Porque Deus Não Salva a Todos?

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Analisando a Resposta de John Piper para o Problemacalvario.jpeg

John Piper acredita que Deus quer que todos os homens sem exceção sejam salvos. Diferentemente de seus colegas calvinistas, ele não faz nenhum esforço para tentar minimizar a força de versículos como Ez 18.23, 1Tm 2.4 e 2Pe 3.9, que afirmam o desejo divino de salvação universal. Além disso, ele defende que a graça é irresistível, ou seja, que ela finalmente triunfará sobre a resistência daqueles que Deus quer salvar. Disso surge o problema: por que Deus não salva a todos? Piper conclui que Deus deve valorizar algo mais do que a salvação de todos.

 “A resposta dada pelos calvinistas é que o valor maior é a manifestação de toda a gama da glória de Deus em ira e misericórdia (Rm 9.22-23) e a humilhação do homem de forma que ele possa dar todo o crédito a Deus pela sua salvação (1Co 1.29).”

 A resposta é engenhosa, mas ela não está livre de alguns problemas.

 1 – Os versículos apresentados (Rm 9.22-23) por Piper não estão dizendo isso. Eles de fato afirmam que Deus tanto quis mostrar a sua ira sobre alguns quanto a sua misericórdia sobre outros, mas isso não como resultado de um suposto dilema que Deus teria enfrentado na eternidade de salvar a todos ou manifestar “toda a gama da glória de Deus em ira e misericórdia”.

 2 – A ira e a misericórdia de Deus foram manifestadas, em seu grau máximo, na cruz de Cristo, de forma que escolher alguns para a perdição eterna não faria a glória de Deus brilhar mais intensamente do que ela já foi. Se Deus alguma vez enfrentou esse dilema, ele poderia muito bem ter resolvido mostrando toda a gama de sua glória na cruz de Cristo e ainda assim decidido salvar a todos.

 Para o próximo problema ficar ainda mais claro, é interessante citar Jonathan Edwards, um dos teólogos mais admirados por John Piper:

 “Assim o mal é necessário para a glória de Deus ser perfeitamente e completamente demonstrada. É também necessário para a mais elevada felicidade da humanidade, porque nossa felicidade consiste no conhecimento de Deus e na percepção de seu amor. E se o conhecimento de Deus é imperfeito (por causa de uma demonstração desproporcional de seus atributos), a felicidade da criatura deve ser proporcionalmente imperfeita.”

 3) O terceiro – e mais grave – problema na resposta de John Piper é que, se verdadeira, ela nos leva à conclusão que Deus precisa do pecado e do mal. Segundo Edwards e Piper, Deus precisa do pecado e do mal para mostrar-se glorioso perfeita e completamente e para a mais elevada felicidade da humanidade (com exceção daqueles que sofrerão eternamente, presumo).

 Há muitas afirmações não provadas nessa pequena citação de Edwards. São elas:

 – Um universo com pecado (e todas as desgraças resultantes) torna Deus mais glorioso do que um sem pecado.

 – Deus não conseguiria revelar-se como ele é a não ser que houvesse pecado.

 – É preciso haver uma demonstração de todos os atributos de Deus para o conhecimento, e consequentemente a felicidade, da humanidade ser perfeito.

 Sobre todas essas afirmações, é de se questionar se antes do pecado ter invadido a criação, Deus era menos glorioso, impossível de ser conhecido e as criaturas eram menos felizes. Enquanto essas afirmações não forem provadas, não podemos ingenuamente aceitar uma resposta que carrega consigo a trágica conclusão que Deus precisa do pecado para revelar quem ele é e levar felicidade para as suas criaturas.

Paulo Cesar Antunes

_________________________________________________ fonte: http://www.arminianismo.com

Olhando Para Jesus (Hb 12:2)

1 Comentário

Henry Orton WileyArminius Hoje

 Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. Hb 12.2 ARA

 O escritor de Hebreus pede agora aos seus leitores que voltem o olhar para Jesus, exaltado acima de todos e assentado à destra do trono de Deus.

 O verbo olhar – em olhando firmemente – é aphorontes (Αφορωντες), que significa tirar a vista das coisas que estão perto e desviam a nossa atenção e, conscientemente, fixar os olhos em Jesus como o nosso grande alvo. Significa ainda interesse que absorve por completo, perfeitamente expresso pelas palavras com olhos só para Jesus.

 A expressão autor e consumador da nossa fé tem sido interpretada de várias maneiras. A palavra traduzida como autor é archegon (Αρχηγος), líderpioneiro, sendo o mesmo vocábulo traduzido como capitão (da nossa salvação) em Hebreus 2.10 (KJ). A palavra consumador é teleioten (τελειωτής), aperfeiçoadorque completa (cp. Hb 10.14).

 Em olhando firmemente para Jesus, o Autor e Consumador da nossa fé, o possessivo nossa [que aparece nas versões KJ e na NVI, mas não na ARA e na ARC], antes de , está em itálico ou entre parêntesis, pois no grego temos apenas a . No entanto, não significa a  no sentido objetivo, como o fundamento cristão, mas subjetivo, como o princípio que rege o coração e a vida do ser humano.

 A escolha da palavra archegonlíder ou pioneiro, em vez de aitios (αἴτιος), autor, no sentido de originador, é muito significativa. Como observou Davidson, na presente acepção, as palavras não “podem significar que Cristo, como Autor, originou a fé em nós e, como Aperfeiçoador, sustém-na e a leva a um resultado perfeito”, isto é, incondicionalmente quanto ao conceder e ao aperfeiçoar; a ênfase é, antes, sobre Cristo como o grande Pioneiro da fé que, na Sua vida terrena, tendo perfeitamente alcançado o ideal e terminado a corrida, está agora assentado à destra do trono de Deus.

 Em Hebreus 2.10 a palavra archegon, como capitão (KJ), refere-se em especial à preparação de Jesus para a liderança; neste caso, Ele se tornou o Alvo da realização, o Centro de toda a visão cristã. No entanto, é ainda o Líder, que do Seu trono nos céus ministra pelo Espírito a força, a perseverança, paciência e toda a graça necessária em meio ao sofrimento e aos conflitos. Para os que o seguem com confiança, Ele se tornará o aperfeiçoador, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram (2 Ts 1.10 ARA).

 A seguir, o autor da Epístola aos Hebreus passa a uma consideração da experiência de humilhação de Jesus, vividamente descrita para encorajamento dos leitores – palavras que são apenas a amplificação de Sua obra como o autor e consumador da fé.

 O escritor encontra três semelhanças entre os herois da fé e Jesus. Pela fé, aqueles passaram por grandes lutas e aflições, em parte porque foram exibidos como espetáculo ignominioso, em parte porque se tornaram companheiros dos que foram alvos daquelas tribulações. Assim também Jesus, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia (Hb 12.2b). Esta oração é introduzida pela palavra anti (ἀντί), que significa dar em troca ou, especialmente aqui, em consideração de.

 O vocábulo traduzido como alegria é charas (χαρά) – não aquilo a que Jesus renunciou ao encarnar, mas a alegria que lhe estava proposta. Era a alegria como recompensa do Seu autossacrifício pela salvação dos homens; um autossacrifício que em si mesmo era uma recompensa satisfatória. Mas significava também a alegria de ser exaltado ao trono de Deus e levar consigo a Sua natureza e a nossa, coroando assim a obra redentora por toda a eternidade. Era a alegria de administrar do trono a Sua vida celestial mediante o Espírito Santo, e assim aperfeiçoar para sempre os que são santificados (Hb 10.14). Esta foi a alegria que lhe foi proposta – uma alegria que enche com a Sua glória.Cruz, 

  O que fez Jesus pra ter essa alegria? Suportou a cruz. Temos aqui de novo a palavra hupemeinem (ὑπομένω), anteriormente traduzida como paciência, mas aqui mais propriamente traduzida como suportou com perseverança.

 A palavra traduzida como cruz é stauron (σταυρός), viga ou poste introduzido no chão para execução de criminosos, vindo depois a significar a cruz.

 A frase não fazendo caso da ignomínia ou desprezando a afronta (ARC) foi chamada o grande paradoxo.Desprezar a afronta não significa que Cristo a tinha por desprezível, mas por pequena, comparada com a alegria que lhe foi proposta.

 As palavras cruz e vergonha (NVI) são usadas sem o artigo para salientar a qualidade – coisas como a cruz e a vergonha, e assim servem para colocar em maior relevo a profundidade da abnegação de Cristo. Jesus, sendo santo em si mesmo, foi intensamente sensível à vergonha da cruz, morrendo aos olhos da Lei como um criminoso, mas não permitiu que isso fizesse vacilar Sua lealdade à vontade do Pai.

 

Fonte: A Excelência da Nova Aliança em Cristo: Comentário Exaustivo da Carta aos Hebreus, pp. 509, 510

As Amarras da Liberdade

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Roger E. Olsonroger olson - arminius hoje

 

Há um paradoxo na compreensão cristã do que significa ser livre.

 

Para milhões de pessoas, nenhuma palavra soa tão bem quanto “liberdade”. Nos comerciais de televisão, anuncia-se que a compra de um automóvel ou uma viagem àquele destino paradisíaco trarão a liberdade de que o telespectador tanto precisa. Datas festivas, como a da independência de um país, também são saudadas como símbolos de liberdade, e boa parte dos hinos nacionais a mencionam. Políticos, homens de negócios, publicitários, vendedores, chefes militares – todos sabem como usar essa palavra para chamar a atenção de seus públicos e atrair interesse. Sim, poucas palavras são tão comuns e, ao mesmo tempo, carregam tamanho significado.

 A palavra liberdade também é encontrada diversas vezes nas Escrituras e na tradição cristã. Qualquer crente que conheça minimamente a Bíblia já se deparou com versículos que dizem coisas como “a verdade vos libertará” (Jo 8.32) e que “é para a liberdade que Cristo vos libertou” (Gl 5.1). Logo, liberdade não é um tema apenas patriótico ou humanitário; é, também, um valor presente no Evangelho. Infelizmente, muitas pessoas confundem dois conceitos de liberdade bastante distintos. O conceito bíblico é bem diferente do significado cultural do termo, apesar de serem facilmente confundidos. E nenhum desses é o mesmo que “livre-arbítrio”. Isso pode ser confuso para o cristão comum que deseja saber o que é a verdadeira liberdade. Seria a prerrogativa de ter escolhas? Seria a ausência de limites e restrições? Ou é o poder de fazer o que se deseja? E em que sentido Cristo nos liberta, e em que isso difere daquilo que a mídia, constantemente, nos promete?

 No âmago do Evangelho cristão repousa uma incômoda verdade: a de que, para sermos livres, precisamos abrir mão de tudo o que a cultura secular nos oferece como fonte de liberdade. O Evangelho, ao que parece, requer uma distinção entre o prazer da verdadeira liberdade e a simples posse do chamado livre arbítrio. Não que o livre arbítrio ou a independência da tirania seja algo ruim; apenas, nenhuma dessas coisas representam a verdadeira liberdade. Esta, segundo o Evangelho, se encontra na obediência. E não é exatamente essa a imagem retratada na cultura popular.

 Agostinho, o grande pai da Igreja, ensinava que a liberdade verdadeira não se trata de poder para escolher ou falta de restrições, mas sim, de sermos aquilo que fomos chamados a ser. Os seres humanos foram criados à imagem de Deus; a liberdade verdadeira, portanto, não é encontrada ao nos distanciarmos dessa imagem, e sim, se a vivenciarmos. Quanto mais nos conformamos à imagem de Deus, mais livres nos tornamos – em contrapartida, quanto mais nos distanciamos disso, mais perdemos nossa liberdade.

 De uma perspectiva cristã, então, a liberdade – paradoxalmente – é um tipo de cativeiro. Martinho Lutero foi quem expressou essa verdade da melhor maneira, desde o apóstolo Paulo. Em seu tratado de 1520, A liberdade de um cristão, o reformador sintetizou a ideia em poucas palavras: “O cristão é o senhor mais livre de todos e não está sujeito a ninguém; o cristão é o servo mais obediente, e está sujeito a todos”. Em outras palavras, de acordo com Lutero, por causa do que Cristo fez e por causa de sua fé no Salvador, o cristão se tornou completamente livre da escravidão da lei. Ele não precisa fazer nada. Por outro lado, em gratidão pelo que Jesus fez por ele e nele, o cristão está preso no serviço a Deus e ao próximo. Ele tem a oportunidade de servi-los com alegria e liberdade. Logo, quem não entende o significado dessa oportunidade simplesmente não experimenta a alegria da salvação. Foi isso que Lutero quis dizer.

