1 Timóteo 2: 1 – 6 – PC Antunes

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Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade; porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo. 

Paulo Cesar Antunes

 

Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade; porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo. 1Tm 2.1-6

 

Paulo exorta os cristãos para que façam orações de todos os tipos[1] por todos os homens, em particularpelos reis e por todos os que estão em eminência, para que possam ter uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade. O propósito dessas orações, no entanto, vai além da busca pela tranquilidade dos cristãos.[2] Paulo fundamenta essas orações no fato que isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. O propósito mais amplo, portanto, é que os cristãos possam proclamar o Evangelho entre os homens sem serem perturbados pelas autoridades.[3]

 

Não perderíamos a linha de raciocínio do apóstolo se nada fosse mencionado a respeito das autoridades. Por outro lado, fazer orações para que todos os homens pudessem ter acesso ao Evangelho sem também incluir orações específicas pelas autoridades, dos quais o acesso de todos ao Evangelho muito depende, seria de pouca valia. Portanto, as orações por todos os homens visam a salvação de todos os homens,[4] mas como meio para esse fim, Paulo aconselha que se façam orações pelas autoridades, para que os cristãos possam ter liberdade para proclamar o Evangelho entre os povos. Paulo, portanto, não cita os reis para delimitar as orações a homens de todas as classes, como alguns intérpretes calvinistas,[5] na intenção de evitar a universalidade dessa passagem,[6] sugerem.

 

É importante observar que as orações por todos os homens, o desejo de Deus de que todos sejam salvos e a morte de Cristo por todos estão intimamente relacionados. Os cristãos devem orar pela salvação de todos os homensporque Deus quer que todos os homens sejam salvos e porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.[7] Podemos, então, seguramente concluir que o Evangelho deve ser pregado a todos os homens com base em duas verdades, (1) que Deus quer que todos os homens sejam salvos e (2) Cristo morreu por todos os homens.

 

Mas se Deus quer que todos os homens sejam salvos, por que todos os homens não são salvos? Paulo está falando de um desejo divino, do que Deus gostaria que acontecesse,[8] não do que ele quer, com toda a força de seu poder,[9] que aconteça. Deus deseja a salvação de todos, mas não sem sua resposta ao Evangelho de Cristo.


 

[1] É difícil distinguir as três primeiras (deprecações, orações e intercessões).

[2] “O motivo de Paulo é mais do que manter a paz (1Tm 2.2); é também proclamar o evangelho (2.3, 4).” Craig S. Keener, Comentário Bíblico Atos – Novo Testamento, p. 629.

[3] À semelhança de 2Ts 3.1, 2, “No demais, irmãos, rogai por nós, para que a palavra do Senhor tenha livre curso e seja glorificada, como também o é entre vós; e para que sejamos livres de homens dissolutos e maus; porque a fé não é de todos,” e Rm 15.30-32, “E rogo-vos, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito, que combatais comigo nas vossas orações por mim a Deus; para que seja livre dos rebeldes que estão na Judéia, e que esta minha administração, que em Jerusalém faço, seja bem aceita pelos santos; a fim de que, pela vontade de Deus, chegue a vós com alegria, e possa recrear-me convosco.”

[4] “Ele menciona parenteticamente a necessidade de incluir orações pelos governantes para que os cristãos possam viver em paz, mas seu principal pensamento é que orações sejam oferecidas pela salvação de todas as pessoas.” I. Howard Marshall, em Clark H. Pinnock, The Grace of God the Will of Man, p. 62.

[5] Por exemplo, John Owen, Por Quem Cristo Morreu, p. 82. Mas não podemos limitar o escopo de uma passagem se não houver alguma indicação que possa justificar tal limitação.

[6] É impossível evitar a universalidade da passagem. Afinal, Deus não quer meramente que homens de todas as classes tenham acesso ao Evangelho. Jesus foi bem enfático: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura,” Mc 16.15.

[7] Paulo identifica Cristo com a humanidade ao chamá-lo “Jesus Cristo homem”. Sendo o Mediador entre Deus e os homens, devemos dirigir nossas orações por seu intermédio em favor de todos os homens.

[8]O uso de thelo aqui, e não boulomai, não enfraquece o desejo divino de salvação universal. O termo boulomai é usado na passagem paralela de 2Pe 3.9, “O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo [boulomai] que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.”

[9] “Não é a vontade definitiva de Deus, por meio da qual Ele governa de forma soberana o mundo, a salvação sem seleção.” Earl D. Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, ed., O Novo Comentário Bíblico – Novo Testamento, p. 589.

