Os Cinco Pontos do Calvinismo – introdução

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George L. Bryson

INTRODUÇÃO

 

Por mais de uma década fui entrevistador de um talk show cristão chamado “Biblicamente Falando.” Em muitas ocasiões diferentes, o tópico Calvinismo em geral, e os Cinco Pontos do Calvinismo em particular, era trazido por mim, por um convidado do palco ou por alguém no telefone. Posso claramente me lembrar de uma discussão na qual um convidado calvinista estava debatendo com um arminiano no telefone sobre a questão de se ou não a predestinação era ensinada na Escritura. Quando a questão diante de nós era simplesmente uma questão de afirmar ou negar a predestinação, eu parecia estar do lado do meu convidado calvinista.

O arminiano se surpreendeu com o meu acordo com meu convidado porque ele incorretamente pensava que eu devia ser calvinista por causa deste acordo. Quando expliquei a ele que eu não era calvinista, sua surpresa se transformou em confusão.

Afirmação vs. Definição

Meu convidado então admitiu que ele também ficou surpreso, se não confuso, pois ele também equivocadamente supunha que eu era calvinista porque concordei que a predestinação era ensinada na Escritura. O erro que ambos, meu convidado calvinista e o ouvinte arminiano, tinham cometido era supor que a peculiaridade do Calvinismo é a afirmação calvinista da predestinação. Entretanto, não é a afirmação dos calvinistas desta doutrina que os distingue de outros evangélicos. Antes, é a definição da predestinação pelos calvinistas que os distingue de outros crentes ortodoxos e evangélicos. O estudioso calvinista bastante popular, R. C. Sproul, em seu livro dedicado a definir e defender a visão calvinista da predestinação chama a mesma atenção para este ponto. Ele diz:

Virtualmente, todas as igrejas cristãs têm alguma doutrina formal sobre predestinação. Se a Bíblia é a Palavra de Deus e não mera especulação humana, e se Deus, Ele mesmo, declara que existe tal coisa chamada predestinação, então se segue inevitavelmente que devemos abraçar alguma doutrina de predestinação. [1]

As peculiaridades e as doutrinas do Calvinismo estão (relativas à doutrina da salvação) mais evidentes nos Cinco Pontos do Calvinismo. Para entender os Cinco Pontos como os calvinistas os entendem, você deve vê-los como a expressão da definição calvinista da predestinação. A definição calvinista da predestinação deve por sua vez ser vista como a base da doutrina calvinista da salvação.

O Acróstico de Cinco Pontos

Uma maneira simples e comum de se lembrar dos Cinco Pontos do Calvinismo é usando o acrônimo TULIP.

 

T = Total Depravity (Depravação Total)

U = Unconditional Election (Eleição Incondicional)

L = Limited Atonement (Expiação Limitada)

I = Irresistible Grace (Graça Irresistível)

P = Perseverance of the Saints (Perseverança dos Santos)

 

Embora reconhecendo certo valor no uso deste acrônimo, Sproul também expressa algumas sérias reservas. Ele diz:

Esta lista tem ajudado muitas pessoas a se lembrarem das peculiaridades da teologia reformada. Infelizmente, tem também causado grande confusão e desentendimento. [2]

5 Afirmações ou 5 Doutrinas

Quando fala sobre os Cinco Pontos, um calvinista pode estar se referindo às breves afirmações associadas ao acrônimo TULIP (isto é, Depravação Total, Eleição Incondicional, etc.) ou às verdadeiras doutrinas que são identificadas por estas afirmações e pelas quais o acrônimo serve de lembrete. Você não pode entender a(s) doutrinas(s) dos Cinco Pontos simplesmente lendo muito breves afirmações associadas a estas doutrinas. Isto é, há um significado calvinista específico que deve ser ligado a estas afirmações a fim de que elas sejam entendidas calvinisticamente.

Isto não deve ser encarado como uma crítica das cinco afirmações, pois nunca se pretendeu que elas fossem uma explicação. Dessa forma, cada afirmação calvinista deve ser vista em relação a uma doutrina calvinista correspondente, da mesma maneira que um título de capítulo é visto em relação ao significado completo e a mensagem do próprio capítulo. Por essa razão, uma simples declaração destas afirmações calvinistas, sem uma explicação calvinista precisa, pode ser muito enganadora.

Dirigindo-se aos Calvinistas

Visto que são os Cinco Pontos do Calvinismo que iremos discutir, é razoável que nos voltemos aos calvinistas para uma interpretação e uma explicação destes cinco pontos.

Por essa razão, na discussão que seguirá eu contarei (para uma interpretação das cinco afirmações) em grande quantidade com bem conhecidos teólogos e estudiosos calvinistas, assim como documentos calvinistas históricos e, é claro, João Calvino. Na discussão de tais conceitos como a Depravação Total, conforme usados nos Cinco Pontos, devemos nos lembrar de que eles estão sendo usados em um contexto particular histórico e calvinista. Deixar de manter isto em mente somente levará ao desentendimento e à confusão. De fato, esta é a razão de crer que muitos não-calvinistas podem honestamente (ainda que não precisamente) chamar a si mesmos de calvinistas de um, dois, três ou quatro pontos.

Suave Vs. Rígido

Como logo veremos, há o que eu chamo de formas mais suaves e mais rígidas de Calvinismo. Entretanto, muito do que passa por “Calvinismo moderado” não é Calvinismo coisa nenhuma. Isto é, muitos não-calvinistas não veem nenhum problema com o que eles creem ser um ou mais dos Cinco Pontos (isto é, uma afirmação tal como a Perseverança dos Santos), mas eles estão interpretando estas afirmações não-calvinisticamente (ou inconsistentemente com o “intento autoral”) e a verdadeira doutrina do Calvinismo às quais estas afirmações correspondem.

Coração e Alma

Deve também ser observado que, ainda que o Calvinismo seja mais do que os Cinco Pontos, não há nenhum Calvinismo sem os Cinco Pontos. Um tanto claramente eles representam o coração e a alma do Calvinismo. Dessa forma, verdadeiramente entender os cinco pontos é entender o Calvinismo. Compreender mal os cinco pontos é compreender mal o Calvinismo. De acordo com o notório estudioso calvinista Loraine Boettner:

O sistema calvinista enfatiza especialmente cinco doutrinas distintas. Estas são tecnicamente conhecidas como ‘Os Cinco Pontos do Calvinismo’ e são os principais pilares sobre os quais a superestrutura se apoia. [3]

Por esta razão, deve ser óbvio que a superestrutura do Calvinismo, de modo geral, não é mais firme do que os cinco pilares (isto é, os Cinco Pontos) sobre os quais ela se apoia.

Tudo ou Nada

Boettner continua e explica que:

Estas não são doutrinas isoladas e independentes, mas estão tão inter-relacionadas que elas formam um sistema simples, harmonioso e auto consistente, e a forma com que elas se encaixam como partes componentes de um todo bem ordenado têm conquistado a admiração de homens sérios de todos os credos. Prove que qualquer uma delas é falsa e todo o sistema deve ser abandonado. Todas elas se encaixam perfeitamente umas nas outras. [4]

Por essa razão, deve também ser enfatizado que qualquer tentativa de selecionar um dos Cinco Pontos e tentar interpretar esse ponto (ou adotá-lo) como se ele permanecesse sozinho, é também interpretá-lo não-calvinisticamente. Como diz o teólogo calvinista Gise J. Van Baren:

Os cinco pontos do Calvinismo estão intimamente relacionados. Um ponto pressupõe os outros. [5]

Isto não significa que você não possa honesta e precisamente (em um sentido não-calvinista) dizer que você crê na “Depravação Total” ou “Perseverança dos Santos” e não em (vamos dizer, como muitos fazem) “Expiação Limitada” ou “Graça Irresistível.” Antes, significa que quando você diz que crê em todos eles, você provavelmente não tem a mesma coisa em mente que tem o calvinista. Assim, você pode não falar sobre os Cinco Pontos do Calvinismo per se. O bastante respeitado defensor dos cinco pontos, J. I. Packer, alerta que:

…o próprio fato que a soteriologia calvinista é exposta sob a forma de cinco pontos distintos (um número devido, conforme já explicamos, meramente ao fato de haver cinco pontos arminianos para serem respondidos pelo Sínodo de Dort) tende por obscurecer o caráter orgânico do pensamento calvinista sobre a questão. Pois esses cinco pontos, apesar de declarados em separado, na verdade são indivisíveis uns dos outros. Eles dependem uns dos outros; ninguém pode rejeitar um deles sem rejeitar todos, pelo menos no sentido tencionado pelo Sínodo de Dort. Para o calvinismo, na realidade, há somente um único ponto a ser enfatizado no campo da soteriologia. [6]

Qual é o Ponto?

Packer reduz esse um ponto às palavras “Deus salva pecadores.” Se é a isso que realmente os Cinco Pontos reduzem, eu não teria nenhum problema com os Cinco Pontos. Entretanto, apesar do que diz Packer, como será demonstrado, esse “um ponto” do Calvinismo pode ser comparado a uma moeda de duas faces. Embora raramente, se é que alguma vez foi afirmado de forma tão direta assim, esse “um ponto” pode ser resumido como segue:

Uma pessoa será salva ou condenada por toda a eternidade porque ela foi salva ou condenada desde toda a eternidade.

Isto é, de acordo com o Calvinismo, Deus é tão responsável (e responsável da mesma maneira) por condenar os pecadores que condena quanto é por salvar os pecadores que salva. Isto se tornará particularmente claro em nossa discussão do segundo ponto do Calvinismo (isto é, a Eleição Incondicional).

Por que Eu não Sou Calvinista

Em muitas diferentes ocasiões, tenho ouvido calvinistas dizerem algo como o seguinte:

Se somente cada cristão verdadeiro com um conhecimento prático da Escritura entendesse o Calvinismo em geral e os cinco pontos em particular, ele seria um calvinista de cinco pontos.

