Será Que Fé É Um Dom?

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Jack Cottrell  

 

UMA QUESTÃO RECENTE: “Eu me deparei com um site de uma igreja que diz (ligeiramente abreviado): ‘Nós compartilhamos os valores da Reforma, os cinco “SOMENTES”[1]:

 SOMENTE CRISTO: Nós acreditamos que Jesus Cristo foi, é e sempre será totalmente Deus (Hb 13.8) e que ele se tornou completamente humano, tomando a natureza de um homem (Fp 2) e que ele veio para nos mostrar como é que Deus Pai é; quando você vê Jesus, vê Deus Pai (Jo 14.9).

 SOMENTE A GRAÇA: Nosso relacionamento com Deus começa com a Sua graça, continua pela Sua graça e termina com a Sua graça. (Fp 1.6)

 SOMENTE A FÉ: Somos libertos (salvos) por meio da fé em Jesus Cristo, e essa fé é um dom de Deus que é motivado pela Sua graça! (Ef 2.8, 9)

 SOMENTE A ESCRITURA: A Bíblia é a infalível e inerrante Palavra de Deus e é nossa primeira e última autoridade em todas as questões de fé e vida (2Tm 3.16). Nosso objetivo é ensinar o que a Bíblia ensina sobre cada tópico.

 GLÓRIA SOMENTE A DEUS: Para o cristão, a vida não é dividida em sacra e secular. Toda a vida é para ser vivida sob o Senhorio de Cristo (1Co 10.31).

 PERGUNTA: O que você acha disso, especialmente o terceiro ponto? Será que Efésios 2 diz que a fé é um dom de Deus?

 MINHA RESPOSTA: Este é um resumo comum e bastante preciso do ensino da Reforma. O ponto “Somente Cristo”, no entanto, é um tanto deturpado, visto que os principais reformadores certamente não teriam limitado o propósito de Cristo, dizendo simplesmente que “ele veio para nos mostrar como é que Deus Pai é”. Eles teriam dito, e com razão, que o propósito de Cristo era morrer e ressuscitar para nos salvar dos nossos pecados. Colocar a ênfase na atividade reveladora de Cristo, ao invés de colocá-la na sua obra redentora é o que eu chamo de “falácia cristológica”.[2]Isso leva a todos os tipos de problemas graves.[3]

 O questionador, no entanto, pergunta especificamente sobre o ponto “Somente a Fé.” Este ponto, “Somente a Fé” (uma visão da salvação que nega que o batismo é um evento de salvação), é muito típico das correntes de pensamento reformadas: a luterana e a calvinista. Tenho criticado este conceito em geral, em um esboço chamado “The Tyranny of the Paradigm – A Tirania do Paradigma”.[4] Procurar por um ensaio baseado nesse esboço, nas séries “Reflexões”, nas edições de 2010 da revista Christian Standard – Padrão Cristão.

 A visão “Somente a Fé” é sustentada tanto por calvinistas como por muitos não-calvinistas. O elemento específico da declaração – “Somente a Fé” – acima que é calvinista é a afirmação de que a fé é um dom de Deus, supostamente baseada em Ef 2.8-9. Os calvinistas (e todos os agostinianos) acreditam que todas as pessoas são totalmente depravadas, com uma total incapacidade para responder em fé ao Evangelho. Assim, Deus deve escolher (via eleição incondicional) quem Ele irá salvar (via graça irresistível). No momento da graça irresistível, o Espírito Santo primeiro regenera o pecador, depois lhe outorga o dom da fé. Ef 2.8 é usado como principal texto-prova para este último argumento.

 O ponto principal é que as regras da gramática grega eliminam qualquer possibilidade para essa interpretação de Ef 2.8. Veja esta citação do meu livro: “Alguns erroneamente concluem que Ef 2.8 diz que a fé é um dom: ‘Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus.’ Isto é desmentido, no entanto, pelas regras da gramática grega. A palavra grega para “fé” (pistis) é feminina no gênero; o pronome que se refere ao dom (‘isto’, touto) é neutro. Se o pronome estivesse se referindo à fé, ele também seria feminino na forma. (Não há palavra correspondente no grego para o pronome ‘impessoal’[5]). Esse versículo na verdade mostra que a fé NÃO é um dom, visto que a graça e a fé são cuidadosamente distinguidas. Somos salvos PELA graça, como a parte de Deus; porém, ATRAVÉS da fé, como a nossa parte, que é distinta da graça concedida. A fé NÃO é um dom da graça e resultado da regeneração; ela é uma resposta à graça e um pré-requisito para a regeneração”.[6]

 

Fonte: Arminianismo.com

 

Tradução: Cloves Rocha dos Santos

 


[1] Nota do tradutor: Ou Sós. Os cinco “Sós” ou “Somentes” em latim são as “cinco solas” e representam os princípios fundamentais da Reforma protestante do século dezesseis: 1) Sola fide (somente a fé); 2) Sola scriptura (somente a Escritura); 3) Solus Christus (somente Cristo); 4) Sola gratia (somente a graça); 5) Soli Deo gloria (glória somente a Deus). (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cinco_solas)

[2] Nota do tradutor: De acordo com Jack Cottrell, a “falácia cristológica”, resumidamente, é a suposição de que o propósito da encarnação de Jesus era apenas REVELADOR (“ele veio para nos mostrar como é que Deus, o Pai, é”) e não REDENTOR. Para Cottrell, a BÍBLIA, a Palavra de Deus, é que cumpre o propósito de REVELAÇÂO de Deus, e não Jesus. A encarnação de Jesus é uma das formas de revelação de Deus, porém o propósito da encarnação não era REVELAÇÃO de Deus, mas a REDENÇÂO do ser humano caído. Como REDENTOR Cristo é único; como REVELADOR Ele não é. Para uma maior compreensão ver a sua nota The Christological Fallacy – A Falácia Cristológica, na sua página pessoal do Facebook, cujo endereço é: http://www.facebook.com/note.php?note_id=188905515616.

