O Amor de Deus É Limitado aos Eleitos?

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Roger E. Olson 

A doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. Ele é também o calcanhar de Aquiles do Calvinismo; sem ele os outros pontos caem.

 O recente renascimento do Calvinismo entre os evangélicos trouxe à tona a questão da extensão da morte expiatória de Cristo na cruz. Muitos cristãos evangélicos simplesmente assumem que Cristo morreu por todos – que Ele carregou os pecados e sofreu a penalidade por cada pecador. Pelos últimos quatro séculos, entretanto, tem havido uma representação minoritária entre os protestantes. A maioria dos calvinistas, seguidores do reformador francês da Suíça, João Calvino (1509-1564), têm ensinado que Cristo suportou a penalidade somente pelos pecados dos eleitos – aqueles incondicionalmente predestinados por Deus para a salvação. Calvinistas contemporâneos (eles muitas vezes preferem ser chamados de cristãos reformados) chamam esta doutrina de “redenção particular” ou “expiação definida.”.

 Entre os defensores evangélicos contemporâneos da expiação limitada estão, mais notavelmente, R. C. Sproul e John Piper. Sproul (nascido em 1939) tem sido um influente apologista evangélico e teólogo reformado por grande parte da última metade do século 20. De sua base em seu Ministério Ligonier ele tem falado no rádio, viajado para discursar em muitas conferências teológicas e apologéticas e escreveu muitos livros – a maioria deles tratando da soberania de Deus a partir de uma perspectiva fortemente reformada.

 Piper (nascido em 1946), pastor de Igreja Batista Bethlehem de Minneapolis, e fundador do Ministério Desiring God, também viaja muito e discursa em grandes encontros de cristãos evangélicos – incluindo as conferências Passion frequentadas por milhares da maioria dos jovens e adolescentes batistas do sul. Ele é um prolífico autor cujos livros, incluindo Desiring God: Confessions of a Christian Hedonist (1986), têm vendido milhões de cópias. Como Sproul, Piper é um promotor apaixonado do Calvinismo de cinco pontos.

 

CALVINISMO DE CINCO PONTOS

 O Calvinismo de cinco pontos é a crença nas doutrinas representadas pelo acróstico TULIP: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Os calvinistas criaram o acróstico por volta de 1913, mas as “doutrinas da graça” que ele representa remontam ao sucessor de Calvino – Teodoro Beza (1519-1605) – diretor da Academia de Genebra (um seminário reformado em Genebra, Suíça, fundado por Calvino). A expiação limitada se encontra no centro deste sistema teológico. Sproul, Piper e muitos outros teólogos evangélicos contemporâneos influentes tenazmente mantêm e defendem esta posição.

 

EXPIAÇÃO LIMITADA

 O que a expiação limitada ou redenção particular significa? De acordo com Sproul, que prefere chamar essa doutrina de “expiação designada,” ela significa que Deus pretendeu que a morte de Cristo na cruz assegurasse a salvação de um número definido de seres humanos caídos – aqueles escolhidos incondicionalmente por Deus. Como outros calvinistas, Sproul argumenta que a morte substitutiva de Cristo (isto é, Deus impôs sobre Cristo a penalidade pelos pecados merecida pelos pecadores) foi de valor suficiente para salvar a todos, mas Deus apenas pretendeu que ela salvasse os eleitos. No sentido mais significante, Cristo morreu apenas pelos eleitos e não por todos.

 Para Sproul (e outros como ele), esta doutrina não é dispensável; ela é parte essencial do sistema TULIP que eles creem ser a única que faz justiça à soberania de Deus e à natureza do dom da salvação. Um argumento usado por Sproul, seguindo o teólogo puritano John Owen (1616-1683), é que, se Cristo morreu por todos igualmente, então todos são salvos. Afinal, como segue o argumento, seria injustiça de Deus punir os mesmos pecados duas vezes – uma vez impondo a penalidade sobre Cristo e outra vez ao enviar o pecador para o inferno. Piper é igualmente apaixonado pela expiação limitada. Como Sproul, ele não a considera um ponto secundário da teologia. Em um artigo intitulado “For Whom Did Christ Die and What Did Christ Actually Achieve on the Cross for Those for Whom He Died?”[1]Piper argumenta que não é o calvinista que limita a expiação, mas o não-calvinista que crê na expiação universal. A razão: Aqueles que creem na expiação universal devem dizer que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas a oportunidade de salvarem a si mesmas. Ou eles devem abraçar o universalismo.

 Piper continua e argumenta que Cristo de fato morreu por todas as pessoas, mas não da mesma maneira. Todas as pessoas se beneficiam da morte de Cristo, por exemplo, recebendo certas bênçãos nesta vida que eles de outra forma não receberiam – mas somente os eleitos recebem dela o benefício da salvação.

 Esta doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. O teólogo evangélico Vernon Grounds, ex-presidente do Seminário Denver, atacou severamente a doutrina. Apontando para Jo 1.29; Rm 5.17-21; 11.32; 1Tm 2.6; Hb 2.9; e 1Jo 2.2, ele escreveu, “É preciso uma engenhosidade exegética que é outra coisa menos uma habilidade culta esvaziar estes textos de seu significado óbvio: é preciso uma engenhosidade exegética próxima de um sofisma negar sua explícita universalidade.”[2]É desnecessário dizer, muitos evangélicos, incluindo alguns calvinistas, acham essa doutrina repugnante.

 

BASE PARA A EXPIAÇÃO LIMITADA

 Antes de explicar por que esta doutrina é repulsiva, será proveitoso ver as razões por que muitos calvinistas a têm em alta conta e a promovem tão apaixonadamente. Mais uma vez, o que é esta doutrina? É que Deus pretendeu que a morte de Jesus na cruz fosse uma propiciação (um sacrifício expiatório, substitutivo) apenas pelos pecados dos eleitos – aqueles que Deus escolheu salvar à parte de qualquer coisa que Ele vê neles ou sobre eles (exceto Sua escolha dessas pessoas para a Sua glória e boa vontade).

 Por que alguém acreditaria nisso?

 Os proponentes da expiação limitada apontam várias Escrituras: Jo 10.15; 17.6 e versículos semelhantes em Jo 10-17; Rm 8.32; Ef 5.25-27; Tt 2.14.

 Os calvinistas usam Jo 10.15 para apoiar o seu ensino: “Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas.” Muitos outros versículos em João dizem quase a mesma coisa – que Cristo deu a Sua vida por Suas ovelhas (isto é, Seus discípulos e todos os que viriam depois deles). Os calvinistas também apontam Rm 8.32: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” Eles supõem que “todos nós” faz referência aos eleitos. Ef 5.25-27 diz, “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.” Os calvinistas creem que esta passagem, como muitas outras, se refere apenas à igreja como o objeto do sacrifício purificador de Cristo. Tt 2.14 diz: “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” Os calvinistas acreditam que Paulo, o autor de Tito, parece restringir os benefícios salvadores da morte de Cristo ao “seu povo,” o que eles acreditam ser os eleitos.

 Os calvinistas assumem que estes versículos e outros como eles ensinam que Cristo morreu somente por aqueles escolhidos por Deus para a salvação. Mas estes versículos não ensinam as crenças calvinistas. Em nenhum lugar a Bíblia explicitamente ensina esta doutrina calvinista;  atribuem a estas passagens sua crença que Cristo morreu somente pela igreja, pelo Seu povo, por Suas ovelhas. Estes versículos não dizem que Cristo não morreu também pelos outros. E, como veremos, há muitas passagens que ensinam claramente que Cristo morreu por todos.

 Há outra razão para os calvinistas crerem na expiação limitada. Se Cristo morreu igualmente por todos, eles alegam, então todos são salvos. Eles argumentam que aqueles que creem na expiação universal se defrontam com duas opções inevitáveis, mas biblicamente insustentáveis: ou a morte de Cristo salvou a todos ou ela não salvou ninguém. Este argumento é, no entanto, falacioso. A expiação universal não requer a salvação universal; ela somente requer a possibilidade de salvação universal.

