O Amor de Deus É Limitado aos Eleitos?

2 Comentários

Refutando um Desafio Calvinista ao Evangelho

Roger E. Olsonroger olson - arminius hoje

A doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. Ele é também o calcanhar de Aquiles do Calvinismo; sem ele os outros pontos caem.

 O recente renascimento do Calvinismo entre os evangélicos trouxe à tona a questão da extensão da morte expiatória de Cristo na cruz. Muitos cristãos evangélicos simplesmente assumem que Cristo morreu por todos – que Ele carregou os pecados e sofreu a penalidade por cada pecador. Pelos últimos quatro séculos, entretanto, tem havido uma representação minoritária entre os protestantes. A maioria dos calvinistas, seguidores do reformador francês da Suíça, João Calvino (1509-1564), têm ensinado que Cristo suportou a penalidade somente pelos pecados dos eleitos – aqueles incondicionalmente predestinados por Deus para a salvação. Calvinistas contemporâneos (eles muitas vezes preferem ser chamados de cristãos reformados) chamam esta doutrina de “redenção particular” ou “expiação definida.”

 Entre os defensores evangélicos contemporâneos da expiação limitada estão, mais notavelmente, R. C. Sproul e John Piper. Sproul (nascido em 1939) tem sido um influente apologista evangélico e teólogo reformado por grande parte da última metade do século 20. De sua base em seu Ministério Ligonier ele tem falado no rádio, viajado para discursar em muitas conferências teológicas e apologéticas e escreveu muitos livros – a maioria deles tratando da soberania de Deus a partir de uma perspectiva fortemente reformada.

 Piper (nascido em 1946), pastor de Igreja Batista Bethlehem de Minneapolis, e fundador do Ministério Desiring God, também viaja muito e discursa em grandes encontros de cristãos evangélicos – incluindo as conferências Passionfrequentadas por milhares da maioria dos jovens e adolescentes batistas do sul. Ele é um prolífico autor cujos livros, incluindo Desiring God: Confessions of a Christian Hedonist (1986), têm vendido milhões de cópias. Como Sproul, Piper é um promotor apaixonado do Calvinismo de cinco pontos.

 CALVINISMO DE CINCO PONTOS

 O Calvinismo de cinco pontos é a crença nas doutrinas representadas pelo acróstico TULIP: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Os calvinistas criaram o acróstico por volta de 1913, mas as “doutrinas da graça” que ele representa remontam ao sucessor de Calvino – Teodoro Beza (1519-1605) – diretor da Academia de Genebra (um seminário reformado em Genebra, Suíça, fundado por Calvino). A expiação limitada se encontra no centro deste sistema teológico. Sproul, Piper e muitos outros teólogos evangélicos contemporâneos influentes tenazmente mantêm e defendem esta posição.

 EXPIAÇÃO LIMITADA

 O que a expiação limitada ou redenção particular significa? De acordo com Sproul, que prefere chamar essa doutrina de “expiação designada,” ela significa que Deus pretendeu que a morte de Cristo na cruz assegurasse a salvação de um número definido de seres humanos caídos – aqueles escolhidos incondicionalmente por Deus. Como outros calvinistas, Sproul argumenta que a morte substitutiva de Cristo (isto é, Deus impôs sobre Cristo a penalidade pelos pecados merecida pelos pecadores) foi de valor suficiente para salvar a todos, mas Deus apenas pretendeu que ela salvasse os eleitos. No sentido mais significante, Cristo morreu apenas pelos eleitos e não por todos.

 Para Sproul (e outros como ele), esta doutrina não é dispensável; ela é parte essencial do sistema TULIP que eles creem ser a única que faz justiça à soberania de Deus e à natureza do dom da salvação. Um argumento usado por Sproul, seguindo o teólogo puritano John Owen (1616-1683), é que, se Cristo morreu por todos igualmente, então todos são salvos. Afinal, como segue o argumento, seria injustiça de Deus punir os mesmos pecados duas vezes – uma vez impondo a penalidade sobre Cristo e outra vez ao enviar o pecador para o inferno.

 Piper é igualmente apaixonado pela expiação limitada. Como Sproul, ele não a considera um ponto secundário da teologia. Em um artigo intitulado “For Whom Did Christ Die and What Did Christ Actually Achieve on the Cross for Those for Whom He Died?[1]Piper argumenta que não é o calvinista que limita a expiação, mas o não-calvinista que crê na expiação universal. A razão: Aqueles que creem na expiação universal devem dizer que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas a oportunidade de salvarem a si mesmas. Ou eles devem abraçar o universalismo.

 Piper continua e argumenta que Cristo de fato morreu por todas as pessoas, mas não da mesma maneira. Todas as pessoas se beneficiam da morte de Cristo, por exemplo, recebendo certas bênçãos nesta vida que eles de outra forma não receberiam – mas somente os eleitos recebem dela o benefício da salvação.

 Esta doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. O teólogo evangélico Vernon Grounds, ex-presidente do Seminário Denver, atacou severamente a doutrina. Apontando para Jo 1.29; Rm 5.17-21; 11.32; 1Tm 2.6; Hb 2.9; e 1Jo 2.2, ele escreveu, “É preciso uma engenhosidade exegética que é outra coisa menos uma habilidade culta esvaziar estes textos de seu significado óbvio: é preciso uma engenhosidade exegética próxima de um sofisma negar sua explícita universalidade.”[2]É desnecessário dizer, muitos evangélicos, incluindo alguns calvinistas, acham essa doutrina repugnante.

 BASE PARA A EXPIAÇÃO LIMITADA

 Antes de explicar por que esta doutrina é repulsiva, será proveitoso ver as razões por que muitos calvinistas a têm em alta conta e a promovem tão apaixonadamente. Mais uma vez, o que é esta doutrina? É que Deus pretendeu que a morte de Jesus na cruz fosse uma propiciação (um sacrifício expiatório, substitutivo) apenas pelos pecados dos eleitos – aqueles que Deus escolheu salvar à parte de qualquer coisa que Ele vê neles ou sobre eles (exceto Sua escolha dessas pessoas para a Sua glória e boa vontade).

 Por que alguém acreditaria nisso?

 Os proponentes da expiação limitada apontam várias Escrituras: Jo 10.15; 17.6 e versículos semelhantes em Jo 10-17; Rm 8.32; Ef 5.25-27; Tt 2.14.

 Os calvinistas usam Jo 10.15 para apoiar o seu ensino: “Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas.” Muitos outros versículos em João dizem quase a mesma coisa – que Cristo deu a Sua vida por Suas ovelhas (isto é, Seus discípulos e todos os que viriam depois deles).

 Os calvinistas também apontam Rm 8.32: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” Eles supõem que “todos nós” faz referência aos eleitos.

 Ef 5.25-27 diz, “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.” Os calvinistas creem que esta passagem, como muitas outras, se refere apenas à igreja como o objeto do sacrifício purificador de Cristo.

 Tt 2.14 diz: “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” Os calvinistas acreditam que Paulo, o autor de Tito, parece restringir os benefícios salvadores da morte de Cristo ao “seu povo,” o que eles acreditam ser os eleitos.

 Os calvinistas assumem que estes versículos e outros como eles ensinam que Cristo morreu somente por aqueles escolhidos por Deus para a salvação. Mas estes versículos não ensinam as crenças calvinistas. Em nenhum lugar a Bíblia explicitamente ensina esta doutrina calvinista.

 Os calvinistas atribuem a estas passagens sua crença que Cristo morreu somente pela igreja, pelo Seu povo, por Suas ovelhas. Estes versículos não dizem que Cristo não morreu também pelos outros. E, como veremos, há muitas passagens que ensinam claramente que Cristo morreu por todos.

 Há outra razão para os calvinistas crerem na expiação limitada. Se Cristo morreu igualmente por todos, eles alegam, então todos são salvos. Eles argumentam que aqueles que creem na expiação universal se defrontam com duas opções inevitáveis, mas biblicamente insustentáveis: ou a morte de Cristo salvou a todos ou ela não salvou ninguém. Este argumento é, no entanto, falacioso. A expiação universal não requer a salvação universal; ela somente requer a possibilidade de salvação universal.

 É possível que os mesmos pecados sejam punidos duas vezes e é isso o que torna o inferno tão absolutamente trágico – ele é totalmente desnecessário. Deus pune com o inferno aqueles que rejeitam a substituição de Seu Filho. Uma analogia ajudará a tornar isto claro. Após a Guerra do Vietnã, o presidente Jimmy Carter concedeu uma anistia geral a todos os desertores que fugiram para o Canadá e outros locais. Por decreto presidencial eles estavam livres para voltar para casa. Alguns voltaram e outros não. Seu crime não era mais punível; mas alguns se recusaram a tirar proveito da anistia e puniram a si mesmos ficando longe de casa e da família. Os crentes na expiação universal creem que Deus permite aos pecadores recusarem o benefício da cruz de Cristo para sofrerem a punição do inferno apesar do fato dele ser totalmente desnecessário.