 

Paulo exorta os cristãos para que façam orações de todos os tipos[1] por todos os homens, em particular pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que possam ter uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade. O propósito dessas orações, no entanto, vai além da busca pela tranquilidade dos cristãos.[2] Paulo fundamenta essas orações no fato que isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. O propósito mais amplo, portanto, é que os cristãos possam proclamar o Evangelho entre os homens sem serem perturbados pelas autoridades.[3]

 

Não perderíamos a linha de raciocínio do apóstolo se nada fosse mencionado a respeito das autoridades. Por outro lado, fazer orações para que todos os homens pudessem ter acesso ao Evangelho sem também incluir orações específicas pelas autoridades, dos quais o acesso de todos ao Evangelho muito depende, seria de pouca valia. Portanto, as orações por todos os homens visam a salvação de todos os homens,[4] mas como meio para esse fim, Paulo aconselha que se façam orações pelas autoridades, para que os cristãos possam ter liberdade para proclamar o Evangelho entre os povos. Paulo, portanto, não cita os reis para delimitar as orações a homens de todas as classes, como alguns intérpretes calvinistas,[5] na intenção de evitar a universalidade dessa passagem,[6] sugerem.

 

É importante observar que as orações por todos os homens, o desejo de Deus de que todos sejam salvos e a morte de Cristo por todos estão intimamente relacionados. Os cristãos devem orar pela salvação de todos os homensporque Deus quer que todos os homens sejam salvos e porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.[7] Podemos, então, seguramente concluir que o Evangelho deve ser pregado a todos os homens com base em duas verdades, (1) que Deus quer que todos os homens sejam salvos e (2) Cristo morreu por todos os homens.

 

Mas se Deus quer que todos os homens sejam salvos, por que todos os homens não são salvos? Paulo está falando de um desejo divino, do que Deus gostaria que acontecesse,[8] não do que ele quer, com toda a força de seu poder,[9] que aconteça. Deus deseja a salvação de todos, mas não sem sua resposta ao Evangelho de Cristo.


 

[1] É difícil distinguir as três primeiras (deprecações, orações e intercessões).

[2] “O motivo de Paulo é mais do que manter a paz (1Tm 2.2); é também proclamar o evangelho (2.3, 4).” Craig S. Keener, Comentário Bíblico Atos – Novo Testamento, p. 629.

[3] À semelhança de 2Ts 3.1, 2, “No demais, irmãos, rogai por nós, para que a palavra do Senhor tenha livre curso e seja glorificada, como também o é entre vós; e para que sejamos livres de homens dissolutos e maus; porque a fé não é de todos,” e Rm 15.30-32, “E rogo-vos, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito, que combatais comigo nas vossas orações por mim a Deus; para que seja livre dos rebeldes que estão na Judéia, e que esta minha administração, que em Jerusalém faço, seja bem aceita pelos santos; a fim de que, pela vontade de Deus, chegue a vós com alegria, e possa recrear-me convosco.”

[4] “Ele menciona parenteticamente a necessidade de incluir orações pelos governantes para que os cristãos possam viver em paz, mas seu principal pensamento é que orações sejam oferecidas pela salvação de todas as pessoas.” I. Howard Marshall, em Clark H. Pinnock, The Grace of God the Will of Man, p. 62.

[5] Por exemplo, John Owen, Por Quem Cristo Morreu, p. 82. Mas não podemos limitar o escopo de uma passagem se não houver alguma indicação que possa justificar tal limitação.

[6] É impossível evitar a universalidade da passagem. Afinal, Deus não quer meramente que homens de todas as classes tenham acesso ao Evangelho. Jesus foi bem enfático: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura,” Mc 16.15.

[7] Paulo identifica Cristo com a humanidade ao chamá-lo “Jesus Cristo homem”. Sendo o Mediador entre Deus e os homens, devemos dirigir nossas orações por seu intermédio em favor de todos os homens.

[8]O uso de thelo aqui, e não boulomai, não enfraquece o desejo divino de salvação universal. O termo boulomai é usado na passagem paralela de 2Pe 3.9, “O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo [boulomai] que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.”

[9] “Não é a vontade definitiva de Deus, por meio da qual Ele governa de forma soberana o mundo, a salvação sem seleção.” Earl D. Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, ed., O Novo Comentário Bíblico – Novo Testamento, p. 589.

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Atos 13:48 – PC Antunes

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Paulo Cesar Antunes

E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna (At 13.48).

