Por Quem Cristo Morreu?

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Ben Witherington III  

 

Cristo morreu pelos pecados do mundo e para resgatar o mundo. 1Tm 2.4, 5 propõe a questão de forma sucinta. Deus nosso Salvador “quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.  O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.” Podemos comparar esta passagem com Jo 3.17, “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele,” ou com o repetido refrão em Hebreus que Cristo morreu de uma vez por todas, por todas as pessoas, e assim por diante.

 Mas esta não é uma questão de apenas encontrar textos-prova suficientes (dos quais há muito mais), é uma questão da própria teologia do caráter de Deus. Deus é amor, amor santo, para ser exato, mas não obstante amor, e como diz 1Tm 2.4, o desejo do coração de Deus é que todas as pessoas sejam salvas. Não são apenas os eleitos que Deus ama, mas como diz Jo 3.16, o mundo, por quem Cristo foi enviado para morrer. Segue disto que a morte expiatória de Cristo é suficiente para a salvação de todas as pessoas, mas somente eficiente para aqueles que respondem em fé à graciosa provisão divina de redenção.

 Ainda mais fundamental é o entendimento do significado de dizer que Deus é amor. Entre outras coisas, isto significa que Deus está comprometido em relacionar-se em amor com os que foram criados à sua imagem. Agora, amor verdadeiro deve ser livremente dado e livremente recebido. Ele não pode ser predeterminado, manipulado, coagido ou de outra forma, que ele se torna contrário ao que a Bíblia diz que o amor é (veja 1Co 13). No debate entre se a característica primária de Deus é sua soberania ou seu amor, parece claro que Deus exerce seu poder em amor e para fins amorosos. Mesmo seus atos de julgamento, com exceção do julgamento final, não têm a intenção de ser punitivos, mas, antes, corretivos e restaurativos. Deus, em resumo, é diferente dos seres humanos vingativos, muito diferente deles. Dessa forma, Oséias relata que Deus diz “As minhas compaixões a uma se acendem. Não executarei o furor da minha ira… porque eu sou Deus e não homem,” (Os 11.8, 9). Deus, o pai divino, não é menos amoroso do que o melhor dos pais humanos, Ele é mais. Se Cristo é a perfeita encarnação do caráter de Deus, então a resposta à pergunta ‘por quem Cristo morreu?’ torna-se teologicamente auto-evidente – pelo mundo que Deus criou e ainda ama.

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Tradução: Paulo Cesar Antunes

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Fonte: Arminianismo

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O Que John Wesley Praticou e Ensinou Sobre o Dinheiro?

1 Comentário

Charles Edward White 

John Wesley pregou muitas vezes sobre o uso do dinheiro. Possuindo provavelmente o maior salário já recebido na Inglaterra, ele teve oportunidades de colocar suas ideias em prática. O que ele disse a respeito do dinheiro? E o que fez com o próprio dinheiro?

 John Wesley experimentou uma pobreza opressiva quando criança. Seu pai, Samuel Wesley, era pastor anglicano numa das paróquias que pagavam os menores salários do país. Ele tinha dezenove filhos para sustentar e raramente ficava sem dívidas. Uma vez John viu seu pai sendo levado para a prisão dos devedores. Portanto, quando seguiu seu pai no ministério, não tinha ilusão alguma acerca das recompensas financeiras.

 É provável que tenha sido uma surpresa para John Wesley que, embora Deus o houvesse chamado para mesma vocação de seu pai, não o havia chamado para ser tão pobre quanto ele. Em vez de ser pastor numa paróquia, John sentiu a direção de Deus para ensinar na Universidade de Oxford. Lá, ele foi escolhido para ser membro do conselho do Lincoln College. Sua posição lhe garantia pelo menos trinta libras por ano, mais do que o suficiente para um rapaz solteiro viver. John parecia desfrutar de sua relativa prosperidade. Gastou seu dinheiro em jogos de cartas, tabaco e conhaque.

 Enquanto estava em Oxford, um incidente transformou sua perspectiva acerca do dinheiro. Ele havia acabado de comprar alguns quadros para colocar em seu quarto, quando uma das camareiras chegou à sua porta. Era um dia frio de inverno, e ele notou que ela não tinha nada para se proteger, exceto uma capa de linho. Ele enfiou a mão no bolso para dar-lhe algum dinheiro para comprar um casaco, mas percebeu que havia sobrado bem pouco. Imediatamente, ficou perplexo com o pensamento de que Deus não havia se agradado pela forma como havia gasto seu dinheiro. Ele perguntou a si mesmo: O mestre me dirá “Muito bem servo bom e fiel”? Tu adornaste as paredes com o dinheiro que poderia ter protegido essa pobre criatura do frio! Ó justiça! Ó misericórdia! Esses quadros não são o sangue dessa pobre empregada?

O que Wesley fez? 

Talvez, como resultado desse incidente, em 1731, Wesley começou a limitar seus gastos para que pudesse ter mais dinheiro para dar aos pobres. Ele registrou que, em determinado ano, sua renda fora de 30 libras, suas despesas, 28, assim, tivera duas libras para dar. No ano seguinte, sua renda dobrou, mas ele continuou administrando seus gastos para viver com 28, desse modo, restaram-lhe 32 libras para dar aos pobres. No terceiro ano, sua renda saltou para 90 libras. Em vez de deixar suas despesas crescerem juntamente com sua renda, ele as manteve em 28 e doou 62 libras. No quarto ano, recebeu 120 libras. Do mesmo modo que antes, suas despesas se mantiveram em 28 libras e, assim, suas doações subiram para 92. 

Wesley sentia que o crente não deveria simplesmente dar o dízimo, mas dar toda sua renda excedente, uma vez que já tivesse suprido a família e os credores. Ele cria que com o crescimento da renda, o que deveria aumentar não era o padrão de vida, mas sim o padrão de doações.

 Essa prática começou em Oxford e continuou por toda a sua vida. Mesmo quando sua renda ultrapassou mil libras esterlinas, ele viveu de modo simples, doando rapidamente seu dinheiro excedente. Houve um ano em que seu salário superou 1400 libras. Ele viveu com 30 e doou aproximadamente 1400. Por não ter uma família para cuidar, não precisava poupar. Ele tinha medo de acumular tesouros na terra, portanto, seu dinheiro ia para as obras de caridade assim que chegava às suas mãos. Ele registrou que nunca permaneceu com 100 libras.