 Talvez a razão apresentada mais retoricamente poderosa para a expiação limitada seja aquela oferecida por John Piper (e outros calvinistas antes dele) que diz em For Whom Did Christ Die? que aqueles que creem na expiação universal “devem dizer” que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas uma oportunidade de salvarem a si mesmas. Este é um raciocínio totalmente falacioso.

 Os arminianos (aqueles que seguem Tiago Armínio na rejeição da eleição incondicional, da expiação limitada e da graça irresistível) creem que a morte de Cristo na cruz salva todos que a recebem pela fé. A morte de Cristo assegura a salvação destes – tanto quanto assegura a salvação dos eleitos no Calvinismo. Ela garante que qualquer um que vai a Cristo em fé será salvo por Sua morte. Isto não implica que eles salvam a si mesmos. Isso simplesmente significa que eles aceitaram a obra de Cristo em seu favor.

 RESPONDENDO AO CALVINISMO

 É difícil resistir à impressão de que os calvinistas que creem na expiação limitada assim o fazem não por claras razões bíblicas, mas porque eles acham que a Escritura a permite e a razão a exige. Não há nada necessariamente errado com isso, mas no mínimo alguns calvinistas como Piper têm criticado outros por fazerem o mesmo.[3] Piper critica outros por alegadamente abraçarem doutrinas somente porque a Escritura as permite e a lógica as exige. Parece a muitos não-calvinistas, no entanto, que os crentes na expiação limitada fazem exatamente isso. Carecendo de claro e inequívoco apoio bíblico para esta doutrina, eles a abraçam porque acham que a Escritura a permite e o seu sistema TULIP logicamente a exige. Afinal, se a eleição é incondicional e a graça é irresistível, então parece que a expiação seria somente para os eleitos.

 A Escritura contradiz a expiação limitada em Jo 3.16, 17; Rm 14.15; 2Co 5.18-19; Cl 1.19, 20; 1Tm 2.5, 6; 1Jo 2.2. Todos conhecem Jo 3.16, 17: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” Tipicamente, os calvinistas respondem que nestes versículos “mundo” faz referência a todos os tipos de pessoas e não a todos. Entretanto, isso tornaria possível interpretar todas as passagens onde o Novo Testamento conta que o “mundo” é pecador e caído no sentido de que somente algumas pessoas – todos os tipos – são pecadoras e caídas. A interpretação calvinista de Jo 3.16, 17 parece se encaixar na descrição de Vernon Grounds de exegese defeituosa usada para defender a expiação limitada.

 1Jo 2.2 é outra passagem que não podemos reconciliar com a expiação limitada: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” Esta passagem enfraquece completamente a interpretação calvinista de “mundo” em Jo 3.16, 17 porque ela explicitamente afirma que Cristo morreu uma morte expiatória não somente pelos crentes, mas também por todos. Aqui “mundo” deve incluir os não crentes porque “nosso” se refere aos crentes. Este versículo torna impossível dizer que a morte de Cristo beneficia a todos, só que não da mesma maneira (Piper diz que a morte de Cristo beneficia os não-eleitos dando-lhes somente bênçãos temporais). João diz clara e inequivocamente que o sacrifício expiatório de Cristo foi pelos pecados de todos – inclusive daqueles que não são crentes.

 E quanto a 2Co 5.18-19? “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.” Os calvinistas às vezes argumentam que esta passagem dá apoio à expiação limitada. Afinal, se Deus estava em Cristo não imputando os pecados de todos, então todos são salvos. Portanto, eles dizem, “todos” deve significar somente os eleitos. Mas isso não é verdadeiro. Quando Paulo diz que Deus estava reconciliando o mundo consigo, não imputando os pecados das pessoas contra elas, ele quer dizer se elas se arrependerem e crerem. Em outras palavras, a expiação reconciliou Deus com o mundo para que Ele pudesse perdoá-lo; isso satisfez as demandas da justiça para que da parte de Deus a reconciliação fosse possível. Mas resta aos pecadores aceitar isso pela fé. Então a plena reconciliação acontece.

 Cl 1.19, 20, diz, “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.” É impossível interpretar “todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” como se referindo somente aos eleitos. Esta passagem refuta a expiação limitada. Igualmente faz 1Tm 2.5, 6: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.” A única maneira de um crente na expiação limitada conseguir escapar da força desta passagem é interpretar o grego traduzido como “todos os homens” como de alguma forma significando “todos os tipos de homens,” mas essa não é uma interpretação permitida pelo uso comum da expressão na literatura grega fora do Novo Testamento (ou em outro lugar nele).

 Muitas Escrituras indicam claramente que o sacrifício expiatório de Jesus foi pretendido para todos, que Sua punição substitutiva foi por todas as pessoas. Mas há duas passagens raramente discutidas do Novo Testamento que absolutamente destroem a expiação limitada: Rm 14.15 e 1Co 8.11. Nestes versículos, Paulo severamente adverte os cristãos contra levar pessoas por quem Cristo morreu à destruição. A tradução grega das palavras “destruir” e “destruído” nestes versículos não pode significar meramente prejudicado ou ferido. Paulo claramente está advertindo as pessoas de que é possível levar as pessoas por quem Cristo morreu ao inferno (levando-as a tropeçarem e cairem pela demonstração de sua liberdade própria para comer carne sacrificada aos ídolos). Se o Calvinismo da TULIP está correto, esta advertência é inútil, porque isso não pode acontecer. De acordo com o Calvinismo, os eleitos, por quem Cristo morreu, não podem se perder.

 O peso da Escritura é claramente oposto à expiação limitada. As interpretações calvinistas destas e de passagens semelhantes faz recordar o sinal do lado de fora de uma ferraria se referindo ao seu trabalho artístico com metais: “Todos os tipos imagináveis de torção e torneamento são feitos aqui.” Entretanto, o problema com a expiação limitada vai além de alguns versículos que os calvinistas não podem explicar sem distorcer seus claros significados. O maior problema atinge o cerne da doutrina de Deus. Quem é Deus e como ele é?

 EXPIAÇÃO LIMITADA E A NATUREZA DE DEUS

 Se Deus é amor (1Jo 4.7), mas pretendeu que a morte expiatória de Cristo fosse a propiciação somente para algumas pessoas de forma que somente elas têm alguma chance de serem salvas, então o “amor” não tem nenhum significado inteligível quando se refere a Deus. Todos os cristãos concordam que Deus é amor. Mas os crentes na expiação limitada devem interpretar o amor de Deus como de alguma forma compatível com Deus incondicionalmente selecionando algumas pessoas para o tormento eterno no inferno quando Ele poderia salvá-las (porque a eleição para a salvação, e assim a própria salvação, é incondicional). Não há analogia na existência humana para este tipo de comportamento que é considerado como amoroso. Nós nunca consideraríamos como amoroso alguém que, por exemplo, podendo resgatar pessoas se afogando, se recusa a fazê-lo e resgata somente algumas. Consideraríamos tal pessoa má, mesmo se as pessoas resgatadas apreciassem o que a pessoa fez por elas.

 Os calvinistas tipicamente lidam com isso de duas maneiras. Alguns dizem que o amor de Deus é diferente do nosso amor. Mas se ele é tão diferente, ele é ininteligível. Se o “amor” de Deus não tem semelhança com algo que chamaríamos de amor, se ele se assemelha mais ao ódio do que ao amor, então ele perde todo o significado. Então, quando uma pessoa diz que Deus é amor, ela poderia também estar usando uma palavra sem sentido como “creech” – Deus é creech. Também, onde Deus melhor demonstrou o Seu amor do que em Jesus Cristo? Mas o amor de Jesus Cristo pelas pessoas é arbitrário e odioso a algumas? Ou Jesus Cristo em Seu amor por todas as pessoas revela o coração de Deus? O Calvinismo acaba tendo que pressupor um Deus oculto, muito diferente de Jesus Cristo.

 A outra maneira dos calvinistas lidarem com o amor de Deus e tentar reconciliá-lo com a expiação limitada e a dupla predestinação (as duas são realmente inseparáveis) é dizer que Deus ama todas as pessoas de alguma forma, mas somente algumas (os eleitos) de todas as formas. Piper, por exemplo, exalta o amor de Deus por todos – até mesmo ao não-eleito. Ele diz que Deus concede bênçãos temporais sobre os não-eleitos – isto é, conforme eles se movem em direção ao seu tormento eterno predestinado no inferno. John Wesley, respondendo a uma alegação similar dos calvinistas de sua época, ironizou dizendo que este é o tipo de amor que faz o sangue gelar nas veias. Uma outra resposta é que isso simplesmente significa que Deus dá aos não-eleitos um pouco do céu para levar com eles em sua jornada ao inferno. Que tipo de amor é esse – que dá bênçãos temporais e felicidade às pessoas escolhidas por Deus para o sofrimento eterno no inferno? Afinal, se o Calvinismo está correto, não há nada impedindo Deus de escolher todas as pessoas para o céu, exceto, alguns dizem, a Sua própria glória. Alguns calvinistas dizem que Deus deve manifestar todos os Seus atributos e um atributo é a justiça que torna o inferno necessário. Mais uma vez, no entanto, isso não funciona, porque a cruz foi uma manifestação suficiente da justiça de Deus.

 A expiação limitada torna o evangelismo indiscriminado impossível. Um crente na expiação limitada nunca pode dizer a algum estranho ou grupo aleatório: “Deus ama vocês e Cristo morreu pelos seus pecados e pelos meus; vocês podem ser salvos.” Todavia, esta é a própria força vital do evangelismo – contar as boas novas a todos e convidá-los a virem a Jesus Cristo em arrependimento e fé. Muitos calvinistas são inclinados ao evangelismo e às missões, mas em seu evangelismo e missões eles não podem dizer a todos no alcance de suas vozes que Deus os ama, que Jesus morreu por eles e que Ele quer que eles sejam salvos. Eles podem proclamar o evangelho (como eles o interpretam), mas não podem requerer fé prometendo-lhes salvação através de Cristo a todos que eles encontram ou a quem eles pregam.

 A expiação limitada é o calcanhar de Aquiles do Calvinismo TULIP; sem ela os outros pontos da TULIP caem. Se Deus é verdadeiramente amor, então Cristo morreu por todos para que todos possam ser salvos.

 

Fonte: http://enrichmentjournal.ag.org/201203/201203_044_limited_atonement.cfm

Tradução: Cloves Rocha dos Santos


[1] http://www.monergism.com/thethreshold/articles/piper/piper_atonement.html.

[2] Vernon C. Grounds, “God’s Universal Salvific Grace” em Grace Unlimited, ed., Clark H. Pinnock (Minneapolis: Bethany House, 1975), 27.

[3] John Piper, The Pleasures of God: Meditations on God’s Delight in Being God (Portland: Multnomah, 2000). Ver a longa nota de rodapé acerca da alegada hermenêutica falha de Pinnock, 70–74.

Anúncios

Deus Sempre Faz a “Coisa Mais Sábia”?

Deixe um comentário

Roger E. Olson 

 

Muitos (não todos) calvinistas argumentam que o livre-arbítrio libertário, ou poder de escolha contrária, é um conceito incoerente (p. e. Jonathan Edwards, Loraine Boettner, R. C. Sproul, John Frame, John Piper e outros). A razão é, eles argumentam, que ele equivale a crer em efeitos não causados. Eles argumentam que pessoas agem de acordo com seu motivo mais forte.

 O que eu frequentemente me pergunto é se os calvinistas que argumentam assim creem que Deus tem poder de escolha contrária. Se Deus tem poder de escolha contrária, então não pode ser um conceito exatamente incoerente. Mas dizer que Deus NÃO tem poder de escolha contrária parece tornar Deus prisioneiro da criação. Sem poder de escolha contrária, a decisão de Deus de criar seria necessária e isso tornaria a criação menos do que graciosa e, de fato, uma parte da própria vida de Deus – não um ato livre como se Deus pudesse ter feito de outra forma.

 A maneira que Jonathan Edwards tentou se esquivar disto em The Freedom of the Will foi dizer que Deus sempre faz a coisa mais sábia. Calvinistas contemporâneos que o seguem de perto concordam. Em outras palavras, de acordo com Edwards, Deus poderia ter feito outra coisa além de criar o mundo, mas ele criou o mundo porque era o “mais adequado” a fazer.

 Minha pergunta é como isto contorna o problema. Para mim, parece como uma evasiva; isto é, parece tentar responder o desafio sem respondê-lo. Parece como dizer, ambos ao mesmo tempo, que Deus poderia não ter criado e que Deus não poderia não ter criado.

 A pergunta é simplesmente esta: É logicamente concebível que Deus pudesse não ter criado o mundo? É concebível que Deus pudesse ter decidido contra esta ou qualquer criação?

 A resposta de Edwards parece dizer sim e não ao mesmo tempo. Isto vai contra as leis da lógica, A NÃO SER que ele possa explicar como o “sim” e o “não” se referem a coisas diferentes. Mas em sua explicação, eles não se referem.

 A pergunta é: Deus é prisioneiro de sua própria sabedoria (ou de qualquer coisa)? Eu anteriormente discuti aqui a questão do nominalismo/voluntarismo versus o realismo – isto é, se Deus tem uma natureza. Mas até mesmo os realistas mais estritos não creem que Deus é prisioneiro de seu caráter eterno. Antes, seu caráter eterno guia suas decisões; ele não necessariamente as governa.

 Se alguém diz que Deus “sempre faz a coisa mais sábia” COM A SUPOSIÇÃO de que há sempre somente UMA “coisa mais sábia”, então como alguém não está tornando a criação necessária e, portanto, não graciosa? (Um princípio básico da teologia é que o que é por natureza não pode ser por graça. Se eu TENHO que resgatar você, não é um ato de misericórdia ou graça.).

 Por que supor que há sempre somente UMA “coisa sábia” a ser feita – até mesmo para Deus? Por que não poderia ter sido sábio criar, mas também sábio não criar? Obviamente, como qualquer racionalista irá querer saber, então por que Deus criou? Isto foi simplesmente uma escolha arbitrária – como lançar dados?

 Aqui eu sou tentado a devolver ao calvinista seu próprio argumento que a escolha de Deus de alguns para salvar e de outros para condenar não é arbitrária sem qualquer palpite do que poderia explicá-la. Em outras palavras, se é justo ao calvinista argumentar que a seleção divina não é baseada em algo que Deus “vê” nos eleitos ou nos condenados (que os diferencia) e, todavia não é arbitrária, por que a pessoa que crê no poder de escolha contrária de Deus não poderia argumentar que a escolha de Deus para criar não é arbitrária, ainda que não possa ser dada nenhuma razão específica para ela?

 Entretanto, eu prefiro argumentar que para Deus, como para nós, há momentos em que duas opções alternativas são igualmente sábias e nenhum fator controlador, determinante, interior (tal como motivo) ou de outra forma determina que opção alguém deva escolher ser correta.

 Por exemplo, alguns casais enfrentam a escolha de se ou não ter um filho. Conheço casais assim. Eles lutaram com a decisão, pensaram nela longa e dificultosamente, e eles nunca realmente chegaram a uma razão determinativa para ter ou não ter um filho. Alguns desses casais decidem ter um filho, o que é sábio, e alguns decidem não ter, o que pode também ser sábio.

 Parece-me que dizer “Deus sempre faz a coisa mais sábia”, com isso querendo dizer que Deus deve fazer assim e assado (p. e. criar o mundo), é o mesmo que dizer que Deus é uma máquina e que a criação e a redenção do mundo não são por graça, mas por natureza. Somente se Deus realmente poderia ter feito diferentemente do que criar é que a criação pode ser por graça somente. A graça não pode ser compelida e ainda ser graça.

 A conclusão é, obviamente, que SE a criação e a redenção do mundo por Deus é verdadeiramente graciosa e não automática então Deus deve possuir livre-arbítrio libertário ou poder de escolha contrária. E se Deus possui, ele não pode ser um conceito incoerente.

 Agora, é outra coisa completamente diferente argumentar que Deus possui poder de escolha contrária, mas os humanos não possuem. Esse é um argumento diferente. A resposta natural é “Por quê?” Se Deus o possui, por que ele não poderia dá-lo aos humanos? Não parece haver nada com o poder de escolha contrária que exige deidade. Não é como a onipotência, por exemplo.

 Penso que Edwards ladeou a questão e da mesma forma fazem seus seguidores que repetem seu argumento de uma forma ou de outra. Dizer “Deus sempre faz a coisa mais sábia” é ou sugerir que Deus é um autômato, sendo que nesse caso a criação e a redenção são automáticas e não graciosas, ou sugerir que Deus PODERIA fazer aquilo que é algo diferente do que “a coisa mais sábia”.

 Eu rejeito a noção que “Deus sempre faz a coisa mais sábia”, não porque eu penso que Deus é algo menos do que absolutamente sábio, mas porque eu não creio que sempre há somente uma “coisa mais sábia” em toda situação de escolha entre opções. Para evitar tornar a criação e a redenção diferentes de graciosas, nós temos que supor que Deus realmente poderia ter escolhido não criar. Dizer “Deus sempre faz a coisa mais sábia” é sugerir que Deus realmente não poderia ter feito de outra forma.

 Dessa forma, o argumento calvinista de que o livre-arbítrio libertário, poder de escolha contrária, é um conceito incoerente cai sobre sua própria espada, a nãobser que o calvinista esteja disposto a tornar Deus prisioneiro de sua sabedoria, isto é, de sua natureza, de tal forma que a criação e a redenção não são graciosas.

_________ Fonte:  Arminianismo.com

_________ Tradução: Paulo Cesar Antunes

_________ Revisão:Magno Aquino

Você Tem Livre-Arbítrio? Sim, É a Única Escolha

4 Comentários

John Tierney

Suponha que Mark e Bill vivem num universo determinístico. Tudo que acontece esta manhã – como a decisão de Mark de usar uma camisa azul, ou a última tentativa de Bill de pentear os cabelos de forma a tampar uma falha – é completamente causado pelo que quer que tenha acontecido antes disso.

Se você recriasse este universo tendo como início o Big Bang e deixasse todos os eventos procederem exatamente da mesma forma até esta mesma manhã, então a camisa azul é tão inevitável quanto o penteado.

 Vamos às perguntas de filósofos experimentais:

 1) Neste universo determinístico, é possível que uma pessoa seja plenamente responsável moralmente por suas ações?

 2) Este ano, como frequentemente tem feito no passado, Mark planeja burlar seus impostos. Ele é plenamente responsável moralmente por suas ações?

 3) Bill se apaixona por sua secretária e decide que a única forma de estar com ela é assassinando sua mulher e três filhos. Antes de partir em viagem, ele planeja estes assassinatos enquanto estiver fora. Bill é plenamente responsável moralmente por suas ações?

 A um filósofo clássico, estas são apenas três versões da mesma pergunta sobre o livre-arbítrio. Mas à nova classe de filósofos que testam respostas das pessoas a conceitos como determinismo, há diferenças cruciais, como Shaun Nichols explica na presente edição da revista Science.

 A maioria dos entrevistados absolverá a pessoa não especificada na Pergunta 1 de plena responsabilidade por suas ações, e uma maioria também deixará Mark em paz por sua trapaça nos impostos. Mas não Bill. Ele é completamente responsável por seu crime abominável, de acordo com mais de 70 por cento das pessoas interrogadas pelo Dr. Nichols, um filósofo experimental na Universidade do Arizona e seu colega de Yale, Joshua Knobe.

 Bill está sendo julgado de forma ilógica? De certa forma, sim. A sequência de raciocínio pode parecer falha a alguns filósofos, e a crença no livre-arbítrio pode parecer ingênua aos psicólogos e neurocientistas, que defendem que somos conduzidos por forças além de nosso controle consciente – um argumento que o advogado de Bill poderia acabar apropriando para apresentar no tribunal.

 Mas de outra forma faz sentido perfeitamente considerar Bill plenamente responsável pelo assassinato. Seus juízes pragmaticamente intuem que, não importa se o livre-arbítrio existe ou não, nossa sociedade depende de todos acreditarem que ele existe. Os benefícios desta crença têm sido demonstrados em outra pesquisa, mostrando que quando as pessoas duvidam do livre-arbítrio, elas não se comportam bem em seus empregos e são menos honestas.

 Em uma experiência, algumas pessoas leem uma passagem de Francis Crick, o biólogo molecular, afirmando que o livre-arbítrio é uma velha noção esquisita não mais levada a sério por intelectuais, especialmente os psicólogos e os neurocientistas. Depois, quando comparados com um grupo de controle que leem uma passagem diferente de Crick (que morreu em 2004), estas pessoas expressam mais ceticismo sobre o livre-arbítrio – e prontamente relaxam em sua moral enquanto fazem um teste de matemática.

 Pedidos para resolverem uma série de problemas aritméticos em um exame computadorizado, elas trapaceiam ao obter as respostas através de um defeito no computador que eles foram solicitados a não utilizar. O suposto defeito, obviamente, foi colocado lá como uma tentação pelos pesquisadores, Kathleen Vohs da Universidade de Minnesota e Jonathan Schooler da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara.

 Em uma experiência de acompanhamento, os psicólogos fizeram outro teste no qual se prometia às pessoas 1 dólar por cada resposta correta – e tinham que compilar suas próprias contagens. Exatamente como a Dra. Vohs e o Dr. Schooler temiam, as pessoas eram mais prováveis de trapacear após serem expostas anteriormente a argumentos contra o livre-arbítrio. Estas pessoas iam para casa com mais dinheiro indevido do que as outras pessoas.

 Este comportamento no laboratório, os pesquisadores notaram, corresponde aos estudos nas recentes décadas mostrando um aumento no número de estudantes que admitem trapacear. Durante este mesmo período, outros estudos têm mostrado uma diminuição na crença popular no livre-arbítrio (embora ele ainda seja vastamente mantido).

 “Duvidar do livre-arbítrio do homem pode enfraquecer o sentido da pessoa como agente,” concluíram os Drs. Vohs e Schooler. “Ou, talvez, negar o livre-arbítrio simplesmente fornece a última desculpa para comportar-se como alguém deseja.”

 Isso poderia incluir esquivar-se de suas tarefas no emprego, de acordo com outro estudo feito pela Dra. Vohs junto com uma equipe de psicólogos liderados por Tyler F. Stillman da Universidade do Sul de Utah. Eles foram a uma agência de empregos de trabalho por dia munidos de questionários para uma amostra de trabalhadores preencherem confidencialmente.

 Estes questionários foram baseados em um instrumento de pesquisa previamente desenvolvido chamado Escala do Livre-Arbítrio e do Determinismo. Era solicitado aos trabalhadores quão vigorosamente eles concordavam com afirmações como “A força da mente pode sempre superar os desejos do corpo” ou “As pessoas podem superar quaisquer obstáculos se elas confiantemente quiserem” ou “As pessoas não escolhem estar nas situações em que acabam estando – isto simplesmente acontece.”

 Os psicólogos também mediram outros fatores, incluindo a satisfação geral dos trabalhadores com suas vidas, quão dispostos sentiam, quão vigorosamente eles apoiavam uma ética de trabalho árduo. Nenhum destes fatores foi um indicador confiável de sua verdadeira performance no emprego, conforme avaliação de seus supervisores. Mas quanto mais os trabalhadores pontuavam na escala da crença no livre-arbítrio, melhores suas avaliações no emprego.

 “O livre-arbítrio guia as escolhas das pessoas rumo a serem mais morais e terem um desempenho melhor,” diz a Dra. Vohs. “É adaptável para as sociedades e indivíduos manterem uma crença no livre-arbítrio, como ajuda as pessoas se elas aderem a códigos culturais de conduta que sinalizam resultados de vidas saudáveis, abundantes e felizes.”

 Os conceitos intelectuais de livre-arbítrio podem variar consideravelmente, mas parece haver uma crença instintiva realmente universal no conceito que começa desde cedo. Quando crianças com idade entre 3 e 5 veem uma bola rolando para dentro de uma caixa, elas dizem que a bola não poderia ter feito outra coisa. Mas quando elas veem uma pesquisadora colocando sua mão na caixa, elas insistem que ela poderia ter agido de outra forma.

 A crença parece persistir não importa onde as pessoas cresçam; como os filósofos experimentais descobriram quando interrogaram adultos em diferentes culturas, incluindo Hong Kong, Índia, Colômbia e os Estados Unidos. Não importam suas diferenças culturais, as pessoas tendem a rejeitar a noção de que elas vivem em um mundo determinístico sem livre-arbítrio.

 Elas também tendem a concordar, através das culturas, que uma pessoa hipotética em um mundo hipoteticamente determinístico não seria responsável por seus pecados. Esta mesma lógica explica por que elas desculpariam a evasão de impostos de Mark, um crime que não tem uma vítima evidente. Mas essa lógica não vigora quando as pessoas são confrontadas com o que os pesquisadores chamam de uma transgressão de “alta afetação”, um crime emocionalmente perturbador como o assassinato de Bill de sua família.

 “São dois diferentes tipos de mecanismos no cérebro,” diz Alfred Mele, um filósofo na Universidade do Estado da Flórida, que dirige o projeto Grandes Questões do Livre-Arbítrio. “Se você contasse às pessoas uma história abstrata e fizesse uma pergunta hipotética, você estaria preparando o mecanismo supositivo em suas cabeças. Mas sua suposição pode não estar de acordo com sua reação intuitiva a uma história detalhada sobre alguém fazendo alguma coisa sórdida. Como os pesquisadores mostraram, a suposição padrão das pessoas é que elas realmente têm livre-arbítrio.”

 Num nível abstrato, as pessoas parecem ser o que os filósofos chamam de incompatibilistas: aqueles que acreditam que o livre-arbítrio é incompatível com o determinismo. Se tudo que acontece é determinado pelo que aconteceu antes, pode parecer somente lógico concluir que você não pode ser moralmente responsável por sua próxima ação.

 Mas há também uma escola de filósofos – de fato, talvez a escola majoritária – que considera o livre-arbítrio compatível com sua definição de determinismo. Estes compatibilistas creem que fazemos escolhas, ainda que estas escolhas sejam determinadas por eventos e influências anteriores. Nas palavras de Arthur Schopenhauer, “O homem pode fazer o que ele quer, mas ele não pode querer o que ele quer.”

 

Isso soa confuso – ou ridiculamente ilógico? O compatibilismo não é fácil de explicar. Mas ele parece estar de acordo com nosso instinto que Bill é moralmente responsável mesmo se ele estivesse vivendo em um universo determinístico. O Dr. Nichols sugere que seu experimento com Mark e Bill mostra que em nossos cérebros abstratos somos incompatibilistas, mas em nossos corações somos compatibilistas.

 “Isto ajudaria a explicar a insistência da disputa filosófica sobre o livre-arbítrio e a responsabilidade moral,” escreve o Dr. Nichols na revista Science. “Parte da razão da questão do livre-arbítrio ser tão perdurável é que cada posição filosófica tem uma série de mecanismos psicológicos dando apoio a ele.”

