Tomando uma Decisão

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John  Stott John_stott

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Muitas pessoas acham estranho que para se tornar um cristão é preciso tomar uma decisão. Algumas, por terem nascido em um país cristão, acham que já são cristãs. “Afinal”, dizem, “já que não somos nem judeus, nem muçulmanos, nem budistas, provavelmente somos cristãos!” Outras supõem que, por terem recebido uma educação cristã, conhecerem os princípios básicos do cristianismo e adotarem um padrão de comportamento cristão, não precisam de mais nada. Porém, seja qual for a sua formação ou herança familiar, todo adulto responsável precisa tomar uma decisão a favor ou contra Cristo. Não podemos permanecer neutros ou indiferentes, nem deixar que outra pessoa decida por nós. Devemos decidir por nós mesmos.

Mesmo o fato de concordar com tudo que foi escrito até aqui não é suficiente. Podemos admitir que as evidências da divindade de Jesus sejam convincentes ou até mesmo conclusivas, e que ele é de fato o Filho de Deus; podemos crer que ele morreu para ser o Salvador do mundo; podemos também admitir nossa condição de pecadores necessitados de um Salvador. Mas nenhuma dessas coisas nos tornam cristãos, nem mesmo todas elas juntas. Crer em certos fatos sobre a pessoa e a obra de Cristo é uma necessidade preliminar, mas a verdadeira fé transformará essa convicção mental em um ato decisivo de confiança. A convicção intelectual deve conduzir ao compromisso pessoal.

Eu mesmo costumava pensar que a morte de Jesus na cruz havia reconciliado o mundo todo, automaticamente, com Deus. Lembro-me como fiquei confuso, ou mesmo indignado, quando ouvi pela primeira vez que eu precisava considerar a salvação individualmente. Agradeço a Deus por ter aberto meus olhos para que eu reconhecesse Jesus como Salvador, e mais do que isso, o aceitasse como meu Salvador. Por certo o pronome pessoal tem proeminência na Bíblia:

O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.

O Senhor é a minha luz e a minha salvação.

Ó Deus, tu és o meu Deus.

Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Um versículo da Bíblia, que tem ajudado muitos (inclusive eu) a entender esse passo de fé que devemos dar, contém as palavras do próprio Cristo. Ele diz: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo”. [1]

Este versículo foi ilustrado por Holman Hunt em seu famoso quadro A Luz do Mundo, pintado em 1853. O original se encontra na capela do Keble College, em Oxford, e a sua réplica (pintada pelo próprio autor 40 anos depois) na Catedral de St. Paul. Não sei se os pré-rafaelitas estão em evidência hoje, mas de qualquer forma o simbolismo dessa pintura é bastante esclarecedor. John Ruskin, em uma carta ao The Times de maio de 1854, usou as seguintes palavras para descrevê-la:

[…] do lado esquerdo da tela podemos ver a porta da alma humana. Ela está trancada; suas dobradiças e pregos estão enferrujados; plantas trepadeiras estão presas e entrelaçadas aos seus umbrais, revelando que nunca foi aberta. Um morcego paira sobre ela. Sua soleira está coberta por amoras silvestres, urtigas e grãos inúteis… Cristo se aproxima dela à noite…

Ele está vestido com um manto real e traz sobre a cabeça uma coroa de espinhos; segura uma lanterna com a mão esquerda (como a luz do mundo) e com a direita bate à porta.

O contexto deste versículo é revelador. Ele se encontra no final de uma carta enviada por Cristo, através de João, à igreja de Laodicéia, situada na atual Turquia. Laodicéia era uma cidade próspera, conhecida por sua produção de roupas, seus prósperos bancos e sua escola de medicina, onde era preparado o famoso pó frígio, um remédio para os olhos.

A prosperidade material havia provocado um relaxamento dos costumes e contaminado até mesmo a igreja cristã. Muitos que se diziam cristãos verdadeiros demonstravam que só tinham o título de cristãos; eram pessoas razoavelmente respeitáveis, nada mais que isso. Seu interesse religioso era superficial e casual. Assim como a água das fontes aquecidas de Hierápolis, que chegava a Laodicéia por um sistema de dutos (as ruínas podem ser vistas até hoje), eles não eram nem frios nem quentes, mas mornos. E por serem mornos, Jesus afirmou que eles lhe causavam aversão. A sua indiferença espiritual é descrita em termos de uma imagem falsa que eles tinham de si mesmos: “Pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”.

Que dura descrição da orgulhosa e próspera Laodicéia! Eles eram miseráveis, cegos e nus – nus apesar de fabricarem roupas; cegos, apesar de seu famoso remédio para os olhos, e miseráveis, apesar de seus prósperos bancos.

Nós não somos diferentes deles. Dizemos muitas vezes, como eles, que “não precisamos de coisa alguma”. Essas palavras são extremamente perigosas. Esse espírito independente, mais do que qualquer outra coisa, é que nos impede de assumir um compromisso com Cristo. É claro que precisamos de Jesus! Sem ele estamos moralmente nus (sem as vestes apropriadas para nos apresentarmos diante de Deus), cegos para as verdades espirituais, e miseráveis, sem nada para oferecer em troca de nossa salvação. Mas Cristo pode vestir-nos com a sua justiça, tocar nossos olhos para que possamos enxergar, e nos tornar ricos com suas riquezas espirituais. Sem ele, e enquanto não abrimos a porta e o convidamos a entrar, somos miseráveis, cegos e nus.

“Eis que estou à porta, e bato”, ele diz. Ele não é uma fantasia da imaginação, ou um personagem fictício tirado de algum romance religioso. Ele é o homem de Nazaré – suas declarações, seu caráter e sua ressurreição são a garantia de que ele é o Filho de Deus. Ele é também o Salvador crucificado. A mão que bate à porta tem uma cicatriz. Os pés que estão próximos à soleira ainda trazem a marca dos pregos.

Ele é o Cristo ressurreto. João descreveu-o no primeiro capítulo do livro de Apocalipse, ao contemplá-lo em uma visão altamente simbólica. Seus olhos são como chamas de fogo e seus pés como o bronze polido. Sua voz como de um trovão e sua face radiante como o sol do meio-dia. Não é de admirar que João tenha caído a seus pés. É difícil compreender como uma pessoa com tamanha majestade tenha se dignado a visitar pobres, cegos e nus como nós.

Jesus Cristo, no entanto, diz que está à porta de nossas vidas, batendo e esperando. Note que ele está à porta, não forçando a entrada; falando conosco, não gritando. Isso é ainda mais extraordinário quando nos lembramos de que a casa em cuja porta ele está batendo pertence a ele. Ele é o arquiteto; foi ele que desenhou o projeto. Ele é o construtor. Ele é também o proprietário; ele a comprou com seu próprio sangue. Assim, ela pertence a ele, por direito. Somos apenas inquilinos em uma casa que não nos pertence. Ele poderia arrombar a porta, mas prefere bater com a mão, levemente. Ele poderia ordenar que abríssemos a porta para ele; em vez de fazer isso, ele prefere que o convidemos a entrar. Ele não força a entrada na vida de ninguém. Ele diz no versículo 18: “Aconselho-te”. Ele poderia ordenar, mas se contenta em aconselhar. Ele nos trata com condescendência, humildade e liberdade.

Mas por que Jesus Cristo quer entrar? Nós já sabemos a resposta. Ele quer ser nosso Salvador e Senhor.

Ele morreu para nos salvar. Se nós o recebermos, ele irá nos conceder todos os benefícios de sua morte. Uma vez dentro da casa, ele irá reformá-la e mudar a decoração e os móveis. Ou seja, ele irá nos purificar e perdoar; e apagar o nosso passado. Ele promete também que ceará conosco e permitirá que comamos juntos. A frase descreve a alegria de desfrutar da sua companhia. Ele não somente entrega sua vida a nós, como também pede que entreguemos a ele nossas vidas. Nós éramos estrangeiros, agora somos amigos. Havia uma porta fechada entre nós. Agora estamos sentados à mesma mesa.

