericordioso adiamento da condenação incorrida pelos nossos pecados, incluindo todas as bênçãos temporais de nossa vida terrena, todas as restrições do Evangelho sobre a depravação humana, e a oferta sincera do céu a todos,” e, embora (3) “obstinadamente rejeitada pelos homens, coloca a resistência, perversidade e culpa de sua natureza em uma luz muito mais forte.”[20] Boettner acrescenta que a Expiação “forma uma base para a pregação do Evangelho e dessa forma introduz muitas influências morais enriquecedoras ao mundo e restringe muitas influências maléficas.”[21] Outros afirmam que a Expiação fornece uma “graça comum” a todos os homens.[22] Cunningham insiste que “os defensores da expiação universal, então, não têm nenhum direito de nos acusar de ensinar que ninguém obtém algum benefício da morte de Cristo exceto aqueles que são perdoados e salvos; nós não ensinamos isto, e não somos obrigados, por questão de consistência, a ensinar.”[23] Ao negar que uma expiação foi feita por eles, mas ao estender os benefícios da morte de Cristo aos “não-eleitos,” alguns calvinistas têm a audácia de dizer que eles creem que Cristo morreu por todos os homens:

 

Há, então, um certo sentido em que Jesus morreu por todos os homens, e não respondemos à doutrina arminiana com uma negativa não qualificada.[24]

 Cristo morreu por todo o mundo criado (Jo 3.16), incluindo Satanás.[25]

 Mas como o calvinista reformado holandês Homer Hoeksema apropriadamente afirma: “Se Cristo morreu apenas pelos eleitos, então não há benefícios possíveis na morte de Cristo para ninguém além daqueles por quem ele morreu.”[26] Somente esta visão é o Calvinismo consistente. E foi mantido por todo este capítulo, ainda que Cristo tenha realmente feito uma expiação por todos os homens, se certos homens não foram eleitos para a salvação, então o que importa se Cristo morreu por eles ou não? Não faz absolutamente nenhuma diferença se Cristo morreu pelos “não-eleitos,” pois no sistema do Calvinismo TULIP, os assim chamados não-eleitos não poderiam possivelmente ser salvos se Cristo morreu por eles ou não. É somente devido à natureza objetável da Expiação Limitada que alguns calvinistas tentam relacioná-la de todas as formas possíveis com aqueles pelos quais ela nunca foi pretendida.

Fonte: http://www.arminianismo.com


[1] A. A. Hodge, Atonement, p. 13.

[2] Berkhof, Theology, pp. 384-385.

[3] Ibid., p. 385.

[4] Ibid.

[5] Ibid., p. 386.

[6] Ibid., p. 387.

[7] Paul P. Enns, The Moody Handbook of Theology (Chicago: Moody Press, 1989), p. 320.

[8] Berkhof, Theology, p. 388.

[9] Ibid., p. 389.

[10] Arthur W. Pink, Gleanings in the Godhead (Chicago: Moody Press, 1975), p. 40.

[11] John Murray, Atonement, p. 9; A. A. Hodge, Atonement, pp. 33-34.

[12] Homer Hoeksema, Limited Atonement, p. 48.

[13] Talbot e Crampton, p. 30; Boettner, Predestination, p. 152; Kruithof, p. 60.

[14] Custance, p. 153.

[15] Dabney, Theology, p. 527.

[16] A. A. Hodge, Outlines of Theology, edição revista e ampliada (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1972), p. 416; Shedd, Theology, vol. 2, p. 468.

[17] Sproul, Grace Unknown, p. 165.

[18] Nettles, By His Grace, p. 305.

[19] Ibid., p. 319.

[20] Dabney, Calvinism, p. 62, 63.

[21] Boettner, Predestination, p. 160.

[22] Kruithof, p. 60; Talbot e Crampton, p. 30; Gunn, p. 17; Palmer, p. 54.

