Apocalipse 3: 20

1 Comentário

Adam Clarke

 

“Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo,” Ap 3.20

 

Eis que estou à porta, e bato – Há muitas declarações desta espécie entre os antigos rabinos; dessa forma em Shir Hashirim Rabba, fol. 25, 1: “Deus disse aos israelitas, Meus filhos, abri para mim uma porta de arrependimento, ainda que seja do tamanho do buraco de uma agulha, e eu vos abrirei portas pelas quais bezerros e gados cornudos podem passar.”

 

Em Sohar Levit, fol. 8, col. 32, é dito: “Se um homem ocultar seu pecado, e não revelá-lo diante do santo Rei, ainda que implore por misericórdia, todavia a porta do arrependimento não será aberta para ele. Mas se ele revelá-lo diante do santo e bendito Deus, Deus se apiedará dele, e a misericórdia prevalecerá sobre a ira; e quando ele estiver em prantos, ainda que todas as portas estejam fechadas, todavia elas serão abertas para ele, e sua oração será ouvida.”

 

Deus está – aguarda com paciência, à porta do coração do pecador; ele bate – usa julgamentos, misericórdias, repreensões, exortações, etc., para induzir os pecadores a arrependerem-se e virarem-se para ele; ele levanta sua voz – chama em alta voz através de sua palavra, ministros, e o Espírito.

 

Se alguém ouvir a minha voz – Se o pecador seriamente considerar seu estado, e atender à voz de seu Senhor.

 

E abrir a porta – Este deve ser seu próprio ato, recebendo o poder para este propósito de seu ofendido Senhor, que não arrombará a porta; ele não entrará violentamente.

 

Entrarei em sua casa – Eu me manifestarei a ele, curarei todas as suas fraquezas, perdoarei todas as suas iniqüidades, e amá-lo-ei livremente.

 

E com ele cearei – Manterei comunhão com ele, alimentá-lo-ei com o pão da vida.

 

E com ele cearei – Levá-lo-ei finalmente a habitar comigo na glória eterna.

 

Fonte: Adam Clarke’s Commentary on the Bible

Tradução: Paulo Cesar Antunes


Deus criou o mal? Gênese, ocorrência e finalidade do problema.

Deixe um comentário


 Norman L. Geisler

“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” (Is 45.7).

 

Sempre que se debate o assunto do mal, a tendência é apontar um responsável. Aliás, este é um comportamento intrínseco à natureza humana: colocar a culpa em alguém para se inocentar. No versículo que introduz esta matéria vemos claramente que o Senhor reclama ser o criador de todas as coisas, inclusive do mal. Destarte, o próprio texto bíblico já se incumbiu de responder a nossa pergunta. Todavia, a questão é mais complexa do que isso e não pode ser reduzida à objetividade desta resposta. Há considerações que não podem ser desconsideradas nesta resposta. O que podemos entender da afirmação de que Deus criou o mal? O que é o mal? Em quais sentidos Deus seria o responsável pelo mal? Por que Deus não aniquila o mal? Por que Deus criou este mundo?

 

Neste artigo, propomos uma rápida reflexão sobre esta “culpa” que tanto massageia o ego dos céticos, e faremos isto retomando alguns aspectos da matéria “O problema do mal”, escrita por Greg Bahsen e publicada nesta edição de Defesa da Fé como texto de capa.

 

A gênese do mal

 

Deus é bom, e criou criaturas boas com uma qualidade denominada livre-arbítrio. Infelizmente, as criaturas de Deus usaram este poder, que é bom, para trazer o mal ao Universo. E como fizeram isso? Ao se rebelarem contra o Criador. Então, o mal surgiu do bem, não direta, mas indiretamente, pelo mau uso do poder bom chamado liberdade.

 

Desta forma, Deus é responsável por tornar o mal possível, mas as criaturas livres são responsáveis por torná-lo real.