[3] Veja o meu livro: Jack Cottrell, The Faith Once for All – A Fé de Uma Vez Por Todas (College Press, 2002), 24-25.     

[4] Disponível em:  http://www.ccuniversity.edu/seminary/files/2008/06/tyranny-of-paradigm.pdf.

[5] O pronome it (em inglês).

[6] Jack Cottrell, The Faith Once for All – A Fé de Uma Vez Por Todas (College Press, 2002), 200.

Pós-Calvinismo: 2. Palestras em Trinity

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 Scot McKnight

Um dos cursos que lecionei em Trinity, NT 612, incluía uma análise do livro de Hebreus. E uma ou duas vezes lecionei Exegese Avançada e seguíamos pela totalidade do texto grego de Hebreus. Os cursos me estimulavam profundamente, e devo dizer que de um modo geral os estudantes ficavam atentos à significação dos tópicos que estávamos discutindo. (Não que eles ficavam atentos quando falávamos sobre Melquisedeque.).

 

Um dos pontos centrais de minhas palestras foram as Passagens de Advertências. Há cinco delas. Gostaria de copiá-las todas nesta mensagem, mas ocupariam espaço demais. Aqui estão elas:

 

1. Hb 2.1-4

2. Hb 3.7-4.13

3. Hb 5.11-6.12

4. Hb 10.19-39

5. Hb 12.1-29

 

Destas, a número 3 atrai toda a atenção, e especialmente 6.4-6, que é como segue:

 

É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.

 

Estes versículos merecem toda a atenção que têm, mas os outros merecem mais do que estão tendo. É comum a muitos leitores da Bíblia encontrar em Hb 6.6 (“e caíram”) um sentido desconcertante que este texto parece sugerir que eles podem perder sua fé, apostatarem-se, e nunca serem restaurados ao arrependimento, e isto significa uma má notícia. Muitos respondem fazendo uma análise minuciosa do texto, isolando cada expressão, perguntando se talvez ele não seja tão desagradável como realmente parece, e acabam (em muitos casos)crente desistindo convencidos de que este texto na verdade não ensina que um crente pode “perder sua salvação.”.

 

Elaborei duas propostas em um artigo de jornal que escrevi em 1992, e quero desenvolvê-las com vocês para ver o que pensam de minhas sugestões.

 

Mas voltemos para a minha classe: o que eu pensei que faria era apresentar tão claramente quanto possível um entendimento alternativo das Passagens de Advertências em Hebreus. Para fazer isto, passei horas e horas trabalhando nestas passagens em seus contextos e então chegando a uma conclusão sobre elas.

 

Então, sugeri nessa classe que examinássemos conjuntamente duas propostas: a primeira, que considerássemos analisar as Passagens de Advertências como um todo. Isto é, ler cada uma em seu contexto, mas também compará-las em conjunto enquanto fazendo basicamente as mesmas coisas. Isto nos permitiria sintetizar estas passagens em um todo significativo. A segunda, eu descobri que quando fazemos isto, encontramos quatro características em cada Passagem de Advertência.

 

Aqui está o que descobri e o que disse àquela classe (e cada uma depois dessa). Cada passagem tem:

 

1. A audiência ou as pessoas: trata-se de quem? Do que o autor as chama?

 

2. O pecado sobre o qual o autor alerta esta audiência: o que pensa que elas podem estar fazendo?

 

3. A exortação que o autor dá cada vez: o que eles devem fazer ao invés do pecado?

 

4. As consequências que o autor explica se eles não responderem à sua exortação: o que acontecerá se eles não responderem corretamente?

 

Eis o que aconteceu nessas classes: geralmente os estudantes concordavam com as conclusões que tirávamos de cada parte das Passagens de Advertência. Agora, como sabemos, minhas conclusões eram que o autor alertava a audiência da apostasia e os alertava para que eles não se privassem de sua salvação. O que me surpreendeu foi o número de estudantes que concordou comigo. Afinal de contas, eles eram daqueles evangélicos conservadores leais que em geral acreditavam na segurança eterna, certeza de salvação e ideias afins.

 

Esforçar-me-ei ao máximo para ser específico amanhã, mas faremos um bom progresso. Começarei com a número 4 e percorrerei toda a lista.

 

Por agora, gostaria de desafiar vocês a lerem esses textos e pensarem sobre essas quatro categorias para cada Passagem de Advertência.

Fonte: http://www.patheos.com/community/jesuscreed/2005/07/29/post-calvinism-trinity-lectures/

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Deus criou o mal? Gênese, ocorrência e finalidade do problema.

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 Norman L. Geisler

“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” (Is 45.7).

 

Sempre que se debate o assunto do mal, a tendência é apontar um responsável. Aliás, este é um comportamento intrínseco à natureza humana: colocar a culpa em alguém para se inocentar. No versículo que introduz esta matéria vemos claramente que o Senhor reclama ser o criador de todas as coisas, inclusive do mal. Destarte, o próprio texto bíblico já se incumbiu de responder a nossa pergunta. Todavia, a questão é mais complexa do que isso e não pode ser reduzida à objetividade desta resposta. Há considerações que não podem ser desconsideradas nesta resposta. O que podemos entender da afirmação de que Deus criou o mal? O que é o mal? Em quais sentidos Deus seria o responsável pelo mal? Por que Deus não aniquila o mal? Por que Deus criou este mundo?

 

Neste artigo, propomos uma rápida reflexão sobre esta “culpa” que tanto massageia o ego dos céticos, e faremos isto retomando alguns aspectos da matéria “O problema do mal”, escrita por Greg Bahsen e publicada nesta edição de Defesa da Fé como texto de capa.