[23] Cunningham, Theology, vol. 2, p. 333.

[24] Boettner, Predestination, p. 161.

[25] North, p. 43.

[26] Homer Hoeksema, Limited Atonement, p. 61.

O Amor de Deus É Limitado aos Eleitos?

1 Comentário

Roger E. Olson 

A doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. Ele é também o calcanhar de Aquiles do Calvinismo; sem ele os outros pontos caem.

 O recente renascimento do Calvinismo entre os evangélicos trouxe à tona a questão da extensão da morte expiatória de Cristo na cruz. Muitos cristãos evangélicos simplesmente assumem que Cristo morreu por todos – que Ele carregou os pecados e sofreu a penalidade por cada pecador. Pelos últimos quatro séculos, entretanto, tem havido uma representação minoritária entre os protestantes. A maioria dos calvinistas, seguidores do reformador francês da Suíça, João Calvino (1509-1564), têm ensinado que Cristo suportou a penalidade somente pelos pecados dos eleitos – aqueles incondicionalmente predestinados por Deus para a salvação. Calvinistas contemporâneos (eles muitas vezes preferem ser chamados de cristãos reformados) chamam esta doutrina de “redenção particular” ou “expiação definida.”.

 Entre os defensores evangélicos contemporâneos da expiação limitada estão, mais notavelmente, R. C. Sproul e John Piper. Sproul (nascido em 1939) tem sido um influente apologista evangélico e teólogo reformado por grande parte da última metade do século 20. De sua base em seu Ministério Ligonier ele tem falado no rádio, viajado para discursar em muitas conferências teológicas e apologéticas e escreveu muitos livros – a maioria deles tratando da soberania de Deus a partir de uma perspectiva fortemente reformada.

 Piper (nascido em 1946), pastor de Igreja Batista Bethlehem de Minneapolis, e fundador do Ministério Desiring God, também viaja muito e discursa em grandes encontros de cristãos evangélicos – incluindo as conferências Passion frequentadas por milhares da maioria dos jovens e adolescentes batistas do sul. Ele é um prolífico autor cujos livros, incluindo Desiring God: Confessions of a Christian Hedonist (1986), têm vendido milhões de cópias. Como Sproul, Piper é um promotor apaixonado do Calvinismo de cinco pontos.

 

CALVINISMO DE CINCO PONTOS

 O Calvinismo de cinco pontos é a crença nas doutrinas representadas pelo acróstico TULIP: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Os calvinistas criaram o acróstico por volta de 1913, mas as “doutrinas da graça” que ele representa remontam ao sucessor de Calvino – Teodoro Beza (1519-1605) – diretor da Academia de Genebra (um seminário reformado em Genebra, Suíça, fundado por Calvino). A expiação limitada se encontra no centro deste sistema teológico. Sproul, Piper e muitos outros teólogos evangélicos contemporâneos influentes tenazmente mantêm e defendem esta posição.

 

EXPIAÇÃO LIMITADA

 O que a expiação limitada ou redenção particular significa? De acordo com Sproul, que prefere chamar essa doutrina de “expiação designada,” ela significa que Deus pretendeu que a morte de Cristo na cruz assegurasse a salvação de um número definido de seres humanos caídos – aqueles escolhidos incondicionalmente por Deus. Como outros calvinistas, Sproul argumenta que a morte substitutiva de Cristo (isto é, Deus impôs sobre Cristo a penalidade pelos pecados merecida pelos pecadores) foi de valor suficiente para salvar a todos, mas Deus apenas pretendeu que ela salvasse os eleitos. No sentido mais significante, Cristo morreu apenas pelos eleitos e não por todos.