 Alguns cientistas gostam de rejeitar a crença intuitiva no livre-arbítrio como um exercício de ilusão própria – um instante ingênuo de “confabulação”, como coloca Crick. Mas estes supostos peritos estão iludindo-se se acham que a questão foi resolvida. O livre-arbítrio jamais foi contraditado cientificamente ou filosoficamente. Quanto mais os pesquisadores investigam o livre-arbítrio, melhores razões há para acreditarem nele.

Fonte: http://www.arminianismo.com/

Tradução: Paulo Cesar Antunes

O Calvinismo e a Bíblia: 1ª. Parte A Soberania e o Livre-Arbítrio de acordo com o Calvinismo

Deixe um comentário


 Jack Cottrell

Esta breve série irá tentar explicar a essência e os erros do Calvinismo, focando principalmente naquela que é chamada a sua forma “moderada”.

 

A principal doutrina do Calvinismo é uma compreensão específica da soberania de Deus. K. Talbot e Crampton W. dizem: “A soberania de Deus é fundamental para o Cristianismo. É o princípio mais básico do Calvinismo”.[1] Mas todos os cristãos creem na soberania de Deus (ou seja, o Senhorio). Como o Calvinismo é diferente?

 

Para os calvinistas, dizer que Deus é soberano significa que ele é e deve ser a causa final de todas as coisas fora de si mesmo, até os detalhes mais minuciosos. “Deus é a primeira causa de tudo o que existe, e nada existe que não seja preordenado por ele”.[2] Esta é uma forma de determinismo ou preordenação absoluta cristã. Como John Feinberg diz: “Os calvinistas em geral são deterministas”.[3]

 

O conceito controlador e definitivo para a compreensão calvinista da soberania divina é a doutrina do decreto eterno. Por sua própria natureza, este decreto estabelece o Calvinismo como um sistema determinístico, no qual cada detalhe do universo em curso é pré-determinado (predestinado, preordenado) para acontecer em conformidade com a vontade intencional de Deus. James White declara que o ponto mais básico da teologia de Calvino é a “absoluta liberdade e soberania de Deus em decretar tudo o que acontece no tempo”.[4] O decreto é “uma determinação divina”, diz John Frame.[5]

 

Qual é a natureza do decreto? Ele é eterno, porque foi feito na eternidade passada, antes da criação e existência de qualquer coisa fora de Deus. É abrangente ou todo-inclusivo, pois engloba “tudo o que acontece”, como diz a Confissão de Fé de Westminster (III:1). Ele inclui tudo, desde os destinos das nações até o movimento das partículas atômicas. Ele inclui especialmente as decisões de todos os seres humanos, até mesmo os seus pecados.[6]

 

O que torna o decreto determinista é que ele é eficaz e incondicional. “Eficaz” é da família de uma palavra latina que significa “produzir, ocasionar, causar”. Que o decreto é eficaz significa que, em certo sentido, ele (ou a vontade de Deus expressa nele) é a causa última de tudo. O que quer que aconteça, acontece em virtude do fato de que faz parte do decreto. Como Herman Bavinck diz: “A resposta final à pergunta: por que uma coisa é, e por que ela é como é, deve sempre ser: ‘Deus a quis’, conforme sua absoluta soberania”.[7]

 

Que o decreto é incondicional significa que nada nele foi condicionado por qualquer coisa fora de Deus; Deus não incluiu qualquer coisa no decreto em resposta ou reação a algo fora de si, tais como as escolhas humanas pré-conhecidas.[8] “Deus inicia todas as coisas”.[9] O que ele decreta e faz em nada depende da criatura. “Um decreto condicional subverteria a soberania de Deus e… torná-lo-ia dependente das ações voluntárias de suas próprias criaturas”, diz A. A. Hodge.[10]

 

O decreto é, portanto, “um modelo para tudo o que acontece”.[11] John Frame sugere a analogia de Deus como o autor de um romance que “concebe e traz à existência todos os eventos que acontecem”, exercendo “controle completo sobre seus personagens”.[12]

 

Este conceito do decreto soberano cria vários problemas para os calvinistas. O primeiro é a questão do livre-arbítrio humano. Se Deus é soberano no sentido acima descrito, e se as ações humanas são “causalmente determinadas”,[13] como pode verdadeiramente haver livre-arbítrio? E como problemas resultantes: se as escolhas de um homem são predeterminadas, como ele pode ser responsabilizado por elas? Especialmente, como ele pode ser responsabilizado e punido por seus pecados? Além disso, se Deus decreta esses atos pecaminosos, isto não significa que ele próprio é o responsável pelo pecado do homem?

 

Como os calvinistas resolvem esses problemas? Aqueles mais radicais nem sequer tentam; eles simplesmente declaram que o livre-arbítrio não existe e que o Deus soberano tem o direito de fazer o que lhe traz a maior glória, incluindo o pecado. Calvinistas mais moderados, no entanto, introduziram diversos conceitos e artifícios que eles acreditam que preservam a liberdade e a responsabilidade humana, e isentam Deus da responsabilidade pelo pecado.

 

O primeiro de tais artifícios é redefinir o livre-arbítrio de tal forma que seja compatível com o determinismo; este é o conceito compatibilista do livre-arbítrio. Os defensores deste “determinismo suave” afirmam que “tudo o que acontece é causalmente determinado, porém… algumas ações são livres”.[14] É dessa forma porque as escolhas de cada pessoa são baseadas em seu caráter, desejos e motivações internas. Nesse sentido, sempre agimos de acordo com nosso desejo mais forte, mais imediato.[15] Essas escolhas são livres porque sempre fazemos exatamente o que queremos fazer, sem constrangimento e sem qualquer tipo de coerção. “Assim, um ato é livre, embora causalmente determinado, se ele é o que o agente queria fazer”.[16] Isto explica também porque podemos ser responsáveis por nossas ações.

 

Mas como pode tais escolhas “livres” serem causalmente determinadas, se estamos sempre fazendo o que nós escolhemos fazer? Porque, embora Deus nos “permita” agir de acordo com os nossos desejos e motivos mais fortes, ele mesmo é quem arranja todas as nossas circunstâncias de tal maneira que ele faz com que estejam presentes em nossos corações apenas aqueles desejos e motivos que produzirão somente as escolhas que ele próprio decretou que fossem feitas.[17] R. Peterson e M. Williams dizem: “Liberdade, no sentido compatibilista, é a afirmação de que, ainda que cada escolha que fazemos e cada ato que realizamos sejam determinados por forças que estão fora de nós mesmos e, finalmente determinado pela orientação ordenada de Deus, ainda assim somos livres, pois ainda agimos de acordo com nossos desejos”.[18]

 

Mas se Deus está manipulando nossas circunstâncias e nossos corações para que, no final, inevitavelmente escolhemos apenas o que ele decretou que iremos escolher, por que Deus não tem responsabilidade e culpa por nossas escolhas pecaminosas? Aqui é onde os outros dois artifícios são introduzidos. Um deles é o conceito das segundas causas (secundárias). Isto significa que, embora Deus tenha predeterminado cada detalhe do que vai acontecer, ele determina que somente algumas dessas coisas sejam causadas diretamente por ele; outras serão causadas por ele apenasindiretamente, através de outros aspectos da criação. No que diz respeito aos atos pecaminosos, os calvinistas creem que Deus está, portanto, isento de qualquer responsabilidade por eles, porque ele não os causa diretamente. A causa direta ou imediata é o próprio pecador.

 

Tal artifício parece bastante artificial, entretanto, uma vez que Deus decretou tais “segundas causas” exclusivamente com a finalidade de ocasionar os efeitos específicos que irão produzir. É tudo parte do decreto: “O decreto inclui não apenas os fins escolhidos por Deus, mas também os meios para a consecução desses fins”.[19] “Tais meios incluem todas e quaisquer circunstâncias e fatores necessários para convencer a pessoa (sem constrangimento) de que a ação que Deus decretou é a ação que essa pessoa deseja praticar”.[20]

 

O outro artifício pelo qual os calvinistas tentam isentar Deus da responsabilidade pelo pecado é o conceito de permissão divina. Ou seja, em relação ao pecado, Deus não o causa ativamente, mas apenas o permite. “Os decretos divinos são divididos em eficazes e permissivos”, diz W. G. T. Shedd.[21]

 

Isso parece razoável até que vemos que a maioria dos calvinistas não usa o termo “permissão” no seu sentido usual, mas falam dele como uma paradoxal “permissão eficaz”. Frame reconhece que os calvinistas usam o termo, mas diz que “eles insistem que a permissão do pecado por Deus não é menos eficaz do que a ordenação do bem”. De fato, para os calvinistas, a permissão “é uma forma de ordenação, uma forma de causalidade”.[22] D. A. Carson diz com razão: “Distinções entre a vontade permissiva e a decretiva parecerá desesperadamente artificial” neste contexto. Como “esta permissão difere do decreto?”[23]

 

No próximo artigo, vou responder ao conceito calvinista da soberania mediante a apresentação de uma alternativa que considero ser bíblica.

