O Amor de Deus É Limitado aos Eleitos?

2 Comentários

Refutando um Desafio Calvinista ao Evangelho

Roger E. Olsonroger olson - arminius hoje

A doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. Ele é também o calcanhar de Aquiles do Calvinismo; sem ele os outros pontos caem.

 O recente renascimento do Calvinismo entre os evangélicos trouxe à tona a questão da extensão da morte expiatória de Cristo na cruz. Muitos cristãos evangélicos simplesmente assumem que Cristo morreu por todos – que Ele carregou os pecados e sofreu a penalidade por cada pecador. Pelos últimos quatro séculos, entretanto, tem havido uma representação minoritária entre os protestantes. A maioria dos calvinistas, seguidores do reformador francês da Suíça, João Calvino (1509-1564), têm ensinado que Cristo suportou a penalidade somente pelos pecados dos eleitos – aqueles incondicionalmente predestinados por Deus para a salvação. Calvinistas contemporâneos (eles muitas vezes preferem ser chamados de cristãos reformados) chamam esta doutrina de “redenção particular” ou “expiação definida.”

 Entre os defensores evangélicos contemporâneos da expiação limitada estão, mais notavelmente, R. C. Sproul e John Piper. Sproul (nascido em 1939) tem sido um influente apologista evangélico e teólogo reformado por grande parte da última metade do século 20. De sua base em seu Ministério Ligonier ele tem falado no rádio, viajado para discursar em muitas conferências teológicas e apologéticas e escreveu muitos livros – a maioria deles tratando da soberania de Deus a partir de uma perspectiva fortemente reformada.

 Piper (nascido em 1946), pastor de Igreja Batista Bethlehem de Minneapolis, e fundador do Ministério Desiring God, também viaja muito e discursa em grandes encontros de cristãos evangélicos – incluindo as conferências Passionfrequentadas por milhares da maioria dos jovens e adolescentes batistas do sul. Ele é um prolífico autor cujos livros, incluindo Desiring God: Confessions of a Christian Hedonist (1986), têm vendido milhões de cópias. Como Sproul, Piper é um promotor apaixonado do Calvinismo de cinco pontos.

 CALVINISMO DE CINCO PONTOS

 O Calvinismo de cinco pontos é a crença nas doutrinas representadas pelo acróstico TULIP: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Os calvinistas criaram o acróstico por volta de 1913, mas as “doutrinas da graça” que ele representa remontam ao sucessor de Calvino – Teodoro Beza (1519-1605) – diretor da Academia de Genebra (um seminário reformado em Genebra, Suíça, fundado por Calvino). A expiação limitada se encontra no centro deste sistema teológico. Sproul, Piper e muitos outros teólogos evangélicos contemporâneos influentes tenazmente mantêm e defendem esta posição.

 EXPIAÇÃO LIMITADA

 O que a expiação limitada ou redenção particular significa? De acordo com Sproul, que prefere chamar essa doutrina de “expiação designada,” ela significa que Deus pretendeu que a morte de Cristo na cruz assegurasse a salvação de um número definido de seres humanos caídos – aqueles escolhidos incondicionalmente por Deus. Como outros calvinistas, Sproul argumenta que a morte substitutiva de Cristo (isto é, Deus impôs sobre Cristo a penalidade pelos pecados merecida pelos pecadores) foi de valor suficiente para salvar a todos, mas Deus apenas pretendeu que ela salvasse os eleitos. No sentido mais significante, Cristo morreu apenas pelos eleitos e não por todos.

 Para Sproul (e outros como ele), esta doutrina não é dispensável; ela é parte essencial do sistema TULIP que eles creem ser a única que faz justiça à soberania de Deus e à natureza do dom da salvação. Um argumento usado por Sproul, seguindo o teólogo puritano John Owen (1616-1683), é que, se Cristo morreu por todos igualmente, então todos são salvos. Afinal, como segue o argumento, seria injustiça de Deus punir os mesmos pecados duas vezes – uma vez impondo a penalidade sobre Cristo e outra vez ao enviar o pecador para o inferno.

 Piper é igualmente apaixonado pela expiação limitada. Como Sproul, ele não a considera um ponto secundário da teologia. Em um artigo intitulado “For Whom Did Christ Die and What Did Christ Actually Achieve on the Cross for Those for Whom He Died?[1]Piper argumenta que não é o calvinista que limita a expiação, mas o não-calvinista que crê na expiação universal. A razão: Aqueles que creem na expiação universal devem dizer que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas a oportunidade de salvarem a si mesmas. Ou eles devem abraçar o universalismo.

 Piper continua e argumenta que Cristo de fato morreu por todas as pessoas, mas não da mesma maneira. Todas as pessoas se beneficiam da morte de Cristo, por exemplo, recebendo certas bênçãos nesta vida que eles de outra forma não receberiam – mas somente os eleitos recebem dela o benefício da salvação.

 Esta doutrina da expiação limitada é provavelmente o mais calorosamente debatido dos cinco pontos do Calvinismo entre os evangélicos. O teólogo evangélico Vernon Grounds, ex-presidente do Seminário Denver, atacou severamente a doutrina. Apontando para Jo 1.29; Rm 5.17-21; 11.32; 1Tm 2.6; Hb 2.9; e 1Jo 2.2, ele escreveu, “É preciso uma engenhosidade exegética que é outra coisa menos uma habilidade culta esvaziar estes textos de seu significado óbvio: é preciso uma engenhosidade exegética próxima de um sofisma negar sua explícita universalidade.”[2]É desnecessário dizer, muitos evangélicos, incluindo alguns calvinistas, acham essa doutrina repugnante.

 BASE PARA A EXPIAÇÃO LIMITADA

 Antes de explicar por que esta doutrina é repulsiva, será proveitoso ver as razões por que muitos calvinistas a têm em alta conta e a promovem tão apaixonadamente. Mais uma vez, o que é esta doutrina? É que Deus pretendeu que a morte de Jesus na cruz fosse uma propiciação (um sacrifício expiatório, substitutivo) apenas pelos pecados dos eleitos – aqueles que Deus escolheu salvar à parte de qualquer coisa que Ele vê neles ou sobre eles (exceto Sua escolha dessas pessoas para a Sua glória e boa vontade).

 Por que alguém acreditaria nisso?

 Os proponentes da expiação limitada apontam várias Escrituras: Jo 10.15; 17.6 e versículos semelhantes em Jo 10-17; Rm 8.32; Ef 5.25-27; Tt 2.14.

 Os calvinistas usam Jo 10.15 para apoiar o seu ensino: “Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas.” Muitos outros versículos em João dizem quase a mesma coisa – que Cristo deu a Sua vida por Suas ovelhas (isto é, Seus discípulos e todos os que viriam depois deles).

 Os calvinistas também apontam Rm 8.32: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” Eles supõem que “todos nós” faz referência aos eleitos.