 Para Sproul (e outros como ele), esta doutrina não é dispensável; ela é parte essencial do sistema TULIP que eles creem ser a única que faz justiça à soberania de Deus e à natureza do dom da salvação. Um argumento usado por Sproul, seguindo o teólogo puritano John Owen (1616-1683), é que, se Cristo morreu por todos igualmente, então todos são salvos. Afinal, como segue o argumento, seria injustiça de Deus punir os mesmos pecados duas vezes – uma vez impondo a penalidade sobre Cristo e outra vez ao enviar o pecador para o inferno. Piper é igualmente apaixonado pela expiação limitada. Como Sproul, ele não a considera um ponto secundário da teologia. Em um artigo intitulado “For Whom Did Christ Die and What Did Christ Actually Achieve on the Cross for Those for Whom He Died?”[1]Piper argumenta que não é o calvinista que limita a expiação, mas o não-calvinista que crê na expiação universal. A razão: Aqueles que creem na expiação universal devem dizer que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas a oportunidade de salvarem a si mesmas. Ou eles devem abraçar o universalismo.

 Piper continua e argumenta que Cristo de fato morreu por todas as pessoas, mas não da mesma maneira. Todas as pessoas se beneficiam da morte de Cristo, por exemplo, recebendo certas bênçãos nesta vida que eles de outra forma não receberiam – mas somente os eleitos recebem dela o benefício da salvação.

 Esta doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. O teólogo evangélico Vernon Grounds, ex-presidente do Seminário Denver, atacou severamente a doutrina. Apontando para Jo 1.29; Rm 5.17-21; 11.32; 1Tm 2.6; Hb 2.9; e 1Jo 2.2, ele escreveu, “É preciso uma engenhosidade exegética que é outra coisa menos uma habilidade culta esvaziar estes textos de seu significado óbvio: é preciso uma engenhosidade exegética próxima de um sofisma negar sua explícita universalidade.”[2]É desnecessário dizer, muitos evangélicos, incluindo alguns calvinistas, acham essa doutrina repugnante.

 

BASE PARA A EXPIAÇÃO LIMITADA

 Antes de explicar por que esta doutrina é repulsiva, será proveitoso ver as razões por que muitos calvinistas a têm em alta conta e a promovem tão apaixonadamente. Mais uma vez, o que é esta doutrina? É que Deus pretendeu que a morte de Jesus na cruz fosse uma propiciação (um sacrifício expiatório, substitutivo) apenas pelos pecados dos eleitos – aqueles que Deus escolheu salvar à parte de qualquer coisa que Ele vê neles ou sobre eles (exceto Sua escolha dessas pessoas para a Sua glória e boa vontade).

 Por que alguém acreditaria nisso?

 Os proponentes da expiação limitada apontam várias Escrituras: Jo 10.15; 17.6 e versículos semelhantes em Jo 10-17; Rm 8.32; Ef 5.25-27; Tt 2.14.

 Os calvinistas usam Jo 10.15 para apoiar o seu ensino: “Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas.” Muitos outros versículos em João dizem quase a mesma coisa – que Cristo deu a Sua vida por Suas ovelhas (isto é, Seus discípulos e todos os que viriam depois deles). Os calvinistas também apontam Rm 8.32: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” Eles supõem que “todos nós” faz referência aos eleitos. Ef 5.25-27 diz, “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.” Os calvinistas creem que esta passagem, como muitas outras, se refere apenas à igreja como o objeto do sacrifício purificador de Cristo. Tt 2.14 diz: “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” Os calvinistas acreditam que Paulo, o autor de Tito, parece restringir os benefícios salvadores da morte de Cristo ao “seu povo,” o que eles acreditam ser os eleitos.

 Os calvinistas assumem que estes versículos e outros como eles ensinam que Cristo morreu somente por aqueles escolhidos por Deus para a salvação. Mas estes versículos não ensinam as crenças calvinistas. Em nenhum lugar a Bíblia explicitamente ensina esta doutrina calvinista;  atribuem a estas passagens sua crença que Cristo morreu somente pela igreja, pelo Seu povo, por Suas ovelhas. Estes versículos não dizem que Cristo não morreu também pelos outros. E, como veremos, há muitas passagens que ensinam claramente que Cristo morreu por todos.