 Wesley limitava suas despesas, não adquirindo coisas que eram tidas como essenciais para um homem de sua posição. Em 1776, os fiscais de impostos inspecionaram suas restituições e lhe escreveram a seguinte sentença: “Não temos dúvidas de que o senhor possui algumas baixelas de prata para cada item que o senhor não declarou até agora”. Eles queriam dizer que um homem proeminente como ele, certamente possuía alguns pratos de prata em sua casa, e o acusavam de sonegação. Wesley lhes respondeu: “Tenho duas colheres de prata em Londres e duas em Bristol. Essa é toda a prata que possuo no momento e não comprarei mais prata alguma, visto que muitos ao meu redor almejam por pão”.

 A outra forma pela qual Wesley limitava seus gastos era identificando-se com os pobres. Ele pregava que os crentes deveriam se considerar como membros dos pobres, a quem Deus havia dado dinheiro para ajudá-los. Portanto, ele vivia e comia com os pobres. Sob a liderança de Wesley, a igreja Metodista de Londres estabeleceu dois abrigos para viúvas na cidade. Elas eram sustentadas pelas ofertas recolhidas nos encontros e nas celebrações da Ceia do Senhor. Em 1748, nove viúvas, uma mulher cega e duas crianças viviam ali. Juntamente com elas, vivia John Wesley e outro pregador metodista que se encontrava na cidade naquela ocasião. Wesley se alegrava em comer da mesma comida que elas, à mesma mesa, antevendo o banquete celestial que todos os crentes compartilharão.

 Durante quatro anos, a dieta de Wesley consistia principalmente em batatas, em partes para melhorar sua saúde, mas também para economizar dinheiro. Ele dizia: “Aquilo que eu guardo para comprar carne pode alimentar alguém que não possui comida alguma”. Em 1744, Wesley escreveu: “Quando eu morrer, se eu deixar dez libras para trás… você e toda a humanidade poderão testemunhar contra mim, dizendo que tenho vivido e morrido como um ladrão e salteador”. Quando ele morreu em 1791, o único dinheiro que estava em sua posse eram algumas moedas, encontradas em seus bolsos e em sua gaveta de roupas.

 O que havia acontecido ao restante do dinheiro que ele ganhara em toda a sua vida, uma quantia estimada em trinta mil libras?[1] Ele o havia doado. Como Wesley havia dito: “Não poderei evitar deixar meus livros para trás quando Deus me chamar, porém minhas próprias mãos executarão a doação de todas as demais coisas”.

O que Wesley Pregou?

 O ensino de Wesley sobre o dinheiro oferece diretrizes simples e práticas para qualquer cristão.

 A primeira regra de Wesley acerca do dinheiro era “Ganhe o máximo que puder”. Apesar de seu potencial para o mau uso, o dinheiro em si é algo bom. O bem que ele pode fazer é infinito: “Nas mãos dos filhos de Deus, ele é comida para os famintos, água para os sedentos, roupas para os que estão descobertos. Ele dá ao viajante e ao estrangeiro um lugar onde pousar a cabeça. Por meio dele, podemos manter a viúva, no lugar de seu marido, e aos órfãos, no lugar de seu pai. Podemos ser uma defesa para os oprimidos, levar saúde aos doentes e alívio aos que têm dor. Ele pode ser como olhos para o cego, como pés para o coxo e como o socorro para livrar alguém dos portões da morte”!

 Wesley acrescenta que ao ganhar o máximo que podem, os crentes devem ser cuidadosos para não prejudicar sua própria alma, mente e corpo ou a alma, mente e corpo de quem quer seja. Desse modo, ele proibiu o ganho de dinheiro em empresas que poluem o meio ambiente ou causam danos aos trabalhadores.

 A segunda regra de Wesley para o uso correto do dinheiro era “Poupe o máximo que puder”. Ele insistiu para que seus ouvintes não gastassem dinheiro somente para satisfazer a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. Ele clamava contra comidas caras, roupas luxuosas e móveis elegantes. “Cortem todas essas despesas! Desprezem as iguarias e a variedade, e estejam contentes com o que a simples natureza requer”.

 Wesley tinha duas razões para dizer aos crentes para comprarem somente o necessário. Uma era óbvia: para que não desperdiçassem dinheiro. A segunda era para que seus desejos não aumentassem. O antigo pregador destacou sabiamente que, quando as pessoas gastam dinheiro em coisas que, de fato, não precisam, elas começam a desejar mais coisas das quais não precisam. Em vez de satisfazerem aos seus desejos, elas apenas os fazem aumentar: “Quem dependeria de qualquer coisa para satisfazer esses desejos, se considerasse que satisfazê-los é o mesmo que fazê-los crescer? Nada é mais verdadeiro do que isto: A experiência diária demonstra que quanto mais os satisfazemos, mais eles aumentam”.

 Wesley advertiu principalmente sobre a questão de comprarmos muitas coisas para os filhos. Pessoas que raramente gastam dinheiro consigo mesmas podem ser bem mais indulgentes com seus filhos. Ao ensinar o princípio de que gratificar um desejo desnecessariamente tende a intensificá-lo, ele perguntou a esses pais bem-intencionados: “Por que você compraria para eles mais orgulho ou cobiça, mais vaidade, tolice e desejos prejudiciais? …Por que você teria um gasto extra apenas para trazer-lhes mais tentações e ciladas, e para  transpassá-los com mais tristezas”.

 A terceira regra de John Wesley era “Doe o máximo que puder”. A oferta de uma pessoa deve começar com o dízimo. Ele disse àqueles que não dizimavam: “Não há dúvidas de que vocês têm colocado o seu coração no seu ouro”. E advertia: “Isso ‘consumirá sua carne como o fogo’”! Entretanto, a oferta de uma pessoa não deve se limitar ao dízimo. Todo o dinheiro dos crentes pertence a Deus, não apenas a décima parte. Os crentes devem usar 100% de sua renda da forma como Deus direcionar.

 E como Deus direciona os crentes a usarem sua renda? Wesley listou quatro prioridades bíblicas:

 1. Providencie o que é necessário para você e sua família (1Tm 5.8). O crente deve estar certo de que sua família possui suas necessidades e comodidades supridas, ou seja, “quantidade suficiente de uma comida modesta e saudável para comer, e roupas adequadas para vestir”. O crente também deve garantir que a família tenha o suficiente para viver caso haja imprevistos em relação ao seu ganha-pão.

 2. “Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes” (1Tm 6.8). Wesley acrescentou que a palavra traduzida para “vestir” é literalmente “cobrir”, o que inclui tanto moradia como roupas. “Conclui-se claramente que tudo o que tivermos além dessas coisas, no sentido empregado pelos apóstolos, é riqueza – tudo quanto estiver além das necessidades, ou no máximo, além das comodidades da vida. Qualquer um que tenha comida suficiente para comer, roupas para vestir, um lugar onde repousar a cabeça, e mais alguma outra coisa, é rico”.