Jesus Cristo também entrará em nossas vidas como Senhor e Mestre. A casa passará a ser administrada por ele, assim só devemos abrir a porta se estivermos dispostos a deixá-lo tomar conta de tudo. Quando ele se aproximar da soleira, devemos entregar-lhe todas as chaves da casa, permitindo que ele tenha livre acesso a todos os aposentos. Um estudante da quarta série no Canadá, certa vez me escreveu: “Em vez de dar a Cristo várias chaves, uma para cada cômodo da casa, dei a ele uma senha que permite o acesso à casa toda”.

Isso envolve arrependimento, e a firme decisão de abandonar tudo que desagrada a Deus. Isso não significa que precisamos nos tornar pessoas melhores antes de convidá-lo a entrar. Ao contrário, exatamente por não podermos perdoar ou melhorar a nós mesmos é que precisamos que ele venha a nós. Mas devemos estar dispostos a permitir que ele mude o que quiser em nossa casa. Não devemos resistir às mudanças, nem tentar impor condições. Nossa entrega ao senhorio de Cristo deve ser total e incondicional. O que isso representa? Não sei explicar detalhadamente, mas em princípio, significa uma firme decisão de abandonar o pecado e seguir a Cristo.

Você ainda está em dúvida? Acha que não é razoável submeter-se a Cristo no escuro? E certamente não é. Acontece que isso é muito mais razoável que o casamento. No casamento, os cônjuges assumem um compromisso incondicional um com o outro. Eles não sabem o que o futuro lhes reserva. Mas eles se amam e confiam um no outro, por isso, podem assumir o compromisso de amar e cuidar um do outro, “na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza”, até que a morte os separe. Se as pessoas podem confiar umas nas outras, por que não podemos confiar no Filho de Deus? É bem mais razoável assumir um compromisso com Cristo, o Filho de Deus, do que com o mais nobre e admirável ser humano. Cristo nunca irá nos trair ou abusar da nossa confiança.

O que então devemos fazer? Antes de tudo, devemos ouvir a sua voz. É possível fechar os ouvidos para Cristo e ignorar a insistência de seu apelo, mas isso terá trágicas consequências para nós. Algumas vezes ouvimos a sua voz através da nossa própria consciência, outras através de conselhos de outras pessoas. Às vezes em meio a uma derrota moral, ou da sensação de vazio ou de falta de significado de nossa existência. Outras vezes nós a ouvimos por meio de uma inexplicável fome espiritual, ou de uma doença, ou de uma privação, dor ou medo. Seja como for, nós tomamos consciência do fato de que Cristo está lá fora à porta, falando conosco. Ele também pode falar conosco através de um amigo ou pastor ou pelas páginas de um livro. O importante é estar atento para ouvi-la sempre. “Quem tem ouvidos para ouvir”, disse Jesus, “ouça”.

Em seguida, devemos abrir a porta. Tendo ouvido sua voz, devemos atender ao seu chamado. Abrir a porta a Jesus Cristo é um modo figurativo de colocarmos nossa fé nele como nosso Salvador, um ato de submissão a ele como nosso Senhor.

É um ato definitivo. O tempo verbal no grego deixa isso claro. A porta não abre por acaso. Nem está entreaberta. Ela está fechada, e precisa ser aberta. Além disso, Cristo não a abrirá por conta própria. Não há maçaneta na porta no quadro de Holman Hunt. Dizem que ele a omitiu deliberadamente para mostrar que a maçaneta está do lado de dentro. Cristo bate; nós devemos abrir.

É um ato individual. Na verdade, a mensagem foi enviada a uma igreja, a comunidade nominal e morna de Laodicéia. Mas o desafio é para aqueles que estão dentro dela: “Se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele”. Todo ser humano deve decidir por si mesmo e dar esse passo individualmente. Ninguém pode tomar essa decisão por você. Seus pais e professores cristãos, pastores e amigos podem apontar o caminho, mas só a sua mão pode girar a maçaneta.

É um ato único. Você pode dar esse passo apenas uma vez. Depois que Cristo entrar, ele travará a porta do lado de dentro. O pecado poderá empurrá-lo ao porão ou ao sótão, mas ele jamais abandonará a casa onde entrou. “De maneira alguma te deixarei, nunca, jamais te abandonarei”, ele diz. Isso não significa que a partir dessa experiência ganharemos asas de anjo ou nos tornaremos perfeitos num piscar de olhos. Você pode se tornar cristão em poucos minutos, mas se tornar um cristão maduro leva tempo. Cristo pode entrar na sua vida, purificá-la e perdoar você em questão de segundos, mas é necessário muito mais tempo para transformar seu caráter e moldá-lo de acordo com a vontade dele. A cerimônia de casamento necessita apenas de alguns minutos para ser realizada, mas são necessários muitos anos para que os noivos encontrem um caminho comum. Assim também acontece quando recebemos a Cristo, um compromisso firmado em poucos minutos precede uma vida inteira de ajustes.

É um ato deliberado. Você não precisa esperar que uma luz sobrenatural venha do céu e brilhe sobre você, nem ser atingido por uma forte experiência emocional. Não. Cristo veio ao mundo e morreu por seus pecados. Ele agora está na porta da frente da casa de sua vida, e está batendo. A decisão é sua. A mão dele está batendo na porta, cabe a você estender a sua mão em direção ao trinco.

É um ato urgente. Não espere muito para tomar uma decisão. O tempo está passando. O futuro é incerto. Você talvez não tenha outra oportunidade como esta. “Não te glories no dia de amanhã, porque não sabes o que trará à luz”. “Como diz o Espírito Santo: Hoje se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações”. [2]

Não adie a sua decisão por achar que precisa melhorar para ser digno de receber a Cristo, ou resolver todos os seus problemas primeiro. Se você crê que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que ele morreu para ser o seu Salvador, isso é suficiente. O resto virá no devido tempo. Certamente essa é uma decisão que não deve ser tomada de forma precipitada ou temerária; mas adiá-la pode ser perigoso. Se o seu coração está lhe dizendo para abrir a porta agora mesmo, não deixe para depois.

É um ato indispensável. É claro que a vida cristã é muito mais que um ato. Como veremos no próximo capítulo, a vida cristã inclui desfrutar da comunhão com os irmãos, descobrir a vontade de Deus e se dispor a cumpri-la, crescer na graça e no conhecimento de Deus, servir a Deus e aos homens. Tudo começa com esse primeiro passo, e nada poderá ser feito sem ele. Você pode crer em Cristo racionalmente, e admirá-lo como pessoa; pode orar a ele através do buraco da fechadura (eu fiz isso por muitos anos); pode oferecer a ele algumas moedas, passando-as por debaixo da porta, a fim de mantê-lo quieto; pode ter um comportamento correto, decente, justo e bom; pode ser religioso; pode ter sido batizado e crismado; pode ter um profundo conhecimento da filosofia da religião; pode ser um estudante de teologia ou até mesmo pastor de uma igreja – e mesmo assim ainda não ter aberto a porta a Cristo. Não há nada que substitua este ato.

C. S. Lewis, conhecido pensador cristão, descreve em sua autobiografia intitulado “Surpreendido pela Alegria”, uma experiência que lhe aconteceu durante uma viagem de ônibus:

Sem palavras e (eu acho) sem imagens, um fato a meu respeito me foi de algum modo revelado. Eu percebi que havia uma barreira, que eu estava impedindo alguma coisa de entrar. Ou se você preferir, como se eu estivesse vestindo uma roupa apertada, uma espécie de colete ou espartilho, ou mesmo uma armadura. Senti então que eu era livre para decidir por mim mesmo. Eu poderia abrir a porta ou mantê-la fechada. Poderia me livrar da armadura ou continuar dentro dela. Nenhuma das escolhas me foi apresentada como uma obrigação; não havia nenhuma ameaça ou promessa atrelada a qualquer uma delas, mas eu sabia que abrir a porta ou tirar a armadura era uma decisão extremamente importante… Eu escolhi abrir, destravar, soltar as amarras. Eu digo “escolhi”, embora não me parecesse realmente possível fazer o contrário.

Uma senhora distinta atendeu ao convite de Billy Graham para ir à frente ao final de uma campanha evangelística. Ela foi acompanhada por um conselheiro que, percebendo que ela ainda não havia tomado uma decisão por Cristo sugeriu que orassem ali mesmo. Abaixando a cabeça, ela orou: “Querido Senhor Jesus, quero que tu entres em meu coração mais que qualquer outra coisa no mundo. Amém”.

Um jovem estudante ajoelhou-se ao lado de sua cama, num domingo à noite, no dormitório de sua escola. De maneira simples e direta, ele contou a Cristo o quanto sua vida estava confusa, confessou os seus pecados; agradeceu a Cristo por ter morrido por ele e pediu-lhe que entrasse em sua vida. No dia seguinte, escreveu em seu diário:

Ontem foi realmente um dia especial!… Até esse dia Cristo estava na periferia da minha vida; eu pedia a ele para guiar meus passos, mas não lhe dava o controle completo. Então eu percebi que ele estava à porta, e batendo. Eu ouvi e abri a porta. Agora ele está dentro da minha casa. Ele purificou-a e agora reina dentro dela…

E no dia seguinte:

Eu realmente senti uma enorme e nova alegria por todo o dia. Aquela alegria que você sente por estar em paz com o mundo e em contato com Deus. Sei, agora que ele reina sobre mim, que eu nunca o havia conhecido antes…

Estes trechos foram extraídos do meu diário. Achei que devia citá-los porque não quero que você fique com a impressão de que estou lhe dizendo para fazer algo que eu mesmo não tenha feito.

Você é cristão? Um cristão verdadeiro e comprometido? A sua resposta depende de outra pergunta. Não vou perguntar se você vai à igreja, se acredita em Jesus, ou se tem uma vida decente (embora todas essas coisas sejam importantes). Minha pergunta é: de que lado da porta está Jesus Cristo? Do lado de dentro ou do lado de fora? Esta é uma questão fundamental.

Talvez você esteja pronto a abrir a porta para Cristo, talvez tenha dúvidas se já fez isso antes. Se não tem certeza, procure se certificar, nem que você tenha que escrever com tinta o que já escreveu a lápis (como alguém já disse).

Sugiro que você procure um lugar para ficar a sós e orar. Confesse seus pecados a Deus e os abandone. Agradeça a Jesus Cristo por ter morrido por você e em seu lugar. Abra então a porta e peça para ele entrar como seu Salvador e Senhor.

Talvez você queira repetir esta oração em seu coração:

Senhor Jesus Cristo, reconheço que vivi até agora do meu jeito. Pequei em pensamentos, palavras e atos. Peço perdão pelos meus pecados, e deixo-os, arrependido. Creio que tu morreste por mim, levando os meus pecados em teu próprio corpo. Agradeço a ti por teu grande amor.

Agora eu abro a porta e peço que entres. Entre, Senhor Jesus. Entre como meu Salvador, e purifique a minha vida. Entre como meu Senhor e tome o controle da minha vida.

Se você orou com sinceridade, agradeça humildemente a Cristo por ter entrado em seu coração. Ele disse que entraria, pois ele mesmo afirmou: “Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta entrarei em sua casa”. Não leve em conta o que você está sentindo; confie na promessa; e agradeça a ele por manter sua palavra.

Fonte: Cristianismo Básico, pp. 167-179.

 

Ap 3.20. Pv 27.1; Hb 3.7-8.

As Amarras da Liberdade

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Roger E. Olsonroger olson - arminius hoje

 

Há um paradoxo na compreensão cristã do que significa ser livre.

 

Para milhões de pessoas, nenhuma palavra soa tão bem quanto “liberdade”. Nos comerciais de televisão, anuncia-se que a compra de um automóvel ou uma viagem àquele destino paradisíaco trarão a liberdade de que o telespectador tanto precisa. Datas festivas, como a da independência de um país, também são saudadas como símbolos de liberdade, e boa parte dos hinos nacionais a mencionam. Políticos, homens de negócios, publicitários, vendedores, chefes militares – todos sabem como usar essa palavra para chamar a atenção de seus públicos e atrair interesse. Sim, poucas palavras são tão comuns e, ao mesmo tempo, carregam tamanho significado.

 A palavra liberdade também é encontrada diversas vezes nas Escrituras e na tradição cristã. Qualquer crente que conheça minimamente a Bíblia já se deparou com versículos que dizem coisas como “a verdade vos libertará” (Jo 8.32) e que “é para a liberdade que Cristo vos libertou” (Gl 5.1). Logo, liberdade não é um tema apenas patriótico ou humanitário; é, também, um valor presente no Evangelho. Infelizmente, muitas pessoas confundem dois conceitos de liberdade bastante distintos. O conceito bíblico é bem diferente do significado cultural do termo, apesar de serem facilmente confundidos. E nenhum desses é o mesmo que “livre-arbítrio”. Isso pode ser confuso para o cristão comum que deseja saber o que é a verdadeira liberdade. Seria a prerrogativa de ter escolhas? Seria a ausência de limites e restrições? Ou é o poder de fazer o que se deseja? E em que sentido Cristo nos liberta, e em que isso difere daquilo que a mídia, constantemente, nos promete?

 No âmago do Evangelho cristão repousa uma incômoda verdade: a de que, para sermos livres, precisamos abrir mão de tudo o que a cultura secular nos oferece como fonte de liberdade. O Evangelho, ao que parece, requer uma distinção entre o prazer da verdadeira liberdade e a simples posse do chamado livre arbítrio. Não que o livre arbítrio ou a independência da tirania seja algo ruim; apenas, nenhuma dessas coisas representam a verdadeira liberdade. Esta, segundo o Evangelho, se encontra na obediência. E não é exatamente essa a imagem retratada na cultura popular.

 Agostinho, o grande pai da Igreja, ensinava que a liberdade verdadeira não se trata de poder para escolher ou falta de restrições, mas sim, de sermos aquilo que fomos chamados a ser. Os seres humanos foram criados à imagem de Deus; a liberdade verdadeira, portanto, não é encontrada ao nos distanciarmos dessa imagem, e sim, se a vivenciarmos. Quanto mais nos conformamos à imagem de Deus, mais livres nos tornamos – em contrapartida, quanto mais nos distanciamos disso, mais perdemos nossa liberdade.

 De uma perspectiva cristã, então, a liberdade – paradoxalmente – é um tipo de cativeiro. Martinho Lutero foi quem expressou essa verdade da melhor maneira, desde o apóstolo Paulo. Em seu tratado de 1520, A liberdade de um cristão, o reformador sintetizou a ideia em poucas palavras: “O cristão é o senhor mais livre de todos e não está sujeito a ninguém; o cristão é o servo mais obediente, e está sujeito a todos”. Em outras palavras, de acordo com Lutero, por causa do que Cristo fez e por causa de sua fé no Salvador, o cristão se tornou completamente livre da escravidão da lei. Ele não precisa fazer nada. Por outro lado, em gratidão pelo que Jesus fez por ele e nele, o cristão está preso no serviço a Deus e ao próximo. Ele tem a oportunidade de servi-los com alegria e liberdade. Logo, quem não entende o significado dessa oportunidade simplesmente não experimenta a alegria da salvação. Foi isso que Lutero quis dizer.

 

OBEDIÊNCIA E SERVIDÃO

 

Pulando do século 16 para o 20, e de um reformador do magistério para um teólogo anabatista radical, temos John Howard Yoder escrevendo, em A política de Jesus, acerca de “subordinação revolucionária”. Segundo ele, não é possível encontrar a verdadeira liberdade focando em nossos próprios direitos, mas sim, entregando-os livremente, sendo servos de Jesus Cristo e do povo de Deus. Tudo isso, claro, é bastante difícil para ocidentais do século 21 engolirem. Somos herdeiros do Iluminismo, vítimas de uma lavagem cerebral feita pela ênfase da modernidade no individualismo e na liberdade. Somos bombardeados, desde a infância, com a mensagem de que a liberdade significa autoafirmação, reivindicação de nossos direitos, ausência de restrições e senhorio sobre nós mesmos. A maior virtude defendida pela sociedade contemporânea é a de “ser verdadeiro consigo mesmo”. Em outras palavras, é como se cada um dissesse, o tempo todo: “Não me limite!”.

 

Acontece que nenhuma verdade é mais difundida nas Escrituras e na tradição cristã do que a de que a verdadeira liberdade se encontra na obediência e na servidão. E, ao mesmo tempo, nenhuma verdade está mais em desacordo com a cultura moderna. Nesse ponto, nos encontramos diante de duas alternativas: a mensagem do Evangelho a respeito da verdadeira liberdade versus a mensagem cultural da autonomia e do “vivo como quero”. O contraste que há entre a verdade do Evangelho e seu substituto satânico começa a se desenrolar em Gênesis, na história da criação e da queda. De acordo com Gênesis 2, Deus deu liberdade aos primeiros seres humanos: “De toda árvore do jardim comerás livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Condicionados como estamos pela modernidade e sua obsessão por autonomia, nossa primeira reação é o questionamento: “Como isso pode ser liberdade?” – afinal, para nós, liberdade com limitação não é liberdade.

 Sabemos, entretanto, como esse tipo de liberdade foi compreendida por Adão e Eva, assim como por toda a raça humana. Trata-se de uma história de vergonha, alienação, inimizade e morte – em suma, a antítese absoluta da liberdade. Em Paraíso perdido, John Milton parodiou a raiva da humanidade por causa de suas limitações na declaração de Lúcifer: “Melhor reinar no inferno do que servir no céu!”. Fica a questão: Quando Adão e Eva estavam mais livres? No Jardim do Éden, quando podiam comer de todas as árvores, exceto uma? Ou depois, quando perderam o Paraíso e ficaram “livres” para comer de tudo o que quisessem? As implicações do ocorrido no início são inevitáveis: a verdadeira liberdade é encontrada apenas através da obediência a Deus e da comunhão que a acompanha. Já sua perda se dá com a autoafirmação, o desejo idólatra de cada um governar seu “pedacinho de inferno”, em vez de desfrutar das bênçãos do favor de Deus.

 Toda a narrativa bíblica pode ser lida como um drama sobre a liberdade e sua perda através do desejo e da tentativa do ser humano de aproveitar uma autonomia irrestrita. Tome-se como exemplo as frequentes rebeliões de Israel e sua consequente perda de proteção divina; ou a atitude de Davi diante de sua redescoberta da alegria na obediência às leis de Deus; e também os chamados de trombeta dos profetas para que Israel e Judá guardassem a lei do Senhor – e a subsequente perda da liberdade do povo, por ter insistido em fazer as coisas à sua maneira.

 

Em nenhum outro trecho bíblico esse contraditório tema ficou mais claro do que no Novo Testamento. Jesus disse a seus discípulos: “Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á”. E, mais uma vez, ele disse aos que o seguiam: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo” (Mt 20.26-27). É verdade: o apóstolo Paulo falou diversas vezes sobre nossa libertação, em Cristo, de uma obrigação externa, ou seja, da lei. A confiança em Jesus é, de acordo com ele, a única base para um relacionamento correto com Deus. Por outro lado, ao longo de suas epístolas, ele nos aconselha a abrir mão de nossos direitos e liberdades em prol da propagação do Evangelho e da proteção da consciência das outras pessoas. Paulo encontrou a verdadeira liberdade ao abrir mão de seus direitos: “Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais” (1Co 9.19).

 

AMOR SACRIFICIAL

 

O tema da liberdade através da obediência e servidão é tão predominante no Evangelho que é difícil deixá-lo passar despercebido. No entanto, isso, muitas vezes, acontece devido à ênfase dada à autonomia por nossa cultura. Então que tipo de obediência traz a liberdade verdadeira? Em primeiro lugar, e contrariamente à opinião popular, não se trata de uma obediência imposta. Não se trata de obedecer à vontade de Deus porque tememos as consequências da desobediência. A obediência ao Evangelho é sempre voluntária. No momento em que a obediência a Cristo se torna penosa, ou mero conformismo relutante, não é mais a obediência do Evangelho. Somente quando a obediência é prazerosa, resultado de gratidão, ela proporciona liberdade verdadeira, a que vem quando somos aquilo que fomos criados para ser.

 Em segundo lugar, a obediência que traz liberdade verdadeira é motivada pelo amor sacrificial. Yoder descreve profeticamente esse tipo de servidão como “subordinação revolucionária”, onde cada crente busca o bem dos outros sem tentar fazer valer seus próprios direitos. Em uma comunidade onde todos vivem dessa forma, em gratidão a Jesus Cristo, capacitados pelo seu Espírito, a verdadeira liberdade é abundante.

 Então, qual a relação de tudo isso com o conceito de livre arbítrio? Liberdade, então, não significa nada além de livre arbítrio? É claro que não. Se, por “liberdade” queremos dizer a liberdade do Evangelho – na servidão, tornamo-nos aquilo que Deus deseja de nós, na obediência a Cristo e em nossa transformação à sua imagem –, então está claro que estamos falando de algo bem mais profundo que o simples exercício do livre arbítrio. Isso é algo em que arminianos, que creem que o homem é livre para escolher, e calvinistas, que acreditam na escravidão da vontade e soberania absoluta de Deus, poderiam concordar. Os arminianos evangélicos acreditam que a verdadeira liberdade transcende o livre arbítrio, que, nessa análise, seria simplesmente a capacidade dada por Deus para escolhermos a verdadeira liberdade, oferecida pela graça, ou a rejeitarmos devido à nossa obstinação egocêntrica.

 Nem todos os cristãos creem no livre arbítrio. Lutero era um deles. Mas não é essa a questão. Quer alguém creia ou não, a liberdade verdadeira é outra coisa, e não contradiz o livre arbítrio; ela simplesmente o transcende. Todos os cristãos concordam que a autêntica liberdade, aquela que procede da obediência a Cristo e da conformidade à sua imagem, é um dom de Deus que iremos desfrutar plenamente quando formos glorificados com ele. É sobre isso que Paulo fala em Romanos 7: aqui na terra guerreamos entre a “carne” – a natureza caída – e o Espírito, dom de Deus, que habita em nós. Nesse ínterim, enquanto aguardamos nossa plena glorificação, crescemos em liberdade apenas ao trocarmos uma atitude de submissão à lei por um novo coração que se deleita em obedecer a Cristo. Pela graça de Deus, e com a ajuda de seu Espírito, podemos perceber uma liberdade ainda maior do pecado e da morte. Mas a liberdade em sua plenitude só vem após nossa ressurreição.

 Teólogos chamam de “santificação” o processo pelo qual se experimenta gradualmente a autêntica liberdade antes da morte. Há muitas opiniões divergentes a respeito de quão intensa e completa tal liberdade pode ser antes da ressurreição. Todos, porém, concordam que a liberdade verdadeira é um dom que recebemos aos poucos, ao longo da vida. Paulo foi claro em sua carta aos crentes de Filipos: “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”. A salvação, em outras palavras, é tanto dom quanto missão. O “porque” usado por Paulo indica que o dom está na base da missão. Somos chamados, em um exercício de livre arbítrio, a obedecer e servir. Trata-se de uma decisão nossa.

 

GRAÇA x LIVRE ARBÍTRIO

 

Por outro lado, sempre que experimentamos essa liberdade maior que vem da obediência genuína e somos conformados ao caráter de Cristo, nos tornando servos verdadeiros, reconhecemos que é tudo devido à obra de Deus em nós. É esse o paradoxo da graça e do livre arbítrio. A graça de Deus, que deseja nos conceder a liberdade, está presente, desde o momento da nossa conversão. A graça nunca nos falta, nem precisa ser reforçada. Mas pode, no entanto, ser bloqueada por atitudes e hábitos indevidos, ressentimentos e atitudes egoístas. Cabe a nós encontrá-los – com a ajuda do Espírito, é claro – e trabalhá-los através de um processo de arrependimento e submissão. O livre arbítrio, assim, é uma condição necessária a esse processo, mas não o resultado final. Tal processo não leva à autonomia absoluta, mas sim, a uma liberdade crescente do jugo do pecado e da morte. Já estamos livres da lei e da condenação; portanto, a liberdade para nos tornarmos o que Deus planejou é trabalho dele e nosso também – a glória, porém, é toda do Senhor.

 O Evangelho é uma boa nova incondicional. Não precisamos fazer algo ou obedecer a alguém; isso seria horrível. Não; o Evangelho trata-se, de fato, de poder fazer algo, o que é sempre positivo. Trata-se do que podemos ter à medida que permitimos, de bom grado, que Deus, através do seu Espírito, faça sua obra em nós: a certeza da vitória sobre o pecado e a morte. Apenas quando abraçarmos essa vitória – e renunciarmos a todas as reivindicações para governar nossas próprias vidas – é que seremos verdadeiramente livres. 