 Há outra razão para os calvinistas crerem na expiação limitada. Se Cristo morreu igualmente por todos, eles alegam, então todos são salvos. Eles argumentam que aqueles que creem na expiação universal se defrontam com duas opções inevitáveis, mas biblicamente insustentáveis: ou a morte de Cristo salvou a todos ou ela não salvou ninguém. Este argumento é, no entanto, falacioso. A expiação universal não requer a salvação universal; ela somente requer a possibilidade de salvação universal.

 É possível que os mesmos pecados sejam punidos duas vezes e é isso o que torna o inferno tão absolutamente trágico – ele é totalmente desnecessário. Deus pune com o inferno aqueles que rejeitam a substituição de Seu Filho. Uma analogia ajudará a tornar isto claro. Após a Guerra do Vietnã, o presidente Jimmy Carter concedeu uma anistia geral a todos os desertores que fugiram para o Canadá e outros locais. Por decreto presidencial eles estavam livres para voltar para casa. Alguns voltaram e outros não. Seu crime não era mais punível; mas alguns se recusaram a tirar proveito da anistia e puniram a si mesmos ficando longe de casa e da família. Os crentes na expiação universal creem que Deus permite aos pecadores recusarem o benefício da cruz de Cristo para sofrerem a punição do inferno apesar do fato dele ser totalmente desnecessário.

 Talvez a razão apresentada mais retoricamente poderosa para a expiação limitada seja aquela oferecida por John Piper (e outros calvinistas antes dele) que diz em For Whom Did Christ Die? que aqueles que creem na expiação universal “devem dizer” que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas uma oportunidade de salvarem a si mesmas. Este é um raciocínio totalmente falacioso.

 Os arminianos (aqueles que seguem Tiago Armínio na rejeição da eleição incondicional, da expiação limitada e da graça irresistível) creem que a morte de Cristo na cruz salva todos que a recebem pela fé. A morte de Cristo assegura a salvação destes – tanto quanto assegura a salvação dos eleitos no Calvinismo. Ela garante que qualquer um que vai a Cristo em fé será salvo por Sua morte. Isto não implica que eles salvam a si mesmos. Isso simplesmente significa que eles aceitaram a obra de Cristo em seu favor.

 

RESPONDENDO AO CALVINISMO

 É difícil resistir à impressão de que os calvinistas que creem na expiação limitada assim o fazem não por claras razões bíblicas, mas porque eles acham que a Escritura a permite e a razão a exige. Não há nada necessariamente errado com isso, mas no mínimo alguns calvinistas como Piper têm criticado outros por fazerem o mesmo.[3] Piper critica outros por alegadamente abraçarem doutrinas somente porque a Escritura as permite e a lógica as exige. Parece a muitos não-calvinistas, no entanto, que os crentes na expiação limitada fazem exatamente isso. Carecendo de claro e inequívoco apoio bíblico para esta doutrina, eles a abraçam porque acham que a Escritura a permite e o seu sistema TULIP logicamente a exige. Afinal, se a eleição é incondicional e a graça é irresistível, então parece que a expiação seria somente para os eleitos.

 A Escritura contradiz a expiação limitada em Jo 3.16, 17; Rm 14.15; 2Co 5.18-19; Cl 1.19, 20; 1Tm 2.5, 6; 1Jo 2.2. Todos conhecem Jo 3.16, 17: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” Tipicamente, os calvinistas respondem que nestes versículos “mundo” faz referência a todos os tipos de pessoas e não a todos. Entretanto, isso tornaria possível interpretar todas as passagens onde o Novo Testamento conta que o “mundo” é pecador e caído no sentido de que somente algumas pessoas – todos os tipos – são pecadoras e caídas. A interpretação calvinista de Jo 3.16, 17 parece se encaixar na descrição de Vernon Grounds de exegese defeituosa usada para defender a expiação limitada.