 É possível que os mesmos pecados sejam punidos duas vezes e é isso o que torna o inferno tão absolutamente trágico – ele é totalmente desnecessário. Deus pune com o inferno aqueles que rejeitam a substituição de Seu Filho. Uma analogia ajudará a tornar isto claro. Após a Guerra do Vietnã, o presidente Jimmy Carter concedeu uma anistia geral a todos os desertores que fugiram para o Canadá e outros locais. Por decreto presidencial eles estavam livres para voltar para casa. Alguns voltaram e outros não. Seu crime não era mais punível; mas alguns se recusaram a tirar proveito da anistia e puniram a si mesmos ficando longe de casa e da família. Os crentes na expiação universal creem que Deus permite aos pecadores recusarem o benefício da cruz de Cristo para sofrerem a punição do inferno apesar do fato dele ser totalmente desnecessário.

 Talvez a razão apresentada mais retoricamente poderosa para a expiação limitada seja aquela oferecida por John Piper (e outros calvinistas antes dele) que diz em For Whom Did Christ Die? que aqueles que creem na expiação universal “devem dizer” que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas uma oportunidade de salvarem a si mesmas. Este é um raciocínio totalmente falacioso.

 Os arminianos (aqueles que seguem Tiago Armínio na rejeição da eleição incondicional, da expiação limitada e da graça irresistível) creem que a morte de Cristo na cruz salva todos que a recebem pela fé. A morte de Cristo assegura a salvação destes – tanto quanto assegura a salvação dos eleitos no Calvinismo. Ela garante que qualquer um que vai a Cristo em fé será salvo por Sua morte. Isto não implica que eles salvam a si mesmos. Isso simplesmente significa que eles aceitaram a obra de Cristo em seu favor.

 

RESPONDENDO AO CALVINISMO

 É difícil resistir à impressão de que os calvinistas que creem na expiação limitada assim o fazem não por claras razões bíblicas, mas porque eles acham que a Escritura a permite e a razão a exige. Não há nada necessariamente errado com isso, mas no mínimo alguns calvinistas como Piper têm criticado outros por fazerem o mesmo.[3] Piper critica outros por alegadamente abraçarem doutrinas somente porque a Escritura as permite e a lógica as exige. Parece a muitos não-calvinistas, no entanto, que os crentes na expiação limitada fazem exatamente isso. Carecendo de claro e inequívoco apoio bíblico para esta doutrina, eles a abraçam porque acham que a Escritura a permite e o seu sistema TULIP logicamente a exige. Afinal, se a eleição é incondicional e a graça é irresistível, então parece que a expiação seria somente para os eleitos.

 A Escritura contradiz a expiação limitada em Jo 3.16, 17; Rm 14.15; 2Co 5.18-19; Cl 1.19, 20; 1Tm 2.5, 6; 1Jo 2.2. Todos conhecem Jo 3.16, 17: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” Tipicamente, os calvinistas respondem que nestes versículos “mundo” faz referência a todos os tipos de pessoas e não a todos. Entretanto, isso tornaria possível interpretar todas as passagens onde o Novo Testamento conta que o “mundo” é pecador e caído no sentido de que somente algumas pessoas – todos os tipos – são pecadoras e caídas. A interpretação calvinista de Jo 3.16, 17 parece se encaixar na descrição de Vernon Grounds de exegese defeituosa usada para defender a expiação limitada.

 1 Jo 2.2 é outra passagem que não podemos reconciliar com a expiação limitada: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” Esta passagem enfraquece completamente a interpretação calvinista de “mundo” em Jo 3.16, 17 porque ela explicitamente afirma que Cristo morreu uma morte expiatória não somente pelos crentes, mas também por todos. Aqui “mundo” deve incluir os não crentes porque “nosso” se refere aos crentes. Este versículo torna impossível dizer que a morte de Cristo beneficia a todos, só que não da mesma maneira (Piper diz que a morte de Cristo beneficia os não-eleitos dando-lhes somente bênçãos temporais). João diz clara e inequivocamente que o sacrifício expiatório de Cristo foi pelos pecados de todos – inclusive daqueles que não são crentes.

 E quanto a 2Co 5.18-19? “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.” Os calvinistas às vezes argumentam que esta passagem dá apoio à expiação limitada. Afinal, se Deus estava em Cristo não imputando os pecados de todos, então todos são salvos. Portanto, eles dizem, “todos” deve significar somente os eleitos. Mas isso não é verdadeiro. Quando Paulo diz que Deus estava reconciliando o mundo consigo, não imputando os pecados das pessoas contra elas, ele quer dizer se elas se arrependerem e crerem. Em outras palavras, a expiação reconciliou Deus com o mundo para que Ele pudesse perdoá-lo; isso satisfez as demandas da justiça para que da parte de Deus a reconciliação fosse possível. Mas resta aos pecadores aceitar isso pela fé. Então a plena reconciliação acontece.

 Cl 1.19, 20, diz, “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.” É impossível interpretar “todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” como se referindo somente aos eleitos. Esta passagem refuta a expiação limitada. Igualmente faz 1Tm 2.5, 6: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.” A única maneira de um crente na expiação limitada conseguir escapar da força desta passagem é interpretar o grego traduzido como “todos os homens” como de alguma forma significando “todos os tipos de homens,” mas essa não é uma interpretação permitida pelo uso comum da expressão na literatura grega fora do Novo Testamento (ou em outro lugar nele).

 Muitas Escrituras indicam claramente que o sacrifício expiatório de Jesus foi pretendido para todos, que Sua punição substitutiva foi por todas as pessoas. Mas há duas passagens raramente discutidas do Novo Testamento que absolutamente destroem a expiação limitada: Rm 14.15 e 1Co 8.11. Nestes versículos, Paulo severamente adverte os cristãos contra levar pessoas por quem Cristo morreu à destruição. A tradução grega das palavras “destruir” e “destruído” nestes versículos não pode significar meramente prejudicado ou ferido. Paulo claramente está advertindo as pessoas de que é possível levar as pessoas por quem Cristo morreu ao inferno (levando-as a tropeçarem e cairem pela demonstração de sua liberdade própria para comer carne sacrificada aos ídolos). Se o Calvinismo da TULIP está correto, esta advertência é inútil, porque isso não pode acontecer. De acordo com o Calvinismo, os eleitos, por quem Cristo morreu, não podem se perder.

 O peso da Escritura é claramente oposto à expiação limitada. As interpretações calvinistas destas e de passagens semelhantes faz recordar o sinal do lado de fora de uma ferraria se referindo ao seu trabalho artístico com metais: “Todos os tipos imagináveis de torção e torneamento são feitos aqui.” Entretanto, o problema com a expiação limitada vai além de alguns versículos que os calvinistas não podem explicar sem distorcer seus claros significados. O maior problema atinge o cerne da doutrina de Deus. Quem é Deus e como ele é?

 

EXPIAÇÃO LIMITADA E A NATUREZA DE DEUS

 Se Deus é amor (1Jo 4.7), mas pretendeu que a morte expiatória de Cristo fosse a propiciação somente para algumas pessoas de forma que somente elas têm alguma chance de serem salvas, então o “amor” não tem nenhum significado inteligível quando se refere a Deus. Todos os cristãos concordam que Deus é amor. Mas os crentes na expiação limitada devem interpretar o amor de Deus como de alguma forma compatível com Deus incondicionalmente selecionando algumas pessoas para o tormento eterno no inferno quando Ele poderia salvá-las (porque a eleição para a salvação, e assim a própria salvação, é incondicional). Não há analogia na existência humana para este tipo de comportamento que é considerado como amoroso. Nós nunca consideraríamos como amoroso alguém que, por exemplo, podendo resgatar pessoas se afogando, se recusa a fazê-lo e resgata somente algumas. Consideraríamos tal pessoa má, mesmo se as pessoas resgatadas apreciassem o que a pessoa fez por elas.