 Esta passagem é muito usada pelos calvinistas para tentar provar a doutrina da eleição incondicional. Praticamente todos os calvinistas a usam. Berkhof a cita em sua Teologia Sistemática, uma vez em favor da eleição incondicional, outra da vocação eficaz.[1]  Pink nos conta que “todas as artimanhas da engenhosidade humana têm sido empregadas para obscurecer o significado deste versículo e para explicar de outro modo o sentido óbvio de suas palavras; mas todas as tentativas têm sido em vão; de fato, nada pode conciliar esta e outras passagens semelhantes com a mente do homem natural.”[2] John Gill sustenta que “a fé não é a causa, ou a condição do decreto da vida eterna, mas um meio fixado nele, e é fruto e efeito dele, e o que certamente segue dele.”[3] Boettner parece concordar com Gill quando diz que “basear a eleição na fé prevista é dizer que somos ordenados à vida eterna porque cremos, ao passo que as Escrituras declaram o contrário.”[4] O próprio Calvino, comentando At 13.48, diz: “Esta passagem ensina que a fé depende da eleição de Deus.”[5]Citar outros calvinistas não acrescentaria em nada ao que já foi dito. J. O. Buswell é um dos poucos calvinistas que não compartilha dessa opinião.[6]

 A disputa entre calvinistas e arminianos gira em torno da palavra “ordenados” (gr. tetagmenoi, pretérito perfeito passivo de tasso), um termo que significa ‘ordenar,’ ‘colocar em uma certa posição ou ordem,’ ‘dispor.’ O comentarista Adam Clarke diz que a palavra “não inclui nenhum idéia de preordenação ou predestinação de qualquer espécie.”[7] É a mesma opinião de Wesley, quando diz: “É observável, a palavra original não é nenhuma vez usada na Escritura para expressar predestinação eterna de qualquer sorte.” [8] Essas observações de Clarke e Wesley quanto ao significado da palavra são importantes, mas elas não servem para colocar um ponto final na questão. É digno de nota que a Versão Siríaca traz, em At 13.48, a expressão “foram destinados” e a Vulgata, “tantos quantos foram preordenados à vida eterna (quotquot erant praeordinati ad vitam aeternam).”

 A palavra tasso é usada 8 vezes na Bíblia, com os sentidos de:

 – comandar ou designar:

 Partiram, pois, os onze discípulos para a Galileia, para o monte onde Jesus lhes designara (Mt 28.16).

 Então disse eu: Senhor que farei? E o Senhor me disse: Levanta-te, e vai a Damasco, onde se te dirá tudo o que te é ordenado fazer (At 22.10).

 Havendo-lhe eles marcado um dia, muitos foram ter com ele à sua morada, aos quais desde a manhã até a noite explicava com bom testemunho o reino de Deus e procurava persuadí-los acerca de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas (At 28.23).

 – instituir, constituir ou apontar:

 Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus (Rm 13.1).

 – determinar, tomar conselho, resolver:

 Tendo Paulo e Barnabé contenda e não pequena discussão com eles, os irmãos resolveram que Paulo e Barnabé e mais alguns dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, por causa desta questão (At 15.2).

 – sujeitar-se à autoridade de alguém:

 Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz (Lc 7.8).

 – dedicar-se a:

 Agora vos rogo, irmãos – pois sabeis que a família de Estéfanas é as primícias da Acaia, e que se tem dedicado ao ministério dos santos (1Co 16.15).

 Como pode ser visto, nenhum desses significados carrega a idéia de preordenação ou de algum decreto divino feito na eternidade. A palavra tasso é de origem militar, usada no sentido de ‘dispor soldados em ordem de acordo com a vontade de um oficial.’

 A interpretação calvinista não é absolutamente necessária nesta passagem por algumas razões: 

 1)    a palavra “ordenados” também pode significar “dispostos.” Assim, o verso ficaria “todos quantos estavam dispostos à vida eterna creram.” Por quem dispostos, o verso não diz. Dean Alford concorda com esta tradução. E acrescenta: “Encontrar neste texto uma afirmação de preordenação à vida é forçar tanto a palavra quanto o contexto a um significado que eles não contêm.”[9]

 2)    “A livre auto-determinação da vontade humana é tão pouco negada quanto afirmada nesta passagem; umdecretum absolutum não está de forma nenhuma envolvido em tetagmenoi.”[10] O contexto não parece apontar para uma fé como conseqüência da eleição divina, mas de uma livre-escolha pessoal, obviamente guiada por Deus. Aqueles que estavam ordenados à vida eterna, antes de crerem, estavam desejosos de ouvir a Palavra de Deus, como alguns versos antecedentes mostram:

 Quando iam saindo, rogavam que estas palavras lhes fossem repetidas no sábado seguinte… No sábado seguinte reuniu-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus (At 13.42, 44).