 Ef 5.25-27 diz, “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.” Os calvinistas creem que esta passagem, como muitas outras, se refere apenas à igreja como o objeto do sacrifício purificador de Cristo.

 Tt 2.14 diz: “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” Os calvinistas acreditam que Paulo, o autor de Tito, parece restringir os benefícios salvadores da morte de Cristo ao “seu povo,” o que eles acreditam ser os eleitos.

 Os calvinistas assumem que estes versículos e outros como eles ensinam que Cristo morreu somente por aqueles escolhidos por Deus para a salvação. Mas estes versículos não ensinam as crenças calvinistas. Em nenhum lugar a Bíblia explicitamente ensina esta doutrina calvinista.

 Os calvinistas atribuem a estas passagens sua crença que Cristo morreu somente pela igreja, pelo Seu povo, por Suas ovelhas. Estes versículos não dizem que Cristo não morreu também pelos outros. E, como veremos, há muitas passagens que ensinam claramente que Cristo morreu por todos.

 Há outra razão para os calvinistas crerem na expiação limitada. Se Cristo morreu igualmente por todos, eles alegam, então todos são salvos. Eles argumentam que aqueles que creem na expiação universal se defrontam com duas opções inevitáveis, mas biblicamente insustentáveis: ou a morte de Cristo salvou a todos ou ela não salvou ninguém. Este argumento é, no entanto, falacioso. A expiação universal não requer a salvação universal; ela somente requer a possibilidade de salvação universal.

 É possível que os mesmos pecados sejam punidos duas vezes e é isso o que torna o inferno tão absolutamente trágico – ele é totalmente desnecessário. Deus pune com o inferno aqueles que rejeitam a substituição de Seu Filho. Uma analogia ajudará a tornar isto claro. Após a Guerra do Vietnã, o presidente Jimmy Carter concedeu uma anistia geral a todos os desertores que fugiram para o Canadá e outros locais. Por decreto presidencial eles estavam livres para voltar para casa. Alguns voltaram e outros não. Seu crime não era mais punível; mas alguns se recusaram a tirar proveito da anistia e puniram a si mesmos ficando longe de casa e da família. Os crentes na expiação universal creem que Deus permite aos pecadores recusarem o benefício da cruz de Cristo para sofrerem a punição do inferno apesar do fato dele ser totalmente desnecessário.

 Talvez a razão apresentada mais retoricamente poderosa para a expiação limitada seja aquela oferecida por John Piper (e outros calvinistas antes dele) que diz em For Whom Did Christ Die? que aqueles que creem na expiação universal “devem dizer” que a morte de Cristo na verdade não salvou ninguém, mas somente deu às pessoas uma oportunidade de salvarem a si mesmas. Este é um raciocínio totalmente falacioso.

 Os arminianos (aqueles que seguem Tiago Armínio na rejeição da eleição incondicional, da expiação limitada e da graça irresistível) creem que a morte de Cristo na cruz salva todos que a recebem pela fé. A morte de Cristo assegura a salvação destes – tanto quanto assegura a salvação dos eleitos no Calvinismo. Ela garante que qualquer um que vai a Cristo em fé será salvo por Sua morte. Isto não implica que eles salvam a si mesmos. Isso simplesmente significa que eles aceitaram a obra de Cristo em seu favor.

 RESPONDENDO AO CALVINISMO

 É difícil resistir à impressão de que os calvinistas que creem na expiação limitada assim o fazem não por claras razões bíblicas, mas porque eles acham que a Escritura a permite e a razão a exige. Não há nada necessariamente errado com isso, mas no mínimo alguns calvinistas como Piper têm criticado outros por fazerem o mesmo.[3] Piper critica outros por alegadamente abraçarem doutrinas somente porque a Escritura as permite e a lógica as exige. Parece a muitos não-calvinistas, no entanto, que os crentes na expiação limitada fazem exatamente isso. Carecendo de claro e inequívoco apoio bíblico para esta doutrina, eles a abraçam porque acham que a Escritura a permite e o seu sistema TULIP logicamente a exige. Afinal, se a eleição é incondicional e a graça é irresistível, então parece que a expiação seria somente para os eleitos.

 A Escritura contradiz a expiação limitada em Jo 3.16, 17; Rm 14.15; 2Co 5.18-19; Cl 1.19, 20; 1Tm 2.5, 6; 1Jo 2.2. Todos conhecem Jo 3.16, 17: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” Tipicamente, os calvinistas respondem que nestes versículos “mundo” faz referência a todos os tipos de pessoas e não a todos. Entretanto, isso tornaria possível interpretar todas as passagens onde o Novo Testamento conta que o “mundo” é pecador e caído no sentido de que somente algumas pessoas – todos os tipos – são pecadoras e caídas. A interpretação calvinista de Jo 3.16, 17 parece se encaixar na descrição de Vernon Grounds de exegese defeituosa usada para defender a expiação limitada.

 1Jo 2.2 é outra passagem que não podemos reconciliar com a expiação limitada: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” Esta passagem enfraquece completamente a interpretação calvinista de “mundo” em Jo 3.16, 17 porque ela explicitamente afirma que Cristo morreu uma morte expiatória não somente pelos crentes, mas também por todos. Aqui “mundo” deve incluir os não crentes porque “nosso” se refere aos crentes. Este versículo torna impossível dizer que a morte de Cristo beneficia a todos, só que não da mesma maneira (Piper diz que a morte de Cristo beneficia os não-eleitos dando-lhes somente bênçãos temporais). João diz clara e inequivocamente que o sacrifício expiatório de Cristo foi pelos pecados de todos – inclusive daqueles que não são crentes.

 E quanto a 2Co 5.18-19? “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.” Os calvinistas às vezes argumentam que esta passagem dá apoio à expiação limitada. Afinal, se Deus estava em Cristo não imputando os pecados de todos, então todos são salvos. Portanto, eles dizem, “todos” deve significar somente os eleitos. Mas isso não é verdadeiro. Quando Paulo diz que Deus estava reconciliando o mundo consigo, não imputando os pecados das pessoas contra elas, ele quer dizer se elas se arrependerem e crerem. Em outras palavras, a expiação reconciliou Deus com o mundo para que Ele pudesse perdoá-lo; isso satisfez as demandas da justiça para que da parte de Deus a reconciliação fosse possível. Mas resta aos pecadores aceitar isso pela fé. Então a plena reconciliação acontece.

 Cl 1.19, 20, diz, “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.” É impossível interpretar “todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” como se referindo somente aos eleitos. Esta passagem refuta a expiação limitada. Igualmente faz 1Tm 2.5, 6: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.” A única maneira de um crente na expiação limitada conseguir escapar da força desta passagem é interpretar o grego traduzido como “todos os homens” como de alguma forma significando “todos os tipos de homens,” mas essa não é uma interpretação permitida pelo uso comum da expressão na literatura grega fora do Novo Testamento (ou em outro lugar nele).