 1 Jo 2.2 é outra passagem que não podemos reconciliar com a expiação limitada: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” Esta passagem enfraquece completamente a interpretação calvinista de “mundo” em Jo 3.16, 17 porque ela explicitamente afirma que Cristo morreu uma morte expiatória não somente pelos crentes, mas também por todos. Aqui “mundo” deve incluir os não crentes porque “nosso” se refere aos crentes. Este versículo torna impossível dizer que a morte de Cristo beneficia a todos, só que não da mesma maneira (Piper diz que a morte de Cristo beneficia os não-eleitos dando-lhes somente bênçãos temporais). João diz clara e inequivocamente que o sacrifício expiatório de Cristo foi pelos pecados de todos – inclusive daqueles que não são crentes.

 E quanto a 2Co 5.18-19? “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.” Os calvinistas às vezes argumentam que esta passagem dá apoio à expiação limitada. Afinal, se Deus estava em Cristo não imputando os pecados de todos, então todos são salvos. Portanto, eles dizem, “todos” deve significar somente os eleitos. Mas isso não é verdadeiro. Quando Paulo diz que Deus estava reconciliando o mundo consigo, não imputando os pecados das pessoas contra elas, ele quer dizer se elas se arrependerem e crerem. Em outras palavras, a expiação reconciliou Deus com o mundo para que Ele pudesse perdoá-lo; isso satisfez as demandas da justiça para que da parte de Deus a reconciliação fosse possível. Mas resta aos pecadores aceitar isso pela fé. Então a plena reconciliação acontece.

 Cl 1.19, 20, diz, “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.” É impossível interpretar “todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” como se referindo somente aos eleitos. Esta passagem refuta a expiação limitada. Igualmente faz 1Tm 2.5, 6: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.” A única maneira de um crente na expiação limitada conseguir escapar da força desta passagem é interpretar o grego traduzido como “todos os homens” como de alguma forma significando “todos os tipos de homens,” mas essa não é uma interpretação permitida pelo uso comum da expressão na literatura grega fora do Novo Testamento (ou em outro lugar nele).

 Muitas Escrituras indicam claramente que o sacrifício expiatório de Jesus foi pretendido para todos, que Sua punição substitutiva foi por todas as pessoas. Mas há duas passagens raramente discutidas do Novo Testamento que absolutamente destroem a expiação limitada: Rm 14.15 e 1Co 8.11. Nestes versículos, Paulo severamente adverte os cristãos contra levar pessoas por quem Cristo morreu à destruição. A tradução grega das palavras “destruir” e “destruído” nestes versículos não pode significar meramente prejudicado ou ferido. Paulo claramente está advertindo as pessoas de que é possível levar as pessoas por quem Cristo morreu ao inferno (levando-as a tropeçarem e cairem pela demonstração de sua liberdade própria para comer carne sacrificada aos ídolos). Se o Calvinismo da TULIP está correto, esta advertência é inútil, porque isso não pode acontecer. De acordo com o Calvinismo, os eleitos, por quem Cristo morreu, não podem se perder.

 O peso da Escritura é claramente oposto à expiação limitada. As interpretações calvinistas destas e de passagens semelhantes faz recordar o sinal do lado de fora de uma ferraria se referindo ao seu trabalho artístico com metais: “Todos os tipos imagináveis de torção e torneamento são feitos aqui.” Entretanto, o problema com a expiação limitada vai além de alguns versículos que os calvinistas não podem explicar sem distorcer seus claros significados. O maior problema atinge o cerne da doutrina de Deus. Quem é Deus e como ele é?