 Portanto, mesmo se interpretar tetagmenoi como um arranjo prévio por Deus, At 13.48 não traria qualquer problema, visto que as pessoas ordenadas responderam positivamente à graça de Deus antes de obterem fé salvífica. Deus, em Sua onisciência, sabendo de antemão a disposição dos seus corações, a receptividade de cada um à Palavra, e que, se sobre esses exercesse Sua graça, eles iriam crer, poderia tê-los ordenados para a vida eterna e lhes concedido fé.

 3)    Alguns comentaristas defendem uma outra ordem para o verso. Também seria correto, segundo Leander S. Keyser: “E creram, todos quantos estavam dispostos, determinados, ou firmes para a vida eterna.”[11] Isso é confirmado  por W. E. Vine em seu Expository Dictionary of New Testament Words, onde se pode ler do significado de “ordenados”: “É dito daqueles que, tendo crido no Evangelho, ‘foram ordenados à vida eterna,’ At 13.48.”[12]

 Seja qual for a ordem das frases, “não há nenhuma evidência de que Lucas tinha em mente um absolutum decretum de salvação pessoal.”[13]

 4)    Antes da vinda de Cristo certamente havia algumas pessoas já salvas, que haviam crido na mensagem redentora dada por Deus no Velho Testamento, e que mantinham uma relação pessoal com Deus. Antes da conversão de Cornélio, por exemplo, a Bíblia o mostra como um “homem justo e temente a Deus” (At 10.22). A ele apenas ainda não havia sido apresentado o Evangelho de Cristo. Essa situação foi única na história da igreja e obviamente não existe mais. Portanto, Lucas poderia estar falando, em At 13.48, daqueles que, já no caminho da salvação, apenas creram na mensagem de Cristo. Não que todos que ouviram o discurso de Paulo naquele momento já eram salvos, mas a referência poderia ser a esses. Essa interpretação é defendida por F. Leroy Forlines.[14] Esta posição é apoiada pelo fato de que os crentes do v. 48 muito provavelmente faziam parte dos “judeus e prosélitos devotos [ou religiosos]”, a quem Paulo e Barnabé exortaram para “perseverarem na graça de Deus” (13.43) um sábado antes.

 5)    Crisóstomo (347-407), considerado um dos quatro grandes Doutores da Igreja Oriental, indica que a palavra ‘ordenados’ assume o sentido de ‘reservados para Deus.’ Da obra Saint Chrysostom: Homilies on the Acts of the Apostles and the Epistle to the Romans, de Philip Schaff, a seguinte nota de George B. Stevens pode ser vista: “A expressão ‘creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna’ tem sido tanto minimizada quanto exagerada. Crisóstomo aponta o caminho para sua correta interpretação ao dizer ‘reservados para Deus’ e adiciona em seguida ‘não com referência à necessidade.’ O escritor não está de forma alguma buscando definir uma doutrina do plano divino em seu efeito sobre a auto-determinação humana, mas apontando uma seqüência histórica. Aqueles que se tornaram crentes verdadeiramente estavam dentro do plano de Deus. A passagem não diz nada da relação do ordenamento de Deus com a escolha do crente. É um exemplo do tipo de pensamento paulino que baseia a salvação no eterno propósito de Deus. Quem quer que seja salvo, de fato, foi salvo pelo propósito de Deus. Se realmente eles são salvos sob a condição da fé e não através da coação de um decretum absolutum, então é certo que sua salvação, como prevista no propósito de Deus, não exclui sua auto-determinação e aceitação pessoal.”[15]

 6)    “Na verdade, alguns entendem que o verbo está na voz média, e não na passiva, e traduzem o texto assim: ‘e tantos quantos destinaram-se a si mesmos [mediante sua reação positiva aos apelos do Espírito] para a vida eterna, creram’.” (David J. Williams, Novo Comentário Bíblico do Livro de Atos)

 7)    Lucas não diz preordenados mas ordenados.

 Alford, citando Wordsworth, nos revela que a construção da idéia de uma preordenação à vida eterna pelos calvinistas em At 13.48 vem da imprópria tradução da Vulgata, uma versão “com inúmeras falhas, imprecisões, inconsistências, e colocações arbitrárias nos detalhes.”[16] Ele diz: “O Dr. Wordsworth bem observa que seria interessante perguntar, Que influência estas traduções na Versão Vulgata (‘preordenados’) teve nas mentes de alguns, como Santo Agostinho e seus seguidores na igreja ocidental, ao tratar as grandes questões do livre-arbítrio, eleição, reprovação, e perseverança final? O que mais foi resultado dessa influência nas mentes de alguns escritores das Igrejas Reformadas, que rejeitaram a autoridade de Roma, que quase canonizou essa versão; e todavia nestes dois importantes textos (At 2.47; 13.48) foram influenciados por ela, se distanciando do sentido do original? A tendência dos pais orientais, que liam o grego original, foi em uma direção diferente daquela da escola ocidental; e o Calvinismo não pode receber nenhum apoio destes dois textos, tanto quando colocados diante das palavras originais da inspiração como quando esclarecidos pela Igreja primitiva.”[17]