 3. Providencie o necessário para “fazer o bem perante todos os homens” (Rm 12.17) e não fique devendo nada a ninguém (Rm 13.8). Wesley disse que a reivindicação pelo dinheiro do crente que se seguia à família era a reivindicação dos credores. Ele acrescentou que aqueles que dirigiam o próprio negócio deveriam ter ferramentas adequadas, estoque ou o capital necessário para manter seu negócio.

 4. “Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (Gl 6.10). Após o crente ter provido o necessário para a família, credores e para o próprio negócio, sua próxima obrigação é utilizar todo o dinheiro que sobrou para suprir as necessidades dos outros.

 Ao dar esses quatro princípios bíblicos, Wesley reconheceu que algumas situações não são assim tão claras. A forma como os crentes devem usar o dinheiro de Deus nem sempre é óbvia. Por essa razão, ele ofereceu quatro perguntas para ajudar seus ouvintes a decidirem como gastar seu dinheiro:

 1. Ao gastar o dinheiro, estou agindo como se o possuísse ou como se fosse o curador de Deus?

 2. O que as Escrituras exigem de mim ao gastar o dinheiro dessa maneira?

 3. Posso oferecer essa compra como um sacrifício a Deus?

 4. Deus me recompensará por esse gasto na ressurreição dos justos?

Finalmente, para um crente que ainda estivesse perplexo, John Wesley sugeriu a seguinte oração antes de realizar uma compra:

 “Senhor, tu vês que estou para gastar esta quantia naquela comida, naquela roupa ou naquele móvel. Tu sabes que estou agindo com sinceridade nessa questão; como um mordomo de teus

bens; gastando uma porção dele desta maneira, em conformidade com o desígnio que tu tens ao confiá-los a mim. Sabes que faço isso em obediência à tua Palavra, conforme tu ordenas e porque tu o ordenas. Peço-te que isso seja um sacrifício santo e aceitável a Ti, por meio de Jesus Cristo! Dá-me testemunho em mim mesmo de que, por meio desse esforço de amor, serei recompensado quando Tu recompensares a cada homem segundo as suas obras”. Ele estava confiante que qualquer crente de consciência limpa que fizesse essa oração usaria o seu dinheiro com sabedoria.

Fonte: Site arminianismo.com

Será Que Fé É Um Dom?

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Jack Cottrell  

 

UMA QUESTÃO RECENTE: “Eu me deparei com um site de uma igreja que diz (ligeiramente abreviado): ‘Nós compartilhamos os valores da Reforma, os cinco “SOMENTES”[1]:

 SOMENTE CRISTO: Nós acreditamos que Jesus Cristo foi, é e sempre será totalmente Deus (Hb 13.8) e que ele se tornou completamente humano, tomando a natureza de um homem (Fp 2) e que ele veio para nos mostrar como é que Deus Pai é; quando você vê Jesus, vê Deus Pai (Jo 14.9).

 SOMENTE A GRAÇA: Nosso relacionamento com Deus começa com a Sua graça, continua pela Sua graça e termina com a Sua graça. (Fp 1.6)

 SOMENTE A FÉ: Somos libertos (salvos) por meio da fé em Jesus Cristo, e essa fé é um dom de Deus que é motivado pela Sua graça! (Ef 2.8, 9)

 SOMENTE A ESCRITURA: A Bíblia é a infalível e inerrante Palavra de Deus e é nossa primeira e última autoridade em todas as questões de fé e vida (2Tm 3.16). Nosso objetivo é ensinar o que a Bíblia ensina sobre cada tópico.

 GLÓRIA SOMENTE A DEUS: Para o cristão, a vida não é dividida em sacra e secular. Toda a vida é para ser vivida sob o Senhorio de Cristo (1Co 10.31).

 PERGUNTA: O que você acha disso, especialmente o terceiro ponto? Será que Efésios 2 diz que a fé é um dom de Deus?

 MINHA RESPOSTA: Este é um resumo comum e bastante preciso do ensino da Reforma. O ponto “Somente Cristo”, no entanto, é um tanto deturpado, visto que os principais reformadores certamente não teriam limitado o propósito de Cristo, dizendo simplesmente que “ele veio para nos mostrar como é que Deus Pai é”. Eles teriam dito, e com razão, que o propósito de Cristo era morrer e ressuscitar para nos salvar dos nossos pecados. Colocar a ênfase na atividade reveladora de Cristo, ao invés de colocá-la na sua obra redentora é o que eu chamo de “falácia cristológica”.[2]Isso leva a todos os tipos de problemas graves.[3]

 O questionador, no entanto, pergunta especificamente sobre o ponto “Somente a Fé.” Este ponto, “Somente a Fé” (uma visão da salvação que nega que o batismo é um evento de salvação), é muito típico das correntes de pensamento reformadas: a luterana e a calvinista. Tenho criticado este conceito em geral, em um esboço chamado “The Tyranny of the Paradigm – A Tirania do Paradigma”.[4] Procurar por um ensaio baseado nesse esboço, nas séries “Reflexões”, nas edições de 2010 da revista Christian Standard – Padrão Cristão.

 A visão “Somente a Fé” é sustentada tanto por calvinistas como por muitos não-calvinistas. O elemento específico da declaração – “Somente a Fé” – acima que é calvinista é a afirmação de que a fé é um dom de Deus, supostamente baseada em Ef 2.8-9. Os calvinistas (e todos os agostinianos) acreditam que todas as pessoas são totalmente depravadas, com uma total incapacidade para responder em fé ao Evangelho. Assim, Deus deve escolher (via eleição incondicional) quem Ele irá salvar (via graça irresistível). No momento da graça irresistível, o Espírito Santo primeiro regenera o pecador, depois lhe outorga o dom da fé. Ef 2.8 é usado como principal texto-prova para este último argumento.

 O ponto principal é que as regras da gramática grega eliminam qualquer possibilidade para essa interpretação de Ef 2.8. Veja esta citação do meu livro: “Alguns erroneamente concluem que Ef 2.8 diz que a fé é um dom: ‘Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus.’ Isto é desmentido, no entanto, pelas regras da gramática grega. A palavra grega para “fé” (pistis) é feminina no gênero; o pronome que se refere ao dom (‘isto’, touto) é neutro. Se o pronome estivesse se referindo à fé, ele também seria feminino na forma. (Não há palavra correspondente no grego para o pronome ‘impessoal’[5]). Esse versículo na verdade mostra que a fé NÃO é um dom, visto que a graça e a fé são cuidadosamente distinguidas. Somos salvos PELA graça, como a parte de Deus; porém, ATRAVÉS da fé, como a nossa parte, que é distinta da graça concedida. A fé NÃO é um dom da graça e resultado da regeneração; ela é uma resposta à graça e um pré-requisito para a regeneração”.[6]

 

Fonte: Arminianismo.com

 

Tradução: Cloves Rocha dos Santos

 


[1] Nota do tradutor: Ou Sós. Os cinco “Sós” ou “Somentes” em latim são as “cinco solas” e representam os princípios fundamentais da Reforma protestante do século dezesseis: 1) Sola fide (somente a fé); 2) Sola scriptura (somente a Escritura); 3) Solus Christus (somente Cristo); 4) Sola gratia (somente a graça); 5) Soli Deo gloria (glória somente a Deus). (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cinco_solas)

[2] Nota do tradutor: De acordo com Jack Cottrell, a “falácia cristológica”, resumidamente, é a suposição de que o propósito da encarnação de Jesus era apenas REVELADOR (“ele veio para nos mostrar como é que Deus, o Pai, é”) e não REDENTOR. Para Cottrell, a BÍBLIA, a Palavra de Deus, é que cumpre o propósito de REVELAÇÂO de Deus, e não Jesus. A encarnação de Jesus é uma das formas de revelação de Deus, porém o propósito da encarnação não era REVELAÇÃO de Deus, mas a REDENÇÂO do ser humano caído. Como REDENTOR Cristo é único; como REVELADOR Ele não é. Para uma maior compreensão ver a sua nota The Christological Fallacy – A Falácia Cristológica, na sua página pessoal do Facebook, cujo endereço é: http://www.facebook.com/note.php?note_id=188905515616.

[3] Veja o meu livro: Jack Cottrell, The Faith Once for All – A Fé de Uma Vez Por Todas (College Press, 2002), 24-25.     

[4] Disponível em:  http://www.ccuniversity.edu/seminary/files/2008/06/tyranny-of-paradigm.pdf.

[5] O pronome it (em inglês).

[6] Jack Cottrell, The Faith Once for All – A Fé de Uma Vez Por Todas (College Press, 2002), 200.

A Abordagem Clássica-Teológica para a Perseverança e Apostasia: G. C. Berkouwer

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B. J. Oropeza  

 

Durante a segunda metade do século 20, G. C. Berkouwer fez uma contribuição teológica na área da apostasia e perseverança com sua obra intitulada Faith and Perseverance (1958). Berkouwer combina as primeiras  confissões protestantes com a Escritura para chegar à sua percepção da perseverança. Ele sugere que as passagens que parecem contrárias à doutrina da perseverança são meios que Deus usa para levar os santos a confiar em Deus. [1] A obediência é, portanto, um fator importante. Todavia, as passagens que parecem alertar contra o perigo de apostasia não exaurem a realidade da graça de Deus. [2] A perseverança, que é efetuada no crente através da oração, pregação e sacramentos, pode somente ser mantida em fé através da graça de Deus. Dessa forma, a perseverança é um dom que é selado pela fé. Os cristãos perseveram quando deixam de confiar em si mesmos e descansam na graça perseverante de Deus. [3]Berkouwer conclui, “Quando os pais reformados falaram sobre a consolação da perseverança, eles tinham a graça de Deus em mente. Por essa razão, a doutrina da perseverança, na medida em que ela reconhece sua dependência da graça, nunca pode ser uma mera abstração que torna uma continuidade de vida sem resultados”. [4]

 

O argumento de Berkouwer que as admoestações bíblicas são meios pelos quais Deus realiza a perseverança não é nada novo. [5] Este ponto de vista não é livre de fraquezas. Se os eleitos não fossem admoestados, eles então seriam capazes de apostatar-se? Se não, qual é exatamente a distinção ou importância especial que o tema da advertência tem no Novo Testamento? Devemos supor que, juntamente com a graça, as advertências são necessariamente eficazes aos eleitos, mas não aos não eleitos? Mesmo se supormos que isto é concebível, em vista de outras opções, ela é a mais provável? Isto é, se Berkouwer desvencilhar-se de suas pressuposições reformadas, ele teria honestamente chegado às mesmas conclusões? Sua perspectiva carece de evidência dos próprios autores do Novo Testamento. Será que eles acreditavam que ouvir ou ler suas advertências operava ou causava a perseverança eficaz entre os eleitos? Se formos examinar as passagens de advertências à luz de seus respectivos contextos, não consideraríamos uma melhor opção afirmar que pelo menos alguns dos escritores supunham que seus leitores fossem crentes genuínos que estavam em sério perigo de apostasia? Parece que a interpretação de Berkouwer é oferecida mais na tentativa de preservar o sistema reformado do que ser inteiramente fiel ao pleno efeito das passagens de advertências.

 

Berkouwer começa seu estudo citando as confissões reformadas antes de seguir para a Escritura. [6] Não é nenhuma surpresa, então, que ele classifica a perseverança sob a categoria da graça e não examina cuidadosamente as passagens que podem estar associadas à apostasia. Doutrinas centrais às confissões reformadas tornam-se a pressuposição com a qual todas as passagens bíblicas devem conformar-se. Por outro lado, outro método teológico não faz melhor se começar com passagens que podem estar relacionadas à apostasia, mas então insere neste um sistema que interpreta mal as passagens sobre a perseverança, eleição e predestinação. Se teólogos sistemáticos mitigam a doutrina da apostasia por meio da eleição, ou a eleição por meio da apostasia, sua abordagem frequentemente torna-se pouco mais do que uma repetição dos velhos dogmas calvinistas ou arminianos com, talvez, o benefício adicional de adotar e sistematizar passagens bíblicas que foram interpretadas através da exegese tradicional-apostólica. [7]

 

O que falta em Berkouwer e outras obras teológicas é a análise de passagens à luz de seu ambiente socio-histórico, cultural e retórico. Deve-se tentar entender o que um tema bíblico significava aos destinatários originais. Uma base inicial falha inevitavelmente leva a uma trajetória falha. As suposições de Berkouwer convencem apenas aqueles que compartilham de suas opiniões reformadas. Aos de fora, seus argumentos soam como casos de argumentação tendenciosa. Outro problema relacionado é que a sistematização de passagens tem a tendência de fazer Paulo, João, os textos sinóticos e outros escritores ou escritos do Novo Testamento afirmarem essencialmente a mesma coisa, sem apresentar qualquer real diversidade sobre as questões da perseverança e apostasia.

 Fonte: Arminianismo

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] BERKOUWER (1958), 97-121.

[2] Berkouwer escreve, “Se algo é certo é isto, que de acordo com as Escritura, a graça de Deus não cessa diante dos limites da liberdade de escolha humana” (1958:90).

[3] BERKOUWER, 234-36 cf. 106, 213.

[4] BERKOUWER, 238.

[5] Cf. DODDRIDGE (1802-06) antes da época de Berkhouwer e SCHREINER (1998) posteriormente.

[6] BERKOUWER, 19.

[7] A visão de Berkouwer parcialmente motivou a obra de Shank (1961), uma resposta wesleyana-arminiana para a perseverança e apostasia (1961:165-78). A obra de Sellers (1987), que defende a visão calvinista, é, por sua vez, uma resposta a Shank.

Os Cinco Pontos do Calvinismo – introdução

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George L. Bryson

INTRODUÇÃO

 

Por mais de uma década fui entrevistador de um talk show cristão chamado “Biblicamente Falando.” Em muitas ocasiões diferentes, o tópico Calvinismo em geral, e os Cinco Pontos do Calvinismo em particular, era trazido por mim, por um convidado do palco ou por alguém no telefone. Posso claramente me lembrar de uma discussão na qual um convidado calvinista estava debatendo com um arminiano no telefone sobre a questão de se ou não a predestinação era ensinada na Escritura. Quando a questão diante de nós era simplesmente uma questão de afirmar ou negar a predestinação, eu parecia estar do lado do meu convidado calvinista.

O arminiano se surpreendeu com o meu acordo com meu convidado porque ele incorretamente pensava que eu devia ser calvinista por causa deste acordo. Quando expliquei a ele que eu não era calvinista, sua surpresa se transformou em confusão.

Afirmação vs. Definição

Meu convidado então admitiu que ele também ficou surpreso, se não confuso, pois ele também equivocadamente supunha que eu era calvinista porque concordei que a predestinação era ensinada na Escritura. O erro que ambos, meu convidado calvinista e o ouvinte arminiano, tinham cometido era supor que a peculiaridade do Calvinismo é a afirmação calvinista da predestinação. Entretanto, não é a afirmação dos calvinistas desta doutrina que os distingue de outros evangélicos. Antes, é a definição da predestinação pelos calvinistas que os distingue de outros crentes ortodoxos e evangélicos. O estudioso calvinista bastante popular, R. C. Sproul, em seu livro dedicado a definir e defender a visão calvinista da predestinação chama a mesma atenção para este ponto. Ele diz:

Virtualmente, todas as igrejas cristãs têm alguma doutrina formal sobre predestinação. Se a Bíblia é a Palavra de Deus e não mera especulação humana, e se Deus, Ele mesmo, declara que existe tal coisa chamada predestinação, então se segue inevitavelmente que devemos abraçar alguma doutrina de predestinação. [1]

As peculiaridades e as doutrinas do Calvinismo estão (relativas à doutrina da salvação) mais evidentes nos Cinco Pontos do Calvinismo. Para entender os Cinco Pontos como os calvinistas os entendem, você deve vê-los como a expressão da definição calvinista da predestinação. A definição calvinista da predestinação deve por sua vez ser vista como a base da doutrina calvinista da salvação.

O Acróstico de Cinco Pontos

Uma maneira simples e comum de se lembrar dos Cinco Pontos do Calvinismo é usando o acrônimo TULIP.

 

T = Total Depravity (Depravação Total)

U = Unconditional Election (Eleição Incondicional)

L = Limited Atonement (Expiação Limitada)

I = Irresistible Grace (Graça Irresistível)

P = Perseverance of the Saints (Perseverança dos Santos)

 

Embora reconhecendo certo valor no uso deste acrônimo, Sproul também expressa algumas sérias reservas. Ele diz:

Esta lista tem ajudado muitas pessoas a se lembrarem das peculiaridades da teologia reformada. Infelizmente, tem também causado grande confusão e desentendimento. [2]

5 Afirmações ou 5 Doutrinas

Quando fala sobre os Cinco Pontos, um calvinista pode estar se referindo às breves afirmações associadas ao acrônimo TULIP (isto é, Depravação Total, Eleição Incondicional, etc.) ou às verdadeiras doutrinas que são identificadas por estas afirmações e pelas quais o acrônimo serve de lembrete. Você não pode entender a(s) doutrinas(s) dos Cinco Pontos simplesmente lendo muito breves afirmações associadas a estas doutrinas. Isto é, há um significado calvinista específico que deve ser ligado a estas afirmações a fim de que elas sejam entendidas calvinisticamente.

Isto não deve ser encarado como uma crítica das cinco afirmações, pois nunca se pretendeu que elas fossem uma explicação. Dessa forma, cada afirmação calvinista deve ser vista em relação a uma doutrina calvinista correspondente, da mesma maneira que um título de capítulo é visto em relação ao significado completo e a mensagem do próprio capítulo. Por essa razão, uma simples declaração destas afirmações calvinistas, sem uma explicação calvinista precisa, pode ser muito enganadora.

Dirigindo-se aos Calvinistas

Visto que são os Cinco Pontos do Calvinismo que iremos discutir, é razoável que nos voltemos aos calvinistas para uma interpretação e uma explicação destes cinco pontos.

Por essa razão, na discussão que seguirá eu contarei (para uma interpretação das cinco afirmações) em grande quantidade com bem conhecidos teólogos e estudiosos calvinistas, assim como documentos calvinistas históricos e, é claro, João Calvino. Na discussão de tais conceitos como a Depravação Total, conforme usados nos Cinco Pontos, devemos nos lembrar de que eles estão sendo usados em um contexto particular histórico e calvinista. Deixar de manter isto em mente somente levará ao desentendimento e à confusão. De fato, esta é a razão de crer que muitos não-calvinistas podem honestamente (ainda que não precisamente) chamar a si mesmos de calvinistas de um, dois, três ou quatro pontos.

Suave Vs. Rígido

Como logo veremos, há o que eu chamo de formas mais suaves e mais rígidas de Calvinismo. Entretanto, muito do que passa por “Calvinismo moderado” não é Calvinismo coisa nenhuma. Isto é, muitos não-calvinistas não veem nenhum problema com o que eles creem ser um ou mais dos Cinco Pontos (isto é, uma afirmação tal como a Perseverança dos Santos), mas eles estão interpretando estas afirmações não-calvinisticamente (ou inconsistentemente com o “intento autoral”) e a verdadeira doutrina do Calvinismo às quais estas afirmações correspondem.

Coração e Alma

Deve também ser observado que, ainda que o Calvinismo seja mais do que os Cinco Pontos, não há nenhum Calvinismo sem os Cinco Pontos. Um tanto claramente eles representam o coração e a alma do Calvinismo. Dessa forma, verdadeiramente entender os cinco pontos é entender o Calvinismo. Compreender mal os cinco pontos é compreender mal o Calvinismo. De acordo com o notório estudioso calvinista Loraine Boettner:

O sistema calvinista enfatiza especialmente cinco doutrinas distintas. Estas são tecnicamente conhecidas como ‘Os Cinco Pontos do Calvinismo’ e são os principais pilares sobre os quais a superestrutura se apoia. [3]

Por esta razão, deve ser óbvio que a superestrutura do Calvinismo, de modo geral, não é mais firme do que os cinco pilares (isto é, os Cinco Pontos) sobre os quais ela se apoia.

Tudo ou Nada

Boettner continua e explica que:

Estas não são doutrinas isoladas e independentes, mas estão tão inter-relacionadas que elas formam um sistema simples, harmonioso e auto consistente, e a forma com que elas se encaixam como partes componentes de um todo bem ordenado têm conquistado a admiração de homens sérios de todos os credos. Prove que qualquer uma delas é falsa e todo o sistema deve ser abandonado. Todas elas se encaixam perfeitamente umas nas outras. [4]

Por essa razão, deve também ser enfatizado que qualquer tentativa de selecionar um dos Cinco Pontos e tentar interpretar esse ponto (ou adotá-lo) como se ele permanecesse sozinho, é também interpretá-lo não-calvinisticamente. Como diz o teólogo calvinista Gise J. Van Baren:

Os cinco pontos do Calvinismo estão intimamente relacionados. Um ponto pressupõe os outros. [5]

Isto não significa que você não possa honesta e precisamente (em um sentido não-calvinista) dizer que você crê na “Depravação Total” ou “Perseverança dos Santos” e não em (vamos dizer, como muitos fazem) “Expiação Limitada” ou “Graça Irresistível.” Antes, significa que quando você diz que crê em todos eles, você provavelmente não tem a mesma coisa em mente que tem o calvinista. Assim, você pode não falar sobre os Cinco Pontos do Calvinismo per se. O bastante respeitado defensor dos cinco pontos, J. I. Packer, alerta que:

…o próprio fato que a soteriologia calvinista é exposta sob a forma de cinco pontos distintos (um número devido, conforme já explicamos, meramente ao fato de haver cinco pontos arminianos para serem respondidos pelo Sínodo de Dort) tende por obscurecer o caráter orgânico do pensamento calvinista sobre a questão. Pois esses cinco pontos, apesar de declarados em separado, na verdade são indivisíveis uns dos outros. Eles dependem uns dos outros; ninguém pode rejeitar um deles sem rejeitar todos, pelo menos no sentido tencionado pelo Sínodo de Dort. Para o calvinismo, na realidade, há somente um único ponto a ser enfatizado no campo da soteriologia. [6]

Qual é o Ponto?

Packer reduz esse um ponto às palavras “Deus salva pecadores.” Se é a isso que realmente os Cinco Pontos reduzem, eu não teria nenhum problema com os Cinco Pontos. Entretanto, apesar do que diz Packer, como será demonstrado, esse “um ponto” do Calvinismo pode ser comparado a uma moeda de duas faces. Embora raramente, se é que alguma vez foi afirmado de forma tão direta assim, esse “um ponto” pode ser resumido como segue:

Uma pessoa será salva ou condenada por toda a eternidade porque ela foi salva ou condenada desde toda a eternidade.

Isto é, de acordo com o Calvinismo, Deus é tão responsável (e responsável da mesma maneira) por condenar os pecadores que condena quanto é por salvar os pecadores que salva. Isto se tornará particularmente claro em nossa discussão do segundo ponto do Calvinismo (isto é, a Eleição Incondicional).

Por que Eu não Sou Calvinista

Em muitas diferentes ocasiões, tenho ouvido calvinistas dizerem algo como o seguinte:

Se somente cada cristão verdadeiro com um conhecimento prático da Escritura entendesse o Calvinismo em geral e os cinco pontos em particular, ele seria um calvinista de cinco pontos.

Entretanto, como espero que se torne evidente, é precisamente porque eu entendo o Calvinismo em geral e os cinco pontos em particular que eu não sou calvinista – de qualquer tipo. Tenho gasto mais de 27 anos com estudo sério da Escritura. Não poderia sequer começar a calcular as centenas de horas que me dediquei ao estudo da Teologia Bíblica, Sistemática e Histórica. Com grande interesse, tenho também cuidadosamente lido os escritos de calvinistas assim como aqueles considerados mais moderados. Assim como os calvinistas podem e entendem os sistemas de teologia não-calvinistas sem adotá-los, da mesma forma os não-calvinistas, tais como eu mesmo, podem entender o Calvinismo e ainda rejeitá-lo como contrário às Escrituras.

Se você entender o Calvinismo e ainda rejeitá-lo (como eu faço), alguns calvinistas concluirão que você não deve realmente crer na Bíblia como a Palavra de Deus. Nada poderia estar mais longe da verdade para o meu caso como para o caso de centenas de milhares de outros. Todavia, uma rejeição do Calvinismo é interpretada por alguns calvinistas como uma rejeição da Palavra de Deus. Dessa forma, Boettner argumenta que:

A Bíblia desdobra um esquema de redenção que é calvinista do início ao fim, e estas doutrinas são ensinadas com tal inescapável clareza que a questão é estabelecida para todos aqueles que aceitam a Bíblia como a Palavra de Deus. [7]

Outros calvinistas (talvez a maioria) veem a rejeição do Calvinismo pelos cristãos evangélicos como resultado da aceitação do Arminianismo.

Razões Não-Arminianas

Entretanto, quero deixar publicamente claro que eu não estou em desacordo com o Calvinismo por razões “arminianas.” Digo isto porque um mito comum perpetuado por alguns calvinistas, assim como por alguns arminianos, é que se você é um cristão evangélico e não é calvinista, você deve ser arminiano, pelo menos por padrão. Embora concorde com calvinistas e arminianos que estes dois sistemas de teologia são mutuamente exclusivos e, portanto não podem ser ambos verdadeiros, eu enfaticamente discordo que estas são as únicas opções evangélicas e ortodoxas. Entretanto, não estou escrevendo para explicar porque eu não sou arminiano (ou um híbrido teológico chamado “calminiano”). Algum dia eu gostaria de escrever tal livro. Entretanto, esta não é a minha presente preocupação.

Calvinistas Moderados?