Entretanto, como espero que se torne evidente, é precisamente porque eu entendo o Calvinismo em geral e os cinco pontos em particular que eu não sou calvinista – de qualquer tipo. Tenho gasto mais de 27 anos com estudo sério da Escritura. Não poderia sequer começar a calcular as centenas de horas que me dediquei ao estudo da Teologia Bíblica, Sistemática e Histórica. Com grande interesse, tenho também cuidadosamente lido os escritos de calvinistas assim como aqueles considerados mais moderados. Assim como os calvinistas podem e entendem os sistemas de teologia não-calvinistas sem adotá-los, da mesma forma os não-calvinistas, tais como eu mesmo, podem entender o Calvinismo e ainda rejeitá-lo como contrário às Escrituras.

Se você entender o Calvinismo e ainda rejeitá-lo (como eu faço), alguns calvinistas concluirão que você não deve realmente crer na Bíblia como a Palavra de Deus. Nada poderia estar mais longe da verdade para o meu caso como para o caso de centenas de milhares de outros. Todavia, uma rejeição do Calvinismo é interpretada por alguns calvinistas como uma rejeição da Palavra de Deus. Dessa forma, Boettner argumenta que:

A Bíblia desdobra um esquema de redenção que é calvinista do início ao fim, e estas doutrinas são ensinadas com tal inescapável clareza que a questão é estabelecida para todos aqueles que aceitam a Bíblia como a Palavra de Deus. [7]

Outros calvinistas (talvez a maioria) veem a rejeição do Calvinismo pelos cristãos evangélicos como resultado da aceitação do Arminianismo.

Razões Não-Arminianas

Entretanto, quero deixar publicamente claro que eu não estou em desacordo com o Calvinismo por razões “arminianas.” Digo isto porque um mito comum perpetuado por alguns calvinistas, assim como por alguns arminianos, é que se você é um cristão evangélico e não é calvinista, você deve ser arminiano, pelo menos por padrão. Embora concorde com calvinistas e arminianos que estes dois sistemas de teologia são mutuamente exclusivos e, portanto não podem ser ambos verdadeiros, eu enfaticamente discordo que estas são as únicas opções evangélicas e ortodoxas. Entretanto, não estou escrevendo para explicar porque eu não sou arminiano (ou um híbrido teológico chamado “calminiano”). Algum dia eu gostaria de escrever tal livro. Entretanto, esta não é a minha presente preocupação.

Calvinistas Moderados?

Devo também chamar a atenção para o fato que há muitas pessoas que se dizem calvinistas moderados que não se identificarão com os calvinistas que eu aqui cito como representantes do que creio ser o autêntico Calvinismo. Em alguns casos, será devido ao fato que muitas pessoas equivocadamente chamam a si mesmas de calvinistas porque elas aceitaram a ideia que se você não é arminiano, você deve ser calvinista. Outros simplesmente interpretam os Cinco Pontos de uma forma não-calvinista. Frequentemente, é uma combinação de ambos.

Propósito Principal

Meu principal propósito ao escrever este livro é encorajar o leitor que pode estar inclinado a seriamente considerar adotar o Calvinismo a primeiro submeter os Cinco Pontos ao que creio ser (para o Calvinismo) a luz “severa” da Escritura. Como vejo um estudo cuidadoso da Escritura não favorece nem um pouco os Cinco Pontos. Se você já é calvinista, ou pensa que poderia ser eu somente peço que esteja certo de que você está julgando os Cinco Pontos à luz da Escritura e não simplesmente interpretando a Escritura em conformidade com os Cinco Pontos.

Um Pouco de História

Para os interessados em um pouco de história dos Cinco Pontos, deve ser entendido que eles não são apenas um reflexo das opiniões do reformador João Calvino, mas também de Santo Agostinho. Assim como o Sínodo de Dort (o sínodo que primeiro apresentou formalmente estes pontos como os Cinco Pontos do Calvinismo), foi um Sínodo calvinista, da mesma forma João Calvino era um agostiniano. Isto é especialmente verdadeiro em relação à visão agostiniana da predestinação e sua ligação com a salvação dos eleitos e a condenação dos não-eleitos. Co-autor de um dos vários livros chamados Os Cinco Pontos do Calvinismo e escrito para explicar e defender o Calvinismo, o professor Herman Hanko diz que:

De fato, nossos pais em Dordrecht sabiam bem que estas verdades apresentadas nos cânones não poderiam apenas ser traçadas à Reforma de Calvino; elas poderiam ser traçadas à teologia de Santo Agostinho, que viveu quase um milênio antes que Calvino fez sua obra em Genebra. Pois foi Agostinho quem originalmente definiu estas verdades. O próprio Calvino, muitas vezes, presta homenagem à obra de Agostinho e aponta que o que ele está dizendo tinha sido dito antes dele pelo bispo de Hipona. O Sínodo de Dordrecht estava consciente disto. [8]

Boettner concorda. Ele diz:

Foi Calvino quem desenvolveu este sistema de pensamento teológico com tal ênfase e clareza lógica que ele desde então tem carregado seu nome. Ele obviamente não originou o sistema, mas somente demonstrou o que lhe parecia resplandecer tão claramente das páginas da Santa Escritura. Agostinho gerou os princípios básicos do sistema mil anos antes de Calvino ter nascido, e todo o grupo de líderes do movimento da Reforma ensinou o mesmo. Mas foi conferido a Calvino, com seu profundo conhecimento da Escritura, seu aguçado intelecto e gênio sistematizador, demonstrar e defender estas verdades mais clara e habilmente do que tinha sido feito anteriormente. [9]

O teólogo calvinista R. Laird Harris afirma que:

Embora Calvino desse à doutrina reformada sua mais completa formulação, a teologia tinha há muito sido sustentada. Calvino teria sido o primeiro a negar sua inovação… De fato, o Calvinismo é geralmente chamado Agostinianismo. [10]

Ele é Bíblico?

É óbvio que isto, em e de si mesmo, não diz nada de bom nem de mal sobre os Cinco Pontos. Como os escritores calvinistas Steele e Thomas afirmam:

A questão de suprema importância não é como o sistema sob consideração veio a ser formulado em cinco pontos, ou porque ele foi chamado Calvinismo, mas, antes, ele é apoiado pela Escritura? A corte final de apelação para determinar a validade de qualquer sistema teológico é a inspirada e autorizada Palavra de Deus. Se o Calvinismo pode ser verificado por declaração clara e explícita da Escritura, então ele deve ser reconhecido pelos cristãos; se não, ele deve ser rejeitado. [11]

Boettner concorda:

“As Escrituras são a autoridade final pela qual os sistemas são julgados” e que “em todas as questões de controvérsia entre os cristãos, as Escrituras são aceitas como o supremo tribunal de apelação.”.

O respeitado teólogo calvinista, Charles Hodge, disse que:

É dever de todo teólogo subordinar suas teorias à Bíblia, e ensinar não o que lhe parece ser verdadeiro ou razoável, mas simplesmente o que a Bíblia ensina. [13]       

 Com isto entusiasticamente concordamos. Portanto, na metade final deste livro iremos cuidadosamente considerar o que a Escritura tem a dizer sobre as questões que os Cinco Pontos abordam.

O que os Cinco Pontos Não Estão Dizendo

Uma palavra final antes de partirmos para uma explicação do que os calvinistas têm em mente quando falam dos Cinco Pontos do Calvinismo. Como observado anteriormente, muitos evangélicos equivocadamente pensam que aceitam um ou mais de três dos Cinco Pontos e assim verdadeiramente creem que são calvinistas moderados (ou de um, dois ou três pontos). Um exemplo do que quero dizer é encontrado em um artigo intitulado “Os batistas podem se dividir a respeito do Calvinismo.” O autor deste artigo corretamente observa que:

As cinco doutrinas fundamentais do Calvinismo preciso são: A Depravação Total do homem, a eleição incondicional, a expiação limitada, a graça irresistível e a Perseverança dos Santos. [14]

Entretanto, ele imediatamente continua para dizer que:

Muitos batistas do sul não disputariam três destes pontos: a Depravação Total (todos pecaram), a eleição incondicional (os salvos são escolhidos por Deus sem consideração pelo seu próprio mérito) e a Perseverança dos Santos (uma vez salvo sempre salvo). [15]

Visto que os cristãos pensam que a doutrina calvinista da Depravação Total é simplesmente que todos pecaram, ou que a peculiaridade calvinista da eleição incondicional é que a salvação é imerecida ou mesmo que a visão calvinista da perseverança pode ser equiparada à doutrina do “uma vez salvo sempre salvo,” eles continuarão a incorretamente julgarem-se calvinistas.

Enquanto os calvinistas, juntamente com os não-calvinistas, creem que todos pecaram, que a salvação é sem mérito e que uma vez salvo sempre salvo, estas não são exclusivas ao Calvinismo ou até mesmo são peculiaridades suas ou de seus Cinco Pontos.

Explicação antes de uma Avaliação

Dessa forma, deve ser óbvio que sem uma clara e precisa explicação dos Cinco Pontos, uma avaliação justa e bíblica não é possível. Portanto, nesta próxima seção do livro (a primeira de duas principais seções), tentei permitir (tanto quanto possível) que os calvinistas de cinco pontos explicassem o que eles têm em mente quando falam sobre doutrinas como a Depravação Total e a Eleição Incondicional.


[1] R. C. Sproul, Eleitos de Deus, pp. 6, 7.

[2] Ibid., p. 75.

[3] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1932), 59.

[4] Ibid.

[5] Gise J. van Baren, The Five Points of Calvinism (Grand Rapids, MI: Reformed Free Publishing Assoc., 1976), 91.

[6] J. I. Packer, citado em The Five Points of Calvinism, David N. Steele e Curtis C. Thomas, (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1963), 22-23.

[7] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 52.

[8] H. Hanko, H. C. Hoeksema e J. van Baren, The Five Points of Calvinism (Grand Rapids, MI: Reformed Free Publishing Association, 1976), 10.

[9] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 3-4.

[10] R. Laird Harris, “Calvinism,” The Wycliffe Bible Encyclopedia, vol. 1 (Chicago, IL: Moody Press, 1975), 293.

[11] David N. Steele e Curtis C. Thomas, The Five Points of Calvinism, 24.

[12] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 51.

[13] Charles Hodge, citado em Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 50.

[14] Mark Wingfield, “Resurgent Calvinism Renews Debate Over Chance for Heaven,” Baptists Today, Feb. 16, 1995 (Vol. 13, No 4).

[15] Ibid.

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Um Problema com Recentes Tratamentos da Doutrina da Predestinação.

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G. B. McClanahan e Christopher Bounds 

Dictionary of Everyday Theology and Culture. Bruce Demarest e Keith Mathews, eds. Colorado Springs: NavPress, 2010. ISBN: 978-1600061929

Peter Thuesen, Predestination: The American Career of a Contentious Doctrine. New York: Oxford University Press, 2009. ISBN: 978-0195174274

A doutrina da predestinação tem sido um dos temas teológicos mais controversamente debatidos através de boa parte da história da igreja. Atualmente, ela continua a estimular discussões animadas em contextos acadêmicos e igrejas locais.

Infelizmente, com o recente ressurgimento da teologia reformada no contexto americano, tentativas de sustentar a doutrina baseando-a no pensamento cristão consensual tem levado a afirmações falsas sobre a doutrina. No recém-lançado Dictionary of Everyday Theology, Bruce Demarest afirma que “A maioria dos cristãos crê que, de acordo com a sabedoria e vontade de Deus, ele, na eternidade passada, soberanamente escolheu dentre a humanidade caída, ainda a ser criada, aqueles que ele quis que fossem salvos pela graça. O restante ele deixou para sofrer a justa punição por seus pecados…. Os salvos são os objetos da vontade decretiva ou incondicional de Deus, enquanto os perdidos são objetos de sua vontade permissiva ou condicional.”

Esta concepção da “predestinação simples” na qual “a maioria dos cristãos crê” torna-se grotesca quando se percebe que o Catolicismo Romano e a Ortodoxia Oriental compõem a maior parte dos cristãos no mundo atualmente e nenhuma destas tradições defende tal concepção. Além disso, alguém poderia argumentar que esta não é nem mesmo a posição majoritária sobre a predestinação no Protestantismo atual. Quando estudiosos reformados, como Demarest, fazem afirmações atrevidas como esta, eles enganam seu público sobre a aceitação desta doutrina dentro da igreja mais ampla.

Estes exageros estão acontecendo em outras disciplinas. Tentativas de fundamentar a doutrina no consenso histórico tem levado a desastrosas deturpações. Em seu livro, Predestination: The American Career of a Contentious Doctrine, Peter Thuesen, professor associado nas universidades de Indiana e Purdue, em Indianapolis, fornece um excelente tratamento da doutrina da predestinação no contexto americano. Entretanto, na descrição do fundo histórico primitivo da doutrina, Thuesen claramente articula a posição de Demarest sobre a predestinação como a visão consensual da igreja ocidental após Agostinho.

Especificamente, quando examina as concepções de Agostinho sobre a graça de Deus, Thuesen apresenta o ensino de Agostinho sobre a predestinação, particularmente sobre os eleitos, como a posição “mais ou menos oficial” do Ocidente. Ele leva os leitores a crerem que o ensino agostiniano sobre a eleição é a “ortodoxia” padrão na igreja ocidental até o final do período medieval.

Enquanto visões reformadas da predestinação tirariam proveito deste tipo de validação histórica, a evidência fala vigorosamente ao contrário. Uma pesquisa cuidadosa mostra que a igreja ocidental não apoiou a doutrina de Agostinho sobre a eleição. Ao invés, a igreja seguiu entre os extremos do Pelagianismo e Agostinianismo.

Uma rápida análise de tratamentos acadêmicos que abordam os séculos V e VI da igreja revela este ponto. Jaroslav Pelikan em The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine: Volume 1 The Emergence of the Catholic Tradition (100-600) deixa claro que a condenação oficial do Pelagianismo pela igreja não acarretou a aprovação incondicional do ensino de Agostinho. Enquanto a igreja ocidental aceitou a doutrina da graça anti-pelagiana de Agostinho, ela foi “podada de seus elementos predestinacionistas.” O “ensino oficial do Cristianismo latino” rejeitou a “teoria particular e idiossincrásica” da predestinação de Agostinho.

Thomas Oden, em sua tentativa de afirmar o consenso do Cristianismo sobre a questão da eleição em The Transforming Power of Grace, argumenta que a igreja ocidental situou a doutrina da predestinação no preconhecimento divino antes que em um ato da vontade soberana de Deus antes da criação. O conhecimento de Deus do exercício da “fé” de um cristão e da “recalcitrância” de um incrédulo não “determina” a resposta de “um ou outro.”

Similarmente, Gerald Bray, teólogo reformado, em sua obra Ancient Christian Commentary on Scripture: New Testament, Vol. VI, Romans, ensina que os Pais da Igreja primitiva como um todo não seguiram a interpretação de Agostinho da predestinação em Romanos 9. Ao invés, eles viam passagens como “Amei a Jacó e odiei a Esaú” como exemplo do preconhecimento e avaliação do que estes dois irmãos fariam em vida mais tarde. Os Pais foram cuidadosos em esclarecer que Deus não era a causa “unilateral” do amor e do ódio aqui. Os Pais que vieram após Agostinho, como um todo, repudiaram a leitura predestinacionista deste texto.

Christopher Hall, em Learning Theology with the Church Fathers, admite que a igreja viu o ensino de Agostinho sobre o pecado e seu efeito sobre a vontade humana como muito mais próximo da verdade do que a visão de Pelágio. Entretanto, a adoção da Igreja da necessidade da graça para o arrependimento e a fé não “exigia que a Igreja aceitasse toda a soteriologia de Agostinho,” tais como o ensino extremado da predestinação.

Igualmente, J. N. D. Kelly, em Patrística: Origem e Desenvolvimento das Doutrinas Centrais da Fé Cristã, reconhece o triunfo da teologia agostiniana no Ocidente. Entretanto, ele qualifica esta afirmação dizendo que o ensino de Agostinho sobre “a irresistibilidade da graça e sua interpretação restrita da predestinação foram tacitamente deixadas de lado.”[1] Ele argumenta que, no final, a igreja ocidental adotaria uma teologia semi-agostiniana, com entendimento sinergista da salvação, mas com prioridade dada à graça de Deus em tudo.

Em conclusão, enquanto recentes tratamentos da doutrina da predestinação tem feito a perspectiva reformada parecer a visão dominante no Cristianismo e o consenso da igreja primitiva no ocidente, tais patrocinadores sofrem de miopia histórica e eclesiástica.

Tradução: Paulo Cesar Antunes


[1] J. N. D. Kelly, Patrística (São Paulo: Vida Nova, 1994), p. 281.

Uma Análise do Calvinismo

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____________________________________________________________________________  Philip Schaff

(History of the Christian Church, Volume 7, Capítulo XIV, § 114)

 

Não podemos deixar este importante assunto sem examinar o sistema calvinista da predestinação à luz da experiência cristã, da razão e do ensino da Bíblia.

 

O Calvinismo, como vimos, começa de um duplo decreto de predestinação absoluta, que precede a criação, e é o plano divino da história humana. Este plano inclui os estágios sucessivos da criação do homem, uma queda e condenação universal da raça, uma redenção e salvação parcial, e uma reprovação e perdição parcial: tudo para a glória de Deus e para a demonstração de seus atributos de misericórdia e justiça. A história é somente a execução do propósito original. Não pode haver nenhuma falha. O início e o fim, o plano imutável de Deus e o resultado da história do mundo, devem estar em harmonia.

 

Devemos lembrar logo no início que temos que lidar aqui com nada menos do que a solução do problema do mundo, e devemos abordá-la com reverência e um senso humilde de limitação de nossas capacidades mentais. Estamos situados, por assim dizer, ante uma montanha cujo topo está perdido nas nuvens. Muitos que ousaram subir ao cume perderam sua visão nos ofuscantes montes de neve. Dante, o mais profundo pensador entre os poetas, considera o mistério da predestinação distante demais dos mortais que não podem ver “a primeira causa em sua totalidade,” e profunda demais até para a compreensão dos santos no Paraíso, que desfrutam a visão beatífica, todavia “não conhecem todos os eleitos,” e estão satisfeitos por “desejar o que quer que Deus queira.”[1] O próprio Calvino confessa que, “a predestinação de Deus é um emaranhamento, do qual a mente do homem de forma alguma consegue desprender-se.”[2]

 

A única saída do emaranhamento é o fio de Ariadne do amor de Deus em Cristo, e este é um ainda maior, mas mais santo mistério, que podemos adorar antes que compreender.

 

OS FATOS DA EXPERIÊNCIA.

 

Encontramos em todo lugar neste mundo os traços de um Deus revelado e de um Deus oculto; revelado o suficiente para fortalecer nossa fé, oculto o suficiente para testar nossa fé.

 

Estamos cercados de mistérios. No reino da natureza vemos os contrastes de luz e trevas, dia e noite, calor e frio, verão e inferno, vida e morte, vales florescentes e desertos infecundos, pássaros canoros e serpentes venenosas, animais benéficos e bestas vorazes, a luta pela existência e a sobrevivência dos mais aptos. Passando para a vida humana, descobrimos que um homem nasce para a prosperidade, outro para a miséria; um rei, outro mendigo; um forte e saudável, o outro um paralítico desamparado; um gênio, o outro um ignorante; um inclinado à virtude, outro ao vício; um filho de um santo, o outro de um criminoso; um na escuridão do paganismo, outro na luz do Cristianismo. Tanto os melhores quanto os piores homens estão expostos a acidentes fatais, e nações inteiras com sua prole inocente são assoladas e dizimadas pela guerra, pestilência e fome.

 

Quem pode explicar todos estes e mil outras diferenças e problemas desconcertantes? Eles estão além do controle da vontade do homem, e devem ser achados na vontade inescrutável de Deus, cujos caminhos estão além da nossa compreensão.

 

Aqui, então, está a predestinação, e, aparentemente, uma dupla predestinação para o bem ou mal, para a alegria ou miséria.

 

Pecado e morte são fatos universais que ninguém em sã consciência pode negar. Eles constituem o problema dos problemas. E a única solução prática do problema é o fato da redenção. “Onde o pecado abundou, superabundou a graça; para que, assim como o pecado veio a reinar na morte, assim também viesse a reinar a graça pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 5.20, 21).

 

Se a redenção fosse tão universal em sua operação quanto o pecado, a solução seria mais satisfatória e mais gloriosa. Mas a redenção é somente em parte revelada neste mundo, e a grande questão permanece: O que será da imensa maioria dos seres humanos que vivem e morrem sem Deus e sem esperança neste mundo? Este terrível fato deve ser achado no eterno conselho de Deus ou na livre agência do homem? Aqui está o ponto onde o Agostinianismo e o Calvinismo discordam do Pelagianismo, do Semipelagianismo, do Sinergismo e do Arminianismo.

 

O sistema calvinista envolve uma verdade positiva: a eleição para a vida eterna pela graça livre, e a inferência negativa: a reprovação para a morte eterna pela justiça arbitrária. A primeira é a força, a última é a fraqueza do sistema. A primeira é praticamente aceita por todos os crentes verdadeiros; a última sempre foi, e sempre será, rechaçada pela grande maioria dos cristãos.

 

A doutrina de uma eleição graciosa é tão claramente ensinada no Novo Testamento quanto qualquer outra doutrina. Consulte passagens como Mt 25.34; Jo 6.37, 44, 65; 10.28; 15.16; 17.12; 18.9; At 13.48; Rm 8.28-39; Gl 1.4; Ef 1.4-11; 2.8-10; 1Ts 1.4; 2Ts 2.13-14; 2Tm 1.9; 1Pe 1.2. A doutrina é confirmada pela experiência. Os cristãos traçam todas as suas bênçãos temporais e espirituais, suas vidas, saúde, e força, sua regeneração e conversão, todo bom pensamento e obra à graça imerecida de Deus, e esperam ser salvos unicamente pelos méritos de Cristo, “pela graça, por meio da fé,” não pelas suas próprias obras. Quanto mais avançam na vida espiritual, mais gratos se sentem a Deus, e menos inclinados a reivindicar algum mérito. Os maiores santos são também os mais humildes. Sua teologia reflete o espírito e atitude de oração, que se apóia na convicção de que Deus é o livre doador de todo bem e dom perfeito, e que, sem Deus, não somos nada. Diante do trono da graça todos os cristãos podem ser chamados de agostinianos e calvinistas.

 

O grande mérito de Calvino é ter apresentado esta doutrina da salvação pela livre graça mais vigorosa e claramente do que qualquer teólogo desde os dias de Agostinho. Ela tem sido o tema eficaz dos grandes pregadores e escritores calvinistas na Europa e América até o dia de hoje. Howe, Owen, Baxter, Bunyan, South, Whitefield, Jonathan Edwards, Robert Hall, Chalmers, Spurgeon, foram calvinistas em seus credos, embora pertencendo a diferentes denominações, – Congregacional, Presbiteriana, Episcopal, Batista, – e não tiveram superiores em força e influência no púlpito. Spurgeon foi o pregador mais popular e eficaz do século dezenove, que se dirigia de semana a semana a cinco mil ouvintes em seu tabernáculo, e milhões de leitores através de seus sermões impressos em muitas línguas. Nem devemos nos esquecer de que alguns dos mais devotos católicos romanos foram agostinianos ou jansenistas.

 

Por outro lado, ninguém é salvo mecanicamente ou pela força, mas por meio da fé, gratuitamente, aceitando o dom de Deus. Isto implica a força contrária de rejeitar o dom. Aceitar não é nenhum mérito, rejeitar é ingratidão e culpa. Todos os pregadores calvinistas apelam à responsabilidade do homem. Eles oram como se tudo dependesse de Deus; e, no entanto pregam e agem como se tudo dependesse do homem. E a Igreja é instruída a enviar o evangelho a toda criatura. Oramos pela salvação de todos os homens, mas não pela perda de um único ser humano. Cristo intercedeu até mesmo por seus assassinos na cruz.

 

Aqui, então, está uma dificuldade prática. O decreto da reprovação não pode ser feito objeto de oração ou pregação, e este é um argumento contra ele. A experiência confirma a eleição, mas repudia a reprovação.

 

O ARGUMENTO LÓGICO.

 

O argumento lógico para a reprovação é que não pode haver nenhum positivo sem um negativo; nenhuma eleição de alguns sem uma reprovação de outros. Isto é verdadeiro por lógica dedutiva, mas não por lógica indutiva. Há graus e fases de eleição. Deve haver uma ordem cronológica na história da salvação. Todos são chamados mais cedo ou mais tarde; alguns na sexta, outros na nona, outros na décima primeira hora, de acordo com a providência de Deus. Aqueles que aceitam a chamada e perseveram na fé estão entre os eleitos (1Pe 1.1; 2.9). Aqueles que a rejeitam se tornam reprovados por sua própria incredulidade, e contra o desejo e vontade de Deus. Não há nenhum decreto antecedente de reprovação, mas somente um ato judicial de reprovação em consequência do pecado do homem.

 

A lógica é uma espada de duas pontas. Ela pode levar das premissas predestinacionistas à conclusão de que Deus é o autor do mal, o que o próprio Calvino rejeita e abomina como blasfêmia. Ela pode também levar ao fatalismo, panteísmo ou universalismo. Devemos parar em algum lugar em nosso processo de raciocínio, ou sacrificar uma parte da verdade. A lógica, deve ser lembrado, lida somente com categorias finitas, e não pode compreender verdade infinita. O Cristianismo não é um problema lógico ou matemático, e não pode ser reduzido às limitações de um sistema humano. Ele está acima de qualquer sistema particular e abrange as verdades de todos os sistemas. Está acima da lógica, todavia não é ilógico; como a revelação está acima da razão, todavia não contra a razão.

 

Não podemos imaginar Deus exceto como um ser onisciente e onipotente, que da eternidade previu e, de alguma forma, também preordenou todas as coisas que acontecem em seu universo. Ele previu o que preordenou, e preordenou o que previu; sua presciência e preordenação, sua inteligência e vontade são coeternas, e devem harmonizar-se. Não há nenhuma sucessão de tempo, nem antes nem depois no Deus eterno. A queda do primeiro homem, com seus efeitos sobre todas as futuras gerações, não pode ter sido um acidente que Deus, como um espectador passivo e neutro, simplesmente permitiu que acontecesse quando ele podia tão facilmente ter evitado. Ele deve de alguma forma ter preordenado a queda, como um meio para um fim maior, como uma condição negativa para o maior bem. Até agora a força do raciocínio, baseado na crença em um Deus pessoal, vai até o extremo do supralapsarianismo calvinista, e até mesmo além dele, à própria margem do universalismo. Se abandonarmos a ideia de um Deus autoconsciente, pessoal, a razão nos forçaria ao fatalismo ou panteísmo.

 

Mas há uma lógica da ética assim como da metafísica. Deus é santo assim como todo-poderoso e onisciente, e por essa razão não pode ser o autor do pecado. O homem é um ser tanto moral quanto intelectual, e as afirmações de sua constituição moral são iguais às suas afirmações de sua constituição intelectual. A consciência é um fator tão poderoso quanto à razão. O crente mais rígido na soberania divina, se cristão, não pode se livrar do senso de responsabilidade pessoal, apesar de incapaz de reconciliar as duas. A harmonia jaz em Deus e na constituição moral do homem. Elas são os dois lados complementares de uma verdade. Paulo as une em uma sentença: “Efetuai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13). O problema, entretanto, chega dentro do alcance da solução possível, se distinguirmos entre soberania como um poder inerente e o exercício da soberania. Deus pode limitar o exercício de sua soberania para dar lugar à livre ação de suas criaturas. É por seu decreto soberano que o homem é livre. Sem essa autolimitação ele não poderia exortar os homens ao arrependimento e à fé. Aqui, novamente, a lógica calvinista deve curvar-se ou partir-se. Estritamente executada, ela transformaria as exortações de Deus aos pecadores em uma solene zombaria e cruel ironia.

 

O ARGUMENTO DA ESCRITURA.

 

Calvino, embora um dos mais hábeis lógicos, se preocupou menos com a lógica do que com a Bíblia, e foi sua obediência à Palavra de Deus que o induziu a aceitar o decretam horribile contra seu desejo e vontade. Seu julgamento é da maior importância, pois ele não teve ninguém superior, e dificilmente alguém à altura, em conhecimento pleno e sistemático da Bíblia e em discernimento exegético.

 

E aqui devemos espontaneamente admitir que um número considerável de passagens, especialmente no Velho Testamento, favorecem um duplo decreto até o limite do extremo supralapsarianismo; sim, eles vão além do sistema calvinista, e parecem fazer do próprio Deus o autor do pecado e do mal. Veja Êx 4.21; 7.13 (repetidamente citado sobre o endurecimento do coração do Faraó por Deus); Is 6.9, 10; 44.18; Jr 6.21; Am 3.6 (“Sucederá qualquer mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?”); Pv 16.4; Mt 11.25; 13.14, 15; Jo 12.40; Rm 9.10-23; 11.7, 8; 1Co 14.3; 2Ts 2.11; 1Pe 2.8; Jd 4 (“que já desde há muito estavam destinados para este juízo”).[3]

 

A defesa da reprovação é o nono capítulo de Romanos. Não foi acidental que Calvino elaborou e publicou a segunda edição de suas Institutas simultaneamente com seu Comentário sobre Romanos, em Estrasburgo, em 1539.

 

Há especialmente três passagens em Rm 9, que em seu sentido literal favorecem o Calvinismo extremado, e são assim explicadas por alguns dos mais rigorosos comentaristas gramaticais dos tempos modernos (como Meyer e Weiss).

 

(a) 9.13: “Amei a Jacó, e aborreci a Esaú,” citado de Ml 1.2, 3. Esta passagem, se a tomarmos num sentido literal ou antropopático, não tem nenhuma referência com o destino eterno de Jacó e Esaú, mas com a posição representativa na história da teocracia. Isto remove a principal dificuldade. Esaú recebeu uma bênção temporal de seu pai (Gn 27.39, 40), e se comportou gentil e generosamente com seu irmão (33.4); ele provavelmente se arrependeu da estupidez de sua juventude de vender sua primogenitura,[4] e pode estar entre os salvos, assim como Adão e Eva – os primeiros entre os perdidos e os primeiros entre os salvos.

 

Além disso, o significado rígido de um ódio positivo parece impossível na natureza do caso, visto que contradiria tudo que conhecemos da Bíblia dos atributos de Deus. Um Deus de amor, que nos comanda a amar todos os homens, até os nossos inimigos, não pode odiar uma criança antes de seu nascimento, ou qualquer de suas criaturas feitas à sua própria imagem. “Pode uma mulher esquecer-se de seu filho de peito,” diz o Senhor, “de maneira que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse, eu, todavia, não me esquecerei de ti” (Is 49.15). Esta é a concepção do profeta das afáveis misericórdias de Deus. Quanto mais deve ser a concepção do Novo Testamento? A palavra ódio deve, por essa razão, ser entendida como uma expressão hebraística forte para amar menos ou recusar; como em Gn 29.31, onde o texto original diz, “Léia era odiada” por Jacó, isto é, amada menos do que Raquel (comp. v. 30). Quando nosso Salvador diz, Lc 14.26: “Se alguém vier a mim, e não odiar a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo,” ele não quer dizer que seus discípulos devem violar o quinto mandamento, e agir de forma contrária à sua orientação: “Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44), mas simplesmente que devemos preferir a ele acima de tudo, até da própria vida, e devemos sacrificar o que quer que venha em conflito com ele. Este significado é confirmado pela passagem paralela, Mt 10.37: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim”

 

(b) Rm 9.17. Paulo traça o endurecimento do coração do Faraó à intervenção de Deus, e até então faz Deus o responsável pelo pecado. Mas este era um ato judicial de punir o pecado com pecado; pois Faraó tinha primeiro endurecido seu próprio coração (Êx 8.15, 32; 9.34). Além disso, esta passagem não tem nenhuma referência com o destino futuro do Faraó mais do que a passagem sobre Esaú, mas ambas se referem aos seus lugares na história de Israel.

 

(c) Em 9.22 e 23, o apóstolo fala de “vasos da ira, preparados para a perdição,” e “vasos de misericórdia, que (Deus) preparou para a glória.” Mas a diferença dos verbos, e as diferenças entre a passiva (ou média) na primeira frase e a ativa na segunda é mais significante, e mostra que Deus não tem nenhuma interferência direta na destruição dos vasos da ira, que é devido à sua autodestruição; o particípio perfeito denota o resultado de um processo gradual e um estado de maturidade para a destruição, mas não um propósito divino. Calvino é um exegeta bom demais para negligenciar esta diferença, e verdadeiramente admite sua força, embora tentasse enfraquecê-la.

 

“Eles observam,” ele diz de seus oponentes, “que não é dito sem propósito, que os vasos da ira são preparados para a destruição, mas que Deus preparou os vasos de misericórdia; visto que por este modo de expressão, Paulo atribui a Deus o louvor da salvação, e lança a culpa da perdição naqueles que por suas escolhas a obtêm para si mesmos. Mas embora concorde com eles que Paulo suaviza a asperidade da primeira frase pela diferença de fraseologia; todavia não é consistente transferir a preparação para a destruição a qualquer outra coisa que não o secreto conselho de Deus, que também é afirmado bem antes no contexto, ‘que Deus levantou a Faraó, e quem ele quer ele endurece.’ De onde segue que a causa do endurecimento é o conselho secreto de Deus. Por essa razão, sustento, o que é observado por Agostinho, que quando Deus transforma lobos em ovelhas, ele os renova pela mais poderosa graça para conquistar sua obstinação; e por essa razão os obstinados não são convertidos, pois Deus exerce, não aquela graça mais poderosa, da qual não está destituído se escolhesse mostrá-la.”[5]

 

O ENSINO DE PAULO DA EXTENSÃO DA REDENÇÃO.

 

Qualquer que seja a opinião que possamos tirar destas difíceis passagens, devemos lembrar que o nono capítulo de Romanos é somente uma parte da filosofia da história de Paulo, revelada nos capítulos 9-11. Enquanto o nono capítulo estabelece a soberania divina, o décimo capítulo afirma a responsabilidade humana, e o décimo primeiro avança para a solução futura do misterioso problema, a saber, a conversão da plenitude dos gentios e a salvação de todo o Israel (11.25). E ele encerra toda a discussão com a gloriosa sentença: “Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos” (32). Esta é a chave para o entendimento, não apenas desta seção, mas de toda a epístola aos Romanos.[6]

 

E isto está em harmonia com todo o espírito e objetivo desta epístola. É mais fácil fazê-la provar um sistema de universalismo condicional do que um sistema de particularismo dualístico. O próprio tema, 1.16, declara que o evangelho é o poder de Deus para salvação, não de uma classe particular, mas de “todo aquele” que crê. Ao traçar um paralelo entre o primeiro e o segundo Adão (5.12-21), ele representa o efeito do último como igual em extensão, e maior em intensidade, do que o efeito do primeiro; enquanto no sistema calvinista deveria ser menos. Não temos direito de limitar “os muitos” e o “todos” em uma frase, e a tomarmos literalmente na outra. “Porque, se pela ofensa de um só [Adão], a morte veio a reinar por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Portanto, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação e vida. Porque, assim como pela desobediência de um só homem muitos [isto é, todos] foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um muitos [todos] serão constituídos justos” (5.17-19).[7] O mesmo paralelo, sem qualquer restrição, é mais brevemente expressado na passagem (1Co 15.22): “Como em Adão todos morrem, do mesmo modo em Cristo todos serão vivificados;” e de uma forma diferente em Rm 11.32 e Gl 3.22, já citadas.

 

Estas passagens contêm, resumidamente, a teodiceia de Paulo. Elas dissipam a obscuridade do nono capítulo de Romanos. Elas excluem todas as limitações do plano e intenção de Deus a uma classe particular; elas não ensinam, de fato, que todos os homens serão na verdade salvos – pois muitos rejeitam a oferta divina, e morrem na impenitência, – mas que Deus sinceramente deseja e verdadeiramente provê salvação para todos. Quem quer que seja salvo, é salvo pela graça; quem quer que seja perdido, é perdido por sua própria culpa da incredulidade.

 

A OFERTA DA SALVAÇÃO.

 

Ainda resta, é verdade, a grande dificuldade que a oferta de salvação é limitada neste mundo, até onde sabemos, a uma parte da raça humana, e que a grande maioria passa por este mundo sem qualquer conhecimento do Cristo histórico.

 

Mas Deus deu a todo homem a luz da razão e da consciência (Rm 1.19; 2.14, 15). O Logos Divino “alumia a todo homem” que vem ao mundo (Jo 1.9). Deus nunca deixou de “dar testemunho” de si mesmo (At 14.17). Ele lida com suas criaturas de acordo com a medida de sua capacidade e oportunidade, se têm um, cinco ou dez talentos (Mt 25.15 sqq.). Ele “não faz acepção de pessoas; mas que lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo” (At 10.35).

 

Não podemos, então, nutrir ao menos uma esperança generosa, se não uma crença firme, que um Deus de infinito amor e justiça irá receber em seu reino celestial todos aqueles que morrem inocentemente ignorantes da revelação cristã, mas em estado de boa vontade ou disposição para o evangelho, de modo que eles aceitariam agradecidamente se ele lhes fosse oferecido? Cornélio estava nessa condição antes de Pedro entrar em sua casa, e ele representa uma multidão que ninguém pode enumerar. Não podemos saber e medir as operações secretas do Espírito de Deus, que trabalha “quando, onde, e como quer.”

 

Certamente, aqui está um ponto onde o rigor da velha ortodoxia, se católica romana, ou luterana, ou calvinista, deve ser moderada. E o sistema calvinista admite uma expansão mais facilmente do que o tipo de ortodoxia eclesiástica e sacramental.

 

O AMOR GERAL DE DEUS POR TODOS OS HOMENS.

 

Esta doutrina de uma vontade e provisão divina de uma salvação universal, sob a única condição de fé, é ensinada em muitas passagens que não admitem nenhuma outra interpretação, e que devem, por essa razão, decidir toda esta questão. Pois é uma regra estabelecida em hermenêutica que passagens obscuras devem ser explicadas por passagens claras, e não vice versa. Tais passagens são as seguintes: –

 

“Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor Deus; convertei-vos, pois, e vivei” (Ez 18.32, 23; 33.11). “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” (Jo 12.32). “Porque Deus amou o mundo” (isto é, toda a humanidade) “de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). “Deus nosso Salvador deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2.4).[8] “Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens” (Tt 2.11). “O Senhor é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se” (2Pe 3.9).[9] “Jesus Cristo é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos (os pecados de) de todo o mundo” (1Jo 2.2). É impossível declarar a doutrina de uma expiação universal mais claramente em tão poucas palavras.[10]

 

A estas passagens devem ser acrescentadas as exortações divinas ao arrependimento, ao lamento de Cristo sobre os habitantes de Jerusalém que “não quiseram” vir a ele (Mt 23.37). Estas exortações são insinceras ou sem sentido, se Deus não quer que todos os homens sejam salvos, e se os homens não têm a capacidade de obedecer ou desobedecer a voz. O mesmo está implícito no comando de Cristo para pregar o evangelho a toda a criatura (Mc 16.15), e para fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.19).

 

É impossível restringir estas passagens a uma classe particular sem fazer violência à gramática e ao contexto.

 

A única forma de escape é a distinção entre uma vontade revelada de Deus, que declara sua disposição para salvar todos os homens, e uma vontade secreta de Deus, que pretende salvar somente alguns homens.[11] Agostinho e Lutero fizeram esta distinção. Calvino a usa para explicar 2Pe 3.9, e aquelas passagens do Velho Testamento que atribuem arrependimento e mudanças ao Deus imutável.

 

Mas esta distinção destrói o sistema que se pretende defender. Uma contradição entre intenção e expressão é fatal à veracidade, que é a fundação da moralidade humana, e deve ser um atributo essencial da Divindade. Um homem que diz o inverso do que pretende é chamado, em linguagem clara, de hipócrita e mentiroso. Não ajuda a questão quando Calvino diz, reiteradamente, que não há duas vontades em Deus, mas somente duas formas de falar, adaptadas à nossa fraqueza. Nem remove a dificuldade quando ele nos exorta a confiar na vontade revelada de Deus antes que meditar em sua vontade secreta.

 

A maior, a mais profunda, a mais confortante expressão na Bíblia é a expressão, “Deus é amor,” e o maior fato na história do mundo é a manifestação daquele amor na pessoa e obra de Cristo. Essa expressão e este fato são a soma e substância do evangelho, e a única sólida fundação da teologia cristã. A soberania de Deus é reconhecida por judeus e muçulmanos assim como pelos cristãos, mas o amor de Deus é revelado somente na religião cristã. É a essência íntima de Deus, e a chave para todos os seus caminhos e obras. É a verdade central que irradia luz sobre todas as outras verdades.

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] Paradiso, XX. 130-138: –

“O predestinazion, quanto rimota

È la radice tua da quegli aspetti

Che la prima cagion non veggion tota!

“E voi, mortali, tenetevi stretti

A giudicar; chè noi, che Dio vedemo,

Non conosciamo ancor tutti gli eletti:

“Ed ènne dolce così fatto scemo,

Perchè il ben nostro in questo ben s’affina,

Che quel che vuole Dio, e noi volemo.”

[2] Comentários sobre Rm 9.14: “Est prædestinatio Dei vere labyrinthus, unde hominis ingenium nullo modo se explicare queat.”

[3] A última passagem é freqüentemente citada em favor de um decreto da reprovação, mas o verbo progegrammevnoi está incorretamente traduzido como “ordenados” na E. V. Progravfw significa escrever antes, e se refere aos escritos anteriores, a saber, as Escrituras do Velho Testamento. Calvino corretamente traduz “praescripti in hoc judicium,” mas a refere, metaforicamente, ao livro do conselho divino “aeternum Dei consilium liber vocatur.”

[4] Isto está implícito em Hb 12.17, se aplicarmos metanoia ao arrependimento posterior de Esaú (Calvin, Bleek), ou a uma mudança de opinião em Isaque (Beza, Weiss).

[5] Inst.Veja Mitchell, Minutes of the Westminster Assembly, pp. 152 sqq.; Schaff, Creeds, I. 770 sq. III. cap. XXII. 1. Em seu Comentário sobre Rm 9.22, 23, ele ignora esta distinção e explica kathrtismevna, “abandonados e apontados para destruição, criados e formados para este fim” (devota et destinata exitio: sunt enim vasa iræ, id est in hoc facta et formata, ut documenta sint vindictæ et furoris Dei). Esta é a exposição supralapsariana extrema. Mas outros exegetas reformados completamente reconhecem a diferença de fraseologia. Foi pressionado pelos membros da Assembléia de Westminster que estavam de acordo com o universalismo hipotético da escola de Saumur de Cameron e Amyrauld. “Os não-eleitos,” disse o Dr. Arrowsmith, “são ditos ser preparados para a destruição que seus pecados trouxeram sobre eles, mas não por Deus.”

[6] “Das ganze Summarium und der herrliche Schlussstein des ganzen bisherigen BrieftheilsA frase “judeus e gentios” não ensina, de fato, a aceitação forçada da misericórdia por todos, mas, em qualquer caso, a universalidade do propósito e intenção divinos. Meyer vê nesta passagem um argumento exegético conclusivo contra um decretum reprobationis..” Weiss na 6a. ed. de Meyer sobre Romanos (p. 555). Godet: “C’est ici comme le point final appose à tout ce qui précede; ce dernier mot rend compte de tout le plan de Dieu, dont les phases principales viennent d’être esquissées.”

[7] Infelizmente a A. V. suprime a força do paralelo no quinto capítulo de Romanos ao negligenciar o artigo definido antes depolloiv. “Os muitos” do original é oposto ao “um,” e é equivalente ao “todos;” enquanto “muitos” seria oposto a “poucos.” A Revised Version de 1881 corrige estes erros.

[8] Calvino explica “todos os homens” como sendo homens de todas as classes e condições (“de hominum generibus, non singulis personis”). Veja seu Comentário sobre 1Tm 2.4, e seu sermão sobre a passagem. Mas o apóstolo enfatiza “todos os homens” com referência à oração por “todos os homens,” que ele comanda no versículo 1, e que não pode ser limitada.

[9] Calvino arbitrariamente explica esta passagem da “voluntas Dei quae nobis in evangelio patefit,” mas não “de arcano Dei consilio quo destinati sunt reprobi in suum exitium.”

[10] Calvino entende “totus mundus” nesta passagem como sendo “tota ecclesia!” Isto é tão impossível quanto a restrição do “mundo,” Jo 3.16, aos “eleitos.” Ele menciona, entretanto, também uma melhor explicação, que Cristo morreu “sufficienter pro toto mundo, sed pro electis tantum efficaciter.”

[11] Vários termos para a distinção: voluntas revelata e voluntas arcana; voluntas signi e voluntas beneplaciti; voluntas universalis e voluntas specialis; verbum externum et verbum internum. O texto-prova freqüentemente citado, Dt 29.29, ensina uma distinção, mas não uma contradição, entre as coisas secretas e as coisas reveladas de Deus.

Deus é soberano sobre a Sua soberania

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Roger E. Olson

Os batistas têm o habito de reciclar temas teológicos calorosos. A soberania de Deus e o livre-arbítrio humano é um que vive aparecendo. Agora mesmo, o debate entre calvinistas e arminianos está esquentando novamente. Recentemente, um presidente de um seminário batista sugeriu que a Convenção Batista do Sul não tem lugar para os arminianos, o que deve ter sido um choque aos milhões de crentes no livre-arbítrio que são leais batistas do sul.

O que muitas pessoas não notam é que calvinistas e arminianos concordam que Deus é soberano e que Deus governa providencialmente sobre a criação e predestina pessoas para salvação. Suas áreas de acordo são muito maiores do que seus desacordos sobre interpretações específicas destes conceitos bíblicos.

Soberania tem a ver com o governo de Deus de todas as coisas; a doutrina cristã da soberania de Deus é que Deus está no comando do universo e tudo nele. Ele domina sobre ele. Providência é quase idêntico à soberania; ela trata do modo no qual Deus domina sobre sua criação.

Predestinação é outra doutrina ligada à soberania de Deus, mas não é idêntica à providência. Predestinação é o ensino bíblico que Deus preordena ou pré-conhece quais de suas criaturas humanas serão salvas. Os “eleitos” são escolhidos por Deus. Sobre estas doutrinas, calvinistas e arminianos concordam. Eles discordam sobre o papel que o livre-arbítrio desempenha em se uma pessoa está entre os eleitos e assim predestinada por Deus. Os calvinistas negam o livre-arbítrio como poder de escolha contrária e afirmam que a graça de Deus é irresistível. Os arminianos acreditam em livre-arbítrio como poder de escolha contrária e dizem que a graça nunca é imposta sobre ninguém; as pessoas podem e resistem à graça de Deus.

Seguindo o teólogo holandês Jacob Arminius (que morreu em 1609), os arminianos creem que Deus é soberano. De fato, Deus é tão soberano que ele é soberano sobre sua soberania. Em outras palavras, Deus limita seu poder para dar espaço ao poder humano da livre escolha, incluindo a liberdade para resistir à graça. Livre-arbítrio não é um resíduo de bondade humana que sobreviveu à queda no jardim; é um dom da graça de Deus que nos capacita a responder livremente à oferta de Cristo no evangelho.

O Calvinismo é a crença no determinismo divino; Deus é a realidade toda-determinante que soberanamente planeja e controla todos os eventos, incluindo as escolhas livres dos humanos. Os arminianos perguntam quão livres as pessoas podem ser se suas decisões são controladas. Os arminianos querem saber como Deus é bom e amoroso à luz da combinação do mal no mundo e a soberania e o poder todo-determinante de Deus. Até mesmo o mais inflexível dos calvinistas hesita em lançar a culpa do pecado e do mal em Deus. Após falar sobre o poder todo-determinante de Deus, eles se esquivam de dizer que Deus determinou a queda da humanidade no jardim ou o holocausto de Hitler. Uns poucos audaciosos vão em frente e dizem que Deus até mesmo causou os atos terroristas de 11 de setembro.

Nós que cremos na real liberdade da vontade, liberdade e poder de escolha contrária, vemos isso como a única forma de livrar-se de tornar Deus o autor do pecado e do mal. Um Deus que determina pessoas a pecar, ainda que somente por “permissão eficaz” (retirando a graça necessária para não pecar), é o pecador último. Um Deus que poderia salvar alguém, porque a salvação é incondicional, mas passa por alto de muitos – enviando-os para a condenação eterna – é moralmente ambíguo na melhor das hipóteses. Como John Wesley comentou, se isto é amor, é um amor que faz gelar o sangue.

Reconhecidamente, a maioria dos calvinistas não segue a lógica de sua própria concepção da soberania de Deus a sua justa e necessária conclusão. Eles afirmam que Deus é amoroso, mas dizem que “mundo” em Jo 3.16 não se refere a todos, mas a pessoas de toda tribo e nação – os eleitos. Deus ama todas as pessoas de alguma forma, mas somente os eleitos de todas.

Os arminianos acreditam no amor universal de Deus por todas as pessoas criadas à sua imagem e semelhança. Deus não quer que ninguém pereça, senão que todos alcancem o arrependimento (2Pe 3.9), porque ele deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2.4).

Claramente, Deus não consegue completamente o que quer, porque ele é soberano sobre sua soberania e permite que pessoas pecadoras se oponham à sua vontade. Mas isso de forma alguma diminui sua grandeza ou poder; é evidência de sua autolimitação e respeito amoroso pelas pessoas.

Fonte: http://www.baptiststandard.com/index.php?option=com_content&task=view&id=5077&Itemid=134

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Fonte: Arminianismo.com

 

Arminianismo

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O Arminianismo é um sistema teológico baseado nas idéias do pastor e teólogo reformado holandês Jacob Harmensz, mais conhecido pela forma latinizada de seu nome Jacobus Arminius. No inglês, é usualmente referenciado como James Arminius ou Jacob Arminius. Em português, seu nome seria Jacó Armínio.

Embora tenha sido discípulo do notável calvinista Teodoro de Beza, Armínio defendeu uma forma evangélica de sinergismo (crença que a salvação do homem depende da cooperação entre Deus e o homem), que é contrário ao monergismo, do qual faz parte o Calvinismo (crença de que a salvação é inteiramente determinada por Deus, sem nenhuma participação livre do homem). O sinergismo arminiano difere substancialmente de outras formas de sinergismo, tais como o Pelagianismo e o Semipelagianismo, como se demonstrará adiante. De modo análogo, também há variações entre as crenças monergistas, tais como o supra-lapsarianismo e o infra-lapsarianismo.

Armínio não foi primeiro e nem o último sinergista na história da Igreja. De fato, há dúvidas quanto ao fato de que ele tenha introduzido algo de novo na teologia cristã. Os próprios arminianos costumavam afirmar que os pais da Igreja grega dos primeiros séculos da era cristã e muitos dos teólogos católicos medievais eram sinergistas, tais como o reformador católico Erasmo de Roterdã. Até mesmo Philipp Melanchthon (1497-1560), companheiro de Lutero na reforma alemã, era sinergista, embora o próprio Lutero não fosse.

Armínio e seus seguidores divergiram do monergismo calvinista por entenderem que as crenças calvinistas na eleição incondicional (e especialmente na reprovação incondicional), na expiação limitada e na graça irresistível:

– seriam incompatíveis com o caráter de Deus, que é amoroso, compassivo, bom e deseja que todos se salvem.

– violariam o caráter pessoal da relação entre Deus e o homem.

– levariam à conseqüência lógica inevitável de que Deus fosse o autor do mal e do pecado.

Contexto Histórico

Para se compreender os motivos que levaram à aguda controvérsia entre o Calvinismo e o Arminianismo, é preciso compreender o contexto histórico e político no qual se inseriam os Países Baixos à época.

De acordo com historiadores, tais como Carl Bangs, autor de “Arminius: A Study in the Dutch Reformation(1985)”, as igrejas reformadas da região eram protestantes, em sentido geral, e não rigidamente calvinistas. Embora aceitassem o catecismo de Heidelberg como declaração primária de fé, não exigiam que seus ministros ou teólogos aderissem aos princípios calvinistas, que vinham sendo desenvolvidos em Genebra, por Beza. Havia relativa tolerância entre os protestantes holandeses. De fato, havia tanto calvinistas quanto luteranos. Os seguidores do sinergismo de Melanchthon conviviam pacificamente com os que professavam o supralapsarianismo de Beza. O próprio Armínio, acostumado com tal “unidade na diversidade”, mostrou-se estarrecido, em algumas ocasiões, com as exageradas reações calvinistas ao seu ensino.

Essa convivência pacífica começou a ser destruída quando Franciscus Gomarus, colega de Armínio na Universidade de Leiden, passou a defender que os padrões doutrinários das igrejas e universidades holandesas fossem calvinistas. Então, lançou um ataque contra os moderados, incluindo Armínio.

De início, a campanha para impor o calvinismo não foi bem sucedida. Tanto a igreja quanto o Estado não consideravam que a teologia de Armínio fosse heterodoxa. Isso mudou quando a política passou a interferir no processo.

À época, os Países Baixos, liderados pelo príncipe Maurício de Nassau, calvinista, estavam em guerra contra a dominação da Espanha, católica. Alguns calvinistas passaram a convencer os governantes dos Países Baixos, e especialmente o príncipe Nassau, de que apenas a sua teologia proveria uma proteção segura contra a influência do catolicismo espanhol. De fato, caricaturas da época apresentavam Armínio como um jesuíta disfarçado. Nada disso foi jamais comprovado.

Depois da morte de Armínio, o governo começou a interferir cada vez mais na controvérsia teológica sobre predestinação. O príncipe Nassau destituiu os arminianos dos cargos políticos que ocupavam. Um arminiano foi executado e outros foram presos. O conflito teológico atingiu tamanha proporção que levou a Igreja a convocar o Sínodo Nacional da Igreja Reformada, em Dort, mais conhecido como o Sínodo de Dort, onde os arminianos, conhecidos como “remonstrantes”, tiveram a oportunidade de defender seus pontos de vista perante as autoridades, partidárias do Calvinismo. As discussões ocorreram em 154 reuniões iniciadas em 13 de novembro de 1618 e encerrada em 9 de maio de 1619, cujo assunto era a predestinação incondicional defendida pelo Calvinismo e a predestinação condicional defendida pelo Arminianismo. Os arminianos acabaram sendo condenados como hereges, destituídos de seus cargos eclesiásticos e seculares, tiveram suas propriedades expropriadas e foram exilados.

Logo que Maurício de Nassau morreu, os calvinistas perderam o seu poder na região e os arminianos puderam retornar ao país, onde fundaram igrejas e um seminário, o qual até hoje existe na Holanda (Remonstrants Seminarium).

Em síntese, as igrejas protestantes holandesas continham diversidade teológica, à época de Armínio. Tanto monergistas quanto sinergistas eram ali representados e conviviam pacificamente. O que levou a visão monergista à supremacia foi o poder do Estado, representado pelo príncipe Maurício de Nassau, que perseguiu os sinergistas.

Para Armínio e seus seguidores, sua teologia também era compatível com a reforma protestante. Em sua opinião, tanto o Calvinismo quanto o Arminianismo são duas correntes inseridas na reforma protestante, por serem, ambas, compatíveis com o lema dos reformados sola gratia, sola fide, sola scriptura.

Diferentes Correntes

A exemplo do que ocorre com outras correntes teológicas, tais como o Calvinismo, as crenças arminianas não são homogêneas. As idéias originalmente desenvolvidas por Armínio foram sistematizadas e desenvolvidas por inúmeros sucessores e profundamente alteradas por outros. Embora todos eles sejam considerados arminianos, divergem em alguns pontos cruciais. O teólogo reformado Allan Sell introduziu a distinção entre os “arminianos do coração” e os “arminianos da cabeça”.

Arminianos do Coração

São classificados como tal os teólogos que continuaram a trilhar os mesmos passos de Armínio, ou seja, sua teologia é perfeitamente compatível com as idéias por ele defendidas. Entre os inúmeros arminianos do coração, podem ser citados:

– Os Remonstrantes: cerca de 45 ministros e teólogos dos Países Baixos que deram continuidade ao desenvolvimento da teologia de Armínio. Seu principal representante é Simon Episcopius (1583-1643). Outro nome importante é o do conhecido cientista político Hugo Grotius (1583-1645). Os últimos remonstrantes afastaram-se substancialmente das linhas traçadas por Armínio e deram origem ao “Arminianismo da cabeça” (vide adiante).

– Século XVIII: o principal nome que desponta nessa época é o de John Wesley (1703-1791), que se declarava arminiano e defendeu o Arminianismo da acusação de heterodoxia e de heresia. Embora a teologia de Wesley seja compatível com o Arminianismo original, apresenta alguns acréscimos importantes, tais como o perfeccionismo wesleyano, com o qual nem todos os arminianos concordam, e algumas aparentes contradições, em razão da falta de rigor teológico utilizado em sua linguagem, muito mais de pregador do que de teólogo. Além de Wesley, merecem destaque John Fletcher (1729-1785) e Richard Watson (1781-1833).

– Século XIX: Thomas Summers (1812-1882), William Burton Pope (1822-1903), John Miley (1813-1895).

– Século XX: H. Orton Wiley (1877-1961), Thomas Oden (embora não aceite ser chamado de arminiano, sua obra é totalmente compatível com o Arminianismo clássico. Prefere o rótulo de “paleo-ortodoxo”, já que apela para o consenso dos primeiros pais da Igreja). Dale Moody, Stanley Grenz, Howard Marshall.

Arminianos da Cabeça

São considerados “arminianos da cabeça” os que abandonaram alguns dos princípios basilares da teologia arminiana clássica, tal como a crença no pecado original e na depravação total. Aproximaram-se do Semipelagianismo e até do Pelagianismo, negando a salvação pela graça, pilar da reforma protestante. Posteriormente, a teologia de alguns sofreu fortes influências do Iluminismo, recaindo em Universalismo, Arianismo e em vertentes da teologia moderna liberal.

A maior parte dos críticos do Arminianismo cometem o equívoco de tomar a parte pelo todo, considerando que todos os arminianos são “da cabeça”, sem discernir as profundas diferenças entre as várias correntes arminianas. Tal equívoco é semelhante ao de considerar que todos os calvinistas são hiper-calvinistas ou que todos sejam supralapsarianos. Talvez por isso, o Arminianismo seja tão freqüentemente associado ao semipelagianismo.

Entre os conhecidos arminianos da cabeça, destacam-se:

– Remonstrantes: alguns dos últimos remonstrantes passaram a defender posições mais próximas do Semipelagianismo do que do Arminianismo, afastando-se do Arminianismo clássico. O principal nome dessa época é Philipp Limborch (1633-1712). Muitos opositores do Arminianismo, na realidade, baseam suas críticas nas idéias de Limborch, como se fossem iguais às de Armínio.

– Século XVIII: John Taylor (1694-1761) e Charles Chauncy (1705-1787).

– Século XIX: o nome de maior destaque é o do avivalista Charles Finney (1792-1875), cuja teologia é fortemente pelagiana.

A Essência Teológica do Arminianismo do Coração

Os Cinco Pontos do Arminianismo

No Sínodo de Dort, os remonstrantes apresentaram a doutrina arminiana clássica na forma dos cinco pontos seguintes:

Eleição Condicional

Deus, por um eterno e imutável decreto em Cristo, antes da criação do mundo, determinou eleger, dentre a raça humana caída e pecadora, aqueles que pela graça crêem em Jesus Cristo e perseveram na fé e obediência. Contrariamente, Deus resolveu rejeitar os não convertidos e descrentes, reservando-lhes o sofrimento eterno (Jo 3.36).

Expiação Universal

Em conseqüência do decreto divino, Cristo, o salvador do mundo, morreu por todos os homens, de modo a garantir, pela morte na cruz, reconciliação e perdão para o pecado de todos os homens. Entretanto, essa salvação só é desfrutada pelos fiéis (Jo 3.16; 1Jo 2.2).

Fé Salvadora

O homem não pode obter a fé salvadora por si mesmo ou pela força do seu livre-arbítrio, mas necessita da graça de Deus por meio de Cristo para ter sua vontade e seu pensamento renovados (Jo 15.5).

Graça Resistível

A graça é a causa do começo, do progresso e da completude da salvação do homem. Ninguém poderia crer ou perseverar na fé sem esta graça cooperante. Conseqüentemente, todas as boas obras devem ser creditadas à graça de Deus em Cristo. Com relação à operação desta graça, contudo, não é irresistível (At 7.51).

Indefinição Quanto à Perseverança

Os verdadeiros crentes têm força suficiente, por meio da graça divina, para lutar contra Satanás, contra o pecado e contra sua própria carne, e para vencê-los. Mas, se eles, em razão da negligência, podem ou não apostatar da fé verdadeira e vir a perder a alegria de uma boa consciência, caindo da graça, é uma questão que precisa ser melhor examinada à luz das Sagradas Escrituras.

Interpretação dos Cinco Pontos

O terceiro ponto sepulta qualquer pretensão de associar o Arminianismo ao Pelagianismo ou ao Semipelagianismo. De fato, a doutrina de Armínio é perfeitamente compatível com a Depravação Total calvinista. Ou seja, em seu estado original o homem é herdeiro da natureza pecaminosa de Adão e totalmente incapaz, até mesmo, de desejar se aproximar de Deus. Nenhum homem nasce com o “livre-arbítrio”, ou seja, com a capacidade de não resistir a Deus.

O quarto ponto demonstra claramente que é a graça preveniente que restaura no homem a sua capacidade de não resistir à Deus. Portanto, para Armínio, a salvação é pela graça somente e por meio da fé somente. Nesse sentido, os arminianos do coração concordam com os calvinistas no sentido de que a capacitação, por meio da graça, precede a fé, e que até mesmo a fé salvadora seja um dom de Deus. A diferença está na compreensão da operação dessa graça. Para os calvinistas, a graça é concedida apenas aos eleitos, que a ela não podem resistir. Para os arminianos, a expiação por meio de Jesus Cristo é universal e comunica essa graça preveniente a todos os homens, mas ela pode ser resistida. Assim como o pecado entrou no mundo pelo primeiro Adão, a graça foi concedida ao mundo por meio de Cristo, o segundo Adão (conforme Rm 5.18, Jo 1.9 etc.). Nesse sentido, os arminianos entendem que 1Tm 4.10 aponta para duas salvações em Cristo: uma universal e uma especial para os que crêem. A primeira corresponde à graça preveniente, concedida a todos os homens, que lhes restaura o arbítrio, ou seja, a capacidade de não resistir a Deus. Ela é distribuída a todos os homens porque Deus é amor (1Jo 4.8, Jo 3.16) e deseja que todos os homens se salvem (1Tm 2.4, 2Pe 3.9 etc.), conforme defendido no segundo ponto do Arminianismo. A segunda é alcançada apenas pelos que não resistem à graça salvadora e crêem em Cristo. Estes são os predestinados, segundo a visão arminiana de predestinação.

Portanto, embora a expressão “livre-arbítrio” seja comumente associada ao Arminianismo, ela deve ser entendida como “arbítrio liberto” ou “vontade liberta” pela graça preveniente, convencedora, iluminadora e capacitante que torna possíveis o arrependimento e a fé. Sem a atuação da graça, nenhum homem teria livre-arbítrio.

Ao contrário dos calvinistas, os arminianos crêem que essa graça preveniente, concedida a todos os homens, não é uma força irresistível, que leva o homem necessariamente à salvação. Para Armínio, tal graça irresistível violaria o caráter pessoal da relação entre Deus e o homem. Assim, todos os homens continuam a ter a capacidade de resistir a Deus, que já possuíam antes da operação da graça (conforme At 7.51, Lc 7.30, Mt 23.37 etc.). Portanto, a responsabilidade do homem em sua salvação consiste em não resistir ao Espírito Santo. Este é o coração do sinergismo arminiano, o qual difere radicalmente dos sinergismos pelagiano e semipelagiano.

No que tange à perseverança dos santos, os remonstrantes não se posicionaram, já que deixaram a questão em aberto.

Citações das Obras de Armínio

Os textos a seguir transcritos, escritos pelo próprio Armínio, são úteis para demonstrar algumas de suas idéias.

…Mas em seu estado caído e pecaminoso, o homem não é capaz, de e por si mesmo, pensar, desejar, ou fazer aquilo que é realmente bom; mas é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade, e em todos os seus poderes, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que ele possa ser capacitado corretamente a entender, avaliar, considerar, desejar, e executar o que quer que seja verdadeiramente bom. Quando ele é feito participante desta regeneração ou renovação, eu considero que, visto que ele está liberto do pecado, ele é capaz de pensar, desejar e fazer aquilo que é bom, todavia não sem a ajuda contínua da Graça Divina.

Com referência à Graça Divina, creio, (1.) É uma afeição imerecida pela qual Deus é amavelmente afetado em direção a um pecador miserável, e de acordo com a qual ele, em primeiro lugar, doa seu Filho, “para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna”, e, depois, ele o justifica em Cristo Jesus e por sua causa, e o admite no direito de filhos, para salvação. (2.) É uma infusão (tanto no entendimento humano quanto na vontade e afeições,) de todos aqueles dons do Espírito Santo que pertencem à regeneração e renovação do homem – tais como a fé, a esperança, a caridade, etc.; pois, sem estes dons graciosos, o homem não é capaz de pensar, desejar, ou fazer qualquer coisa que seja boa. (3.) É aquela perpétua assistência e contínua ajuda do Espírito Santo, de acordo com a qual Ele age sobre o homem que já foi renovado e o excita ao bem, infundindo-lhe pensamentos salutares, inspirando-lhe com bons desejos, para que ele possa dessa forma verdadeiramente desejar tudo que seja bom; e de acordo com a qual Deus pode então desejar trabalhar junto com o homem, para que o homem possa executar o que ele deseja.

Desta maneira, eu atribuo à graça O COMEÇO, A CONTINUIDADE E A CONSUMAÇÃO DE TODO BEM, e a tal ponto eu estendo sua influência, que um homem, embora regenerado, de forma nenhuma pode conceber, desejar, nem fazer qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação do mal, sem esta graça preveniente e excitante, seguinte e cooperante. Desta declaração claramente parecerá que de maneira nenhuma eu faço injustiça à graça, atribuindo, como é dito de mim, demais ao livre-arbítrio do homem. Pois toda a controvérsia se reduz à solução desta questão, “a graça de Deus é uma certa força irresistível”? Isto é, a controvérsia não diz respeito àquelas ações ou operações que possam ser atribuídas à graça, (pois eu reconheço e ensino muitas destas ações ou operações quanto qualquer um,) mas ela diz respeito unicamente ao modo de operação, se ela é irresistível ou não. A respeito da qual, creio, de acordo com as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que é oferecida.

Extraído de As Obras de James Arminius Vol. I

Comparação com o Calvinismo

Posteriormente ao Sínodo, quando os arminianos apresentaram os cinco pontos do Arminianismo, os calvinistas responderam com os cinco pontos do Calvinismo, que são os seguintes:

– Total depravação: não existe no homem após a queda de Adão força ou vontade do ser humano para buscar a salvação. Todos os homens herdam, de Adão, a natureza pecaminosa, decaída.

– Eleição Incondicional: a salvação não está condicionada à vontade ou ações humanas, mas ao soberano decreto de Deus que decide salvar alguns, os eleitos, deixando que os demais sofram o castigo eterno.

– Expiação Limitada: a salvação e o sacrifício de Cristo foram realizados apenas para o grupo dos eleitos.

– Graça Irresistível: a graça, enquanto ação e vontade de Deus, não pode ser resistida pela vontade ou ações do homem. Assim, uma vez que o homem tenha sido eleito para a salvação, ele não poderá resistir ao chamamento divino.

– Perseverança dos Santos: todos aqueles que tiveram sua salvação decretada perseverarão através da vontade e ação de Deus até o fim. Uma vez salvo, o eleito jamais perderá sua salvação.

A análise dos textos arminianos revela que o Arminianismo do coração concorda integralmente com a depravação total calvinista. O homem em seu estado natural é totalmente incapaz de desejar ou de buscar Deus. Somente a graça preveniente o capacita a crer na mensagem salvadora. Portanto, a discordância ocorre somente com relação à eleição incondicional, a expiação limitada e a graça irresistível.

No que tange à perseverança dos santos, os arminianos não são unânimes. Há quem acredite que a salvação pode ser definitiva e irremediavelmente perdida.

Com relação à predestinação, o Arminianismo crê que é baseada na presciência divina daqueles que, capacitados pela graça preveniente, crêem na mensagem de salvação em Jesus Cristo.

Escrito pelo Pr. Flávio Cardoso para a Wikipédia

Fonte:Arminianismo.com