 Conforme nos informa Gleason L. Archer, Jr: “Em 382, Jerônimo foi comissionado pelo Papa Damaso para revisar a Itala em confronto com a Septuaginta Grega (embora que Jerônimo já conhecesse o hebraico, Damaso não tinha pretendido originalmente nada tão radical como seria uma nova tradução latina do hebraico original).”[18] A Itala foi uma versão latina, traduzida a partir da Septuaginta. A Vulgata foi uma tentativa de trazer a Itala mais próxima da Septuaginta. Como pode ser notado, a Vulgata não foi uma tradução direta do original. É interessante notar que a Vulgata surgiu na época em que Agostinho vivia.  Mais interessante ainda é que esta versão carregava forte influência dos ensinos de Agostinho, principalmente no que se referia à predestinação e à negação do livre-arbítrio. Fluente em latim, Calvino também usou muito a Vulgata. Isto porque a Vulgata foi praticamente, por mil anos, a única Bíblia conhecida e lida na Europa Ocidental.

 Após sugerir estas outras interpretações, os calvinistas muito provavelmente podem estar dizendo, como Spurgeon: “Tentativas têm sido feitas para comprovar que essas palavras não ensinam a predestinação. Tais tentativas, porém, violentam o claro sentido da linguagem, de tal maneira que nem merecem que se gaste tempo em lhes dar resposta.”[19] Mas a interpretação dos calvinistas cria um sério problema para eles, como demonstrarei a seguir.

 Boettner diz de At 13.48 que “todos quantos estavam ordenados para a vida eterna (e somente eles) creram.”[20] O acréscimo “e somente eles” parte de uma conclusão inevitável. Se tomada a interpretação calvinista, então “todos quantos,” ou seja, todos os que estavam ordenados para a vida eterna, daqueles que estavam presentes dentre “quase toda a cidade” (At 13.44), creram. Isso significa dizer que os demais, que não creram naquele exato momento, não estavam ordenados à vida eterna, ou seja, eram reprovados e estavam predestinados à perdição eterna. Só que dificilmente algum calvinista acredita nisso. Se continuam defendendo a sua interpretação é porque, muito provavelmente, ainda não se deram conta dessa implicação.

 At 13.48, portanto, não é de fácil interpretação. Mas de forma alguma esta passagem evidencia a fé como conseqüência da eleição incondicional, como o Calvinismo propõe. A interpretação dos calvinistas é possível, mas muito improvável, dadas as suas implicações indesejáveis.

 


[1] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, pg. 116, 471.

[2] Arthur W. Pink, Deus é Soberano, p. 53.

[3] John Gill, Comentários sobre At 13.48, John Gill’s Exposition of the Entire Bible.

[4] Loraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination.

[5] John Calvin, Comentários sobre At 13.48, Calvin’s Commentaries.

[6] J. O. Buswell, A Systematic Theology of the Christian Religion, v. 2, p. 152-3.

[7] Adam Clarke, Comentários sobre At 13.48, Adam Clarke’s Commentary on the Bible.

[8] John Wesley, Comentários sobre At 13.48, John Wesley’s Explanatory Notes.

[9] Dean Alford, New Testament for English Readers, Vol. I, Parte II, p. 745).

[10] Lange, Commentary on the Holy Scriptures: Acts, p. 258.

[11] Leander S. Keyser, Election and Conversion, pp. 129-130.

[12] W. E. Vine, Expository Dictionary of New Testament Words, Vol. I, p. 68.

[13] A. T. Robertson, Word Pictures in the New Testament, The Acts, p. 200).

[14] F. Leroy Forlines, The Quest For Truth, p. 388-390.

[15] George B. Stevens, citado em Philip Schaff, Saint Chrysostom: Homilies on the Acts of the Apostles and the Epistle to the Romans.

[16] Philip Schaff, History of the Christian Church.

[17] Dean Alford, The New Testament in the Original Greek, with Introduction and Notes, por Chr. Wordsworth, “The Acts,” p. 108).

[18] Gleason L. Archer, Jr, Merece Confiança o Antigo Testamento?, p. 50.

[19] Charles Spurgeon, citado em Arthur W. Pink, Deus é Soberano.

[20] Loraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination.