Olhando Para Jesus (Hb 12:2)

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Henry Orton WileyArminius Hoje

 Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. Hb 12.2 ARA

 O escritor de Hebreus pede agora aos seus leitores que voltem o olhar para Jesus, exaltado acima de todos e assentado à destra do trono de Deus.

 O verbo olhar – em olhando firmemente – é aphorontes (Αφορωντες), que significa tirar a vista das coisas que estão perto e desviam a nossa atenção e, conscientemente, fixar os olhos em Jesus como o nosso grande alvo. Significa ainda interesse que absorve por completo, perfeitamente expresso pelas palavras com olhos só para Jesus.

 A expressão autor e consumador da nossa fé tem sido interpretada de várias maneiras. A palavra traduzida como autor é archegon (Αρχηγος), líderpioneiro, sendo o mesmo vocábulo traduzido como capitão (da nossa salvação) em Hebreus 2.10 (KJ). A palavra consumador é teleioten (τελειωτής), aperfeiçoadorque completa (cp. Hb 10.14).

 Em olhando firmemente para Jesus, o Autor e Consumador da nossa fé, o possessivo nossa [que aparece nas versões KJ e na NVI, mas não na ARA e na ARC], antes de , está em itálico ou entre parêntesis, pois no grego temos apenas a . No entanto, não significa a  no sentido objetivo, como o fundamento cristão, mas subjetivo, como o princípio que rege o coração e a vida do ser humano.

 A escolha da palavra archegonlíder ou pioneiro, em vez de aitios (αἴτιος), autor, no sentido de originador, é muito significativa. Como observou Davidson, na presente acepção, as palavras não “podem significar que Cristo, como Autor, originou a fé em nós e, como Aperfeiçoador, sustém-na e a leva a um resultado perfeito”, isto é, incondicionalmente quanto ao conceder e ao aperfeiçoar; a ênfase é, antes, sobre Cristo como o grande Pioneiro da fé que, na Sua vida terrena, tendo perfeitamente alcançado o ideal e terminado a corrida, está agora assentado à destra do trono de Deus.

 Em Hebreus 2.10 a palavra archegon, como capitão (KJ), refere-se em especial à preparação de Jesus para a liderança; neste caso, Ele se tornou o Alvo da realização, o Centro de toda a visão cristã. No entanto, é ainda o Líder, que do Seu trono nos céus ministra pelo Espírito a força, a perseverança, paciência e toda a graça necessária em meio ao sofrimento e aos conflitos. Para os que o seguem com confiança, Ele se tornará o aperfeiçoador, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram (2 Ts 1.10 ARA).

 A seguir, o autor da Epístola aos Hebreus passa a uma consideração da experiência de humilhação de Jesus, vividamente descrita para encorajamento dos leitores – palavras que são apenas a amplificação de Sua obra como o autor e consumador da fé.

 O escritor encontra três semelhanças entre os herois da fé e Jesus. Pela fé, aqueles passaram por grandes lutas e aflições, em parte porque foram exibidos como espetáculo ignominioso, em parte porque se tornaram companheiros dos que foram alvos daquelas tribulações. Assim também Jesus, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia (Hb 12.2b). Esta oração é introduzida pela palavra anti (ἀντί), que significa dar em troca ou, especialmente aqui, em consideração de.

 O vocábulo traduzido como alegria é charas (χαρά) – não aquilo a que Jesus renunciou ao encarnar, mas a alegria que lhe estava proposta. Era a alegria como recompensa do Seu autossacrifício pela salvação dos homens; um autossacrifício que em si mesmo era uma recompensa satisfatória. Mas significava também a alegria de ser exaltado ao trono de Deus e levar consigo a Sua natureza e a nossa, coroando assim a obra redentora por toda a eternidade. Era a alegria de administrar do trono a Sua vida celestial mediante o Espírito Santo, e assim aperfeiçoar para sempre os que são santificados (Hb 10.14). Esta foi a alegria que lhe foi proposta – uma alegria que enche com a Sua glória.Cruz, 

  O que fez Jesus pra ter essa alegria? Suportou a cruz. Temos aqui de novo a palavra hupemeinem (ὑπομένω), anteriormente traduzida como paciência, mas aqui mais propriamente traduzida como suportou com perseverança.

 A palavra traduzida como cruz é stauron (σταυρός), viga ou poste introduzido no chão para execução de criminosos, vindo depois a significar a cruz.

 A frase não fazendo caso da ignomínia ou desprezando a afronta (ARC) foi chamada o grande paradoxo.Desprezar a afronta não significa que Cristo a tinha por desprezível, mas por pequena, comparada com a alegria que lhe foi proposta.

 As palavras cruz e vergonha (NVI) são usadas sem o artigo para salientar a qualidade – coisas como a cruz e a vergonha, e assim servem para colocar em maior relevo a profundidade da abnegação de Cristo. Jesus, sendo santo em si mesmo, foi intensamente sensível à vergonha da cruz, morrendo aos olhos da Lei como um criminoso, mas não permitiu que isso fizesse vacilar Sua lealdade à vontade do Pai.

 

Fonte: A Excelência da Nova Aliança em Cristo: Comentário Exaustivo da Carta aos Hebreus, pp. 509, 510

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A Razão para a Demora Aparente (2Pe 3.9)

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Stanley M. Horton

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O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.

 Pedro dá mais uma razão à aparente demora na volta de nosso Senhor (2 Pe 3.9): a necessidade de pregarmos o Evangelho. Não foi isto o que Paulo quis dizer quando descreveu a volta de Cristo em glória com seus poderosos anjos, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao Evangelho? “Estes sofrerão penalidades de eterna destruição; serão banidos da face do Senhor e da glória de seu poder” (2 Ts 1.8, 9). A volta de Cristo é, pois, parte de uma sequência de julgamentos que há de terminar no Grande Trono Branco (Ap 20.11-15).

 Sendo assim, a oportunidade de espalharmos o Evangelho um dia chegará ao fim. O Senhor (2 Pe 3.9) não está negligenciando nem atrasando sua promessa. Sua demora não é questão de negligência. É porque Deus sofre em relação a nós. Não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento. E que entre os salvos haja redimidos de “toda família, e língua, e povo, e nação”. Que todos estes sejam reis e sacerdotes, e que reinem com Cristo por toda a eternidade (Ap 5.9, 10).

 Jesus ainda alertou quanto aos que passarão para o caminho largo, “porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela”. Além do mais, em relação à população total do mundo, os salvos são poucos; seu número incluirá eventualmente “uma grande multidão que ninguém pode enumerar” (Ap 7.9). Sim, esta é a única razão para a aparente demora de sua vinda. Ele almeja que haja um número maior de salvos.

 A época da vinda de Cristo não nos é revelada. O dia e a hora não eram conhecidos nem por Jesus enquanto estava entre nós, em virtude de sua identificação com as nossas limitações (Mc 13.32). Então não devemos supor que qualquer de nós possa lograr obter tal informação. Jesus ainda enfatizou que sua vinda seria repentina e inesperada, sem nenhuma oportunidade para preparações de última hora.

 Fonte: 1 e 2 Pedro, pp. 107-108

Tomando uma Decisão

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John  Stott John_stott

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Muitas pessoas acham estranho que para se tornar um cristão é preciso tomar uma decisão. Algumas, por terem nascido em um país cristão, acham que já são cristãs. “Afinal”, dizem, “já que não somos nem judeus, nem muçulmanos, nem budistas, provavelmente somos cristãos!” Outras supõem que, por terem recebido uma educação cristã, conhecerem os princípios básicos do cristianismo e adotarem um padrão de comportamento cristão, não precisam de mais nada. Porém, seja qual for a sua formação ou herança familiar, todo adulto responsável precisa tomar uma decisão a favor ou contra Cristo. Não podemos permanecer neutros ou indiferentes, nem deixar que outra pessoa decida por nós. Devemos decidir por nós mesmos.