 

A gênese do mal

 

Deus é bom, e criou criaturas boas com uma qualidade denominada livre-arbítrio. Infelizmente, as criaturas de Deus usaram este poder, que é bom, para trazer o mal ao Universo. E como fizeram isso? Ao se rebelarem contra o Criador. Então, o mal surgiu do bem, não direta, mas indiretamente, pelo mau uso do poder bom chamado liberdade.

 

Desta forma, Deus é responsável por tornar o mal possível, mas as criaturas livres são responsáveis por torná-lo real.

 

Diante disso, conclui-se que, de alguma forma, o mal se relaciona a Deus, porém, se o crente prega que o mal não é algo separado de Deus e, ao mesmo tempo, não pode proceder de seu interior, então o que é o mal? O problema da criação não pode ser simplificado nas seguintes premissas:

 

1. Deus é o Autor de tudo o que existe

2. O mal é algo que existe

3. Logo, Deus é o Autor do mal

 

Concordar que Deus não criou todas as coisas é negar sua soberania. Todavia, admitir que Ele causou todas as coisas e que o mal faz parte dessas coisas é reconhecer que Deus causou o mal. Entretanto, os crentes respondem que o mal não é uma coisa ou substância, antes, é a falta ou a privação de algo bom que Deus fez. Assim, o mal é a corrupção das substâncias boas que Deus criou. É como a ferrugem em um carro ou a podridão em uma árvore. O mal não é algo em si só. Existe somente em companhia de outra coisa, mas nunca sozinho.

 

Dizer que o mal não é algo, mas uma falta nas coisas, não é o mesmo que afirmar que ele não é real. Temos de entender que privação não é o mesmo que simples ausência. A visão está ausente na pedra assim como no cego, mas a ausência de visão na pedra não é privação, pois a privação é a ausência de algo que deveria estar ali. Já que a pedra, por natureza, não deveria ver, ela não está privada de visão. Logo, o mal é a falta real nas coisas boas, como o cego pode testemunhar. O mal não é uma entidade real, mas a corrupção real em uma entidade real.

 

Esta corrupção que atinge o homem para que possa transformar a possibilidade do mal em realidade se chama ação. Mas é preciso tomar cuidado para não levar a depravação humana tão longe a ponto de destruir a habilidade de pecar. Um ser totalmente corrompido nem existiria. Não pode haver o mal supremo, pois, apesar de o mal reduzir o bem, jamais poderá destrui-lo completamente, porque se o bem fosse totalmente destruído o próprio mal desapareceria, já que seu sujeito, ou seja, o bem, não existiria mais.

 

A ocorrência do mal

 

Por que Deus, na sua onipotência, não destrói o mal?

 

Mesmo um ser onipotente como Deus não é capaz de fazer qualquer coisa para mudar esta tendência humana. Explicando. Deus jamais forçaria as pessoas a escolher livremente o bem, porque a liberdade forçada seria uma contradição à sua Palavra. Logo, Deus não pode destruir literalmente todo o mal sem aniquilar o livre-arbítrio. A única maneira de destruir o mal seria destruindo o bem do livre-arbítrio. Logo, se Deus destruísse todo o mal, teria de destruir também todo o bem do livre-arbítrio. Mas, apesar de Deus não aniquilar o mal, Ele pode (e irá!) derrotá-lo e, ao mesmo tempo, preservar o livre-arbítrio. Assim, ainda que o mal não possa ser destruído sem destruir o livre arbítrio, ele pode ser derrotado.

 

A finalidade do mal

 

Deus tem uma determinação para tudo e, por conta disso, nos permite conhecer um bom propósito para a maior parte do mal. Por exemplo, a habilidade que temos de sentir dor possui um bom propósito. C. S. Lewis declarou que “a dor é o megafone de Deus para advertir o mundo moralmente surdo”.

 

Além disso, temos de ponderar que parte do mal é produto do bem e que Deus é capaz de extrair coisas boas do mal. Também, temos de entender que nem todo evento específico no mundo precisa ter um bom propósito. Apenas o propósito geral precisa ser bom. Certamente, Deus tinha um bom propósito para criar a água (sustentar a vida), mas afogamentos são um dos subprodutos malignos. Assim, nem todo afogamento específico precisa ter um bom propósito, apesar de a criação da água ter tido. A bem da verdade, muitas coisas boas seriam perdidas se Deus não tivesse permitido que o mal existisse.

 

Isso não significa que este mundo seja o melhor mundo possível, mas que Deus o criou como a melhor maneira de atingir seu objetivo supremo do bem maior.

 

O mal como um problema que pode ser evitado

 

Se Deus, por sua onisciência, sabia que o mal ocorreria no mundo, então, por que criou este mundo? O Senhor poderia não ter criado nada; ou ter criado um mundo onde o pecado não pudesse ocorrer. Ou, ainda, criar um mundo onde o pecado ocorresse, mas que todos fossem salvos no final. Logo, segundo os descrentes, Deus não fez o melhor.

 

Entretanto, é necessário ter em mente que Deus não precisa fazer o melhor, mas apenas fazer o que é bom. Mas será que alternativa seria realmente melhor que este mundo? Absolutamente.

 

A ausência de mundo não pode ser melhor que o mundo. “Nada” não pode ser melhor que “algo”.

 

Um mundo livre, onde ninguém peca, ou mesmo um mundo livre, onde todos pecam e depois são salvos é concebível, mas não é atingível. Enquanto todos forem realmente livres, sempre será possível que alguém se recuse a fazer o bem. Se Deus não permitisse o mal, então as virtudes mais elevadas não poderiam ser atingidas. Não há como experimentar a alegria do perdão sem permitir a queda no pecado.

 

O cristão sabe da realidade do mal e, dentro de sua limitação, se esmera por evitá-lo. Ninguém pode demonstrar um mundo alternativo melhor que o mundo proposto pelo cristianismo. Não podemos nos esquecer que Deus ainda não terminou a sua obra, e muitos menos que as Escrituras prometem que algo melhor será alcançado. A fé do crente é que este mundo é o melhor caminho para o melhor mundo atingível.