 Os calvinistas tipicamente lidam com isso de duas maneiras. Alguns dizem que o amor de Deus é diferente do nosso amor. Mas se ele é tão diferente, ele é ininteligível. Se o “amor” de Deus não tem semelhança com algo que chamaríamos de amor, se ele se assemelha mais ao ódio do que ao amor, então ele perde todo o significado. Então, quando uma pessoa diz que Deus é amor, ela poderia também estar usando uma palavra sem sentido como “creech” – Deus é creech. Também, onde Deus melhor demonstrou o Seu amor do que em Jesus Cristo? Mas o amor de Jesus Cristo pelas pessoas é arbitrário e odioso a algumas? Ou Jesus Cristo em Seu amor por todas as pessoas revela o coração de Deus? O Calvinismo acaba tendo que pressupor um Deus oculto, muito diferente de Jesus Cristo.

 A outra maneira dos calvinistas lidarem com o amor de Deus e tentar reconciliá-lo com a expiação limitada e a dupla predestinação (as duas são realmente inseparáveis) é dizer que Deus ama todas as pessoas de alguma forma, mas somente algumas (os eleitos) de todas as formas. Piper, por exemplo, exalta o amor de Deus por todos – até mesmo ao não-eleito. Ele diz que Deus concede bênçãos temporais sobre os não-eleitos – isto é, conforme eles se movem em direção ao seu tormento eterno predestinado no inferno. John Wesley, respondendo a uma alegação similar dos calvinistas de sua época, ironizou dizendo que este é o tipo de amor que faz o sangue gelar nas veias. Uma outra resposta é que isso simplesmente significa que Deus dá aos não-eleitos um pouco do céu para levar com eles em sua jornada ao inferno. Que tipo de amor é esse – que dá bênçãos temporais e felicidade às pessoas escolhidas por Deus para o sofrimento eterno no inferno? Afinal, se o Calvinismo está correto, não há nada impedindo Deus de escolher todas as pessoas para o céu, exceto, alguns dizem, a Sua própria glória. Alguns calvinistas dizem que Deus deve manifestar todos os Seus atributos e um atributo é a justiça que torna o inferno necessário. Mais uma vez, no entanto, isso não funciona, porque a cruz foi uma manifestação suficiente da justiça de Deus.

 A expiação limitada torna o evangelismo indiscriminado impossível. Um crente na expiação limitada nunca pode dizer a algum estranho ou grupo aleatório: “Deus ama vocês e Cristo morreu pelos seus pecados e pelos meus; vocês podem ser salvos.” Todavia, esta é a própria força vital do evangelismo – contar as boas novas a todos e convidá-los a virem a Jesus Cristo em arrependimento e fé. Muitos calvinistas são inclinados ao evangelismo e às missões, mas em seu evangelismo e missões eles não podem dizer a todos no alcance de suas vozes que Deus os ama, que Jesus morreu por eles e que Ele quer que eles sejam salvos. Eles podem proclamar o evangelho (como eles o interpretam), mas não podem requerer fé prometendo-lhes salvação através de Cristo a todos que eles encontram ou a quem eles pregam.

 A expiação limitada é o calcanhar de Aquiles do Calvinismo TULIP; sem ela os outros pontos da TULIP caem. Se Deus é verdadeiramente amor, então Cristo morreu por todos para que todos possam ser salvos.

 