 Muitas Escrituras indicam claramente que o sacrifício expiatório de Jesus foi pretendido para todos, que Sua punição substitutiva foi por todas as pessoas. Mas há duas passagens raramente discutidas do Novo Testamento que absolutamente destroem a expiação limitada: Rm 14.15 e 1Co 8.11. Nestes versículos, Paulo severamente adverte os cristãos contra levar pessoas por quem Cristo morreu à destruição. A tradução grega das palavras “destruir” e “destruído” nestes versículos não pode significar meramente prejudicado ou ferido. Paulo claramente está advertindo as pessoas de que é possível levar as pessoas por quem Cristo morreu ao inferno (levando-as a tropeçarem e cairem pela demonstração de sua liberdade própria para comer carne sacrificada aos ídolos). Se o Calvinismo da TULIP está correto, esta advertência é inútil, porque isso não pode acontecer. De acordo com o Calvinismo, os eleitos, por quem Cristo morreu, não podem se perder.

 O peso da Escritura é claramente oposto à expiação limitada. As interpretações calvinistas destas e de passagens semelhantes faz recordar o sinal do lado de fora de uma ferraria se referindo ao seu trabalho artístico com metais: “Todos os tipos imagináveis de torção e torneamento são feitos aqui.” Entretanto, o problema com a expiação limitada vai além de alguns versículos que os calvinistas não podem explicar sem distorcer seus claros significados. O maior problema atinge o cerne da doutrina de Deus. Quem é Deus e como ele é?

 EXPIAÇÃO LIMITADA E A NATUREZA DE DEUS

 Se Deus é amor (1Jo 4.7), mas pretendeu que a morte expiatória de Cristo fosse a propiciação somente para algumas pessoas de forma que somente elas têm alguma chance de serem salvas, então o “amor” não tem nenhum significado inteligível quando se refere a Deus. Todos os cristãos concordam que Deus é amor. Mas os crentes na expiação limitada devem interpretar o amor de Deus como de alguma forma compatível com Deus incondicionalmente selecionando algumas pessoas para o tormento eterno no inferno quando Ele poderia salvá-las (porque a eleição para a salvação, e assim a própria salvação, é incondicional). Não há analogia na existência humana para este tipo de comportamento que é considerado como amoroso. Nós nunca consideraríamos como amoroso alguém que, por exemplo, podendo resgatar pessoas se afogando, se recusa a fazê-lo e resgata somente algumas. Consideraríamos tal pessoa má, mesmo se as pessoas resgatadas apreciassem o que a pessoa fez por elas.

 Os calvinistas tipicamente lidam com isso de duas maneiras. Alguns dizem que o amor de Deus é diferente do nosso amor. Mas se ele é tão diferente, ele é ininteligível. Se o “amor” de Deus não tem semelhança com algo que chamaríamos de amor, se ele se assemelha mais ao ódio do que ao amor, então ele perde todo o significado. Então, quando uma pessoa diz que Deus é amor, ela poderia também estar usando uma palavra sem sentido como “creech” – Deus é creech. Também, onde Deus melhor demonstrou o Seu amor do que em Jesus Cristo? Mas o amor de Jesus Cristo pelas pessoas é arbitrário e odioso a algumas? Ou Jesus Cristo em Seu amor por todas as pessoas revela o coração de Deus? O Calvinismo acaba tendo que pressupor um Deus oculto, muito diferente de Jesus Cristo.

 A outra maneira dos calvinistas lidarem com o amor de Deus e tentar reconciliá-lo com a expiação limitada e a dupla predestinação (as duas são realmente inseparáveis) é dizer que Deus ama todas as pessoas de alguma forma, mas somente algumas (os eleitos) de todas as formas. Piper, por exemplo, exalta o amor de Deus por todos – até mesmo ao não-eleito. Ele diz que Deus concede bênçãos temporais sobre os não-eleitos – isto é, conforme eles se movem em direção ao seu tormento eterno predestinado no inferno. John Wesley, respondendo a uma alegação similar dos calvinistas de sua época, ironizou dizendo que este é o tipo de amor que faz o sangue gelar nas veias. Uma outra resposta é que isso simplesmente significa que Deus dá aos não-eleitos um pouco do céu para levar com eles em sua jornada ao inferno. Que tipo de amor é esse – que dá bênçãos temporais e felicidade às pessoas escolhidas por Deus para o sofrimento eterno no inferno? Afinal, se o Calvinismo está correto, não há nada impedindo Deus de escolher todas as pessoas para o céu, exceto, alguns dizem, a Sua própria glória. Alguns calvinistas dizem que Deus deve manifestar todos os Seus atributos e um atributo é a justiça que torna o inferno necessário. Mais uma vez, no entanto, isso não funciona, porque a cruz foi uma manifestação suficiente da justiça de Deus.

 A expiação limitada torna o evangelismo indiscriminado impossível. Um crente na expiação limitada nunca pode dizer a algum estranho ou grupo aleatório: “Deus ama vocês e Cristo morreu pelos seus pecados e pelos meus; vocês podem ser salvos.” Todavia, esta é a própria força vital do evangelismo – contar as boas novas a todos e convidá-los a virem a Jesus Cristo em arrependimento e fé. Muitos calvinistas são inclinados ao evangelismo e às missões, mas em seu evangelismo e missões eles não podem dizer a todos no alcance de suas vozes que Deus os ama, que Jesus morreu por eles e que Ele quer que eles sejam salvos. Eles podem proclamar o evangelho (como eles o interpretam), mas não podem requerer fé prometendo-lhes salvação através de Cristo a todos que eles encontram ou a quem eles pregam.

 A expiação limitada é o calcanhar de Aquiles do Calvinismo TULIP; sem ela os outros pontos da TULIP caem. Se Deus é verdadeiramente amor, então Cristo morreu por todos para que todos possam ser salvos.

 

Fonte: http://enrichmentjournal.ag.org/201203/201203_044_limited_atonement.cfm

Tradução: Cloves Rocha dos Santos


[1] http://www.monergism.com/thethreshold/articles/piper/piper_atonement.html.

[2] Vernon C. Grounds, “God’s Universal Salvific Grace” em Grace Unlimited, ed., Clark H. Pinnock (Minneapolis: Bethany House, 1975), 27.

[3] John Piper, The Pleasures of God: Meditations on God’s Delight in Being God (Portland: Multnomah, 2000). Ver a longa nota de rodapé acerca da alegada hermenêutica falha de Pinnock, 70–74.

Anúncios

Deus Sempre Faz a “Coisa Mais Sábia”?