Mesmo o fato de concordar com tudo que foi escrito até aqui não é suficiente. Podemos admitir que as evidências da divindade de Jesus sejam convincentes ou até mesmo conclusivas, e que ele é de fato o Filho de Deus; podemos crer que ele morreu para ser o Salvador do mundo; podemos também admitir nossa condição de pecadores necessitados de um Salvador. Mas nenhuma dessas coisas nos tornam cristãos, nem mesmo todas elas juntas. Crer em certos fatos sobre a pessoa e a obra de Cristo é uma necessidade preliminar, mas a verdadeira fé transformará essa convicção mental em um ato decisivo de confiança. A convicção intelectual deve conduzir ao compromisso pessoal.

Eu mesmo costumava pensar que a morte de Jesus na cruz havia reconciliado o mundo todo, automaticamente, com Deus. Lembro-me como fiquei confuso, ou mesmo indignado, quando ouvi pela primeira vez que eu precisava considerar a salvação individualmente. Agradeço a Deus por ter aberto meus olhos para que eu reconhecesse Jesus como Salvador, e mais do que isso, o aceitasse como meu Salvador. Por certo o pronome pessoal tem proeminência na Bíblia:

O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.

O Senhor é a minha luz e a minha salvação.

Ó Deus, tu és o meu Deus.

Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Um versículo da Bíblia, que tem ajudado muitos (inclusive eu) a entender esse passo de fé que devemos dar, contém as palavras do próprio Cristo. Ele diz: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo”. [1]

Este versículo foi ilustrado por Holman Hunt em seu famoso quadro A Luz do Mundo, pintado em 1853. O original se encontra na capela do Keble College, em Oxford, e a sua réplica (pintada pelo próprio autor 40 anos depois) na Catedral de St. Paul. Não sei se os pré-rafaelitas estão em evidência hoje, mas de qualquer forma o simbolismo dessa pintura é bastante esclarecedor. John Ruskin, em uma carta ao The Times de maio de 1854, usou as seguintes palavras para descrevê-la:

[…] do lado esquerdo da tela podemos ver a porta da alma humana. Ela está trancada; suas dobradiças e pregos estão enferrujados; plantas trepadeiras estão presas e entrelaçadas aos seus umbrais, revelando que nunca foi aberta. Um morcego paira sobre ela. Sua soleira está coberta por amoras silvestres, urtigas e grãos inúteis… Cristo se aproxima dela à noite…

Ele está vestido com um manto real e traz sobre a cabeça uma coroa de espinhos; segura uma lanterna com a mão esquerda (como a luz do mundo) e com a direita bate à porta.

O contexto deste versículo é revelador. Ele se encontra no final de uma carta enviada por Cristo, através de João, à igreja de Laodicéia, situada na atual Turquia. Laodicéia era uma cidade próspera, conhecida por sua produção de roupas, seus prósperos bancos e sua escola de medicina, onde era preparado o famoso pó frígio, um remédio para os olhos.

A prosperidade material havia provocado um relaxamento dos costumes e contaminado até mesmo a igreja cristã. Muitos que se diziam cristãos verdadeiros demonstravam que só tinham o título de cristãos; eram pessoas razoavelmente respeitáveis, nada mais que isso. Seu interesse religioso era superficial e casual. Assim como a água das fontes aquecidas de Hierápolis, que chegava a Laodicéia por um sistema de dutos (as ruínas podem ser vistas até hoje), eles não eram nem frios nem quentes, mas mornos. E por serem mornos, Jesus afirmou que eles lhe causavam aversão. A sua indiferença espiritual é descrita em termos de uma imagem falsa que eles tinham de si mesmos: “Pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”.

Que dura descrição da orgulhosa e próspera Laodicéia! Eles eram miseráveis, cegos e nus – nus apesar de fabricarem roupas; cegos, apesar de seu famoso remédio para os olhos, e miseráveis, apesar de seus prósperos bancos.

Nós não somos diferentes deles. Dizemos muitas vezes, como eles, que “não precisamos de coisa alguma”. Essas palavras são extremamente perigosas. Esse espírito independente, mais do que qualquer outra coisa, é que nos impede de assumir um compromisso com Cristo. É claro que precisamos de Jesus! Sem ele estamos moralmente nus (sem as vestes apropriadas para nos apresentarmos diante de Deus), cegos para as verdades espirituais, e miseráveis, sem nada para oferecer em troca de nossa salvação. Mas Cristo pode vestir-nos com a sua justiça, tocar nossos olhos para que possamos enxergar, e nos tornar ricos com suas riquezas espirituais. Sem ele, e enquanto não abrimos a porta e o convidamos a entrar, somos miseráveis, cegos e nus.

“Eis que estou à porta, e bato”, ele diz. Ele não é uma fantasia da imaginação, ou um personagem fictício tirado de algum romance religioso. Ele é o homem de Nazaré – suas declarações, seu caráter e sua ressurreição são a garantia de que ele é o Filho de Deus. Ele é também o Salvador crucificado. A mão que bate à porta tem uma cicatriz. Os pés que estão próximos à soleira ainda trazem a marca dos pregos.

Ele é o Cristo ressurreto. João descreveu-o no primeiro capítulo do livro de Apocalipse, ao contemplá-lo em uma visão altamente simbólica. Seus olhos são como chamas de fogo e seus pés como o bronze polido. Sua voz como de um trovão e sua face radiante como o sol do meio-dia. Não é de admirar que João tenha caído a seus pés. É difícil compreender como uma pessoa com tamanha majestade tenha se dignado a visitar pobres, cegos e nus como nós.

Jesus Cristo, no entanto, diz que está à porta de nossas vidas, batendo e esperando. Note que ele está à porta, não forçando a entrada; falando conosco, não gritando. Isso é ainda mais extraordinário quando nos lembramos de que a casa em cuja porta ele está batendo pertence a ele. Ele é o arquiteto; foi ele que desenhou o projeto. Ele é o construtor. Ele é também o proprietário; ele a comprou com seu próprio sangue. Assim, ela pertence a ele, por direito. Somos apenas inquilinos em uma casa que não nos pertence. Ele poderia arrombar a porta, mas prefere bater com a mão, levemente. Ele poderia ordenar que abríssemos a porta para ele; em vez de fazer isso, ele prefere que o convidemos a entrar. Ele não força a entrada na vida de ninguém. Ele diz no versículo 18: “Aconselho-te”. Ele poderia ordenar, mas se contenta em aconselhar. Ele nos trata com condescendência, humildade e liberdade.

Mas por que Jesus Cristo quer entrar? Nós já sabemos a resposta. Ele quer ser nosso Salvador e Senhor.

Ele morreu para nos salvar. Se nós o recebermos, ele irá nos conceder todos os benefícios de sua morte. Uma vez dentro da casa, ele irá reformá-la e mudar a decoração e os móveis. Ou seja, ele irá nos purificar e perdoar; e apagar o nosso passado. Ele promete também que ceará conosco e permitirá que comamos juntos. A frase descreve a alegria de desfrutar da sua companhia. Ele não somente entrega sua vida a nós, como também pede que entreguemos a ele nossas vidas. Nós éramos estrangeiros, agora somos amigos. Havia uma porta fechada entre nós. Agora estamos sentados à mesma mesa.

Jesus Cristo também entrará em nossas vidas como Senhor e Mestre. A casa passará a ser administrada por ele, assim só devemos abrir a porta se estivermos dispostos a deixá-lo tomar conta de tudo. Quando ele se aproximar da soleira, devemos entregar-lhe todas as chaves da casa, permitindo que ele tenha livre acesso a todos os aposentos. Um estudante da quarta série no Canadá, certa vez me escreveu: “Em vez de dar a Cristo várias chaves, uma para cada cômodo da casa, dei a ele uma senha que permite o acesso à casa toda”.

Isso envolve arrependimento, e a firme decisão de abandonar tudo que desagrada a Deus. Isso não significa que precisamos nos tornar pessoas melhores antes de convidá-lo a entrar. Ao contrário, exatamente por não podermos perdoar ou melhorar a nós mesmos é que precisamos que ele venha a nós. Mas devemos estar dispostos a permitir que ele mude o que quiser em nossa casa. Não devemos resistir às mudanças, nem tentar impor condições. Nossa entrega ao senhorio de Cristo deve ser total e incondicional. O que isso representa? Não sei explicar detalhadamente, mas em princípio, significa uma firme decisão de abandonar o pecado e seguir a Cristo.