 

OBEDIÊNCIA E SERVIDÃO

 

Pulando do século 16 para o 20, e de um reformador do magistério para um teólogo anabatista radical, temos John Howard Yoder escrevendo, em A política de Jesus, acerca de “subordinação revolucionária”. Segundo ele, não é possível encontrar a verdadeira liberdade focando em nossos próprios direitos, mas sim, entregando-os livremente, sendo servos de Jesus Cristo e do povo de Deus. Tudo isso, claro, é bastante difícil para ocidentais do século 21 engolirem. Somos herdeiros do Iluminismo, vítimas de uma lavagem cerebral feita pela ênfase da modernidade no individualismo e na liberdade. Somos bombardeados, desde a infância, com a mensagem de que a liberdade significa autoafirmação, reivindicação de nossos direitos, ausência de restrições e senhorio sobre nós mesmos. A maior virtude defendida pela sociedade contemporânea é a de “ser verdadeiro consigo mesmo”. Em outras palavras, é como se cada um dissesse, o tempo todo: “Não me limite!”.

 

Acontece que nenhuma verdade é mais difundida nas Escrituras e na tradição cristã do que a de que a verdadeira liberdade se encontra na obediência e na servidão. E, ao mesmo tempo, nenhuma verdade está mais em desacordo com a cultura moderna. Nesse ponto, nos encontramos diante de duas alternativas: a mensagem do Evangelho a respeito da verdadeira liberdade versus a mensagem cultural da autonomia e do “vivo como quero”. O contraste que há entre a verdade do Evangelho e seu substituto satânico começa a se desenrolar em Gênesis, na história da criação e da queda. De acordo com Gênesis 2, Deus deu liberdade aos primeiros seres humanos: “De toda árvore do jardim comerás livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Condicionados como estamos pela modernidade e sua obsessão por autonomia, nossa primeira reação é o questionamento: “Como isso pode ser liberdade?” – afinal, para nós, liberdade com limitação não é liberdade.

 Sabemos, entretanto, como esse tipo de liberdade foi compreendida por Adão e Eva, assim como por toda a raça humana. Trata-se de uma história de vergonha, alienação, inimizade e morte – em suma, a antítese absoluta da liberdade. Em Paraíso perdido, John Milton parodiou a raiva da humanidade por causa de suas limitações na declaração de Lúcifer: “Melhor reinar no inferno do que servir no céu!”. Fica a questão: Quando Adão e Eva estavam mais livres? No Jardim do Éden, quando podiam comer de todas as árvores, exceto uma? Ou depois, quando perderam o Paraíso e ficaram “livres” para comer de tudo o que quisessem? As implicações do ocorrido no início são inevitáveis: a verdadeira liberdade é encontrada apenas através da obediência a Deus e da comunhão que a acompanha. Já sua perda se dá com a autoafirmação, o desejo idólatra de cada um governar seu “pedacinho de inferno”, em vez de desfrutar das bênçãos do favor de Deus.

 Toda a narrativa bíblica pode ser lida como um drama sobre a liberdade e sua perda através do desejo e da tentativa do ser humano de aproveitar uma autonomia irrestrita. Tome-se como exemplo as frequentes rebeliões de Israel e sua consequente perda de proteção divina; ou a atitude de Davi diante de sua redescoberta da alegria na obediência às leis de Deus; e também os chamados de trombeta dos profetas para que Israel e Judá guardassem a lei do Senhor – e a subsequente perda da liberdade do povo, por ter insistido em fazer as coisas à sua maneira.

 

Em nenhum outro trecho bíblico esse contraditório tema ficou mais claro do que no Novo Testamento. Jesus disse a seus discípulos: “Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á”. E, mais uma vez, ele disse aos que o seguiam: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo” (Mt 20.26-27). É verdade: o apóstolo Paulo falou diversas vezes sobre nossa libertação, em Cristo, de uma obrigação externa, ou seja, da lei. A confiança em Jesus é, de acordo com ele, a única base para um relacionamento correto com Deus. Por outro lado, ao longo de suas epístolas, ele nos aconselha a abrir mão de nossos direitos e liberdades em prol da propagação do Evangelho e da proteção da consciência das outras pessoas. Paulo encontrou a verdadeira liberdade ao abrir mão de seus direitos: “Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais” (1Co 9.19).

 

AMOR SACRIFICIAL

 

O tema da liberdade através da obediência e servidão é tão predominante no Evangelho que é difícil deixá-lo passar despercebido. No entanto, isso, muitas vezes, acontece devido à ênfase dada à autonomia por nossa cultura. Então que tipo de obediência traz a liberdade verdadeira? Em primeiro lugar, e contrariamente à opinião popular, não se trata de uma obediência imposta. Não se trata de obedecer à vontade de Deus porque tememos as consequências da desobediência. A obediência ao Evangelho é sempre voluntária. No momento em que a obediência a Cristo se torna penosa, ou mero conformismo relutante, não é mais a obediência do Evangelho. Somente quando a obediência é prazerosa, resultado de gratidão, ela proporciona liberdade verdadeira, a que vem quando somos aquilo que fomos criados para ser.

 Em segundo lugar, a obediência que traz liberdade verdadeira é motivada pelo amor sacrificial. Yoder descreve profeticamente esse tipo de servidão como “subordinação revolucionária”, onde cada crente busca o bem dos outros sem tentar fazer valer seus próprios direitos. Em uma comunidade onde todos vivem dessa forma, em gratidão a Jesus Cristo, capacitados pelo seu Espírito, a verdadeira liberdade é abundante.

 Então, qual a relação de tudo isso com o conceito de livre arbítrio? Liberdade, então, não significa nada além de livre arbítrio? É claro que não. Se, por “liberdade” queremos dizer a liberdade do Evangelho – na servidão, tornamo-nos aquilo que Deus deseja de nós, na obediência a Cristo e em nossa transformação à sua imagem –, então está claro que estamos falando de algo bem mais profundo que o simples exercício do livre arbítrio. Isso é algo em que arminianos, que creem que o homem é livre para escolher, e calvinistas, que acreditam na escravidão da vontade e soberania absoluta de Deus, poderiam concordar. Os arminianos evangélicos acreditam que a verdadeira liberdade transcende o livre arbítrio, que, nessa análise, seria simplesmente a capacidade dada por Deus para escolhermos a verdadeira liberdade, oferecida pela graça, ou a rejeitarmos devido à nossa obstinação egocêntrica.

 Nem todos os cristãos creem no livre arbítrio. Lutero era um deles. Mas não é essa a questão. Quer alguém creia ou não, a liberdade verdadeira é outra coisa, e não contradiz o livre arbítrio; ela simplesmente o transcende. Todos os cristãos concordam que a autêntica liberdade, aquela que procede da obediência a Cristo e da conformidade à sua imagem, é um dom de Deus que iremos desfrutar plenamente quando formos glorificados com ele. É sobre isso que Paulo fala em Romanos 7: aqui na terra guerreamos entre a “carne” – a natureza caída – e o Espírito, dom de Deus, que habita em nós. Nesse ínterim, enquanto aguardamos nossa plena glorificação, crescemos em liberdade apenas ao trocarmos uma atitude de submissão à lei por um novo coração que se deleita em obedecer a Cristo. Pela graça de Deus, e com a ajuda de seu Espírito, podemos perceber uma liberdade ainda maior do pecado e da morte. Mas a liberdade em sua plenitude só vem após nossa ressurreição.

 Teólogos chamam de “santificação” o processo pelo qual se experimenta gradualmente a autêntica liberdade antes da morte. Há muitas opiniões divergentes a respeito de quão intensa e completa tal liberdade pode ser antes da ressurreição. Todos, porém, concordam que a liberdade verdadeira é um dom que recebemos aos poucos, ao longo da vida. Paulo foi claro em sua carta aos crentes de Filipos: “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”. A salvação, em outras palavras, é tanto dom quanto missão. O “porque” usado por Paulo indica que o dom está na base da missão. Somos chamados, em um exercício de livre arbítrio, a obedecer e servir. Trata-se de uma decisão nossa.

 

GRAÇA x LIVRE ARBÍTRIO

 

Por outro lado, sempre que experimentamos essa liberdade maior que vem da obediência genuína e somos conformados ao caráter de Cristo, nos tornando servos verdadeiros, reconhecemos que é tudo devido à obra de Deus em nós. É esse o paradoxo da graça e do livre arbítrio. A graça de Deus, que deseja nos conceder a liberdade, está presente, desde o momento da nossa conversão. A graça nunca nos falta, nem precisa ser reforçada. Mas pode, no entanto, ser bloqueada por atitudes e hábitos indevidos, ressentimentos e atitudes egoístas. Cabe a nós encontrá-los – com a ajuda do Espírito, é claro – e trabalhá-los através de um processo de arrependimento e submissão. O livre arbítrio, assim, é uma condição necessária a esse processo, mas não o resultado final. Tal processo não leva à autonomia absoluta, mas sim, a uma liberdade crescente do jugo do pecado e da morte. Já estamos livres da lei e da condenação; portanto, a liberdade para nos tornarmos o que Deus planejou é trabalho dele e nosso também – a glória, porém, é toda do Senhor.

 O Evangelho é uma boa nova incondicional. Não precisamos fazer algo ou obedecer a alguém; isso seria horrível. Não; o Evangelho trata-se, de fato, de poder fazer algo, o que é sempre positivo. Trata-se do que podemos ter à medida que permitimos, de bom grado, que Deus, através do seu Espírito, faça sua obra em nós: a certeza da vitória sobre o pecado e a morte. Apenas quando abraçarmos essa vitória – e renunciarmos a todas as reivindicações para governar nossas próprias vidas – é que seremos verdadeiramente livres. 

A Segurança da Salvação.

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____________________________________________________________Myer Pearlman

Temos estudado as preparações para a salvação e considerado a natureza desta. Nesta seção consideramos: É a Salvação final dos cristãos incondicional, ou poderá perder-se por causa do pecado?
A experiência prova a possibilidade duma queda temporária da graça, conhecida por “desviar-se”. O termo não se encontra no Novo Testamento, senão no Antigo Testamento. Uma palavra hebraica significa “voltar atrás” ou “virar-se”; outra palavra significa “volver-se” ou ser “rebelde”. Israel é comparado a um bezerro teimoso que volta para trás e se recusa a ser conduzido, e torna-se insubmisso ao jugo. Israel afastou-se de Jeová e obstinadamente se recusou a tomar sobre si o jugo de seus mandamentos.
O Novo Testamento nos admoesta contra tal atitude, porém usa outros termos. O desviado é a pessoa que outrora tinha o zelo de Deus, mas agora se tomou fria (Mat. 24:12); outrora obedecia à Palavra, mas o mundanismo e o pecado impediram seu crescimento e frutificação (Mat. 13:22); outrora pôs a mão ao arado, mas olhou para trás (Luc. 9:62); como a esposa de Ló, que havia sido resgatada da cidade da destruição, mas seu coração voltou para ali (Luc. 17:32); outrora estava em contacto vital com Cristo, mas agora está fora de contacto, e está seco, estéril e inútil espiritualmente (João 15:6); outrora obedecia à voz da consciência, mas agora jogou para longe de si essa bússola que o guiava, e, como resultado, sua embarcação de fé destroçou-se nas rochas do pecado e do mundanismo (1 Tim. 1:19); outrora alegrava-se em chamar-se cristão, mas agora se envergonha de confessar a seu Senhor (2 Tim. 1:8 ;2:12); outrora estava liberto da contaminação do mundo, mas agora voltou como a “porca lavada ao espoja-douro de lama” (2 Ped. 2:22; vide Luc. 11:21-26).
É possível decair da graça; mas a questão é saber se a pessoa que era salva e teve esse lapso, pode finalmente perder-se. Aqueles que seguem o sistema de doutrina calvinista respondem negativamente; aqueles que seguem o sistema arminiano (chamado assim em razão de Armínio, teólogo holandês, que trouxe a questão a debate) respondem afirmativamente.

1. Calvinismo.
A doutrina de João Calvino não foi criada por ele; foi ensinada por santo Agostinho, o grande teólogo do quarto século. Nem tampouco foi criada por Agostinho, que afirmava estar interpretando a doutrina de Paulo sobre a livre graça.
A doutrina de Calvino é como segue: A salvação é inteiramente de Deus; o homem absolutamente nada tem a ver com sua salvação. Se ele, o homem, se arrepender, crer e for a Cristo, é inteiramente por causa do poder atrativo do Espírito de Deus. Isso se deve ao fato de que a vontade do homem se corrompeu tanto desde a queda, que, sem a ajuda de Deus, não pode nem se arrepender, nem crer, nem escolher corretamente. Esse foi o ponto de partida de Calvino — a completa servidão da vontade do homem ao mal. A salvação, por conseguinte, não pode ser outra coisa senão a execução dum decreto divino que fixa sua extensão e suas condições.
Naturalmente surge esta pergunta: Se a salvação é inteiramente obra de Deus, e o homem não tem nada a ver com ela, e está desamparado, amenos que o Espírito de Deus opere nele, então, por que Deus não salva a todos os homens, posto que todos estão perdidos e desamparados? A resposta de Calvino era: Deus predestinou alguns para serem salvos e outros para serem perdidos. “A predestinação é o eterno decreto de Deus, pelo qual ele decidiu o que será de cada um e de todos os indivíduos. Pois nem todos são criados na mesma condição; mas a vida eterna está preordenada para alguns, e a condenação eterna para outros.” Ao agir dessa maneira Deus não é injusto, pois ele não é obrigado a salvar a ninguém; a responsabilidade do homem permanece, pois a queda de Adão foi sua própria falta, e o homem sempre é responsável por seus pecados.
Posto que Deus predestinou certos indivíduos para a salvação, Cristo morreu unicamente pelos “eleitos”; a expiação fracassaria se alguns pelos quais Cristo morreu se perdessem.
Dessa doutrina da predestinação segue-se o ensino de “uma vez salvo sempre salvo”; porque se Deus predestinou um homem para a salvação, e unicamente pode ser salvo e guardado pela graça de Deus, que é irresistível, então, nunca pode perder-se.
Os defensores da doutrina da “segurança eterna” apresentam as seguintes referências para sustentar sua posição: João 10:28,29: Rom. 11:29; Fil. 1:6; 1 Ped. 1:5; Rom. 8:35; João 17:6.

2. Arminianismo.
O ensino arminiano é como segue: A vontade de Deus é que todos os homens sejam salvos, porque Cristo morreu por todos. (1 Tim. 2:4-6; Heb. 2:9; 2 Cor. 5:14; Tito 2:11,12.) Com essa finalidade ele oferece sua graça a todos. Embora a salvação seja obra de Deus, absolutamente livre e independente de nossas boas obras ou méritos, o homem tem certas condições a cumprir. Ele pode escolher aceitar a graça de Deus, ou pode resistir-lhe e rejeitá-la. Seu direito de livre arbítrio sempre permanece.

As Escrituras certamente ensinam uma predestinação, mas não que Deus predestina alguns para a vida eterna e outros para o sofrimento eterno. Ele predestina ” a todos os que querem” a serem salvos — e esse plano é bastante amplo para incluir a todos que realmente desejam ser salvos. Essa verdade tem sido explicada da seguinte maneira: na parte de fora da porta da salvação lemos as palavras: “quem quiser pode vir”; quando entramos por essa porta e somos salvos, lemos as palavras no outro lado da porta: “eleitos segundo a presciência de Deus”. Deus, em razão de seu conhecimento, previu que essas pessoas aceitariam o evangelho e permaneceriam salvos, e predestinou para essas pessoas uma herança celestial. Ele previu o destino delas, mas não o fixou.
A doutrina da predestinação é mencionada, não com propósito especulativo, e, sim, com propósito prático. Quando Deus chamou Jeremias ao ministério, ele sabia que o profeta teria uma tarefa muito difícil e poderia ser tentado a deixá-la. Para encorajá-lo, o Senhor assegurou ao profeta que o havia conhecido e o havia chamado antes de nascer (Jer. 1:5). Com efeito, o Senhor disse: “Já sei o que está adiante de ti, mas também sei que posso te dar graça suficiente para enfrentares todas as provas futuras e conduzir-te à vitória.” Quando o Novo Testamento descreve os cristãos como objetos da presciência de Deus, seu propósito é dar-nos certeza do fato de que Deus previu todas as dificuldades que surgirão à nossa frente, e que ele pode nos guardar e nos guardará de cair.

3. Uma comparação.
A salvação é condicional ou incondicional? Uma vez salva, a pessoa é salva eternamente? A resposta dependerá da maneira em que podemos responder às seguintes perguntas-chave: De quem depende a salvação? É irresistível a graça?

1) De quem depende, em última análise, a salvação: de Deus ou do homem? Certamente deve depender de Deus, porque, quem poderia ser salvo se a salvação dependesse da força da própria pessoa? Podemos estar seguros disto: Deus nos conduzirá à vitória, não importa quão débeis ou desatinados sejamos, uma vez que sinceramente desejamos fazer a sua vontade. Sua graça está sempre presente para nos admoestar, reprimir, animar e sustentar.
Contudo, não haverá um sentido em que a salvação dependa do homem? As Escrituras ensinam constantemente que o homem tem o poder de escolher livremente entre a vida e a morte, e Deus nunca violará esse poder.
2) Pode-se resistir à graça de Deus? Um dos princípios fundamentais do Calvinismo é que a graça de Deus e irresistível. Quando Deus decreta a salvação de uma pessoa, seu Espírito atrai, e essa atração não pode ser resistida. Portanto, um verdadeiro filho de Deus certamente perseverará até ao fim e será salvo; ainda que caia em pecado, Deus o castigará e pelejará com ele. Ilustrando a teoria calvinista diríamos: é como se alguém estivesse a bordo dum navio, e levasse um tombo; contudo está a bordo ainda; não caiu ao mar.
Mas o Novo Testamento ensina, sim, que é possível resistir à graça divina e resistir para a perdição eterna (João 6:40; Heb. 6:46; 10:26-30; 2 Ped. 2:21; Heb. 2:3; 2 Ped. 1:10), e que a perseverança é condicional dependendo de manter-se em contacto com Deus.
Note-se especialmente Heb. 6:4-6 e 10:26-29. Essas palavras foram dirigidas a cristãos; as epístolas de Paulo não foram dirigidas aos não-regenerados. Aqueles aos quais foram dirigidas são descritos como havendo sido uma vez iluminados, havendo provado o dom celestial, participantes do Espírito Santo, havendo provado a boa Palavra de Deus e as virtudes do século futuro. Essas palavras certamente descrevem pessoas regeneradas.
Aqueles aos quais foram dirigidas essas palavras eram critãos hebreus, que, desanimados e perseguidos (10:32-39), estavam tentados a voltar ao Judaísmo. Antes de serem novamente recebidos na sinagoga, requeria-se deles que, publicamente, fizessem as seguintes declarações (10:29): que Jesus não era o Filho de Deus; que seu sangue havia sido derramado justamente como o dum malfeitor comum; e que seus milagres foram operados pelo poder do maligno. Tudo isso está implícito em Heb. 10:29. (Que tal repúdio da fé podia haver sido exigido, é ilustrado pelo caso dum cristão hebreu na Alemanha, que desejava voltar à sinagoga, mas foi recusado porque desejava conservar algumas verdades do Novo Testamento.) Antes de sua conversão havia pertencido à nação que crucificou a Cristo; voltar à sinagoga seria de novo crucificar o Filho de Deus e expô-lo ao vitupério; seria o terrível pecado da apostasia (Heb. 6:6); seria como o pecado imperdoável para o qual não há remissão, porque a pessoa que está endurecida a ponto de cometê-lo não pode ser “renovada para arrependimento”; seria digna dum castigo mais terrível do que a morte (10:28); e significaria incorrer na vingança do Deus vivo (10:30, 31).
Não se declara que alguém houvesse ido até esse ponto; de fato , o autor está persuadido de “coisas melhores” (6:9). Contudo, se o terrível pecado da apostasia da parte de pessoas salvas não fosse ao menos remotamente possível, todas essas admoestações careceriam de qualquer fundamento.
Leia-se 1 Cor. 10:1-12. Os coríntios se haviam jactado de sua liberdade cristã e da possessão dos dons espirituais. Entretanto, muitos estavam vivendo num nível muito pobre de espiritualidade. Evidentemente eles estavam confiando em sua “posição” e privilégios no Evangelho. Mas Paulo os adverte de que os privilégios podem perder-se pelo pecado, e cita os exemplos dos israelitas. Estes foram libertados duma maneira sobrenatural da terra do Egito, por intermédio de Moisés, e, como resultado, o aceitaram como seu chefe durante a jornada para a Terra da Promissão. A passagem pelo Mar Vermelho foi um sinal de sua dedicação à direção de Moisés. Cobrindo-os estava a nuvem, o símbolo sobrenatural da presença de Deus que os guiava. Depois de salvá-los do Egito, Deus os sustentou, dando-lhes, de maneira sobrenatural, o que comer e beber. Tudo isso significava que os israelitas estavam em graça, isto é: no favor e na comunhão com Deus.
Mas “uma vez em graça sempre em graça” não foi verdade no caso dos israelitas, pois a rota de sua jornada ficou assinalada com as sepulturas dos que foram destruídos em conseqüência de suas murmurações, rebelião e idolatria. O pecado interrompeu sua comunhão com Deus, e, como resultado, caíram da graça. Paulo declara que esses eventos foram registrados na Bíblia para advertir os cristãos quanto à possibilidade de perder os mais sublimes privilégios por meio do pecado deliberado.

4. Equilíbrio escriturístico.
As respectivas posições fundamentais, tanto do Calvinismo como do Arminianismo, são ensinadas nas Escrituras. O Calvinismo exalta a graça de Deus como a única fonte de salvação — e assim o faz a Bíblia; o Arminianismo acentua a livre vontade e responsabilidade do homem — e assim o faz a Bíblia. A solução prática consiste em evitar os extremos antibíblicos de um e de outro ponto de vista, e em evitar colocar uma idéia em aberto antagonismo com a outra. Quando duas doutrinas bíblicas são colocadas em posição antagônica, uma contra a outra, o resultado é uma reação que conduz ao erro. Por exemplo: a ênfase demasiada à soberania e à graça de Deus na salvação pode conduzir a uma vida descuidada, porque se a pessoa é ensinada a crer que conduta e atitude nada têm a ver com sua salvação, pode tornar-se negligente. Por outro lado, ênfase demasiada sobre a livre vontade e responsabilidade do homem, como reação contra o Calvinismo, pode trazer as pessoas sob o jugo do legalismo e despojá-las de toda a confiança de sua salvação. Os dois extremos que devem ser evitados são: a ilegalidade e o legalismo.

Quando Carlos Finney ministrava em uma comunidade onde a graça de Deus havia recebido excessiva ênfase, ele acentuava muito a responsabilidade do homem. Quando dirigia trabalhos em localidades onde a responsabilidade humana e as obras haviam sido fortemente defendidas, ele acentuava a graça de Deus. Quando deixamos os mistérios da predestinação e nos damos à obra prática de salvar as almas, não temos dificuldades com o assunto. João Wesley era arminiano e George Whitefield calvinista. Entretanto, ambos conduziram milhares de almas a Cristo.
Pregadores piedosos calvinistas, do tipo de Carlos Spurgeon e Carlos Finney, têm pregado a perseverança dos santos de tal modo a evitar a negligência. Eles tiveram muito cuidado de ensinar que o verdadeiro filho de Deus certamente perseveraria até ao fim, mas acentuaram que se não perseverassem, poriam em dúvida o fato do seu novo nascimento. Se a pessoa não procurasse andar na santidade, dizia Calvino, bem faria em duvidar de sua eleição.
É inevitável defrontarmo-nos com mistérios quando nos propomos tratar as poderosas verdades da presciência de Deus e a livre vontade do homem; mas se guardamos as exortações práticas das Escrituras, e nos dedicamos a cumprir os deveres específicos que se nos ordenam, não erraremos. “As coisas encobertas são para o Senhor Deus, porém as reveladas são para nós” (Deut. 29:29).
Para concluir, podemos sugerir que não é prudente insistir falando indevidamente dos perigos da vida cristã. Maior ênfase deve ser dada aos meios de segurança — o poder de Cristo como Salvador; a fidelidade do Espírito Santo que habita em nós, a certeza das divinas promessas, e a eficácia infalível da oração. O Novo Testamento ensina uma verdadeira “segurança eterna”, assegurando-nos que, a despeito da debilidade, das imperfeições, obstáculos ou dificuldades exteriores, o cristão pode estar seguro e ser vencedor em Cristo. Ele pode dizer com o apóstolo Paulo: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; fomos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rom. 8:35-39).

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PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da bíblia; Tradução Lawrence Olson. São Paulo: Editora Vida, 2006.

Deus é soberano sobre a Sua soberania

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Roger E. Olson

Os batistas têm o habito de reciclar temas teológicos calorosos. A soberania de Deus e o livre-arbítrio humano é um que vive aparecendo. Agora mesmo, o debate entre calvinistas e arminianos está esquentando novamente. Recentemente, um presidente de um seminário batista sugeriu que a Convenção Batista do Sul não tem lugar para os arminianos, o que deve ter sido um choque aos milhões de crentes no livre-arbítrio que são leais batistas do sul.

O que muitas pessoas não notam é que calvinistas e arminianos concordam que Deus é soberano e que Deus governa providencialmente sobre a criação e predestina pessoas para salvação. Suas áreas de acordo são muito maiores do que seus desacordos sobre interpretações específicas destes conceitos bíblicos.

Soberania tem a ver com o governo de Deus de todas as coisas; a doutrina cristã da soberania de Deus é que Deus está no comando do universo e tudo nele. Ele domina sobre ele. Providência é quase idêntico à soberania; ela trata do modo no qual Deus domina sobre sua criação.

Predestinação é outra doutrina ligada à soberania de Deus, mas não é idêntica à providência. Predestinação é o ensino bíblico que Deus preordena ou pré-conhece quais de suas criaturas humanas serão salvas. Os “eleitos” são escolhidos por Deus. Sobre estas doutrinas, calvinistas e arminianos concordam. Eles discordam sobre o papel que o livre-arbítrio desempenha em se uma pessoa está entre os eleitos e assim predestinada por Deus. Os calvinistas negam o livre-arbítrio como poder de escolha contrária e afirmam que a graça de Deus é irresistível. Os arminianos acreditam em livre-arbítrio como poder de escolha contrária e dizem que a graça nunca é imposta sobre ninguém; as pessoas podem e resistem à graça de Deus.

Seguindo o teólogo holandês Jacob Arminius (que morreu em 1609), os arminianos creem que Deus é soberano. De fato, Deus é tão soberano que ele é soberano sobre sua soberania. Em outras palavras, Deus limita seu poder para dar espaço ao poder humano da livre escolha, incluindo a liberdade para resistir à graça. Livre-arbítrio não é um resíduo de bondade humana que sobreviveu à queda no jardim; é um dom da graça de Deus que nos capacita a responder livremente à oferta de Cristo no evangelho.

O Calvinismo é a crença no determinismo divino; Deus é a realidade toda-determinante que soberanamente planeja e controla todos os eventos, incluindo as escolhas livres dos humanos. Os arminianos perguntam quão livres as pessoas podem ser se suas decisões são controladas. Os arminianos querem saber como Deus é bom e amoroso à luz da combinação do mal no mundo e a soberania e o poder todo-determinante de Deus. Até mesmo o mais inflexível dos calvinistas hesita em lançar a culpa do pecado e do mal em Deus. Após falar sobre o poder todo-determinante de Deus, eles se esquivam de dizer que Deus determinou a queda da humanidade no jardim ou o holocausto de Hitler. Uns poucos audaciosos vão em frente e dizem que Deus até mesmo causou os atos terroristas de 11 de setembro.

Nós que cremos na real liberdade da vontade, liberdade e poder de escolha contrária, vemos isso como a única forma de livrar-se de tornar Deus o autor do pecado e do mal. Um Deus que determina pessoas a pecar, ainda que somente por “permissão eficaz” (retirando a graça necessária para não pecar), é o pecador último. Um Deus que poderia salvar alguém, porque a salvação é incondicional, mas passa por alto de muitos – enviando-os para a condenação eterna – é moralmente ambíguo na melhor das hipóteses. Como John Wesley comentou, se isto é amor, é um amor que faz gelar o sangue.

Reconhecidamente, a maioria dos calvinistas não segue a lógica de sua própria concepção da soberania de Deus a sua justa e necessária conclusão. Eles afirmam que Deus é amoroso, mas dizem que “mundo” em Jo 3.16 não se refere a todos, mas a pessoas de toda tribo e nação – os eleitos. Deus ama todas as pessoas de alguma forma, mas somente os eleitos de todas.

Os arminianos acreditam no amor universal de Deus por todas as pessoas criadas à sua imagem e semelhança. Deus não quer que ninguém pereça, senão que todos alcancem o arrependimento (2Pe 3.9), porque ele deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2.4).

Claramente, Deus não consegue completamente o que quer, porque ele é soberano sobre sua soberania e permite que pessoas pecadoras se oponham à sua vontade. Mas isso de forma alguma diminui sua grandeza ou poder; é evidência de sua autolimitação e respeito amoroso pelas pessoas.

Fonte: http://www.baptiststandard.com/index.php?option=com_content&task=view&id=5077&Itemid=134

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Fonte: Arminianismo.com

 

Você se sente salvo?

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David M. Battle

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Então, você se sente salvo? Isso é louvável, mas não é uma questão sobre a qual você quer estar errado. O apóstolo Paulo diz aos membros da igreja de Corinto para examinarem a si mesmos para ver se eles permanecem na fé  (2Co 13.5). Você já examinou a si mesmo?

Jesus descreve uma cena muito triste no julgamento. Um grupo de pessoas ficará em pé diante do assento do Juiz e clamará a Jesus dizendo, “Senhor, Senhor”. Eles achavam que estavam salvos e destinados aos Novos Céus e Nova Terra (Mt 7.21). Muitos tinham até mesmo feito milagres em nome de Jesus, mas Deus lhes disse, “Apartai-vos de mim, eu nunca vos conheci” (Mt 7.21; 25.41). Essas pessoas sentiam que estavam salvas, mas não estavam. Que horror descobrir no Dia do Julgamento que você estava destinado ao inferno e não ao céu! Se você é sábio, reservará um tempo e examinará a si mesmo para ver se permanece na fé e não está destinado à condenação.

Então você se diz salvo! Isso é bom, mas como você sabe que está falando a verdade? A salvação é um dom de Deus. Por qual evidência você diz que Deus tem verdadeiramente dado a salvação a você?

A evidência da salvação não é uma mera afirmação da história do Evangelho ou a participação em algum ritual como o batismo ou a santa ceia. Até o diabo pode contar como Deus enviou o Seu Filho para morrer na cruz como pagamento pelos nossos pecados. Ele tem mais conhecimento das realidades espirituais do que nós. Outros apenas enganam a si mesmos. Eu me lembro de ouvir um jovem testemunhar que Jesus tinha morrido por seus pecados e posteriormente admitiu que adorava a Gaia, a Mãe Terra. Ele era um pagão que seguia os espíritos deste mundo. Ele não era salvo. Eu tenho até mesmo lidado com um alcoólatra que testemunhou que tinha atendido ao apelo e que tinha orado a “oração dos pecadores”. Ele tinha testemunhado um “bom batismo” que foi confirmado por um sinal milagroso. Mesmo assim, ele continuou fortemente na vida de bêbado. Ele desajeitadamente ignorou o aviso de Paulo de que os bêbados não herdarão o reino de Deus (1Co 6.10; Gl 5.21). Esses dois homens declaravam salvação para si mesmos. Tristemente, ambos ignoraram os claros e repetidos ensinos da Escritura que nem os idólatras e nem os bêbados entrarão no Reino dos Céus. Eles estão andando direto para o inferno enquanto cantam, “Estou a caminho da terra prometida”.

Que o Senhor tenha misericórdia desses que encorajam tais ilusões.

Amigo, eu não sei se a graça de Deus foi aplicada na sua alma. Eu sei que Cristo morreu para pagar pelos nossos pecados e que Deus enviou o Espírito Santo para nos preparar para o Seu Reino vindouro. A pergunta que precisamos responder é, “Essa graça está sendo aplicada na minha vida?” Como eu testo a mim mesmo para ver se permaneço na fé com Paulo ordenou (2Co 13.5)? Estou verdadeiramente salvo? Ou sou um reprovado iludido? Você deve responder essas perguntas para si mesmo. Nenhum outro humano nessa terra pode respondê-las para você.

Nem todo mundo pode ter esse conhecimento. Aqueles que não acreditam no nome do Filho de Deus não têm esperança da vida eterna. Nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual alguém pode ser salvo (At 4.12), e Jesus é o único caminho para Deus (Jo 14.6). Você deve acreditar na mensagem do Evangelho antes que possa ter essa certeza.

Felizmente, Deus tem nos revelado os testes que nós crentes devemos usar para examinar o destino das nossas almas quando declaramos que temos a salvação. A Primeira Carta de João no Novo Testamento foi escrita para que os crentes soubessem que eles têm a vida eterna (1Jo 5.13).

João fornece três testes para aqueles que creem no Nome do Filho de Deus pelos quais eles possam saber que têm a vida eterna. O crente deve examinar a si mesmo por esses três testes antes que possa saber que tem a salvação.

Enquanto os testes são apresentados por toda a carta, João os sumariza em 1 João 5. O primeiro teste, que aquele que professa crer em Cristo deve passar, é o teste do amor divino. Ele deve verdadeiramente amar a Deus. O segundo teste é a vida de obediência santa. Quando um crente experimenta alegria em obedecer a Deus, ele vai naturalmente viver uma vida santa. O teste final é que o crente deve acreditar nos testemunhos de Deus.

O Maior Mandamento é amar ao Senhor Deus com todo o nosso coração, mente, alma e força. Todos os que são perdoados amam a Deus, pois Jesus nos diz que o nosso amor por Deus está diretamente ligado ao perdão de Deus. Jesus certa vez estava à mesa e uma mulher veio e lhe ungiu os pés. O anfitrião reconheceu a mulher como uma pecadora impura e no seu coração menosprezou a percepção espiritual de Jesus. Jesus sabendo o que o homem estava pensando disse a ele, “Se um credor tivesse dois devedores, um devendo R$ 800.000,00 e outro devendo R$ 400.000,00, e ele perdoasse as dívidas deles, qual deles o amaria mais?” O anfitrião respondeu, “Suponho que seria aquele que devia mais a ele”. Jesus concordou (Lc 7.41-43). Aquele que foi perdoado pouco, amará a Deus somente um pouco, mas aquele a quem Deus perdoou, muito amará a Deus mais profundamente.

João declara que o primeiro sinal de que os crentes nasceram de Deus é que nós amamos a Deus (1Jo 5.1-2). Se amamos a Deus, então amamos aqueles que nasceram de Deus, pois não podemos odiar os Seus filhos e amar a Ele (1Jo 2.9-10). Tiago vai mais além e descreve como “morta ou imprestável”, uma fé que não alcança os irmãos que estão em necessidade (Tg 2.15-17). Ainda mais, se você ama alguém, você quer estar com ele. A expressão mais básica do nosso amor por Deus é o desejo de se unir aos Seus filhos em adoração. Resumindo, o nosso amor por Deus nos motiva a congregar com os crentes em adoração divina a Deus e a atender as necessidades dos irmãos.

Quanto menos amamos a Deus, mais morno é o nosso desejo de adorar e a nossa motivação para ajudar os outros. Se somos indiferentes a Deus, seremos indiferentes à congregação dos crentes. Quanto maior for a nossa indiferença, menos pecados nos serão perdoados. Os seus pecados foram realmente perdoados? Você passa neste teste?

O segundo teste é a extensão do nosso amor na vida de obediência ou vida santa. O crente que tem completa certeza da salvação é motivado por seu amor por Deus a buscar e atingir aquilo que é impossível para uma pessoa que não foi salva. João declara que nós sabemos que somos filhos de Deus “quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos”, os quais o crente irá descobrir que não são penosos ou pesados (1Jo 5.2-3). Isso é como um marido que ama profundamente a sua esposa. Ele terá prazer em estar com ela, permanecendo com ela mesmo durante um tempo de dificuldade. O marido que não ama a sua esposa pensará que ajudá-la é um peso e uma distração das coisas que ele quer fazer. Quando nós amamos a Deus, descobriremos que guardar os Seus mandamentos não é um jugo pesado, mas sim uma aplicação libertadora de retidão e sabedoria. João declara ainda que o crente que obedece a Deus com amor encontrará vitória sobre o mundo (1Jo 5.4-5), porque ele irá derrotar esse mundo e suas paixões desenfreadas: a concupiscência[1] da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida (1 Jo 2.16-17). Essas coisas não mais serão a regra nem vão reinar sobre a vida do crente, porque o amor de Deus vai permanecer firme no seu coração.

O segundo teste é o amor divino florescendo na vida santa. A sua vida é guiada pelo seu amor a Deus? Você sente prazer em obedecer a Deus? A sua vida é marcada por vitórias sobre os pecados, especialmente aqueles que eram comuns a você antes da salvação? Examine sua própria vida para ver se passa neste teste.

Uma vez que alguém afirma com o seu próprio coração e lábios que Jesus pagou por seus próprios pecados e começa a seguir Jesus obedecendo aos mandamentos do nosso Senhor, a certeza da salvação pode ainda estar faltando. Enquanto a verdadeira certeza da salvação não pode ser obtida sem ter primeiro um profundo amor por Deus e obedecer aos Seus mandamentos, uma pessoa pode ter os dois e ainda não ter certeza. O terceiro teste é a chave para se ter a certeza da salvação.

No terceiro teste está o testemunho do Espírito, o qual conclui o testemunho de Deus acerca do Seu Filho (1Jo 5.9). Na terra quem dá o testemunho é “o Espírito, a água, e o sangue” (1Jo 5.6, 8). As testemunhas divinas da água e do sangue reafirmam duas verdades fundamentais que alguém precisa aceitar a fim de ter a vida eterna. Deus o Pai testemunhou que Jesus é o Seu Filho Unigênito no Batismo (Jo 1.14, 32-34). Um Filho Unigênito possui a mesma essência de Seu Pai. O testemunho do sangue declara com poder que Jesus é o Filho de Deus pela ressurreição de Seu corpo dos mortos (Rm 1.4).

Essas duas verdades são fundamentais para a salvação e a pessoa deve aceitá-las a fim de ganhar a vida eterna. Ainda, a salvação não é uma mera afirmação intelectual dessas verdades. A pessoa deve escolher acreditar nelas colocando a sua fé em Cristo. Uma vez que a pessoa crê em Deus, se arrepende de sua rebelião contra Deus e vive na fé obediente, Deus promete salvá-la.

O terceiro teste novamente requer que a pessoa creia que Jesus é o Salvador vindo de Deus, que essa pessoa ame ao Senhor com todo o seu coração, alma e força, e que esteja obedientemente vencendo esse mundo caído. O terceiro teste ou o Testemunho do Espírito é também o mais difícil de explicar. Se o tem, você o sabe. Se não o tem, você não vai entender isso. Se não o tem, vá a Deus em oração e implore a Ele para que Ele abra os seus olhos e para que saiba que Ele é bom.

A pergunta aqui é, “Como você sabe que Deus aplicou o sangue de Jesus na sua alma?” Você pode amar a Deus, estar vivendo uma vida santa, e ter aceitado os dois primeiros testemunhos de Deus e ainda assim não ter certeza da salvação. De novo, você não pode ter certeza se você não ama a Deus, não está vivendo uma vida santa ou rejeita qualquer dos dois primeiros testemunhos de Deus.

Ainda que você tenha estas coisas, você ainda necessita de mais uma coisa antes que possa estar seguro de que tem a salvação. A fim de finalmente ter certeza da salvação, você deve ter o conhecimento experimental que vem do testemunho do Espírito com o seu espírito (1Jo 5.10). O crente tem completa certeza da salvação quando o Espírito de Deus testemunha com o espírito do crente que Deus o tem adotado. O crente recebe o Espírito de adoção que clama a Deus, dizendo, “Pai” (Rm 8.15-17). A certeza vem naquele momento que você pode olhar para a sua vida e dizer, “Sim, eu creio que Jesus é o Filho de Deus, o Salvador do Mundo”. “Sim, eu tenho um profundo amor e desejo de agradar a Deus”. “Sim, Deus está operando através de mim, e eu acho o Seu trabalho prazeroso”. Então, nesse momento você sente o Espírito de Deus se achegando e dando a você um completo abraço e sussurro em seu ouvido, “Você é meu filho amado” e a sua alma alcança a Deus, clamando, “Pai”. Nesse momento, você tem completa certeza.

Se você sabe sobre o que estou escrevendo, tenha coragem e vá mais fundo nessa caminhada. Peça a Deus para dar a você uma caminhada mais profunda com Ele, um mais profundo amor por Ele. Cresça em santidade e Deus dará a você muito mais certezas internas de que você é Dele. Que você viva de fé em fé e de vitória em vitória.

Se você não sabe sobre o que estou escrevendo, não posso dar isso a você. Somente Deus pode. Examine a sua vida e busque o que falta a você. Você realmente acredita nos testemunhos de Deus? Você acredita que Jesus é o Filho de Deus que veio em carne? Você confessa que é um pecador corrupto e que não tem qualquer direito de pedir o amor de Deus? Você crê que a Sua morte pagou por todos os seus pecados e transgressões? Se a resposta é não, comece a ler a Bíblia. Se você foi criado na igreja, leia o Evangelho de João. Se não foi, leia o Evangelho de Lucas e o livro de Romanos no Novo Testamento.

O amor de Deus é o centro da sua vida? Você está expressando o seu amor pela sua preocupação e cuidado pelos filhos de Deus? Se você não está frequentando uma igreja regularmente, comece neste domingo. Procure uma igreja onde a Bíblia seja exposta e evite aquelas igrejas onde a auto-ajuda, emoções, filosofia ou psicologia são exaltadas. Tenha certeza de buscar em oração a direção do Espírito.

Você está vivendo uma vida santa como o Espírito capacita? Ponha de lado qualquer hábito e prazer mundano que não deixa você buscar a Deus. Evite fazer mal a alguém e procure fazer todo o bem que puder. Se a sua resposta for “sim” a todas essas perguntas, então vá a Deus em oração e peça a Ele para sondar o seu coração e testar você. Peça a Ele para revelar se há algum caminho mal em você mesmo e guiar você pelo caminho da vida eterna (Sl 139.23-24).

Se você diligentemente buscar, o Espírito revelará o que você precisa. Como John Wesley ensinou, a certeza da salvação é o privilégio do crente. Todo crente deveria tê-la, mas ninguém pode dá-la. Busque o reino de Deus e a Sua justiça e achará graça.

Tradução: Thiago D. M. Silvino



[1] Nota do Tradutor: Desejo desesperado.

Fonte: Arminianismo.com

 

O Paradigma das Vontades Antecedente/Consequente

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Artigos Kenneth Keathley


 

(Salvation and Sovereignty, pp. 58-62)

Por toda a história da igreja, tanto as igrejas orientais quanto ocidentais ensinaram que Deus deseja a salvação de todos, embora requeira a resposta de fé da parte do ouvinte.[1] Esta abordagem das vontades antecedente/consequente não vê nenhum conflito entre as duas vontades de Deus. Deus antecedentemente deseja que todos sejam salvos. Mas para aqueles que recusam arrepender-se e crer, Ele consequentemente deseja que sejam condenados. Desta forma entende-se que Deus é como um justo juiz que deseja que todos vivam mas que relutantemente ordena a execução de um assassino.[2] Os desejos antecedentes e consequentes são diferentes, mas eles não estão em conflito.

A posição das vontades antecedente/consequente parece ser o claro ensino da Escritura. Deus antecedentemente “amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito”, e consequentemente “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Cristo antecedentemente ordena que o Evangelho seja pregado “a toda criatura”, mas Ele consequentemente decreta que “quem não crer será condenado”. O paradigma das vontades antecedente/consequente combina muito bem com a Grande Comissão.

Oden lista quatro características da vontade antecedente de Deus.[3] A primeira é que ela é universal. A salvação é desejada para todos, proporcionada para todos e oferecida a todos. Esta atitude onibenevolente incondicional é verdadeiramente antecedente no sentido que ela é dirigida a toda a humanidade antes de sua aceitação ou rejeição. Segunda, a vontade antecedente é imparcial. Cristo morreu pelos pecados do mundo todo. O amor universal logicamente exige a expiação ilimitada. Terceira, a vontade de Deus de salvar a todos é sincera. Não há nenhuma vontade oculta, nenhum decreto secreto da reprovação. E quarta, a vontade antecedente é uma vontade ordenada. É impossível o desejo de Deus permanecer impotente ou irrealizado. A vontade antecedente de salvar a todos é a base de Suas ações para proporcionar os meios da graça aos pecadores através de Cristo.

A vontade consequente de Deus possui três componentes.[4] Primeiro, é consistente com as qualidades com que Ele dotou Suas criaturas. Os humanos estão caídos, mas eles ainda são à imagem de Deus. A graça de Deus não é coerciva e pode ser recusada. Quando o ouvinte encontra o evangelho, ele é graciosamente capacitado pelo Espírito para responder livremente. A decisão do ouvinte de aceitar ou rejeitar o evangelho é genuinamente, e assustadoramente, sua. Sem dúvida, por que alguns rejeitam o evangelho é um mistério. Mas no paradigma antecedente/consequente, o mistério da iniquidade reside no homem e não em Deus.

O segundo aspecto da vontade consequente de Deus segue do primeiro. Se Deus deseja que a salvação seja consequente a nossa escolha, então esta vontade é condicional. Terceiro, a vontade consequente é justa. A concessão de Deus da salvação àqueles que creem é perfeitamente consistente com Sua natureza santa por causa da obra propiciatória de Cristo (Rm 3.21-26). A condenação de todos que não creem concorda inteiramente com Sua justiça. A vontade antecedente de Deus é perfeitamente graciosa; Sua vontade consequente é perfeitamente justa.

Geralmente, os teólogos reformados consideram a abordagem das vontades antecedente/consequente inaceitável. Eles fazem várias objeções dentre as quais três se sobressaem. A primeira é que o paradigma das vontades antecedente/consequente parece tornar a decisão de Deus contingente à escolha do homem. Eles afirmam que esta abordagem sutilmente coloca o homem no trono de Deus. Berkouwer argumenta que uma salvação que depende de uma decisão do homem torna Deus “impotente” e “expectante”.[5] Robert Shank responde que Deus pode estar esperando mas Ele não é impotente.[6] De fato, a imagem de Deus esperando é um tema rico encontrado em toda a Bíblia (Is 1.18-20, por exemplo). A abordagem das vontades antecedente/consequente entende que Deus é o soberano Iniciador e gracioso Completador da redenção. Se o homem deve escolher entre o céu e o inferno, é porque o Senhor da Criação colocou esta escolha diante dele.

A segunda objeção à abordagem das vontades antecedente/consequente é que ela parece sugerir a noção de mérito. Se todos os ouvintes são igualmente capacitados pela graça para receber o evangelho, e uma pessoa aceita a mensagem enquanto outro a rejeita, então isto não significa que de algum modo a primeira pessoa é mais virtuosa do que a segunda?[7] Esta é uma objeção difícil, mas dois pontos devem ser tidos em mente. Primeiro, esta objeção parece ver a fé como uma espécie de obra, enquanto a Bíblia consistentemente contrasta a fé com as obras (Rm 3.21-4.8). A fé, por sua própria natureza, é o oposto das obras porque é uma admissão de uma completa falta de mérito ou capacidade. O mendigo não adquire mérito quando abre suas mãos para receber um dom gratuito.[8] Segundo, o mistério não é porque alguns creem, mas porque todos não creem. Isto novamente aponta para o mistério do pecado. Não há mérito em aceitar o evangelho, mas há culpa em rejeitá-lo. Esta questão merece mais atenção, o que explica porque ela é o foco do capítulo sobre a graça superadora (cap. 4). Creio que o modelo apresentado nesse capítulo – que a graça de Deus é tanto monergística quanto resistível – é suficiente para responder esta objeção.

Uma terceira objeção feita por teólogos reformados é que o paradigma das vontades antecedente/consequente dá “lugar de destaque” ao livre-arbítrio humano sobre a glória de Deus.[9] John Piper argumenta que a visão secreta/revelada e a visão antecedente/consequente são basicamente as mesmas exceto por uma diferença importante.[10] Ambas as visões afirmam que Deus genuinamente deseja a salvação de todos, ambas as visões sustentam que este desejo é suplantado por um desejo ainda maior, mas as duas visões discordam sobre o que esse desejo maior é. Piper afirma que a posição secreta/revelada vê que o desejo maior é o desejo de Deus de glorificar a Si mesmo, enquanto a posição antecedente/consequente o desejo maior é Sua dádiva da auto-determinação aos humanos. Piper conclui que o paradigma secreto/revelado faz maior justiça à glória de Deus.

Entretanto, em sua resposta a Piper, Walls e Dongell enfatizam que os proponentes da posição das vontades antecedente/consequente não afirmam um poder humano graciosamente capacitado de auto-determinação por causa dele mesmo. Antes, a preocupação é retratar fielmente o caráter de Deus. Deus considera o incrédulo responsável porque o pecado da incredulidade verdadeiramente pertence ao incrédulo. Os condenados por Deus são justamente condenados porque receber Cristo era uma escolha genuinamente disponível. Aderir à escolha humana genuína não é um fim em si mesmo; sustentar a integridade do caráter de Deus é. Antes que deixar de engrandecer a glória de Deus, a posição das vontades antecedente/consequente glorifica a Deus mantendo que Seu procedimento é justo é consistente com Sua natureza santa.[11] Se a melhor forma dos humanos trazerem glória a Deus for escolhê-lo livremente, então a visão das vontades antecedente/consequente cumpre melhor este objetivo. Novamente, daremos mais atenção a esta questão no capítulo sobre a graça superadora.

De maneira interessante, Piper usa a analogia do justo juiz para fazer seu caso em favor do cenário das vontades secreta/revelada.[12] Ele dá o exemplo específico de quando George Washington enfrentou o difícil dilema de ter um de seus oficiais favoritos culpado de um crime capital. Apesar de sua afeição pelo jovem rapaz, Washington deu a ordem para a sua execução. A ilustração de Piper, na verdade, é um exemplo do paradigma das vontades antecedente/consequente, porque de acordo com o modelo das vontades secreta/revelada, Washington secretamente deseja o crime do oficial e inclina a vontade do jovem para executar o ato.

Tradução: Paulo Cesar Antunes


 


[1] T. Oden, The Transforming Power of Grace (Nashville: Abingdon, 1993), 112. Oden afirma que a Igeja chegou a este consenso acerca das duas vontades de Deus através de uma série de concílios: Éfeso (431), Arles (475), Orange (529) e Quiersy (853). Jewett, calvinista, admite que somente a tradição reformada rejeita o paradigma das vontades antecedente/consequente. Veja Jewett, Election and Predestination, 98.

[2] João de Damasco parece ser o primeiro a usar a analogia do justo juiz para explicar a congruência das duas vontades de Deus. Veja Oden, The Transforming Power of Grace, 83, e Jewett, Election and Predestination, 98.

[3] Oden, The Transforming Power of Grace, 83-86.

[4] Ibid., 87-89.

[5] G. C. Berkouwer, Divine Election (Grand Rapids: Eerdmans, 1960), 229.

[6] Shank, Elect in the Son, 129.

[7] Veja T. L. Tiessen, Who Can Be Saved? Reasessing Salvation in Christ and World Religions (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2004), 238-39; e T. R. Schreiner e A. B. Caneday, The Race Set Before Us: A Biblical Theology of Perseverance and Assurance (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2001), 318.

[8] Geisler aponta que a fé pode ser vista como uma obra somente por meio de um equívoco da palavra “fazer”. “Fé é algo que ‘fazemos’ no sentido de que envolve um ato de nossa vontade sugerido pela graça de Deus. Contudo, a fé não é alguma coisa que ‘fazemos’ no sentido de uma obra meritória necessária para Deus nos dar a salvação”. Veja N. Geisler, Eleitos Mas Livres: Uma Perspectiva Equilibrada entre a Eleição Divina e o Livre-Arbítrio, 1ª. Edição (São Paulo: Editora vida, 2001), 218.

[9] D. Westblade, “Divine Election in the Pauline Literature”, em Schreiner e Ware, The Grace of God, the Bondage of the Will, 69-70.

[10] Piper, “Are There Two Wills in God?”, 123-24.

[11] Walls e Dongell, Why I Am Not a Calvinist, 8.

[12] Piper, “Are There Two Wills in God?”, 128.

Fonte: Arminianismo.com

2ª Pedro 3: 9 – Artigo –

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Artigos – Paulo Cesar Antunes

2Pe 3.9

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.

R. K. McGregor Wright está correto quando diz que “a questão a ser resolvida em 2Pe 3.9 é a quem o ‘nenhum’ se refere.”[1] Os arminianos entendem que este versículo ensina que Deus deseja a salvação de todo ser humano. Deus não quer que alguns da raça humana se percam, senão que todos venham a arrepender-se.

Wesley comenta sobre este versículo:

Não retarda o Senhor – Como se o tempo fixado para ela tivesse passado, a sua promessa – Que certamente será cumprida no tempo certo; pelo contrário, ele é longânimo para convosco – Filhos dos homens, não querendo que nenhum – Nenhuma alma que ele criou, pereça. [2]

Para tal conclusão os arminianos apóiam-se em outros versículos das Escrituras, como Ez 33.11, que diz que Deus não tem “prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva”, e 1Tm 2.4, que nos revela que Deus “quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade”. Deus sinceramente deseja a salvação de cada ser humano, ainda que alguns venham a perder-se.

Os arminianos e a maioria dos calvinistas descartam a possibilidade de Pedro estar falando dos crentes em geral, e por uma boa razão. Segundo esta hipótese, o versículo estaria dizendo que Deus não quer que alguns dos crentes se percam, senão que todos os crentes venham a arrepender-se. Seria uma insensatez a afirmação de que Deus quer que todos os crentes venham a arrepender-se. Eles já se arrependeram. Não resolve dizer que Pedro está falando do arrependimento diário dos crentes, pois as pessoas aqui em vista correm o risco de perderem-se para sempre e a longanimidade de Deus tem como finalidade a sua salvação (“Tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor,” 2Pe 3.15).

A interpretação arminiana, no entanto, não tem sido bem recebida pelos calvinistas:

Ora, alegar que o Senhor… Quer que todos os homens se arrependam, é uma tolice, sem dúvida alguma![3]

O texto diz mais do que simplesmente que Deus não quer que ninguém pereça. A cláusula inteira é importante: “pelo contrário, ele é longânime para convosco, não querendo que nenhum pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento.”

Qual é o antecedente de nenhum? Somos claramente nós. Será que “nós” se refere a todos nós humanos? Ou se refere a nós cristãos, o povo de Deus? Pedro gosta de falar dos eleitos como um grupo especial de pessoas. Eu acho que o que ele está dizendo aqui é que Deus não quer que nenhum de nós (os eleitos) pereça. [4]

Ainda, os calvinistas chamam a atenção para o fato de que Pedro está escrevendo, como fez em sua primeira carta (2Pe 3.1), aos “eleitos segundo a presciência de Deus Pai” (1Pe 1.1).[5] Nessa interpretação, portanto, Pedro estaria dizendo que Deus não quer que alguns dos eleitos se percam, senão que todos os eleitos venham a arrepender-se.

Essa interpretação, no entanto, não se sustenta pela seguinte razão: Pedro não está escrevendo sua carta aos eleitos como tais, de forma que qualquer um que porventura venha alcançar “fé igualmente preciosa” (2Pe 1.1) se sinta destinatário da carta. Ele escreveu, não a uma classe abstrata, mas a um grupo definido de pessoas, “aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1Pe 1.1), a quem ele freqüentemente chamava de “amados” (1Pe 2.10; 4.12; 2Pe 3.1, 8, 14, 17). É evidente, portanto, que Pedro não inclui em sua carta os eleitos ainda incrédulos, mas somente aqueles que verdadeiramente se converteram.

John Murray, embora calvinista, também rejeita esta opinião:

Não cremos que a restrição da referência aos eleitos é bem estabelecida. A epístola não faz esta restrição. [6]

Gordon H. Clark ainda oferece uma segunda objeção à hipótese de que Deus deseja a salvação de todos:

Pedro nos conta que o retorno de Cristo aguarda o arrependimento de certas pessoas. Agora, se o retorno de Cristo esperasse o arrependimento de cada indivíduo sem exceção, Cristo nunca retornaria. [7]

Clark, como pode ser visto, não acredita que Cristo possa aguardar o arrependimento de pessoas que nunca se arrependerão. Não obstante, as Escrituras afirmam exatamente o oposto:

Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição? (Rm 9.22).

Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus (Rm 2.4, 5).

Certamente os calvinistas não irão afirmar que as pessoas aqui em vista, com quem Deus está sendo longânimo, são os eleitos. E é notável ainda que, tanto em Rm 9.22 como em Rm 2.4, a palavra longanimidade é a tradução do grego makrothumia, enquanto que em 2Pe 3.9 a palavra longânimo traduz o grego makrothumeō. Portanto, a afirmação de alguns calvinistas de que seria uma tolice imaginar que Deus deseja a salvação daqueles que perecem é simplesmente insustentável à luz de outros versículos.

Uma prova adicional da longanimidade de Deus com os reprovados pode ser vista na própria carta de Pedro:

Os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade (gr. makrothumia) de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água (1Pe 3.20).

Seguindo o raciocínio de Clark, quando diz que “se o retorno de Cristo esperasse o arrependimento de cada indivíduo sem exceção, Cristo nunca retornaria,” poderíamos chegar à estúpida conclusão que, se Deus esperasse o arrependimento dos contemporâneos de Noé, o dilúvio nunca aconteceria. Como as Escrituras tanto afirmam que Deus esperou o seu arrependimento como que o dilúvio aconteceu, há algo de errado com a objeção de Clark. E como ela pode ser usada para afirmar a impossibilidade de algo que já aconteceu, ela não prova nada.

Podemos seguramente dizer que em 2Pe 3.9 a imagem do dilúvio ainda estava na mente do apóstolo, considerando que poucas linhas antes ele fala desse acontecimento (2Pe 2.5). Da mesma forma que Noé proclamou a vinda do dilúvio, os crentes hoje proclamam o retorno de Cristo (2Pe 3.9). Da mesma forma que zombaram de Noé acerca da demora do dilúvio, “nos últimos dias virão escarnecedores” perguntando “onde está a promessa da sua vinda?” (2Pe 3.3, 4). E não poderíamos justamente concluir que, da mesma forma que Deus foi longânimo com os contemporâneos de Noé, que pereceram no dilúvio (1Pe 3.20), Ele não estaria sendo longânimo com todos os seres humanos, mesmo aqueles que irão perecer, até o dia do retorno de Cristo (2Pe 3.9)? Havendo tantos paralelos entre o dilúvio e o retorno de Cristo, nossa interpretação não é apenas plausível, ela é tanto provável como muito bem fundamentada. Sobre isto o calvinista Millard J. Erickson reconhece:

A paciência de Deus não se limitou a seu relacionamento com Israel. Pedro chega a afirmar (1Pe 3.20) que o dilúvio foi retardado o quanto possível para dar oportunidade de salvação para os que, por fim, foram destruídos. Ao falar do dia vindouro de grande destruição, Pedro também afirma que a segunda vinda custa a chegar por causa da clemência de Deus. Ele não deseja “que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9). [8]

Que Deus quer que todos os seres humanos sejam salvos é algo tão evidente em 2Pe 3.9 que Berkhof, conforme observado por Picirilli, [9] acaba sendo traído pelo versículo. Primeiramente ele diz:

As passagens de 1Tm 2.4-6; Hb 2.9; 2Pe 3.9 referem-se à vontade revelada de Deus de que judeus e gentios seriam salvos, mas nada implicam quanto à intenção universal da expiação. Mesmo Moisés Stuart, que crê na expiação universal, admite que, nestes casos, a palavra “todos” não pode ser entendida no sentido universal. [10]

Aqui ele diz que “todos” em 2Pe 3.9 deve ser entendido como “judeus e gentios,” ainda que o contexto não diga absolutamente nada sobre isto. Ele não admite que a passagem esteja falando de todos os homens sem exceção, mas, mais especificamente, dos eleitos entre judeus e gentios. Mas mais adiante em sua Teologia Sistemática, ele diz:

Ele não dá logo fim à vida do pecador, mas lhe dá oportunidade para arrepender-se, tirando com isso qualquer motivo para desculpa e justificando a vindoura manifestação da Sua ira sobre os que persistirem no pecado até o fim. Que Deus age com base neste princípio evidencia-se amplamente em passagens como Is 48.9; Jr 7.23-25; Lc 13.6-9; Rm 2.4; 9.22; 2Pe 3.9.[11]

Contradizendo o que disse anteriormente, Berkhof agora diz que 2Pe 3.9 deve ser entendido como incluindo até mesmo aqueles que “persistirem no pecado até o fim.”

Calvino chega a dizer que “o Senhor adia a sua vinda para que ele possa convidar toda a humanidade ao arrependimento” e que “tão maravilhoso é seu amor pela humanidade que ele quer que todos sejam salvos, e de sua parte está preparado para conceder salvação aos perdidos” para então tornar tudo sem sentido:

Pode-se perguntar aqui: se Deus não quer que ninguém pereça, por que tantos, na verdade, perecem? Minha resposta é que não há menção aqui sobre o decreto secreto de Deus pelo qual os ímpios são condenados à ruína, sendo revelada somente sua misericórdia por meio do evangelho. Aí Deus estende sua mão a todos, mas só segura (de forma a conduzi-los para si) aqueles que ele escolheu antes da fundação do mundo. [12]

Em outras palavras, Calvino está nos dizendo que a vontade revelada de Deus é que todos sejam salvos, mas que, em oposição a esta, há uma vontade secreta, que é que muitos sejam condenados. Mas, como observa Philip Schaff, “uma contradição entre intenção e expressão é fatal à veracidade, que é a fundação da moralidade humana, e deve ser um atributo essencial da Divindade. Um homem que diz o inverso do que pretende é chamado, em linguagem clara, de hipócrita e mentiroso.”[13]

Insatisfeito com a interpretação da grande maioria de seus colegas calvinistas, Anthony Hoekema interpreta corretamente o versículo:

A “demora” alegada é, na verdade, uma evidência da graça divina. O Senhor deseja dar aos seres humanos vivos nesta terra plena oportunidade para arrependimento e salvação; por isso ele ainda não voltou.

Observe particularmente as palavras “não querendo que nenhum pereça.” Alguém poderia ler essas palavras e conceber o seguinte entendimento: “não querendo que nenhum dos eleitos pereça.” Mas isso não é o que Pedro diz; introduzir esse pensamento é contrabandear para dentro do texto algo que não está aí. A forma negativa da declaração não deixa espaço para a possibilidade da exclusão de ninguém: o Senhor não deseja que qualquer pessoa pereça. Segundo essa passagem, é claro o desejo do Senhor de que todos os que ouvem o evangelho se arrependam e se salvem. [14]

Embora fiel ao texto bíblico, Hoekema entra em contradição com o seu Calvinismo. Pois o que significa dizer que Deus deseja a salvação de todos diante da afirmação que Deus escolheu incondicionalmente apenas alguns? Que desejo divino de salvação universal seria este que fica somente na intenção e não se revela na prática, sendo que Deus nega àqueles que quer que sejam salvos aquela graça que unicamente pode levá-los à salvação? Como Deus deseja verdadeiramente a salvação de cada ser humano se restringe a extensão da expiação de Cristo a apenas um grupo de pessoas?

Mas a questão é que, mesmo se fosse possível provar que Pedro restringe a longanimidade de Deus a um grupo de pessoas apenas, o versículo não poderia ser usado contra a afirmação de que Deus é longânimo com todos, tanto porque, como já foi mostrado, há outras passagens que admitem a idéia, quanto porque não se pode negá-la a partir do silêncio do apóstolo. Não é porque se afirma que Deus é longânimo com os que irão finalmente se salvar que Ele não é longânimo com aqueles que irão finalmente se perder.


 


 

[1] R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida, (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 1998), p. 185.

[2] John Wesley, Explanatory Notes upon the New Testament, (New York: Eaton & Mains), p. 626.

[3] John Owen, Por Quem Cristo Morreu, (São Paulo: Editora PES, 1996), p. 84.

[4] R. C. Sproul, Eleitos de Deus, (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2002), p. 146

[5] R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida, (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 1998), p. 185.

[6] John Murray, The Free Offer of the Gospel.

[7] Gordon H. Clark, I & II Peter (New Jersey: Presbyterian & Reformed, 1980), 2:71.

[8] Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, (São Paulo – SP: Edições Vida Nova, 2002) p. 125.

[9] Robert E. Picirilli, Grace Faith Free Will, (Nashville – Tennessee: Randall House, 2002), pp. 109 110.

[10] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, (Campinas – SP: Luz para o Caminho Publicações, 1994), p. 398.

[11] Ibid., p. 443.

[12] João Calvino, citado em Anthony Hoekema, Salvos pela Graça, 2ª edição revisada (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2002) p. 82.

[13] Philip Schaff, History of the Christian Church, Vol. 7, Capítulo XIV, § 114.

[14] Anthony Hoekema, Salvos pela Graça, 2ª edição revisada (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2002) p. 82.

Fonte: Arminianismo.com

Como Será que os Calvinistas Explicam 2Pe 3.9?[1]

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Artigos Jack Cottrell

 


PERGUNTA: Os calvinistas acreditam na Depravação Total de todos os seres humanos, o que significa que ninguém é capaz de responder ao evangelho com fé e arrependimento. Isto requer a crença na Eleição Incondicional, o que significa que Deus escolhe unilateralmente salvar alguns pecadores e não outros. Ele faz isso outorgando aos escolhidos o seu dom irresistível da graça, sob a forma de regeneração, fé, arrependimento e justificação – tudo isso, simultaneamente. Ele PODERIA fazer a mesma coisa para todo pecador, mas simplesmente optou por não fazê-lo. Minha pergunta é a seguinte: levando em conta este cenário, como será que o calvinista interpreta 2Pe 3.9, que declara que Deus “não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (NVI)? Mas se ele PODE salvar todas as pessoas, mas simplesmente escolhe não fazê-lo, isso soa como se ele não desejasse salvar a todos. Isto não é uma contradição de 2Pe 3.9?

RESPOSTA: Sim, certamente SOA como uma contradição, mas o calvinista tem uma explicação para isso. A explicação básica é esta: Deus tem DUAS vontades, uma que é escondida, secreta ou misteriosa, e uma que é revelada a todos. Em muitos casos, a vontade secreta de Deus determina que algo vai acontecer que é contrário à sua vontade revelada.

A vontade secreta de Deus é chamada de sua vontade decretiva porque é equivalente ao seu decreto eterno, pelo qual na eternidade passada ele preordenou e predeterminou cada coisa que irá realmente acontecer. Este decreto eterno ou vontade decretiva é abrangente (universal, todo-inclusivo), eficaz (causal, determinativo) e incondicional (não é influenciado por nada além dele mesmo). O calvinista J. G. Howard resumiu: “A Escritura nos ensina que Deus tem um plano predeterminado para cada vida. É ele que IRÁ ACONTECER. É inevitável, incondicional, imutável, irresistível, abrangente e proposital. É, também, na sua maior parte, imprevisível. Ele inclui tudo – até mesmo o pecado e o sofrimento. Envolve tudo – até mesmo a responsabilidade e as decisões humanas”. [2] Gary Friesen diz que esta é a vontade soberana e exaustiva de Deus, pela qual “Ele é o Determinador Último de tudo o que acontece”. [3]

O que isto significa é que no nível desta vontade secreta ou decretiva, aqueles que perecem no inferno, perecem porque (neste nível) Deus QUER ou DESEJA que eles se percam. Mas, ao mesmo tempo, no nível de sua vontade revelada (como em 2Pe 3.9 e 1Tm 2.4), Deus declara que Ele “QUER que todos os homens sejam salvos” e “que todos cheguem ao arrependimento”, enquanto “NÃO quer que ninguém pereça”. De fato, deve ser reconhecido que Deus estende a OFERTA de salvação a todos: “E quem quiser, tome de graça da água da vida” (Ap 22.17); e “quem nele crer não pereça” (Jo 3.16). Mas diante da vontade secreta e decretiva de Deus, que obviamente é seletiva quando se trata de salvação, até mesmo muitos calvinistas têm dificuldade com esta “oferta livre do Evangelho”. Assim, eles devem apelar para os DOIS níveis ou tipos da vontade de Deus.

Dois dos meus professores do Seminário Teológico de Westminster, John Murray e Ned Stonehouse, escreveram um pequeno livro chamado “A Oferta Livre do Evangelho”, tentando explicar a aparente hipocrisia em oferecer livremente o Evangelho a todos os homens, enquanto se sabe que Deus predeterminou que alguns não vão e não podem responder a Ele. Eles dizem: “Parece que o verdadeiro ponto em disputa em relação à livre oferta do Evangelho é saber se pode propriamente ser dito que Deus DESEJA a salvação de todos os homens”. Citando um documento calvinista que afirma tal desejo, os autores explicam que “ao afirmar tal ‘desejo’ de Deus”, o documento estava lidando “com a vontade revelada de Deus, não com a sua vontade secreta ou decretiva”. [4]

Murray e Stonehouse admitem que há textos bíblicos que expressam “a vontade de Deus na questão da chamada, convite, apelo e mandamento do Evangelho, a saber, a vontade que todos devem voltar-se para ele e ser salvos. O que Deus quer, nesse sentido, certamente Ele se apraz em querer. Se é seu prazer querer que todos se arrependam e sejam salvos, é certamente seu prazer que todos se arrependam e sejam salvos. Obviamente, no entanto, não é sua vontade decretiva que todos se arrependam e sejam salvos. Enquanto, por um lado, ele não tem desejado decretivamente que todos sejam salvos, no entanto ele declara claramente que esta é sua vontade e, implicitamente, o seu prazer que todos se voltem pra ele e sejam salvos. Estamos novamente sendo confrontados com o mistério e a riqueza adorável da vontade divina. Pode parecer-nos que uma exclui a outra. Mas não é assim. Há uma multiformidade na vontade divina que está em consonância com a plenitude e riqueza do seu caráter divino, e não é de admirar que sejamos obrigados a nos curvar em humilde porém exultante admiração diante de sua inefável grandeza e juízos insondáveis. Negar a realidade do prazer divino em relação ao arrependimento e salvação de todos é deixar de aceitar o testemunho que nasce de tais textos que contemplam a multiplicidade da vontade de Deus e as riquezas da sua graça”.[5]

Os autores concluem assim: “Descobrimos que o próprio Deus exprime um desejo ardente pelo cumprimento de certas coisas que ele não decretou acontecer em seu conselho inescrutável. Isto significa que existe uma vontade pela realização daquilo que ele não desejou decretivamente, um prazer em direção àquilo que não foi do seu agrado decretar. Isto é realmente misterioso, e por que ele não trouxe à existência, no exercício do seu poder e graça onipotentes, o que é seu prazer ardente jaz escondido no conselho de sua vontade soberana. Não devemos nutrir, no entanto, qualquer preconceito contra a noção de que Deus deseja ou tem prazer na realização daquilo que ele não desejou decretivamente”. [6]

Como vamos avaliar essa tentativa de explicar a inconsistência entre a chamada vontade decretiva de Deus e sua vontade revelada? Nós certamente podemos aceitar a ideia de “mistério” e “multiformidade” na vontade de Deus. O que nos pedem que aceitemos, no entanto, vai muito além do mistério e da multiplicidade. Nesta explicação calvinista estamos lidando, de forma plena e simplesmente, com contradição. Uma lei básica da lógica (e a lógica se fundamenta sobre e é derivada da natureza do próprio Deus) é a lei da não-contradição. Esta lei diz que nenhuma declaração pode ser tanto verdadeira quanto não-verdadeira, no mesmo sentido, ao mesmo tempo. Mas o calvinista diz que É a vontade de Deus que todos os perdidos sejam salvos, e NÃO É a vontade de Deus que todos os perdidos sejam salvos. Atribuir o primeiro desejo a um nível da vontade de Deus e o segundo a outro nível de sua vontade não remove a contradição: é o mesmo Deus em ambos os casos, e o desejo é sincero em ambos os casos. O mesmo Deus decreta que coisas aconteçam que ele não deseja que aconteçam, coisas que são o oposto do que ele deseja.