 

Tradução: Cloves Rocha dos Santos

 


[1] Calvinism, Hyper-Calvinism, and Arminianism, 1990:14.

[2] Idem, 6.

[3] Em Basinger, ed., Predestinação e Livre-Arbítrio, 2000:34.

[4] The Potter’s Freedom, 2000:63.

[5] The Doctrine of God, 2002:315.

[6] John Feinberg, No One Like Him, 2001:516-518.

[7] The Doctrine of God, 1951:371.

[8] Veja Feinberg, No One Like Him, 527.

[9] Arthur Pink, Deus É Soberano, 2002:181.

[10] Esboços de Teologia, 2001:279.

[11] Feinberg, No One Like Him, 530.

[12] The Doctrine of God, 156, 314.

[13] Feinberg, em Predestinação, 45.

[14] Feinberg, No One Like Him, 635.

[15] Frame, The Doctrine of God, 136-137.

[16] Feinberg, No One Like Him, 637.

[17] Veja Feinberg, No One Like Him, 653-654.

[18] Why I Am Not an Arminian, 2004:156; grifo meu.

[19] Feinberg, em Predestinação, 41.

[20] Idem.

[21] Dogmatic Theology, 1969, I:405.

[22] The Doctrine of God, 177-178.

[23] Divine Sovereignty and Human Responsibility, 1981:213-214.

Deus é soberano sobre a Sua soberania

Deixe um comentário

Roger E. Olson

Os batistas têm o habito de reciclar temas teológicos calorosos. A soberania de Deus e o livre-arbítrio humano é um que vive aparecendo. Agora mesmo, o debate entre calvinistas e arminianos está esquentando novamente. Recentemente, um presidente de um seminário batista sugeriu que a Convenção Batista do Sul não tem lugar para os arminianos, o que deve ter sido um choque aos milhões de crentes no livre-arbítrio que são leais batistas do sul.

O que muitas pessoas não notam é que calvinistas e arminianos concordam que Deus é soberano e que Deus governa providencialmente sobre a criação e predestina pessoas para salvação. Suas áreas de acordo são muito maiores do que seus desacordos sobre interpretações específicas destes conceitos bíblicos.

Soberania tem a ver com o governo de Deus de todas as coisas; a doutrina cristã da soberania de Deus é que Deus está no comando do universo e tudo nele. Ele domina sobre ele. Providência é quase idêntico à soberania; ela trata do modo no qual Deus domina sobre sua criação.

Predestinação é outra doutrina ligada à soberania de Deus, mas não é idêntica à providência. Predestinação é o ensino bíblico que Deus preordena ou pré-conhece quais de suas criaturas humanas serão salvas. Os “eleitos” são escolhidos por Deus. Sobre estas doutrinas, calvinistas e arminianos concordam. Eles discordam sobre o papel que o livre-arbítrio desempenha em se uma pessoa está entre os eleitos e assim predestinada por Deus. Os calvinistas negam o livre-arbítrio como poder de escolha contrária e afirmam que a graça de Deus é irresistível. Os arminianos acreditam em livre-arbítrio como poder de escolha contrária e dizem que a graça nunca é imposta sobre ninguém; as pessoas podem e resistem à graça de Deus.

Seguindo o teólogo holandês Jacob Arminius (que morreu em 1609), os arminianos creem que Deus é soberano. De fato, Deus é tão soberano que ele é soberano sobre sua soberania. Em outras palavras, Deus limita seu poder para dar espaço ao poder humano da livre escolha, incluindo a liberdade para resistir à graça. Livre-arbítrio não é um resíduo de bondade humana que sobreviveu à queda no jardim; é um dom da graça de Deus que nos capacita a responder livremente à oferta de Cristo no evangelho.

O Calvinismo é a crença no determinismo divino; Deus é a realidade toda-determinante que soberanamente planeja e controla todos os eventos, incluindo as escolhas livres dos humanos. Os arminianos perguntam quão livres as pessoas podem ser se suas decisões são controladas. Os arminianos querem saber como Deus é bom e amoroso à luz da combinação do mal no mundo e a soberania e o poder todo-determinante de Deus. Até mesmo o mais inflexível dos calvinistas hesita em lançar a culpa do pecado e do mal em Deus. Após falar sobre o poder todo-determinante de Deus, eles se esquivam de dizer que Deus determinou a queda da humanidade no jardim ou o holocausto de Hitler. Uns poucos audaciosos vão em frente e dizem que Deus até mesmo causou os atos terroristas de 11 de setembro.

Nós que cremos na real liberdade da vontade, liberdade e poder de escolha contrária, vemos isso como a única forma de livrar-se de tornar Deus o autor do pecado e do mal. Um Deus que determina pessoas a pecar, ainda que somente por “permissão eficaz” (retirando a graça necessária para não pecar), é o pecador último. Um Deus que poderia salvar alguém, porque a salvação é incondicional, mas passa por alto de muitos – enviando-os para a condenação eterna – é moralmente ambíguo na melhor das hipóteses. Como John Wesley comentou, se isto é amor, é um amor que faz gelar o sangue.

Reconhecidamente, a maioria dos calvinistas não segue a lógica de sua própria concepção da soberania de Deus a sua justa e necessária conclusão. Eles afirmam que Deus é amoroso, mas dizem que “mundo” em Jo 3.16 não se refere a todos, mas a pessoas de toda tribo e nação – os eleitos. Deus ama todas as pessoas de alguma forma, mas somente os eleitos de todas.

Os arminianos acreditam no amor universal de Deus por todas as pessoas criadas à sua imagem e semelhança. Deus não quer que ninguém pereça, senão que todos alcancem o arrependimento (2Pe 3.9), porque ele deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2.4).

Claramente, Deus não consegue completamente o que quer, porque ele é soberano sobre sua soberania e permite que pessoas pecadoras se oponham à sua vontade. Mas isso de forma alguma diminui sua grandeza ou poder; é evidência de sua autolimitação e respeito amoroso pelas pessoas.

Fonte: http://www.baptiststandard.com/index.php?option=com_content&task=view&id=5077&Itemid=134

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Fonte: Arminianismo.com

 

O Paradigma das Vontades Antecedente/Consequente

Deixe um comentário

Artigos Kenneth Keathley


 

(Salvation and Sovereignty, pp. 58-62)

Por toda a história da igreja, tanto as igrejas orientais quanto ocidentais ensinaram que Deus deseja a salvação de todos, embora requeira a resposta de fé da parte do ouvinte.[1] Esta abordagem das vontades antecedente/consequente não vê nenhum conflito entre as duas vontades de Deus. Deus antecedentemente deseja que todos sejam salvos. Mas para aqueles que recusam arrepender-se e crer, Ele consequentemente deseja que sejam condenados. Desta forma entende-se que Deus é como um justo juiz que deseja que todos vivam mas que relutantemente ordena a execução de um assassino.[2] Os desejos antecedentes e consequentes são diferentes, mas eles não estão em conflito.

A posição das vontades antecedente/consequente parece ser o claro ensino da Escritura. Deus antecedentemente “amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito”, e consequentemente “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Cristo antecedentemente ordena que o Evangelho seja pregado “a toda criatura”, mas Ele consequentemente decreta que “quem não crer será condenado”. O paradigma das vontades antecedente/consequente combina muito bem com a Grande Comissão.

Oden lista quatro características da vontade antecedente de Deus.[3] A primeira é que ela é universal. A salvação é desejada para todos, proporcionada para todos e oferecida a todos. Esta atitude onibenevolente incondicional é verdadeiramente antecedente no sentido que ela é dirigida a toda a humanidade antes de sua aceitação ou rejeição. Segunda, a vontade antecedente é imparcial. Cristo morreu pelos pecados do mundo todo. O amor universal logicamente exige a expiação ilimitada. Terceira, a vontade de Deus de salvar a todos é sincera. Não há nenhuma vontade oculta, nenhum decreto secreto da reprovação. E quarta, a vontade antecedente é uma vontade ordenada. É impossível o desejo de Deus permanecer impotente ou irrealizado. A vontade antecedente de salvar a todos é a base de Suas ações para proporcionar os meios da graça aos pecadores através de Cristo.

A vontade consequente de Deus possui três componentes.[4] Primeiro, é consistente com as qualidades com que Ele dotou Suas criaturas. Os humanos estão caídos, mas eles ainda são à imagem de Deus. A graça de Deus não é coerciva e pode ser recusada. Quando o ouvinte encontra o evangelho, ele é graciosamente capacitado pelo Espírito para responder livremente. A decisão do ouvinte de aceitar ou rejeitar o evangelho é genuinamente, e assustadoramente, sua. Sem dúvida, por que alguns rejeitam o evangelho é um mistério. Mas no paradigma antecedente/consequente, o mistério da iniquidade reside no homem e não em Deus.