Você ainda está em dúvida? Acha que não é razoável submeter-se a Cristo no escuro? E certamente não é. Acontece que isso é muito mais razoável que o casamento. No casamento, os cônjuges assumem um compromisso incondicional um com o outro. Eles não sabem o que o futuro lhes reserva. Mas eles se amam e confiam um no outro, por isso, podem assumir o compromisso de amar e cuidar um do outro, “na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza”, até que a morte os separe. Se as pessoas podem confiar umas nas outras, por que não podemos confiar no Filho de Deus? É bem mais razoável assumir um compromisso com Cristo, o Filho de Deus, do que com o mais nobre e admirável ser humano. Cristo nunca irá nos trair ou abusar da nossa confiança.

O que então devemos fazer? Antes de tudo, devemos ouvir a sua voz. É possível fechar os ouvidos para Cristo e ignorar a insistência de seu apelo, mas isso terá trágicas consequências para nós. Algumas vezes ouvimos a sua voz através da nossa própria consciência, outras através de conselhos de outras pessoas. Às vezes em meio a uma derrota moral, ou da sensação de vazio ou de falta de significado de nossa existência. Outras vezes nós a ouvimos por meio de uma inexplicável fome espiritual, ou de uma doença, ou de uma privação, dor ou medo. Seja como for, nós tomamos consciência do fato de que Cristo está lá fora à porta, falando conosco. Ele também pode falar conosco através de um amigo ou pastor ou pelas páginas de um livro. O importante é estar atento para ouvi-la sempre. “Quem tem ouvidos para ouvir”, disse Jesus, “ouça”.

Em seguida, devemos abrir a porta. Tendo ouvido sua voz, devemos atender ao seu chamado. Abrir a porta a Jesus Cristo é um modo figurativo de colocarmos nossa fé nele como nosso Salvador, um ato de submissão a ele como nosso Senhor.

É um ato definitivo. O tempo verbal no grego deixa isso claro. A porta não abre por acaso. Nem está entreaberta. Ela está fechada, e precisa ser aberta. Além disso, Cristo não a abrirá por conta própria. Não há maçaneta na porta no quadro de Holman Hunt. Dizem que ele a omitiu deliberadamente para mostrar que a maçaneta está do lado de dentro. Cristo bate; nós devemos abrir.

É um ato individual. Na verdade, a mensagem foi enviada a uma igreja, a comunidade nominal e morna de Laodicéia. Mas o desafio é para aqueles que estão dentro dela: “Se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele”. Todo ser humano deve decidir por si mesmo e dar esse passo individualmente. Ninguém pode tomar essa decisão por você. Seus pais e professores cristãos, pastores e amigos podem apontar o caminho, mas só a sua mão pode girar a maçaneta.

É um ato único. Você pode dar esse passo apenas uma vez. Depois que Cristo entrar, ele travará a porta do lado de dentro. O pecado poderá empurrá-lo ao porão ou ao sótão, mas ele jamais abandonará a casa onde entrou. “De maneira alguma te deixarei, nunca, jamais te abandonarei”, ele diz. Isso não significa que a partir dessa experiência ganharemos asas de anjo ou nos tornaremos perfeitos num piscar de olhos. Você pode se tornar cristão em poucos minutos, mas se tornar um cristão maduro leva tempo. Cristo pode entrar na sua vida, purificá-la e perdoar você em questão de segundos, mas é necessário muito mais tempo para transformar seu caráter e moldá-lo de acordo com a vontade dele. A cerimônia de casamento necessita apenas de alguns minutos para ser realizada, mas são necessários muitos anos para que os noivos encontrem um caminho comum. Assim também acontece quando recebemos a Cristo, um compromisso firmado em poucos minutos precede uma vida inteira de ajustes.

É um ato deliberado. Você não precisa esperar que uma luz sobrenatural venha do céu e brilhe sobre você, nem ser atingido por uma forte experiência emocional. Não. Cristo veio ao mundo e morreu por seus pecados. Ele agora está na porta da frente da casa de sua vida, e está batendo. A decisão é sua. A mão dele está batendo na porta, cabe a você estender a sua mão em direção ao trinco.

É um ato urgente. Não espere muito para tomar uma decisão. O tempo está passando. O futuro é incerto. Você talvez não tenha outra oportunidade como esta. “Não te glories no dia de amanhã, porque não sabes o que trará à luz”. “Como diz o Espírito Santo: Hoje se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações”. [2]

Não adie a sua decisão por achar que precisa melhorar para ser digno de receber a Cristo, ou resolver todos os seus problemas primeiro. Se você crê que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que ele morreu para ser o seu Salvador, isso é suficiente. O resto virá no devido tempo. Certamente essa é uma decisão que não deve ser tomada de forma precipitada ou temerária; mas adiá-la pode ser perigoso. Se o seu coração está lhe dizendo para abrir a porta agora mesmo, não deixe para depois.

É um ato indispensável. É claro que a vida cristã é muito mais que um ato. Como veremos no próximo capítulo, a vida cristã inclui desfrutar da comunhão com os irmãos, descobrir a vontade de Deus e se dispor a cumpri-la, crescer na graça e no conhecimento de Deus, servir a Deus e aos homens. Tudo começa com esse primeiro passo, e nada poderá ser feito sem ele. Você pode crer em Cristo racionalmente, e admirá-lo como pessoa; pode orar a ele através do buraco da fechadura (eu fiz isso por muitos anos); pode oferecer a ele algumas moedas, passando-as por debaixo da porta, a fim de mantê-lo quieto; pode ter um comportamento correto, decente, justo e bom; pode ser religioso; pode ter sido batizado e crismado; pode ter um profundo conhecimento da filosofia da religião; pode ser um estudante de teologia ou até mesmo pastor de uma igreja – e mesmo assim ainda não ter aberto a porta a Cristo. Não há nada que substitua este ato.

C. S. Lewis, conhecido pensador cristão, descreve em sua autobiografia intitulado “Surpreendido pela Alegria”, uma experiência que lhe aconteceu durante uma viagem de ônibus:

Sem palavras e (eu acho) sem imagens, um fato a meu respeito me foi de algum modo revelado. Eu percebi que havia uma barreira, que eu estava impedindo alguma coisa de entrar. Ou se você preferir, como se eu estivesse vestindo uma roupa apertada, uma espécie de colete ou espartilho, ou mesmo uma armadura. Senti então que eu era livre para decidir por mim mesmo. Eu poderia abrir a porta ou mantê-la fechada. Poderia me livrar da armadura ou continuar dentro dela. Nenhuma das escolhas me foi apresentada como uma obrigação; não havia nenhuma ameaça ou promessa atrelada a qualquer uma delas, mas eu sabia que abrir a porta ou tirar a armadura era uma decisão extremamente importante… Eu escolhi abrir, destravar, soltar as amarras. Eu digo “escolhi”, embora não me parecesse realmente possível fazer o contrário.

Uma senhora distinta atendeu ao convite de Billy Graham para ir à frente ao final de uma campanha evangelística. Ela foi acompanhada por um conselheiro que, percebendo que ela ainda não havia tomado uma decisão por Cristo sugeriu que orassem ali mesmo. Abaixando a cabeça, ela orou: “Querido Senhor Jesus, quero que tu entres em meu coração mais que qualquer outra coisa no mundo. Amém”.