 

Fonte: Baker Encyclopedia of Christian Apologetics: Baker, 1999.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Os irmãos Karamazov. Coleção Os Imortais da Literatura Universal. Vol. 1 Abril Cultural: Rio de Janeiro, 1970, liv. V, cap.IV, p.181-4.

HUME, David. Diálogos sobre a religião natural. [Tradução José Oscar de Almeida Marques] São Paulo: Martins Fontes, 1992, p.136.

Buffalo, New York: Prometheus Books, 1979.

 

Tradução: Elvis Brassaroto

Fonte: Arminianismo.com

Calvinismo, Arminianismo e a Teologia da Salvação

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Artigos Robert E. Picirilli

_______________________ A Extensão da Expiação

Introdução

Existem variedades tanto dentro do Calvinismo como do Arminianismo. O Arminianismo que eu tenho apresentado em Grace, Faith, Free Will[1] (Graça, Fé, Livre-Arbítrio) é o que eu chamo de “Arminianismo da Reforma”, que significa as opiniões do próprio Armínio e dos seus primeiros partidários (os “remonstrantes”). A teologia de Armínio foi claramente um produto da Reforma e manifestou a insistência da Reforma na salvação pela graça somente, pela fé somente, por Cristo somente. O capítulo de abertura do meu livro traça o percurso histórico de desentendimentos de Armínio com o Calvinismo de sua época. O restante do livro é dividido em quatro partes: (1) Predestinação e Eleição; (2) Expiação; (3) Salvação pela Fé e (4) Perseverança. Em cada parte existem três capítulos; os dois primeiros capítulos fornecem um tratamento de “teologia sistemática” do assunto, tanto do Calvinismo como do Arminianismo, respectivamente, e o terceiro capítulo apresenta a “teologia bíblica” em apoio ao Arminianismo da Reforma. Nesta palestra vou lidar com parte do que é tratado na Segunda Parte do livro: a teologia da expiação, e especialmente a extensão da expiação. A pergunta é: Por quem Cristo morreu? Somente pelos eleitos ou por todos? A Natureza da Expiação Antes de abordar o assunto, devo referir-me brevemente à natureza da expiação. Como a maioria dos calvinistas, os arminianos reformados creem na “visão da satisfação penal” da expiação. Esta é uma expiação verdadeiramente “vicária” – substitutiva. Jesus verdadeiramente sofreu na cruz a penalidade pelos nossos pecados. Ele suportou a ira de Deus em nosso lugar. 2Co 5.21 diz, “Ele o fez pecado por nós”. Ele foi punido na cruz pelos nossos pecados, embora ele não tenha cometido nenhum pecado. Digo isto porque existe uma corrente histórica do Arminianismo que ensina, na verdade, o que é chamado de “visão governamental” da expiação, desenvolvida por um dos seguidores posteriores de Armínio chamado Hugo Grotius. Grotius dizia que Jesus morreu para sustentar o governo justo de Deus do mundo. Nesta perspectiva, a expiação é um testemunho de que o pecado exige perdão, não punição; Jesus morreu pelos nossos pecados, mas não para suportar a pena dos nossos pecados. Eu recomendo um capítulo no livro do Sr. Forlines, The Quest for Truth[2] (A Busca pela Verdade), sobre este assunto. Razões para Crer na Expiação Universal O Arminianismo insiste que Jesus morreu por cada pessoa na história do mundo: que Deus tanto amou o mundo, e não apenas os eleitos, que deu o seu único Filho pelos pecados do mundo. Isso às vezes é chamado de expiação ilimitada, expiação universal ou expiação geral. (Os batistas calvinistas costumavam ser chamados de “batistas particulares”, enquanto todos os batistas arminianos costumavam ser chamados de “batistas gerais”.) 1. A expiação universal se encaixa nas declarações bíblicas de que Deus quer a salvação de todos, especialmente 2Pe 3.9 e 1Tm 2.4. Seria estranho, na verdade, se Deus realmente quisesse ou desejasse a salvação de todos, mas enviasse o seu Filho para morrer somente pelos eleitos! Faz muito mais sentido que Deus tenha providenciado uma oportunidade para todos, visto que Ele deseja a salvação de todos. 2. A expiação universal é logicamente exigida pelas passagens que fazem referência à condenação de pessoas por quem Cristo morreu, especialmente 1Co 8.11 e Rm 14.15. Esses dois textos lidam com o mesmo problema: por um comportamento descuidado pode-se ameaçar o bem-estar espiritual de um irmão ou irmã em Cristo. E isso aumenta o perigo de que alguém por quem Jesus morreu possa finalmente perecer. Nesse caso, é claro que ele não morreu apenas pelos eleitos. A propósito, isto está relacionado com a teologia da apostasia. Se uma pessoa regenerada realmente pode apostatar e se perder, então alguém por quem Cristo morreu pode perder-se. Se Jesus não morreu pelo apóstata, ele nunca poderia ter sido salvo em primeiro lugar! 3. A expiação universal se encaixa no fato que a Bíblia oferece salvação a todos e nos obriga a pregar o evangelho a todos. Que a Bíblia apresenta a oferta como universal é evidente em todas as passagens que dizem “quem quiser”, como Ap 22.17 e Jo 3.14, 15; compare Jo 12.32: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim”. Que a Bíblia nos ordena a pregar o evangelho – apresentar esta oferta – a todos é igualmente claro em passagens como Mc 16.15. Rm 1.14-16 mostra que Paulo plenamente percebia isto como sua obrigação, visto que “o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”. Os calvinistas não negam que a Bíblia oferece a salvação a todos e que somos responsáveis por pregar a oferta do evangelho a todos. Porém, eu acho que eles não conseguem ser logicamente consistentes aqui: a salvação não pode ser verdadeiramente oferecida a alguém por quem Cristo não morreu. Suponha que eu diga a uma criança paralítica, “Se você apenas estender a sua mão para pegar, darei este doce a você”. Isso me soa mais como zombaria do que uma “oferta”! 