Fonte:  Arminianismo pontocom

Tradução: Cloves Rocha dos Santos

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A Teologia de John Wesley

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Explorando A Teologia de John Wesley*
A Humanidade e o Pecado
“[O ser humano] não é meramente matéria, um punhado de terra, uma porção de barro, sem qualquer sentido ou entendimento, mas um espírito tal como o seu Criador, um ser dotado não só de sentimento e conhecimento, mas também de um livre arbítrio que se manifesta em vários afetos. E a coroar todo o resto,está o fato de que ele foi dotado de liberdade, da capacidade de dirigir os seus afetos e ações, a capacidade de determinar por si próprio se escolherá o bem ou o mal.
(Sermão, “A Queda do Homem,” Works, 2:400-401)
A Humanidade
Na base do conceito que Wesley tinha da humanidade — também conhecido como a doutrina da antropologia teológica — está a ideia de que os seres humanos são relacionais. Foram criados para se relacionarem. Foram criados pelo amor e para amar.
De acordo com Mildred Bangs Wynkoop, a própria definição da imagem de Deus—imago Dei — é esta capacidade de amar.
Outras tradições têm definido a imagem de forma diferente. Uma interpretação da imagem no período da Igreja Primitiva — interpretação considerada herética —propunha que a imagem era na realidade uma aparência física de Deus. Parece haver muitas imagens antropomorfizadas nas Escrituras. Mas por final a ortodoxia determinou que essas devem ser interpretadas metaforicamente.
Vários intérpretes Ocidentais da imagem defenderam que ela está presente na nossa capacidade de refletir. Esta é a posição de muitos teólogos clássicos, incluindo o grande teólogo Católico Tomás de Aquino (d. 1275). Uma outra interpretação é de que o ser humano leva a semelhança de Deus no seu relacionamento com o resto da criação. Assim como Deus se encontra numa posição hierárquica em relação à humanidade, assim também a humanidade se situa numa posição hierárquica em relação à terra. Ainda uma outra interpretação da imagem é a da liberdade humana. Deus nos criou livres e com a capacidade de escolha.
Wesley estava ciente dessas várias interpretações, mas, segundo Wynkoop e outros, ele abraça fortemente a ideia da imagem como amor. H. Ray Dunning comentou sobre os relacionamentos definitivos designados para a humanidade: nós fomos criados para amar a Deus, amar ao próximo, e cultivar um amor adequado por nós mesmos e pelo mundo.
Há ocasiões nos escritos de Wesley em que ele distingue a imagem natural da imagem moral na humanidade, as quais são paralelas aos atributos naturais e moral de Deus. “Isto é, a Imagem natural de Deus na humanidade refere-se àquelas características ou faculdades próprias dos seres humanos, enquanto que a Imagem moral de Deus se refere ao ‘caráter’ de santidade e amor designados por Deus para a humanidade.” Esta posição é parecida com a distinção que a teologia Oriental faz entre a imagem e semelhança de Deus.
Um elemento central na compreensão do conceito de Wesley da humanidade e salvação é o fato de que depois da Queda, a imagem permanece. Fica distorcida, mas não obliterada. E, portanto para Wesley, a salvação — no sentido lato que inclui também a santificação — é o processo de restauração e renovação da imagem de Deus em nós. Esta noção de que a imagem permanece mesmo depois da Queda levou alguns intérpretes de Wesley a falar duma doutrina de deprivação total, em vez de depravação total.
Com a queda, ficamos deprivados do nosso relacionamento original com Deus, e assim sendo os nossos outros relacionamentos também ficam distorcidos, mas a capacidade de amar e a esperança de renovação permanecem. Além disso, a graça preveniente é oferecida para compensar pelos efeitos da Queda. A forte doutrina Calvinista da depravação total, por outro lado, é menos otimista. Com a Queda, ficamos totalmente depravados, sem Deus no mundo, e corruptos sem possibilidade de reparo nesta vida. Estas noções bem diferentes da Queda e da imago Dei produziram doutrinas de salvação também diferentes em Wesley e Calvino.
O princípio supremo da teologia de Wesley é o fato de que Deus é amor. Ele reitera a todo o custo o amor de Deus. Pelo contrário, pode-se dizer que, se pressionado, o Calvinista teria que defender a soberania de Deus como a principal característica dEle. Este postulado básico, do amor ou do poder, viria a definir toda a visão teológica de Wesley e de Calvino, apontando a cada um deles numa direção diferente.
Wesley fala de certos estados humanos, o natural, o legal e o evangélico. O estado natural é simplesmente um estado hipotético subsequente à Queda. Trata-se do estado em que Deus criou Adão e Eva. Só Jesus, o Cristo, nasceu num estado natural livre do pecado original. O estado legal, para Wesley, refere-se à nossa condição perante Deus anterior à experiência do novo nascimento. Vivemos sob a lei, e se deixarmos que a lei cumpra a sua função, ela nos conduzirá ao ponto de reconhecermos a nossa necessidade de salvação. A graça preveniente ajuda-nos a despertar para essa necessidade. O estado evangélico, então, é subsequente ao novo nascimento em Cristo; não estamos sob a lei mas sob a graça. Este novo nascimento dá início ao processo de renovação da imagem de Deus em nós.
O Pecado
O que foi que aconteceu quando Adão e Eva pecaram? E como é que o pecado original nos afeta a nós?
Comecemos a nossa investigação com uma discussão da essência do pecado original.
Enquanto que a maior parte dos intérpretes de Wesley tem seguido a interpretação tradicional — Agostinha — do pecado original como sendo o orgulho, uma nova interpretação foi oferecida pela Dra. Leclerc, publicada na obra Singleness of Heart: Gender, Sin, and Holiness in Historical Perspective. Segundo esta análise, embora o termo orgulho fosse usado frequentemente por Wesley, nunca foi tratado como paradigma dominante do pecado original.
O mais direto sermão de Wesley sobre este assunto — “O Pecado Original” (1854)—revela esta falta de predominância do termo orgulho. Aqui, é a idolatria que é nitidamente tida como a principal definição do pecado original, seguida de “orgulho,” “egoísmo,” e “amor do mundo.” Diz Wesley, “todo o orgulho é idolatria”; assim como o “amor do mundo.” Por outras palavras, existem duas formas de pecado original: desordenado amor-próprio — orgulho — e desordenado amor pelo próximo, referida aqui como o “amor do mundo”; explica Wesley: “O que é que nos é mais natural do que buscar felicidade na criatura, em vez do Criador?”
Wesley escreveu também um sermão intitulado “A Idolatria Espiritual,” já no final da sua vida. Vale à pena citar uma passagem:
Sem dúvida é desejo de Deus que nos amemos uns aos outros. É Seu desejo que amemos os nossos parentes e irmãos em Cristo com um amor peculiar; e especialmente aqueles a quem Ele conferiu significado particular nas nossas almas. A esses devemos amar “fervorosamente;”, mas sempre com “um coração puro.” Mas não é isso “impossível ao homem,” de manter a força de afeto, sem, contudo manchar em nenhuma maneira a alma, mantendo-a com pureza total? Não estou sugerindo apenas pureza em relação à cobiça. Sei que isso é possível. Sei que uma pessoa pode nutrir inefável afeto por uma outra sem qualquer desejo desta natureza. Mas será que isso é isento de idolatria? Será que isso não constitui amar a criatura mais do que o Criador? Não é colocar o homem ou a mulher no lugar de Deus? Entregar-lhes o seu coração? Que isso seja ponderado seriamente, mesmo por aqueles a quem Deus ajuntou; por maridos e mulheres, pais e filhos. Sem dúvida que estes devem amar-se ternamente uns aos outros: têm o dever de fazê-lo. Mas não têm nem a obrigação nem a permissão de se amar uns aos outros de maneira idólatra. E, entretanto, quão frequentemente isso acontece! Quão frequentemente não é o marido, a esposa, o filho colocado no lugar de Deus? Quantos não são os que, embora sendo considerados bons Cristãos, colocam o seu afeto num ou no outro, não deixando nenhum lugar para Deus! Procuram a sua felicidade na criatura e não no Criador. Podiam até dizer-se um ao outro, “para mim tu és o meu senhor e o alvo dos meus desejos.” Isto é, “nada mais desejo do que tu! É por ti que eu almejo! Todo o meu desejo é para ti, para a lembrança do teu nome.” Pois bem, se isso não é idolatria, então eu não o que poderia ser.
Wesley cria firmemente que o que Adão e Eva fizeram no jardim tinha efeitos duradouros para o resto da humanidade. Mesmo assim, é interessante notar que ele não se deteu com a questão da forma como esses efeitos foram transmitidos, mas com o fato de que foram transmitidos. O que lhe interessa é a questão da culpa associada com o pecado original.