Um jovem estudante ajoelhou-se ao lado de sua cama, num domingo à noite, no dormitório de sua escola. De maneira simples e direta, ele contou a Cristo o quanto sua vida estava confusa, confessou os seus pecados; agradeceu a Cristo por ter morrido por ele e pediu-lhe que entrasse em sua vida. No dia seguinte, escreveu em seu diário:

Ontem foi realmente um dia especial!… Até esse dia Cristo estava na periferia da minha vida; eu pedia a ele para guiar meus passos, mas não lhe dava o controle completo. Então eu percebi que ele estava à porta, e batendo. Eu ouvi e abri a porta. Agora ele está dentro da minha casa. Ele purificou-a e agora reina dentro dela…

E no dia seguinte:

Eu realmente senti uma enorme e nova alegria por todo o dia. Aquela alegria que você sente por estar em paz com o mundo e em contato com Deus. Sei, agora que ele reina sobre mim, que eu nunca o havia conhecido antes…

Estes trechos foram extraídos do meu diário. Achei que devia citá-los porque não quero que você fique com a impressão de que estou lhe dizendo para fazer algo que eu mesmo não tenha feito.

Você é cristão? Um cristão verdadeiro e comprometido? A sua resposta depende de outra pergunta. Não vou perguntar se você vai à igreja, se acredita em Jesus, ou se tem uma vida decente (embora todas essas coisas sejam importantes). Minha pergunta é: de que lado da porta está Jesus Cristo? Do lado de dentro ou do lado de fora? Esta é uma questão fundamental.

Talvez você esteja pronto a abrir a porta para Cristo, talvez tenha dúvidas se já fez isso antes. Se não tem certeza, procure se certificar, nem que você tenha que escrever com tinta o que já escreveu a lápis (como alguém já disse).

Sugiro que você procure um lugar para ficar a sós e orar. Confesse seus pecados a Deus e os abandone. Agradeça a Jesus Cristo por ter morrido por você e em seu lugar. Abra então a porta e peça para ele entrar como seu Salvador e Senhor.

Talvez você queira repetir esta oração em seu coração:

Senhor Jesus Cristo, reconheço que vivi até agora do meu jeito. Pequei em pensamentos, palavras e atos. Peço perdão pelos meus pecados, e deixo-os, arrependido. Creio que tu morreste por mim, levando os meus pecados em teu próprio corpo. Agradeço a ti por teu grande amor.

Agora eu abro a porta e peço que entres. Entre, Senhor Jesus. Entre como meu Salvador, e purifique a minha vida. Entre como meu Senhor e tome o controle da minha vida.

Se você orou com sinceridade, agradeça humildemente a Cristo por ter entrado em seu coração. Ele disse que entraria, pois ele mesmo afirmou: “Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta entrarei em sua casa”. Não leve em conta o que você está sentindo; confie na promessa; e agradeça a ele por manter sua palavra.

Fonte: Cristianismo Básico, pp. 167-179.

 

Ap 3.20. Pv 27.1; Hb 3.7-8.

As Amarras da Liberdade

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Roger E. Olsonroger olson - arminius hoje

 

Há um paradoxo na compreensão cristã do que significa ser livre.

 

Para milhões de pessoas, nenhuma palavra soa tão bem quanto “liberdade”. Nos comerciais de televisão, anuncia-se que a compra de um automóvel ou uma viagem àquele destino paradisíaco trarão a liberdade de que o telespectador tanto precisa. Datas festivas, como a da independência de um país, também são saudadas como símbolos de liberdade, e boa parte dos hinos nacionais a mencionam. Políticos, homens de negócios, publicitários, vendedores, chefes militares – todos sabem como usar essa palavra para chamar a atenção de seus públicos e atrair interesse. Sim, poucas palavras são tão comuns e, ao mesmo tempo, carregam tamanho significado.

 A palavra liberdade também é encontrada diversas vezes nas Escrituras e na tradição cristã. Qualquer crente que conheça minimamente a Bíblia já se deparou com versículos que dizem coisas como “a verdade vos libertará” (Jo 8.32) e que “é para a liberdade que Cristo vos libertou” (Gl 5.1). Logo, liberdade não é um tema apenas patriótico ou humanitário; é, também, um valor presente no Evangelho. Infelizmente, muitas pessoas confundem dois conceitos de liberdade bastante distintos. O conceito bíblico é bem diferente do significado cultural do termo, apesar de serem facilmente confundidos. E nenhum desses é o mesmo que “livre-arbítrio”. Isso pode ser confuso para o cristão comum que deseja saber o que é a verdadeira liberdade. Seria a prerrogativa de ter escolhas? Seria a ausência de limites e restrições? Ou é o poder de fazer o que se deseja? E em que sentido Cristo nos liberta, e em que isso difere daquilo que a mídia, constantemente, nos promete?

 No âmago do Evangelho cristão repousa uma incômoda verdade: a de que, para sermos livres, precisamos abrir mão de tudo o que a cultura secular nos oferece como fonte de liberdade. O Evangelho, ao que parece, requer uma distinção entre o prazer da verdadeira liberdade e a simples posse do chamado livre arbítrio. Não que o livre arbítrio ou a independência da tirania seja algo ruim; apenas, nenhuma dessas coisas representam a verdadeira liberdade. Esta, segundo o Evangelho, se encontra na obediência. E não é exatamente essa a imagem retratada na cultura popular.

 Agostinho, o grande pai da Igreja, ensinava que a liberdade verdadeira não se trata de poder para escolher ou falta de restrições, mas sim, de sermos aquilo que fomos chamados a ser. Os seres humanos foram criados à imagem de Deus; a liberdade verdadeira, portanto, não é encontrada ao nos distanciarmos dessa imagem, e sim, se a vivenciarmos. Quanto mais nos conformamos à imagem de Deus, mais livres nos tornamos – em contrapartida, quanto mais nos distanciamos disso, mais perdemos nossa liberdade.

 De uma perspectiva cristã, então, a liberdade – paradoxalmente – é um tipo de cativeiro. Martinho Lutero foi quem expressou essa verdade da melhor maneira, desde o apóstolo Paulo. Em seu tratado de 1520, A liberdade de um cristão, o reformador sintetizou a ideia em poucas palavras: “O cristão é o senhor mais livre de todos e não está sujeito a ninguém; o cristão é o servo mais obediente, e está sujeito a todos”. Em outras palavras, de acordo com Lutero, por causa do que Cristo fez e por causa de sua fé no Salvador, o cristão se tornou completamente livre da escravidão da lei. Ele não precisa fazer nada. Por outro lado, em gratidão pelo que Jesus fez por ele e nele, o cristão está preso no serviço a Deus e ao próximo. Ele tem a oportunidade de servi-los com alegria e liberdade. Logo, quem não entende o significado dessa oportunidade simplesmente não experimenta a alegria da salvação. Foi isso que Lutero quis dizer.

 

OBEDIÊNCIA E SERVIDÃO

 

Pulando do século 16 para o 20, e de um reformador do magistério para um teólogo anabatista radical, temos John Howard Yoder escrevendo, em A política de Jesus, acerca de “subordinação revolucionária”. Segundo ele, não é possível encontrar a verdadeira liberdade focando em nossos próprios direitos, mas sim, entregando-os livremente, sendo servos de Jesus Cristo e do povo de Deus. Tudo isso, claro, é bastante difícil para ocidentais do século 21 engolirem. Somos herdeiros do Iluminismo, vítimas de uma lavagem cerebral feita pela ênfase da modernidade no individualismo e na liberdade. Somos bombardeados, desde a infância, com a mensagem de que a liberdade significa autoafirmação, reivindicação de nossos direitos, ausência de restrições e senhorio sobre nós mesmos. A maior virtude defendida pela sociedade contemporânea é a de “ser verdadeiro consigo mesmo”. Em outras palavras, é como se cada um dissesse, o tempo todo: “Não me limite!”.

 

Acontece que nenhuma verdade é mais difundida nas Escrituras e na tradição cristã do que a de que a verdadeira liberdade se encontra na obediência e na servidão. E, ao mesmo tempo, nenhuma verdade está mais em desacordo com a cultura moderna. Nesse ponto, nos encontramos diante de duas alternativas: a mensagem do Evangelho a respeito da verdadeira liberdade versus a mensagem cultural da autonomia e do “vivo como quero”. O contraste que há entre a verdade do Evangelho e seu substituto satânico começa a se desenrolar em Gênesis, na história da criação e da queda. De acordo com Gênesis 2, Deus deu liberdade aos primeiros seres humanos: “De toda árvore do jardim comerás livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Condicionados como estamos pela modernidade e sua obsessão por autonomia, nossa primeira reação é o questionamento: “Como isso pode ser liberdade?” – afinal, para nós, liberdade com limitação não é liberdade.

