João 5.21

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William W. Klein

 

Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer. Jo 5.21

 

Na defesa de seu relacionamento especial com Deus, Jesus afirma que, como o Pai, o Filho dá vida àquele quequer dá-la. É a vontade de Jesus que determina quem são os recebedores da vida. Esta é uma afirmação da eleição específica: a vontade de Jesus determina exatamente aqueles que ele irá salvar? Calvino está correto quando diz deste versículo, “Ele quer dizer que Ele especialmente favorece somente certos homens, os eleitos, com esta graça”?[1]

 

Talvez devêssemos estabelecer primeiramente que “vida” aqui deve fazer referência à vida eterna ou salvação. O uso do substantivo zoe (vida) no quarto evangelho deixa isso claro (p. ex., Jo 3.15-16, 36; 4.14, 36; 5.24, 29, 39-40; 6.40, 54, 68; 10.28; 11.25). Aqui João usa um composto, zoopoieo, “dar vida”. Não deve haver dúvida que o Pai e o Filho dão a vida eterna. [2] Podemos determinar deste contexto algum esclarecimento da vontade de Jesus – a quem ele deseja dar a salvação? É sua escolha soberana que está em vista aqui?

 

O contexto deixa abundantemente claro qual é o critério para obter a vida ou a salvação. Deve-se “honrar o Filho” (5.23), exatamente o que os judeus não estavam fazendo (5.16-18). Deve-se aceitar o testemunho de João a respeito de Jesus “para que vos salveis” (5.32-34). O testemunho de João a respeito de Jesus é indicado, resumidamente, nas palavras “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (1.29), ou em sua afirmação “Eu vi, e tenho testificado que este é o Filho de Deus” (1.34). “Quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna,” disse Jesus (5.24). Deve-se crer em Jesus (5.38) e vir a ele a fim de obter vida (5.40). Fé em Jesus (5.46) é a explicação.

 

O modo de obter vida é fé em Jesus. Jesus deixa isto claro nesta passagem (e em outras). A afirmação em 5.21, então, não pode significar que Jesus tem alguma vontade secreta, e dá vida somente a algum grupo seleto que ele escolheu. Jesus quer dar vida àqueles que creem nele. Neste confronto com os judeus, Jesus afirma que a vida está disponível somente nos termos do Pai e nos dele. E esse modo é através do Filho. Jesus quer dar vida somente aos crentes nele. [3] O Filho não seleciona arbitrariamente alguns a quem dar vida. O quarto evangelho dá testemunho consistente de que ele dá vida àqueles que creem (3.16, 18, 36; 4.42, 53; 6.40, 47, e outros). [4]

 

Fonte: The New Chosen People, pp. 137, 138

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] Calvino, The Gospel According to St. John, 1-10, 127.

[2] O verbo zoopoieo ocorre somente em outra passagem em Jo, 6.63, onde o Espírito dá vida. Salvação é claramente a questão aqui. Fora de João, ele ocorre em Rm 4.17; 8.11; 1co 15.22, 36, 45; 2Co 3.6; Gl 3.21; e 1Pe 3.18, com vários sentidos.

[3] É interessante que vários manuscritos siríacos antigos na verdade deixam esta interpretação explícita. Eles versam, “… o Filho dá vida àqueles que creem nele” (syrs e syrc). Claramente, esta leitura não é original, mas ela aponta para o correto entendimento do versículo.

[4] Bultmann concorda que não há sentido eletivo em thelei aqui. Antes, ele mostra que Jesus age intencionalmente; “pretende-se salientar a congruência de seu propósito e suas ações” (Bultmann, The Gospel of John. A Commentary, 256). Schnackenburg diz, “A adição de hous thelei, “àqueles que quer”… não implica arbitrariedade mas autoridade, visto que o Filho somente executa a vontade do Pai, que deseja dar a vida eterna a todos que creem no Filho” (The Gospel According to St. John, 2:106; ênfase adicionada).

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O Deus Esvaziado

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Baseado na Parábola dos Filhos Perdidos

Lc 15.11-32

____________________________________________________________________Ed René Kivitz

Você pode fazer teologia de cima para baixo e de baixo para cima. Caso escolha fazer de cima para baixo, terá a companhia de todos os filósofos, especialmente os gregos, que se fixaram numa idéia de perfeição de Deus, e deram toda ênfase aos atributos incomunicáveis de Deus: onipotência, onisciência e onipresença, por exemplo, (Jó 42.2; Sl 139; Is 43.13; Lc 18.27). Todos os que olham para Deus através desse paradigma imaginam Deus num alto e sublime trono (Is 6.1), habitando em luz inacessível (1Tm 6.16) e, invocado mediante a oração da fé, vem ao mundo fazer coisas boas (milagres) para seus filhos. Não há nada de errado nesta descrição de Deus.