A teologia Ocidental afirma que o estado de pecado original, a corrupção da humanidade no seio da qual nós nascemos faz-nos culpáveis perante Deus, mesmo que nós nada tenhamos feito individual e voluntariamente para isso merecer. A culpa é herdada, assim como a corrupção. Wesley, por outro lado, defende que o pecado original não traz culpa, mas sim uma predisposição para o pecado. O que nos torna culpados são os pecados que nós cometemos da nossa própria vontade. Wesley é muito cuidadoso em distinguir “pecado nato” de pecados reais. Daí a definição clássica de pecado citada frequentemente pelos Wesleyanos: “O pecado é a transgressão voluntária de uma conhecida lei de Deus.”
Alguns mantêm que no que concerne ao pecado Wesley assumiu uma via media entre Agostinho e Pelágio. Assim, ele foi categorizado como sendo “semi-Pelágico.”
Agostinho e Pelágio foram contemporâneos no século três e na primeira parte do século quatro. Pelágio defendeu que o ser humano não só não herdou culpa de Adão, como também não herdou qualquer corrupção. Assim sendo, cada pessoa encara a mesma escolha que encararam Adão e Eva no jardim. No seu ver, nós nascemos com liberdade natural.
Agostinho, por outro lado, defendeu uma forte doutrina de pecado original, depravação total, e culpa herdada.
O debate viu o seu desfecho com a determinação por parte do Cristianismo ortodoxo de que Pelágio era herético.
Wesley rejeitou Pelágio — embora tivesse mostrado alguma simpatia por ele. Mas nem por isso ele se alinhou com a doutrina de Agostinho. A via media surge na forma da doutrina Wesleyana da graça preveniente. A graça que Deus estende a todo o ser humano que vem ao mundo confere a esse indivíduo liberdade graciosa.
Enquanto que a tendência para o pecado é de fato herdada, a graça é oferecida para que o ato de pecado permaneça como uma escolha pela qual somos responsáveis. A rejeição de Wesley da culpa herdada preserva a justiça de Deus. Ao mesmo tempo, evita que Wesley seja forçado a defender a predestinação.
A doutrina do pecado em Agostinho era tão forte que só um ato pré-determinado e irresistível por parte de Deus nos poderia salvar. Wesley evitou esta conclusão lógica ao afirmar a universalidade da graça preveniente.
O Pecado Original
Sobre o pecado original, Wesley escreve: “Se, portanto, retirarmos esta base, que [a humanidade] é por natureza louca e pecaminosa… o sistema Cristão desmorona de imediato.”
(“A Doutrina do Pecado Original” Works, 9:194)
O Caminho da Salvação, parte 1
Introdução
O Caminho da Salvação
“E, em primeiro lugar, perguntemos, o que é a salvação? A salvação de que se fala aqui não é aquilo que frequentemente se deduz desse termo: a ideia de ir ao céu, de felicidade eterna. Não se trata da partida da alma para o paraíso . . . Não se trata de uma bênção que jaz do outro lado da morte . . . As próprias palavras do texto não deixam margem para dúvida, “Vós sois salvos.” Não se trata de algo que distante. É algo presente, uma bênção de que tendes possessão agora, pela livre misericórdia de Deus. Sim, pode-se afirmar por estas palavras, e com igual justeza, “Vós fostes salvos.” De maneira que a salvação de que se fala aqui pode se estender à inteira obra de Deus, desde o despontar da graça na alma até à sua consumação na glória.”
(Sermão, “O Caminho Bíblico da Salvação”)
A doutrina de Wesley acerca do pecado influenciou a sua doutrina de salvação. De novo, de acordo com a teologia Oriental, ele conceitualizou o pecado como sendo uma “doença” que precisava do toque curador de Deus como Médico. A sua noção de salvação pode então ser designada de “terapêutica.” A teologia Ocidental Reformada concentra-se na necessidade de perdão de culpa que se encontra na justificação, e em Deus como Juíz e Justificador. Na sua noção de sola fide, Wesley deve muito a esta tradição, expressa particularmente pelos Moravianos. Wesley, porém, foi muito mais além, considerando toda a obra de Deus como sendo inclusiva da justificação e santificação. Nesta lição consideraremos a obra de Cristo e a obra do Espírito Santo na obra inicial da salvação, aquilo que Wesley preferiu designar de “Novo Nascimento.”
Teorias da Redenção
A obra de Cristo na cruz já foi interpretada de várias maneiras. Essas são conhecidas como teorias da redenção.
A Teoria do Resgate
Esta teoria vê a humanidade como sendo cativa de Satanás. A morte de Cristo é o resgate, o pagamento feito com o fim de libertar-nos da prisão de Satanás. A ressurreição de Cristo, entretanto, é a maneira como Deus toma de volta o resgate de Satanás.
A Teoria da Satisfação
Esta teoria assenta-se na ideia de que o pecado constitui uma afronta à honra de Deus. Esta honra tem que ser vindicada, e assim Deus envia Jesus para morrer na Cruz como forma de expiar o pecado e restaurar o sentido de satisfação Divina de que o pecado já foi pago.
A Teoria da Satisfação Penal
Esta teoria é muito semelhante à da satisfação, mas aqui não é a honra de Deus que necessita vindicação, mas sim a justiça de Deus. É a ideia de que o pecado tem que ser punido. Assim, Cristo toma sobre si a punição, mantendo Deus como um Deus justo.
A Teoria do Christus Victor
Esta teoria surgiu no período da Igreja Primitiva. Ela afirma simplesmente que Cristo saiu vitorioso sobre o pecado ao tomar como inocente o pecado sobre si, sendo levantado dos mortos pelo poder de Deus. Este mesmo poder pode derrotar o pecado em nós.
A Teoria da Recapitulação
Também esta teoria surgiu cedo na Igreja Primitiva. Ela centra-se em Jesus Cristo como o Segundo Adão. Esta teoria concentra-se em mais do que a Cruz; ela abrange toda a vida de Cristo, vivida obedientemente para Deus. Aquilo que pela desobediência Adão fez errado, Jesus faz certo através da obediência. A cruz é a maior expressão dessa obediência. Jesus de certa forma redime a vida humana ao conceder-nos um modelo para viver a vida em plena dedicação à vontade de Deus.
A Teoria Governamental
Esta teoria é normalmente associada com o Arminianismo, desenvolvida formalmente por um aluno de Tiago Armínio, Hugo Grotius. A morte de Cristo permitiu a Deus oferecer perdão a todos quantos se arrependerem, ao mesmo tempo que mantém controlo governamental. Uma importante distinção tem que ser feita com referência à teoria da satisfação, no sentido de que Cristo não pagou o preço pelo nosso pecado mas em vez disso sofreu por nós. Tal distinção é crucial para os Arminianos porque esta expiação é ilimitada. Assim, se Cristo tivesse pagado o preço por todos então ninguém estaria em necessidade de redenção porque Cristo já teria recebido a punição. Em vez disso, a teoria governamental insiste que o sofrimento de Cristo foi um substituto pelo preço para que o homem pudesse receber perdão, mas ao mesmo tempo compreender a seriedade do seu pecado a fim de não voltar a ele.
A Teoria da Influência Moral
Esta teoria foi criada por Abelardo (1079-1142) e procura corrigir alguns dos problemas da teoria da satisfação penal. Do ponto de vista da teoria da influência moral, a Redenção encontra-se na Encarnação e não na Crucificação ou na Ressurreição.
Cristo veio deixar o exemplo perfeito do amor e a sua morte só constitui mais uma demonstração de entre várias desse amor. A salvação é alcançada num ato de reconhecimento desse supremo exemplo de amor como estilo de vida. Wesley estava interessado na realidade objetiva da Redenção, mas também igualmente interessado na sua influência subjetiva sobre nós. Para defender esse argumento ele recorreu a diferentes teorias em diferentes ocasiões. Teorias da redenção primàriamente falam daquilo que Cristo fez por nós. Mas a doutrina da soteriologia vai mais além perguntando, “Como é que a expiação de Cristo se aplica a nós?” Randy Maddox sugere que em vez de encaixar Wesley no modelo tradicional de ordo salutis, é mais correto falar de Wesley como possuindo uma via salutis.
Isto significa que em vez de conceitualizar a vida Cristã como uma série de passos, uma “ordem de salvação,” seria melhor conceitualizá-la como um “caminho de salvação,” como um processo envolvendo de momento a momento a atividade de Deus assim como a nossa resposta. No nosso caso presente, consideraremos certos passos salvíficos. Mas isso só para efeitos de esclarecimento. No caminho de Wesley, os passos seguem-se fluidamente juntos.
Graça Preveniente
A salvação começa com o dom gratuito de graça preveniente que Deus concede, desde o momento em que nascemos. Graça preveniente é a presença e obra do Espírito Santo. É a graça preveniente que nos aproxima ou atrai de Deus, despertando nas nossas almas a necessidade de Deus. Esta graça, tal como toda a graça, pode ser resistida. Mas se permitida a fazer a sua obra, a graça preveniente e a presença do Espírito Santo conduzirão a pessoa ao ponto de “despertamento.”
É nesse ponto que somos convencidos da nossa própria pecaminosidade e incapacidade longe de Deus. Esta consciencialização de necessidade pode vir na esteira de eventos, sermões, do testemunho de outros, ou mesmo de algo mais interno consoante a operação do Espírito. Se nós nos permitirmos ser despertados, o passo seguinte é o passo do arrependimento.
Antes de passarmos ao arrependimento, há três outras funções da graça preveniente que precisam ser consideradas aqui:
Primeiro, o Espírito Santo está tão ativo no mundo que é possível afirmar que “toda a verdade vem de Deus.” Não é preciso ser Cristão para ser um brilhante cirurgião. Na verdade, todos provavelmente escolheríamos ser operados por um excelente cirurgião ateu, do que por um medíocre cirurgião Cristão.
Segundo, a graça preveniente, que é dada a todo o ser humano, proverá graça salvadora em situações onde a plena aceitação de Jesus Cristo não é possível.
Situações dessas incluiriam crianças que morrem antes da idade da responsabilidade, doentes mentais, e aqueles que nunca tiveram a oportunidade ouvir o evangelho, como por exemplo, uma mulher Hindu do século sexto antes de Cristo. Os que nunca ouviram o evangelho serão julgados de acordo com a “luz”—a graça preveniente—que tiverem recebido—Romanos 1 e 2. Wesley passou uma boa porção de tempo contemplando este aspecto da obra do Espírito.
Terceiro, de acordo com os Wesleyanos, a graça preveniente faz-nos responsáveis pelo nosso pecado perante Deus. Se nascemos numa condição de pecado original que faz de nós tão depravados que não podemos deixar de escolher o mal, e isso continuamente, como pode um Deus justo julgar-nos por algo que não podemos evitar? A graça preveniente restaura-nos para um livre arbítrio em graça de modo
Que a justiça de Deus permanece justificada.
Arrependimento
No esquema de Wesley, o despertamento está intimamente ligado ao arrependimento. De certa forma, é difícil distinguir onde termina um e começa o outro. Pode ser visto como um “remorso piedoso”—o sentido de que por causa do nosso pecado nós não estamos em relacionamento correto com Deus, embora queiramos estar. O segundo sentido de arrependimento é o real abandono do pecado e reparo dos nossos caminhos.
Um ponto chave para Wesley é que este segundo aspecto do arrependimento só é possível mediante a fé. De outro modo, estaríamos impropriamente ligando a salvação aos nossos próprios esforços pessoais de alcançar a retidão. É só a graça, através da fé, que nos capacita a arrepender neste segundo sentido.
A dívida que Wesley tinha para com os Moravianos e a tradição Luterana no tocante à natureza da fé não pode ser subestimada. Contudo, Wesley não se limitou a aceitar simplesmente essa noção sem modificação. O seu pensamento evoluiu com o tempo. O seu encontro inicial com os Moravianos alterou a sua noção de salvação. Numa palavra, enquanto que antes de 1737 Wesley acreditava que a santificação precedia a justificação, depois de 1738 Wesley inverteu a ordem.
Somos justificados pela fé somente, sola fide. Não nos tornamos justos a fim de nos fazermos dignos da justificação Divina. A justificação é um dom gratuito de Deus, tal como o é a própria fé. Mas à luz do principal interesse de Wesley no aspecto “terapêutico” e “santificador” da salvação—e não na ênfase Ocidental sobre o perdão de culpa—e à luz do conceito que Wesley tinha do relacionamento dinâmico e cooperativo que temos com Deus na nossa própria salvação — em vez da ênfase Reformista sobre a irresistibilidade da graça — a própria definição que Wesley dá da fé amplia-se.
Na “religião experiencial” de Wesley, fé no sentido de mera aceitação de uma gama de afirmações nunca constituiria fé de verdade. Do mesmo modo, a fé estende-se para além da justificação e torna-se a essência da crença em Cristo para todo o momento ao longo da jornada da salvação. A fé é o relacionamento cooperativo que temos com Deus. Isso é conhecido comosinergismo — e não monergismo — e é fundamental para toda teologia Wesleyana.
O Testemunho do Espírito
Um elemento chave na noção que Wesley tem da experiência Cristã é a sua doutrina do testemunho do Espírito, também conhecida como a doutrina da segurança. À semelhança do que se deu com as suas outras doutrinas, também a doutrina da segurança evoluiu com o tempo. Na sua fase jovem — pré-Aldersgate — Wesley ligou a segurança à fé. Mas nessa altura, fé para Wesley constituía uma aceitação racional das postulações básicas da tradição Cristã, particularmente a Anglicana. As suas próprias lutas espirituais e falta de segurança pessoal, a despeito da sua ortodoxia, cedo o levaram a questionar a validade deste tipo de certeza racional.
O seu contacto com os Moravianos muito influenciou a compreensão que Wesley tinha da doutrina da segurança, ao ponto de ele chegar a defender que todos os Cristãos podiam perceber a obra do Espírito Santo nas suas vidas. Este entendimento de Wesley baseva-se em Romanos 8.15-16, que diz, “Pois não recebestes o espírito de escravidão para outra vez estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai! O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito de que somos filhos de Deus.” À semelhança dos Moravianos, Wesley acreditava que nós devemos almejar esta experiência de tal maneira que se não a temos, então é justo questionar a nossa fé em Cristo.
A insistência dos Moravianos em defender que com a experiência da segurança os Cristãos passam a ter gozo, paz e certeza, e isso continuamente, eventualmente veio a perturbar a Wesley. O Wesley sênior chegou a crer que enquanto que nós devemos esperar a segurança de que fala Romanos, é possível possuir fé salvadora sem ela. É igualmente possível perder a nossa segurança sem, contudo perder a salvação.
Concomitantes da Salvação
Cada um dos elementos seguintes é um designador de um aspecto diferente do “momento” da salvação.
Justificação
Ser justificado por Deus significa que os nossos pecados estão perdoados. A culpa pelos nossos pecados é removida. Deus não mais nos condena pelas nossas transgressões contra Ele. Wesley reiterou a justificação. Mas ele acreditou que a salvação mais plena vai para além da justificação para lidar com o problema subjacente do mal. O seu modelo “terapêutico” leva-o mais longe.
Regeneração
O termo favorito de Wesley para salvação era “Novo Nascimento.” Este conceito implica que somos regenerados, “nascidos de novo,” e feitos novas criaturas em Cristo. Wesley jamais desejou que a sua doutrina de santificação minimizasse o poder e significado do novo nascimento.
Adoção
Como vimos acima na seção sobre a segurança, Wesley firmemente declara a importância de ser filho de Deus e co-herdeiro com Cristo. Este aspecto da salvação também implica que somos nascidos numa família, numa comunidade de irmãos e irmãs em Cristo. Isso nos impede de imaginar a salvação como um evento e uma vida puramente privados.
Redenção
Redenção implica libertação do pecado. O Êxodo funciona como metáfora da redenção. A redenção também implica receber um novo propósito, nomeadamente amar a Deus com todo o nosso ser, e ao próximo como a nós mesmos. Nossas vidas são remidas do pecado e para o amor.
Reconciliação
Somos reconciliados com Deus. Este é um tema que encontramos nos escritos de Wesley, e também nos hinos de Charles. Neste sentido, a alienação e separação de Deus implícita no pecado é derrotada quando entramos num novo relacionamento com Deus.
Santificação Inicial
Este termo nunca foi utilizado por Wesley, mas reflete a sua convicção de que o momento de salvação dá início ao processo pelo qual somos feitos justos.
O Caminho da Salvação, parte 2
Wesley distingue dois aspectos da salvação: “Isso chama-se santificação, que é em verdade, até certo ponto, o fruto imediato da justificação embora sendo um dom distinto de Deus, um dom de natureza totalmente diferente. Enquanto que a justificação refere-se ao que Deus faz por nós através do seu Filho, a santificação é o que ele opera em nós por intermédio do seu Espírito.”
(Sermão, “Justificação pela Fé,”)
A Perfeição Cristã
Se calhar não existe outra doutrina de Wesley tão celebrada, tão influente, e tão debatida quanto a sua doutrina da perfeição Cristã.
As Fontes de Wesley