 Sabemos, entretanto, como esse tipo de liberdade foi compreendida por Adão e Eva, assim como por toda a raça humana. Trata-se de uma história de vergonha, alienação, inimizade e morte – em suma, a antítese absoluta da liberdade. Em Paraíso perdido, John Milton parodiou a raiva da humanidade por causa de suas limitações na declaração de Lúcifer: “Melhor reinar no inferno do que servir no céu!”. Fica a questão: Quando Adão e Eva estavam mais livres? No Jardim do Éden, quando podiam comer de todas as árvores, exceto uma? Ou depois, quando perderam o Paraíso e ficaram “livres” para comer de tudo o que quisessem? As implicações do ocorrido no início são inevitáveis: a verdadeira liberdade é encontrada apenas através da obediência a Deus e da comunhão que a acompanha. Já sua perda se dá com a autoafirmação, o desejo idólatra de cada um governar seu “pedacinho de inferno”, em vez de desfrutar das bênçãos do favor de Deus.

 Toda a narrativa bíblica pode ser lida como um drama sobre a liberdade e sua perda através do desejo e da tentativa do ser humano de aproveitar uma autonomia irrestrita. Tome-se como exemplo as frequentes rebeliões de Israel e sua consequente perda de proteção divina; ou a atitude de Davi diante de sua redescoberta da alegria na obediência às leis de Deus; e também os chamados de trombeta dos profetas para que Israel e Judá guardassem a lei do Senhor – e a subsequente perda da liberdade do povo, por ter insistido em fazer as coisas à sua maneira.

 

Em nenhum outro trecho bíblico esse contraditório tema ficou mais claro do que no Novo Testamento. Jesus disse a seus discípulos: “Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á”. E, mais uma vez, ele disse aos que o seguiam: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo” (Mt 20.26-27). É verdade: o apóstolo Paulo falou diversas vezes sobre nossa libertação, em Cristo, de uma obrigação externa, ou seja, da lei. A confiança em Jesus é, de acordo com ele, a única base para um relacionamento correto com Deus. Por outro lado, ao longo de suas epístolas, ele nos aconselha a abrir mão de nossos direitos e liberdades em prol da propagação do Evangelho e da proteção da consciência das outras pessoas. Paulo encontrou a verdadeira liberdade ao abrir mão de seus direitos: “Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais” (1Co 9.19).

 

AMOR SACRIFICIAL

 

O tema da liberdade através da obediência e servidão é tão predominante no Evangelho que é difícil deixá-lo passar despercebido. No entanto, isso, muitas vezes, acontece devido à ênfase dada à autonomia por nossa cultura. Então que tipo de obediência traz a liberdade verdadeira? Em primeiro lugar, e contrariamente à opinião popular, não se trata de uma obediência imposta. Não se trata de obedecer à vontade de Deus porque tememos as consequências da desobediência. A obediência ao Evangelho é sempre voluntária. No momento em que a obediência a Cristo se torna penosa, ou mero conformismo relutante, não é mais a obediência do Evangelho. Somente quando a obediência é prazerosa, resultado de gratidão, ela proporciona liberdade verdadeira, a que vem quando somos aquilo que fomos criados para ser.

 Em segundo lugar, a obediência que traz liberdade verdadeira é motivada pelo amor sacrificial. Yoder descreve profeticamente esse tipo de servidão como “subordinação revolucionária”, onde cada crente busca o bem dos outros sem tentar fazer valer seus próprios direitos. Em uma comunidade onde todos vivem dessa forma, em gratidão a Jesus Cristo, capacitados pelo seu Espírito, a verdadeira liberdade é abundante.

 Então, qual a relação de tudo isso com o conceito de livre arbítrio? Liberdade, então, não significa nada além de livre arbítrio? É claro que não. Se, por “liberdade” queremos dizer a liberdade do Evangelho – na servidão, tornamo-nos aquilo que Deus deseja de nós, na obediência a Cristo e em nossa transformação à sua imagem –, então está claro que estamos falando de algo bem mais profundo que o simples exercício do livre arbítrio. Isso é algo em que arminianos, que creem que o homem é livre para escolher, e calvinistas, que acreditam na escravidão da vontade e soberania absoluta de Deus, poderiam concordar. Os arminianos evangélicos acreditam que a verdadeira liberdade transcende o livre arbítrio, que, nessa análise, seria simplesmente a capacidade dada por Deus para escolhermos a verdadeira liberdade, oferecida pela graça, ou a rejeitarmos devido à nossa obstinação egocêntrica.

 Nem todos os cristãos creem no livre arbítrio. Lutero era um deles. Mas não é essa a questão. Quer alguém creia ou não, a liberdade verdadeira é outra coisa, e não contradiz o livre arbítrio; ela simplesmente o transcende. Todos os cristãos concordam que a autêntica liberdade, aquela que procede da obediência a Cristo e da conformidade à sua imagem, é um dom de Deus que iremos desfrutar plenamente quando formos glorificados com ele. É sobre isso que Paulo fala em Romanos 7: aqui na terra guerreamos entre a “carne” – a natureza caída – e o Espírito, dom de Deus, que habita em nós. Nesse ínterim, enquanto aguardamos nossa plena glorificação, crescemos em liberdade apenas ao trocarmos uma atitude de submissão à lei por um novo coração que se deleita em obedecer a Cristo. Pela graça de Deus, e com a ajuda de seu Espírito, podemos perceber uma liberdade ainda maior do pecado e da morte. Mas a liberdade em sua plenitude só vem após nossa ressurreição.

 Teólogos chamam de “santificação” o processo pelo qual se experimenta gradualmente a autêntica liberdade antes da morte. Há muitas opiniões divergentes a respeito de quão intensa e completa tal liberdade pode ser antes da ressurreição. Todos, porém, concordam que a liberdade verdadeira é um dom que recebemos aos poucos, ao longo da vida. Paulo foi claro em sua carta aos crentes de Filipos: “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”. A salvação, em outras palavras, é tanto dom quanto missão. O “porque” usado por Paulo indica que o dom está na base da missão. Somos chamados, em um exercício de livre arbítrio, a obedecer e servir. Trata-se de uma decisão nossa.

 

GRAÇA x LIVRE ARBÍTRIO

 

Por outro lado, sempre que experimentamos essa liberdade maior que vem da obediência genuína e somos conformados ao caráter de Cristo, nos tornando servos verdadeiros, reconhecemos que é tudo devido à obra de Deus em nós. É esse o paradoxo da graça e do livre arbítrio. A graça de Deus, que deseja nos conceder a liberdade, está presente, desde o momento da nossa conversão. A graça nunca nos falta, nem precisa ser reforçada. Mas pode, no entanto, ser bloqueada por atitudes e hábitos indevidos, ressentimentos e atitudes egoístas. Cabe a nós encontrá-los – com a ajuda do Espírito, é claro – e trabalhá-los através de um processo de arrependimento e submissão. O livre arbítrio, assim, é uma condição necessária a esse processo, mas não o resultado final. Tal processo não leva à autonomia absoluta, mas sim, a uma liberdade crescente do jugo do pecado e da morte. Já estamos livres da lei e da condenação; portanto, a liberdade para nos tornarmos o que Deus planejou é trabalho dele e nosso também – a glória, porém, é toda do Senhor.

 O Evangelho é uma boa nova incondicional. Não precisamos fazer algo ou obedecer a alguém; isso seria horrível. Não; o Evangelho trata-se, de fato, de poder fazer algo, o que é sempre positivo. Trata-se do que podemos ter à medida que permitimos, de bom grado, que Deus, através do seu Espírito, faça sua obra em nós: a certeza da vitória sobre o pecado e a morte. Apenas quando abraçarmos essa vitória – e renunciarmos a todas as reivindicações para governar nossas próprias vidas – é que seremos verdadeiramente livres. 

O que um Deus soberano não pode fazer

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__________________________________________________________________Artigos – Dave Hunt

O Que um Deus Soberano não Pode Fazer  


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Uma das expressões mais comuns que escutamos em círculos cristãos, especialmente quando se quer reassumir a confiança quando as coisas não estão dando certo, é que “Deus esta no controle, Ele ainda está no trono.” Os cristãos se confortam com estas palavras – mas o que elas significam? Deus não estava “no controle” quando Satã rebelou e quando Adão e Eva desobedeceram, mas agora Ele está? Deus estar no controle significa que todos os estupros, assassinatos, guerra e o mal proliferado é exatamente o que Ele planejou e deseja?

Cristo nos pede para orar, “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10). Por que a oração se nós já estamos no reino de Deus com Satã preso, como João Calvino ensinou e os Reconstrucionistas alegam hoje? Poderia um mundo de mal excessivo ser realmente o que Deus deseja? Certamente não!

“Espere um minuto!” alguém se opõe. “Você está sugerindo que nosso Deus onipotente é incapaz de realizar Sua vontade sobre a terra? Que heresia esta! Paulo claramente diz que Deus ‘faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade’ (Ef 1.11).”

Sim. Mas a própria Bíblia contém muitos exemplos de homens desafiando a vontade de Deus e desobedecendo-o. Deus se lamenta, “Criei filhos, e os engrandeci, mas eles se rebelaram contra mim” (Is 1.2). Os sacrifícios que eles oferecem a Ele e suas vidas corruptas não são obviamente de acordo com a Sua vontade. Somos informados de que “os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus” (Lc 7.30).

A declaração de Cristo em Mt 7.21 mostra claramente que todos nem sempre fazemos a vontade de Deus. Isto está implícito em Is 65.12, 1Ts 5.17-19, Hb 10.36, 1Pe 2.15, 1Jo 2.17 e muitas outras passagens. De fato, Ef 1.11 não diz que tudo que acontece é de acordo com a vontade de Deus, mas de acordo com “o conselho” de Sua vontade. Claramente o conselho da vontade de Deus deu ao homem liberdade para desobedecê-lo. Não há nenhuma outra explicação para o pecado.

Todavia, em seu zelo para proteger a soberania de Deus de qualquer desafio, A. W. Pink argumenta ardentemente, “Deus preordena tudo que acontece… Deus inicia todas as coisas, controla todas as coisas…”[1] Edwin H. Palmer concorda: “Deus está por trás de tudo. Ele decide e faz todas as coisas acontecerem… Ele preordenou tudo ‘segundo o conselho de Sua vontade’ (Ef 1.11): o mover de um dedo… o erro de um datilografista – até o pecado.”[2]

Estamos aqui diante de uma distinção vital. Uma coisa é Deus, em Sua soberania e sem diminuir esta soberania, dar ao homem o poder para rebelar contra Ele. Isto abriria a porta para o pecado, sendo o homem unicamente responsável por sua livre escolha. Outra totalmente diferente é Deus controlar tudo de tal maneira que Ele deve efetivamente causar o pecado do homem.

É uma falácia imaginar que, para Deus estar no controle de Seu universo, Ele precisa, por essa razão, preordenar e iniciar tudo. Deste modo, Ele causa o pecado, depois pune o pecador. Para justificar esta opinião, é argumentado que “Deus não tem nenhuma obrigação de conceder Sua graça àqueles que Ele predestina para o julgamento eterno.” De fato, obrigação não tem nenhuma relação com graça.

Na verdade diminui a soberania de Deus sugerir que Ele não pode usar para seus propósitos o que Ele não preordena e origina. Não há razão lógica nem bíblica por que um Deus soberano, por Seu próprio plano soberano, não poderia conceder a criaturas feitas à Sua imagem a liberdade de escolha moral genuína. E há razões convincentes por que Ele faria dessa forma.

Muitas vezes um ateísta (ou um sincero indagador que está perturbado pelo mal e o sofrimento) lança em nossas faces, “Você alega que seu Deus é todo-poderoso. Então por que Ele não interrompe o mal e o sofrimento? Se Ele pode e não faz, Ele é um monstro; se Ele não pode, então Ele não é todo-poderoso!” O ateísta pensa que nos encurralou.

A resposta envolve certas coisas que Deus não pode fazer.

Mas Deus é infinito em poder, então não deve haver nada que Ele não possa fazer! Sério? O próprio fato que Ele é infinito em poder significa que Ele não pode falhar. Há muito mais que seres finitos fazem todo o tempo que o infinito, absolutamente soberano Deus não pode fazer por Ele ser Deus: mentir, trapacear, roubar, pecar, se enganar, etc. De fato, muito mais que Deus não pode fazer é vital para nós entendermos quando enfrentamos desafios de céticos.

Tragicamente, há muitas questões sinceras que muitos cristãos não podem responder. Poucos pais têm tirado um tempo para pensar nos muitos desafios intelectuais e teológicos que suas crianças progressivamente enfrentam, desafios para os quais a juventude de hoje não encontra respostas de tantos púlpitos e lições das escolas dominicais. Como resultado, números crescentes daqueles criados em lares e igrejas evangélicos estão abandonando a “fé” que nunca adequadamente entenderam.

A soberania e o poder é a panacéia? Muitos cristãos superficialmente acham que sim. Todavia há muito para o qual a soberania e o poder são irrelevantes. Deus age não apenas soberanamente, mas com amor, graça, misericórdia, justiça e verdade. Sua soberania é exercitada somente em perfeita harmonia com todos os Seus outros atributos.

Há muito que Deus não pode fazer não apesar do que Ele é, mas por causa de quem Ele é. Até Agostinho, descrito como o primeiro dos assim chamados primeiros Pais da Igreja que “ensinou a absoluta soberania de Deus,”[3]declarou, “Por conseguinte, Ele não pode fazer algumas coisas justamente por ser onipotente.”[4]

Por causa de Sua absoluta santidade, é impossível para Deus praticar o mal, fazer com que outros pratiquem ou até tentar alguém ao mal: “Ninguém, sendo tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele a ninguém tenta,” (Tg 1.13). Mas e quanto às muitas passagens na Escritura onde diz que Deus tentou alguém ou foi tentado? Por exemplo, “Deus tentou a Abraão” (Gn 22.1). A palavra hebraica aí e por todo o Velho Testamento é nacah, que significa testar ou provar, como num teste de pureza de um metal. Não tem nada a ver com tentar para pecar. Deus estava testando a fé e a obediência de Abraão.

Se Deus não pode ser tentado, por que Israel é alertado, “Não tentareis o Senhor vosso Deus” (Dt 6.16)? Somos até informados de que em Massá, ao pedir água, “tentaram ao Senhor, dizendo: Está o Senhor no meio de nós, ou não?” (Êx 17.7). Mais tarde eles “tentaram a Deus nos seus corações, pedindo comida segundo o seu apetite… dizendo: Poderá Deus porventura preparar uma mesa no deserto?… provocaram o Deus Altíssimo” (Sl 78.18-19, 56).

Deus não estava sendo tentado para realizar o mal, Ele estava sendo provocado, Sua paciência estava sendo testada. Ao invés de esperar obedientemente que Ele supra suas necessidades, Seu povo estava pedindo que Ele usasse Seu poder para lhes dar o que queriam para satisfazer seus desejos. A “tentação” de Deus era um desafio blasfemo forçando-o a, ou ceder ao desejo deles, ou puni-los pela rebelião.

Quando Jesus foi “tentado pelo Diabo” para lançar-se do pináculo do templo para provar que os anjos Lhes sustentariam em suas mãos, Ele lembrou, “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Mt 4.1-11). Em outras palavras, colocar-nos deliberadamente em um lugar onde Deus deva agir para nos proteger é tentá-lo.

Tiago então diz, “Cada um, porém, é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.” A tentação ao mal não vem de fora, mas de dentro. O homem que não poderia possivelmente ser “tentado” para ser desonesto nos negócios pode sucumbir à tentação de cometer adultério e, assim, ser desonesto com sua mulher. Dizem que “todo homem tem seu preço.”

Deus não estava tentando Adão e Eva para pecar quando Ele lhes diz para não comerem de uma árvore em particular. Eva foi tentada por sua própria cobiça e desejo egocêntrico. Até na inocência o homem podia ser egoísta e desobediente. Vemos isto em jovens infantes que por enquanto não sabem a diferença entre o certo e o errado.

Além disso, há muitas outras coisas que Deus não pode fazer. Deus não pode negar a Si mesmo ou se contradizer. Ele não pode mudar. Ele não pode voltar atrás em Sua Palavra. Especialmente em relação à humanidade, há algumas coisas que Deus não pode fazer que são muito importantes para entender e explicar aos outros. Um dos conceitos mais fundamentais (e menos entendido pelas pessoas “religiosas”) é este: Ele não pode perdoar o pecado sem a pena ser paga e aceita pelo homem.

Estamos dizendo que apesar de Sua soberania e infinito poder Deus não pode perdoar quem Ele quer, Ele não pode simplesmente apagar o passado deles no registro celestial? Exatamente: Ele não pode, porque Ele é também perfeitamente justo. “Então você está sugerindo,” alguns se queixam, “que Deus quer salvar toda a humanidade, mas falta o poder para fazer isso? É uma negação da onipotência e soberania de Deus se houver algo que Ele deseja, mas não possa realizar.” De fato, onipotência e soberania são irrelevantes em consideração ao perdão.

Cristo no Jardim na noite anterior da cruz gritou, “Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice…” (Mt 26.39). Certamente se tivesse sido possível proporcionar salvação de outra forma, o Pai teria isentado Cristo dos excruciantes sofrimentos físicos da cruz e a agonia espiritual infinita de sofrer a pena que Sua perfeita justiça tinha pronunciada sobre o pecado. Mas até para o Deus onipotente não houve outro jeito. É importante que nós claramente expliquemos esta verdade bíblica e lógica quando apresentamos o evangelho.

Suponha que um juiz tenha diante dele um filho, uma filha ou outra pessoa amada considerada culpada de múltiplos assassinatos pelo júri. Apesar de seu amor, o juiz deve confirmar a pena exigida pela lei. O amor não pode anular a justiça. O único modo que Deus poderia perdoar pecadores e continuar justo seria que Cristo pagasse a pena pelo pecado (Rm 3.21-28).

Há duas outras questões de vital importância em relação à salvação do homem que Deus não pode fazer: ele não pode forçar ninguém a amá-lo; e Ele não pode forçar ninguém a aceitar um presente. Pela própria natureza do amor e da doação, o homem deve ter o poder de escolha. A recepção do amor de Deus e do dom da salvação através de Jesus Cristo pode somente ser por um ato do livre-arbítrio do homem.

Alguns argumentam que se a vontade de Deus fosse que todos os homens fossem salvos, o fato de todos não serem salvos significaria que a vontade de Deus seria frustrada e Sua soberania aniquilada pelos homens. É também argumentado que, se o homem pudesse dizer sim ou não a Cristo, ele teria a palavra final em sua salvação e sua vontade é mais forte do que a vontade de Deus: “A heresia do livre-arbítrio destrona Deus e entroniza o homem.”[5]

Não há nada na Bíblia ou na lógica que sugere que a soberania de Deus requer que o homem seja impotente para fazer uma escolha real, moral ou de qualquer outra maneira.

Dar ao homem o poder para fazer uma escolha genuína, independente, não diminui o controle de Deus sobre Seu universo. Sendo onipotente e onisciente, Deus certamente poderia arranjar as circunstâncias para impedir que a rebelião do homem possa frustrar Seus propósitos. De fato, Deus poderia até usar o livre-arbítrio do homem para ajudar a cumprir Seus próprios planos e por meio disso ser ainda mais glorificado.

O grande plano de Deus desde a fundação do mundo para conceder ao homem o dom de Seu amor impede qualquer faculdade para forçar esse dom sobre qualquer uma de Suas criaturas. Tanto o amor quanto os dons de qualquer espécie devem ser recebidos. A força perverte a transação.

O fato que Deus não pode falhar, mentir, pecar, mudar ou negar a Si mesmo não diminui Sua soberania em qualquer proporção. Nem é Ele menos soberano porque não pode forçar alguém a amá-lo ou a receber o dom da vida eterna por Jesus Cristo. E do lado humano, a limitação reversa prevalece: não há nada que alguém possa fazer para merecer ou ganhar o amor ou um dom. Eles devem ser dados livremente do coração de Deus sem qualquer razão que não seja o amor, a misericórdia e a graça.

Maravilhosamente, em Sua graça soberana, Deus assim constituiu o homem e teve a intenção que o homem recebesse esse dom voluntariamente por um ato de sua vontade e respondesse com amor ao amor de Deus. Alguém uma vez disse, “O livre-arbítrio do homem é a mais maravilhosa das obras do Criador.”[6] O poder de escolha abre a porta para algo maravilhoso além de nossa compreensão: comunhão genuína entre Deus e o homem por toda a eternidade. Sem o livre-arbítrio o homem não poderia receber o dom da vida eterna, por isso Deus não poderia dar este dom a ele.

Pusey aponta que “Sem o livre-arbítrio, o homem seria inferior aos menores animais, que têm uma espécie de liberdade limitada de escolha…. Seria auto-contraditório que o Deus Todo-Poderoso criasse um livre agente capaz de amá-lo, sem também ser capaz de rejeitar Seu amor…. sem o livre-arbítrio não poderíamos livremente amar Deus. Liberdade é uma condição do amor.”[7]

É o poder de escolha genuína do próprio coração e vontade do homem que Deus tem soberanamente dado a ele que possibilita Deus a amar o homem e ao homem receber esse amor e a amar Deus em resposta “porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19). É impossível que o poder de escolha pudesse desafiar a soberania de Deus visto que é a soberania de Deus que conferiu este dom ao homem e as condições para amar e dar.

Sugerir que Deus estaria faltando em “poder” (assim negando Sua soberania) se Ele oferecesse salvação e alguns a rejeitasse é errar o alvo. Poder e amor não são partes da mesma discussão. De fato, das muitas coisas que temos visto que Deus não pode fazer, uma falta de “poder” não é a razão para qualquer uma delas, nem é Sua soberania mitigada de maneira alguma por qualquer uma destas.

Assim, Deus ter dado à humanidade o poder de escolher amá-lo ou não e receber ou rejeitar o dom gratuito da salvação, longe de negar a soberania de Deus, admite o que a própria soberania de Deus amorosa e maravilhosamente proporcionou. Que possamos desejosamente responder de coração a Seu amor com nosso amor, e em gratidão por Seu enorme dom proclamar as boas novas aos outros.

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] Pink, The Sovereignty of God, 240.
[2] Edwin H. Palmer, The Five Points of Calvinism (Baker Books, 1999), 25.
[3] C. Norman Sellers, Election and Perseverance (Schoettle Publishing Co., 1987), 3.
[4] Augustine, The City of God, V. 10.
[5] W.E. Best, Free Grace Versus Free Will (Best Book Missionary Trust, 1977), 35.
[6] Junius B. Reimensnyder, Doom Eternal (N.S. Quiney, 1880), 257; citado em Fisk, Calvinistic Paths Retraced, 223.
[7] Edward B. Pusey, What Is Of Faith As To Everlasting Punishment? (James Parker & Co., 1881), 22-23; citado em Samuel Fisk, Calvinistic Paths Retraced (Biblical Evangelism Press, 1985), 222.

Fonte: Arminianismo.com

O calvinismo Leva ao Universalismo

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– Roger E. Olson

 


Está bem, talvez o Calvinismo não leva ao Universalismo inexoravelmente – como se todo calvinista devesse tornar-se um universalista. Entretanto, muitos teólogos universalistas proeminentes são/eram reformados e criam que seus conceitos calvinistas da soberania de Deus os compeliam finalmente a abraçar o Universalismo.