 

EXPIAÇÃO LIMITADA E A NATUREZA DE DEUS

 Se Deus é amor (1Jo 4.7), mas pretendeu que a morte expiatória de Cristo fosse a propiciação somente para algumas pessoas de forma que somente elas têm alguma chance de serem salvas, então o “amor” não tem nenhum significado inteligível quando se refere a Deus. Todos os cristãos concordam que Deus é amor. Mas os crentes na expiação limitada devem interpretar o amor de Deus como de alguma forma compatível com Deus incondicionalmente selecionando algumas pessoas para o tormento eterno no inferno quando Ele poderia salvá-las (porque a eleição para a salvação, e assim a própria salvação, é incondicional). Não há analogia na existência humana para este tipo de comportamento que é considerado como amoroso. Nós nunca consideraríamos como amoroso alguém que, por exemplo, podendo resgatar pessoas se afogando, se recusa a fazê-lo e resgata somente algumas. Consideraríamos tal pessoa má, mesmo se as pessoas resgatadas apreciassem o que a pessoa fez por elas.

 Os calvinistas tipicamente lidam com isso de duas maneiras. Alguns dizem que o amor de Deus é diferente do nosso amor. Mas se ele é tão diferente, ele é ininteligível. Se o “amor” de Deus não tem semelhança com algo que chamaríamos de amor, se ele se assemelha mais ao ódio do que ao amor, então ele perde todo o significado. Então, quando uma pessoa diz que Deus é amor, ela poderia também estar usando uma palavra sem sentido como “creech” – Deus é creech. Também, onde Deus melhor demonstrou o Seu amor do que em Jesus Cristo? Mas o amor de Jesus Cristo pelas pessoas é arbitrário e odioso a algumas? Ou Jesus Cristo em Seu amor por todas as pessoas revela o coração de Deus? O Calvinismo acaba tendo que pressupor um Deus oculto, muito diferente de Jesus Cristo.

 A outra maneira dos calvinistas lidarem com o amor de Deus e tentar reconciliá-lo com a expiação limitada e a dupla predestinação (as duas são realmente inseparáveis) é dizer que Deus ama todas as pessoas de alguma forma, mas somente algumas (os eleitos) de todas as formas. Piper, por exemplo, exalta o amor de Deus por todos – até mesmo ao não-eleito. Ele diz que Deus concede bênçãos temporais sobre os não-eleitos – isto é, conforme eles se movem em direção ao seu tormento eterno predestinado no inferno. John Wesley, respondendo a uma alegação similar dos calvinistas de sua época, ironizou dizendo que este é o tipo de amor que faz o sangue gelar nas veias. Uma outra resposta é que isso simplesmente significa que Deus dá aos não-eleitos um pouco do céu para levar com eles em sua jornada ao inferno. Que tipo de amor é esse – que dá bênçãos temporais e felicidade às pessoas escolhidas por Deus para o sofrimento eterno no inferno? Afinal, se o Calvinismo está correto, não há nada impedindo Deus de escolher todas as pessoas para o céu, exceto, alguns dizem, a Sua própria glória. Alguns calvinistas dizem que Deus deve manifestar todos os Seus atributos e um atributo é a justiça que torna o inferno necessário. Mais uma vez, no entanto, isso não funciona, porque a cruz foi uma manifestação suficiente da justiça de Deus.

 A expiação limitada torna o evangelismo indiscriminado impossível. Um crente na expiação limitada nunca pode dizer a algum estranho ou grupo aleatório: “Deus ama vocês e Cristo morreu pelos seus pecados e pelos meus; vocês podem ser salvos.” Todavia, esta é a própria força vital do evangelismo – contar as boas novas a todos e convidá-los a virem a Jesus Cristo em arrependimento e fé. Muitos calvinistas são inclinados ao evangelismo e às missões, mas em seu evangelismo e missões eles não podem dizer a todos no alcance de suas vozes que Deus os ama, que Jesus morreu por eles e que Ele quer que eles sejam salvos. Eles podem proclamar o evangelho (como eles o interpretam), mas não podem requerer fé prometendo-lhes salvação através de Cristo a todos que eles encontram ou a quem eles pregam.