 

Diante disso, conclui-se que, de alguma forma, o mal se relaciona a Deus, porém, se o crente prega que o mal não é algo separado de Deus e, ao mesmo tempo, não pode proceder de seu interior, então o que é o mal? O problema da criação não pode ser simplificado nas seguintes premissas:

 

1. Deus é o Autor de tudo o que existe

2. O mal é algo que existe

3. Logo, Deus é o Autor do mal

 

Concordar que Deus não criou todas as coisas é negar sua soberania. Todavia, admitir que Ele causou todas as coisas e que o mal faz parte dessas coisas é reconhecer que Deus causou o mal. Entretanto, os crentes respondem que o mal não é uma coisa ou substância, antes, é a falta ou a privação de algo bom que Deus fez. Assim, o mal é a corrupção das substâncias boas que Deus criou. É como a ferrugem em um carro ou a podridão em uma árvore. O mal não é algo em si só. Existe somente em companhia de outra coisa, mas nunca sozinho.

 

Dizer que o mal não é algo, mas uma falta nas coisas, não é o mesmo que afirmar que ele não é real. Temos de entender que privação não é o mesmo que simples ausência. A visão está ausente na pedra assim como no cego, mas a ausência de visão na pedra não é privação, pois a privação é a ausência de algo que deveria estar ali. Já que a pedra, por natureza, não deveria ver, ela não está privada de visão. Logo, o mal é a falta real nas coisas boas, como o cego pode testemunhar. O mal não é uma entidade real, mas a corrupção real em uma entidade real.

 

Esta corrupção que atinge o homem para que possa transformar a possibilidade do mal em realidade se chama ação. Mas é preciso tomar cuidado para não levar a depravação humana tão longe a ponto de destruir a habilidade de pecar. Um ser totalmente corrompido nem existiria. Não pode haver o mal supremo, pois, apesar de o mal reduzir o bem, jamais poderá destrui-lo completamente, porque se o bem fosse totalmente destruído o próprio mal desapareceria, já que seu sujeito, ou seja, o bem, não existiria mais.

 

A ocorrência do mal

 

Por que Deus, na sua onipotência, não destrói o mal?

 

Mesmo um ser onipotente como Deus não é capaz de fazer qualquer coisa para mudar esta tendência humana. Explicando. Deus jamais forçaria as pessoas a escolher livremente o bem, porque a liberdade forçada seria uma contradição à sua Palavra. Logo, Deus não pode destruir literalmente todo o mal sem aniquilar o livre-arbítrio. A única maneira de destruir o mal seria destruindo o bem do livre-arbítrio. Logo, se Deus destruísse todo o mal, teria de destruir também todo o bem do livre-arbítrio. Mas, apesar de Deus não aniquilar o mal, Ele pode (e irá!) derrotá-lo e, ao mesmo tempo, preservar o livre-arbítrio. Assim, ainda que o mal não possa ser destruído sem destruir o livre arbítrio, ele pode ser derrotado.

 

A finalidade do mal

 

Deus tem uma determinação para tudo e, por conta disso, nos permite conhecer um bom propósito para a maior parte do mal. Por exemplo, a habilidade que temos de sentir dor possui um bom propósito. C. S. Lewis declarou que “a dor é o megafone de Deus para advertir o mundo moralmente surdo”.

 

Além disso, temos de ponderar que parte do mal é produto do bem e que Deus é capaz de extrair coisas boas do mal. Também, temos de entender que nem todo evento específico no mundo precisa ter um bom propósito. Apenas o propósito geral precisa ser bom. Certamente, Deus tinha um bom propósito para criar a água (sustentar a vida), mas afogamentos são um dos subprodutos malignos. Assim, nem todo afogamento específico precisa ter um bom propósito, apesar de a criação da água ter tido. A bem da verdade, muitas coisas boas seriam perdidas se Deus não tivesse permitido que o mal existisse.

 

Isso não significa que este mundo seja o melhor mundo possível, mas que Deus o criou como a melhor maneira de atingir seu objetivo supremo do bem maior.

 

O mal como um problema que pode ser evitado

 

Se Deus, por sua onisciência, sabia que o mal ocorreria no mundo, então, por que criou este mundo? O Senhor poderia não ter criado nada; ou ter criado um mundo onde o pecado não pudesse ocorrer. Ou, ainda, criar um mundo onde o pecado ocorresse, mas que todos fossem salvos no final. Logo, segundo os descrentes, Deus não fez o melhor.

 

Entretanto, é necessário ter em mente que Deus não precisa fazer o melhor, mas apenas fazer o que é bom. Mas será que alternativa seria realmente melhor que este mundo? Absolutamente.

 

A ausência de mundo não pode ser melhor que o mundo. “Nada” não pode ser melhor que “algo”.

 

Um mundo livre, onde ninguém peca, ou mesmo um mundo livre, onde todos pecam e depois são salvos é concebível, mas não é atingível. Enquanto todos forem realmente livres, sempre será possível que alguém se recuse a fazer o bem. Se Deus não permitisse o mal, então as virtudes mais elevadas não poderiam ser atingidas. Não há como experimentar a alegria do perdão sem permitir a queda no pecado.

 

O cristão sabe da realidade do mal e, dentro de sua limitação, se esmera por evitá-lo. Ninguém pode demonstrar um mundo alternativo melhor que o mundo proposto pelo cristianismo. Não podemos nos esquecer que Deus ainda não terminou a sua obra, e muitos menos que as Escrituras prometem que algo melhor será alcançado. A fé do crente é que este mundo é o melhor caminho para o melhor mundo atingível.

 

Fonte: Baker Encyclopedia of Christian Apologetics: Baker, 1999.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Os irmãos Karamazov. Coleção Os Imortais da Literatura Universal. Vol. 1 Abril Cultural: Rio de Janeiro, 1970, liv. V, cap.IV, p.181-4.

HUME, David. Diálogos sobre a religião natural. [Tradução José Oscar de Almeida Marques] São Paulo: Martins Fontes, 1992, p.136.

Buffalo, New York: Prometheus Books, 1979.

 

Tradução: Elvis Brassaroto

Fonte: Arminianismo.com

2ª Pedro 3: 9 – Artigo –

Deixe um comentário

Artigos – Paulo Cesar Antunes

2Pe 3.9

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.

R. K. McGregor Wright está correto quando diz que “a questão a ser resolvida em 2Pe 3.9 é a quem o ‘nenhum’ se refere.”[1] Os arminianos entendem que este versículo ensina que Deus deseja a salvação de todo ser humano. Deus não quer que alguns da raça humana se percam, senão que todos venham a arrepender-se.

Wesley comenta sobre este versículo:

Não retarda o Senhor – Como se o tempo fixado para ela tivesse passado, a sua promessa – Que certamente será cumprida no tempo certo; pelo contrário, ele é longânimo para convosco – Filhos dos homens, não querendo que nenhum – Nenhuma alma que ele criou, pereça. [2]

Para tal conclusão os arminianos apóiam-se em outros versículos das Escrituras, como Ez 33.11, que diz que Deus não tem “prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva”, e 1Tm 2.4, que nos revela que Deus “quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade”. Deus sinceramente deseja a salvação de cada ser humano, ainda que alguns venham a perder-se.

Os arminianos e a maioria dos calvinistas descartam a possibilidade de Pedro estar falando dos crentes em geral, e por uma boa razão. Segundo esta hipótese, o versículo estaria dizendo que Deus não quer que alguns dos crentes se percam, senão que todos os crentes venham a arrepender-se. Seria uma insensatez a afirmação de que Deus quer que todos os crentes venham a arrepender-se. Eles já se arrependeram. Não resolve dizer que Pedro está falando do arrependimento diário dos crentes, pois as pessoas aqui em vista correm o risco de perderem-se para sempre e a longanimidade de Deus tem como finalidade a sua salvação (“Tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor,” 2Pe 3.15).

A interpretação arminiana, no entanto, não tem sido bem recebida pelos calvinistas:

Ora, alegar que o Senhor… Quer que todos os homens se arrependam, é uma tolice, sem dúvida alguma![3]

O texto diz mais do que simplesmente que Deus não quer que ninguém pereça. A cláusula inteira é importante: “pelo contrário, ele é longânime para convosco, não querendo que nenhum pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento.”

Qual é o antecedente de nenhum? Somos claramente nós. Será que “nós” se refere a todos nós humanos? Ou se refere a nós cristãos, o povo de Deus? Pedro gosta de falar dos eleitos como um grupo especial de pessoas. Eu acho que o que ele está dizendo aqui é que Deus não quer que nenhum de nós (os eleitos) pereça. [4]

Ainda, os calvinistas chamam a atenção para o fato de que Pedro está escrevendo, como fez em sua primeira carta (2Pe 3.1), aos “eleitos segundo a presciência de Deus Pai” (1Pe 1.1).[5] Nessa interpretação, portanto, Pedro estaria dizendo que Deus não quer que alguns dos eleitos se percam, senão que todos os eleitos venham a arrepender-se.

Essa interpretação, no entanto, não se sustenta pela seguinte razão: Pedro não está escrevendo sua carta aos eleitos como tais, de forma que qualquer um que porventura venha alcançar “fé igualmente preciosa” (2Pe 1.1) se sinta destinatário da carta. Ele escreveu, não a uma classe abstrata, mas a um grupo definido de pessoas, “aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1Pe 1.1), a quem ele freqüentemente chamava de “amados” (1Pe 2.10; 4.12; 2Pe 3.1, 8, 14, 17). É evidente, portanto, que Pedro não inclui em sua carta os eleitos ainda incrédulos, mas somente aqueles que verdadeiramente se converteram.

John Murray, embora calvinista, também rejeita esta opinião:

Não cremos que a restrição da referência aos eleitos é bem estabelecida. A epístola não faz esta restrição. [6]

Gordon H. Clark ainda oferece uma segunda objeção à hipótese de que Deus deseja a salvação de todos:

Pedro nos conta que o retorno de Cristo aguarda o arrependimento de certas pessoas. Agora, se o retorno de Cristo esperasse o arrependimento de cada indivíduo sem exceção, Cristo nunca retornaria. [7]

Clark, como pode ser visto, não acredita que Cristo possa aguardar o arrependimento de pessoas que nunca se arrependerão. Não obstante, as Escrituras afirmam exatamente o oposto:

Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição? (Rm 9.22).

Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus (Rm 2.4, 5).

Certamente os calvinistas não irão afirmar que as pessoas aqui em vista, com quem Deus está sendo longânimo, são os eleitos. E é notável ainda que, tanto em Rm 9.22 como em Rm 2.4, a palavra longanimidade é a tradução do grego makrothumia, enquanto que em 2Pe 3.9 a palavra longânimo traduz o grego makrothumeō. Portanto, a afirmação de alguns calvinistas de que seria uma tolice imaginar que Deus deseja a salvação daqueles que perecem é simplesmente insustentável à luz de outros versículos.

Uma prova adicional da longanimidade de Deus com os reprovados pode ser vista na própria carta de Pedro:

Os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade (gr. makrothumia) de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água (1Pe 3.20).

Seguindo o raciocínio de Clark, quando diz que “se o retorno de Cristo esperasse o arrependimento de cada indivíduo sem exceção, Cristo nunca retornaria,” poderíamos chegar à estúpida conclusão que, se Deus esperasse o arrependimento dos contemporâneos de Noé, o dilúvio nunca aconteceria. Como as Escrituras tanto afirmam que Deus esperou o seu arrependimento como que o dilúvio aconteceu, há algo de errado com a objeção de Clark. E como ela pode ser usada para afirmar a impossibilidade de algo que já aconteceu, ela não prova nada.

Podemos seguramente dizer que em 2Pe 3.9 a imagem do dilúvio ainda estava na mente do apóstolo, considerando que poucas linhas antes ele fala desse acontecimento (2Pe 2.5). Da mesma forma que Noé proclamou a vinda do dilúvio, os crentes hoje proclamam o retorno de Cristo (2Pe 3.9). Da mesma forma que zombaram de Noé acerca da demora do dilúvio, “nos últimos dias virão escarnecedores” perguntando “onde está a promessa da sua vinda?” (2Pe 3.3, 4). E não poderíamos justamente concluir que, da mesma forma que Deus foi longânimo com os contemporâneos de Noé, que pereceram no dilúvio (1Pe 3.20), Ele não estaria sendo longânimo com todos os seres humanos, mesmo aqueles que irão perecer, até o dia do retorno de Cristo (2Pe 3.9)? Havendo tantos paralelos entre o dilúvio e o retorno de Cristo, nossa interpretação não é apenas plausível, ela é tanto provável como muito bem fundamentada. Sobre isto o calvinista Millard J. Erickson reconhece:

A paciência de Deus não se limitou a seu relacionamento com Israel. Pedro chega a afirmar (1Pe 3.20) que o dilúvio foi retardado o quanto possível para dar oportunidade de salvação para os que, por fim, foram destruídos. Ao falar do dia vindouro de grande destruição, Pedro também afirma que a segunda vinda custa a chegar por causa da clemência de Deus. Ele não deseja “que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9). [8]

Que Deus quer que todos os seres humanos sejam salvos é algo tão evidente em 2Pe 3.9 que Berkhof, conforme observado por Picirilli, [9] acaba sendo traído pelo versículo. Primeiramente ele diz:

As passagens de 1Tm 2.4-6; Hb 2.9; 2Pe 3.9 referem-se à vontade revelada de Deus de que judeus e gentios seriam salvos, mas nada implicam quanto à intenção universal da expiação. Mesmo Moisés Stuart, que crê na expiação universal, admite que, nestes casos, a palavra “todos” não pode ser entendida no sentido universal. [10]

Aqui ele diz que “todos” em 2Pe 3.9 deve ser entendido como “judeus e gentios,” ainda que o contexto não diga absolutamente nada sobre isto. Ele não admite que a passagem esteja falando de todos os homens sem exceção, mas, mais especificamente, dos eleitos entre judeus e gentios. Mas mais adiante em sua Teologia Sistemática, ele diz:

Ele não dá logo fim à vida do pecador, mas lhe dá oportunidade para arrepender-se, tirando com isso qualquer motivo para desculpa e justificando a vindoura manifestação da Sua ira sobre os que persistirem no pecado até o fim. Que Deus age com base neste princípio evidencia-se amplamente em passagens como Is 48.9; Jr 7.23-25; Lc 13.6-9; Rm 2.4; 9.22; 2Pe 3.9.[11]

Contradizendo o que disse anteriormente, Berkhof agora diz que 2Pe 3.9 deve ser entendido como incluindo até mesmo aqueles que “persistirem no pecado até o fim.”

Calvino chega a dizer que “o Senhor adia a sua vinda para que ele possa convidar toda a humanidade ao arrependimento” e que “tão maravilhoso é seu amor pela humanidade que ele quer que todos sejam salvos, e de sua parte está preparado para conceder salvação aos perdidos” para então tornar tudo sem sentido:

Pode-se perguntar aqui: se Deus não quer que ninguém pereça, por que tantos, na verdade, perecem? Minha resposta é que não há menção aqui sobre o decreto secreto de Deus pelo qual os ímpios são condenados à ruína, sendo revelada somente sua misericórdia por meio do evangelho. Aí Deus estende sua mão a todos, mas só segura (de forma a conduzi-los para si) aqueles que ele escolheu antes da fundação do mundo. [12]

Em outras palavras, Calvino está nos dizendo que a vontade revelada de Deus é que todos sejam salvos, mas que, em oposição a esta, há uma vontade secreta, que é que muitos sejam condenados. Mas, como observa Philip Schaff, “uma contradição entre intenção e expressão é fatal à veracidade, que é a fundação da moralidade humana, e deve ser um atributo essencial da Divindade. Um homem que diz o inverso do que pretende é chamado, em linguagem clara, de hipócrita e mentiroso.”[13]

Insatisfeito com a interpretação da grande maioria de seus colegas calvinistas, Anthony Hoekema interpreta corretamente o versículo:

A “demora” alegada é, na verdade, uma evidência da graça divina. O Senhor deseja dar aos seres humanos vivos nesta terra plena oportunidade para arrependimento e salvação; por isso ele ainda não voltou.

Observe particularmente as palavras “não querendo que nenhum pereça.” Alguém poderia ler essas palavras e conceber o seguinte entendimento: “não querendo que nenhum dos eleitos pereça.” Mas isso não é o que Pedro diz; introduzir esse pensamento é contrabandear para dentro do texto algo que não está aí. A forma negativa da declaração não deixa espaço para a possibilidade da exclusão de ninguém: o Senhor não deseja que qualquer pessoa pereça. Segundo essa passagem, é claro o desejo do Senhor de que todos os que ouvem o evangelho se arrependam e se salvem. [14]

Embora fiel ao texto bíblico, Hoekema entra em contradição com o seu Calvinismo. Pois o que significa dizer que Deus deseja a salvação de todos diante da afirmação que Deus escolheu incondicionalmente apenas alguns? Que desejo divino de salvação universal seria este que fica somente na intenção e não se revela na prática, sendo que Deus nega àqueles que quer que sejam salvos aquela graça que unicamente pode levá-los à salvação? Como Deus deseja verdadeiramente a salvação de cada ser humano se restringe a extensão da expiação de Cristo a apenas um grupo de pessoas?

Mas a questão é que, mesmo se fosse possível provar que Pedro restringe a longanimidade de Deus a um grupo de pessoas apenas, o versículo não poderia ser usado contra a afirmação de que Deus é longânimo com todos, tanto porque, como já foi mostrado, há outras passagens que admitem a idéia, quanto porque não se pode negá-la a partir do silêncio do apóstolo. Não é porque se afirma que Deus é longânimo com os que irão finalmente se salvar que Ele não é longânimo com aqueles que irão finalmente se perder.


 


 

[1] R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida, (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 1998), p. 185.

[2] John Wesley, Explanatory Notes upon the New Testament, (New York: Eaton & Mains), p. 626.

[3] John Owen, Por Quem Cristo Morreu, (São Paulo: Editora PES, 1996), p. 84.

[4] R. C. Sproul, Eleitos de Deus, (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2002), p. 146

[5] R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida, (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 1998), p. 185.

[6] John Murray, The Free Offer of the Gospel.

[7] Gordon H. Clark, I & II Peter (New Jersey: Presbyterian & Reformed, 1980), 2:71.

[8] Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, (São Paulo – SP: Edições Vida Nova, 2002) p. 125.

[9] Robert E. Picirilli, Grace Faith Free Will, (Nashville – Tennessee: Randall House, 2002), pp. 109 110.

[10] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, (Campinas – SP: Luz para o Caminho Publicações, 1994), p. 398.

[11] Ibid., p. 443.

[12] João Calvino, citado em Anthony Hoekema, Salvos pela Graça, 2ª edição revisada (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2002) p. 82.

[13] Philip Schaff, History of the Christian Church, Vol. 7, Capítulo XIV, § 114.

[14] Anthony Hoekema, Salvos pela Graça, 2ª edição revisada (São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2002) p. 82.

Fonte: Arminianismo.com