Devo também chamar a atenção para o fato que há muitas pessoas que se dizem calvinistas moderados que não se identificarão com os calvinistas que eu aqui cito como representantes do que creio ser o autêntico Calvinismo. Em alguns casos, será devido ao fato que muitas pessoas equivocadamente chamam a si mesmas de calvinistas porque elas aceitaram a ideia que se você não é arminiano, você deve ser calvinista. Outros simplesmente interpretam os Cinco Pontos de uma forma não-calvinista. Frequentemente, é uma combinação de ambos.

Propósito Principal

Meu principal propósito ao escrever este livro é encorajar o leitor que pode estar inclinado a seriamente considerar adotar o Calvinismo a primeiro submeter os Cinco Pontos ao que creio ser (para o Calvinismo) a luz “severa” da Escritura. Como vejo um estudo cuidadoso da Escritura não favorece nem um pouco os Cinco Pontos. Se você já é calvinista, ou pensa que poderia ser eu somente peço que esteja certo de que você está julgando os Cinco Pontos à luz da Escritura e não simplesmente interpretando a Escritura em conformidade com os Cinco Pontos.

Um Pouco de História

Para os interessados em um pouco de história dos Cinco Pontos, deve ser entendido que eles não são apenas um reflexo das opiniões do reformador João Calvino, mas também de Santo Agostinho. Assim como o Sínodo de Dort (o sínodo que primeiro apresentou formalmente estes pontos como os Cinco Pontos do Calvinismo), foi um Sínodo calvinista, da mesma forma João Calvino era um agostiniano. Isto é especialmente verdadeiro em relação à visão agostiniana da predestinação e sua ligação com a salvação dos eleitos e a condenação dos não-eleitos. Co-autor de um dos vários livros chamados Os Cinco Pontos do Calvinismo e escrito para explicar e defender o Calvinismo, o professor Herman Hanko diz que:

De fato, nossos pais em Dordrecht sabiam bem que estas verdades apresentadas nos cânones não poderiam apenas ser traçadas à Reforma de Calvino; elas poderiam ser traçadas à teologia de Santo Agostinho, que viveu quase um milênio antes que Calvino fez sua obra em Genebra. Pois foi Agostinho quem originalmente definiu estas verdades. O próprio Calvino, muitas vezes, presta homenagem à obra de Agostinho e aponta que o que ele está dizendo tinha sido dito antes dele pelo bispo de Hipona. O Sínodo de Dordrecht estava consciente disto. [8]

Boettner concorda. Ele diz:

Foi Calvino quem desenvolveu este sistema de pensamento teológico com tal ênfase e clareza lógica que ele desde então tem carregado seu nome. Ele obviamente não originou o sistema, mas somente demonstrou o que lhe parecia resplandecer tão claramente das páginas da Santa Escritura. Agostinho gerou os princípios básicos do sistema mil anos antes de Calvino ter nascido, e todo o grupo de líderes do movimento da Reforma ensinou o mesmo. Mas foi conferido a Calvino, com seu profundo conhecimento da Escritura, seu aguçado intelecto e gênio sistematizador, demonstrar e defender estas verdades mais clara e habilmente do que tinha sido feito anteriormente. [9]

O teólogo calvinista R. Laird Harris afirma que:

Embora Calvino desse à doutrina reformada sua mais completa formulação, a teologia tinha há muito sido sustentada. Calvino teria sido o primeiro a negar sua inovação… De fato, o Calvinismo é geralmente chamado Agostinianismo. [10]

Ele é Bíblico?

É óbvio que isto, em e de si mesmo, não diz nada de bom nem de mal sobre os Cinco Pontos. Como os escritores calvinistas Steele e Thomas afirmam:

A questão de suprema importância não é como o sistema sob consideração veio a ser formulado em cinco pontos, ou porque ele foi chamado Calvinismo, mas, antes, ele é apoiado pela Escritura? A corte final de apelação para determinar a validade de qualquer sistema teológico é a inspirada e autorizada Palavra de Deus. Se o Calvinismo pode ser verificado por declaração clara e explícita da Escritura, então ele deve ser reconhecido pelos cristãos; se não, ele deve ser rejeitado. [11]

Boettner concorda:

“As Escrituras são a autoridade final pela qual os sistemas são julgados” e que “em todas as questões de controvérsia entre os cristãos, as Escrituras são aceitas como o supremo tribunal de apelação.”.

O respeitado teólogo calvinista, Charles Hodge, disse que:

É dever de todo teólogo subordinar suas teorias à Bíblia, e ensinar não o que lhe parece ser verdadeiro ou razoável, mas simplesmente o que a Bíblia ensina. [13]       

 Com isto entusiasticamente concordamos. Portanto, na metade final deste livro iremos cuidadosamente considerar o que a Escritura tem a dizer sobre as questões que os Cinco Pontos abordam.

O que os Cinco Pontos Não Estão Dizendo

Uma palavra final antes de partirmos para uma explicação do que os calvinistas têm em mente quando falam dos Cinco Pontos do Calvinismo. Como observado anteriormente, muitos evangélicos equivocadamente pensam que aceitam um ou mais de três dos Cinco Pontos e assim verdadeiramente creem que são calvinistas moderados (ou de um, dois ou três pontos). Um exemplo do que quero dizer é encontrado em um artigo intitulado “Os batistas podem se dividir a respeito do Calvinismo.” O autor deste artigo corretamente observa que:

As cinco doutrinas fundamentais do Calvinismo preciso são: A Depravação Total do homem, a eleição incondicional, a expiação limitada, a graça irresistível e a Perseverança dos Santos. [14]

Entretanto, ele imediatamente continua para dizer que:

Muitos batistas do sul não disputariam três destes pontos: a Depravação Total (todos pecaram), a eleição incondicional (os salvos são escolhidos por Deus sem consideração pelo seu próprio mérito) e a Perseverança dos Santos (uma vez salvo sempre salvo). [15]

Visto que os cristãos pensam que a doutrina calvinista da Depravação Total é simplesmente que todos pecaram, ou que a peculiaridade calvinista da eleição incondicional é que a salvação é imerecida ou mesmo que a visão calvinista da perseverança pode ser equiparada à doutrina do “uma vez salvo sempre salvo,” eles continuarão a incorretamente julgarem-se calvinistas.

Enquanto os calvinistas, juntamente com os não-calvinistas, creem que todos pecaram, que a salvação é sem mérito e que uma vez salvo sempre salvo, estas não são exclusivas ao Calvinismo ou até mesmo são peculiaridades suas ou de seus Cinco Pontos.

Explicação antes de uma Avaliação

Dessa forma, deve ser óbvio que sem uma clara e precisa explicação dos Cinco Pontos, uma avaliação justa e bíblica não é possível. Portanto, nesta próxima seção do livro (a primeira de duas principais seções), tentei permitir (tanto quanto possível) que os calvinistas de cinco pontos explicassem o que eles têm em mente quando falam sobre doutrinas como a Depravação Total e a Eleição Incondicional.


[1] R. C. Sproul, Eleitos de Deus, pp. 6, 7.

[2] Ibid., p. 75.

[3] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1932), 59.

[4] Ibid.

[5] Gise J. van Baren, The Five Points of Calvinism (Grand Rapids, MI: Reformed Free Publishing Assoc., 1976), 91.

[6] J. I. Packer, citado em The Five Points of Calvinism, David N. Steele e Curtis C. Thomas, (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1963), 22-23.

[7] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 52.

[8] H. Hanko, H. C. Hoeksema e J. van Baren, The Five Points of Calvinism (Grand Rapids, MI: Reformed Free Publishing Association, 1976), 10.

[9] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 3-4.

[10] R. Laird Harris, “Calvinism,” The Wycliffe Bible Encyclopedia, vol. 1 (Chicago, IL: Moody Press, 1975), 293.

[11] David N. Steele e Curtis C. Thomas, The Five Points of Calvinism, 24.

[12] Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 51.

[13] Charles Hodge, citado em Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, 50.

[14] Mark Wingfield, “Resurgent Calvinism Renews Debate Over Chance for Heaven,” Baptists Today, Feb. 16, 1995 (Vol. 13, No 4).

[15] Ibid.

Um Povo Escolhido.

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Bruce L. Shelley 

Aprendemos finalmente que a igreja é uma comunidade de pessoas – o povo de Deus – escolhidas por Deus para refletir a sua glória e espalhar o evangelho a todos os povos.

 Considero ser esse o ponto central da doutrina bíblica da eleição. A palavra eleição deixa muitas pessoas inquietas. Ela conjura imagens de calvinistas sombrios e puritanos com negros capuzes. Jonathan Edwards que pregou o sermão “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado,” não acreditava na eleição? Quem quer retroceder a esse ponto?

 Tais temores têm certo fundamento. A doutrina da eleição nas mãos de certos cristãos tem sido deturpada, tornando-se irreconhecível biblicamente. A tradição calvinista, em particular, a partir de um desejo justificado de eliminar todos os pensamentos no sentido do homem ganhar a salvação por seus próprios méritos, salientou a liberdade soberana de Deus em eleger e regenerar quem Ele quiser. Ela tem frequentemente defendido a eleição, no entanto, como um decreto arbitrário de Deus estabelecido na eternidade. Nesta forma de pensamento, a verdadeira igreja torna-se facilmente uma companhia misteriosa dos eleitos invisíveis, só conhecidos de Deus.

 O resultado desta conclusão é muitas vezes a remoção da igreja na terra do lugar central que ocupa nos registros do Novo Testamento e em especial o deslocamento da tarefa missionária do centro de interesse e obediência cristãos.

 Sob a influência das aventuras do Capitão Cook nas Ilhas dos Mares do Sul, e as instruções de seu amigo, Andrew Fuller, William Carey começou a pregar sobre as obrigações universais do evangelho. Numa reunião de ministros, ele propôs que os pregadores discutissem a necessidade de levar as Boas Novas para aqueles que jamais as tinham ouvido. O idoso John Ryland agastou-se com ele por interferir nos assuntos de Deus. “Sente-se, jovem,” falou ele. “Quando Deus quiser converter os pagãos, Ele o fará sem a sua ou a minha ajuda.”

 Essa é uma doutrina de eleição sem apoio neotestamentário, construída sobre conclusões filosóficas em lugar de revelação bíblica.

 A eleição no Novo Testamento acha-se arraigada em fatos históricos, especialmente em Jesus Cristo que foi crucificado sob Pôncio Pilatos. Ele é o Eleito de Deus, o Filho amado do Pai (Mt 3.17). Nossa eleição se faz apenas por causa de nossa união com Ele. Não somos escolhidos isoladamente, como indivíduos, mas como membros do seu corpo, a igreja.

 O instrumento da escolha de Deus na Bíblia é a pregação do evangelho da morte e ressurreição de Jesus. Foi assim que Paulo entendeu. Ele recapitulou seu ministério para os Tessalonicenses e fez com que se lembrassem dos resultados do mesmo: “Reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição, porque o nosso evangelho não chegou até vós tão somente em palavra, mas, sobretudo em poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1Ts 1.4-5).

 Os teólogos cristãos têm-se interessado geralmente pelas razões ou falta de razões na eleição. A Bíblia, porém, não nos oferece razões. Ela enfatiza o propósito da eleição, permitindo que o mistério da escolha de Deus continue inexplicado, e se concentra em vez disso na qualidade de vida que a igreja deve manifestar.

 Deus disse a Israel no Sinai: “Vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Êx 19.6). E Paulo escreveu aos Efésios que Deus nos escolheu em Cristo “antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (Ef 1.4).

 A Escritura não sugere em ponto algum que eleito signifique “favorito.” Se for o caso, eleito representa “instrumento,” porque Deus escolheu Israel para ser um “reino de sacerdotes,” isto é, um povo que serviria de mediador das misericórdias divinas àqueles que não têm esperança de misericórdia.

 Essa distinção é absolutamente imperativa. Lesslie Newbigin a reforça quando escreve: “Toda vez em que o caráter missionário da doutrina de eleição é esquecido; sempre que esquecemos termos sido escolhidos a fim de sermos enviados;… sempre que os homens pensam que o propósito da eleição é sua própria salvação em lugar da salvação do mundo; então o povo de Deus terá traído a sua confiança” (The Household of God, New York: Friendship Press, 1954, p. 111).  A doutrina da eleição longe de ser antiquada e irrelevante, é uma explicação fundamental da razão da existência da igreja.

 Se a igreja é a companhia dos eleitos – e ela é realmente – não tem motivo para vangloriar-se, pois a verdade e a graça de Deus são nossas para passar adiante e não para guardar. O convite para receber o evangelho é também uma ordem para passá-lo adiante. Esse o motivo pelo qual a única igreja de que a Bíblia fala é uma igreja missionária.

 Isso nos leva de volta ao ponto inicial porque na passagem que inaugurou este capítulo – 1Pe 2.9-10 – o apóstolo tocou nesta nota missionária. Ele lembrou os leitores de que eram “povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). Essa é uma nota digna de ser soada repetidas vezes.

 Fonte: Arminianismo.com

Fonte: A Igreja: O Povo de Deus, pp. 27-29.