4. A expiação universal se encaixa melhor no fato que os incrédulos são culpados, na Bíblia, não apenas por seus pecados mas pela sua rejeição de Cristo e da salvação oferecida nele pelo evangelho. Considere Jo 3.18 ou 1Jo 5.10, 11, como exemplos. Nesta última referência, o ponto é que aquele que não crê, rejeitou, na verdade, o testemunho do próprio Deus, tornando-o um mentiroso. E qual é esse testemunho? Que ele nos deu a vida eterna em seu Filho. Mas se Jesus não morreu por aqueles que finalmente não creem nele, então Deus não deu testemunho de que ele proporcionou a vida eterna a eles e eles não rejeitaram o testemunho de Deus! A Bíblia claramente culpa os pecadores por rejeitar o evangelho. Isso deve significar que a oferta é genuína, que Jesus realmente morreu por eles. 5. A expiação universal explica melhor aquelas escrituras que falam da provisão de Deus como correspondendo às necessidades humanas. A melhor passagem aqui é Rm 3.22-25, onde Paulo fala da justiça que está disponível, pela fé em Jesus Cristo, a todos e sobre todos os que creem. Ele corrobora esta afirmação com rigorosa lógica dizendo: – Porque não existe diferença – Porque todos pecaram e estão afastados da glória de Deus – Sendo justificados gratuitamente pela sua graça através da redenção que está em Cristo Jesus. A frase “sendo justificados gratuitamente pela sua graça através da redenção que está em Cristo Jesus” modifica o mesmo “todos” que Paulo diz “todos pecaram”. Todos pecaram; todos têm acesso à justificação com base na obra redentora de Cristo. A provisão corresponde à necessidade. 6. Finalmente (no livro eu cito nove argumentos), a Bíblia claramente ensina que Jesus morreu por todos e não apenas por um número escolhido. Considere 1Jo 2.2; 1Tm 2.6; Hb 2.9; Jo 3.16-18, 2Co 5.14, 19; Rm 5.18, Tt 2.11. Como o Dr. Vernon Grounds ironicamente disse: “É preciso talento exegético… para esvaziar estes versículos de seu significado óbvio”. Argumentos Calvinistas Você precisa conhecer algumas coisas que os calvinistas dizem em oposição. 1. Os calvinistas apontam para os versículos que dizem que Jesus morreu pelo seu povo ou pela igreja e os interpretam como significando que ele morreu somente pelo povo escolhido de Deus. Estes incluem Mt 1.21; Jo 15.13; Jo 10.15, Ef 5.23-26; At 20.28; Tt 2.14; e outros. Nós cremos em ambos os grupos de versículos: ele morreu por nós e ele morreu por todos. Se ele morreu por todos, isso nos inclui. Considere Gl 2.20: Paulo diz que Jesus “me amou e se entregou por mim”. Obviamente, isso não significa que Jesus não se entregou por ninguém mais. Da mesma forma, os versículos que falam de Jesus morrendo por nós, pela igreja, pelo povo de Deus, não significam que ele não morreu por ninguém mais. 2. Os calvinistas geralmente alegam que “todos” – nas passagens que dizem que Jesus morreu por todos – não significa realmente cada uma ou todas as pessoas na história do mundo. Ao invés disso, elas querem dizer que Deus quer a salvação dos eleitos entre todos os povos, classes e grupos étnicos na sociedade: Deus ama e salva os eleitos, sejam eles judeus ou gentios, de uma nação ou de outra, ricos ou pobres, jovens ou velhos. Eu penso que essas tentativas deixam de lidar de forma séria com esses versículos, e para concluir quero enfatizar 1Jo 2.2. 1Jo 2.2 Este versículo é um bom exemplo da última razão, acima, para a expiação universal: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro”. O que João quer dizer com “mundo”? Ele usa esta palavra 23 vezes nesta breve carta, indicando consistentemente o próprio oposto do povo de Deus. Considere 2.15-17; 3.1, 13; 4.1-5; 5.4, 5, 19. O povo de Deus e “o mundo” são dois povos diferentes, hostis entre si. Certamente João usa “mundo” em 2.2 da mesma maneira e não como uma referência ao restante dos eleitos no mundo. As outras passagens nesta carta onde “nós” ou “nos” se encontra em comparação com “o mundo”, como aqui em 2.2, também torna isso claro. Há quatro dessas passagens: 3.1; 4.5, 6; 5.4, 5 e 5.19: “Nós somos de Deus, e o mundo inteiro jaz no maligno”. Isto estabelece o ponto acima de qualquer argumentação. “Nós” e “o mundo” são dois reinos diferentes. Mas não devemos ter orgulho: Jesus morreu não somente por nós, mas por aqueles que nos odeiam; não somente por nós, mas por aqueles que estão nas garras do maligno. Não somente por nós, mas pelo mundo ímpio que o rejeitou. E é, portanto, nossa responsabilidade dizer a esse mundo que ele morreu por eles.


[1] Nota do Tradutor: Robert E. Picirilli. Grace, Faith, Free Will, Contrasting Views of Salvation: Calvinism and Arminianism (Graça, Fé e Livre-Arbítrio, Contrastando Visões da Salvação: Calvinismo e Arminianismo) (Nashville: Randall House, 2002).

[2] Nota do Tradutor: F. Leroy Forlines. The Quest for Truth: Answering Life’s Inescapable Questions (A Busca pela Verdade: Respondendo as Questões Inevitáveis da Vida) (Nashville: Randall House, 2001).

Fonte: Arminianismo.com

Graça, Fé, Livre-Arbítrio – Prefácio

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_________________________________________________________________ Robert E. Picirilli


 

Tenho em mente vários propósitos para esta obra. Os dois primeiros são os mais importantes.