O segundo aspecto da vontade consequente de Deus segue do primeiro. Se Deus deseja que a salvação seja consequente a nossa escolha, então esta vontade é condicional. Terceiro, a vontade consequente é justa. A concessão de Deus da salvação àqueles que creem é perfeitamente consistente com Sua natureza santa por causa da obra propiciatória de Cristo (Rm 3.21-26). A condenação de todos que não creem concorda inteiramente com Sua justiça. A vontade antecedente de Deus é perfeitamente graciosa; Sua vontade consequente é perfeitamente justa.

Geralmente, os teólogos reformados consideram a abordagem das vontades antecedente/consequente inaceitável. Eles fazem várias objeções dentre as quais três se sobressaem. A primeira é que o paradigma das vontades antecedente/consequente parece tornar a decisão de Deus contingente à escolha do homem. Eles afirmam que esta abordagem sutilmente coloca o homem no trono de Deus. Berkouwer argumenta que uma salvação que depende de uma decisão do homem torna Deus “impotente” e “expectante”.[5] Robert Shank responde que Deus pode estar esperando mas Ele não é impotente.[6] De fato, a imagem de Deus esperando é um tema rico encontrado em toda a Bíblia (Is 1.18-20, por exemplo). A abordagem das vontades antecedente/consequente entende que Deus é o soberano Iniciador e gracioso Completador da redenção. Se o homem deve escolher entre o céu e o inferno, é porque o Senhor da Criação colocou esta escolha diante dele.

A segunda objeção à abordagem das vontades antecedente/consequente é que ela parece sugerir a noção de mérito. Se todos os ouvintes são igualmente capacitados pela graça para receber o evangelho, e uma pessoa aceita a mensagem enquanto outro a rejeita, então isto não significa que de algum modo a primeira pessoa é mais virtuosa do que a segunda?[7] Esta é uma objeção difícil, mas dois pontos devem ser tidos em mente. Primeiro, esta objeção parece ver a fé como uma espécie de obra, enquanto a Bíblia consistentemente contrasta a fé com as obras (Rm 3.21-4.8). A fé, por sua própria natureza, é o oposto das obras porque é uma admissão de uma completa falta de mérito ou capacidade. O mendigo não adquire mérito quando abre suas mãos para receber um dom gratuito.[8] Segundo, o mistério não é porque alguns creem, mas porque todos não creem. Isto novamente aponta para o mistério do pecado. Não há mérito em aceitar o evangelho, mas há culpa em rejeitá-lo. Esta questão merece mais atenção, o que explica porque ela é o foco do capítulo sobre a graça superadora (cap. 4). Creio que o modelo apresentado nesse capítulo – que a graça de Deus é tanto monergística quanto resistível – é suficiente para responder esta objeção.

Uma terceira objeção feita por teólogos reformados é que o paradigma das vontades antecedente/consequente dá “lugar de destaque” ao livre-arbítrio humano sobre a glória de Deus.[9] John Piper argumenta que a visão secreta/revelada e a visão antecedente/consequente são basicamente as mesmas exceto por uma diferença importante.[10] Ambas as visões afirmam que Deus genuinamente deseja a salvação de todos, ambas as visões sustentam que este desejo é suplantado por um desejo ainda maior, mas as duas visões discordam sobre o que esse desejo maior é. Piper afirma que a posição secreta/revelada vê que o desejo maior é o desejo de Deus de glorificar a Si mesmo, enquanto a posição antecedente/consequente o desejo maior é Sua dádiva da auto-determinação aos humanos. Piper conclui que o paradigma secreto/revelado faz maior justiça à glória de Deus.

Entretanto, em sua resposta a Piper, Walls e Dongell enfatizam que os proponentes da posição das vontades antecedente/consequente não afirmam um poder humano graciosamente capacitado de auto-determinação por causa dele mesmo. Antes, a preocupação é retratar fielmente o caráter de Deus. Deus considera o incrédulo responsável porque o pecado da incredulidade verdadeiramente pertence ao incrédulo. Os condenados por Deus são justamente condenados porque receber Cristo era uma escolha genuinamente disponível. Aderir à escolha humana genuína não é um fim em si mesmo; sustentar a integridade do caráter de Deus é. Antes que deixar de engrandecer a glória de Deus, a posição das vontades antecedente/consequente glorifica a Deus mantendo que Seu procedimento é justo é consistente com Sua natureza santa.[11] Se a melhor forma dos humanos trazerem glória a Deus for escolhê-lo livremente, então a visão das vontades antecedente/consequente cumpre melhor este objetivo. Novamente, daremos mais atenção a esta questão no capítulo sobre a graça superadora.

De maneira interessante, Piper usa a analogia do justo juiz para fazer seu caso em favor do cenário das vontades secreta/revelada.[12] Ele dá o exemplo específico de quando George Washington enfrentou o difícil dilema de ter um de seus oficiais favoritos culpado de um crime capital. Apesar de sua afeição pelo jovem rapaz, Washington deu a ordem para a sua execução. A ilustração de Piper, na verdade, é um exemplo do paradigma das vontades antecedente/consequente, porque de acordo com o modelo das vontades secreta/revelada, Washington secretamente deseja o crime do oficial e inclina a vontade do jovem para executar o ato.

Tradução: Paulo Cesar Antunes


 


[1] T. Oden, The Transforming Power of Grace (Nashville: Abingdon, 1993), 112. Oden afirma que a Igeja chegou a este consenso acerca das duas vontades de Deus através de uma série de concílios: Éfeso (431), Arles (475), Orange (529) e Quiersy (853). Jewett, calvinista, admite que somente a tradição reformada rejeita o paradigma das vontades antecedente/consequente. Veja Jewett, Election and Predestination, 98.

[2] João de Damasco parece ser o primeiro a usar a analogia do justo juiz para explicar a congruência das duas vontades de Deus. Veja Oden, The Transforming Power of Grace, 83, e Jewett, Election and Predestination, 98.

[3] Oden, The Transforming Power of Grace, 83-86.

[4] Ibid., 87-89.

[5] G. C. Berkouwer, Divine Election (Grand Rapids: Eerdmans, 1960), 229.

[6] Shank, Elect in the Son, 129.

[7] Veja T. L. Tiessen, Who Can Be Saved? Reasessing Salvation in Christ and World Religions (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2004), 238-39; e T. R. Schreiner e A. B. Caneday, The Race Set Before Us: A Biblical Theology of Perseverance and Assurance (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2001), 318.

[8] Geisler aponta que a fé pode ser vista como uma obra somente por meio de um equívoco da palavra “fazer”. “Fé é algo que ‘fazemos’ no sentido de que envolve um ato de nossa vontade sugerido pela graça de Deus. Contudo, a fé não é alguma coisa que ‘fazemos’ no sentido de uma obra meritória necessária para Deus nos dar a salvação”. Veja N. Geisler, Eleitos Mas Livres: Uma Perspectiva Equilibrada entre a Eleição Divina e o Livre-Arbítrio, 1ª. Edição (São Paulo: Editora vida, 2001), 218.

[9] D. Westblade, “Divine Election in the Pauline Literature”, em Schreiner e Ware, The Grace of God, the Bondage of the Will, 69-70.

[10] Piper, “Are There Two Wills in God?”, 123-24.

[11] Walls e Dongell, Why I Am Not a Calvinist, 8.

[12] Piper, “Are There Two Wills in God?”, 128.