Deixe um comentário

Roger E. Olson 

 

Muitos (não todos) calvinistas argumentam que o livre-arbítrio libertário, ou poder de escolha contrária, é um conceito incoerente (p. e. Jonathan Edwards, Loraine Boettner, R. C. Sproul, John Frame, John Piper e outros). A razão é, eles argumentam, que ele equivale a crer em efeitos não causados. Eles argumentam que pessoas agem de acordo com seu motivo mais forte.

 O que eu frequentemente me pergunto é se os calvinistas que argumentam assim creem que Deus tem poder de escolha contrária. Se Deus tem poder de escolha contrária, então não pode ser um conceito exatamente incoerente. Mas dizer que Deus NÃO tem poder de escolha contrária parece tornar Deus prisioneiro da criação. Sem poder de escolha contrária, a decisão de Deus de criar seria necessária e isso tornaria a criação menos do que graciosa e, de fato, uma parte da própria vida de Deus – não um ato livre como se Deus pudesse ter feito de outra forma.

 A maneira que Jonathan Edwards tentou se esquivar disto em The Freedom of the Will foi dizer que Deus sempre faz a coisa mais sábia. Calvinistas contemporâneos que o seguem de perto concordam. Em outras palavras, de acordo com Edwards, Deus poderia ter feito outra coisa além de criar o mundo, mas ele criou o mundo porque era o “mais adequado” a fazer.

 Minha pergunta é como isto contorna o problema. Para mim, parece como uma evasiva; isto é, parece tentar responder o desafio sem respondê-lo. Parece como dizer, ambos ao mesmo tempo, que Deus poderia não ter criado e que Deus não poderia não ter criado.

 A pergunta é simplesmente esta: É logicamente concebível que Deus pudesse não ter criado o mundo? É concebível que Deus pudesse ter decidido contra esta ou qualquer criação?

 A resposta de Edwards parece dizer sim e não ao mesmo tempo. Isto vai contra as leis da lógica, A NÃO SER que ele possa explicar como o “sim” e o “não” se referem a coisas diferentes. Mas em sua explicação, eles não se referem.

 A pergunta é: Deus é prisioneiro de sua própria sabedoria (ou de qualquer coisa)? Eu anteriormente discuti aqui a questão do nominalismo/voluntarismo versus o realismo – isto é, se Deus tem uma natureza. Mas até mesmo os realistas mais estritos não creem que Deus é prisioneiro de seu caráter eterno. Antes, seu caráter eterno guia suas decisões; ele não necessariamente as governa.

 Se alguém diz que Deus “sempre faz a coisa mais sábia” COM A SUPOSIÇÃO de que há sempre somente UMA “coisa mais sábia”, então como alguém não está tornando a criação necessária e, portanto, não graciosa? (Um princípio básico da teologia é que o que é por natureza não pode ser por graça. Se eu TENHO que resgatar você, não é um ato de misericórdia ou graça.).

 Por que supor que há sempre somente UMA “coisa sábia” a ser feita – até mesmo para Deus? Por que não poderia ter sido sábio criar, mas também sábio não criar? Obviamente, como qualquer racionalista irá querer saber, então por que Deus criou? Isto foi simplesmente uma escolha arbitrária – como lançar dados?

 Aqui eu sou tentado a devolver ao calvinista seu próprio argumento que a escolha de Deus de alguns para salvar e de outros para condenar não é arbitrária sem qualquer palpite do que poderia explicá-la. Em outras palavras, se é justo ao calvinista argumentar que a seleção divina não é baseada em algo que Deus “vê” nos eleitos ou nos condenados (que os diferencia) e, todavia não é arbitrária, por que a pessoa que crê no poder de escolha contrária de Deus não poderia argumentar que a escolha de Deus para criar não é arbitrária, ainda que não possa ser dada nenhuma razão específica para ela?

 Entretanto, eu prefiro argumentar que para Deus, como para nós, há momentos em que duas opções alternativas são igualmente sábias e nenhum fator controlador, determinante, interior (tal como motivo) ou de outra forma determina que opção alguém deva escolher ser correta.

 Por exemplo, alguns casais enfrentam a escolha de se ou não ter um filho. Conheço casais assim. Eles lutaram com a decisão, pensaram nela longa e dificultosamente, e eles nunca realmente chegaram a uma razão determinativa para ter ou não ter um filho. Alguns desses casais decidem ter um filho, o que é sábio, e alguns decidem não ter, o que pode também ser sábio.

 Parece-me que dizer “Deus sempre faz a coisa mais sábia”, com isso querendo dizer que Deus deve fazer assim e assado (p. e. criar o mundo), é o mesmo que dizer que Deus é uma máquina e que a criação e a redenção do mundo não são por graça, mas por natureza. Somente se Deus realmente poderia ter feito diferentemente do que criar é que a criação pode ser por graça somente. A graça não pode ser compelida e ainda ser graça.

 A conclusão é, obviamente, que SE a criação e a redenção do mundo por Deus é verdadeiramente graciosa e não automática então Deus deve possuir livre-arbítrio libertário ou poder de escolha contrária. E se Deus possui, ele não pode ser um conceito incoerente.

 Agora, é outra coisa completamente diferente argumentar que Deus possui poder de escolha contrária, mas os humanos não possuem. Esse é um argumento diferente. A resposta natural é “Por quê?” Se Deus o possui, por que ele não poderia dá-lo aos humanos? Não parece haver nada com o poder de escolha contrária que exige deidade. Não é como a onipotência, por exemplo.

 Penso que Edwards ladeou a questão e da mesma forma fazem seus seguidores que repetem seu argumento de uma forma ou de outra. Dizer “Deus sempre faz a coisa mais sábia” é ou sugerir que Deus é um autômato, sendo que nesse caso a criação e a redenção são automáticas e não graciosas, ou sugerir que Deus PODERIA fazer aquilo que é algo diferente do que “a coisa mais sábia”.

 Eu rejeito a noção que “Deus sempre faz a coisa mais sábia”, não porque eu penso que Deus é algo menos do que absolutamente sábio, mas porque eu não creio que sempre há somente uma “coisa mais sábia” em toda situação de escolha entre opções. Para evitar tornar a criação e a redenção diferentes de graciosas, nós temos que supor que Deus realmente poderia ter escolhido não criar. Dizer “Deus sempre faz a coisa mais sábia” é sugerir que Deus realmente não poderia ter feito de outra forma.

 Dessa forma, o argumento calvinista de que o livre-arbítrio libertário, poder de escolha contrária, é um conceito incoerente cai sobre sua própria espada, a nãobser que o calvinista esteja disposto a tornar Deus prisioneiro de sua sabedoria, isto é, de sua natureza, de tal forma que a criação e a redenção não são graciosas.

_________ Fonte:  Arminianismo.com

_________ Tradução: Paulo Cesar Antunes

_________ Revisão:Magno Aquino

Será Que Fé É Um Dom?

Deixe um comentário

Jack Cottrell  

 

UMA QUESTÃO RECENTE: “Eu me deparei com um site de uma igreja que diz (ligeiramente abreviado): ‘Nós compartilhamos os valores da Reforma, os cinco “SOMENTES”[1]:

 SOMENTE CRISTO: Nós acreditamos que Jesus Cristo foi, é e sempre será totalmente Deus (Hb 13.8) e que ele se tornou completamente humano, tomando a natureza de um homem (Fp 2) e que ele veio para nos mostrar como é que Deus Pai é; quando você vê Jesus, vê Deus Pai (Jo 14.9).

 SOMENTE A GRAÇA: Nosso relacionamento com Deus começa com a Sua graça, continua pela Sua graça e termina com a Sua graça. (Fp 1.6)

 SOMENTE A FÉ: Somos libertos (salvos) por meio da fé em Jesus Cristo, e essa fé é um dom de Deus que é motivado pela Sua graça! (Ef 2.8, 9)

 SOMENTE A ESCRITURA: A Bíblia é a infalível e inerrante Palavra de Deus e é nossa primeira e última autoridade em todas as questões de fé e vida (2Tm 3.16). Nosso objetivo é ensinar o que a Bíblia ensina sobre cada tópico.

 GLÓRIA SOMENTE A DEUS: Para o cristão, a vida não é dividida em sacra e secular. Toda a vida é para ser vivida sob o Senhorio de Cristo (1Co 10.31).

 PERGUNTA: O que você acha disso, especialmente o terceiro ponto? Será que Efésios 2 diz que a fé é um dom de Deus?

 MINHA RESPOSTA: Este é um resumo comum e bastante preciso do ensino da Reforma. O ponto “Somente Cristo”, no entanto, é um tanto deturpado, visto que os principais reformadores certamente não teriam limitado o propósito de Cristo, dizendo simplesmente que “ele veio para nos mostrar como é que Deus Pai é”. Eles teriam dito, e com razão, que o propósito de Cristo era morrer e ressuscitar para nos salvar dos nossos pecados. Colocar a ênfase na atividade reveladora de Cristo, ao invés de colocá-la na sua obra redentora é o que eu chamo de “falácia cristológica”.[2]Isso leva a todos os tipos de problemas graves.[3]

 O questionador, no entanto, pergunta especificamente sobre o ponto “Somente a Fé.” Este ponto, “Somente a Fé” (uma visão da salvação que nega que o batismo é um evento de salvação), é muito típico das correntes de pensamento reformadas: a luterana e a calvinista. Tenho criticado este conceito em geral, em um esboço chamado “The Tyranny of the Paradigm – A Tirania do Paradigma”.[4] Procurar por um ensaio baseado nesse esboço, nas séries “Reflexões”, nas edições de 2010 da revista Christian Standard – Padrão Cristão.

 A visão “Somente a Fé” é sustentada tanto por calvinistas como por muitos não-calvinistas. O elemento específico da declaração – “Somente a Fé” – acima que é calvinista é a afirmação de que a fé é um dom de Deus, supostamente baseada em Ef 2.8-9. Os calvinistas (e todos os agostinianos) acreditam que todas as pessoas são totalmente depravadas, com uma total incapacidade para responder em fé ao Evangelho. Assim, Deus deve escolher (via eleição incondicional) quem Ele irá salvar (via graça irresistível). No momento da graça irresistível, o Espírito Santo primeiro regenera o pecador, depois lhe outorga o dom da fé. Ef 2.8 é usado como principal texto-prova para este último argumento.

 O ponto principal é que as regras da gramática grega eliminam qualquer possibilidade para essa interpretação de Ef 2.8. Veja esta citação do meu livro: “Alguns erroneamente concluem que Ef 2.8 diz que a fé é um dom: ‘Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus.’ Isto é desmentido, no entanto, pelas regras da gramática grega. A palavra grega para “fé” (pistis) é feminina no gênero; o pronome que se refere ao dom (‘isto’, touto) é neutro. Se o pronome estivesse se referindo à fé, ele também seria feminino na forma. (Não há palavra correspondente no grego para o pronome ‘impessoal’[5]). Esse versículo na verdade mostra que a fé NÃO é um dom, visto que a graça e a fé são cuidadosamente distinguidas. Somos salvos PELA graça, como a parte de Deus; porém, ATRAVÉS da fé, como a nossa parte, que é distinta da graça concedida. A fé NÃO é um dom da graça e resultado da regeneração; ela é uma resposta à graça e um pré-requisito para a regeneração”.[6]

 

Fonte: Arminianismo.com

 

Tradução: Cloves Rocha dos Santos

 


[1] Nota do tradutor: Ou Sós. Os cinco “Sós” ou “Somentes” em latim são as “cinco solas” e representam os princípios fundamentais da Reforma protestante do século dezesseis: 1) Sola fide (somente a fé); 2) Sola scriptura (somente a Escritura); 3) Solus Christus (somente Cristo); 4) Sola gratia (somente a graça); 5) Soli Deo gloria (glória somente a Deus). (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cinco_solas)

[2] Nota do tradutor: De acordo com Jack Cottrell, a “falácia cristológica”, resumidamente, é a suposição de que o propósito da encarnação de Jesus era apenas REVELADOR (“ele veio para nos mostrar como é que Deus, o Pai, é”) e não REDENTOR. Para Cottrell, a BÍBLIA, a Palavra de Deus, é que cumpre o propósito de REVELAÇÂO de Deus, e não Jesus. A encarnação de Jesus é uma das formas de revelação de Deus, porém o propósito da encarnação não era REVELAÇÃO de Deus, mas a REDENÇÂO do ser humano caído. Como REDENTOR Cristo é único; como REVELADOR Ele não é. Para uma maior compreensão ver a sua nota The Christological Fallacy – A Falácia Cristológica, na sua página pessoal do Facebook, cujo endereço é: http://www.facebook.com/note.php?note_id=188905515616.

[3] Veja o meu livro: Jack Cottrell, The Faith Once for All – A Fé de Uma Vez Por Todas (College Press, 2002), 24-25.     

[4] Disponível em:  http://www.ccuniversity.edu/seminary/files/2008/06/tyranny-of-paradigm.pdf.

[5] O pronome it (em inglês).

[6] Jack Cottrell, The Faith Once for All – A Fé de Uma Vez Por Todas (College Press, 2002), 200.

Atos 13: 48

Deixe um comentário

At 13.48[1]

John William McGarvey

A próxima afirmação de nosso historiador tem sido objeto de não pouca controvérsia. (48) “E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna.” A controvérsia gira em torno do significado da palavra traduzida “estavam ordenados” (ησαν τεταγμενοι). Escritores calvinistas são unânimes em relacioná-la à eleição eterna e à preordenação ensinada em seus credos. Se esta fosse a correta interpretação, ela implicaria algumas dificuldades que eles parecem não ter percebido. Se “todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” creram nesse dia, então todos os demais eram reprovados, e por estarem condenados à punição eterna, outra pregação de Paulo a eles seria inútil. Agora, é difícil explicar que tão completa separação em duas classes aconteceu por toda uma ampla comunidade em um único dia, e ainda mais difícil explicar que isto foi revelado a Lucas a fim de que ele pudesse registrá-la. Nossa surpresa é ainda maior quando lembramos que, segundo essa teoria, nem mesmo os próprios eleitos podem ter certeza de sua eleição. Certamente não devemos adotar uma conclusão tão anômala, a menos que sejamos obrigados a fazê-lo pela força óbvia das palavras empregadas. O Dr. Hackett, após traduzir a passagem, “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna”, diz: “Esta é a única tradução que a filologia da passagem permite.” Grimm, em seu léxico, expressa a ideia calvinista mais plenamente dando como significado, “tantos quantos foram apontados (por Deus) para a vida eterna, ou a quem Deus tinha decretado a vida eterna.”

A palavra assim traduzida é da raiz τάσσω, sendo o seu sentido primário colocar em ordem, ou, como Grimm expressa, colocar em certa ordem. Em combinação com δια ela é assim traduzida em 1Co 11.34: “Quanto às demais coisas, ordená-las-ei quando for.” Em somente um outra de suas oito ocorrências no Novo Testamento ela é traduzida ordenado, e nesta ela pode também ter sido traduzida pelo seu significado primário: “As potestades que há foram ordenadas [colocadas em ordem] por Deus” (Rm 13.1). É usualmente traduzida designar, como designar um lugar (Mt 28.16), designar algo a ser feito (At 22.10), designar um dia (28.23). Mas ao se fazer designações, a ordem é produzida da confusão ou falta de ordem precedente, e o significado primário da palavra não é perdido de vista neste seu uso. O mesmo é verdadeiro quando ela é aplicada a um ato mental. Quando a mente está confusa sobre um assunto, não sabendo o que pensar, e finalmente chega a uma conclusão ou propósito definido, os pensamentos são levados da confusão para a ordem, e este termo adequadamente expressa a mudança. Um exemplo notável é encontrado em 15.2, onde é dito dos irmãos em Antioquia que eles ouviram “não pequena discussão e contenda” entre Paulo e Barnabé de um lado e certos homens da Judéia de outro, com referência a uma questão vital. Enquanto esta divergência estava acontecendo, as pessoas comuns entre os irmãos e irmãs devem ter ficado na maior confusão, mas eles finalmente chegaram a uma conclusão quanto ao que devia ser feito, e esta mudança é expressa pela palavra em questão, “resolveu-se (τάσσω) que Paulo e Barnabé, e alguns dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão.” Assim verte a Versão Autorizada, e ela corretamente descreve a mudança mental que aconteceu. O Dr. Hackett afirma que o termo “não era utilizado para designar um ato da mente,”, mas a tradução a qual esta ideia o forçou é uma evidência conclusiva ao contrário. Ele verte a frase em questão, “eles designaram que eles subissem” etc., e nisto ele é seguido pelos autores da Versão Revisada. Isto não é um bom inglês. É um uso antigramatical de a palavra designar. Quando uma missão é determinada, nós designamos os indivíduos que serão enviados, mas não designamos que eles devam ir. Evidentemente a questão era a seguinte: os irmãos estavam inicialmente incertos quanto ao que fazer, e eles finalmente decidiram fazer o que fizeram. Nossa palavra inglesa disposto tem um uso similar. Ela significa arranjar em certa ordem, e se aplica primariamente a objetos externos, mas quando a mente de alguém está de acordo com certa norma, dizemos que ele está disposto a segui-la.

Mal precisamos observar, após estas observações, que o significado específico deste verbo em uma determinada passagem deve ser decidido pelo contexto. Na passagem diante de nós o contexto não apresenta nenhuma alusão a algo feito por Deus para uma parte da audiência, e não feito para a outra, ou a algum propósito firmado a respeito de uma e não de outra, mas fala de dois estados de mente contrastados entre o povo, e dois consequentes cursos de conduta. Dos judeus presentes é dito, em primeiro lugar, que eles estavam cheios de inveja; em segundo lugar, que eles estavam contradizendo o que Paulo falava, e blasfemavam; em terceiro lugar, que eles julgaram a si mesmos indignos da vida eterna. Em contraste com estes, os gentios, em primeiro lugar, estavam alegres; em segundo lugar, eles glorificavam a palavra de Deus; em terceiro lugar, eles estavam τεταγμενοι para a vida eterna. Agora, qual dos significados específicos da palavra grega iremos aqui inserir? Ela se encontra contrastada com o ato mental dos judeus ao julgarem-se indignos da vida eterna, e a lei da antítese exige que a entendamos de algum ato mental de natureza oposta. A versão estavam determinados, ou estavam dispostos para a vida eterna, é a única admitida pelo caso. O verbo está na voz passiva e no tempo passado, e, portanto, descreve um estado mental produzido antes do momento do qual o escritor está falando. Em outras palavras, a afirmação que “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” implica que eles foram levados a esta determinação antes que creram. Em algum momento anterior em sua história, estes gentios, que nasceram e foram educados no paganismo, ficaram sabendo da vida eterna como ela era ensinada pelos judeus. Sob o ensino dos judeus ou sob o ensino de Paulo desde sua chegada em Antioquia, ou sob ambos, eles foram levados de um estado de confusão mental sobre este assunto transcendentalmente importante a uma determinação para obter a vida eterna se possível. [2]

Observe que o estar determinado para a vida eterna, e o crer, encontram-se aqui como causa e efeito, ou pelo menos como antecedente e consequente. Isto não é anormal ou incomum. Um homem que aprendeu que a vida eterna deve ser obtida, e decidiu-se obtê-la se ela estiver dentro de sua capacidade, é o mesmo homem a prontamente aceitar o verdadeiro modo de obtê-la quando esse modo é claramente mostrado a ele, enquanto o homem que está demasiado absorto em questões terrenas de modo a estar indiferente à vida eterna é o mesmo homem a deixar o testemunho a respeito do modo de obtê-la entrar por um ouvido e sair pelo outro. Notamos o mesmo em todas as nossas congregações nos dias atuais. Dois homens sentam lado a lado sob o som do mesmo sermão evangélico; um está desperto para a importância da vida futura, enquanto o outro está absorto na vida presente. O último irá fazer-se de surdo para a pregação, incorrendo na reprovação de Paulo de julgar-se indigno da vida eterna, enquanto o primeiro crerá na boa mensagem, e se lançará ao trono de misericórdia. É precisamente esta diferença em relação à vida eterna que Lucas aqui indica, e ele a indica porque ela explica o fato que uma classe na audiência de Paulo creu, e a outra não. Ela deixa a responsabilidade para a crença e incredulidade, com suas eternas consequências, sobre o homem, e não sobre Deus.

Fonte: New Commentary on Acts of Apostles, Vol. 2, pp. 29-33

Tradução: Cloves Rocha dos Santos


[1] Nota do tradutor: J. W. McGarvey, em sua Introdução a este comentário, nota que escreveu a obra com o leitor em mente. Ele a projetou para ser lida mais como uma narrativa do que simplesmente como um livro de referência e encoraja os leitores a usá-la assim. Escrito no final do século 19, O Comentário sobre os Atos dos Apóstolos é um olhar versículo por versículo em Atos, que McGarvey acreditava que muitos teólogos não o havia compreendido antes. Ele cita um verbete de enciclopédia que ele acredita que melhor representa o livro: “O objetivo de Lucas, ao escrever Atos, era suprir, através de exemplos selecionados e adequados, uma ilustração do poder e da obra daquela religião que Jesus tinha morrido para estabelecer.” McGarvey foi professor boa parte de sua vida, assim seu comentário é preciso e fácil de entender. O livro de Atos, de fato, é um testemunho poderoso para a vida de Jesus e os crentes serão iluminados através das notas de McGarvey, únicas e intuitivas, sobre o texto.

[2] “Melhor, ‘tantos quantos estavam dispostos para. ’” (Plumptre). “Todos que, pela graça de Deus, desejavam agruparem-se nas fileiras daqueles que desejavam a vida eterna aceitaram a fé.” (Farrar, Life of Paul, 211). “Preferivelmente, estavam colocados em ordem para, isto é, dispostos para a vida eterna.” (Jacobson em Speakers Com.). “Tantos quantos estavam dispostos para a vida eterna. O significado da palavra disposto deve ser determinado pelo contexto. Os judeus se julgaram indignos da vida eterna; os gentios, tantos quantos estavam dispostos para a vida eterna, creram.” (Alford).


Pós-Calvinismo: 1. Dias de Estudante em Trinity

Deixe um comentário

Scot McKnight

Quando fui para Trinity no outono de 1976, a primeira coisa que notei foi quão intrincadas eram as discussões teológicas. Aquelas pessoas sabiam do que estavam falando e conheciam textos bíblicos, discussões teológicas e a história da Igreja. Tive certo trabalho para estar apto a participar dos debates. Foi um desafio pelo qual sou grato até hoje.

 

O Calvinismo não era uma questão prioritária, mas poderia surgir a qualquer momento, bastando que alguém desse alguma informação desencontrada. Tive alguns palestrantes maravilhosos: H. Dermott McDonald era um excêntrico teólogo de Londres que nos dizia que nosso plano de estudo era a biblioteca e que devíamos ir para lá estudar sobre “Deus, o Homem e Cristo”, e então voltar para fazer seu exame no final. David Wells ensinava Pecado e Salvação, e começou nos contando que sua mulher dizia que ele poderia ensinar a primeira metade da classe dando uma autobiografia. McDonald não era calvinista; Wells era. Meus professores de Novo Testamento não levantavam tais assuntos: Norm Ericsen e Murray Harris. Mas então Grant Osborne veio para TEDS (Trinity Evangelical Divinity School). (Assim, eu posso culpar Grant por esta jornada, o que ele ficaria feliz por obter os créditos).

 

Vou passar um relato do que aconteceu. Grant é famoso por seus panfletos, e ele tinha um sobre a Segurança Eterna. Era um folheto extenso e ele me pediu para trabalhar nele, adicionar alguma bibliografia e em geral reescrevê-lo. Foi uma grande tarefa para mim, mas era a primeira chance real que eu tive de fazer algo desse nível. Para me preparar, Grant sugeriu que eu lesse Kept by the Power of God, de I. Howard Marshall. O que eu fiz. De capa a capa; sublinhei algumas partes; tomei notas; consultei comentários. Levou um bom tempo. Quando fiz uma pausa em Hebreus, eu estava persuadido de que estava equivocado sobre o Calvinismo. Como C. S. Lewis subindo em um ônibus e então descendo convertido, mas não sabendo quando ou como, da mesma forma aconteceu comigo: do começo de meu trabalho com as notas de Grant até a leitura de Marshall e discutindo com ele até que ele me jogou ao chão e me imobilizou, eu me convenci de que não era mais calvinista. Isso não significa que eu abandonei a arquitetura do Calvinismo, mas apenas sua teologia.

 

Era e ainda é minha convicção de que os cinco pontos são interdependentes. Você pode abandonar o 5º de alguma forma (eu não acho que pode, mas alguns pensam que sim) e você precisaria adicionar um 6º (Responsabilidade), mas se o entendimento arminiano de “perder a salvação” está correto, então o Calvinismo não está correto. (Eventualmente irei mostrar por que eu não gosto da expressão “perder a salvação”.) Me deixa ser mais claro: se a graça de Deus pode ser resistida de alguma maneira, se os crentes podem de alguma forma escolher privar-se de sua salvação, então a eleição incondicional e a graça irresistível (e provavelmente a expiação limitada) e certamente a perseverança/preservação dos santos não estão corretas.

 

Encontrei duas grandes fraquezas na teologia do Calvinismo (e também uma desorientação em sua arquitetura): em primeiro lugar, a ênfase de sua arquitetura não é a ênfase da Bíblia. Seu foco na Soberania de Deus, o que muito rapidamente se torna muito menos uma doutrina de graça do que uma doutrina de controle e teodiceia, etc., e sua ênfase exagerada na depravação humana não são a ênfase que encontrei na Bíblia. Não estou contestando a presença destes temas; estou contestando que neles se encontram a gravidade da ênfase na Bíblia. Sim, eu sei que todos nós temos metanarrativas que reúnem todas as coisas, e o Calvinismo é uma dessas metanarrativas. Funciona para alguns; ele simplesmente não funciona para mim.

 

Em segundo lugar, considero deficiente, e algumas vezes completamente equivocada, a exegese do Calvinismo de passagens cruciais. Eu estava uma vez parado, anos após ter começado a lecionar em Trinity, em frente à porta de casa conversando com dois professores sobre minha visão de Hebreus, quando eu simplesmente fiz uma pergunta a um deles, “Quem você acha que melhor responde à interpretação arminiana de Hebreus?” Esse professor disse “Philip Hughes.” Eu tinha acabado de ler Hughes e o considerei fraco. De fato, o que eu pensei foi o seguinte: “Se esse é o melhor, então não há debate.” O outro professor disse, “Concordo Scot. Hughes não responde as questões.” Então ele disse, “Não tenho certeza se algum comentário realmente tenha uma resposta satisfatória.” (Esses dois professores eram calvinistas, e ainda são. Deus os abençoe.) O que estou dizendo é que conclusões exegéticas que eu estava tirando (em todos os tipos de passagens) não eram adequadamente respondidas pelos calvinistas que eu estava lendo. Eu acredito que dei a eles uma bela oportunidade.

 

Então, é aqui onde me encontrava quando parti para Nottingham fazer meu doutorado em Novo Testamento. Fui educado entre os batistas defensores da segurança eterna que pegavam o que gostavam do Calvinismo e desprezavam a maioria dos cinco pontos. Então eu me tornei mais consistentemente calvinista lendo os puritanos e Calvino.

 

Então eu li a Bíblia de um ponto de vista diferente e tudo veio abaixo. Se a Bíblia, assim concluí, ensina que alguém pode ser crente e de alguma forma privar-se desse estado, então a teologia do Calvinismo não pode estar correta.

 

Isto me deixou com uma mistura estranha de teologia: fui educado batista; tinha lido mais do que o necessário dos anabatistas da Igreja Baixa e me considerava um desses no que se refere a onde a teologização deve começar: com Jesus. E eu estava agora estudando a Bíblia com algumas conclusões arminianas sobre a soteriologia.

 

Após dois anos na TEDS inglesa, me ofereceram um emprego temporário para lecionar Novo Testamento que duraram dois anos, e então (pela graça de Deus) foi elevado para cargo integral quando Wayne Grudem, na providência de Deus, mudou para Teologia Sistemática.

 

Dentro de dois anos, fui requisitado a lecionar Hebreus em um curso acadêmico, e decidi passar meu verão inteiro realizando a exegese de Hebreus e estava determinado a me concentrar naquelas perturbadoras passagens de advertências para ver se eu poderia estabelecer as questões de uma vez por todas.

 

Se estiver certo sobre Hebreus, o Calvinismo está errado. O número de estudantes que escreveu ensaios de meio de semestre concordando comigo me deixou nervoso. Não foi nenhuma coincidência que um bem conhecido professor calvinista, a quem eu frequentemente chamava “D. A. qual é o nome dele?” na classe, começou a lecionar Hebreus logo depois.

 

Amanhã eu começarei sobre as passagens de advertências em Hebreus, sendo a mais famosa Hb 6.4-6. Eu acredito que posso provar que o autor acreditava que os “crentes” podiam privar-se de sua salvação.

Fonte: http://www.patheos.com/community/jesuscreed/2005/07/29/post-calvinism-trinity-student-days/

Tradução: Paulo Cesar Antunes




Opinião Calvinista da Queda da Ponte Distorce o Caráter de Deus

Deixe um comentário

Roger E. Olson

 


The Baylor Lariat, 28 de agosto de 2007

Onde Deus estava algumas semanas atrás quando a ponte interestadual desmoronou em Minneapolis?

Eu cruzei essa ponte muitas vezes em meus quinze anos nas Cidades Gêmeas de Minnesota. Assistir ao desastre mostrado na televisão trouxe de volta algumas recordações. Pude visualizar onde os dois lados da ponte davam – o centro de Minneapolis em uma direção e a Universidade de Minnesota na outra.

Que catástrofe esquisita. Uma ponte moderna, aparentemente bem projetada, em uma área metropolitana importante, desmoronou num piscar de olhos sem qualquer sinal de perigo.

Algo semelhante podia acontecer a qualquer um de nós a qualquer hora. Coisas semelhantes acontecem conosco ou com pessoas exatamente como nós – inesperadamente, expectadores inocentes passando pela vida são desagradavelmente surpreendidos por alguma tragédia estranha.

Então, onde Deus está quando surge uma calamidade aparentemente sem propósito? Alguns religiosos dizem, “Foi a vontade de Deus.” Aqui, vamos nos concentrar apenas nos cristãos.

Um famoso autor e orador cristão pastoreia uma igreja a uma distância de uns dois quilômetros da ponte caída. Para ele e seus seguidores, Deus preordenou, planejou e indiretamente (se não diretamente) causou o evento.

Uma banda de música cristã popular canta “há uma razão” para tudo. Eles querem dizer que Deus torna todas as coisas certas e tem um propósito bom para tudo que acontece. O pastor e a banda são cristãos deterministas. Ambos por acaso crêem numa forma de teologia protestante chamada Calvinismo.

Esta teologia está arrastando milhares de jovens cristãos facilmente influenciáveis. Ela fornece uma resposta aparentemente simples para o problema do mal. Até mesmo o que chamamos mal é planejado e tornado certo por Deus porque ele é necessário para um bem maior.

Mas, espere. E quanto ao caráter de Deus? Então Deus é o autor do mal? A maioria dos calvinistas não quer dizer que sim. Mas a lógica parece exigir esta conclusão. Se Deus planeja algo e o torna certo, como Ele não é responsável por ele? É aqui onde as coisas ficam obscuras.

Alguns calvinistas dirão que Ele não é culpado porque Ele tem uma boa intenção pelo evento – tirar o bem dele, mas a Bíblia expressamente proíbe fazer o mal para que venha o bem.

Muitos cristãos conservadores se assustam com a idéia de que Deus está limitado. Mas o que acontece se Deus se limita para que muito do que acontece no mundo seja devido à finitude e degradação humana? O que acontece se Deus está no comando, mas não no controle? O que acontece se Deus deseja que as coisas possam ser de outra forma e algum dia tornará perfeitas todas as coisas?

Esse parece mais o Deus da Bíblia do que a divindade que tudo determina do Calvinismo.

Neste mundo, por causa de nossa ignorância e corrupção, coisas realmente ruins muitas vezes acontecem e pessoas fazem coisas realmente más e perversas. Não porque Deus secretamente as planeja e as estimula, mas porque Deus disse às pessoas caídas, pecadoras, “Ok, não seja feita a minha vontade, mas a sua – por enquanto.”

E Deus diz, “Orem, porque às vezes eu posso intervir para impedir o sofrimento inocente quando as pessoas orarem; essa é uma de minhas auto-limitações. Eu não quero fazer tudo isto sozinho; eu quero seu envolvimento e participação para fazer deste um mundo melhor.”

É uma descrição diferente de Deus daquela com que a maioria dos cristãos conservadores cresceu, mas é a única (até onde posso dizer) que livra Deus da responsabilidade pelo pecado, pelo mal, pelo desastre e pela calamidade.

O Deus do Calvinismo me assusta; Eu não sei direito como distingui-lo do diabo. Se você sofreu influência do Calvinismo, pense em suas conseqüências para o caráter de Deus. Deus é grande, mas também é bom. Em vista de todo o mal e sofrimento inocente no mundo, ele deve ter limitado a si mesmo.

____________________________________________________________________________________________

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Dr. Roger Olson é professor de teologia no George W. Truett Theological Seminary

Fonte: Arminianismo.com

 

Older Entries