Mas você também pode fazer teologia de baixo para cima. Nesse caso, você deverá deixar de lado aquilo que Deus é em termos de sua perfeita natureza eterna, e focar sua atenção na maneira como Deus escolheu se revelar e se relacionar com as pessoas na história. Seus olhos devem deixar de lado a visão ideal e abstrata da filosofia, e se voltar para Jesus Cristo, suas ações e palavras, que revelam o Pai (Jo 10.30; 14.9).

A Bíblia ensina que Jesus é Deus esvaziado, Deus em forma humana, em forma de servo (Fp 2.5-8). Jesus é Deus conosco, isto é, Deus se revela e se relaciona conosco em Jesus (Jo 1.14, 18; Hb 1.1-3). Em Jesus, Deus está esvaziado, pois sua onipotência foi limitada pela fé dos que a ele se achegavam (Mt 13.53-58), sua onisciência foi limitada pelo Pai (Mt 24.36), e sua onipresença foi limitada pela própria encarnação.

A expressão Deus esvaziado não diz respeito à natureza de Deus. Deus é o mesmo, tanto no alto e sublime trono como encarnado na pessoa de Jesus. Mas a maneira como Deus se relaciona no céu é diferente da maneira como se relaciona na terra. No céu Ele faz tudo quanto lhe agrada e reina soberano. Na terra Ele age em e com as pessoas que atendem seu convite para a comunhão em seu Filho: “venha o teu reino, seja feita a tua vontade assim na terra como no céu” (Sl 115.3, 16; Mt 6.10; 1Co 1.9). Isso fica mais claro quando compreendemos os critérios segundo os quais Deus escolheu se relacionar com seus filhos, conforme Jesus ensina na “parábola dos filhos perdidos” (Lc 15.11-32).

Em primeiro lugar, o Deus esvaziado se relaciona com base no critério da liberdade. O filho mais novo pede a sua parte da herança e vai embora da casa do pai. Naquela época e cultura, o pedido equivaleria a dizer mais ou menos o seguinte: “Pai, tudo o que quero é que o senhor morra. Tudo o que me interessa é seu talão de cheques”. O impressionante é que o pai não faz oposição a esse desejo do filho. O critério é a liberdade: “Você quer ir, meu filho, eu lamento, mas não vou amarrar você ao meu lado, não vou obrigar você a conviver comigo contra a sua vontade. Siga seu caminho”.

O Deus esvaziado não mantém relacionamentos à força, mediante manifestação do seu poder e imposição de sua autoridade soberana. O Deus esvaziado dá um passo atrás, para que você possa exercer sua liberdade de existir com Ele ou contra Ele.

Em segundo lugar, o Deus esvaziado se relaciona com base no critério da interpelação. O filho mais velho se recusa a participar da festa que o pai promove para se alegrar com o retorno do filho mais novo, que estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. O pai vai ao encontro do filho mais velho e o interpela, o confronta e o coloca diante da necessidade de uma decisão. Mas não decide por ele, nem o obriga a se submeter à sua vontade.

O pai não exige obediência dizendo “Enquanto você estiver na minha casa fará as coisas do meu jeito”. O pai confronta o filho e espera tocar sua consciência, para que, semelhantemente ao filho mais novo, ele também “caia em si”, e experimente uma transformação de dentro para fora, de modo que sua submissão à vontade do pai seja um ato voluntário e consciente de ser a melhor escolha.

Deus não é um solucionador de problemas. É um solucionador de pessoas. Deus não prometeu fazer nossa vida melhor. Prometeu nos fazer homens e mulheres melhores: semelhantes ao seu Filho (Rm 8.28-30; 2Co 3.18; Gl 4.19; Ef 4.11-13).

Quem espera uma vida melhor como resultado da intervenção do Deus onipotente, onipresente e onisciente, acaba se frustrando e sucumbindo em culpa e incredulidade. Quem espera ser uma pessoa melhor e andar em comunhão com Deus, numa relação de amor e liberdade, respondendo suas interpelações e desfrutando sua presença e doce companhia é capaz de enfrentar a vida, qualquer que seja ela.

Fonte: Arminianismo.com