A Expiação

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Laulaurencemvancerence M. Vance

Assim como a negação da Eleição Incondicional é interpretada pelos calvinistas como um afastamento da salvação pela graça, da mesma forma os calvinistas deduzem que qualquer um que nega a Expiação Limitada rejeita a verdadeira doutrina da Expiação conforme encontrada na Bíblia. Portanto, uma pesquisa sobre a verdadeira natureza da doutrina bíblica da Expiação é conveniente a fim de assentar as bases para a rejeição da Expiação Limitada e defesa de uma expiação ilimitada. A morte de Jesus Cristo é universalmente reconhecida como sendo um dos mais significativos eventos da história. Ao cristão, porém, ela é muito mais que um simples evento histórico, é a expiação para os pecados designada pelo próprio Deus. E como A. A. Hodge declara: “A doutrina da Expiação é evidentemente o elemento central e principal da doutrina da Justificação.”[1] A Expiação é a marca distintiva do Cristianismo. Buda (c. 563-483) e Maomé (570-632) jamais professaram morrer pelos pecados de alguém. Embora a Bíblia seja clara em sua descrição da natureza da Expiação, a falha em se crer nela conforme foi escrita tem resultado em um sem-número de teorias, todas elas notavelmente deficientes em um aspecto: Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.

 Antes de prosseguir para o propósito bíblico da Expiação, vamos primeiramente fazer uma digressão para examinar o que a expiação não é, a partir de algumas das teorias divergentes sobre ela:

 1. Teoria do Resgate: primeiramente defendida por Orígenes (184-254), esta teoria sustenta que a morte de Cristo constituía um resgate pago a Satanás. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[2]

 2. Teoria da Recapitulação: primeiramente defendida por Irineu (130-200), esta teoria sustenta que Cristo recapitulou em si mesmo todos os estágios da vida humana, experimentando tudo que Adão experimentou, e compensando a desobediência de Adão pela sua obediência. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[3]

 3. Teoria Comercial: primeiramente defendida por Anselmo (1033-1109), esta teoria sustenta que a morte de Cristo restaurou a honra a Deus Pai que havia sido roubada dele pelo pecado do homem. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[4]

 4. Teoria da Influência Moral: primeiramente defendida por Abelardo (1079-1142), esta teoria sustenta que a morte de Cristo foi uma manifestação do amor de Deus pelo pecador para influenciá-lo. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[5]

 5. Teoria do Exemplo: primeiramente defendida pelos socinianos, esta teoria sustenta que Cristo morreu como um mártir como um exemplo de obediência para inspirar os homens à correção. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[6]

 6. Teoria do Acidente: popularizada por Albert Schweitzer (1875-1965), esta teoria sustenta que a morte de Cristo foi meramente um acidente. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[7]

 7. Teoria Governamental: primeiramente defendida por Grotius, esta teoria sustenta que a morte de Cristo foi uma demonstração que revelou o ódio de Deus pelo pecado a fim de manter o respeito pela sua lei. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[8]

 8. Teoria Mística: defendida com algumas diferenças por vários homens, esta teoria é semelhante à da Influência Moral, mas sustenta que uma mudança é produzida no homem, não por uma influência moral, mas por uma união mística de Deus e o homem realizada pela Encarnação. Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.[9]

 Como é evidente, cada uma destas teorias sofre de uma falha grave: Cristo não morreu pelos pecados de ninguém.

 Dirigindo agora das postulações de homens para os pronunciamentos da Bíblia, podemos ver a verdadeira natureza da Expiação: a ideia de substituição. Cristo não morreu apenas em favor de outros, mas no lugar de outros. Especificamente, a morte de Cristo foi uma substituição penal na qual ele se tornou portador do pecado e da maldição:

 Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.21).

 Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro (Gl 3.13).

 Que a morte de Cristo foi uma substituição penal pressupõe uma série de coisas. A santidade e justiça de Deus demandam que a pecaminosidade do homem deve ser punida. O Senhor Jesus Cristo, por ser o único a ser tanto Deus que se “manifestou em carne” (1Tm 3.16) quanto um homem “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus” (Hb 7.26), era capaz de mediar ambas as partes: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1Tm 2.5). Deus não poderia apenas perdoar o pecador, pois como Pink afirma: “O pecador somente é perdoado com base em Outro ter sofrido sua punição.”[10] Foi por esta razão que Jesus Cristo veio ao mundo:

 Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal (1Tm 1.15).

 Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste (Hb 10.5).

 Isto ele fez voluntariamente (Jo 10.17-18), completamente (Jo 19.30), de uma vez por todas (Hb 10.10), com uma oferta (Hb 10.14) para que Deus “seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.26). Todavia, deve também ser lembrado que Deus não foi obrigado a realizar a expiação por alguém. Ele poderia não salvar ninguém e ainda assim ser santo e justo. A graça de Deus é qualquer movimento de Deus em direção ao homem.

 Acerca da Expiação de Cristo, o Novo Testamento menciona a palavra expiação apenas uma vez: “E não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a expiação” (Rm 5.11). A Expiação, não como as muitas expiações do Antigo Testamento que somente cobriam o pecado, mas expressando especificamente aquilo que Cristo realizou para salvar os homens. Apesar do uso do termo expiação ser às vezes menosprezado,[11] Homer Hoeksema explica que “o termo expiação abrange aqueles termos confessionais como redenção, redimir, comprar, satisfazer, sacrifício propiciatório, etc. E o mesmo abrange aqueles termos bíblicos como reconciliação, propiciação, resgate, compra, etc. Ele simplesmente contempla todos estes vários termos bíblicos e confessionais de um ponto de vista bem básico.”[12]

 

A Expiação é apresentada na Escritura de diversas maneiras: Sacrifício, Resgate, Expiação, Propiciação, Reconciliação.

 1. Sacrifício: O sacrifício foi a provisão divinamente instituída pela qual o pecado pode ser coberto e a sujeição à ira e maldição removida. Ela envolveu um sofrimento substitutivo da pena ou sujeição devida ao pecado. Jesus Cristo devia oferecer a si mesmo como sacrifício pelos nossos pecados:

 Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão (Is 53.10).

 Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós (1Co 5.7).

 E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave (Ef 5.2).

 Que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente por seus próprios pecados, e depois pelos do povo; porque isto fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo (Hb 7.27).

 Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez (Hb 10.10).

 Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus (Hb 10.12).

 2. Resgate: O sacrifício de Cristo foi na forma de um resgate. Um resgate é a obtenção de uma liberação pelo pagamento de um preço. Ser redimido é ser liberto pelo pagamento de um resgate. Redenção pressupõe algum tipo de servidão ou cativeiro. Em sua morte sacrificial, Jesus Cristo foi nosso substituto, por meio dela nos redimindo:

 Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos (Mt 20.28).

 Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados (Cl 1.14).

 O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo (1Tm 2.6).

 O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras (Tt 2.14).

 Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção (Hb 9.12).

 Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado (1Pe 1.18-19)

 3. Expiação: O resgate sacrificial de Cristo foi uma expiação penal visto que ela removeu a culpa do pecado ao cancelá-la e eliminá-la. A Expiação diz respeito ao efeito que a satisfação tem sobre o pecado ou o pecador. Isto é realizado pelo sofrimento vicário de nossa pena por Jesus Cristo.

 No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29).

 Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.21).

 O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas (Hb 1.3).

 Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo? (Hb 9.14).

 De outra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo (Hb 9.26).

 Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito (1Pe 3.18).

 4. Propiciação: Propiciar significa aplacar, pacificar, apaziguar, conciliar – todos os quais pressupõem a ira e o descontentamento de Deus. Por este motivo os liberais e os modernistas ficam estarrecidos com a ideia de propiciação. Negar a propiciação, entretanto, é negar a natureza da Expiação como uma satisfação necessária. Deus é santo e necessariamente deve ser “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.26). A propiciação remove o descontentamento judicial de Deus. É o apaziguamento ou afastamento da ira de um Deus justo contra o pecado pela aceitação da morte de Cristo como um substituto satisfatório:

 Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus (Rm 3.25).

 E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo (1Jo 2.2).

 Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10).

 5. Reconciliação: A reconciliação contempla nossa alienação de Deus e o método de nos restaurar ao seu favor. A causa desta alienação é o nosso pecado; seu fundamento é a absoluta santidade de Deus. Por causa desta santidade, há inimizade entre Deus e o homem (Ef 2.15-16), porque nosso pecado necessariamente incita esta reação de sua santidade. O sacrifício propiciatório de Cristo é a causa para a reconciliação:

 Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida (Rm 5.10).

 E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação (2Co 5.18-19). 

E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades (Ef 2.16).

 E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus. A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou (Cl 1.20-21).

 Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo (Hb 2.17).

 Os calvinistas menosprezariam igualmente todas estas falsas teorias da Expiação enquanto concordariam com a visão bíblica da Expiação acima. O problema é que eles não permitem que seus oponentes façam o mesmo. A rejeição da Expiação Limitada não significa que não podemos crer na doutrina da Expiação conforme encontrada na Bíblia. O argumento dos calvinistas com seus oponentes deve ser “limitado” à extensão da Expiação, não à sua natureza. Mas para fazer sua doutrina da Expiação Limitada mais palatável, os calvinistas tentam relacioná-la de todas as maneiras possíveis àqueles para os quais ela nunca foi pretendida: “os não-eleitos.”

 Numa tentativa de suavizar sua doutrina da Expiação Limitada, muitos calvinistas defenderão que a Expiação foi suficiente para todos os homens, mas eficiente apenas para os “eleitos.”[13] Apesar de usado desatentamente pelos não-calvinistas, o adágio foi inventado por Agostinho,[14] e é chamado por Dabney: “A bem conhecida fórmula calvinista.”[15] Ao citar esta fórmula ou falar sobre a Expiação tendo potencial salvador infinito,[16] os calvinistas podem fazer seus oponentes pensarem que a Expiação teve alguma relação com os “não-eleitos.” Há, porém, uma discórdia entre os calvinistas. Sproul, apesar de reconhecer que “o valor da expiação de Cristo é suficiente para cobrir os pecados do mundo,” afirma que são os arminianos que usam a fórmula que “a expiação é suficiente para todos, maseficiente apenas para alguns.”[17] Nettles sustenta que a Expiação não foi suficiente para todos – ela foi suficiente apenas para os “eleitos” – e que a fórmula suficiente/eficiente deixa de “diferenciar a expiação eficaz e definida da expiação geral.”[18] Ele apela aos “batistas calvinistas (e calvinistas de todos os tipos) a reexaminarem a fórmula tradicional ‘suficiente mas eficiente’ e talvez questionarem sua propriedade como uma descrição exata da expiação eficaz ou limitada.”[19]

 

Outra tática utilizada pelos calvinistas para relacionar sua doutrina da Expiação Limitada aos “não-eleitos” é falar sobre os benefícios da morte de Cristo para o mundo em geral. De acordo com Dabney, a morte de Cristo (1) “manifesta a benevolência e compaixão geral de Deus por todos os pecadores perdidos,” (2) “comprou para toda a raça humana um misericordioso adiamento da condenação incorrida pelos nossos pecados, incluindo todas as bênçãos temporais de nossa vida terrena, todas as restrições do Evangelho sobre a depravação humana, e a oferta sincera do céu a todos,” e, embora (3) “obstinadamente rejeitada pelos homens, coloca a resistência, perversidade e culpa de sua natureza em uma luz muito mais forte.”[20] Boettner acrescenta que a Expiação “forma uma base para a pregação do Evangelho e dessa forma introduz muitas influências morais enriquecedoras ao mundo e restringe muitas influências maléficas.”[21] Outros afirmam que a Expiação fornece uma “graça comum” a todos os homens.[22] Cunningham insiste que “os defensores da expiação universal, então, não têm nenhum direito de nos acusar de ensinar que ninguém obtém algum benefício da morte de Cristo exceto aqueles que são perdoados e salvos; nós não ensinamos isto, e não somos obrigados, por questão de consistência, a ensinar.”[23] Ao negar que uma expiação foi feita por eles, mas ao estender os benefícios da morte de Cristo aos “não-eleitos,” alguns calvinistas têm a audácia de dizer que eles creem que Cristo morreu por todos os homens:

 

Há, então, um certo sentido em que Jesus morreu por todos os homens, e não respondemos à doutrina arminiana com uma negativa não qualificada.[24]

 Cristo morreu por todo o mundo criado (Jo 3.16), incluindo Satanás.[25]

 Mas como o calvinista reformado holandês Homer Hoeksema apropriadamente afirma: “Se Cristo morreu apenas pelos eleitos, então não há benefícios possíveis na morte de Cristo para ninguém além daqueles por quem ele morreu.”[26] Somente esta visão é o Calvinismo consistente. E foi mantido por todo este capítulo, ainda que Cristo tenha realmente feito uma expiação por todos os homens, se certos homens não foram eleitos para a salvação, então o que importa se Cristo morreu por eles ou não? Não faz absolutamente nenhuma diferença se Cristo morreu pelos “não-eleitos,” pois no sistema do Calvinismo TULIP, os assim chamados não-eleitos não poderiam possivelmente ser salvos se Cristo morreu por eles ou não. É somente devido à natureza objetável da Expiação Limitada que alguns calvinistas tentam relacioná-la de todas as formas possíveis com aqueles pelos quais ela nunca foi pretendida.

Fonte: http://www.arminianismo.com


[1] A. A. Hodge, Atonement, p. 13.

[2] Berkhof, Theology, pp. 384-385.

[3] Ibid., p. 385.

[4] Ibid.

[5] Ibid., p. 386.

[6] Ibid., p. 387.

[7] Paul P. Enns, The Moody Handbook of Theology (Chicago: Moody Press, 1989), p. 320.

[8] Berkhof, Theology, p. 388.

[9] Ibid., p. 389.

[10] Arthur W. Pink, Gleanings in the Godhead (Chicago: Moody Press, 1975), p. 40.

[11] John Murray, Atonement, p. 9; A. A. Hodge, Atonement, pp. 33-34.

[12] Homer Hoeksema, Limited Atonement, p. 48.

[13] Talbot e Crampton, p. 30; Boettner, Predestination, p. 152; Kruithof, p. 60.

[14] Custance, p. 153.

[15] Dabney, Theology, p. 527.

[16] A. A. Hodge, Outlines of Theology, edição revista e ampliada (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1972), p. 416; Shedd, Theology, vol. 2, p. 468.

[17] Sproul, Grace Unknown, p. 165.

[18] Nettles, By His Grace, p. 305.

[19] Ibid., p. 319.

[20] Dabney, Calvinism, p. 62, 63.

[21] Boettner, Predestination, p. 160.

[22] Kruithof, p. 60; Talbot e Crampton, p. 30; Gunn, p. 17; Palmer, p. 54.

[23] Cunningham, Theology, vol. 2, p. 333.

[24] Boettner, Predestination, p. 161.

[25] North, p. 43.

[26] Homer Hoeksema, Limited Atonement, p. 61.

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A Fé de Abraão e a Maldição da Lei – Gl 3.6-14

1 Comentário

Craig S. Keener

 

 Paulo faz cinco referências à lei de Moisés e uma aos profetas, formando um argumento com base na Escritura, de modo que aqueles que afirmavam respeitar a Lei tinham que aceitá-lo. Ele faz uma comparação entre a fé (3.6-9; 14) e as obras resultantes da prática da Lei (3.10-13), da mesma forma que em 3.5. Há duas interpretações principais para esta passagem: a primeira é de que os cristãos gentios criam como Abraão (a posição tradicional, seguida aqui) e a segunda, de que eles seriam salvos pela fé de Abraão (como no judaísmo), e consequentemente pela fé em Cristo, ou seja, pela fidelidade de Abraão e de Cristo à aliança.

 3.6. Paulo cita Gênesis 15.6, um texto bastante conhecido no judaísmo, para demonstrar como Abraão era um exemplo de fé. Paulo apresenta uma interpretação diferente daquela aceita pela tradição judaica.

 3.7. O povo judeu empregava a palavra “filhos” tanto no sentido literal (descendentes biológicos) como no sentido espiritual (os que se conduziam de acordo com os ensinamentos de seus antigos mestres). O título “descendência de Abraão” (ou “filhos de Abraão”) era geralmente aplicado ao povo judeu, mas algumas vezes referia-se especificamente àqueles que excediam em justiça – se bem que o povo judeu nunca aplicasse esta designação aos gentios. Paulo demonstra aqui que aqueles que criam como Abraão eram seus descendentes espirituais (Gn 15.6, citado em Gl 3.6).

 3.8, 9. Se os gentios podiam crer como Abraão (3.7), eles também poderiam ser justificados da mesma maneira como ele foi justificado. (Os mestres judeus consideravam Abraão um exemplo de conversão ao judaísmo, portanto seriam forçados a respeitar os argumentos de Paulo mais do que gostariam). Como bom expositor judeu, Paulo prova sua argumentação nesta passagem referindo-se a outro texto relacionado à promessa feita a Abraão (Gn 12.3 = 18.18; cf. 17.4, 5; 22.18). O propósito de Deus, desde o princípio, era alcançar também os gentios, como já havia sido predeterminado no início da narrativa de Abraão. No modo de pensar judaico, os justos (Israel) eram salvos em Abraão; Paulo afirma aqui que os cristãos gentios são salvos (abençoados) junto com Abraão.

 3.10. Tanto Gênesis 12.3 como as bênçãos da obediência encontradas em Deuteronômio 28 estabelecem um contraste entre as maldições recebidas por aqueles que se opõem a Abraão ou quebram a aliança e as bênçãos recebidas pelos descendentes de Abraão ou por aqueles que guardam a aliança. O raciocínio dos adversários segue o padrão normal de interpretação judaica. Paulo desta maneira apresenta seu veredicto sobre a justificação baseada nas “obras da Lei” (ARA) ou na “prática da Lei” (NVI): obediência parcial resulta em maldição (Dt 27.26, a síntese das maldições). De acordo com o ensino judaico, a obediência humana foi sempre incompleta, e Deus poderia, portanto não exigir uma obediência completa como condição para a salvação; mas como bom rabino, Paulo interpreta Deuteronômio 27.26 de maneira a obter tudo que está contido neste texto – afinal, Deus estava em posição de exigir perfeição.

 3.11. Paulo cita Habacuque 2.4 (ver comentário em Rm 1.17) para provar que a justificação baseada apenas na obediência humana é inadequada. Paulo demonstra conhecer profundamente o Antigo Testamento ao selecionar os dois únicos textos ali presentes que tratam tanto da justificação como da fé: Gn 15.6 (citado em 3.6) e Hc 2.4 (citado aqui).

 3.12. Como Habacuque 2.4 estabelece o vínculo entre justificação e vida, Paulo cita outro texto do Antigo Testamento relacionado a ambas, novamente demonstrando sua destreza na exegese judaica (os mestres judeus normalmente relacionavam os textos com base nas palavras-chave encontradas neles). Paulo apresenta o contraste entre o método baseado na fé (3.11) e o método firmado nas obras, apresentado em Levítico 18.5 (ver Êx 20.12, 20; Lv 25.18; Dt 4.1, 40; 5.33; 8.1; 30.16, 20; 32.47; Ne 9.29; Ez 20.11, 13; 33.19). Embora estes textos do Antigo Testamento prometam uma vida longa na terra prometida, Paulo sabia que muitos mestres judeus aplicavam estes textos à vida futura, por isso ele responde: “Este é o método baseado nas obras”. Os adversários de Paulo talvez tenham usado este texto para firmar seus argumentos de que só a fé não era suficiente. Paulo concorda que a justiça baseada na lei tem que ser cumprida, mas ele crê que essa justiça é cumprida em Cristo e pelo viver através de seu Espírito (5.16-25); já seus adversários acreditavam que o gentio seria justificado obedecendo aos pormenores da lei, especialmente o ato inicial da circuncisão.

 3.13. Paulo novamente emprega o recurso de ligar os textos do Antigo Testamento de acordo com as palavras-chave que têm em comum e cita Deuteronômio 21.23 para mostrar que Cristo se tornou “maldição” no lugar de todos os que deixaram de cumprir integralmente a Lei (Gl 3.10).

 3.14. Na perspectiva judaica “a bênção de Abraão” incluía o mundo inteiro por vir; Paulo aqui diz que os crentes se livraram da maldição deste mundo (Ef 1.3, 13, 14) pela bênção do Espírito (Is 44.3). (Sobre esta relação entre a promessa da terra e a promessa do Espírito, compare também Ag 2.5 com Êx 12.25; 13.5.).

 Fonte: Comentário Bíblico Atos: Novo Testamento, 544-546.

Fonte: Site Arminianismo