Dois notáveis exemplos vêm à mente: Friedrich Schleiermacher e Karl Barth. Sim, eu sei que alguns reformados rejeitarão um ou ambos – como não verdadeiramente reformado. Entretanto, alguém não consegue ler The Christian Faith de Schleiermacher e não perceber seus vigorosos princípios calvinistas. Para Schleiermacher Deus é a realidade toda-determinante e é por isso que ele rejeita a oração petitória – porque ela implica que Deus já não sabe o que é melhor. Para Schleiermacher, qualquer coisa que esteja acontecendo, incluindo o pecado e o mal, foi preordenado e tornado certo por Deus.

Schleiermacher abraçou o Universalismo porque ele não conseguia reconciliar o Deus de Jesus Cristo todo-determinante com o inferno. Se Deus é amor e todo-determinante, devemos concluir que há um propósito amoroso para tudo que acontece. Se Deus é o autor do pecado e do mal, então a punição eterna de pecadores no inferno é injusta. Schleiermacher o calvinista percebia a questão claramente e tirou a única conclusão lógica de sua elevada visão do amor e soberania de Deus.

Apesar de todas as suas diferenças de Schleiermacher, Karl Barth seguiu o mesmo caminho básico do Calvinismo ao Universalismo. Eu sei que alguns estudiosos de Barth não creem que ele foi universalista e que ele não adotou esse rótulo. Mas eu creio que o Universalismo está implícito em sua doutrina da eleição na qual se diz que Jesus é o único homem reprovado. Barth notoriamente declarou que nosso “não” a Deus não pode resistir ao “sim” de Deus a nós em Jesus Cristo. Para Barth, Deus é “Aquele que ama em liberdade”. Deus é também todo-determinante em sua soberania. Barth chamava sua soteriologia de “supralapsarianismo purificado” – purificado do inferno, mas todavia supralapsário! Barth percebia corretamente que a lógica interna do Calvinismo deve levar ao Universalismo SE ele levar a sério o amor como natureza de Deus.

A única maneira de um calvinista evitar o Universalismo é transformar Deus em um monstro moral que para sua própria glória condena ao inferno pessoas que ele poderia salvar. Uma vez que você entende, entretanto, que o inferno é totalmente desnecessário porque a cruz foi uma revelação suficiente da justiça de Deus, o inferno torna-se não apenas supérfluo, mas completamente injusto.

Digo algumas vezes que SE eu pudesse ser universalista, eu poderia ser calvinista. Bem, eu ainda teria o problema da responsabilidade humana. Mas meu ponto é que eu não me importo com o livre-arbítrio exceto na medida em que ele é necessário para explicar por que um Deus de amor permite que algumas pessoas pereçam eternamente. Se eu pudesse crer que Deus salva a todos incondicionalmente, que é o que eu penso que Barth cria, eu poderia ser calvinista. Uma razão de não poder ser calvinista é porque ser calvinista exigiria de mim que eu lançasse fora todos os textos bíblicos sobre o inferno porque eu não teria interesse em até mesmo ser cristão se o Deus do Cristianismo fosse um monstro moral.

Fonte: http://www.rogereolson.com/2010/12/10/calvinism-leads-to-universalism/

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Fonte: Arminianismo.com

 

O Deus Esvaziado

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Baseado na Parábola dos Filhos Perdidos

Lc 15.11-32

____________________________________________________________________Ed René Kivitz

Você pode fazer teologia de cima para baixo e de baixo para cima. Caso escolha fazer de cima para baixo, terá a companhia de todos os filósofos, especialmente os gregos, que se fixaram numa idéia de perfeição de Deus, e deram toda ênfase aos atributos incomunicáveis de Deus: onipotência, onisciência e onipresença, por exemplo, (Jó 42.2; Sl 139; Is 43.13; Lc 18.27). Todos os que olham para Deus através desse paradigma imaginam Deus num alto e sublime trono (Is 6.1), habitando em luz inacessível (1Tm 6.16) e, invocado mediante a oração da fé, vem ao mundo fazer coisas boas (milagres) para seus filhos. Não há nada de errado nesta descrição de Deus.

Mas você também pode fazer teologia de baixo para cima. Nesse caso, você deverá deixar de lado aquilo que Deus é em termos de sua perfeita natureza eterna, e focar sua atenção na maneira como Deus escolheu se revelar e se relacionar com as pessoas na história. Seus olhos devem deixar de lado a visão ideal e abstrata da filosofia, e se voltar para Jesus Cristo, suas ações e palavras, que revelam o Pai (Jo 10.30; 14.9).

A Bíblia ensina que Jesus é Deus esvaziado, Deus em forma humana, em forma de servo (Fp 2.5-8). Jesus é Deus conosco, isto é, Deus se revela e se relaciona conosco em Jesus (Jo 1.14, 18; Hb 1.1-3). Em Jesus, Deus está esvaziado, pois sua onipotência foi limitada pela fé dos que a ele se achegavam (Mt 13.53-58), sua onisciência foi limitada pelo Pai (Mt 24.36), e sua onipresença foi limitada pela própria encarnação.

A expressão Deus esvaziado não diz respeito à natureza de Deus. Deus é o mesmo, tanto no alto e sublime trono como encarnado na pessoa de Jesus. Mas a maneira como Deus se relaciona no céu é diferente da maneira como se relaciona na terra. No céu Ele faz tudo quanto lhe agrada e reina soberano. Na terra Ele age em e com as pessoas que atendem seu convite para a comunhão em seu Filho: “venha o teu reino, seja feita a tua vontade assim na terra como no céu” (Sl 115.3, 16; Mt 6.10; 1Co 1.9). Isso fica mais claro quando compreendemos os critérios segundo os quais Deus escolheu se relacionar com seus filhos, conforme Jesus ensina na “parábola dos filhos perdidos” (Lc 15.11-32).

Em primeiro lugar, o Deus esvaziado se relaciona com base no critério da liberdade. O filho mais novo pede a sua parte da herança e vai embora da casa do pai. Naquela época e cultura, o pedido equivaleria a dizer mais ou menos o seguinte: “Pai, tudo o que quero é que o senhor morra. Tudo o que me interessa é seu talão de cheques”. O impressionante é que o pai não faz oposição a esse desejo do filho. O critério é a liberdade: “Você quer ir, meu filho, eu lamento, mas não vou amarrar você ao meu lado, não vou obrigar você a conviver comigo contra a sua vontade. Siga seu caminho”.

O Deus esvaziado não mantém relacionamentos à força, mediante manifestação do seu poder e imposição de sua autoridade soberana. O Deus esvaziado dá um passo atrás, para que você possa exercer sua liberdade de existir com Ele ou contra Ele.

Em segundo lugar, o Deus esvaziado se relaciona com base no critério da interpelação. O filho mais velho se recusa a participar da festa que o pai promove para se alegrar com o retorno do filho mais novo, que estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. O pai vai ao encontro do filho mais velho e o interpela, o confronta e o coloca diante da necessidade de uma decisão. Mas não decide por ele, nem o obriga a se submeter à sua vontade.

O pai não exige obediência dizendo “Enquanto você estiver na minha casa fará as coisas do meu jeito”. O pai confronta o filho e espera tocar sua consciência, para que, semelhantemente ao filho mais novo, ele também “caia em si”, e experimente uma transformação de dentro para fora, de modo que sua submissão à vontade do pai seja um ato voluntário e consciente de ser a melhor escolha.

Deus não é um solucionador de problemas. É um solucionador de pessoas. Deus não prometeu fazer nossa vida melhor. Prometeu nos fazer homens e mulheres melhores: semelhantes ao seu Filho (Rm 8.28-30; 2Co 3.18; Gl 4.19; Ef 4.11-13).

Quem espera uma vida melhor como resultado da intervenção do Deus onipotente, onipresente e onisciente, acaba se frustrando e sucumbindo em culpa e incredulidade. Quem espera ser uma pessoa melhor e andar em comunhão com Deus, numa relação de amor e liberdade, respondendo suas interpelações e desfrutando sua presença e doce companhia é capaz de enfrentar a vida, qualquer que seja ela.

Fonte: Arminianismo.com