A Fé de Abraão e a Maldição da Lei – Gl 3.6-14

1 Comentário

Craig S. Keener

 

 Paulo faz cinco referências à lei de Moisés e uma aos profetas, formando um argumento com base na Escritura, de modo que aqueles que afirmavam respeitar a Lei tinham que aceitá-lo. Ele faz uma comparação entre a fé (3.6-9; 14) e as obras resultantes da prática da Lei (3.10-13), da mesma forma que em 3.5. Há duas interpretações principais para esta passagem: a primeira é de que os cristãos gentios criam como Abraão (a posição tradicional, seguida aqui) e a segunda, de que eles seriam salvos pela fé de Abraão (como no judaísmo), e consequentemente pela fé em Cristo, ou seja, pela fidelidade de Abraão e de Cristo à aliança.

 3.6. Paulo cita Gênesis 15.6, um texto bastante conhecido no judaísmo, para demonstrar como Abraão era um exemplo de fé. Paulo apresenta uma interpretação diferente daquela aceita pela tradição judaica.

 3.7. O povo judeu empregava a palavra “filhos” tanto no sentido literal (descendentes biológicos) como no sentido espiritual (os que se conduziam de acordo com os ensinamentos de seus antigos mestres). O título “descendência de Abraão” (ou “filhos de Abraão”) era geralmente aplicado ao povo judeu, mas algumas vezes referia-se especificamente àqueles que excediam em justiça – se bem que o povo judeu nunca aplicasse esta designação aos gentios. Paulo demonstra aqui que aqueles que criam como Abraão eram seus descendentes espirituais (Gn 15.6, citado em Gl 3.6).

 3.8, 9. Se os gentios podiam crer como Abraão (3.7), eles também poderiam ser justificados da mesma maneira como ele foi justificado. (Os mestres judeus consideravam Abraão um exemplo de conversão ao judaísmo, portanto seriam forçados a respeitar os argumentos de Paulo mais do que gostariam). Como bom expositor judeu, Paulo prova sua argumentação nesta passagem referindo-se a outro texto relacionado à promessa feita a Abraão (Gn 12.3 = 18.18; cf. 17.4, 5; 22.18). O propósito de Deus, desde o princípio, era alcançar também os gentios, como já havia sido predeterminado no início da narrativa de Abraão. No modo de pensar judaico, os justos (Israel) eram salvos em Abraão; Paulo afirma aqui que os cristãos gentios são salvos (abençoados) junto com Abraão.

 3.10. Tanto Gênesis 12.3 como as bênçãos da obediência encontradas em Deuteronômio 28 estabelecem um contraste entre as maldições recebidas por aqueles que se opõem a Abraão ou quebram a aliança e as bênçãos recebidas pelos descendentes de Abraão ou por aqueles que guardam a aliança. O raciocínio dos adversários segue o padrão normal de interpretação judaica. Paulo desta maneira apresenta seu veredicto sobre a justificação baseada nas “obras da Lei” (ARA) ou na “prática da Lei” (NVI): obediência parcial resulta em maldição (Dt 27.26, a síntese das maldições). De acordo com o ensino judaico, a obediência humana foi sempre incompleta, e Deus poderia, portanto não exigir uma obediência completa como condição para a salvação; mas como bom rabino, Paulo interpreta Deuteronômio 27.26 de maneira a obter tudo que está contido neste texto – afinal, Deus estava em posição de exigir perfeição.

 3.11. Paulo cita Habacuque 2.4 (ver comentário em Rm 1.17) para provar que a justificação baseada apenas na obediência humana é inadequada. Paulo demonstra conhecer profundamente o Antigo Testamento ao selecionar os dois únicos textos ali presentes que tratam tanto da justificação como da fé: Gn 15.6 (citado em 3.6) e Hc 2.4 (citado aqui).

 3.12. Como Habacuque 2.4 estabelece o vínculo entre justificação e vida, Paulo cita outro texto do Antigo Testamento relacionado a ambas, novamente demonstrando sua destreza na exegese judaica (os mestres judeus normalmente relacionavam os textos com base nas palavras-chave encontradas neles). Paulo apresenta o contraste entre o método baseado na fé (3.11) e o método firmado nas obras, apresentado em Levítico 18.5 (ver Êx 20.12, 20; Lv 25.18; Dt 4.1, 40; 5.33; 8.1; 30.16, 20; 32.47; Ne 9.29; Ez 20.11, 13; 33.19). Embora estes textos do Antigo Testamento prometam uma vida longa na terra prometida, Paulo sabia que muitos mestres judeus aplicavam estes textos à vida futura, por isso ele responde: “Este é o método baseado nas obras”. Os adversários de Paulo talvez tenham usado este texto para firmar seus argumentos de que só a fé não era suficiente. Paulo concorda que a justiça baseada na lei tem que ser cumprida, mas ele crê que essa justiça é cumprida em Cristo e pelo viver através de seu Espírito (5.16-25); já seus adversários acreditavam que o gentio seria justificado obedecendo aos pormenores da lei, especialmente o ato inicial da circuncisão.

 3.13. Paulo novamente emprega o recurso de ligar os textos do Antigo Testamento de acordo com as palavras-chave que têm em comum e cita Deuteronômio 21.23 para mostrar que Cristo se tornou “maldição” no lugar de todos os que deixaram de cumprir integralmente a Lei (Gl 3.10).

 3.14. Na perspectiva judaica “a bênção de Abraão” incluía o mundo inteiro por vir; Paulo aqui diz que os crentes se livraram da maldição deste mundo (Ef 1.3, 13, 14) pela bênção do Espírito (Is 44.3). (Sobre esta relação entre a promessa da terra e a promessa do Espírito, compare também Ag 2.5 com Êx 12.25; 13.5.).

 Fonte: Comentário Bíblico Atos: Novo Testamento, 544-546.

Fonte: Site Arminianismo

João 5.21

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William W. Klein

 

Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer. Jo 5.21

 

Na defesa de seu relacionamento especial com Deus, Jesus afirma que, como o Pai, o Filho dá vida àquele quequer dá-la. É a vontade de Jesus que determina quem são os recebedores da vida. Esta é uma afirmação da eleição específica: a vontade de Jesus determina exatamente aqueles que ele irá salvar? Calvino está correto quando diz deste versículo, “Ele quer dizer que Ele especialmente favorece somente certos homens, os eleitos, com esta graça”?[1]

 

Talvez devêssemos estabelecer primeiramente que “vida” aqui deve fazer referência à vida eterna ou salvação. O uso do substantivo zoe (vida) no quarto evangelho deixa isso claro (p. ex., Jo 3.15-16, 36; 4.14, 36; 5.24, 29, 39-40; 6.40, 54, 68; 10.28; 11.25). Aqui João usa um composto, zoopoieo, “dar vida”. Não deve haver dúvida que o Pai e o Filho dão a vida eterna. [2] Podemos determinar deste contexto algum esclarecimento da vontade de Jesus – a quem ele deseja dar a salvação? É sua escolha soberana que está em vista aqui?

 

O contexto deixa abundantemente claro qual é o critério para obter a vida ou a salvação. Deve-se “honrar o Filho” (5.23), exatamente o que os judeus não estavam fazendo (5.16-18). Deve-se aceitar o testemunho de João a respeito de Jesus “para que vos salveis” (5.32-34). O testemunho de João a respeito de Jesus é indicado, resumidamente, nas palavras “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (1.29), ou em sua afirmação “Eu vi, e tenho testificado que este é o Filho de Deus” (1.34). “Quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna,” disse Jesus (5.24). Deve-se crer em Jesus (5.38) e vir a ele a fim de obter vida (5.40). Fé em Jesus (5.46) é a explicação.