 A expiação limitada é o calcanhar de Aquiles do Calvinismo TULIP; sem ela os outros pontos da TULIP caem. Se Deus é verdadeiramente amor, então Cristo morreu por todos para que todos possam ser salvos.

 

Fonte:  Arminianismo pontocom

Tradução: Cloves Rocha dos Santos

Pós-Calvinismo: 1. Dias de Estudante em Trinity

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Scot McKnight

Quando fui para Trinity no outono de 1976, a primeira coisa que notei foi quão intrincadas eram as discussões teológicas. Aquelas pessoas sabiam do que estavam falando e conheciam textos bíblicos, discussões teológicas e a história da Igreja. Tive certo trabalho para estar apto a participar dos debates. Foi um desafio pelo qual sou grato até hoje.

 

O Calvinismo não era uma questão prioritária, mas poderia surgir a qualquer momento, bastando que alguém desse alguma informação desencontrada. Tive alguns palestrantes maravilhosos: H. Dermott McDonald era um excêntrico teólogo de Londres que nos dizia que nosso plano de estudo era a biblioteca e que devíamos ir para lá estudar sobre “Deus, o Homem e Cristo”, e então voltar para fazer seu exame no final. David Wells ensinava Pecado e Salvação, e começou nos contando que sua mulher dizia que ele poderia ensinar a primeira metade da classe dando uma autobiografia. McDonald não era calvinista; Wells era. Meus professores de Novo Testamento não levantavam tais assuntos: Norm Ericsen e Murray Harris. Mas então Grant Osborne veio para TEDS (Trinity Evangelical Divinity School). (Assim, eu posso culpar Grant por esta jornada, o que ele ficaria feliz por obter os créditos).

 

Vou passar um relato do que aconteceu. Grant é famoso por seus panfletos, e ele tinha um sobre a Segurança Eterna. Era um folheto extenso e ele me pediu para trabalhar nele, adicionar alguma bibliografia e em geral reescrevê-lo. Foi uma grande tarefa para mim, mas era a primeira chance real que eu tive de fazer algo desse nível. Para me preparar, Grant sugeriu que eu lesse Kept by the Power of God, de I. Howard Marshall. O que eu fiz. De capa a capa; sublinhei algumas partes; tomei notas; consultei comentários. Levou um bom tempo. Quando fiz uma pausa em Hebreus, eu estava persuadido de que estava equivocado sobre o Calvinismo. Como C. S. Lewis subindo em um ônibus e então descendo convertido, mas não sabendo quando ou como, da mesma forma aconteceu comigo: do começo de meu trabalho com as notas de Grant até a leitura de Marshall e discutindo com ele até que ele me jogou ao chão e me imobilizou, eu me convenci de que não era mais calvinista. Isso não significa que eu abandonei a arquitetura do Calvinismo, mas apenas sua teologia.

 

Era e ainda é minha convicção de que os cinco pontos são interdependentes. Você pode abandonar o 5º de alguma forma (eu não acho que pode, mas alguns pensam que sim) e você precisaria adicionar um 6º (Responsabilidade), mas se o entendimento arminiano de “perder a salvação” está correto, então o Calvinismo não está correto. (Eventualmente irei mostrar por que eu não gosto da expressão “perder a salvação”.) Me deixa ser mais claro: se a graça de Deus pode ser resistida de alguma maneira, se os crentes podem de alguma forma escolher privar-se de sua salvação, então a eleição incondicional e a graça irresistível (e provavelmente a expiação limitada) e certamente a perseverança/preservação dos santos não estão corretas.

 

Encontrei duas grandes fraquezas na teologia do Calvinismo (e também uma desorientação em sua arquitetura): em primeiro lugar, a ênfase de sua arquitetura não é a ênfase da Bíblia. Seu foco na Soberania de Deus, o que muito rapidamente se torna muito menos uma doutrina de graça do que uma doutrina de controle e teodiceia, etc., e sua ênfase exagerada na depravação humana não são a ênfase que encontrei na Bíblia. Não estou contestando a presença destes temas; estou contestando que neles se encontram a gravidade da ênfase na Bíblia. Sim, eu sei que todos nós temos metanarrativas que reúnem todas as coisas, e o Calvinismo é uma dessas metanarrativas. Funciona para alguns; ele simplesmente não funciona para mim.

 

Em segundo lugar, considero deficiente, e algumas vezes completamente equivocada, a exegese do Calvinismo de passagens cruciais. Eu estava uma vez parado, anos após ter começado a lecionar em Trinity, em frente à porta de casa conversando com dois professores sobre minha visão de Hebreus, quando eu simplesmente fiz uma pergunta a um deles, “Quem você acha que melhor responde à interpretação arminiana de Hebreus?” Esse professor disse “Philip Hughes.” Eu tinha acabado de ler Hughes e o considerei fraco. De fato, o que eu pensei foi o seguinte: “Se esse é o melhor, então não há debate.” O outro professor disse, “Concordo Scot. Hughes não responde as questões.” Então ele disse, “Não tenho certeza se algum comentário realmente tenha uma resposta satisfatória.” (Esses dois professores eram calvinistas, e ainda são. Deus os abençoe.) O que estou dizendo é que conclusões exegéticas que eu estava tirando (em todos os tipos de passagens) não eram adequadamente respondidas pelos calvinistas que eu estava lendo. Eu acredito que dei a eles uma bela oportunidade.

 

Então, é aqui onde me encontrava quando parti para Nottingham fazer meu doutorado em Novo Testamento. Fui educado entre os batistas defensores da segurança eterna que pegavam o que gostavam do Calvinismo e desprezavam a maioria dos cinco pontos. Então eu me tornei mais consistentemente calvinista lendo os puritanos e Calvino.

 

Então eu li a Bíblia de um ponto de vista diferente e tudo veio abaixo. Se a Bíblia, assim concluí, ensina que alguém pode ser crente e de alguma forma privar-se desse estado, então a teologia do Calvinismo não pode estar correta.

 

Isto me deixou com uma mistura estranha de teologia: fui educado batista; tinha lido mais do que o necessário dos anabatistas da Igreja Baixa e me considerava um desses no que se refere a onde a teologização deve começar: com Jesus. E eu estava agora estudando a Bíblia com algumas conclusões arminianas sobre a soteriologia.

 

Após dois anos na TEDS inglesa, me ofereceram um emprego temporário para lecionar Novo Testamento que duraram dois anos, e então (pela graça de Deus) foi elevado para cargo integral quando Wayne Grudem, na providência de Deus, mudou para Teologia Sistemática.

 

Dentro de dois anos, fui requisitado a lecionar Hebreus em um curso acadêmico, e decidi passar meu verão inteiro realizando a exegese de Hebreus e estava determinado a me concentrar naquelas perturbadoras passagens de advertências para ver se eu poderia estabelecer as questões de uma vez por todas.

 

Se estiver certo sobre Hebreus, o Calvinismo está errado. O número de estudantes que escreveu ensaios de meio de semestre concordando comigo me deixou nervoso. Não foi nenhuma coincidência que um bem conhecido professor calvinista, a quem eu frequentemente chamava “D. A. qual é o nome dele?” na classe, começou a lecionar Hebreus logo depois.

 

Amanhã eu começarei sobre as passagens de advertências em Hebreus, sendo a mais famosa Hb 6.4-6. Eu acredito que posso provar que o autor acreditava que os “crentes” podiam privar-se de sua salvação.

Fonte: http://www.patheos.com/community/jesuscreed/2005/07/29/post-calvinism-trinity-student-days/

Tradução: Paulo Cesar Antunes