O problema aqui é que se Deus é livre para transcender as leis da lógica (ou seja, ir contra sua própria natureza) nesta área específica, como podemos confiar em qualquer outra coisa que ele diz? O que resta de Tt 1.2, que diz que Deus “não pode mentir” (NASB)[7]? Ou da declaração de Paulo em Rm 3.4, “Sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e prevaleças quando fores julgado” (NASB)?

Tradução: Cloves Rocha dos Santos



[1] Nota do tradutor: Este artigo foi publicado por Jack Cottrell no dia 3 de abril de 2010, na sua página do Facebook, na aba NOTES (NOTAS), onde ele, de forma fraterna, responde a várias perguntas relacionadas à vida cristã e também às dificuldades bíblicas por parte daqueles que visitam a sua página e se interessam pela sua opinião nos assuntos abordados.

[2] J. G. Howard, Knowing God’s Will (Conhecendo a Vontade de Deus), página 12.

[3] Gary Friesen, Decision Making and the Will of God (Tomar Decisões e a Vontade de Deus), página 202.

[4] John Murray e Ned Stonehouse, The Free Offer of the Gospel (A Oferta Livre do Evangelho), página 3.

[5] Idem, páginas 20-21.

[6] Idem, página 26.

[7] New American Standard Bible (Nova Bíblia Americana Padrão).

Fonte: Arminianismo.com

Calvinismo, Arminianismo e a Teologia da Salvação

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Artigos Robert E. Picirilli

_______________________ A Extensão da Expiação

Introdução

Existem variedades tanto dentro do Calvinismo como do Arminianismo. O Arminianismo que eu tenho apresentado em Grace, Faith, Free Will[1] (Graça, Fé, Livre-Arbítrio) é o que eu chamo de “Arminianismo da Reforma”, que significa as opiniões do próprio Armínio e dos seus primeiros partidários (os “remonstrantes”). A teologia de Armínio foi claramente um produto da Reforma e manifestou a insistência da Reforma na salvação pela graça somente, pela fé somente, por Cristo somente. O capítulo de abertura do meu livro traça o percurso histórico de desentendimentos de Armínio com o Calvinismo de sua época. O restante do livro é dividido em quatro partes: (1) Predestinação e Eleição; (2) Expiação; (3) Salvação pela Fé e (4) Perseverança. Em cada parte existem três capítulos; os dois primeiros capítulos fornecem um tratamento de “teologia sistemática” do assunto, tanto do Calvinismo como do Arminianismo, respectivamente, e o terceiro capítulo apresenta a “teologia bíblica” em apoio ao Arminianismo da Reforma. Nesta palestra vou lidar com parte do que é tratado na Segunda Parte do livro: a teologia da expiação, e especialmente a extensão da expiação. A pergunta é: Por quem Cristo morreu? Somente pelos eleitos ou por todos? A Natureza da Expiação Antes de abordar o assunto, devo referir-me brevemente à natureza da expiação. Como a maioria dos calvinistas, os arminianos reformados creem na “visão da satisfação penal” da expiação. Esta é uma expiação verdadeiramente “vicária” – substitutiva. Jesus verdadeiramente sofreu na cruz a penalidade pelos nossos pecados. Ele suportou a ira de Deus em nosso lugar. 2Co 5.21 diz, “Ele o fez pecado por nós”. Ele foi punido na cruz pelos nossos pecados, embora ele não tenha cometido nenhum pecado. Digo isto porque existe uma corrente histórica do Arminianismo que ensina, na verdade, o que é chamado de “visão governamental” da expiação, desenvolvida por um dos seguidores posteriores de Armínio chamado Hugo Grotius. Grotius dizia que Jesus morreu para sustentar o governo justo de Deus do mundo. Nesta perspectiva, a expiação é um testemunho de que o pecado exige perdão, não punição; Jesus morreu pelos nossos pecados, mas não para suportar a pena dos nossos pecados. Eu recomendo um capítulo no livro do Sr. Forlines, The Quest for Truth[2] (A Busca pela Verdade), sobre este assunto. Razões para Crer na Expiação Universal O Arminianismo insiste que Jesus morreu por cada pessoa na história do mundo: que Deus tanto amou o mundo, e não apenas os eleitos, que deu o seu único Filho pelos pecados do mundo. Isso às vezes é chamado de expiação ilimitada, expiação universal ou expiação geral. (Os batistas calvinistas costumavam ser chamados de “batistas particulares”, enquanto todos os batistas arminianos costumavam ser chamados de “batistas gerais”.) 1. A expiação universal se encaixa nas declarações bíblicas de que Deus quer a salvação de todos, especialmente 2Pe 3.9 e 1Tm 2.4. Seria estranho, na verdade, se Deus realmente quisesse ou desejasse a salvação de todos, mas enviasse o seu Filho para morrer somente pelos eleitos! Faz muito mais sentido que Deus tenha providenciado uma oportunidade para todos, visto que Ele deseja a salvação de todos. 2. A expiação universal é logicamente exigida pelas passagens que fazem referência à condenação de pessoas por quem Cristo morreu, especialmente 1Co 8.11 e Rm 14.15. Esses dois textos lidam com o mesmo problema: por um comportamento descuidado pode-se ameaçar o bem-estar espiritual de um irmão ou irmã em Cristo. E isso aumenta o perigo de que alguém por quem Jesus morreu possa finalmente perecer. Nesse caso, é claro que ele não morreu apenas pelos eleitos. A propósito, isto está relacionado com a teologia da apostasia. Se uma pessoa regenerada realmente pode apostatar e se perder, então alguém por quem Cristo morreu pode perder-se. Se Jesus não morreu pelo apóstata, ele nunca poderia ter sido salvo em primeiro lugar! 3. A expiação universal se encaixa no fato que a Bíblia oferece salvação a todos e nos obriga a pregar o evangelho a todos. Que a Bíblia apresenta a oferta como universal é evidente em todas as passagens que dizem “quem quiser”, como Ap 22.17 e Jo 3.14, 15; compare Jo 12.32: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim”. Que a Bíblia nos ordena a pregar o evangelho – apresentar esta oferta – a todos é igualmente claro em passagens como Mc 16.15. Rm 1.14-16 mostra que Paulo plenamente percebia isto como sua obrigação, visto que “o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”. Os calvinistas não negam que a Bíblia oferece a salvação a todos e que somos responsáveis por pregar a oferta do evangelho a todos. Porém, eu acho que eles não conseguem ser logicamente consistentes aqui: a salvação não pode ser verdadeiramente oferecida a alguém por quem Cristo não morreu. Suponha que eu diga a uma criança paralítica, “Se você apenas estender a sua mão para pegar, darei este doce a você”. Isso me soa mais como zombaria do que uma “oferta”! 4. A expiação universal se encaixa melhor no fato que os incrédulos são culpados, na Bíblia, não apenas por seus pecados mas pela sua rejeição de Cristo e da salvação oferecida nele pelo evangelho. Considere Jo 3.18 ou 1Jo 5.10, 11, como exemplos. Nesta última referência, o ponto é que aquele que não crê, rejeitou, na verdade, o testemunho do próprio Deus, tornando-o um mentiroso. E qual é esse testemunho? Que ele nos deu a vida eterna em seu Filho. Mas se Jesus não morreu por aqueles que finalmente não creem nele, então Deus não deu testemunho de que ele proporcionou a vida eterna a eles e eles não rejeitaram o testemunho de Deus! A Bíblia claramente culpa os pecadores por rejeitar o evangelho. Isso deve significar que a oferta é genuína, que Jesus realmente morreu por eles. 5. A expiação universal explica melhor aquelas escrituras que falam da provisão de Deus como correspondendo às necessidades humanas. A melhor passagem aqui é Rm 3.22-25, onde Paulo fala da justiça que está disponível, pela fé em Jesus Cristo, a todos e sobre todos os que creem. Ele corrobora esta afirmação com rigorosa lógica dizendo: – Porque não existe diferença – Porque todos pecaram e estão afastados da glória de Deus – Sendo justificados gratuitamente pela sua graça através da redenção que está em Cristo Jesus. A frase “sendo justificados gratuitamente pela sua graça através da redenção que está em Cristo Jesus” modifica o mesmo “todos” que Paulo diz “todos pecaram”. Todos pecaram; todos têm acesso à justificação com base na obra redentora de Cristo. A provisão corresponde à necessidade. 6. Finalmente (no livro eu cito nove argumentos), a Bíblia claramente ensina que Jesus morreu por todos e não apenas por um número escolhido. Considere 1Jo 2.2; 1Tm 2.6; Hb 2.9; Jo 3.16-18, 2Co 5.14, 19; Rm 5.18, Tt 2.11. Como o Dr. Vernon Grounds ironicamente disse: “É preciso talento exegético… para esvaziar estes versículos de seu significado óbvio”. Argumentos Calvinistas Você precisa conhecer algumas coisas que os calvinistas dizem em oposição. 1. Os calvinistas apontam para os versículos que dizem que Jesus morreu pelo seu povo ou pela igreja e os interpretam como significando que ele morreu somente pelo povo escolhido de Deus. Estes incluem Mt 1.21; Jo 15.13; Jo 10.15, Ef 5.23-26; At 20.28; Tt 2.14; e outros. Nós cremos em ambos os grupos de versículos: ele morreu por nós e ele morreu por todos. Se ele morreu por todos, isso nos inclui. Considere Gl 2.20: Paulo diz que Jesus “me amou e se entregou por mim”. Obviamente, isso não significa que Jesus não se entregou por ninguém mais. Da mesma forma, os versículos que falam de Jesus morrendo por nós, pela igreja, pelo povo de Deus, não significam que ele não morreu por ninguém mais. 2. Os calvinistas geralmente alegam que “todos” – nas passagens que dizem que Jesus morreu por todos – não significa realmente cada uma ou todas as pessoas na história do mundo. Ao invés disso, elas querem dizer que Deus quer a salvação dos eleitos entre todos os povos, classes e grupos étnicos na sociedade: Deus ama e salva os eleitos, sejam eles judeus ou gentios, de uma nação ou de outra, ricos ou pobres, jovens ou velhos. Eu penso que essas tentativas deixam de lidar de forma séria com esses versículos, e para concluir quero enfatizar 1Jo 2.2. 1Jo 2.2 Este versículo é um bom exemplo da última razão, acima, para a expiação universal: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro”. O que João quer dizer com “mundo”? Ele usa esta palavra 23 vezes nesta breve carta, indicando consistentemente o próprio oposto do povo de Deus. Considere 2.15-17; 3.1, 13; 4.1-5; 5.4, 5, 19. O povo de Deus e “o mundo” são dois povos diferentes, hostis entre si. Certamente João usa “mundo” em 2.2 da mesma maneira e não como uma referência ao restante dos eleitos no mundo. As outras passagens nesta carta onde “nós” ou “nos” se encontra em comparação com “o mundo”, como aqui em 2.2, também torna isso claro. Há quatro dessas passagens: 3.1; 4.5, 6; 5.4, 5 e 5.19: “Nós somos de Deus, e o mundo inteiro jaz no maligno”. Isto estabelece o ponto acima de qualquer argumentação. “Nós” e “o mundo” são dois reinos diferentes. Mas não devemos ter orgulho: Jesus morreu não somente por nós, mas por aqueles que nos odeiam; não somente por nós, mas por aqueles que estão nas garras do maligno. Não somente por nós, mas pelo mundo ímpio que o rejeitou. E é, portanto, nossa responsabilidade dizer a esse mundo que ele morreu por eles.


[1] Nota do Tradutor: Robert E. Picirilli. Grace, Faith, Free Will, Contrasting Views of Salvation: Calvinism and Arminianism (Graça, Fé e Livre-Arbítrio, Contrastando Visões da Salvação: Calvinismo e Arminianismo) (Nashville: Randall House, 2002).

[2] Nota do Tradutor: F. Leroy Forlines. The Quest for Truth: Answering Life’s Inescapable Questions (A Busca pela Verdade: Respondendo as Questões Inevitáveis da Vida) (Nashville: Randall House, 2001).

Fonte: Arminianismo.com

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