 

O modo de obter vida é fé em Jesus. Jesus deixa isto claro nesta passagem (e em outras). A afirmação em 5.21, então, não pode significar que Jesus tem alguma vontade secreta, e dá vida somente a algum grupo seleto que ele escolheu. Jesus quer dar vida àqueles que creem nele. Neste confronto com os judeus, Jesus afirma que a vida está disponível somente nos termos do Pai e nos dele. E esse modo é através do Filho. Jesus quer dar vida somente aos crentes nele. [3] O Filho não seleciona arbitrariamente alguns a quem dar vida. O quarto evangelho dá testemunho consistente de que ele dá vida àqueles que creem (3.16, 18, 36; 4.42, 53; 6.40, 47, e outros). [4]

 

Fonte: The New Chosen People, pp. 137, 138

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] Calvino, The Gospel According to St. John, 1-10, 127.

[2] O verbo zoopoieo ocorre somente em outra passagem em Jo, 6.63, onde o Espírito dá vida. Salvação é claramente a questão aqui. Fora de João, ele ocorre em Rm 4.17; 8.11; 1co 15.22, 36, 45; 2Co 3.6; Gl 3.21; e 1Pe 3.18, com vários sentidos.

[3] É interessante que vários manuscritos siríacos antigos na verdade deixam esta interpretação explícita. Eles versam, “… o Filho dá vida àqueles que creem nele” (syrs e syrc). Claramente, esta leitura não é original, mas ela aponta para o correto entendimento do versículo.

[4] Bultmann concorda que não há sentido eletivo em thelei aqui. Antes, ele mostra que Jesus age intencionalmente; “pretende-se salientar a congruência de seu propósito e suas ações” (Bultmann, The Gospel of John. A Commentary, 256). Schnackenburg diz, “A adição de hous thelei, “àqueles que quer”… não implica arbitrariedade mas autoridade, visto que o Filho somente executa a vontade do Pai, que deseja dar a vida eterna a todos que creem no Filho” (The Gospel According to St. John, 2:106; ênfase adicionada).

O Reino de Deus à Luz das Parábolas de Jesus Um Estudo de Mateus 13.24-50

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Antonio Lazarini Neto

Introdução

Estudar o conceito do Reino de Deus no Novo Testamento constitui-se um grande desafio para os teólogos há gerações. Existe uma tensão evidente nos textos neotestamentários entre o presente e o futuro quando se refere ao reino de Deus.

Em alguns casos, o leitor tem a convicção de que o reino se estabelece no “presente”, enquanto em outros o estabelecimento do reino num tempo “futuro” e indeterminado parece ser mais razoável.

Quem quer aventurar-se a compreender a ideia do Reino de Deus precisará primeiramente aprender a lidar com a noção de tempo do reino. É o que estou chamando aqui de “agora” e “ainda não”, ou seja, agora Deus pode ser o rei sobre aqueles que são obedientes à sua voz, mas ainda não o é sobre todo o mundo. C. H. Dodd diz que Deus é rei de seu povo Israel, e sua autoridade real é efetiva na medida em que Israel é obediente à vontade divina revelada na Torah. [1] Jesus, em Lucas 11.20 e Mateus 12.28, diz que “se expulso demônios pelo Espírito de Deus, é chegado a vós o reino de Deus”. O poder e autoridade sobre os demônios, no ministério de Jesus, era o sinal de que o reino de Deus, de certa forma especial, estava presente. [2] Joachim Jeremias lembra que à pergunta por que os seus discípulos não jejuam, Jesus responde: “Porventura podem os convidados das bodas jejuar enquanto está com eles o noivo?” (Mc 2.19; Mt 9.15 e Lc 5.34). As bodas são, na linguagem figurada do Oriente, imagem do tempo da salvação. [3] Neste sentido, o reino de Deus é um fato presente. Mas, num outro sentido, o reino ainda não chegou, é algo que ainda está por revelar-se. Todos os valores do reino ainda não estão implantados. Assim, o reino também é eschaton, é futuro e final. [4]Miranda propõe que o reino deve ser considerado como a consumação ou a realização do plano ou propósito de Deus. Em vez de o reino vir no fim, deve-se dizer que o reino é o fim, ou que ele põe fim àquilo que não condiz com a vontade de Deus, como se fosse à manifestação final de Deus na qual ele transforma e renova sua obra de forma definitiva, levando-a a perfeição. [5] Neste sentido, o reino de Deus é uma esperança para o futuro, é profético e apocalíptico.

Além desse aspecto cronológico, de tempo, o reino também está exposto no Novo Testamento comunicando a ideia de bem e mal, ou seja, o reino é anunciado para o bem (salvação) quanto para o mal (opressão). [6] O reino tem um caráter redentor como também condenatório. Traz salvação aos que se submeterem ao Rei, todavia traz juízo aos demais. Assim, o reino é de paz, mas também de horror, trará alívio para uns sem deixar de ser uma realidade trágica para outros. Jesus repetidamente levantou a voz para advertir, para abrir os olhos a um povo obcecado. [7]

Torna-se também fundamental, ao estudar o reino de Deus, observar o aspecto da antiguidade do tema. É preciso dar atenção ao fato de que o reino de Deus é a ideia básica do Antigo Testamento; com isso, Jesus não estava pregando algo novo, mas anunciando uma esperança que já tinha longa história em Israel. Se é verdade que não podemos entender o reino de Deus abstraindo-o de suas encarnações históricas concretas, também é verdade que não podemos compreender as esperanças do século I centralizadas em torno dele, sem compreendermos, ao mesmo tempo, sua história particular em Israel.[8] O reino de Deus era objeto das profecias do Antigo Testamento e alimentava a esperança do povo de Iahweh. Assim, o reino não era novidade, mas uma realidade esperada pelas pessoas dos tempos de Jesus.

O Reino de Deus nos Evangelhos

O projeto histórico do Reino de Deus provou ser capaz de sobreviver até mesmo ao colapso da Guerra judaico-romana, inspirando a religião cristã e movendo a esperança daqueles primeiros seguidores de Cristo que viviam na Palestina do século I. O Reino de Deus, conforme revelado nos Evangelhos, concorda a erudição moderna, constituía o centro da mensagem de Jesus. O relato de Marcos demonstra que Jesus iniciou seu ministério falando do Reino: “Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos 1.14-15). Na ótica de Mateus, o resumo do ministério de Jesus está em 4.23: “Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo”.

Nos Evangelhos, a expressão “Reino de Deus” (basileia tou theou) aparece 51 vezes, sendo 4 em Mateus, 14 em Marcos, 31 em Lucas e 2 em João. Além dos Evangelhos a expressão também aparece em Atos e em algumas cartas de Paulo (Romanos, 1 Coríntios, Gálatas, Colossenses e 2 Tessalonicenses) totalizando 65 ocorrências no Novo Testamento. A expressão “Reino dos Céus” (basileia tôn ouranôn) aparece somente em Mateus em 32 ocorrências.[9]

A palavra basileia (Hebraico – malkuth) significa basicamente governo, domínio, poder real. O conceito espacial – ou seja, geográfico – é secundário. No Antigo Testamento e no judaísmo rabínico, o Reino de Deus possui uma dinâmica tal que não é possível restringi-lo ao eschaton, mas denota uma realidade também presente. Conforme G. E. Ladd Deus já é o Rei, mas ele também precisa tornar-se Rei. [10] Isso significa que, embora indiscutivelmente Deus seja Rei, ele ainda há de manifestar sua soberania real no mundo dos homens.

Já a expressão “Reino dos Céus” tem provocado algumas especulações. Em alguns círculos evangélicos têm-se adotado a postura que leva a uma diferenciação entre o Reino de Deus e o Reino dos Céus, sendo este último uma referência ao Reino teocrático terreno conforme prometido a Israel no Antigo Testamento. Visto que Israel rejeitou o domínio de Deus não aceitando seu Messias, Jesus introduziu uma nova mensagem, oferecendo descanso e serviço para todos os que cressem, começando assim uma nova família de fé que participará do Reino de Deus futuro.

Não creio ser essa diferenciação plausível. O “Reino dos Céus” é uma expressão semítica, na qual a expressão “céus” (ouranos) está sendo usada para substituir o nome divino – Deus. Em Lucas 15.18, no relato do chamado “filho pródigo”, temos um exemplo disso. Ali quando diz “Pai pequei contra o céu e diante de ti” está claro que “céu” substitui Deus. É contra Deus que o filho está dizendo ao pai que pecou. Para Ladd desde que a tradição dos Evangelhos mostra que Jesus não criticou de modo consistente a palavra “Deus”, isto é, o uso do nome divino – Deus é possível que o “Reino dos Céus” seja uma expressão nativa judaico-cristã, a qual preservou a tradição do evangelho encontrada em Mateus, em lugar de refletir o uso real feito por Jesus. É possível que Ele tenha usado ambas as frases e os evangelhos que foram originalmente escritos para um público gentio, omitiram a expressão semítica, pois essa não faria sentido aos seus ouvidos. Mateus evita usar a palavra Deus, tal como muitos judeus do seu tempo, e a substitui pelo eufemismo “céus”. Assim, as duas expressões em significado são idênticas e tratam de um mesmo reino. [11]

Por toda a extensão dos Evangelhos Sinópticos a missão de Jesus é frequentemente interpretada como o cumprimento das promessas do Antigo Testamento. Este fundo histórico precisa ser levado em conta ao considerar as expressões referentes ao Reino de Deus como uma realidade presente.

Mas o que exatamente se fez presente, no que tange ao Reino de Deus, quando Jesus estava na terra? O texto chave para essa resposta é Mateus 12.28, 29: “Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós. Ou como pode alguém entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens sem primeiro amarrá-lo? E, então, lhe saqueará a casa”. O poder real de Deus atacando o domínio de Satanás e libertando os homens do poder do mal foi o que se fez presente, não o eschaton. Conforme o verso 29, Jesus declara que invadiu o reino de Satanás e “aprisionou” o homem valente, sendo esse aprisionamento uma metáfora que designa a vitória sobre Satanás de tal forma que o seu poder é freado.

Nos relatos dos Evangelhos, Satanás continua ativo subjugando a palavra do Reino na vida dos indivíduos que não a aceitam realmente (Mt 13.19), falando através de Pedro (Mc 8.33), entrando em Judas (Lc 22.3), e desejou tomar posse da vida de Pedro também (Lc 22.31). Satanás não está desprovido de poder, mas o seu poder está enfraquecido. [12] Tudo o que Jesus realizou, seja em palavras, feitos, morte e ressurreição, constituem uma derrota inicial do poder satânico que transforma a vitória e o triunfo final do Reino de Deus algo líquido e certo.

No Antigo Testamento os inimigos do Reino de Deus eram nações hostis e ímpias, mas nos Evangelhos são poderes espirituais malignos. A vitória do Reino de Deus se dá numa dimensão espiritual e não terrena espacial ou geográfica. [13] De algum modo, que escapa a compreensão humana, Jesus lutou com os poderes do mal, conquistando uma vitória sobre eles para que ao fim dos tempos tais poderes possam ser quebrados de uma forma definitiva.

Nos ensinos de Jesus, o Reino de Deus tem uma dupla manifestação: uma na missão de Jesus, libertando os homens do poder de Satanás e outra, ao fim dos tempos, destruindo Satanás.

As Parábolas Alusivas ao Reino em Mateus 13

Em Mateus 13, entre os versos 24 e 50, estão reunidas 6 parábolas alusivas ao Reino. Estas estão assim divididas: uma coleção de 3 introduzidas por “outra parábola” (cf. v. 24; 31; 33) e outra coleção de 3, a partir do verso 44, introduzida por “O reino dos céus é semelhante” (Cf. v. 44; 45; 47).

A primeira coleção de 3 trata-se das parábolas do joio, do grão de mostarda e do fermento. A segunda coleção, por sua vez, compreende as parábolas do tesouro escondido, da pérola e da rede. Todas as seis parábolas explicitamente são comparações do Reino de Deus (cf. a expressão “O Reino dos céus é semelhante a” presente em todas).

As parábolas que compõem a primeira coleção em Mateus 13 parecem trazer a presença viva e ativa do Reino. O Reino está crescendo, como o grão de mostarda que se torna em grande e frondosa árvore, como o fermento que, misturado à farinha, leveda em crescimento, e até mesmo como o trigo que também cresce, embora tenha sofrido com a semeadura do joio ao seu lado. O Reino de Deus é semelhante a todo processo de crescimento. Como afirma Dodd, “é a energia divina imanente ao mundo pela qual se alcança gradualmente o desígnio de Deus”. [14] O crescimento do reino parece ser um processo misterioso independente da vontade e da ação do homem.

As duas primeiras parábolas da segunda coleção parecem enaltecer o valor do Reino e a alegria de quem o encontra e valoriza. [15] Em ambas se descreve a conduta de um homem que encontra um tesouro de valor inestimável e o adquire imediatamente a custa de tudo que possuía. Assim se entende que o achado vale mais que o seu preço, visto que quem o achou vende tudo o que possui para possuir somente o que se descobriu. O sacrifício com que se adquire está envolvido na parábola – se vende tudo o que tem – mostrando o grande valor da coisa achada. Aparentemente, não parecem ser bons negociantes os que vendem tudo para comprar uma coisa só. Será que não foi insensatez do homem ‘empobrecer-se’ para comprar o campo? Não cometeu um erro imperdoável aquele que vendeu tudo o que tem para comprar apenas uma pérola? Como diz Dodd, à primeira vista sim. São situações do dia-a-dia que levaria por certo os ouvintes a pensar. Todavia, o importante é estar seguro do valor do que se compra mais do que se verificar do quanto está se dispondo. Os ouvintes olhariam então para o Reino de Deus como objeto de profunda esperança. Grandes sacrifícios só valem a pena se o fim é valioso. E é exatamente a essa compreensão que essas parábolas apelam. Essas parábolas, em certo sentido, vêm reforçar o chamado que Jesus já havia feito para abandonarem aquilo que julgavam ter valor e buscarem o que é eternamente valioso.

A última, porém, a parábola da rede, [16] parece estar sabiamente colocada para encerrar essas seis parábolas da forma como começou. A primeira das seis fala do joio e do trigo (o bem e o mal), que não deveria ser arrancado o joio, pois conforme o verso 41, na consumação do século o Filho do Homem mandará seus anjos e estes farão a separação entre o que é bom e o que é ruim. Explícita semelhança está no verso 49, explicando a parábola da rede: “Assim será na consumação do século: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos,…”.

Estas duas parábolas (do joio e da rede) lançam a visão do leitor para o fim dos tempos, pois ambas tratam do juízo, que introduz o Reino de Deus em sua plenitude. O reino é comparado com a separação: num caso, separação entre o trigo e o joio; no outro entre peixes bons, isto é, comestíveis, e ruins, ou seja, não comestíveis. Estavam antes misturados o bom e o mau. A separação prematura destes é rejeitada na parábola do joio. O que se espera dos ouvintes e posteriores leitores é a paciência, ninguém deve se antecipar e fazer aquilo que só os anjos de Deus podem fazer. À pergunta por que é preciso esta paciência, J. Jeremias responde: primeiro, porque os homens não estão absolutamente em condição de fazer esta separação (Mt 13.29). Assim como o joio e o trigo no começo são tão parecidos, a ponto de se ter um pelo outro, assim o povo de Deus do Messias oculto jaz escondido entre os que parecem crer. Os homens não conseguem olhar dentro dos corações. Se quisessem fazer a separação cairiam em crassos erros de julgamento e arrancariam junto com a erva má o bom trigo. Antes – é a segunda razão – Deus determinou a hora da separação. A medida marcada por ele deve ficar cheia (Mt 13.48) e a seara precisa ficar madura. Então virá o fim e com ele a separação do joio e do trigo, a seleção dos peixes bons dentre os maus. Só então surgirá a comunidade santa de Deus, livre de todos os maus, dos crentes só de aparência e dos que só confessam com os lábios.

Conclusão

Em tais narrativas do Novo Testamento Jesus irrompe o Reino de Deus através de seu ministério. As parábolas têm um tom de graça, mas não tinham (e não têm) o propósito de entreter o público, mas de levá-lo a um desafio, a uma escolha, a uma ação específica que, em última análise, é uma decisão com relação ao Reino de Deus. Os que respondem positivamente aos desafios do Reino de Deus têm de fazer opções com relação ao Reino, com relação a Deus e com relação ao próximo. Por outro lado, muitas parábolas têm um tom de crise, porque apontam para um fim escatológico. Essa é a crise do Reino. Algo tremendamente catastrófico pode acontecer quando se procrastina ou quando se faz a opção errada. Todas as parábolas tendem a forçar o ouvinte a tomar uma posição. Elas estão cheias da certeza de que os tempos salvíficos estão a irromper-se. Dessa forma, os Evangelhos nos conduzem a concluir que Jesus se preocupou em preparar seus ouvintes para o inesperado.

Assim, a vinda do Reino põe à prova os homens e estabelece distinções entre eles. Do modo como na parábola da rede há de selecionar aqueles que irão para a venda no mercado – e isso era tão familiar para os discípulos cuja sobrevivência dependia da pesca; ou como na colheita se separa joio do trigo, assim entre as multidões atraídas por Jesus se introduziu uma distinção entre aqueles cuja reação ante a situação concreta expressa pela parábola fora positiva gerando obediência ao Rei e aquele que ficou passivo, temeroso e indiferente ante a proclamação do Reino. Nas palavras de Dodd, aceitar o Reino significava na realidade “arriscar a vida por ele”.

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Fonte: Site Arminianismo.com

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DODD, C. H. “Las Parábolas Del Reino” Ediciones Cristiandad. Madrid, 1974. 196p.

ENTREVERNES, Grupo de. “Signos y Parabolas” Ediciones Cristiandad. Madrid,

1979. 254p.

JEREMIAS, Joachim. “As Parábolas de Jesus” Paulus. São Paulo, 1986. 238p.

LADD, George Eldon. “Teologia do Novo Testamento” JUERP. Rio de Janeiro, 1986. 584p.

LOMBARDI, Riccardo. “Igreja e Reino de Deus” Loyola. São Paulo, 1978. 170p.

MIRANDA, Osmundo A. “Introdução ao Estudo das Parábolas” ASTE. São Paulo,

1984. 243p.

PIXLEY, George V. “O Reino de Deus” – Paulinas. São Paulo, 1986. 120p.

Já Limpos, Mas Ainda Não Regenerados

1 Comentário

Dr. Vic Reasoner

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R. A. Torrey argumentou a partir de Jo 13.10; 15.3 que os discípulos foram regenerados antes do Pentecostes. De acordo com Jo 15.3, os discípulos a quem Jesus se dirigiu já estavam santificados cerimonialmente por sua obediência à lei mosaica. Mas a ênfase do verso 3 é que eles foram santificados pela sua associação com Jesus (veja Jo 13.3-11). Eles foram separados do mundo ao seguirem a Cristo. Eles foram então limpos pela Palavra (Jo 15.3), mas ainda não pelo Espírito. E eles foram instruídos a permanecerem naquela condição pela sua obediência aos mandamentos de Cristo (Jo 15.10). Eles tinham renunciado ao mundo, se submetido às exigências do discipulado e pregado a Cristo.

Tudo isso tinha sido uma grande ajuda rumo ao futuro frutífero. Todavia, nem todos eles estavam limpos. Entretanto, entre os discípulos foram purificados de Judas. Em Jo 15.3 katharos é a forma adjetiva do verbo que foi usado no verso 2. Como um verbo, kathairo significa limpar ou purgar; podar ou deixar limpo. Sua forma substantiva também é usada em 13.10. Mas embora os discípulos fossem separados, podados e potencialmente limpos, como em 13.10 e 17.19, através da revelação de Deus em Cristo, eles ainda precisavam da lavagem da regeneração e da limpeza da inteira santificação.

B. F. Westcott escreveu que a obra espiritual representada por essa limpeza estava potencialmente completa, mas restava que ela deveria ser compreendida por eles [O Evangelho Segundo São João, p. 217]. Donald Bloesch argumentou que eles foram limpos em virtude de serem cobertos pelo sangue de Cristo, mas eles não estavam limpos de verdade. Ainda que Jesus lavasse os seus pés, aquele ato simbolizava a sua futura limpeza pelo sangue. “Eles ainda não tinham a regeneração porque eles ainda não tinham sido batizados na morte de Cristo (Mc 10.35-45)… Eles estavam limpos prolepticamente em virtude da palavra dirigida a eles. Eles estavam no caminho para a regeneração, mas ainda não estavam totalmente limpos” [O Espírito Santo: Obras e Dons, pp. 306-307].

Eles não gerariam os frutos do Espírito nem teriam vida espiritualmente reprodutiva até depois do Pentecostes. Wesley disse que os apóstolos foram limpos antes de Cristo morrer por meio da fé judaica, pois o Espírito Santo não tinha sido dado ainda [Obras de John Wesley, 8:287]. Assim, Wesley concluiu que “a fé pela qual somos salvos… não é meramente a fé que os próprios apóstolos tiveram enquanto Cristo ainda estava na terra.… E dessa forma ela difere daquela fé que os próprios apóstolos tiveram enquanto o nosso Senhor estava na terra: ela reconhece a necessidade e o mérito da sua morte e o poder da sua ressurreição” [“A Salvação pela Fé”, Sermão #1, 1.3, 5].

Tradução: Thiago D. M. Silvino

Fonte: Arminianismo.com

A Beleza de Jesus Cristo

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_____________________________________________________________________C. I. Scofield

Em Ct 5.16 lemos: “… ele é totalmente desejável.” Isso não pode ser dito a respeito de nenhum outro a não ser de Jesus Cristo. Qualquer outra grandeza é corrompida por pequenez, qualquer outra sabedoria é arrasada por tolice, qualquer outra bondade vem maculada por imperfeição. Jesus Cristo é o único do qual se pode afirmar que n’Ele tudo é amável e belo.

Sua beleza reside em Sua perfeita humanidade. Ele se identificou conosco em tudo, exceto com nosso pecado e com nossa natureza má. Ele teve de crescer fisicamente – como nós – mas Ele também cresceu na graça. Ele trabalhou, chorou, orou e amou. Em todas as coisas Ele foi tentado como nós – mas permaneceu sem pecado.

Como Filho de Deus, Ele entra em nossa vida no século XX de maneira tão simples e natural como se tivesse morado em nossa rua. Ele é um dos nossos em tudo. Ele entra em uma vida cheia de pecado assim como um rio limpo e transparente lança suas águas em um lago parado. O rio não teme a contaminação, é ele que limpa o lago com sua força.

Cristo também possui perfeita compaixão. Pensemos apenas no “rebanho sem pastor” ou na viúva enlutada de Naim. Será que alguma vez você viu Jesus procurando pessoas que “mereciam” que Ele se compadecesse delas? Dele está escrito simplesmente que: “… compadeceu-se dela e curou os seus enfermos” (Mt 14.14b). Que glória reside em sua misericórdia! Naquela época significava contaminação a aproximação com os pobres leprosos, mas o contato com a mão de Jesus os curava e purificava.

A perfeita humildade de Jesus Cristo é extremamente amável. Ele, o único que poderia ter escolhido como desejava nascer, entrou nesta vida como um dentre muitos. Ele disse: “… no meio de vós, eu sou como quem serve” (Lc 22.27b), e está escrito que Ele “deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido” (Jo 13.5). E também está escrito que Ele “quando ultrajado, não revidava com ultraje” (1Pe 2.23).

Jesus Cristo também possui perfeita mansidão. Como Ele é meigo, mas também fiel, altruísta e devotado. Quando falou com a mulher calada, desesperada, depois que os seus acusadores foram se retirando um por um, toda a Sua amável mansidão se mostrou.

Até na hora da Sua morte, Ele ouviu o clamor de uma fé em desespero. Antigamente, quando os vencedores voltavam das guerras, traziam seus prisioneiros mais importantes como troféus de vitória. Para Jesus Cristo foi suficiente chegar ao céu trazendo a alma de um ladrão.

Finalmente, olhemos para Seu perfeito equilíbrio interior. Ainda poderíamos falar muito sobre Sua dignidade, sua varonilidade, sobre Sua coragem. Nele se unem traços de um caráter perfeito e formam um equilíbrio maravilhoso. Sua mansidão nunca é delicada demais, sua coragem jamais é bruta.

Ele não é totalmente desejável? Você quer aceitá-lO como Salvador pessoal e igualmente descobrir Sua glória? Ele próprio disse: “Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna” (Jo 6.47).

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Fonte: Arminianismo.com