Fonte: Arminianismo.com

Calvinismo, Arminianismo e a Teologia da Salvação

Deixe um comentário


Artigos Robert E. Picirilli

_______________________ A Extensão da Expiação

Introdução

Existem variedades tanto dentro do Calvinismo como do Arminianismo. O Arminianismo que eu tenho apresentado em Grace, Faith, Free Will[1] (Graça, Fé, Livre-Arbítrio) é o que eu chamo de “Arminianismo da Reforma”, que significa as opiniões do próprio Armínio e dos seus primeiros partidários (os “remonstrantes”). A teologia de Armínio foi claramente um produto da Reforma e manifestou a insistência da Reforma na salvação pela graça somente, pela fé somente, por Cristo somente. O capítulo de abertura do meu livro traça o percurso histórico de desentendimentos de Armínio com o Calvinismo de sua época. O restante do livro é dividido em quatro partes: (1) Predestinação e Eleição; (2) Expiação; (3) Salvação pela Fé e (4) Perseverança. Em cada parte existem três capítulos; os dois primeiros capítulos fornecem um tratamento de “teologia sistemática” do assunto, tanto do Calvinismo como do Arminianismo, respectivamente, e o terceiro capítulo apresenta a “teologia bíblica” em apoio ao Arminianismo da Reforma. Nesta palestra vou lidar com parte do que é tratado na Segunda Parte do livro: a teologia da expiação, e especialmente a extensão da expiação. A pergunta é: Por quem Cristo morreu? Somente pelos eleitos ou por todos? A Natureza da Expiação Antes de abordar o assunto, devo referir-me brevemente à natureza da expiação. Como a maioria dos calvinistas, os arminianos reformados creem na “visão da satisfação penal” da expiação. Esta é uma expiação verdadeiramente “vicária” – substitutiva. Jesus verdadeiramente sofreu na cruz a penalidade pelos nossos pecados. Ele suportou a ira de Deus em nosso lugar. 2Co 5.21 diz, “Ele o fez pecado por nós”. Ele foi punido na cruz pelos nossos pecados, embora ele não tenha cometido nenhum pecado. Digo isto porque existe uma corrente histórica do Arminianismo que ensina, na verdade, o que é chamado de “visão governamental” da expiação, desenvolvida por um dos seguidores posteriores de Armínio chamado Hugo Grotius. Grotius dizia que Jesus morreu para sustentar o governo justo de Deus do mundo. Nesta perspectiva, a expiação é um testemunho de que o pecado exige perdão, não punição; Jesus morreu pelos nossos pecados, mas não para suportar a pena dos nossos pecados. Eu recomendo um capítulo no livro do Sr. Forlines, The Quest for Truth[2] (A Busca pela Verdade), sobre este assunto. Razões para Crer na Expiação Universal O Arminianismo insiste que Jesus morreu por cada pessoa na história do mundo: que Deus tanto amou o mundo, e não apenas os eleitos, que deu o seu único Filho pelos pecados do mundo. Isso às vezes é chamado de expiação ilimitada, expiação universal ou expiação geral. (Os batistas calvinistas costumavam ser chamados de “batistas particulares”, enquanto todos os batistas arminianos costumavam ser chamados de “batistas gerais”.) 1. A expiação universal se encaixa nas declarações bíblicas de que Deus quer a salvação de todos, especialmente 2Pe 3.9 e 1Tm 2.4. Seria estranho, na verdade, se Deus realmente quisesse ou desejasse a salvação de todos, mas enviasse o seu Filho para morrer somente pelos eleitos! Faz muito mais sentido que Deus tenha providenciado uma oportunidade para todos, visto que Ele deseja a salvação de todos. 2. A expiação universal é logicamente exigida pelas passagens que fazem referência à condenação de pessoas por quem Cristo morreu, especialmente 1Co 8.11 e Rm 14.15. Esses dois textos lidam com o mesmo problema: por um comportamento descuidado pode-se ameaçar o bem-estar espiritual de um irmão ou irmã em Cristo. E isso aumenta o perigo de que alguém por quem Jesus morreu possa finalmente perecer. Nesse caso, é claro que ele não morreu apenas pelos eleitos. A propósito, isto está relacionado com a teologia da apostasia. Se uma pessoa regenerada realmente pode apostatar e se perder, então alguém por quem Cristo morreu pode perder-se. Se Jesus não morreu pelo apóstata, ele nunca poderia ter sido salvo em primeiro lugar! 3. A expiação universal se encaixa no fato que a Bíblia oferece salvação a todos e nos obriga a pregar o evangelho a todos. Que a Bíblia apresenta a oferta como universal é evidente em todas as passagens que dizem “quem quiser”, como Ap 22.17 e Jo 3.14, 15; compare Jo 12.32: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim”. Que a Bíblia nos ordena a pregar o evangelho – apresentar esta oferta – a todos é igualmente claro em passagens como Mc 16.15. Rm 1.14-16 mostra que Paulo plenamente percebia isto como sua obrigação, visto que “o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”. Os calvinistas não negam que a Bíblia oferece a salvação a todos e que somos responsáveis por pregar a oferta do evangelho a todos. Porém, eu acho que eles não conseguem ser logicamente consistentes aqui: a salvação não pode ser verdadeiramente oferecida a alguém por quem Cristo não morreu. Suponha que eu diga a uma criança paralítica, “Se você apenas estender a sua mão para pegar, darei este doce a você”. Isso me soa mais como zombaria do que uma “oferta”! 4. A expiação universal se encaixa melhor no fato que os incrédulos são culpados, na Bíblia, não apenas por seus pecados mas pela sua rejeição de Cristo e da salvação oferecida nele pelo evangelho. Considere Jo 3.18 ou 1Jo 5.10, 11, como exemplos. Nesta última referência, o ponto é que aquele que não crê, rejeitou, na verdade, o testemunho do próprio Deus, tornando-o um mentiroso. E qual é esse testemunho? Que ele nos deu a vida eterna em seu Filho. Mas se Jesus não morreu por aqueles que finalmente não creem nele, então Deus não deu testemunho de que ele proporcionou a vida eterna a eles e eles não rejeitaram o testemunho de Deus! A Bíblia claramente culpa os pecadores por rejeitar o evangelho. Isso deve significar que a oferta é genuína, que Jesus realmente morreu por eles. 5. A expiação universal explica melhor aquelas escrituras que falam da provisão de Deus como correspondendo às necessidades humanas. A melhor passagem aqui é Rm 3.22-25, onde Paulo fala da justiça que está disponível, pela fé em Jesus Cristo, a todos e sobre todos os que creem. Ele corrobora esta afirmação com rigorosa lógica dizendo: – Porque não existe diferença – Porque todos pecaram e estão afastados da glória de Deus – Sendo justificados gratuitamente pela sua graça através da redenção que está em Cristo Jesus. A frase “sendo justificados gratuitamente pela sua graça através da redenção que está em Cristo Jesus” modifica o mesmo “todos” que Paulo diz “todos pecaram”. Todos pecaram; todos têm acesso à justificação com base na obra redentora de Cristo. A provisão corresponde à necessidade. 6. Finalmente (no livro eu cito nove argumentos), a Bíblia claramente ensina que Jesus morreu por todos e não apenas por um número escolhido. Considere 1Jo 2.2; 1Tm 2.6; Hb 2.9; Jo 3.16-18, 2Co 5.14, 19; Rm 5.18, Tt 2.11. Como o Dr. Vernon Grounds ironicamente disse: “É preciso talento exegético… para esvaziar estes versículos de seu significado óbvio”. Argumentos Calvinistas Você precisa conhecer algumas coisas que os calvinistas dizem em oposição. 1. Os calvinistas apontam para os versículos que dizem que Jesus morreu pelo seu povo ou pela igreja e os interpretam como significando que ele morreu somente pelo povo escolhido de Deus. Estes incluem Mt 1.21; Jo 15.13; Jo 10.15, Ef 5.23-26; At 20.28; Tt 2.14; e outros. Nós cremos em ambos os grupos de versículos: ele morreu por nós e ele morreu por todos. Se ele morreu por todos, isso nos inclui. Considere Gl 2.20: Paulo diz que Jesus “me amou e se entregou por mim”. Obviamente, isso não significa que Jesus não se entregou por ninguém mais. Da mesma forma, os versículos que falam de Jesus morrendo por nós, pela igreja, pelo povo de Deus, não significam que ele não morreu por ninguém mais. 2. Os calvinistas geralmente alegam que “todos” – nas passagens que dizem que Jesus morreu por todos – não significa realmente cada uma ou todas as pessoas na história do mundo. Ao invés disso, elas querem dizer que Deus quer a salvação dos eleitos entre todos os povos, classes e grupos étnicos na sociedade: Deus ama e salva os eleitos, sejam eles judeus ou gentios, de uma nação ou de outra, ricos ou pobres, jovens ou velhos. Eu penso que essas tentativas deixam de lidar de forma séria com esses versículos, e para concluir quero enfatizar 1Jo 2.2. 1Jo 2.2 Este versículo é um bom exemplo da última razão, acima, para a expiação universal: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro”. O que João quer dizer com “mundo”? Ele usa esta palavra 23 vezes nesta breve carta, indicando consistentemente o próprio oposto do povo de Deus. Considere 2.15-17; 3.1, 13; 4.1-5; 5.4, 5, 19. O povo de Deus e “o mundo” são dois povos diferentes, hostis entre si. Certamente João usa “mundo” em 2.2 da mesma maneira e não como uma referência ao restante dos eleitos no mundo. As outras passagens nesta carta onde “nós” ou “nos” se encontra em comparação com “o mundo”, como aqui em 2.2, também torna isso claro. Há quatro dessas passagens: 3.1; 4.5, 6; 5.4, 5 e 5.19: “Nós somos de Deus, e o mundo inteiro jaz no maligno”. Isto estabelece o ponto acima de qualquer argumentação. “Nós” e “o mundo” são dois reinos diferentes. Mas não devemos ter orgulho: Jesus morreu não somente por nós, mas por aqueles que nos odeiam; não somente por nós, mas por aqueles que estão nas garras do maligno. Não somente por nós, mas pelo mundo ímpio que o rejeitou. E é, portanto, nossa responsabilidade dizer a esse mundo que ele morreu por eles.


[1] Nota do Tradutor: Robert E. Picirilli. Grace, Faith, Free Will, Contrasting Views of Salvation: Calvinism and Arminianism (Graça, Fé e Livre-Arbítrio, Contrastando Visões da Salvação: Calvinismo e Arminianismo) (Nashville: Randall House, 2002).

[2] Nota do Tradutor: F. Leroy Forlines. The Quest for Truth: Answering Life’s Inescapable Questions (A Busca pela Verdade: Respondendo as Questões Inevitáveis da Vida) (Nashville: Randall House, 2001).

Fonte: Arminianismo.com

Older Entries