Wesley acreditava na perfeição Cristã por ser bíblica, mas também, em larga medida, por crer que ela estava assente na tradição Cristã. Wesley estava intimamente familiarizado com os escritores da Igreja Primitiva e seus pronunciamentos sobre a santidade. Entre eles estavam Inácio de Antioquia, o Pastor de Hermas, Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, Gregório de Nicéia, Macário, João Crisóstemo, Efraím Siro, e outros.
Wesley aprendeu muito com esses escritores sobre o potencial da graça de Deus de possibilitar e capacitar uma vida santa. Wesley afirmou que quando lia Macário, o seu coração “cantava.” Duma maneira geral, esses escritores deixaram em Wesley um intenso otimismo sobre a possibilidade da transformação da pessoa através da cooperação entre a graça e a resposta humana.
Escritores da Idade Média bem como da tradição Católica e Pietista profundamente influenciaram o pensamento de Wesley. Ele desafiou os seus pregadores a ler amplamente sobre a tradição Cristã, e várias vezes até lhes ofereceu excertos para ajudá-los a conhecê-la melhor. Em 1725 Wesley identificou três autores que muito influenciaram o seu entendimento da santidade: Tomás à Kempis, Jeremias Taylor, e
William Law.
Deles Wesley derivou importantes elementos do seu conceito da natureza da perfeição, como por exemplo, a possibilidade real de praticar a pureza de intenções, a necessidade de imitar Cristo como modelo de vida santa, e o amor por Deus e pelo próximo como a “perfeição” definitiva e normativa. Esta citação vem da sua obra Uma Explicação Clara da Perfeição Cristã, e serve de Kempis, Taylor, e Law.
Num sentido, [a Perfeição Cristã] é a pureza de intenções, a entrega de toda a vida a Deus. É entregar a Deus todo o nosso coração; é ter um só desejo e um só desígnio a governar todos os nossos sentimentos. É consagrar não apenas uma parte, mas todo o nosso coração, corpo e substância a Deus. Num outro sentido, é ter toda a mente de
Cristo capacitando-nos a andar como Cristo andou. É a circuncisão do coração de toda a sujeira, toda a poluição tanto interna como externa. É a renovação do coração na inteira imagem de Deus, a plena semelhança dAquele que o criou. E ainda noutro sentido, é amar a Deus com todo o nosso coração, e ao próximo como a nós mesmos.
Definição — De que se trata?
Em 1741 Wesley escreveu o sermão “A Perfeição Cristã.” Ele procurou definir o que é a perfeição Cristã começando por examinar em primeiro lugar o que ela não é. Por mais maturidade que os Cristãos possam alcançar nesta vida, eles não atingem as perfeições absolutas de onisciência, infalibilidade, onipotência. O seu entendimento continua limitado, os seus julgamentos estão sujeitos a erro, e os seus atos são por vezes limitados por “enfermidades” da presente condição humana.
O que é que poderia ser considerado uma “enfermidade” hoje?
Cristão é isento de sofrer tentação continuamente na sua vida. Por outro lado, Wesley acreditava que mesmo os Cristãos recém-nascidos são perfeitos no sentido de que eles não precisam cometer atos externos de pecado. Posteriormente Wesley modificaria a sua opinião sobre o relacionamento entre a perfeição Cristã e o pecado, observando que os Cristãos nunca se tornam incapazes de pecar, mas que o pecado já não tem que dominar o coração do crente.
Em 1761, Wesley escreveu a obra “Sobre a Perfeição,” em que afirmou que a perfeição Cristã é
· ter a mente de Cristo
· a renovação da imagem de Deus em nós
· o amor perfeito
· santidade interior e exterior
A principal definição que Wesley dá da santidade é o amor. É o amor que “exclui” o pecado da vida do Cristão. Na opinião de Mildred Bangs Wynkoop, enganamo-nos em relação à santidade se vemos nela apenas a ausência do pecado. A santidade não é uma ausência, mas sim uma presença, a presença do amor.
O que é a santidade?
Como é que ocorre a inteira santificação?
Ocorrência — Como é que ela ocorre?
Quando Wesley usa o termo “santificação” ele está a referir-se à vida Cristã na sua totalidade e à restauração “terapêutica” ou espiritual que se dá ao longo da jornada espiritual. É também nesse sentido que ele usa o termo “salvação”. Mas “santificação” tem ainda outros significados.
Wesley faz referência ao que se chama de santificação inicial para deixar claro que a retidão oferecida por Cristo começa a ter efeito no novo crente. Aqui Deus inicia o processo de fazer-nos retos e santos. Aquilo que podemos designar de crescimento na graça é a “santificação progressiva” ou “gradual” que ocorre entre o novo nascimento e a “inteira santificação,” bem como entre a “inteira santificação” e a “santificação final”—também conhecida como glorificação. Wesley pôs grande ênfase sobre a necessidade da santificação progressiva.
Para Wesley, inteira santificação refere-se a uma experiência mais profunda da graça de Deus. Ele oferece explicação disso na sua obra Uma Explicação Clara da Perfeição Cristã. Nela ele explica que essa experiência não acontece tão cedo quanto a justificação, nem tão tarde quanto a morte. Ele sublinha que a obra gradual tem que preceder bem como seguir a experiência. Mais explica que ela é susceptível de perda. Ele também lida com a questão da “instantaneidade” através da sua clássica declaração de que o indivíduo pode estar a morrer por algum tempo, mas que inevitavelmente o momento da morte acaba por ocorrer.
O que mais divide os entendidos Wesleyanos é a questão da maneira como Wesley entende a manifestação da inteira santificação. Alguns acham que a ênfase do Movimento da Santidade sobre a “instantaneidade” vai muito além da intenção de Wesley e “rigidifica” a sua teologia que é muito mais fluida e dinâmica. Outros dizem que uma definitiva, segunda experiência de crise alinha-se perfeitamente com o paradigma do próprio Wesley e não deve ser vista como uma renovação vinda do século 19. Na interpretação da Dra. Leclerc, era o desejo de Wesley que tanto a experiência instantânea como o crescimento gradual fossem alvo de igual atenção.
Declarações Sumárias
1. Wesley mantém que o amor por Deus e pelo próximo é descritivo e normativo da vida Cristã. No seu entender, o amor não é algo apenas presente, mas sim algo que “reina” no coração do crente maduro.
2. Wesley chegou a identificar a inteira santificação com um certo nível de maturidade Cristã e foi cauteloso em reivindicá-la ainda muito cedo na peregrinação Cristã, mas também exortou os fiéis a procurar a experiência “agora.”
3. A santidade, ou o amor perfeito, é uma obra da graça tanto progressiva como instantânea.
4. A santidade, ou o amor perfeito, é sinérgica; é vivida num relacionamento dinâmico com Deus, o qual concede a graça que necessitamos para ser santos.
5. Wesley chegou a suspeitar de termos como a “destruição” do pecado, que implicavam a impossibilidade de regresso do pecado; mas Wesley permaneceu altamente otimista de que o amor derramado no nosso coração através da fé pode “excluir” o pecado. Ele aborreceu-se com a disputa sobre a possibilidade da perfeição Cristã ser impecável. A tônica dele estava no amor, não na impecabilidade como o alvo da maturidade Cristã.
6. Uma das maiores, senão a maior das contenções de Wesley era que a vida Cristã não tinha que continuar a ser uma vida de luta contínua. Para ele, negar este tipo de transformação vitoriosa era negar a suficiência da graça capacitadora de Deus — era fazer do poder do pecado maior do que o poder da graça.
Meios da Graça e Sacramentos
“Para mim, os ‘meios da graça’ são os sinais externos, palavras, ou ações, ordenadas por Deus, para servirem de canais através dos quais Ele pode estender às pessoas graça preveniente, justificadora e santificadora… Todos quantos desejam a graça de Deus devem esperar por ela através dos meios que ele tem provido.”
(De Works, Edição de Jackson, vol.5:187)
Meios da Graça Segundo Wesley
No centro do conceito que Wesley tinha da formação espiritual, de como cresce o Cristão, está o seu conceito de “meios da graça.” Ele escreve: “Para mim, os ‘meios da graça’ são os sinais externos, palavras, ou ações, ordenadas por Deus, para servirem de canais através dos quais Ele pode estender às pessoas graça preveniente, justificadora e santificadora.” Para além disso, “Todos quantos desejam a graça de Deus devem esperar por ela através dos meios que ele tem provido.”
Os meios da graça são os meios pelos quais nós nos abrimos para experimentar o amor e a graça de Deus nas nossas vidas. Muitas vezes nós nos envolvemos em atividades como ler a Bíblia ou orar, porque pensamos que em fazendo isso nós “provamos” a Deus a nossa vontade de obedecer, ou pior ainda, que por meio dessas obras nós ganhamos o favor de Deus.
Mas o conceito de Wesley leva-nos para além da mera obediência ou qualquer tipo de retidão baseada em obras, ao enfatizar que a maneira como nós agimos como Cristãos na verdade acaba por ser para o benefício do nosso próprio crescimento e transformação à semelhança de Cristo. Para ser perfeitamente claro, Wesley firmemente defendeu que “o uso dos meios jamais expiará um pecado sequer; isso só o sangue de Cristo pode fazer.” Mas como é que nós recebemos os benefícios da expiação de Cristo? Wesley é claro: recebendo os meios.
Wesley colocado certas atividades em três categorias.
Em primeiro lugar estão os meios gerais da graça.
Nesta lista ele inclui observar os mandamentos, negarnos a nós mesmos, tomar a nossa cruz, e cultivar a presença de Deus. Ao negarmo-nos a nós mesmos, Wesley acreditava, podemos aproximar-nos mais de Deus quando voluntariamente pomos de lado as distrações. Wesley também acreditava que quando “tomamos a nossa cruz,” nós podemos aproximar-nos de Deus e dos Seus propósitos, engajando-nos naquilo que vai contra as nossas inclinações naturais. Cultivar a presença de Deus é a prática de estar ciente de Deus ao longo do dia. Cada um desses meios gerais nos deixa abertos à graça de Deus.
Wesley usa o termo meios instituídos ou particulares da graça, para se referir àqueles meios em que o próprio Cristo admoesta os Seus discípulos a participar, tais como a oração, a leitura da Bíblia, a Ceia do Senhor, o jejum, e a “Conferência Cristã,” termo que Wesley usou para se referir à conversa Cristã.
Os meios prudentes da graça evoluíram com o tempo, tendo sido reconhecidos como ações “sábias” na vida de crescimento na graça. Estas incluem reuniões de classe (pequenos grupos), reuniões de oração, cultos de testemunho e de vigília, celebrações de amor (um tipo de culto de testemunho), visitação aos doentes, fazer todo o bem possível, e leitura de devocionais clássicos.
Batismo
Batismo Infantil
A Igreja do Nazareno sempre afirmou o batismo infantil, embora a maioria dos membros não o pratique. Os pais decidem se batizam ou não o seu menino. O batismo infantil provém das nossas raízes Metodistas, e da teologia de John Wesley. Quando batizamos crianças, estamos reconhecendo ao mesmo tempo várias características importantes de Deus.
. Em primeiro lugar, proclamamos juntos a nossa crença na realidade da graça preveniente de Deus. Enquanto que a dedicação centra-se na responsabilidade dos pais em relação aos filhos, o batismo é virado para a responsabilidade de Deus para com o menino, constituindo assim uma das poucas ocasiões em que a igreja junta celebra a doutrina da graça preveniente.
. A graça preveniente é aquela graça que faz da criança parte do Corpo de Cristo. É a graça que a mantém segura nos braços carinhosos de Deus contra qualquer eventualidade; e é a graça que mais tarde a trará ao ponto de uma decisão pessoal por Jesus Cristo, se ela assim responder. É graça concedida pelo Espírito Santo, que cremos irá trabalhar misteriosamente na sua vida.
. Ao apresentarem uma criança para o batismo, os pais estão a fazer um compromisso perante o povo de Deus de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para guiar e alimentar o seu filho espiritualmente. Mas mais importante ainda, reconhecemos que o próprio Deus se compromete com a criança profunda e duradouramente — para além do que podemos pedir ou imaginar.
Cremos que o batismo, como símbolo da nova aliança, é o sinal das promessas de Deus mesmo para a criança, tal como a circuncisão constituía sinal da aliança de Deus no Velho Testamento.
Cremos que a criança pertence a Deus. O batismo é um sacramento, e como denominação nós acreditamos na verdadeira santidade desse evento tal como reconhecemos a santidade da vida.
Batismo do Crente
A Igreja do Nazareno também afirma a validade do batismo adulto ou “do crente.” Este seria muito mais raro no contexto de Wesley, visto que quase todo o cidadão Britânico era batizado ainda criança na Igreja Anglicana.
Cabe assim a autoridades como Rob Staples desenvolver um conceito Wesleyano de batismo adulto. Staples enuncia cinco significados diferentes que o símbolo do batismo sugere.
1. Levar o marco de Cristo: o Crente deve levar o “marco” da pureza de Cristo.
2. Morrer com Cristo: o símbolo, especialmente quando o modo de imersão é usado, representa a Sepultura — debaixo da água — que significa morte para o pecado.
3. Viver a vida de Cristo: Emergir da água simboliza a nossa participação na ressurreição e também que o enterramento dos nossos pecados nos liberta para viver uma nova vida como nova criação em Cristo.
4. Receber o Espírito de Cristo: Tal como o Espírito esteve presente no batismo do próprio Cristo, afirmamos que o Espírito está presente no nosso batismo. Como diz Paulo em Romanos, todos quantos estão em Cristo receberam o Espírito de Cristo. Assim, o batismo, como símbolo da nossa vida em Cristo, é também simbólico da presença do Espírito.
5. Tornar-se parte do corpo de Cristo: desde as primeiras liturgias Cristãs, que o batismo era visto como ponto de transição do noviço à plena membrasia na Igreja.
Santa Ceia
Wesley tinha uma apreciação muito elevada da Ceia do Senhor. Será mais fácil considerar a sua posição se antes esboçarmos as interpretações clássicas da Santa Ceia.
Transubstanciação: Esta teoria é associada a maior parte das vezes com o Catolicismo Romano. É a crença de que o pão e vinho se transformam no verdadeiro corpo e sangue de Cristo. Quando o sacerdote faz a oração da consagração, dá-se uma mudança na essência dos elementos, embora continuem parecendo como pão e vinho.
Consubstanciação: Esta teoria associa-se mais frequentemente com Martinho Lutero. É semelhante à transubstanciação no sentido de que o sangue e corpo de Cristo estão literalmente presentes no pão e vinho. A diferença é que a essência dos elementos também continua a ser pão e vinho ao mesmo tempo que corpo e sangue.
Presença Espiritual: Esta teoria é mais comumente associada com João Calvino. Calvino não acreditou que havia uma mudança nos elementos, mas que Cristo verdadeiramente entra no pão e vinho num sentido espiritual.
Memorial: Esta teoria é associada geralmente com Ulrico Zuínglio, um Reformador contemporâneo de Calvino e Lutero. Esta teoria declara que a Ceia do Senhor deve ser tomada como um memorial da morte de Cristo, como memória do Seu sacrifício por nós. Não há aqui a noção de que Cristo participa nos elementos em si.
A maior parte dos entendidos concorda que a posição de Wesley é intermédia, entre o conceito de presença espiritual e a posição memorialista — com alguns intérpretes da posição de Wesley a colocá-lo bem próximo de Calvino.
A diferença entre Wesley e Calvino é que o que se experiência não é apenas a presença de Cristo, como manteve Calvino, mas a presença da inteira Trindade no pleno ato da Santa Ceia. A posição de Wesley centra-se na Santa Ceia como um meio da graça. Eis aqui as suas próprias palavras:
“A ceia do Senhor foi ordenada por Deus para servir como meio de comunicar graça preveniente, ou justificadora, ou santificadora, conforme a necessidade da pessoa. Aqueles para quem ela foi ordenada são todos quantos sabem e sentem que querem a graça de Deus, seja para livrá-los do pecado, para mostrar que os seus pecados já foram perdoados, para renovar as suas almas na imagem de Deus, ou para entrar na presença de Deus em comunhão com ele. Nenhuma preparação é necessária para além de um desejo de receber qualquer graça que Deus achar por bem conceder.
Nenhuma aptidão é exigida para além de um sentido da nossa total pecaminosidade e invalidez longe de Cristo. Assim, se desejares a graça que Deus deseja conceder-te, aproxima-te e recebe conforto e força.”
Rob Staples sublinha que a Santa Ceia é particularmente um meio de graça santificadora, lembrando-nos assim que no pensamento de Wesley existe uma ligação integral entre os meios da graça e o crescimento na nossa santificação. É impossível crescer na nossa caminhada espiritual sem assistir aos meios da graça de uma maneira geral. Mas para Wesley, a Santa Ceia era o meio mais importante, e negligenciá-la era inconcebível.
O Dever de Comunhão Constante
De novo, Rob Staples ajuda-nos a interpretar o significado da Santa Ceia quando examina o significado do símbolo.
A Santa Ceia é um símbolo de:
. Gratidão a Deus
. Comemoração de Cristo
. Auto-sacrifício ou consagração
. Comunhão e unidade dos fiéis
. Promessa da vinda do Reino
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Gravura: John Wesley
__________________ Fonte: Ideário Arminiano