Primeiro, eu desejo contribuir para o ressurgimento contemporâneo da discussão sobre as questões que têm dividido o Calvinismo e o Arminianismo desde a Reforma. Não me iludo a ponto de pensar que posso trazer uma aproximação entre os dois, mas eu sei que cada nova geração de crentes cristãos acha quase impossível evitar relembrar estas questões. Meu objetivo é apresentar os dois lados, para que o leitor saiba exatamente quais são essas questões: para clarificar o entendimento de ambas as posições e ajudar os leitores a inteligentemente decidir por eles.

Segundo, pretendo frisar uma forma específica de Arminianismo como a melhor resolução das tensões, e neste aspecto eu não sou imparcial. O problema com o “Arminianismo” é que ele significa coisas diferentes para diferentes pessoas. Meu objetivo é apresentar o que eu chamo de “Arminianismo da Reforma,” pelo qual eu quero dizer as opiniões do próprio Arminius e seus defensores originais. Isto é um Arminianismo que tem sido com freqüência perdido de vista por amigos e inimigos, e é altamente vigoroso e sustentável.

Alguns leitores podem estar surpresos por aprender que há um Arminianismo que defende:

ü a depravação total,

ü a soberania de Deus no controle de todas as coisas para o certo cumprimento de Sua vontade,

ü o conhecimento perfeito de Deus de, e a certeza de, todos os eventos futuros – incluindo as escolhas morais livres dos seres humanos,

ü a visão da satisfação penal da expiação,

ü salvação pela graça por meio da fé e não pelas obras, do início ao fim,

ü e uma apostasia que não pode ser remediada.

Eles podem também estar surpresos por aprender que isto foi essencialmente o Arminianismo do próprio Arminius. Como Alan P. F. Sell tem observado, “Em importantes aspectos, Arminius não era um arminiano.”[1]

Embora o Arminianismo original não continuou na Igreja Remonstrante Holandesa, tem havido proponentes do Arminianismo da Reforma em várias épocas e lugares. O Anabatista Balthasar Hubmaier defendia posições similares. Thomas Grantham, um importante teólogo entre os primeiros batistas gerais ingleses, demonstrou praticamente a mesma soteriologia de Arminius em seu Christianismus Primitivus, or the Ancient Christian Religion, publicado em Londres em 1678.[2] Wesley retomou muito da essência das opiniões de Arminius.

Chamar de “Arminianismo da Reforma” pode resultar em críticas.[3] Mas estou convencido de que a teologia de Arminius foi bem estudada em consideração consciente das crenças dos reformadores; e que Arminius teve êxito ao manter a insistência da Reforma na salvação sola gratia, sola fide, e solo Christo. Sell nos recorda que “O Arminianismo surgiu como uma opção genuína de dentro de, e não como um parasita sobre, a Igreja Reformada na Holanda.” Por isso, por “Arminianismo da Reforma” eu pretendo tanto distinguir o pensamento de Arminius e os originais Remonstrantes de algumas das formas que o Arminianismo tem tomado desde então, como identificá-lo com as principais ênfases da Reforma.

Cumprindo os dois principais propósitos mencionados acima, meu método tem sido perseguir uma teologia histórica, sistemática e bíblica. No primeiro capítulo eu revi o fundo histórico envolvendo a luta de Arminius e os originais Remonstrantes. Então cada uma das quatro seções, por sua vez, é dedicada a uma das quatro questões chaves: Predestinação, Expiação, Salvação pela Fé, e Perseverança. Em cada uma dessas quatro seções há três capítulos: o primeiro aborda a posição calvinista, a seguir a posição arminiana, e a última alguns estudos de teologia bíblicos em apoio à posição arminiana. O exato procedimento dentro de cada seção varia, dependendo da natureza do material. Para a maior parte, eu me concentrei nas expressões tradicionais. Conseqüentemente, o foco primário é nos teólogos calvinistas clássicos pelo lado calvinista, e no próprio Arminius pelo lado arminiano. O espaço não permite muita atenção às variações no tema.

Alguns podem perguntar, visto que estou realçando uma forma de Arminianismo, por que eu me dei ao trabalho de apresentar ambos os lados em cada seção. Por duas razões. Primeiro, eu uma vez escutei o Dr. Roger Nicole observar que devemos sempre nos certificar de que podemos apresentar a posição de um oponente de tal forma que ele concordará que a temos expressado corretamente. Penso que ele está certo, e fiz uma tentativa conscienciosa de cumprir isso. Não é bom contestar uma outra opinião se você a tem primeiro distorcido. Falácias do espantalho são facilmente derrubadas.

Segundo, eu quero que aqueles de cada lado entendam a outra posição de dentro dele. A experiência me ensinou que meus amigos arminianos geralmente não entendem o que o Calvinismo realmente é, e que os calvinistas geralmente mal compreendem o Arminianismo. Os argumentos resultantes são freqüentemente emocionais mais do que baseados num entendimento cuidadoso de cada lado. Eu gostaria de retificar este defeito.

Meu terceiro propósito para esta obra, embora não primário, não é por isso sem importância. Hoje em dia estamos testemunhando um neo-Arminianismo que assume algumas estranhas posições. Esses neste movimento – algumas vezes chamado “openness theism” – negam a onisciência de Deus, por exemplo, ou nos contam que Deus salva todos que se tornariam crentes se eles tivessem uma oportunidade. Como entendo, nem Cristianismo evangélico em geral, nem Arminianismo em particular, isto não é nada bom. Ao invés, as diferenças entre o Calvinismo e o Arminianismo se tornaram confusas e obscuras. Ao apresentar as questões nos termos tradicionais – com uma nova perspectiva, espero – quero levar o debate de volta às questões tradicionais.

Ofereço agora não tanta dedicação quanto especial apreciação por dois professores que me ajudaram a formar meu pensamento há um bom tempo atrás: primeiro a L. C. Johnson, que me ensinou Arminianismo da Reforma (embora ele não o chamasse assim) direto de Arminius; e segundo a Wayne Witte, que me ensinou o Calvinismo clássico direto de Berkhof e Shedd e outros do mesmo nível, e o fez com boa-vontade.

Também devo agradecimentos aos dois distintos amigos que leram o texto após minha solicitação e ofereceram sugestões úteis: Leroy Forlines, um colega que leu pelo lado arminiano, e Bob Reymond, um bem conhecido pensador Reformado que leu pelo lado calvinista. Não coloco em suas costas a responsabilidade, entretanto, pelas opiniões que apresento.

Encerro com as palavras de Arminius, escritas no final de seu próprio prefácio de “An Examination of the Treatise of William Perkins concerning the Order and Mode of Predestination”:

Que Deus nos conceda que possamos concordar plenamente, nessas coisas que são necessárias para Sua glória e para a salvação da igreja; e que, nas outras coisas, se não puder haver harmonia de opiniões, que haja ao menos harmonia de sentimentos, e que possamos “guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.”


 


[1] Alan P. F. Sell, The Great Debate (Grand Rapids: Baker, 1983), 97.

[2] Agradeço a Matthew Pinson por chamar a atenção para Grantham e citarei seu ensaio (ainda inédito) nesta obra.

[3] Não alego que Arminius pertença aos reformadores magistrais. Mas eu senti a necessidade de dar algum nome a esta espécie de soteriologia arminiana; “Arminianismo evangélico” é amplo demais, “Arminianismo Wesleyano” já está em uso com um outro significado, e “Arminianismo da Remonstrância” muito provavelmente significa a Igreja Remonstrante Holandesa, que é muito diferente dos originais Remonstrantes. Eu considerei e finalmente decidi contra o “proto-Arminianismo” como clínico demais.

Fonte: Arminianismo.com

Vasos nas Mãos do Oleiro

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Paulo Cesar Antunes

Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? (Rm 9.21). Deste verso, a teologia reformada (ou calvinista) tem tirado as seguintes conclusões: 1. O homem, em seu estado caído, é “tão sem vida e sem poder como um pedaço de barro inerte.” 2. “Não há diferença intrínseca entre os eleitos de Deus e os não-eleitos: são do mesmo barro.” 3. “O destino final de toda pessoa é decidido pela vontade de Deus.” 4. Deus “molda os seus vasos para os seus próprios propósitos e segundo o seu próprio beneplácito.”[1] Não há dúvida de que este verso enfatiza a soberania de Deus. Deus tem todo o direito de fazer vasos conforme Lhe apraz. Meu problema com a teologia reformada não é com a soberania de Deus, mas com o exercício dela na questão da salvação do homem. Rm 9.21 realmente está dizendo que Deus incondicionalmente escolhe, dentre a humanidade caída, alguns para salvação e, por exclusão, outros para perdição eterna? Meu propósito neste artigo é mostrar que não. É uma tarefa um tanto difícil analisar apenas um verso em Rm 9 sem incluir os demais. Todo o capítulo traz pontos importantes que não podem deixar de ser abordados. Apesar de assumir essa arriscada tarefa, quero deixar claro que analisei todo o contexto do verso antes de me dispor a escrever este artigo. Não há por que negar que ao lermos o verso em questão temos a impressão de um Deus que não leva em consideração nada senão apenas Sua própria vontade, e que o destino dos seres humanos dependem única e exclusivamente da forma que são moldados por Deus, se para honra ou desonra. Só que não podemos fazer teologia de primeiras impressões: há todo um contexto a ser analisado. Deve-se notar que era comum entre os judeus a alegoria dos vasos e do oleiro, que Paulo faz uso em Rm 9.21. No livro de Isaías, por exemplo, temos em 29.19 (“Vós tudo perverteis, como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse do seu artífice: Não me fez; e o vaso formado dissesse do seu oleiro: Nada sabe”), em 45.9 (“Ai daquele que contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos?”), e em 64.8 (“Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos”). Em Jeremias também há a seguinte ilustração: A palavra do SENHOR, que veio a Jeremias, dizendo: Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas, como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer. Então veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o SENHOR. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel (Jr 18.1-6). Claramente estes versos ensinam que Deus é soberano sobre todos e que somos como barros em Suas mãos. Mas concluir que Rm 9.21 ensina eleição incondicional e que Deus unilateralmente decidiu onde passaremos a eternidade distancia um tanto do que parece ser a intenção do apóstolo. Jeremias observa como o oleiro trabalha os vasos. Como um vaso quebra em suas mãos, o oleiro molda outro, conforme bem lhe parece aos olhos. Então Deus pergunta: “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?” E conclui: “Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.” Certamente podemos concluir que o oleiro é Deus, Israel é o barro, e que Deus tem total controle sobre a nação de Israel, assim como o oleiro sobre o barro. Só não podemos concluir, como fazem os calvinistas, que Deus não leva em consideração nada do que fazemos ao decidir fazer de nós o que parece bem aos Seus olhos. Na verdade, os versos seguintes desaprovam essa conclusão: No momento em que falar contra uma nação, e contra um reino para arrancar, e para derrubar, e para destruir, se a tal nação, porém, contra a qual falar se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. No momento em que falar de uma nação e de um reino, para edificar e para plantar, se fizer o mal diante dos meus olhos, não dando ouvidos à minha voz, então me arrependerei do bem que tinha falado que lhe faria (Jr 18.7-10). Não há nada de incondicional nestes versos. Os vasos são moldados ou quebrados, dependendo da resposta do homem a Deus. Quem parece crer num destino implacável, na verdade, são os judeus impenitentes, quando dizem que “não há esperança, porque andaremos segundo as nossas imaginações; e cada um fará segundo o propósito do seu mau coração” (Jr 18.12). Deus está justamente dizendo a Israel que o modo como Ele irá tratar a nação depende, em parte, da própria nação, se ela se arrepender ou não. Se arrepender, será vaso para honra. Se não se arrepender, será vaso para desonra. Nada no contexto, também, parece apoiar a idéia de que, por “honra” e “desonra,” Paulo estaria falando do destino de cada ser humano, de sua salvação ou perdição eterna. Dentro do contexto de Rm 9, que fala da soberania de Deus na condução do plano de salvação da humanidade, Paulo está sugerindo que Deus pode fazer o que bem entender com os judeus que, por causa da incredulidade, foram cortados (Rm 11.20), e admitir os gentios, que alcançaram a justiça pela fé (Rm 9.30). Deus tem todo o direito de colocar os gentios crentes numa posição de honra e os judeus incrédulos numa posição de desonra. Mas isso não é decisivo na salvação de cada um, pois os judeus que não permanecerem na sua incredulidade podem ser readmitidos (Rm 11.23), e os gentios que abandonarem a fé podem ser cortados (Rm 11.22). E finalmente, Paulo, instruindo Timóteo, diz que “se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra” (2Tm 2.21).
 

