A Abordagem Clássica-Teológica para a Perseverança e Apostasia: G. C. Berkouwer

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B. J. Oropeza  

 

Durante a segunda metade do século 20, G. C. Berkouwer fez uma contribuição teológica na área da apostasia e perseverança com sua obra intitulada Faith and Perseverance (1958). Berkouwer combina as primeiras  confissões protestantes com a Escritura para chegar à sua percepção da perseverança. Ele sugere que as passagens que parecem contrárias à doutrina da perseverança são meios que Deus usa para levar os santos a confiar em Deus. [1] A obediência é, portanto, um fator importante. Todavia, as passagens que parecem alertar contra o perigo de apostasia não exaurem a realidade da graça de Deus. [2] A perseverança, que é efetuada no crente através da oração, pregação e sacramentos, pode somente ser mantida em fé através da graça de Deus. Dessa forma, a perseverança é um dom que é selado pela fé. Os cristãos perseveram quando deixam de confiar em si mesmos e descansam na graça perseverante de Deus. [3]Berkouwer conclui, “Quando os pais reformados falaram sobre a consolação da perseverança, eles tinham a graça de Deus em mente. Por essa razão, a doutrina da perseverança, na medida em que ela reconhece sua dependência da graça, nunca pode ser uma mera abstração que torna uma continuidade de vida sem resultados”. [4]

 

O argumento de Berkouwer que as admoestações bíblicas são meios pelos quais Deus realiza a perseverança não é nada novo. [5] Este ponto de vista não é livre de fraquezas. Se os eleitos não fossem admoestados, eles então seriam capazes de apostatar-se? Se não, qual é exatamente a distinção ou importância especial que o tema da advertência tem no Novo Testamento? Devemos supor que, juntamente com a graça, as advertências são necessariamente eficazes aos eleitos, mas não aos não eleitos? Mesmo se supormos que isto é concebível, em vista de outras opções, ela é a mais provável? Isto é, se Berkouwer desvencilhar-se de suas pressuposições reformadas, ele teria honestamente chegado às mesmas conclusões? Sua perspectiva carece de evidência dos próprios autores do Novo Testamento. Será que eles acreditavam que ouvir ou ler suas advertências operava ou causava a perseverança eficaz entre os eleitos? Se formos examinar as passagens de advertências à luz de seus respectivos contextos, não consideraríamos uma melhor opção afirmar que pelo menos alguns dos escritores supunham que seus leitores fossem crentes genuínos que estavam em sério perigo de apostasia? Parece que a interpretação de Berkouwer é oferecida mais na tentativa de preservar o sistema reformado do que ser inteiramente fiel ao pleno efeito das passagens de advertências.

 

Berkouwer começa seu estudo citando as confissões reformadas antes de seguir para a Escritura. [6] Não é nenhuma surpresa, então, que ele classifica a perseverança sob a categoria da graça e não examina cuidadosamente as passagens que podem estar associadas à apostasia. Doutrinas centrais às confissões reformadas tornam-se a pressuposição com a qual todas as passagens bíblicas devem conformar-se. Por outro lado, outro método teológico não faz melhor se começar com passagens que podem estar relacionadas à apostasia, mas então insere neste um sistema que interpreta mal as passagens sobre a perseverança, eleição e predestinação. Se teólogos sistemáticos mitigam a doutrina da apostasia por meio da eleição, ou a eleição por meio da apostasia, sua abordagem frequentemente torna-se pouco mais do que uma repetição dos velhos dogmas calvinistas ou arminianos com, talvez, o benefício adicional de adotar e sistematizar passagens bíblicas que foram interpretadas através da exegese tradicional-apostólica. [7]

 

O que falta em Berkouwer e outras obras teológicas é a análise de passagens à luz de seu ambiente socio-histórico, cultural e retórico. Deve-se tentar entender o que um tema bíblico significava aos destinatários originais. Uma base inicial falha inevitavelmente leva a uma trajetória falha. As suposições de Berkouwer convencem apenas aqueles que compartilham de suas opiniões reformadas. Aos de fora, seus argumentos soam como casos de argumentação tendenciosa. Outro problema relacionado é que a sistematização de passagens tem a tendência de fazer Paulo, João, os textos sinóticos e outros escritores ou escritos do Novo Testamento afirmarem essencialmente a mesma coisa, sem apresentar qualquer real diversidade sobre as questões da perseverança e apostasia.

 Fonte: Arminianismo

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] BERKOUWER (1958), 97-121.

[2] Berkouwer escreve, “Se algo é certo é isto, que de acordo com as Escritura, a graça de Deus não cessa diante dos limites da liberdade de escolha humana” (1958:90).

[3] BERKOUWER, 234-36 cf. 106, 213.

[4] BERKOUWER, 238.

[5] Cf. DODDRIDGE (1802-06) antes da época de Berkhouwer e SCHREINER (1998) posteriormente.

[6] BERKOUWER, 19.

[7] A visão de Berkouwer parcialmente motivou a obra de Shank (1961), uma resposta wesleyana-arminiana para a perseverança e apostasia (1961:165-78). A obra de Sellers (1987), que defende a visão calvinista, é, por sua vez, uma resposta a Shank.

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Pós-Calvinismo: 1. Dias de Estudante em Trinity

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Scot McKnight

Quando fui para Trinity no outono de 1976, a primeira coisa que notei foi quão intrincadas eram as discussões teológicas. Aquelas pessoas sabiam do que estavam falando e conheciam textos bíblicos, discussões teológicas e a história da Igreja. Tive certo trabalho para estar apto a participar dos debates. Foi um desafio pelo qual sou grato até hoje.

 

O Calvinismo não era uma questão prioritária, mas poderia surgir a qualquer momento, bastando que alguém desse alguma informação desencontrada. Tive alguns palestrantes maravilhosos: H. Dermott McDonald era um excêntrico teólogo de Londres que nos dizia que nosso plano de estudo era a biblioteca e que devíamos ir para lá estudar sobre “Deus, o Homem e Cristo”, e então voltar para fazer seu exame no final. David Wells ensinava Pecado e Salvação, e começou nos contando que sua mulher dizia que ele poderia ensinar a primeira metade da classe dando uma autobiografia. McDonald não era calvinista; Wells era. Meus professores de Novo Testamento não levantavam tais assuntos: Norm Ericsen e Murray Harris. Mas então Grant Osborne veio para TEDS (Trinity Evangelical Divinity School). (Assim, eu posso culpar Grant por esta jornada, o que ele ficaria feliz por obter os créditos).

 

Vou passar um relato do que aconteceu. Grant é famoso por seus panfletos, e ele tinha um sobre a Segurança Eterna. Era um folheto extenso e ele me pediu para trabalhar nele, adicionar alguma bibliografia e em geral reescrevê-lo. Foi uma grande tarefa para mim, mas era a primeira chance real que eu tive de fazer algo desse nível. Para me preparar, Grant sugeriu que eu lesse Kept by the Power of God, de I. Howard Marshall. O que eu fiz. De capa a capa; sublinhei algumas partes; tomei notas; consultei comentários. Levou um bom tempo. Quando fiz uma pausa em Hebreus, eu estava persuadido de que estava equivocado sobre o Calvinismo. Como C. S. Lewis subindo em um ônibus e então descendo convertido, mas não sabendo quando ou como, da mesma forma aconteceu comigo: do começo de meu trabalho com as notas de Grant até a leitura de Marshall e discutindo com ele até que ele me jogou ao chão e me imobilizou, eu me convenci de que não era mais calvinista. Isso não significa que eu abandonei a arquitetura do Calvinismo, mas apenas sua teologia.

 

Era e ainda é minha convicção de que os cinco pontos são interdependentes. Você pode abandonar o 5º de alguma forma (eu não acho que pode, mas alguns pensam que sim) e você precisaria adicionar um 6º (Responsabilidade), mas se o entendimento arminiano de “perder a salvação” está correto, então o Calvinismo não está correto. (Eventualmente irei mostrar por que eu não gosto da expressão “perder a salvação”.) Me deixa ser mais claro: se a graça de Deus pode ser resistida de alguma maneira, se os crentes podem de alguma forma escolher privar-se de sua salvação, então a eleição incondicional e a graça irresistível (e provavelmente a expiação limitada) e certamente a perseverança/preservação dos santos não estão corretas.

 

Encontrei duas grandes fraquezas na teologia do Calvinismo (e também uma desorientação em sua arquitetura): em primeiro lugar, a ênfase de sua arquitetura não é a ênfase da Bíblia. Seu foco na Soberania de Deus, o que muito rapidamente se torna muito menos uma doutrina de graça do que uma doutrina de controle e teodiceia, etc., e sua ênfase exagerada na depravação humana não são a ênfase que encontrei na Bíblia. Não estou contestando a presença destes temas; estou contestando que neles se encontram a gravidade da ênfase na Bíblia. Sim, eu sei que todos nós temos metanarrativas que reúnem todas as coisas, e o Calvinismo é uma dessas metanarrativas. Funciona para alguns; ele simplesmente não funciona para mim.

 

Em segundo lugar, considero deficiente, e algumas vezes completamente equivocada, a exegese do Calvinismo de passagens cruciais. Eu estava uma vez parado, anos após ter começado a lecionar em Trinity, em frente à porta de casa conversando com dois professores sobre minha visão de Hebreus, quando eu simplesmente fiz uma pergunta a um deles, “Quem você acha que melhor responde à interpretação arminiana de Hebreus?” Esse professor disse “Philip Hughes.” Eu tinha acabado de ler Hughes e o considerei fraco. De fato, o que eu pensei foi o seguinte: “Se esse é o melhor, então não há debate.” O outro professor disse, “Concordo Scot. Hughes não responde as questões.” Então ele disse, “Não tenho certeza se algum comentário realmente tenha uma resposta satisfatória.” (Esses dois professores eram calvinistas, e ainda são. Deus os abençoe.) O que estou dizendo é que conclusões exegéticas que eu estava tirando (em todos os tipos de passagens) não eram adequadamente respondidas pelos calvinistas que eu estava lendo. Eu acredito que dei a eles uma bela oportunidade.

 

Então, é aqui onde me encontrava quando parti para Nottingham fazer meu doutorado em Novo Testamento. Fui educado entre os batistas defensores da segurança eterna que pegavam o que gostavam do Calvinismo e desprezavam a maioria dos cinco pontos. Então eu me tornei mais consistentemente calvinista lendo os puritanos e Calvino.

 

Então eu li a Bíblia de um ponto de vista diferente e tudo veio abaixo. Se a Bíblia, assim concluí, ensina que alguém pode ser crente e de alguma forma privar-se desse estado, então a teologia do Calvinismo não pode estar correta.

 

Isto me deixou com uma mistura estranha de teologia: fui educado batista; tinha lido mais do que o necessário dos anabatistas da Igreja Baixa e me considerava um desses no que se refere a onde a teologização deve começar: com Jesus. E eu estava agora estudando a Bíblia com algumas conclusões arminianas sobre a soteriologia.

 

Após dois anos na TEDS inglesa, me ofereceram um emprego temporário para lecionar Novo Testamento que duraram dois anos, e então (pela graça de Deus) foi elevado para cargo integral quando Wayne Grudem, na providência de Deus, mudou para Teologia Sistemática.

 

Dentro de dois anos, fui requisitado a lecionar Hebreus em um curso acadêmico, e decidi passar meu verão inteiro realizando a exegese de Hebreus e estava determinado a me concentrar naquelas perturbadoras passagens de advertências para ver se eu poderia estabelecer as questões de uma vez por todas.

 

Se estiver certo sobre Hebreus, o Calvinismo está errado. O número de estudantes que escreveu ensaios de meio de semestre concordando comigo me deixou nervoso. Não foi nenhuma coincidência que um bem conhecido professor calvinista, a quem eu frequentemente chamava “D. A. qual é o nome dele?” na classe, começou a lecionar Hebreus logo depois.

 

Amanhã eu começarei sobre as passagens de advertências em Hebreus, sendo a mais famosa Hb 6.4-6. Eu acredito que posso provar que o autor acreditava que os “crentes” podiam privar-se de sua salvação.

Fonte: http://www.patheos.com/community/jesuscreed/2005/07/29/post-calvinism-trinity-student-days/

Tradução: Paulo Cesar Antunes