 


[1] Arthur Pink, Deus é Soberano, p. 52-53.

Fonte: Arminianismo.com

Calvinismo e Arminianismo: O que Eles Querem Preservar?

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__________________________________________________________________John Mark Hicks

Houve um significante interesse durante a década passada em um ressurgente Calvinismo (ou Teologia Reformada). Alguns chamam de um “Novo Calvinismo” (conforme o livro de Collin Hansen, Young, Restless, Reformed: A Journalist’s Journey with the New Calvinists). A popularidade de John Piper assim como a renovação do Calvinismo entre os Batistas do Sul (especificamente o Seminário Teológico Batista do Sul) é um indício de uma nova oscilação da tradição reformada. Leia uma análise e discussão deste novo fenômeno aqui.

A blogosfera está repleta de discussões contínuas entre arminianos e calvinistas. Minha lista de blogs contém dois desses sites – Evangelical Arminians e Desiring God de John Piper. A discussão aparentemente é interminável.

A minha própria educação foi no Seminário Teológico de Westminster de 1977-1979 (M.A.R) e 1981-1985 (Ph.D.). Conseqüentemente, tenho certa familiaridade com a tradição reformada, particularmente a Confissão de Fé de Westminster. Ao mesmo tempo cresci na tradição amplamente arminiana Stone-Campbell (em muitos casos de natureza mais pelagiana que arminiana) e tenho lecionado em escolas dentro dessa tradição por vinte e cinco anos. Tenho certa familiaridade com o Arminianismo também. De fato, uma vez contei aos meus professores de Westminster que meus estudos bíblicos, teológicos e históricos em Westminster tinham me ajudado a passar do Pelagianismo para o Arminianismo, mas eu não pude me decidir pelo Calvinismo.

Tenho uma muito profunda apreciação pela teologia reformada como um todo, embora eu não possa adotar o próprio sistema teológico caracterizado pela TULIP. Meus livros sobre teologia sacramental, por exemplo, evidenciam uma grande dívida às formulações reformadas. Mas eu também tenho uma profunda apreciação pelo Arminianismo clássico (do próprio Arminius) e sua expressão evangélica associada a Wesley.

É importante, penso, entender o que os calvinistas e arminianos pensam que é tão importante – o que é que eles querem preservar? Esta é uma pergunta crucial. Pode ser um ponto de partida significante para uma mútua apreciação ainda que não possam encontrar um acordo pleno.

No centro da teologia reformada está o desejo de dar a Deus toda a glória e excluir toda a jactância humana na obra de salvação. A fé é totalmente encontrada na graça eletiva e obra soberana de Deus. A base da eleição é a própria vontade de Deus. Os humanos não podem se gabar de sua salvação em relação a algo dentro de si mesmos; a salvação tem sua raiz no decreto divino da eleição. Os calvinistas buscam preservar a glória de Deus como a única causa da salvação.

No centro da teologia arminiana está o desejo de proclamar o amor de Deus a toda a humanidade – toda e qualquer pessoa humana. A filantropia de Deus é a raiz da salvação e este amor se estende a todos; Deus não deseja a perda de um único ser humano. Os arminianos buscam preservar a fidelidade de Deus ao seu constante amor por cada uma de suas criaturas.

Os dois se duelam na resposta à pergunta, “Por que alguns são condenados?” O calvinista responde: “porque eles não foram escolhidos” (ou mais especificamente, eles são condenados por causa de seu próprio pecado e Deus preferiu deixá-los aí). O arminiano responde: “porque eles não creram” (ou mais especificamente, a incredulidade é uma rejeição humana da oferta divina graciosa de salvação). Os calvinistas acusam os arminianos de tornar a fé uma causa meritória da salvação, o que torna uma base de jactância e deprecia a glória de Deus (em outras palavras, os humanos salvam a si mesmos com sua própria fé). Os arminianos acusam os calvinistas de subordinar o amor de Deus à glória de Deus visto que Deus deixa alguns em seus pecados para demonstrar sua justiça assim como visando sua própria glória (em outras palavras, ele ama sua própria glória mais do que ama seu mundo).

Os calvinistas perguntam como a fé como um ato humano não se torna uma obra humana de justiça se Deus não escolheu uma pessoa para a fé como resultado de sua própria graça. Os arminianos perguntam por que todos não crêem se a única causa da fé é a obra graciosa de Deus na eleição e Deus ama todas as pessoas. O calvinista quer preservar a glória de Deus e o arminiano quer preservar o amor de Deus.

Enfim – pelo menos num nível teórico ou no contexto do debate arminiano/calvinista – alguém deve escolher qual é a prioridade do coração de Deus: sua glória ou seu amor? Ou, temos mesmo que escolher? Este é um assunto para outro post.

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Fonte: Arminianismo.com